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domingo, 31 de dezembro de 2017

“Dei a minha primeira entrevista em Paris e disse à jornalista: 'Tu es très jolie'. Casei-me com ela”

"- Nasceu em Cedofeita, no Porto, os seus pais o que que faziam?
- O meu pai era metalúrgico e a minha mãe era dona de casa e lavava roupa para os hospitais. Não havia máquinas de lavar naquela altura, tinha que ser à mão, tínhamos dois tanques enormes em casa e ela é que fazia aquilo tudo.

- Irmãos?
- Um, mais velho, tem agora 72 anos.

- Como foi a infância?
- É muito simples, a minha vida começou descalço. Comecei a jogar futebol descalço, porque os meus pais não tinham dinheiro, ganhavam o salário mínimo, e eles apostavam era nos estudos. Gostavam que eu estudasse, mas nunca faltou nada para comer. Tínhamos um bocado de terreno, por isso havia batatas, cenouras, nunca faltou para comer. Agora para jogar com botas ou com sapatilhas isso era escusado, por isso aprendi a jogar descalço. Não era só eu, eram também alguns amigos da minha turma que moravam em Ramalde, mesmo em frente ao campo do Ramaldense.

- Era aí que jogava?
- Não. É curioso que naquela altura o Ramaldense tinha um campo pelado mas não deixava ninguém jogar. O campo estava fechado. Se saltávamos o muro para ir jogar, vinha o guarda e punha-nos de lá para fora.

- Saltou muitas vezes esse muro?
- Muitas vezes. Depois iniciei-me equipado nuns torneios que se faziam no Porto, no Salgueiros, no Boavista e no Coimbrões. A minha primeira equipa, de futebol de 5 (jogava-se num quarto de campo), era o Arsenal de João de Deus. Fomos jogar a um torneio no Salgueiros.

- Tinha quantos anos?
- Tinha 11 anos.

- O seu pai gostava de futebol?
- O meu pai era do Boavista. Ele só foi ver-me jogar quando eu já estava no Benfica. Ele e a minha mãe. O meu pai gostava de futebol mas não era um apaixonado. Ele jogava andebol de 11, no Ramaldense. Havia andebol de 11 naquela altura. A minha mãe era portista e o meu irmão não era muito aficionado.

- O seu irmão também jogava futebol?
- Ele jogava mal, eu nunca o escolhia para a minha equipa (risos). Nesse período em que tinha 11 anos, joguei com o Arsenal do Bessa e joguei pelo Sport Lordelo e Benfica num torneio em Coimbrões.

- O seu coração já sofria pelo Benfica?
- Não, mas também não era FC Porto. Como o meu pai era do Boavista eu também era mais boavisteiro naquela altura. Ia ver os jogos ao Boavista, tenho até uma história curiosa.

- Conte.
- Eu era muito miúdo, tinha uns 7/8 anos e fui ver um Boavista-Salgueiros que era um derbi do Porto. O campo do Bessa estava cheio, fui com o meu pai e como eu era muito miúdo, ele passou-me por cima das pessoas e fiquei dentro do campo, sentado. O polícia deixou-me ficar ali quase encostado ao poste. E há um livre marcado pelo Franco, que era o defesa direito do Boavista, quase do meio campo. O guarda redes do Salgueiros era o Adelino, o Franco chuta para a baliza, do meio campo, o sol está de frente e o Adelino deu uma frangalhada, mas uma frangalhada do arco da velha! Eu estava ao pé do poste e o Adelino veio para junto do poste e começou a chorar e eu fui ter com ele para o reconfortar (risos). E fiquei tão triste que depois também fiquei a gostar do Salgueiros (risos). Foi uma coisa que marcou-me para a vida. Desde miúdo que para mim o futebol era tudo.

- Essa paixão vem de onde?
- Não sei. Eu era um desportista por natureza. Na altura não havia internet e estas coisas, e nós fazíamos corridas de bicicleta sem bicicleta, só com o guiador. Fazíamos os guiadores em arame, punhamos as fitas e depois íamos a correr (risos) e fazíamos grandes corridas. Tínhamos de nos entreter. Jogava hóquei em campo porque o Ramaldense era campeão de hóquei em campo. Jogava futebol e depois fui jogar para os juvenis do Ramaldense. E foi aí que comecei a despontar e a chamar a atenção para, o que hoje se diz “scouting” e que naquela época eram os olheiros.

- Com que idade é que vai para o Ramaldense?
- Com 14, fiquei lá duas épocas como juvenil. Depois passo ali uma fase indecisa porque andava a estudar também. Estudava de noite, porque aos 13 anos fui trabalhar.

- Para onde?
- Fui para uma fábrica que era a Sifal.

- Porque foi trabalhar?
- Eu andava a tirar o curso de laboratórios químicos. Fiz o primeiro ciclo no Gomes Teixeira e depois fui para o Infante Dom Henrique. Aí estive de dia no primeiro ano, depois passei a estudar à noite porque não tinha dinheiro para ir ao cinema e pedi aos meus pais para ir trabalhar. Entrava às cinco da manhã.

- O que fazia?
- Era uma fábrica de tinturaria, eu entrava às cinco para fazer os ensaios das cores com que iamos tingir os fios. Fazia pequenos ensaios para quando a fábrica começava a trabalhar, às sete da manhã, fazer as toneladas de fio que se faziam por dia. Depois saía às quatro e meia e ia a pé para a escola Infante Dom Henrique. Todos os dias. Saía duas vezes por semana às 23h30 e as outras vezes às 22h30.

- E conseguia treinar e jogar no meio disso tudo?
- Treinava muito pouco, mas jogava porque tinha habilidade. Foi um período difícil porque a minha mãe gostava que eu tirasse o curso.

- Gostava de estudar e da escola?
- Gostava. Até porque jogava na escola com uma carica, com um pipo, um batoque dos pipos, a nossa bola era essa. Gostava porque adorava futebol e se não tirasse boas notas a minha mãe não me deixava jogar.

- Só trabalhou nessa fábrica?
- Não. Estive nessa fábrica durante um período e depois arranjei outra mesmo ao pé de casa, que era a fábrica de curtumes do Bessa onde eu entrava às oito e meia e saía às cinco e trinta. Aí já tinha mais tempo para a escola.

- Isso com que idade?
- Com 15/16 anos. Aos 16 anos vim para o Benfica, em 66.
- Já lá vamos. No Ramaldense quando começa jogar é logo defesa central ou vai variando?
- Eu entrei como avançado.

- E marcava muitos golos?
- Marcava alguns golos porque o Ramaldense era uma pequena equipa, não marcava muitos (risos). Mas fizemos um jogo contra o Porto B, em Ramal, onde eu marquei dois golos, depois vim para a defesa e ganhamos 2-1 . O António Pedro (o meu primeiro treinador foi o José Ciplas, no Arsenal João de Deus), que era o meu treinador do Ramaldense, punha-me à defesa e depois ao ataque, defendia e atacava, vinha à frente e ia atrás.

- Era pau para toda a obra.
- Era (risos) e depois, mais tarde, no Benfica, o Hagan também me pôs nessa situação.

- Antes disso, como é que vai parar ao Benfica?
- Através do Custódio Antunes, uma pessoa que tinha uma fábrica de conserva em Matosinhos, e que era olheiro do Benfica. Naquela altura fui treinar ao Foz e ao Leixões. O Óscar Marques que era o treinador queria que eu fosse para o Leixões e o Artur Baieta também queria que eu fosse para o FC Porto. A história é gira, porque o meu pai perguntou “então e algum dinheirito?”. A minha que era do FC Porto e gostava que eu lá ficasse. O Baieta disse:”Tiramos lá uma fotografia equipado à FC Porto para dar à sua mãe”. E o meu pai: “Então e a gente vai comer da fotografia?” (risos). Entretanto aparece o Custódio Antunes com o Benfica.

- O Benfica ofereceu alguma coisa?
- Sim. Aí foram 40 contos para o Ramaldense e 20 contos para mim, para o meu pai.

- O que é que fez com esse dinheiro?
- Dei ao meu pai, comprei uma casa. Comprei um apartamento para eles. Nós viviamos numa zona em frente ao campo do Ramaldense, que agora são só prédios. Mas curiosamente a casa que era nossa ainda existe. Fui ao Porto com a minha mulher há um mês e fomos lá ver. Estão quatro casas, que são pobres, no meio dos prédios. Numa delas foi onde eu vivi.
- Estava a dizer que comprou o apartamento para o seus pais...
- Comprei um apartamento na Rua da Boavista. Tinha 16 anos. Foi o primeiro dinheiro que ganhei. Estamos a falar de 1966.

- Como é que foi vir para Lisboa, sair debaixo das saias da mãe?
- Foi terrível. Eu era para vir em Junho mas a minha mãe não me deixava vir. Já tinha tudo assinado e a minha mãe não deixava. Precisava da autorização dos meus pais. Cada dia que passava era um sofrimento enorme. Só comecei a jogar no Benfica no 4º jogo da época do campeonato.

- Como é que conseguiu convencer a sua mãe?
- Um dia cheguei e disse ao meus pais: “Não quero mal entendidos. Ou eu vou amanhã ou nunca mais vou e vocês talvez se venham a arrepender e depois acabou, não quero mais futebol, não se fala mais nisso, acabou”. Fui para o quarto, o quarto dos meus pais era no outro lado, em frente, e de repente começo a ouvir a minha mãe e o meu pai a falar “Vai”, “Não vai”, “Temos que o deixar ir”, “Mas é tão longe” dizia a minha mãe...E de repente, a minha mãe entra no meu quarto, eu estou às escuras e faço que estou a dormir, e começo a ver a minha mãe a tirar a minha roupa para fazer a mala (risos).

- Acordou logo?!
- Nada, não disse nada, continuei a fingir. De manhã a minha mãe pôs-me no comboio, em Campanhã, a chorar. E cada vez que eu vinha ao Porto, ela chorava também, mesmo depois de já estar na primeira equipa do Benfica, continuava a chorar.

- Quando chegou a Lisboa foi para onde?
- Fui para a pensão “Pérola da Madeira”, no prédio onde vivia o ex-ministro Sócrates, entre a Braancamp e a Rua Castilho. A “Pérola da Madeira” tinha uma parte no 1º andar e outra no 4º andar. E estávamos lá sete jogadores do Benfica.

- Ainda se lembra quem eram?
- Lembro-me perfeitamente. Era o Elias, o Xarouco, o Teixeira, o Toni (não este Toni que todos conhecem, outro) e o Janota, todos juniores.
- Chorou com saudades dos pais?
- Nada, nada, adaptei-me e pedi a mudança da minha escola, da Infante Dom Henrique, para a escola Fonseca Benevides, que era em Santos, continuei a estudar, mas não consegui acabar o curso, era o 6º ano, o último do curso, mas depois ficou impossível porque tinha que treinar muito.

- Qual foi o impacto quando entrou na Luz?
- O primeiro impacto é antes disso, quando venho no comboio.

- Como assim?
- Senti que o meu sonho estava a começar. Estava a começar aquilo que eu mais ansiava, aquilo que eu mais gostava. Quando era miúdo eu percorria o meu quarto todo de cabeça a jogar contra a parede. Eu pegava na bola e percorria tudo, tum, tum, tum, aquilo tudo à volta. Depois punha-me de joelhos na cama e também jogava de cabeça. Eu só podia ter sido mesmo jogador, não podia ter sido outra coisa, vivia para aquilo. Ia ver os jogos do Ramaldense, conhecia os jogadores todos. Era uma paixão, ia ver como é que eles jogavam como não jogavam.

- Quem era a sua referência nessa altura?
- Era o Germano, um jogador que jogou no Boavista, era de cor e era de uma elegância a jogar... Uma coisa extraordinária. Deliciava-me com ele, tinha uma elegância, uma técnica. Ambicionava também jogar assim.

- Faz dois anos de júnior no Benfica.
- Sim, com o Ângelo que era o treinador, estreei-me contra o Oriental e ganhamos 4-1.

- Aí já como defesa central?
- Sim, como defesa central. Nesse ano ganhamos o Campeonato Regional, mas não houve final do Campeonato Nacional. Já não me lembro porque é que não houve essa final. E depois no ano seguinte ganhamos a final do campeonato nacional contra a Académica em Leiria. Ganhamos 1-0.

- Como é que se dá a passagem para a equipa principal?
- Havia outro Humberto (Fernandes) que jogava no Benfica e que também era defesa central. E o azar de um foi, foi a sorte do outro. Ele estava a negociar o contrato e nós fazemos uma digressão para a América do Sul. Íamos para o Brasil, para a Argentina, para a Venezuela e o Humberto Fernandes não foi. O Otto Glória escolheu-me a mim para ir e no primeiro jogo, em Belém do Pará, mete-me a jogar e nunca mais saí. Entrei nesse jogo, tive a minha oportunidade, sorte também porque se o Humberto Fernandes vai, já eu não ia. Talvez mais tarde poderia entrar na equipa, estou convencido que entrava, mas naquela altura era o único miúdo. Foi um momento de sorte, que também é preciso ter, é preciso procurá-lo. Na Argentina, o torneio era com o Boca Júnior, o Santos e o Nacional do Montevideu. O meu terceiro jogo foi contra o Péle. Tenho a camisola dele em casa, trocamos a camisola. A camisola número 10, do Santos, que está guardada com muito respeito.

- Faz esse jogo e a seguir o Otto Glória...
- O Otto Glória vai-se embora quando vamos jogar para o Jamor, porque tínhamos o campo do Estádio da Luz interdito.

- Porquê?
- Num jogo com o Belenenses tinham expulso o Jaime Graça, depois quando foi a expulsão do Malta da Silva as pessoas entraram dentro do campo, na altura não havia vedação, e o árbitro teve de fugir. Foi uma cena terrível. Foi o Toni e o Estevão que pegaram nos árbitros para os ajudar a ir até ao balneário, porque aquilo estava quente.

- É na sequência desse episódio que o campo fica interdito.
- Por seis jogos. Começamos a jogar no Jamor mas a equipa não estava bem e passou a ser o Cabrita e o José Augusto a tomar conta do Benfica até vir o Hagan.

- E é o Hagan que o põe a avançado outra vez.
- O Hagan punha-me a avançado quando estávamos a perder porque eu marcava golos, marquei muitos golos. Uma vez estávamos a perder em Hong Kong, a equipa avançada era o José Augusto, o Eusébio e o Simões e estávamos a ganhar 2-0, ao intervalo. Ele resolve trocar a linha avançada e põe-me a mim, ao Diamantino e ao Nelinho. Marquei três golos. Eu jogava bem de cabeça. Cá está, o tal treino que fazia no quarto às voltas, deu frutos, eu marcava golos de cabeça.

- Quais eram as suas mais valias?
- Era muito perspicaz. Quando avançava, avançava muito nos espaços. Quase sempre a bola vinha e eu aparecia para finalizar.

- Portanto estava confortável nessa posição.
- Sim, estava muito confortável. Mas tinha cada vez mais de valorizar essa posição, porque no Benfica há muitos jogadores, há muita gente atrás a bater nos calcanhares e se nós não trabalharmos…Por isso é que muitas vezes ficava depois dos treinos com o Carlos Manuel, o Chalana, o Toni, a fazer cruzamentos. O Bento na baliza e eu tumba, tumba. Tínhamos livres ensaiados, treinávamos especificamente os livres. Muitas vezes eu sabia que o Carlos Manuel punha a bola, dava um passo atrás e depois marcava logo e eu apanhava um metro à frente do defesa e a maior parte das vezes eras fatal. Era muito treino, com chuva ou com sol. Por isso é que a minha cervical de vez em quando dá sinal (risos).

- Tenho a referência de um jogo do Benfica em 72/ 73, em que o Humberto Coelho faz o golo da vitória numa reviravolta do jogo, que começou com o Victor Baptista e o Jaime Graça. O que é que aconteceu?
- Estávamos a perder 2-0 com o FC Porto e faltavam 15 minutos. Jaime Graça marca, o Victor Baptista também e depois já mesmo nos descontos, no cruzamento de um canto do nosso lado direito, vou lá acima e dou de cabeça para o outro lado. 3-2. Tenho 5 fotografias lá em casa tiradas pelo Nuno Ferrari em que se vê a sequência. É a bola a vir, eu no ar, eu a elevar-me ainda mais, eu a marcar e depois toda a malta a abraçar-me. Mas tenho uma nota curiosa com os meus pais, que iam ver todos os jogos do norte, os do sul só quando eram jogos grandes. No final do jogo, tenho a minha mãe muito chateada comigo. Perguntei-lhe porque é que ela estava chateada comigo, e ela: “Tu não me falaste”. “Não lhe falei?”. “Sim, eu estava ali junto do relvado e tu vieste roubar uma bola e eu chamei-te “ó Berto, ó Berto, ó Berto. E tu não me ligaste nenhuma” (risos). Eu não via nada, nem dei por ela chamar por mim e ficou muito chateada por eu não ter ido falar com ela. Marquei o golo e ainda levei nas orelhas.

- Falou do Victor Baptista, ele era aquela “personagem” de que tanto se fala?
- O Victor Baptista podia ter sido um dos grandes jogadores de futebol português. Tinha qualidades para isso, tinha potencial para isso, mas ele tinha um ego maior do que tudo. Era muito complicado. Esse ego que muitas pessoas têm, ele podia ter utilizado bem mas utilizou mal e por isso perdeu. Para se ser um bom jogador, para se ter uma boa carreira, para ser de facto um elemento que marque, é preciso muito trabalho e fora desse trabalho é preciso também ter um comportamento que nos permita quando vamos para o trabalho estar sempre a 100%. Eu via jogadores que tinham potencial, tinham capacidades muito maiores do que eu, só que não trabalharam tanto como eu, não se dedicaram tanto como eu e como outros colegas meus. Não éramos nenhuns meninos do coro, mas na altura certa, era a sério. As pessoas que vêm para o futebol são de um meio pobre e geralmente essas pessoas querem vingar, querem chegar lá acima. O Victor Baptista chegou lá acima e depois parou. E quando se para depois é muito difícil recuperar.

- Quando é que casa?
- Conheci a minha mulher, Laurence, em 1975, em Paris, quando fui para o Paris Saint Germain (PSG). Foi a primeira pessoa a fazer-me uma entrevista. E eu disse-lhe: “Tu est trés jolie” (risos). Foram as minhas primeiras palavras do meu francês arcaico da escola indústrial. “Tu est trés jolie” e ela ainda hoje cá está, já lá vão muitos anos (risos).

- Antes de ir para o PSG quais são as grandes conquistas no Benfica?
- Uma das grandes recordações que tenho é o meu primeiro campeonato nacional, em 1968. Logo no primeiro ano senior, fomos campeões em Tomar, ganhamos 4-1 no último jogo.

- Qual é a sensação?
- É uma sensação extraordinária. Para já porque a romaria foi de tal maneira grande... De facto o Benfica é uma equipa que leva muita gente, o Sporting e o FC Porto também levam. Mas em Tomar nunca tinha visto uma coisa assim. Era uma festa extraordinária. Os meus pais também estavam lá. Tudo isto marcou porque quando se vem para um grande como o Benfica, é para ganhar. Já vinha habituado dos juniores. Já aí o nosso espírito era esse, ganhar. E chegar à primeira equipa, em que todos eles tinham sido campeões europeus, tinham sido jogadores que vinham do campeonato do mundo de 66, eram os meus ídolos, e eu entrar, ser titular indiscutível naquela época, chegar ao fim e ganhar, era de facto um prémio.

- É uma sensação irrepetível?
- É, o primeiro é irrepetível. Depois ganhei oito campeonatos. Claro está que é sempre um objectivo, mas a sensação já é diferente. Aquela é uma sensação de euforia que até mexe cá dentro, depois os outros que começam a vir, começa a ser o objectivo.

- Faz a tropa?
- Três anos. Entrei em 13 de Julho de 1971 e saí em 12 de Julho de 1974.

- Continuou a jogar?
- Joguei e estive sempre a titular. Estive em Leiria, estive no Porto, em Arca de Água, em transmissões, e treinava no Boavista. Fiz a recruta em Leiria, treinava lá e ao fim de semana vinha para jogar. Depois fui para o Porto, e no Porto tinha que fazer um teste todas as sextas- feira e tinha que ter mais de que 90% para poder sair no fim de semana.

- Que tipo de teste?
- De morse, código de morse. Tinha que ter 90% para vir, treinava no Boavista com o António Teixeira e depois com o Mirinho. Treinava à noite. Depois o Hagan dava-me uma tareia no sábado para ver se eu estava em condições. Mas uma tareia! Era um treino individual para ver se eu estava apto. Ele dizia: “O senhor está bom, o senhor está bom” (risos). Joguei sempre, e estive três meses no Porto. Depois vim para Lisboa e fui para a Trafaria. Aí já tinha um comandante que era mais maleável e vinha treinar, fazia os estágios. Depois fui para o quartel general e ai também era fácil, mas isso já na parte final. Lembro-me que fizemos um torneio em Espanha, em Huelva, que ganhamos, e ainda fui fazer o dia de marcha da Marinha Grande a Leiria.“Eu dispenso-te mas tens que estar cá no dia da marcha.”, disse-me o comandante. O dia da marcha era a seguir à final do torneio. Ganhamos o torneio, meti-me num táxi e fomos direitos a Badajoz, onde estava um carro do Benfica para me levar a Leiria. Cheguei lá eram umas seis e picos da manhã, levaram-me de jipe para o campo e fiz o que tinha prometido, a caminhada até Leiria.

- Nunca chegou a ser chamado para ir para guerra colonial?
- Não, o meu pelotão nunca foi para a guerra.

- Como é que viveu a revolução de Abril?
- Eu devia estar de serviço no quartel-general, deveria ter ouvido a “Grândola Vila Morena”, mas tinha pago a um indivíduo para lá ir, porque isso se podia fazer. De manhã acordo às cinco e tal e ouço “Senhores militares apresentem-se no quartel” e eu vou. Na altura tinha um MGB e vou e de repente chego ao quartel-general e estão os militares todos no muro a gritar-me: “Eh pá não entres, se entras não sais!”. Ai é?! Voltei para casa (risos) e passada uma semana, estava a treinar e aparece um jipe da polícia militar para me ir buscar, porque eu era desertor (risos). Mas depois lá se resolveu a questão.
- Porque é que sai naquela altura para o PSG se era um jogador essencial para o Benfica?
- Saio porque o Benfica estava com dificuldades financeiras e era um bom contrato para o Benfica.

- E para si também.
- Para mim também. O Borges Coutinho que era o presidente veio falar comigo “Eh pá faz-nos jeito o dinheiro, gosto muito que estejas cá mas…”.

- Lembra-se qual foi o valor que pagaram por si?
- Não me lembro, aliás não sei, nunca soube.

- Foi contrariado ou queria ir?
- Eu queria ir, mas não era o clube para o qual devia ter ido. Tinha o Atlético de Madrid também interessado. O Fernando Martins tinha-me falado no Atlético de Madrid. O PSG era um clube que tinha cinco anos de existência. No Benfica estávamos habituados a um certo tratamento, e eu no PSG levava a roupa para casa para lavar, levava as botas para engraxar, eu é que tratava de tudo. Ainda não era um clube organizado, estava em vias de se organizar, e penso que também não era um clube de top na altura, estava no meio da tabela.

- Mas porque é que vai para o PSG e não vai para o Atlético de Madrid?
- Porque o PSG negociou logo com o Benfica e acabou por fechar com o Benfica.
- Voltando à sua mulher, é em Paris que a conhece.
- Sim, ela era freelancer da RTL, fez me a primeira entrevista quando cheguei.

- Foi amor à primeira vista?
- Foi. Depois de dizer “Tu est trés jolie” e de dar-lhe a entrevista, como é que foi? Combinámos jantar e depois teve seguimento. Namoramos mas a coisa ainda não estava bem assente, porque depois fui para Las Vegas jogar no Las Vegas Quick Silvers. O Eusébio estava lá e convidou-me. Fui eu, o Toni, depois foi o Abel, quase a trupe toda.

- Antes de irmos aos EUA, gostou da experiência em Paris?
- Gostei ao princípio. Fiquei a viver sozinho, primeiro num hotel extraordinário que ficava perto do estádio, do centro de treino e depois arranjei um apartamento.

- Adaptou-se bem à vida em Paris?
- Adaptei-me. Também tive sorte porque havia muitos portugueses que se tinham ido embora com a revolução e que eu conhecia, inclusive um compadre meu que é o padrinho da minha filha e eu sou o padrinho de casamento dele, que era o director comercial da TAP, hoje é o presidente da Atlantic Airways.

- E em relação ao clube e à forma de jogar?
- Era diferente porque o clube era muito mais pequeno, a equipa era mais fraca, logicamente. Mas mesmo assim no primeiro ano tivemos um bom ano e o treinador era o Just Fontaine, que foi um internacional francês, melhor marcador do Campeonato do Mundo, na Suécia. Depois veio um jugoslavo que tinha jogado contra mim, o Vasovic, quando jogamos com o Ajax e fomos eliminados. Quando ele começou entramos em atrito, porque ele queria que eu jogasse no meio campo e eu não queria. Depois fui operado ao joelho, menisco e ligamento, fiz duas operações.

- Em Paris ou cá?
- Fiz em Paris, em Lyon. Depois era para ir para o Internacional de Portalegre, ainda lá cheguei a ir, eles tinham tudo acertado com o PSG, para substituir o Figueiroa que era o defesa central chileno, só que não chegamos a acordo e vim embora. Houve logo um litígio com o clube e assinei outra vez pelo Benfica. Mas como havia um período de 7/8 meses de intervalo aproveitei o convite do Eusébio e fui jogar em Las Vegas nesse período.

- O futebol nos EUA não tem nada a ver com o futebol europeu.
- Não tinha, agora já tem. Mas sim naquela altura parecia a China hoje, convidavam jogadores para lá ir mas não havia base. Aquilo em Las Vegas, era sempre em festa, era uma coisa extraordinária (risos).

- Porquê?
- Porque éramos convidados para tudo o que era shows, o nosso patrão era dono do Caesars Palace. Tudo o que era combate de boxe, Cassius Clay, Frazier, Frank Sinatra, fui ver tudo. E depois íamos aos cocktails, aquilo era sempre em festa.

- A namorada aí... houve uma interrupção?
- Não estava, ficou em perigo, mas depois tudo se recompôs (risos).

- Gostou dessa experiência nos EUA.
- Gostei. No Las Vegas Quick Silvers joguei com o Eusébio que era um craque extraordinário lá. Esta história também é gira. Quando cheguei a Las Vegas, havia a final do torneio de ténis de Las Vegas entre o Jimmy Connors e o Ilie Nastase e nós jogávamos com o Cosmos, de Nova Iorque, onde jogava o Pelé e o Chinaglia e então fizemos uma conferência de imprensa conjunta, os seis. O Caesars Palace estava cheio de jornalistas. Nós jogávamos no domingo e no sábado andava um avião com o meu nome no ar, estava a haver a final de ténis e o avião com o meu nome a passar. E no domingo, quando entrei em campo, entrei num tanque de guerra, com as majoretes, tchu, tchu, tchu and now ladies and gentlemen, number 29, from Portugal… (risos).

- O Eusébio era uma pessoa divertida?
- O Eusébio era uma figura. Ele tinha jogado no México, a maior parte das pessoas adoravam-no. Os coupés dos casinos, os empregados dos restaurantes, eram quase todos mexicanos e o Eusébio era um deus para eles, um deus. Em Las Vegas quase ninguém ia ao futebol. Só iam os mexicanos e os jugoslavos. O Eusébio enchia os bolsos de bilhetes, chegava a qualquer lado e distribuía bilhetes pela malta toda, era muito giro.

- Regressa ao Benfica em 1977/78 e fica até 83, ano da final da Taça UEFA.
- Sim, com o Erickson contra o Anderlecht. Marcamos primeiro, o Shéu com um passe meu. Amparo a bola com o peito para ele e ele “tau” finalizou e depois o Lozano empata logo de seguida.

- Foi uma frustração.
- Foi uma frustração, talvez uma das maiores porque penso que tínhamos equipa para ganhar. Lembro-me do Estádio da Luz completamente cheio, a loucura que foi quando marcamos o golo. Tinhamos perdido lá 1-0. Penso que perdemos a final lá. Tivemos oportunidades para poder empatar o jogo e não o fizemos e cá tiveram mais talento que nós. Mas foi uma grande final.

- Como e quando reata com a sua mulher Laurence?
- Ela depois veio para cá, vem ter comigo. Quando eu voltei, um dia aparece-me aqui, sem eu saber. Ela também não desistiu (risos).
- Quando é que casam?
- Vivemos ainda muito tempo juntos. A minha filha mas velha nasce, ainda não éramos casados. Casamos em 1986. A minha filha mais velha nasce em 80 e a segunda em 86. Casamos no dia 30 de Outubro, já tinha nascido a segunda.

- Tem mais filhos?
- Não. Só as duas. Uma é advogada e está no Brasil. A outra está na Suíça e trabalha em relojoaria, mas vem agora para cá. Já está há muitos anos fora, formou-se nos EUA em Comunicação trabalhou em Miami seis anos, em Madrid e depois foi para a Suíça.

- Já é avô?
- Sou avô de um neto, o Frederico, da mais nova. Vai fazer dois anos no dia 18 de Janeiro. Juntamo-nos todos cá agora no natal.
- Quais são os jogos, os momentos que guarda com mais saudosismo ou mais carinho?
O terceiro golo que eu marco ao FC Porto é um momento extraordinário. São momentos em que pensamos que já não conseguimos e depois… O princípio com o Otto Glória foi de facto fundamental e a final do Campeonato da Europa, com o Anderlecht também foi um jogo fantástico. Depois há um jogo em que eu marco três golos contra uma equipa brasileira a “Portuguesa dos Desportos”, na Madeira. Ganhamos 5-3 e eu marco três, talvez dos melhores que marquei na minha vida. Também me lembro desse jogo. Era um jogo particular, mas foi um jogo que me marcou pelos golos. Depois há um jogo com o Ajax lá, que ganhamos 3-1. Tínhamos uma boa geração.

- Uma geração mítica...
- Mas não ganhamos nada. Ganhamos os campeonatos, ganhamos as taças de Portugal, mas internacionalmente faltou. É uma mágoa que tenho, faltou ganhar uma prova europeia, mas pronto quando eu vejo que até agora ainda não ganhamos...

- Quando é que sente que se tornou benfiquista?
- Nos juniores, quando vim para o Benfica. Ali é que se nasce, começa-se a sofrer, começa-se a trabalhar para defender um clube, isso logicamente vai morrer comigo.

- Termina a carreira de uma forma abrupta.
- Fui operado outra vez ao menisco, na mesma perna e não consegui recuperar. Fiquei sempre com uma dor. Aliás era no dia em que eu batia o recorde de internacionalizações do Eusébio, fazia a 65ª. Fui ser operado na Alemanha, porque me indicaram um especialista que me disseram ser o melhor, mas o que é certo é que nunca consegui recuperar, fiquei sempre com uma dor quando corria.

- Foi muito difícil colocar o ponto final?
- Difícil. É muito difícil. Porque ainda me sentia capaz de continuar. Quando não nos sentimos capazes as coisas são mais fáceis. Houve ali um período que foi difícil, mas depois passa. O futebol foi tudo para mim, foi onde me fiz homem, amigos, tudo girou à volta do futebol e talvez por isso ainda hoje esteja aqui num lugar de destaque no futebol, mas o que é certo é que vou sempre passando as barreiras, não fico para trás, parado, a penar. Gosto das minhas memórias, mas não me deixo influenciar por elas, parto para a frente, vivo o presente e o futuro. Mas gosto das minhas histórias e gosto de as contar às minhas filhas. Muitas vezes pego nas fotografias e começo a mostrar-lhes. É um prazer que tenho mas não é saudosismo, porque para mim o que interessa é o hoje e o amanhã.

- Quando terminou a carreira já pensava no que queria fazer no futuro?
- Não. Eu tinha tirado o curso de treinador e depois fui convidado pelo Salgueiros. Lá está, talvez por paixão, aquele golo do Avelino e por ser um clube que tinha uma certa afinidade com o Benfica, porque tinham ido vários jogadores do Benfica para o Salgueiros, um dos quais o meu ex-treinador dos juniores, o Ângelo, aceitei e fui treinador do Salgueiros.

- Segue-se o SC Braga.
- Sim. Talvez aí tenha dado um salto maior do que a perna. Devia ter ficado no Salgueiros mais um tempo, porque o Salgueiros tinha uma mística diferente, era um clube diferente. Houve algumas situações que não me agradaram no futebol e decidi acabar.

- Que tipo de situações?
- Não vou falar. Mas são situações que não têm nada a ver com o futebol e que me desagradaram. E depois decidi então criar a escola de futebol. Foi a primeira. Peguei num conjunto de ex-jogadores e criamos um grupo forte e ainda hoje de vez em quando nos juntamos para almoçar.

- A escola durou quanto tempo?
- 12 anos. Depois fui para fora também. Treinei a selecção.

- Vamos falar da selecção. Primeiro como jogador. Quantas internacionalizações?
- 64, sendo 30 vezes capitão de equipa.

- Enquanto jogador também foi chamado à selecção da Europa.
- À selecção da Europa e a uma selecção do Resto do Mundo. À da Europa fui jogar em Praga e depois joguei pela selecção do Mundo contra a América, nos EUA.

- Foi um processo natural ser capitão.
- Sim, é uma escolha natural dos jogadores. Há uma percentagem do mais velho, mas também há uma percentagem daquele que tem uma certa importância, que tem uma certa liderança.

- Sempre se sentiu líder?
- Criei-me. Um líder vai-se criando pouco a pouco no contacto com os outros. É isso que é fundamental, conhecer, conhecer melhor os outros que alguém. Conhecendo melhor os outros sabe para onde pode ir e para onde se pode levar. Depois com competência também naquilo que se faz.

- Na selecção não houve nada de grande realce.
- A nossa geração não...Eu penso que naquela altura havia alguns condicionalismos, porque nós éramos profissionais mas os outros eram muito mais profissionais. Era isso que fazia a diferença naquela altura, porque tínhamos talento, mas o outros eram muito mais profissionais, penso que foi isso que influenciou o facto de nunca termos alcançado nada. Os outros tinham mais equipa, mais conjunto, nós éramos mais individualidades e nunca conseguimos superar. Superávamos internamente, neste caso no clube, mas fora, quando nos juntávamos na selecção, não era a mesma coisa, como tinha sido por exemplo em 1966. Também ficaram poucos de 1966, daquela equipa houve muitos que desapareceram a seguir, saíram, e penso que a malta que entrou não tinha o mesmo estofo.

- Depois de treinar o SC Braga torna-se seleccionador nacional. Como é que isso acontece?
- Através de um convite do Gilberto Madaíl, presidente da FPF na altura.

- Surpreendeu-o?
- Surpreendeu, claro que sim. Eu já tinha saído de treinar, já há muito tempo, 12 anos, que não treinava, mas o que é certo é que depois...foi um desafio. Aceitei por isso.

- Preparou-se de alguma maneira especial para ser seleccionador?
- Preparei-me. Não só em termos físicos, mas em termos psicológicos e ao nível do conhecimento. Muitas vezes temos o conhecimento na prática do jogo, mas depois, transmitir aos outros, é completamente diferente. E foi isso que aprendi, muito rápido. Formei uma equipa também. Tínhamos um lote de jogadores extraordinários, uma geração fantástica, e fizemos um bom campeonato da Europa. Foi pena, podiamos ter ido mais além.

- E porque é que não fomos mais além?
- Acho que faltou qualquer coisa...Faltou mais ambição. Foi isso.

- Da equipa, dos jogadores?
- De toda a gente. Mas foi a partir daí que se começou a mudar esse paradigma e passamos a ter mais ambição. Muitas vezes fazíamos dois ou três resultados e ficávamos todos contentes, já chegava. Agora não. Agora é para ganhar sempre, até ao fim. Penso que o que faltou nessa seleção foi querermos ganhar até ao fim.
- Deixa de ser seleccionador porquê?
- Decidi sair.

- Porquê?
- Porque...não contei a minha mulher (risos)...não conto a ninguém. É uma coisa que fica comigo. No futebol aprendemos muita coisa e uma das que aprendi e continuo a defender é o respeito que temos de ter pelo futebol. O futebol fez-me crescer, fez-me viver, faz-me sofrer, se há coisa que nunca podemos deixar de ter é o respeito pelo futebol. E por todos aqueles que muito ou pouco fazem parte da família do futebol. E é esse respeito que prefiro ficar comigo, são coisas minhas, por respeito para com as pessoas e o próprio futebol.

- Sai pelo seu próprio pé, portanto.
- Saio, porque achei que era a altura. Tinha feito o meu serviço, o contrato tinha acabado.
- Como surge Marrocos?
- Fui contactado pelos marroquinos, que me pediram para ser seleccionador.

- A sua mulher foi consigo?
- Foi e as minhas filhas também. Andavam aqui no colégio francês e foram para o colégio francês de Rabbat.

- Gostaram?
- Gostamos muito. A minha mulher gostou muito e gosta muito de Marrocos. Tínhamos bastantes amigos que criamos lá, fora do futebol. Adaptamo-nos muito bem à maneira de viver dos marroquinos apesar de ser uma cultura completamente diferente da nossa, talvez por ter uma influência francesa muito grande ela tenha gostado tanto.

- A sua mulher entretanto parou com a actividade profissional que tinha?
- Exacto. Era freelancer, mas depois foi hospedeira da Air France. Quando ela veio ter comigo a Portugal já era hospedeira. Manteve-se como hospedeira uns anos e depois reformou-se, uma pré-reforma.

- As suas filhas também gostaram de Marrocos?
- Também. Nós gostamos muito até ao dia 11 de Setembro 2001. Vivemos lá o 11 de Setembro e vimos coisas que não se adequa com a nossa maneira. Vimos coisas que chocaram um bocadinho. A partir daí as coisas arrefeceram um bocado.

- Que tipo de coisas?
- Prefiro não dizer.
- Dali vai para a Coreia do Sul que é outra realidade completamente diferente.
- Sim, mas adorei. Fiquei com muitos amigos lá.

- Qual foi a melhor e pior surpresa da Coreia?
- A minha mulher ficou cá porque a minha filha já andava na faculdade. Fui sozinho, portanto custou-me muito. As nove horas de diferença faziam com que quase não houvesse comunicação entre nós. E isso custava-me muito. Mas gostei imenso de trabalho lá, porque eles são de uma disciplina extraordinária. É tudo muito certo, tudo à hora.

- Gosta de cozinhar?
- Sim. Só que eu sou um especialista, um mestre, ou seja, tudo tem que estar preparado e depois eu dou a arte final (risos). A minha mulher diz "Tu dás o toque final e a cozinha fica toda virada do avesso" (risos).

- O que sabe cozinhar?
- Sei fazer peixe no forno, peixe no sal, frango de cerveja, costeletas, e por aí fora. Sujo é tudo e não lavo nada (risos). Mas a minha mulher cozinha lindamente.

- Voltando aos dois anos na Coreia...
- Foram extraordinários.

- Já a qualidade do futebol...
- Sabe que não é tão má...e se virmos, a Coreia está sempre no Campeonato do Mundo, há muitos anos. Claro que o campeonato em si não tem a competitividade desejável, mas agora está muito melhor. Mas eu tive um problema lá. Tive uma arritmia crónica, depois tive também um problema da tiroide e tive que vir embora mais cedo. Tive de fazer uma ablação cá. Agora está tudo bem.

- Mas não esteve cá muito tempo porque vai de seguida para o Al-Shabab.
- Sim, a minha mulher não gostou. E eu também não.

- Foi um choque.
- Sim. Chocou-me uma vez que um indivíduo passa com uma chibata e bate na minha mulher porque ela não tinha o lenço. Ia-me chateando e não via o perigo em que me ia meter. Aquilo não é para brincadeiras. Ia tendo um problema muito grande. Porque não há ninguém que ao pé de mim dá uma chibatada na minha mulher, seja quem for. Isto marca. Depois também tinha o príncipe que queria fazer a equipa.

- Como assim?
- A história é gira porque é a história que leva a vir embora. Estamos num jogo, empatados, e o príncipe telefona para o meu adjunto/intérprete e diz: "Ele que meta fulano". Era um dos três que eu tinha posto a aquecer. Chamei o fulano e disse-lhe "agora senta-te que já não aqueces mais". No final o príncipe vem ter comigo e pergunta porque eu não tinha metido o jogador que ele tinha indicado. E eu disse-lhe: "O senhor paga-me para treinar a equipa, meter os jogadores a jogar e para dirigir. Se o senhor acha que não é assim...". "Então pronto, amanhã passa no meu escritório para receber e ir embora." (risos). E vim embora. É tão simples como isso.

- Para terminar as funções de treinador ainda tem uma aventura pela Tunísia.
- Sim. Aí fui com a minha mulher e foi uma boa aventura. Ainda hoje sou muito amigo do presidente da federação da altura, que também já foi ministro dos transportes.

- É mais difícil ser treinador do que jogador.
- Muito mais. Enquanto jogador dependemos de nós. Se fazes bem o teu trabalho o treinador mete-te a jogar. O treinador não. Depende dos jogadores. Portanto se os jogadores não quiserem não há treinador nenhum. Se não tivermos os melhores jogadores não ganhamos. Os treinadores que estão nas melhores equipas têm muito mais possibilidades de ganhar.

- Ou seja, aquilo que se ouve algumas vezes, que foi o balneário quem tramou o treinador. Isso é possível acontecer?
- É. Se os jogadores não quiserem...

- Isso já aconteceu em Portugal?
- Não sei. Mas é possível. Os jogadores são fundamentais. Se o treinador não tiver os jogadores com ele, não consegue. É impossível. Agora, o treinador tem que saber e ter competência para unir e gerir. O mais difícil é gerir.

- Sente que os jogadores portugueses evoluíram muito?
- Sem dúvida. Houve um crescimento muito grande dos jogadores portugueses. Também devido ao envolvimento financeiro que hoje existe, à melhoria da situação financeira. Os jogadores criaram mecanismos para se valorizarem. Vemos isso nos escalões de formação, há de facto comportamentos extraordinários, os jogadores têm uma disciplina não só de treino, mas também de vida, e isso é fundamental para o crescimento deles. E isso foi uma melhoria extraordinário em relação ao meu tempo.

- O Benfica nunca o aliciou para nada?
- Convidaram-me uma vez para ser presidente. Há uns anos largos.

- Em que altura?
- Penso que foi na altura do Vale e Azevedo, mas não tenho a certeza.

- Não aceitou?
- Não, não aceitei. Não estava nos meus horizontes ser presidente do Benfica.

- Nunca foi convidado para ficar na estrutura, como ficou o Shéu, por exemplo?
- Não.
- Como surge a FPF, em 2011?
- Foi o presidente que me convidou. Pensei e achei que era uma boa oportunidade para conhecer uma outra faceta. Fui jogador, fui treinador, fui seleccionador, faltava-me a parte directiva. E ainda bem, porque gosto daquilo que faço.

- É nesta função que se sente mais confortável?
- A coisa de que se gosta mais é de treinar. É o que gosto mais. Estava habituado a ver o jogo de dentro para fora e não de fora para dentro. Há cinco anos que estou habituado a ver de fora para dentro, é outra visão, completamente diferente. Mas não há dúvida de que o futebol em si é lá dentro. É mexer com aquilo, é mexer com o jogo, com o treino, e ver coisas a surgir. É tentarmos fazer com que as coisas aconteçam, com que os jogadores façam, acreditem, tenham confiança e joguem bem. Uma das coisas que gosto é de ver bom futebol, de ver jogar bem. Claro está que não se pode jogar bem sempre. Mas quanto melhor se joga mais hipóteses se tem de ganhar. Isso é uma regra que sempre segui, por isso desde o princípio que procurei jogar bem. Ser especialista no passe, jogo de cabeça, na posição, no controle.

- Gostava quando diziam que o Humberto era o Beckenbauer português?
- Nunca senti ser o Beckenbauer. Eu adorava-o, era um jogador extraordinário, conhecem-nos, jogamos golfe juntos, mas nunca me senti o Beckenbauer.

- Como, quando e onde surge o golfe?
- Surge no Golfe do Estoril. Tenho um amigo meu, o João Figueiredo, que nessa altura era o director do Golfe do Estoril e uma vez estávamos a almoçar na varanda do Estoril, ele vira-se para mim, eu estava a acabar a carreira de jogador, e diz “Eh pá, agora era bom começares a jogar golfe. Vais ver que vais gostar”. E eu: “Mas isso não tem esforço nenhum, eu gosto é de correr. Ainda por cima isto deve ser fácil?”. “É fácil? Vamos ali abaixo fazer cinco tacadas. Se acertares, eu pago um almoço, se não acertares, pagas tu. Mas é com as mãos como deve de ser”. Então lá fui e não acertei. Cinco vezes e não acertei. Fui ter com o Henrique Paulino que era o professor profissional e disse-lhe que queria 15 lições (risos).

- É daqueles que não gosta de perder nem a feijões.
- Exactamente. E agora é uma coisa extraordinária porque mantém a minha competitividade. Não posso jogar futebol que é uma coisa que eu gostaria de continuar a fazer mas não posso porque o joelho incha, mas posso andar e posso jogar golfe. Às vezes no verão levanto-me às seis da manhã para ir jogar. Agora a minha mulher também joga e joga bem. Tenho uma boa companhia.

- Ela começou há quanto tempo?
- Começou há uns 15 ou 20 anos, é uma óptima companhia, é uma óptima companheira, joga melhor do que eu já. Eu tenho o handicap mais baixo mas ela joga melhor.

- Participa em torneios?
- Não porque não tenho muito tempo. Gosto de jogar partidas com os meus amigos, gosto de jogar com a minha mulher, gosto de jogar com casais amigos. Agora qualquer destino de férias onde a gente vá, tem que ter golfe.

- Gosta de viajar?
- Não gosto de viajar de avião, mas viajo muito. Gosto muito de andar de carro. Vou de carro para qualquer lado. Mas gosto de conduzir, não gosto de andar de pendura.

- Qual o sítio que escolheria para viver fora de Portugal?
- Há duas cidades que adoro, Nova Iorque e Roma. São duas cidades que me enchem as medidas. 

- Amizades no futebol, amigos do peito quem são?
- O Toni é um grande amigo, o Mário Narciso que é o nosso seleccionador, também é um grande amigo, o Shéu. Com a idade as pessoas separam-se. Agora de vez enquanto a gente junta-se. Esta semana tive um almoço com o Toni, o Simões, o Victor Martins... Mas faz-se pouco isso.

- E a relação com o Eusébio?
- Era muito grande e muito forte.

- Ele faz falta?
- Muita falta.

- Faz mais falta ao Benfica ou ao futebol português, à selecção?
- Aos dois. O Eusébio era um cidadão do mundo. Tive o prazer de jogar com ele e ver coisas extraordinárias que fazia nos treinos, nos jogos. E depois tive o prazer de ser amigo dele e de ele ser meu amigo. Era uma pessoa extraordinária, com uma bondade. Uma pessoa boa que gostava da vida à maneira dele. Vi as filhas crescerem, toda a família por quem eu tenho uma admiração enorme.

- Mas também se ganham inimigos no futebol.
- Claro, é normal. Quem é a pessoa que não tem um inimigo? Todos nós temos inimigos, alguns mais declarados, outros menos. Acho que isso é normal, especialmente as figuras públicas. Umas pessoas gostam, outras não. Temos de aceitar isso com naturalidade.

- Quando é que deixou crescer o seu mítico bigode?
- O bigode nasceu barba, depois cortei a barba e fiquei com o bigode que durou anos, uns 20 anos. 

- Foi uma promessa?
- Não. Um dia disse: “Já estou farto do bigode, vou cortá-lo”. O melhor é que disseram que estava muito melhor assim e nunca mais tive bigode.

- Como vice-presidente da FPF assistiu por dentro ao Euro 2016...
- ...Um momento alto, porque acreditou-se no treinador, e o Fernando fez acreditar o grupo todo. O país. Ele fez com que toda a gente acreditasse que podíamos ganhar, que jogávamos para ganhar. Tivemos sorte, mas a sorte trabalha-se. Independentemente dos resultados que até não foram os mais favoráveis no início, acreditou-se, o grupo acreditava e isso foi fundamental para o desfecho final.

- E agora que vem ai o Mundial, o espírito mantém-se ou não por ser um mundial?
- Há uma coisa que temos de ver. Não vamos ganhar sempre. Portugal não ganha sempre. Mas há uma coisa que criamos, passámos um patamar e isso é fundamental. Estamos num patamar superior que pode levar-nos a que possamos ganhar. Nós acreditamos e os jogadores acreditam, que é parte fundamental.

- Quando é que se dá essa transformação?
- Depois de 2000. Tivemos um período em que não fomos a nenhuma fase final e depois de 2000 vamos a todas. É uma consistência que se vai tornando cada vez mais forte. Foi-se trabalhando para as gerações que vão passando, talvez umas já merecessem ter ganho...Podíamos ter ganho o Euro 2004… O que é certo é que sabíamos que ia acontecer mais dia, menos dia. Aconteceu no ano passado porque se reuniram todos os factores que vinham crescendo, os jogadores que vinham trazendo uma mística especial, uma mística diferente. Os jogadores hoje têm uma capacidade diferente, são mais fortes, têm mais objectivos. E o Fernando teve uma grande competência em reunir todos esses elementos e dar aquilo que de facto faz ganhar, a confiança. 
- É um homem supersticioso?
- Não muito.

- Tinha alguma superstição enquanto jogador?
- Benzia-me quando entrava em campo.

- É crente?
- Sou.

- Praticante?
- Já fui mais praticante porque há coisas que se passam na igreja de que também não gosto. Mas continuo a crer, à minha maneira, agora um bocadinho diferente, com uma visão mais global das situações. Continuo a ser crente mas já não pratico como praticava.

- Ia à missa?
- Ia mas desde há dois anos que só vou de vez em quando.

- Porquê?
- Eu gostava muito de um padre do Estoril que faleceu. Quando vou à missa é para trazer qualquer coisa e se o padre não termina aquilo que começou, depois temos de terminar em casa. Gosto muito das homilias, para mim são fundamentais. Vivemos num mundo em que precisamos de crer e precisamos sobretudo na religião, como em tudo, de direção. Isso é fundamental para mim.

- O que faz um vice presidente da Federação Portuguesa de Futebol?
- O vice faz tudo. Estou sempre ao lado das selecções, dos treinadores, dos team managers. Uma vez por mês temos uma reunião de direcção em que se debate os temas fundamentais. Participamos nas discussões das respectivas decisões. Assisto aos treinos, assisto aos jogos, vejo o que está bem, o que está mal, o que é que se precisa, trato de orçamentos, etc.

- É uma espécie de conselheiro?
- Às vezes perguntam a minha opinião. Os técnicos têm que fazer o seu trabalho, eu tenho que analisar se fazem bem ou mal. Em função daquilo que eu vejo, dos resultados, do ambiente... É estar atento ao que de facto é importante para as pessoas estarem todas em sintonia com o modelo que se tem na Federação. Esse modelo está a ser implantado pela coordenação técnica e portanto é acompanhar.

- Vê-se um dia presidente da FPF?
- Não. A presidência está muito bem entregue neste momento. Gosto do que faço e gosto das pessoas com quem faço.

- Para além do golfe tem mais algum hóbi?
- Não. O que eu gosto também é de conversar com os meus amigos, e de estar atento aquilo que se passa no mundo.

- Foi aliciado por partidos políticos.
- Fiz várias campanhas. Fiz campanha do Sá Carneiro, do Mário Soares, do Cavaco Silva, mas não sou de nenhum partido. Sou daquilo que eu acho que é bom para o país. Não tenho nenhum partido, é o momento, em que decido o que é que faço, decido em função do que acho ser o melhor para todos, não é para mim só, é para todos.

- Ronaldo e Messi. Um comentário.
- São dois grandes jogadores. Especificamente diferentes. O Ronaldo é um finalizador extraordinário, tem uma capacidade de colocação dentro do campo fantástica, dentro do objectivo que ele pretende que é marcar golos e ganhar. O Messi é mais artista, é mais do género...

- ...Do Maradona.
- Do Maradona. É um jogador que gosta muito de ter a bola. Para o Cristiano a bola é dentro da baliza. Tem uma finalidade, ele não gosta de adornar muito e é nisso que ele de facto é exímio. O Messi gosta muito de ter a bola, gosta muito de correr com ela, de passar e receber. São dois jogadores com características diferentes mas são dois jogadores fantásticos.

- Se não fosse jogador de futebol, teria sido o quê?
- Não sei, engenheiro químico. Teria seguido os estudos, mas não era essa a minha vocação.

- Acha que o seu neto vai ser o seu seguidor?
- Dei-lhe logo uma bola e jogo com ele, mas estou a ver que ele vai ser músico porque ele só quer música, só quer tocar música. Dorme com a guitarra ao lado.

- Tem pena de não ter um seguidor?
- Gostava de ter um filho, mas não se proporcionou.

- Porque é que não teve mais filhos?
- Não sei, não sei. Ainda hoje não sei (risos). Mas tenho um neto que é óptimo, gosta de música. Comprei uma viola e vou aprender a tocar viola para tocar com ele, se ele for para a música. Já comprei umas aulas e já tenho uma aula. Se ele for para o futebol eu não preciso de fazer nada, mas se ele for para a música, quero poder acompanhá-lo."

Vitória saborosa...

Benfica 6 - 2 Corruptos

Tal como o nosso treinador afirmou: grande segunda parte!
Este ano estamos mais eficazes a marcar as 'bolas paradas' e o Pedrão faz a diferença nas mesmas situações na nossa baliza... Este jogo também permitiu provar que sem roubos monumentais (mesmo assim...) o Benfica é muito superior...

Agora, temos novo jogo grande na próxima semana com os Lagartos...

Dezena !!!

Benfica 10 - 0 Fabril

Fim de ano em beleza... os golos até só surgiram aos 11 minutos, mas depois...

O 'grande' momento da tarde foi a apresentação do Fernandinho, internacional Brasileiro, que vem 'tapar' a vaga do Chaguinha, que ainda não tem data de regresso.

O Benfica sempre venceu com verdade desportiva

"Encontrando-me ausente do País com a minha família e confrontado com as mais recentes notícias, faço questão de transmitir uma mensagem muito clara a todos os nossos Sócios, adeptos e simpatizantes.
Os Benfiquistas podem estar totalmente tranquilos de que nunca ninguém do Benfica comprou qualquer árbitro ou jogador de uma equipa adversária, ou em qualquer circunstância procurou manipular a verdade desportiva.
Todas as nossas vitórias resultaram apenas do nosso mérito e do nosso trabalho. Mais do que nunca, a melhor resposta que podemos dar é reforçar a nossa unidade e coesão, porque juntos somos mais fortes.
O que verdadeiramente está em causa em toda esta campanha negativa montada pelos nossos rivais é evitar a todo o custo que o Benfica conquiste o Penta. Porque, em desespero, necessitam de apresentar resultados para a sua própria sobrevivência.
Esta nova leva de denúncias anónimas resulta do facto de não conseguirem demonstrar a existência de qualquer indício de corrupção ou tráfico de influência.
Quero que todos saibam, e digo-o com orgulho, que no Benfica podemos andar de cabeça erguida. Aqui, não existem nem perdões de escutas, nem apitos dourados, nem árbitros convidados para casa, nem frutas oferecidas e também plantéis com seis e sete guarda-redes.
Estejam certos de que a nossa resposta será sempre compatível com a grandeza da nossa história e do nosso Clube.
Este ataque agride todos e cada um dos Benfiquistas na sua dignidade e na sua honra. Eles sabem que a nossa cultura é incompatível com a corrupção. Também sabem que jornalismo se presta a estas encomendas. Mas alerto para o seguinte: toda a Nação Benfiquista vai ser chamada para tomar nas suas mãos o ataque a esta vil e falsa campanha.
Reafirmo a confiança de que a justiça saberá repor a verdade dos factos. E este é o tempo da justiça. 
Em breve, terei oportunidade de falar de viva voz a todos os Benfiquistas e como sempre estarei na linha da frente na defesa intransigente do bom-nome do nosso Sport Lisboa e Benfica.
A todos desejo um feliz ano novo rumo ao Penta.

A era do pernil de porco já chegou

"Cobardes e miseráveis. Nas vésperas de mais um dérbi da Capital foi deste modo que o presidente do Sporting baptizou os presidentes dos demais clubes com excepção feita, naturalmente, ao presidente do FC Porto por uma questão de respeito. Tudo isto por ocasião da última assembleia geral da Liga de Clubes que aconteceu ontem. O presidente do Sporting, presume-se, ter-se-á sentido sabotado pelo "ensemble" associativo a quem chamou de miserável em geral e pelos homens presentes a quem chamou de cobardes em particular, salvaguardando, nunca é demais repetir, a figura referencial do presidente do FC Porto.
Tal como o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros veio a público afirmar que "o governo português não tem o poder para sabotar o pernil de porco" – referindo-se ao diferendo alimentar com o presidente Maduro da Venezuela –, deveria ter vindo imediatamente a público o presidente da Liga de Clubes dizer exactamente a mesma coisa, por outras ou até pelas mesmas palavras, se entendesse cruial fazê-lo pela urgência de serenar os ânimos exaltados neste momento tão conturbado do futebol português. Para mais vem aí mais um derby.
Se, por analogia do momento, a assembleia geral da Liga de Clubes teve ontem o poder para sabotar o pernil de porco diligentemente confeccionado pelo presidente do Sporting com os prestimosos temperos emprestados pelo presidente do FC Porto, fez bem o presidente do Sporting em protestar veementemente contra a ausência de cultura democrática que detectou entre os seus pares do dirigismo nacional sabendo-se – é da cultura geral – que não há nenhum par que lhe chegue aos calcanhares em matéria de cultura democrática.
Mas deixemos os calcanhares em paz. Não é por causa dos calcanhares que a vida associativa do futebol português chegou a este estado. Foi mais por causa do pernil de porco, em sentido figurado, que ontem os patrões da bola não só se viram batizados de cobardes como também se viram intempestivamente deixados ao abandono quando o presidente do Sporting bateu com a porta levando a sua pequena comitiva atrás. Por não estar "ali a fazer nada" – segundo as suas próprias palavras –, bateria também com a porta o presidente do FC Porto, uns minutinhos mais tarde, solidário com o presidente do Sporting na indignação contra o poder evidenciado pela assembleia geral da Liga no que tocou a sabotar o pernil de porco, em sentido figurado, obviamente.
E é nisto que estamos em vésperas de mais um derby da Capital. Antes da modernidade trazida ao futebol pelo presidente do Sporting, os dias que antecediam os dérbis eram passados num já secular, e talvez por isso mesmo pachorrento, arremesso de vitupérios exclusivo entre os dois lados da Segunda Circular. Era apenas uma coisa entre eles. Agora, com a chegada da modernidade e vai tudo a eito no que toca ao insultar. Oh, que cambada de lampiões!
Destaque: É nisto que estamos antes de mais um derby da Capital."

Agenda Olímpica

"O Governo prometeu e cumpriu com a entrega esta semana dos 650 mil euros referentes ao aditamento do Projecto Rio de Janeiro 2016. O dinheiro seguiu os trâmites legais, através do Comité Olímpico de Portugal (COP), e a partir de agora a agenda passa a ser outra com o anúncio oficial para Janeiro dos contratos-programas para o Projecto Tóquio 2020 e que neste caso vai ter continuidade até 2021 para não haver quebra de financiamento às federações.
O secretário de Estado da Juventude e Desporto, João Paulo Rebelo, ganhou créditos junto do movimento associativo, após algumas federações terem manifestado a sua preocupação pelo atraso das verbas. Depois de os treinadores terem ficado isentos de IRS, este é um tema que deixou de fazer parte da agenda política para o próximo ano.
Se analisarmos estas decisões numa perspectiva global, estas duas decisões parecem ser pouca coisa, mas, na verdade, representam bastante. Em primeiro lugar revelam que o compromisso foi cumprido dentro dos prazos prometidos e depois foi feito o devido enquadramento à classe de treinadores, que muitas vezes é esquecida quando se fala em medalhas em europeus, mundiais ou jogos olímpicos.
E não será nenhum erro acrescentar que alguns treinadores procuram outros complementos no mercado de trabalho para suprir os salários que recebem através dos apoios estatais. Por vezes, até se afastam da modalidade quase em definitivo para não ficarem reféns das muitas horas que têm de passar no terreno. O reconhecimento chegou em 2017."

O Olimpismo é demasiado importante...

"O Olimpismo é demasiado importante para, em regime de exclusividade, estar sob a total superintendência do Comité Olímpico de Portugal (COP).
Dizem os Estatutos do COP no seu artigo 3º (normas aplicáveis) que os ditos foram elaborados de acordo com:
(1º) Os princípios da Carta Olímpica;
(2º) Os normativos emanados do Comité Olímpico Internacional (COI);
(3º) Os Regulamentos aprovados em Assembleia Plenária;
(4º) Supletivamente, pela legislação portuguesa aplicável às associações”.
Seria bom que os referidos Estatutos no preâmbulo especificassem quais os normativos emanados do COI, os regulamentos aprovados na Assembleia Plenária e a legislação portuguesa aplicáveis, de maneira a permitir a compreensão da essência e da dinâmica propugnadas. Porque, na realidade, os Estatutos do COP não estão de acordo com a Carta Olímpica, não estão de acordo com a legislação portuguesa aplicável às associações e não sabemos se estão de acordo com os normativos emanados do COI e os regulamentos aprovados em Assembleia Plenária porque os tais normativos e regulamentos não são indicados.
É lamentável que a revisão dos Estatutos do COP não tenha sido realizada a partir de uma ampla participação e discussão. Como refere José Leandro, ao tempo presidente da Federação Portuguesa de Vela, no jornal a “Bola on Line” (2017-05-11), “uma única associada daquela instituição fez propostas concretas, formais e atempadas de melhoria do documento, todas prontamente recusadas veementemente pelo Sr. Presidente do COP”. Para além do mais a revisão dos Estatutos do COP devia ter sido aberta à sociedade em geral. Era o mínimo que se podia esperar de uma organização que representa em Portugal o Olimpismo um movimento que, hoje, se processa à escala mundial, colhe o interesse da generalidade das pessoas e, de há mais de três Ciclos Olímpicos a esta parte, em Portugal, recebe, tanto das empresas como do Estado, dezenas de milhões de euros.
Hoje, o Movimento Olímpico é demasiado importante para estar só nas mãos do COP e dos seus dirigentes, sobretudo daqueles que lá estão há um número exagerado de anos a gerirem milhões de euros com resultados perfeitamente miseráveis.
Infelizmente, o que se verifica é que quem elaborou os Estatutos, em primeiro lugar, pouco ou nada sabia da história e da cultura olímpica tanto a nível nacional quanto internacional e, em segundo lugar, não estava minimamente interessado em modificar o “status quo” existente.
Relativamente à primeira questão, por exemplo, logo no primeiro parágrafo do preâmbulo, quando se diz que “as ligações de Portugal ao Movimento Olímpico remontam a 1906 com a nomeação de um português, António Lancastre…”, é bom que se esclareça que os membros do COI nunca foram nem sequer são nomeados mas sim cooptados. O que aconteceu foi que D. Carlos indicou a Pierre de Coubertin o nome de António Lancastre que, posteriormente, na Sessão de Atenas em 1906, foi cooptado pelos restantes membros do COI passando, desde então, a cuidar dos interesses da organização em Portugal. É inadmissível tal lapso nos Estatutos de uma organização que devia primar pelo rigor histórico. Existem muitos outros que vamos ter a oportunidade de os escalpelizar. Dizem-me que o que se passa é um dos males do tempo corrente nesta era de ruído infernal tão bem simbolizado pelos conteúdos do Canal Olímpico. Que se trata-se de preguiça intelectual um dos mais perniciosos estigmas que, desgraçadamente, estão a marcar o Movimento Olímpico moderno. Dizem-me, ainda, que não vale a pena estudar, não vale a pena conhecer, não vale a pena pensar, não vale a pena produzir trabalhos de investigação na medida em que, depois, prevalece a opinião dos detentores do poder arvorados com doutoramentos “Honoris Causa”.
Relativamente à segunda questão o que é facto é que quem fez a revisão dos Estatutos não estava minimamente interessado em modificar o “status quo” existente. Quer dizer, no fundo, a revisão dos Estatutos do COP, aos olhos de qualquer observador minimamente atento, não passou de uma manobra estratégica de diversão a fim de que tudo continuasse na mesma com o objectivo de reafirmar poder sobre um sistema que estava e continua completamente desgovernado. Um sistema em que as Federações Desportivas estão completamente desorientadas e algumas delas até manietadas. Um sistema que, infelizmente, vai a caminho da hecatombe que, certamente, terá um ponto alto nos próximos Jogos Olímpicos de Tóquio (2020).
Diz o nº 1 do artigo 6º dos Estatutos do COP: “Todas as ações do Comité Olímpico de Portugal devem observar os princípios da legalidade, democraticidade, publicidade, economicidade, eficiência e transparência, bem como os demais princípios definidores de boa governação em conformidade com os Princípios Básicos Universais de Boa Governação do Movimento Olímpico e Desportivo”. 
Na realidade, estamos perante um enunciado de princípios com os quais, certamente, todos estamos de acordo, contudo, invocando o “princípio da mulher de césar”, resta saber se o enunciado, depois, se traduz não só no articulado dos Estatutos bem como, em coerência, quer directa, quer indirecta, na práxis da própria instituição.
Note-se que é o princípio da democraticidade que, em termos absolutos, garante a possibilidade de afirmação de todos os outros. Quer dizer que:
(1º) O princípio da legalidade só pode existir se, “a priori”, estiver garantido o princípio da democraticidade;
(2º) O princípio da publicidade só pode existir se, “a priori”, estiver garantido o princípio da democraticidade?
(3º) O princípio da eficiência pode existir se, “a priori”, estiver garantido o princípio da democraticidade?
(4º) O princípio da transparência pode existir se, “a priori”, estiver garantido o princípio da democraticidade?
(5º) A boa governação pode existir se, “a priori”, estiver garantido o princípio da democraticidade? 
Portanto, trata-se de saber se os Estatutos do COP cumprem o princípio da democraticidade que eles próprios anunciam? A nossa tese é a de que não cumprem. E formulamos as seguintes questões:
(1ª) Qual a credibilidade de uns Estatutos em que o presidente da Comissão Executiva do COP, responsável pela elaboração dos próprios estatutos, presidiu à Assembleia Plenária que os aprovou, como referiu José Leandro, ao estilo de “missa cantada” (a metáfora é minha)?
(2ª) Qual a credibilidade de uns Estatutos em que a participação foi restringida ao mínimo pelo que nunca esteve garantido o princípio do contraditório?
( 3º) Qual a credibilidade de uns Estatutos que determinam que o presidente da Comissão Executiva preside à Assembleia Plenária?
(4º) Qual a credibilidade de um Estatutos em que o Conselho de Ética, à margem do modelo da Carta Olímpica, é eleito em lista solidária constituído maioritária e obrigatoriamente por juristas como se a ética do desporto ou outra qualquer começasse e acabasse na jurisprudência?
(5º) Qual a credibilidade de uns Estatutos em que o Presidente da instituição, em termos nacionais, só responde perante si mesmo?
Nestes termo, são se compreende nem se aceita que o poder político, através da tutela, venha de há mais de catorze anos a esta parte a assinar contratos programas que já perfazem dezenas de milhões de euros delegando no COP competências que lhe conferem um poder que:
(1º) Não está expresso na Carta Olímpica;
(2º) Não lhe é conferido pela Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto;
(3º) Não é legitimado pela configuração democrática dos seus estatutos.
É tempo do Governo avançar com a prometida Nova Agenda para o Desporto acabando com a política da “Galinha dos Ovos de Ouro” idealizada na maior das irresponsabilidades em 2004 antes que destruam completamente o tecido desportivo português.
Para o efeito, deve o Governo começar por criar, com os recursos existentes, um gabinete de Alto Rendimento no Instituto Português da Juventude e Desporto que, em relação directa com as Federações Desportivas e através de políticas integradas de desenvolvimento, desencadeie, numa perspectiva sistémica, do ensino ao alto rendimento e horizontes temporais perfeitamente estabelecidos, a melhoria do Nível Desportivo do País.
O Olimpismo, enquanto expressão competitiva fundamental da educação e da cultura dos portugueses é demasiado importante para, em regime de exclusividade, estar sob a total superintendência do Comité Olímpico de Portugal."

sábado, 30 de dezembro de 2017

As reclamações junto dos árbitros

"1. Mas, afinal, o que é que um Jogador ou um Dirigente pode dizer quando quiser reclamar com os Árbitros?
Leiam-se exemplos do que tem vindo a ser decidido, a diferentes níveis, sobre esta matéria: em 2008, em Coimbra, no Tribunal da Relação, faz-se notar que "o direito à crítica sofre limitações estruturais e de apresentação, nomeadamente: a manifestação de opinião expressa há de estar imbuída de uma verdade objectiva dos factos, bem como o modo como é veiculada a opinião ou crítica há de ser conduzido com correcção de linguagem". Há muitas mais ilustrações desta lógica, mas, face à limitação de espaço, centremo-nos dentro do universo desportivo, federativo e futebolístico. Em Março de 2016, no Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol decidia-se que um jogador dizer "isto é vergonhoso, esta partida foi vergonhosa", dirigindo-se à equipa de arbitragem, não é algo indigno para com a mesma, não sendo crítica directa a essas pessoas, nem lesam o seu direito à reputação, não se traduzindo num ataque pessoal. Em Novembro de 2016, em sede similar, escreveu-se que é limite à liberdade de expressão que um dirigente desportivo queira dirigir expressões depreciativas e injuriosas que violem a dignidade e honra profissional do agente de arbitragem, pois afronta valores tutelados pelo Direito Disciplinar Desportivo. Em causa estava a seguinte afirmação : "Estragaste o jogo todo, andaste a brincar connosco. Andamos a treinar para isto."

2. E os Regulamentos que possam atribuir direitos aos Clubes ou lhes provocar Sanções ou Punições? 
Quem se quiser informar melhor sobre o porquê de as coisas estarem a ser como são, leia alguns artigos em especial e compare. Na Liga de Futebol Profissional, desde o Artigo 35.º do Regulamento de Competições (Medidas preventivas para evitar manifestações de violência e incentivo ao fair play), ao Artigo 14.º do Regulamento de Arbitragem (Exposição sobre arbitragem incorrecta), até ao Regulamento Disciplinar…"

Denúncia anónima desmentida pelos próprios factos

"A propósito da notícia sobre uma eventual investigação da Polícia Judiciária com base numa denúncia anónima sobre o jogo Rio Ave-SL Benfica da época 2015/16, o Sport Lisboa e Benfica esclarece:
1) o Sport Lisboa e Benfica desconhece totalmente a existência deste processo;
2) nega qualquer envolvimento do clube nesta situação e garante que todos os responsáveis pela promoção e divulgação desta calúnia serão responsabilizados criminalmente;
3) basta uma investigação mais cuidada para se provar a falsidade desta denúncia tendo em conta que, dos quatro jogadores invocados, um encontrava-se em Espanha, outro não foi convocado (estava castigado por acumulação de cartões amarelos) e os outros dois foram curiosamente apontados pela generalidade da crítica como dos melhores em campo por parte do Rio Ave;
4) esta notícia insere-se numa vasta campanha que foi montada de forma a levantar suspeitas, denegrir a imagem do Sport Lisboa e Benfica e o mérito das suas vitórias desportivas, de uma forma até um pouco tosca, em que os próprios factos e envolvidos são criados mesmo que nem estivessem a jogar nos clubes adversários e essas histórias antecipadas nas redes sociais associadas a clubes rivais, provando a origem destas denúncias anónimas;
5) o Sport Lisboa e Benfica espera que as autoridades e a justiça desenvolvam o seu trabalho para o rápido e cabal esclarecimento de mais esta manipulação;
6) podem estar certos que, uma a uma, todas estas situações terão uma forte resposta por parte do Sport Lisboa e Benfica, que irá até às últimas consequências para desmontar toda esta campanha de cabalas e responsabilizar os seus autores."

Benfiquismo (DCCII)

Campeões Ibéricos!!!

Uma Semana do Melhor... Final de Ano!

Ano novo, vida velha

"Aparentemente, não há como contrariar a tendência autodestrutiva do futebol nacional.

Amanhã é o último dia do ano. Este facto parece ser o único indiscutível no que diz respeito aos sucessos e aos insucessos do futebol português neste tão peculiar ano de 2017. E foram, na realidade, tão peculiares e controversas as ocorrências dentro e fora das quatro linhas dos relvados em 2017 que só muito dificilmente o ano novo se poderá apresentar fresco, esperançoso e de cara lavada aos amantes do jogo.
Ano novo, vida velha, é o que promete 2018 e não há, aparentemente, como contrariar a tendência autodestrutiva daquilo a que alguns chamam a indústria do futebol.
Os últimos dias do ano não quiseram fugir à regra que se impôs na agenda de 2017 e trouxeram novas ameaças de escândalos e de proporções alarmantes. A suspeita de resultados combinados em jogos da Liga que estará a ser investigada pelo Ministério Público antecipa a configuração do mais terrível crime a que o futebol está sujeito.
Podemos duvidar de quase tudo o que mexe no futebol – de árbitros, de dirigentes, de jornalistas e até da própria bola… - e continuar a gostar do jogo e a acreditar no jogo. Mas como poderemos continuar a amar o mesmo jogo se, pelas vias oficiosas e oficiais, nos sugerem que há jogadores – os artistas! – facilmente corrompidos para "facilitar" resultados que rendam maiores dividendos no mundo tenebroso das apostas? E não é isto muito mais grave do que saber-se, como se soube, que o Zivkovic ganha mais do que o Pizzi?
A exposição pública dos valores dos ordenados dos jogadores do Benfica lança, indiscutivelmente, o capitoso tema da relação qualidade/preço no plantel da equipa campeã nacional mas de ilícito propriamente dito só terá o modo como essa informação classificada foi roubada e disponibilizada ao mundo na internet.
Não há, portanto, grandes motivos para acreditar que 2018 será muito diferente do ano que vai agora terminar no que respeita a surpreendentes intervenções policiais – como foi a visita da PJ ao Estádio da Luz na sequência do caso dos emails – e a surpreendentes apelos à legalidade tal como os ocorridos sempre que o presidente do FC Porto vem a público defender a "verdade desportiva" que tanto ama há mais de três décadas.
Veremos o que o ano novo nos traz. Tratando-se de futebol diga-se, já agora, que o grande triunfador de 2017 foi o Sporting. Ganhou 4 campeonatos das primeiras décadas do século passado. O outro vencedor foi o Moreirense porque ganhou a Taça da Liga sem que tivessem surgido suspeitas sobre a competição. Nas outras competições todas, o Benfica foi o vencedor. Mas não valeu. E nada valerá porque até ao último email está tramado o campeão nacional.

Aventuras de um milionário em Espanha
Quem não tem dinheiro não pode ser descarado à vontade
As autoridades fiscais espanholas prosseguem a sua saga contra Cristiano Ronaldo e a nós, portugueses, só nos resta escolher um destes dois campos: ou se concorda com a posição da Unidade Central de Coordenação do Tesouro dos nossos vizinhos que entende que o nosso compatriota devia estar preso porque tem andado a fugir ao fisco ou, com outro tipo de preocupações não-sociais, se concorda alegremente que tudo isto é uma perseguição dos malditos castelhanos a um portuguesinho que, por sinal, é multimilionário.
E, de facto, é. Como toda a gente acaba por descobrir um dia não é o dinheiro garantia de felicidade. Mas é garantia de grande despreocupação com estas minudências fiscais. "Estou preso a estes bebés lindos", respondeu o jogador português às autoridades espanholas exibindo uma fotografia com os seus três filhos mais novos.
Quem não tem dinheiro a rodos não se pode dar ao luxo de ter este descaramento magnífico, é a conclusão. E agora, ‘nuestros hermanos’?"

Em fúria

"A eliminação da equipa de futebol do Benfica na Taça da Liga foi a expressão de um ano que está a ser, a vários títulos, desastroso.

A eliminação da equipa de futebol do Benfica da Taça da Liga foi a expressão de um ano que está a ser, a vários títulos, desastroso.
Não podemos fechar os olhos ao que é evidente: o treinador Rui Vitória tem responsabilidade nos sucessivos resultados negativos da equipa, como, aliás, se constatou com as substituições efectuadas no jogo frente ao Portimonense.
A sua continuidade será, por isso, avaliada por Luís Filipe Vieira no final da época. Mas, no entretanto, há todo um campeonato para disputar.
Onde estamos apenas a três pontos da liderança e com menos dois pontos do que na época passada, a mesma onde foi conquistado o tetra. De que precisamos? É simples: de deixar as reflexões estratégicas para maio. 
gora é tempo de salvar a dignidade do Benfica. E libertar toda a fúria da águia já para o dérbi da próxima quarta-feira, no Estádio da Luz."

Vermelhão: adeus à Taça CTT

Setúbal 2 - 2 Benfica


Acabou! Jogo para cumprir calendário, com o Benfica a apresentar uma equipa totalmente diferente do habitual (o adversário jogou com a equipa titular)... na Quarta só um dos Centrais de hoje será titular (devido à lesão do Luisão), de resto só alternativas... que mesmo assim, tinham a obrigação de jogar melhor!
Estes jogos são sempre ingratos, por um lado exige-se que os jogadores provem que merecem a titularidade, mas depois não existem rotinas...
Para piorar as coisas, voltámos a mostrar fragilidades nas 'bolas paradas'! Com o Portimonense sofremos os dois golos de 'bola parada' no jogo aéreo, e hoje, repetimos a dose!!! Num jogo, onde até entrámos melhor...!!! O Setúbal fez o 'jogo' do costume, à espera do erro do Benfica, jogando em contra-ataque... criou algum perigo nalgumas bolas perdidas estupidamente pelos nossos jogadores, mas foi sempre o Benfica a criar mais perigo... mas os remates raramente acertavam na baliza...
Preocupante também a forma como reagimos mal ao primeiro golo... nos últimos 15 minutos da 1.ª parte, quase não tivemos a 'bola'!!!
No segundo tempo, lá conseguimos marcar... e empatar novamente um jogo da Taça da Liga: o terceiro em três jogos!!!
O Seferovic voltou a marcar... o Zivkovic foi o jogador que mais oportunidades criou... o Joãozinho criou uma assistência maravilhosa!

Liderança reforçada...

Benfica 81 - 66 Oliveirense
20-19, 17-8, 22-21, 22-18

Vitória importante, depois do desaire em Guimarães, voltando a 'abrir' uma vantagem de duas 'derrotas' para o 2.º classificado: esta Oliveirense!
Não foi um jogo espectacular, mas conseguimos ser eficientes, nos momentos certos... e até conseguimos terminar o jogo, sem problemas cardíacos!!!

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Alvorada... do Pragal

Final de ano de acusações e suspeitas

"A PJ está a averiguar e isso é muito bom para o futebol. Que se castigue quem prevarica e absolva quem nada tem a ver com as aldrabices.

Final de Ano desportivo pontuado, por acusações, suspeitas e dúvidas sobre o futebol e o desporto. Desta vez foi o Feirense - Rio Ave, da última época que já havia sido falado pelo inusitado número de apostas que gerou.
A Polícia Judiciária está a averiguar e isso é muito bom para o futebol. Que se investigue, castigue quem prevarica e absolva quem nada tem a ver com as aldrabices.
Nada pior no desporto, na política ou na vida, que aquela indiferença de são todos iguais.
Não é verdade, não pode ser verdade, é bom que não seja verdade, e quem cumpre não pode ser confundido com quem aldraba.
Jogos com resultados combinados, realidade que se conhecia de outras paragens (mafiosas), é a negação do desporto, e é, a curto prazo a morte da paixão pelo mesmo.
Numa altura em que as desgraças parecem não parar até Chris Froome, o último herói de uma modalidade mergulhada no descrédito, parece também já ser vilão e não campeão.
Depois de Lance Armstrong o que poderia ser pior?
Só falta mesmo Federer ou Nadal, Messi ou Ronaldo, Parker ou Kevin Durant para deixarmos de ver, de acreditar e de gostar.
Na ânsia do negócio e das suas vigarices, acabam a matar a paixão. Na Rússia de Putin e do Mundial não param as demissões, acusações e descobertas de um gigantesco circo de aldrabice desportiva com base no doping.
Esta última semana de 2017 faz com que tenhamos mesmo necessidade que venha algo de novo e de melhor, que seja 2018.
Para quem gosta muito de desporto, nesta fase, quase bastava saber que o jogo que vê, de futebol ou de hóquei, a prova que assiste, de ciclismo ou de atletismo, não é uma mentira.
Que os heróis são mesmo os melhores, que a excelência faz a diferença, e que não somos cúmplices de uma fraude sem tamanho.
Que tal um grande Benfica - Sporting no próximo dia 3? O derby dos derbies, apenas jogado dentro de campo, de forma intensa e leal. Numa altura em que resta ao Benfica o Campeonato Nacional, notícias que já não estávamos habituados há várias épocas, o doping era um grande Benfica e a aposta era um grande jogo.
Isso sim era um grande início de 2018."

Sílvio Cervan, in A Bola

Pântano no futebol

"O grande problema vai-se colocar à própria Justiça

Uma coisa parece cada vez mais evidente: os processos relacionados com o futebol vão inundar o Ministério Público e a PJ.
Do famoso caso dos emails, comissões ilegais, às piratarias informáticas, à corrupção e ao tráfico de influências, sem esquecer as bagatelas de difamação, vai parar tudo às instâncias judiciais. O futebol sempre foi um pântano mas a verdade é que, nos últimos anos, as forças em guerra evoluíram para um plano superior de organização.
Contrataram piratas informáticos e passaram a usar a Justiça como arma de arremesso. Uma cópia da velha litigância entre políticos, onde abundam os grandes especialistas de bullying jurídico contra tudo e todos, de jornalistas a adversários partidários.
O grande problema, de resto, não se coloca a quem se queixa, a quem promove a pirataria informática e o crime em geral.
O grande problema vai colocar-se à própria Justiça que, pela dificuldade de produzir prova, pelo insuficiente enquadramento penal de alguns dos comportamentos visados, pelo pacto de silêncio reinante em áreas financeiras e outras do mundo do futebol, não vai chegar a lado nenhum. E só serviu para alimentar a fogueira de mais uma época."

Benfiquismo (DCCI)

Não correu muito bem...!!!

Aquecimento... regresso

As boas notícias de 2017, que pedem continuidade já no próximo ano

"A reafirmação do treinador português, as boas ideias na Liga e um craque em grande momento, que não Messi ou Ronaldo.

2017 foi mais um ano, não o primeiro e certamente não o último, de afirmação do treinador português como um dos mais bem preparados no contexto europeu. Se Leonardo Jardim foi o expoente máximo dessa ideia, com resultados bem acima dos esperados, não só em França mas também na Liga dos Campeões, há que destacar ainda os feitos de Paulo Fonseca no renascimento do Shakhtar, de Marco Silva num Watford de escassa matéria-prima e com um excelente arranque na nova temporada, e do próprio Nuno Espírito Santo, a reagir muito bem à saída do Dragão e a tornar o Wolverhampton o grande candidato à subida.
Se a isto somarmos a fome que José Mourinho mantém por títulos, com uma Taça da Liga e a Liga Europa conquistadas, e até a boa impressão que Carlos Carvalhal deixou no Championship ao ponto de lhe ser entregue a missão espinhosa de salvar o Swansea da descida, temos ainda mais provas de que o técnico português está bem e recomenda-se, e particularmente na maior liga do mundo.
(Faço aqui um parentêsis sobre Mourinho. O Manchester United atravessa um período de maior instabilidade, mas tem tudo para terminar como segunda melhor equipa atrás do rival City. Se isso acontecer em maio confirmar-se-iam os sintomas de recuperação, já que nas últimas temporadas foi apenas 7º, 4º, 5º e 6º classificado. O que se aponta aos Red Devils é uma mais fraca qualidade de jogo, e um plantel ainda desequilibrado, com o português a não conseguir apagar da cabeça das pessoas os 105 milhões pagos por Pogba, que está longe de ter adquirido influência desse volume na equipa. Mou também não tem ajudado nos encontros com a imprensa. Critica os jogadores quando corre mal, algo raro no início da carreira, ou os árbitros, e agora acusa o City e Guardiola de um orçamento bem maior. É verdade, perde por cerca de 113 milhões – 463M vs 350M em duas épocas –, mas também gastou pior e joga bem pior, em contraste com uma ideia clara de jogo e de domínio territorial sobre os adversários.)
Portugal vai estar em nova fase final, e a defender o estatuto de campeão europeu. Conseguiu-o na última jornada, depois de um arranque em falso na Suíça, mas foi a tempo de confirmar ser a melhor equipa do grupo e candidato a um lugar de destaque na Rússia. A Selecção partirá para Mundial com expectativas justificadas, face à qualidade que foi angariando e consolidando nos últimos anos, e depois de num ou outro momento da qualificação ter provado que tem mais futebol do que o que tem demonstrado.
Um Cristiano Ronaldo a manter-se no topo, com Lionel Messi sempre por perto. A discussão vai continuar sobre quem é o melhor, e isso para aqui pouco interessa. Novos títulos colectivos, entre os quais mais uma Liga dos Campeões, e os maiores prémios individuais, golos atrás de golos, muitos deles decisivos, e a garantia de que o próprio está longe sequer de antecipar o fim. A Pulga salvou a Argentina no limite, Cristiano foi importante na caminhada de Portugal, e haverá também Neymar na Rússia, com um Brasil de novo candidato, reequilibrado por Tite. Não tenho dúvidas de que o Escrete partirá para o Mundial com uma confiança que não tinha há muito tempo, e com alguma da magia do passado, dada por nomes como Coutinho, Gabriel Jesus, Daniel Alves, Douglas Costa e o tal Neymar, claro.
Vinga na Liga um futebol de boas ideias, em que se enquadram pelo menos Rio Ave, Portimonense e Desp. Chaves. Boas apostas das direcções dos clubes, os treinadores Miguel Cardoso, Vítor Oliveira e Luís Castro têm orquestrado alguns dos melhores momentos do campeonato. Em Vila do Conde, a filosofia parece mais duradoura e menos circunstancial, e é bom sinal que se estenda a outras equipas da prova. Privilegiar a posse de bola e não abdicar do seu processo de jogo mesmo perante equipas com maiores argumentos não é fundamento que se esgote em si mesmo. É preciso organização, e também jogadores que possam colocar em campo essas mesmas ideias com maior facilidade. A ideia tem de ser sustentada. O Rio Ave é, por isso, o melhor exemplo, e tem-se mantido entre as melhores equipas do campeonato. Para já, as três chegam ao inverno sem grandes motivos de aflição.
Há promessas de um Sp. Braga com margem de crescimento, logo a começar pela boa prestação europeia, que se estendeu a exibições personalizadas na Luz e em Alvalade na segunda metade do ano. Há muito que os minhotos tentam aproximar-se dos grandes, mas só o conseguiram de forma esporádica no célebre ano da luta com o Benfica pelo título, com Domingos Paciência ao leme. Não será ainda muito provavelmente esta época que o conseguirão, mas com processos consolidados depois de um arranque mais trémulo, e com a perspectiva ainda de reforço de um plantel com muita qualidade, poderão estar a ser lançadas as bases para uma nova tentativa em breve. Assim, 2018 o confirme.
Se a primeira metade do ano viu o Benfica chegar com justiça a um inédito tetra, a segunda teve um FC Porto cheio de adrenalina, ainda que condicionado pelo fair-play financeiro, disposto a desafiar o status quo e até a afirmar-se como grande candidato a festejar em maio, nem que seja pelo que mais jogou no embate com os rivais. Para já, os dragões estão em todas as frentes – Liga, Liga dos Campeões, Taça de Portugal e Taça da Liga – e o mérito tem de ir todo para o novo treinador Sérgio Conceição. O Sporting mantém a ambição, e com a investida confirmada no mercado em Janeiro, faz novo all-in para 2018. O plantel tem inúmeras soluções, mantém referências e, para já, está a par dos dragões. Os encarnados já perderam tudo menos a Liga, e precisam de tempo e até de jogadores para o novo modelo, mas continuam por perto. O dérbi será muito importante para o que aí vem.
Duas super-equipas, contruídas com muito dinheiro. Se olharmos apenas para o lado desportivo – esquecendo por momentos as questões relacionados com o fair-play financeiro –, e colocando de parte a falta de equilíbrio que tal origina nos campeonatos locais, é um prazer assistir ao que Manchester City e Paris Saint-Germain são capazes de colocar em campo. No caso dos ingleses, há que somar à qualidade importada o factor-Guardiola. Se internamente já se percebem as diferenças há várias semanas, o maior desafio será agora a nível continental, com o campeão em título Real Madrid – que terá já pela frente os franceses –, Barcelona e eventualmente Bayern Munique e Juventus a terem mais rivais com que lutar pela glória na Champions.
Kevin de Bruyne. A grande figura de um Manchester City de luxo. O belga está, aos 26 anos, no melhor momento da carreira, soma golos e assistências, com a posição mais recuada em campo, como eventual número 8, a beneficiar a fantástica visão periférica de que dispõe. Ele vê tudo, disse Guardiola quando chegou, e tem razão. Dispensado do Chelsea por Mourinho foi afirmando-se no Wolfsburgo até ser recuperado pelos Citizens, ainda de Manuel Pellegrini, a troco de 75 milhões de euros. Claramente o melhor jogador da primeira metade da época, e responsável em grande parte pela produtividade de Agüero, Gabriel Jesus, Sterling e Leroy Sané. Que craque!
Nas modalidades, Miguel Oliveira em Moto2, Frederico Morais no surf, Inês Henriques na marcha, e os já catedráticos Telma Monteiro, Nélson Évora, Fernando Pimenta e Patrícia Mamona deixam também excelentes indicações para o próximo ano."

O que não mudou em 2017, e ainda vai a tempo de mudar a partir de Janeiro

"O futebol português enfrenta a falta de convergência e a necessidade de rotura.

2017 foi um ano cheio de casos, e não só por cá, e pode recapitulá-los aqui.
O que infelizmente não mudou no ano que agora termina foram os decibéis atingidos pelo ruído em torno do futebol português.
Também não se viu por parte de Liga, Federação ou, no limite, do Governo qualquer movimento que possa ser levado a sério para reduzi-lo ou até limitá-lo a um burburinho que não incomode ninguém. Continuo a achar que não basta um ou outro artigo de opinião, ou uma ou outra reunião mais ou menos secreta, depois de anos sucessivos a viver um laissez-faire de certa forma cúmplice, para voltar a colocar o futebol português nos eixos.
A Liga é impotente para colocar os clubes profissionais a remar para o mesmo lado e a defender o produto que criam e que lhes poderá dar dividendos futuros; a Federação reclama que não detém o poder, mas nos assuntos em que o detém é incapaz de ultrapassar uma velocidade tão anos-90 – com meses de audiências e testemunhos pelo meio, quando noutros países a justiça demora horas –, e também barreiras culturais que transitam desse tempo; e o Governo existe apenas numa ou outra declaração do Secretário de Estado que nunca faz eco.
O futebol português necessita de uma convergência, que demora e parece cada vez mais longe de acontecer – é a partir desse vazio que nasce este movimento G-15 sem os grandes, logo sem os grandes influenciadores de decisão e com a dúvida que essa mesma ausência acarreta –, ou da rotura. 
Não faz sentido que sejam os clubes, os principais interessados, a regulamentar competições, e ao mesmo tempo o país precisa de uma instituição – que até poderia ser a federação, mas uma federação capaz de ultrapassar processos antigos e verdadeiramente moderna em toda a sua plenitude – para fazê-lo. Uma instituição virada quase exclusivamente para o produto e servindo exclusivamente esses interesses, clarificando leis, e a aplicação das mesmas, e punindo severamente, em tempo útil, quem o tentasse denegrir.
Enquadro aqui o video-árbitro, e também uma eventual tecnologia de linha de golo, que até teria sido mais necessária que o próprio VAR, e o resto que tem sido feito, como a divulgação dos relatórios dos árbitros e outros processos em torno da clarificação da arbitragem. Mais do que atos isolados, deveriam ser parte de uma acção generalizada, com que está no parágrafo acima, e acredito que contribuiriam nesse sentido para ajudar a credibilizar o futebol em Portugal.
Quem lê o que escrevo neste espaço, sabe que nunca fui acérrimo defensor do VAR. Para mim, o problema não é nem nunca foi tecnológico, mas sim cultural e passa sempre pelo peso que atribuímos às decisões dos árbitros. O VAR não iria mudar tudo o que estava mal, nem iria ser o Santo Graal, tal como o tentaram vender. Não acabaria com o erro, anularia uns e deixaria passar outros, e mesmo o que detectasse estaria sempre dependente da interpretação humana.
Ao fim de alguns meses, a minha opinião não mudou, e penso que até contribuiu, em certos momentos, para aumentar o ruído em torno do jogo. Ou seja, uma iniciativa assente em algo tão volátil ou inexistente como a cultura desportiva do adepto luso iria sempre ter muitas dificuldades em manter-se firme e sólido. Há muito que fazer neste aspecto ou não estivesse em fase experimental, e a modernidade também passa por aí: clarificar os gestos e o recurso ao VAR, tornar públicas todas as comunicações e imagens, deixar os árbitros falar normalmente sobre os jogos e explicar decisões. 
Com o tempo, talvez nos habituemos a esse corpo estranho, desde que deixemos de pensar como o solucionador de todos os problemas do mundo, incluindo os de cada um.
Não é só em Portugal que há problemas. Desde logo, a imagem deixada pelo fair-play financeiro que persegue os menos poderosos e deixa que sejam formadas super-equipas com gastos astronómicos, como recentemente aconteceu com o Manchester City e com o PSG, com os franceses a utilizarem o empréstimo de Mbappé como escapatória às regras da UEFA. Ou será que o fair-play financeiro também é uma treta?
Também aqui há algo a fazer, e esperam-se cenas dos próximos capítulos.
2017 trouxe ainda a falta de investimento por parte do Benfica, o que certamente os dirigentes do clube não traduzem por «falta de ambição», mas que terá de ser encarado dessa forma por todos os outros, e que contribuiu para uma Liga dos Campeões humilhante. Excesso de confiança, má preparação da época, reação tardia no mercado e depois na transfiguração da equipa para um modelo mais equilibrado – de tudo isso os encarnados podem ser acusados. Bem mais de cem milhões ganhos, menos de 10 gastos, a perda de qualidade e envelhecimento gradual de algumas referências na equipa, num momento histórico do clube, a poder consolidar o seu domínio a nível nacional. Os primeiros sintomas começaram na Europa, onde se tornou o pior cabeça de série da história, passando a pior participação europeia de um clube português, e depois continuaram na Taça de Portugal e Taça da Liga, ficando com a Liga apenas pela frente.
À entrada do novo ano, o Benfica precisa de emagrecer em número mas de somar em qualidade, o que significa que o último objectivo da temporada pode estar também ele dependente de eventuais correcções no mercado. Os bons sinais do 4x3x3, que precisa ainda de equilíbrio no plantel – há solução para Krovinovic ou para Pizzi, se não for Krovinovic? –, compensarão o risco de deixar tudo como está, ou de apostar em talento incerto? Qualquer indecisão será aproveitada pelos rivais.
Os problemas financeiros do V. Setúbal não são de hoje, mas desta vez coincidiram com um impasse directivo e com o último lugar na tabela, consequência dos últimos resultados. É verdade que, num grupo com Benfica e Sp. Braga, foram os sadinos a qualificar-se para as meias-finais da Taça da Liga, mas tal não serve de grande compensação. É sinal que o grupo, apesar de jovem, tem qualidade para inverter a situação desportiva. Já a financeira parece mais difícil de solucionar. Tem a palavra o novo presidente."