Últimas indefectivações

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Gosto da 'sexy' Jutta Leerdam


"Neerlandesa de 27anos conquistou o ouro nos Jogos Olímpicos 2026 nos 1000 metros de patinagem de velocidade, bateu o recorde a foi celebrar em lágrimas com o namorado, o pugilista Jake Paul. Pelo meio, ainda arranjou tempo para partilhar as emoções com os milhares de seguidores que tem nas redes sociais

A polémica não é nova, mas ganha sempre novas protagonistas. Desta vez chama-se Jutta Leerdam, a nova campeã olímpica, obviamente uma das melhores patinadoras de velocidade do mundo. Qual é, então, o problema? É bonita, tem milhões de seguidores nas redes sociais e assume, sem pedir licença, o estatuto de influencer. Para alguns, isso basta para lançar a suspeita: será possível conciliar alto rendimento com exposição mediática?
Há quem diga que não. Que o desporto de elite exige clausura, foco absoluto, sacrifício total. Que o corpo, no alto rendimento, deve ser apenas ferramenta de performance e não objeto de consumo visual. Que o tempo dedicado a sessões fotográficas, parcerias comerciais ou conteúdos para redes sociais é tempo roubado ao treino, à recuperação, à concentração. No fundo, que a excelência desportiva é incompatível com a construção de uma imagem pública fora da pista.
Este argumento, apresentado muitas vezes em defesa da pureza do desporto, parece sólido à primeira vista. O alto rendimento, de facto, não perdoa distrações. Milésimos de segundo fazem a diferença entre o ouro e o anonimato. A margem de erro é mínima e a pressão constante. Exigir compromisso total não é, em si, um absurdo.
A questão, porém, levanta-se quando essa exigência não é aplicada de forma igual.
Porque Jutta Leerdam não é menos atleta por ser influencer, conforme provou nos Jogos Olímpicos de inverno esta semana. Os seus títulos e consistência competitiva existem independentemente do número de seguidores. É uma atleta que ganha. Que responde em pista. Que sustenta a sua imagem com resultados, e não o contrário.
Quantos atletas masculinos, mediaticamente apelativos, viram a sua dedicação questionada? Quantos desportistas usam a imagem, a publicidade e o carisma como extensão natural da carreira — sem que isso seja lido como distração ou falta de seriedade? No caso das mulheres, a equação muda. A visibilidade estética transforma-se rapidamente em suspeita moral ou profissional.
Há também outro dado que o discurso conservador gosta de ignorar: o desporto já não vive apenas do cronómetro. Vive de audiências, narrativas, patrocínios e alcance global. Atletas como Leerdam trazem algo que muitas federações passam anos a tentar construir: atenção. Interesse. Público novo. Jovens que talvez nunca tenham visto uma prova de patinagem de velocidade, mas que chegam lá através de uma história, de um rosto, de uma presença digital.
Reduzir isso a futilidade é miopia estratégica.
Claro que existe um risco real — o de a imagem engolir a performance. Da lógica do algoritmo passar à frente da lógica do treino. Mas existe em qualquer carreira exposta e não pode ser presumido antecipadamente e, muito menos, usado como arma seletiva. Avalia-se no gelo, na pista, na competição. E aí Jutta Leerdam continua a responder.
Talvez o incómodo maior não seja a alegada incompatibilidade entre beleza e alto rendimento, mas o facto de uma atleta controlar a própria narrativa. De não depender apenas de federações, marcas ou media tradicionais para existir. De transformar o corpo — historicamente explorado pelo desporto — num ativo gerido por ela própria.
Queremos atletas que rendam apenas quando competem ou também quando comunicam? Queremos mulheres no desporto ou mulheres discretas no desporto?
Eu não gosto de bolachas de água e sal e gosto de Jutta Leerdam cujo talento também se mede na capacidade de existir fora da pista sem pedir desculpa por isso."

Formação, uma aposta estratégica no Karate Nacional com qualidade mundial


"A Federação Nacional de Karate – Portugal (FNK-P) tem desenvolvido várias ações de formação de treinadores porque acredita que o conhecimento é um dos pilares fundamentais da atuação da Federação além de que é determinante para a qualidade, a segurança e o desenvolvimento sustentado do Karate nacional. As iniciativas de formação inicial de treinadores organizados pela FNK-P tem por objetivo assegurar a renovação e o reforço do corpo técnico, o que permite garantir a entrada de mais e novos treinadores no karate que desta forma adquirem conhecimentos sólidos a nível técnico, pedagógico e ético. Acreditamos que a formação é um processo contribui para um ensino mais responsável, coerente e alinhado com os valores e princípios do Karate.
Mas as ações de formação permitem ainda a atualização de conhecimentos sobretudo nos treinadores em plenas funções. Bem sabemos que falamos de uma modalidade que está em constante evolução, novas regras e novas metodologias de treino, logo importa apostar numa aprendizagem contínua que promova a melhoria do desempenho, da eficiência e da capacidade de intervenção dos treinadores em todas as vertentes do karate.
A Federação Nacional de Karate — Portugal (FNK-P) acredita que a formação contínua de treinadores permite um crescimento sustentado dos clubes e na elevação global do nível técnico do Karate em Portugal. Esta aposta estratégica tem produzido resultados concretos que se traduzem em atletas mais bem preparados e desempenhos relevantes, com resultados visíveis e contabilizados a nível europeu e mundial avaliar pelo número de vezes que os nossos atletas sobem ao pódio ou mesmo no ranking mundial.
Uma formação que também teve de se adaptar com a introdução do Karate Adaptado no seio da FNK-P, uma vez que exige o desenvolvimento de formação específica dirigida aos treinadores e a todos os agentes envolvidos nesta área. Trabalhamos e ajustamos a formação como forma de garantir uma prática competente e ajustada às diferentes necessidades dos praticantes, promovendo um Karate verdadeiramente inclusivo. Esta formação de Karate adaptada tem um benefício direto e claro pois assegura a integração das pessoas com deficiência tanto na vertente competitiva (Para- Karate), sob a égide da FNK-P, como na prática regular desenvolvida nos clubes e associações, reforçando a igualdade de oportunidades, a qualidade da intervenção técnica e o relevante papel social da modalidade. Na vertente para-Karate verificamos resultados de excelência alcançados quer a nível europeu e mundial pelos nossos Para-karatecas que representaram Portugal através desta Federação.
Há ainda a acrescentar que a formação inclui também os Técnicos de Arbitragem, uma área na qual a FNK-P tem mantido, ao longo da última década, um investimento contínuo e estratégico. Uma aposta que é para continuar uma vez que esta formação se revelou muito profícua ao permitir dotar a arbitragem nacional de elevados níveis de competência, acompanhando a evolução verificada ao nível dos treinadores e dos atletas. Tal como previsto, o resultado confirma que neste momento Portugal dispõe de uma arbitragem mais qualificada, rigorosa e credível, com árbitros reconhecidos a nível europeu e mundial, contribuindo decisivamente para a qualidade das competições nacionais e para o desenvolvimento sustentado do Karate competitivo em Portugal.
Assim, a Federação Nacional de Karate — Portugal (FNK-P) vai continuar a apostar na formação de todos os que assumem um papel importante na promoção de uma modalidade de qualidade, pois só com conhecimento adequado e atualizado é possível imprimir qualidade ao karate que tem dado muitas conquistas a Portugal. Temos atualmente atletas portugueses de qualidade mundial e acreditamos que este é o caminho para fazer mais e melhor."

El Fútbol, ese psicópata feliz

Primeiro luminoso e depois cinzento, o Benfica saiu feliz dos Açores


"Com uma primeira parte de domínio e uma segunda gestão, as águias venceram (2-1) o Santa Clara e colocam pressão em Benfica e Sporting. Pavlidis destacou-se

É preciso dar o mérito a quem se adapta à evolução das circunstâncias. Com sol: golos, ataque, trocas de passe, desequilíbrio, sorrisos. De noite: cautela, gestão, deixar andar, vantagem mínima, vamos lá para casa que isto está feito.
De tarde houve golos, dinamismo. De noite, à medida que o relvado se degradava e as camisolas ficavam manchadas de lama, vestiu-se outro traje.
No fim de tudo, o Benfica derrotou o Santa Clara por 2-1. O desígnio de José Mourinho para a segunda volta era "dar caça" aos rivais e, bem, a coisa não tem corrido mal. À condição, as águias estão em igualdade pontual com o Sporting e a quatro pontos do FC Porto.
A tarde açoriana recebeu o jogo com o sol a brilhar, cenário raro nas últimas semanas do nosso futebol. As nuvens, claro, viam-se ao fundo, mas o panorama verdejante era iluminado, conferindo à partida um amigável toque inicial. Tudo se foi alterando, o sol pôs-se, o campo ficou lamacento, o bucolismo foi trocado pela burocracia. E o Benfica adaptou-se coerentemente.
Em São Miguel mora um clube que vive distante das glórias da época passada, quando foi a sensação da I Liga. Não é novo para o Santa Clara andar numa montanha-russa que vai da qualificação europeia à ameaça — e até concretização — de descida, mas os últimos tempos foram particularmente conturbardos. Vasco Matos saiu, a SAD ameaça deixar o arquipélago pela perda de patrocínio do Governo Regional.
Com dois pontos somados nas últimas nove jornadas, o Santa Clara vai vendo o que era uma posição relativamente cómoda transformar-se numa vertiginosa descida pela tabela. A homenagem a algumas das modalidades dos Jogos Olímpicos de inverno augura pouco de bom e Petit, que somou a segunda derrota em dois jogos, deve encher-se de preocupação para a dúzia de rondas que faltam.
Rafa voltou a ser titular no Benfica, reforçando que José Mourinho quer puxar pelo melhor do velocista. É curioso que o Benfica, que há semanas era a equipa dos médios que recuperavam e perdiam bola, juntando Enzo, Ríos, Aursnes, Sudakov e Barreiro no mesmo onze, seja agora um conjunto de criativos, de gente para desequilibrar no último terço, unindo Rafa, Prestianni e Schjelderup.
A cola que liga tudo é Pavlidis. O grego, que nem vinha estando muito inspirado na finalização, é arco e flecha, finalizador e construtor. Em 20 minutos, vimo-lo nos dois papéis.
Primeiro Vangelis correspondeu da melhor forma a um cruzamento de Tomás Araújo, que foi o titular na direita da defesa. O central de origem, que passou parte do encontro com queixas físicas, voltou a provar que está longe de ser um central que não tenha recursos a atacar.
O 1-0 veio aos 16', o 2-0 passados 20 minutos. Pavlidis gosta de se refugiar na esquerda, ziguezagueando, fintando, pedindo a outros que ocupem a área. Galgou pela esquerda e serviu Prestianni, com o golo a acabar por ser de Paulo Victor na própria baliza. Sem encantar, os visitantes chegavam ao descanso com conforto.
Se o desafio poderia parecer uma história quase fechada, Trubin encarregou-se de a abrir. Gonçalo Paciência está de volta ao futebol português depois de uma viagem ao estilo de Willy Fog, jogando na Alemanha, Espanha, Japão e Brasil. Aos 47', o cabeceamento do atacante chegou morto à baliza encarnada, mas Trubin reanimou-o. Desde janeiro de 2018 que Paciência não marcava em Portugal. Desde então representou sete clubes em cinco países diferentes.
A redução da vantagem levou o Benfica para um terreno diferente. Já não havia a luz da primeira parte, as combinações fluidas, o golo fácil. Entrou-se numa área mais de gestão, de proteger a baliza, como se condizente com o cair da noite e afetado pela progressiva degradação de um dos piores relvados da I Liga.
Os últimos 30 minutos foram de um tipo pouco agradável de futebol. O Santa Clara não conseguia chegar à frente, efetuando o seu último remate enquadrado aos 54'. O Benfica não queria muito lá ir, não tendo qualquer finalização à baliza no segundo tempo.
O apito final foi-se aproximando como um carro sem travão de mão, mas estacionado numa rua pouco inclinada. Foi descendo, sem nada que o parasse, mas sem vertigem. O desfecho caiu inevitável sem resquícios de mudança. Segue-se o Real Madrid para o Benfica."

O MAIS IMPORTANTE FOI CONSEGUIDO VALEU PELA BOA PRIMEIRA PARTE


"Santa Clara 1 - 2 BENFICA

> passamos de um árbitro que fez vista grossa a três penáltis claros na Luz contra o Alverca para um que vive obcecado por marcar penáltis contra o Benfica: na época passada foram três em três jogos, todos o VAR quis reverter, num ele levou a dele avante e justificou-se com a rasteira do Otamendi com a cabeça. E com isso colocou o Sporting na frente com dois pontos de avanço três jornadas do fim da prova.
> lembrar que em 25-26 o Sporting ganhou nos Açores com um golo que nasceu de um canto escandalosamente inventado, que se manteve na Taça fruto de um inacreditável penálti de 15 minutos de VAR, que o Porto ganhou com uma oferta do tamanho do mundo do redes do Santa Clara - toma lá, Samu, é só empurrar lá para dentro -, que o Santa Clara é agora orientado pelo Petit, que transmite muita raça às suas equipas e que o relvado está classificado como o pior da liga - ao menos não chove!
LA LA LA
LA LA LA LA
FORÇA BENFICA
VENCE POR NÓS!

00 vamos carregar com Barrenechea no lugar do lesionado Aursnes - e como sinto a falta deste craque sempre que não joga - e Tomás Araújo a defesa-direito com Banjaqui no banco
04 Rafa derrubado pelo redes depois de cabeceamento defeituoso, o contacto não é daqueles em cheio, até admito que passe ao lado do VAR, que não seja nada, mas se fosse com o Hjulmand 
12 os nossos passam a vida a escorregar, difícil perceber porquê dada a forma como as equipas se previnem hoje em dia para todo o tipo de situações
16 um-zero: PA-VLI-DIIIIIIS! De cabeça a calar os muitos comentadores "independentes" que garantem que atravessa mau momento. O grego que vá agradecer ao Tomás o primor da assistência: uma prenda com laçarote e tudo! Estamos na frente
20 Benfiquistas a garantir a maior assistência da época, seja dia ou noite, faça chuva ou sol, dia de semana ou fim de semana, ninguém se compara
24 ui, ui, ui que o Rafa ia regressando aos golos com o Manto Sagrado vestido, malandro do redes foi lá com a pontinha dos dedos, o remate cruzado ia certinho lá para dentro
26 estamos a perder muitos duelos no meio campo, não estamos com o controlo do jogo. E o relvado vai mostrando por que é considerado o pior da liga
31 Barreiro no chão, o Nobre diz que não é nada, o defesa levanta logo as mãozinhas a dar ideia de que fez qualquer coisa à margem das leis para parar o Barreiro na área, o Manuel Oliveira - habituámo-nos a vê-lo frequentar camarote no Dragão - também entende que não se passou nada. Lance a rever com calma mais tarde
37 dois-zero: PRES-TI-A-NIIIIIII! Que grande jogada do grego - atravessa mau momento ah ah ah - a ir à linha assistir e o miúdo a antecipar-se ao defesa e a desviar na pequena área. Gostei do homem da Sporttv a querer que fosse autogolo, nossa senhora!, é do Prestianni, homem! E é do Prestianni à maneira do Mourinho, que quer jogadores gulosos pelo golo e o Prestianni foi guloso, apareceu no poste contrário a finalizar
[os comentários são escritos em direto e, a bem da verdade, foi efetivamente autogolo, pelo que, não apagando o que escrevi, porque nunca o faço, reconheço através desta observação o erro]
45+2 primeira parte competente, segura, vantagem mais do que justa
47 dois-um: caramba, ó Trubin, tanto fazes o melhor como o pior, acabaste de dar um perú daqueles carregado de penas por todos os lados, que bola tão inofensiva, como é possível? Fizeste-os do nada reentrar no jogo, Anatoly, já me lixaste o sossego, ia assistir à segunda parte de cadeirinha...
54 muita porrada leva o Rafa - e cartões, nada?
56 Schjelderup no chão, o gajo joga a bola ao mesmo tempo que dá a cacetada no nosso, enfim, já sabemos que não é nada
62 e agora esta falta sobre o Pavlidis na área? O defesa toca na bola? OK...
65 épá, convém pegarmos no jogo, isto assim dividido pode dar golo para eles de um momento para o outro, mesmo sem estarem a criar perigo pode do nada sair um golo. E como é que o apitador pára esta jogada de ataque para marcar uma falta a nosso favor?
67 joga neles um tal de Gabriel que faz faltas perigosas, reparem que escrevi faltas no plural, mas o cartão não sai do bolso do Nobre. Há quanto tempo não criamos uma oportunidade de golo?
76 belo jogo está a fazer o António, muito seguro, atento, a varrer a sua zona sem facilitar, a ganhar duelos, muito bem, espero que seja titular contra o Real na terça-feira
85 tanto tempo para marcar um livre direto perigoso, um livre direto perigoso para não dar em nada, não gosto nada disto só com um golo de vantagem, o meu coração não tranquiliza e eu só tenho um coração
89 vai entrar o Manu - então e o Anísio?
90 mais 5 minutos, faltam mais 5 minutos. Não conseguimos fazer posse de bola continuada no meio campo deles? É para um amigo...
90+3 é assim mesmo Manu, parar a transição logo à nascença, que se lixe a falta, aí não tem qualquer perigo, perigo era o gajo levar a bola na direção do nosso meio campo
90+5 A-CA-BOU! Os três pontos já cá moram, vitória justa, cabeça agora no importantíssimo jogo de terça-feira, bom regresso a Lisboa, vamos ver os outros descansadinhos e a torcer pelos adversários"

Jaime Cancella de Abreu, in Facebook

Em relvado feio a estética da vitória pouco importa


"Águias saem dos Açores com três pontos depois de uma primeira parte em crescendo e um segundo tempo firme. Estão a quatro pontos do FC Porto e lado a lado com o Sporting

O Benfica continua a olhar para cima e, pelo menos até saber o resultado do Sporting, olha agora para o lado também. As águias foram aos Açores somar três pontos e igualar os leões com o desempenho possível numa vitória que não merece contestação. O Santa Clara chegou ao jogo como o relvado, em mau estado, e, sendo uma das equipas em pior forma no campeonato, viu o Benfica marcar quando quase nada tinham feito os lisboetas para chegar ao golo. A entrada satisfatória dos açorianos acabou ali, no cabeceamento de Pavlidis, pois a partir de então o jogo das águias foi em crescendo eaté ao intervalo.
O Benfica pressionou bem na frente e obrigou o Santa Clara a usar a bola longa para sair dessa pressão. Com o jogo controlado por aí, José Mourinho viu Rafa Silva desperdiçar duas boas oportunidades, ainda que, no geral, o estado do terreno e a ausência de Aursnes retirou algum dinamismo ao futebol dos lisboetas. Barrenechea saltou para a titularidade, mas o dinamismo que a dupla Aursnes-Barreiro estava a ter não se viu com o argentino e luxemburguês em campo. Já a outra alteração ao onze tinha resultado, Tomás Araújo foi um lateral que teve impacto ofensivo, com o 1-0 a ser maior exemplo disso.
Quando o descanso chegou, com 2-0 no marcador após uma das melhores jogadas do encontro, com Pavlidis como protagonista no passe, o Benfica era dono da partida e a probabilidade de chegar aos três pontos era altíssima: pelo resultado, obviamente, pelo que se via o Benfica fazer e por aquilo que o Santa Clara não conseguira executar perante a boa organização da equipa de Mourinho. Fruto dos últimos resultados, os açorianos saíram cabisbaixos e só mesmo algo de estranho poderia vir a inverter o rumo das coisas.
O golo de Gonçalo Paciência foi esse momento insólito, pela infelicidade de Trubin, e reabriu a dúvida quanto ao desfecho do encontro. O Benfica tinha crescido com o tempo na primeira parte, mas o mesmo não sucedeu na segunda. As águias deixaram de chegar à baliza contrária, com o relvado a tornar-se cada vez mais feio e com as capacidades técnicas dos jogadores a terem de sobressair em cada receção e passe. Não foi fácil jogar, para alguns nem fácil foi manter-se em pé, mas pelo menos o Benfica manteve-se firme.
Mourinho trocou Schjelderup por Sidny Cabral e depois Rafa por Sudakov. Não ganhou muito com isso em termos ofensivos, mas também não perdeu equilíbrio e essa foi a nota dominante. O Santa Clara tinha ainda mais dificuldades que as águias em chegar à área adversária. Para além disso, quando, por exemplo, Mourinho viu o lateral-esquerdo dos açorianos a cruzar, sozinho no flanco, para a área de Trubin, percebeu que era preciso retirar [um já desgastado ]Prestianni e fechar esse caminho também.
O Benfica não pôde descansar até ao apito final, mas só se viu aflito pelos números do marcador e nunca por aquilo que uma e outra equipa produziam.
As águias partem detrás no que resta do campeonato, e estão proibidas de falhar, mas com 2-1 em Ponta Delgada metem pressão nos rivais. Até domingo, altura em que FC Porto e Sporting jogam, olham para quatro pontos de distância para os dragões e nenhum para o vizinho lisboeta.
Mourinho e o Benfica estão na luta e quando não dá para ganhar bonito, há que vencer feio. A estética da vitória pouco importa com um relvado destes. Talvez seja por aqui também que o Santa Clara não vence em casa desde 6 de dezembro..."

Com salada grega assim nem o frango causa indigestão


"Pavlidis brilhou na primeira parte e impediu que o erro de Trubin na segunda tivesse consequências maiores

Melhor em campo: Pavlidis (7)
Um golo, uma assistência, uma primeira parte de luxo do grego, um dos que conseguiram adaptar-se melhor ao relvado pesado, onde mudar de direção requeria um pequeno bailado para não se escorregar — o que torna a brilhante jogada que deu origem ao segundo golo ainda mais impressionante. Pavlidis conseguiu deixar Pedro Ferreira para trás, ganhar a linha e cruzar no momento certo para Prestianni (mesmo que tenha sido Paulo Victor a metê-la lá dentro...). Antes, já tinha inaugurado o marcador na pequena área, finalizando no sítio certo cruzamento perfeito de Tomás Araújo, e depois (43') esteve perto do segundo golo, mas o centro de Schjelderup foi menos perfeito. Depois, na segunda parte, desapareceu, mas o principal trabalho estava feito: a salada grega evitou que o frango de Trubin causasse indigestão.

Trubin (3) — Primeira parte tranquila, sem remates à sua baliza, mas revelando atenção em centro venenoso de Klismahn aos 11' e, logo a seguir, a sair da baliza para evitar que a bola chegasse a Vinícius. Na segunda parte... borrou a pintura. No primeiro remate do Santa Clara à baliza — de Gonçalo Paciência, de cabeça, após canto —, Trubin abordou mal o lance, contou que a bola saltasse mais do que saltou, foi para agarrá-la... e ela passou-lhe por entre as pernas. Aos 54' não facilitou, encaixando remate de longe de Lucas Soares, mas aquele tremendo frango podia ter custado bem caro, e sobretudo deixou o Benfica no arame toda a segunda parte, quando de outra forma até podia ter pensado num descanso ativo.

Tomás Araújo (7) — Voltou à lateral direita, onde tanto jogou com Bruno Lage mas onde ainda não tinha sido utilizado por José Mourinho. E em boa hora o fez. Entrou atrevido, envolvendo-se bem no ataque, com combinações com Prestianni, e arrancou o cruzamento perfeito para Pavlidis inaugurar o marcador. Depois, mesmo com queixas no joelho direito, ainda lançou Rafa para uma das melhores oportunidades da primeira parte. Seguro a defender.

António Silva (5) — Foi quem mais caiu em cima de Gonçalo Paciência e ganhou e perdeu lances, mas contestou-os o suficiente para reduzir a influência do ponta de lança do Santa Clara — até no lance do golo: saltou com Paciência, impediu que o cabeceamento saísse com força, mas não contava que Trubin falhasse uma recolha que parecia fácil.

Otamendi (6) — Mais solto que o parceiro do lado, mas também teve alguns choques com Gonçalo Paciência, levando quase sempre a melhor. Limpou muitos lances e várias vezes surgiu no caminho da bola, travando remates do Santa Clara antes que eles chegassem à baliza.

Dahl (6) — O Benfica procurou mais a direita a atacar e por isso o sueco não se viu muito no ataque, mas quando apareceu fê-lo com critério e qualidade. A defender, não deu hipóteses.

Leandro Barreiro (6) — Algo trapalhão — deixou escapar duas boas situações na área, na reta final do encontro, uma por mau domínio de bola, outra com remate disparatado —, mas emprestou tremenda dinâmica à equipa, conseguindo ganhar metros no ataque e fazer todas as compensações necessárias a defender.

Enzo Barrenechea (5) — De regresso ao onze, pouco ou nada mostrou para fazer esquecer Aursnes. Sim, esteve seguro a defender, sem grandes erros — mas Klismahn, no seu raio de ação, foi o açoriano mais perigoso. Sim, esteve certinho a atacar — mas cada passe a mais de 15 metros era uma aventura.

Prestianni (7) — Foi o principal desequilibrador do início do jogo, muito ativo pelo corredor direito, e acabou por estar na jogada que abriu o marcador — tentou primeiro centro antes da bola chegar a Tomás Araújo. Esteve também no segundo — foi Paulo Victor quem marcou na própria baliza, mas foi a diagonal do argentino, da direita para o meio, para tentar finalizar a jogada de Pavlidis, que arrastou o lateral do Santa Clara para a zona perigosa.

Rafa (6) — Não foi decisivo (bom remate aos 25', mas Gabriel Batista defendeu), mas foi muito importante, sobretudo na segunda parte, pela forma como conseguiu receber rodeado de adversários e ganhar faltas ou soltar-se para desequilibrar. E não foi decisivo, na verdade, porque Schjelderup e Leandro Barreiro, aos 52' e 53', desperdiçaram na área passes cantados do 27.

Schjelderup (5) — Se Pavlidis foi quem melhor se adaptou ao relvado, o norueguês foi quem mais dificuldades sentiu, escorregando várias vezes. Pouco influente, mas trabalhou muito na defesa.

Sidny Lopes Cabral (6) — Entrou aos 68' e dois minutos depois já tinha arrancado um belo centro para Tomás Araújo, que Romão impediu que chegasse ao destino, e um remate ameaçador ao primeiro poste. Jogou de olhos na baliza e esteve perto do 3-1 na compensação.

Sudakov (5) — Lançado aos 79' para o lugar de Rafa, teve boa ocasião de livre direto mas escorregou e acertou na barreira. Acabou na direita do meio-campo, para ajudar a segurar Romão.

Manu Silva (—) — Entrou para a compensação, para ajudar a segurar a vantagem. Não teve tempo para muito, mas contribuiu com falta inteligente sobre Djé Tavares para parar contra-ataque."

Vinte e Um - Como eu vi - Santa Clara...

Oliveira: Santa Clara...

Simples: Santa Clara...

Observador: A Força da Técnica e a Técnica da Força - Santa Clara...

Terceiro Anel: React - Rescaldo - Mourinho - Santa Clara

Terceiro Anel: Santa Clara...

BI: Rescaldo - Santa Clara...

BF: Santa Clara...

5 Minutos: Santa Clara...

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Vermelhão: Merecíamos um marcador mais descansado...

Santa Clara 1 - 2 Benfica


3 pontos conquistados em São Miguel, com uma boa primeira parte, e um 2.º tempo perigoso, sem que o adversário cria-se perigo relevante, mas com uma vantagem mínima perigosa, concedida escusadamente num golo mal sofrido pelo Trubin!

A nota principal desta sexta-feira 13, foi mesmo o anúncio da lesão do Aursnes, aquele que para mim, estava a ser o consistentemente o melhor jogador do Benfica, desde que começou a jogar na sua posição original! Sendo ainda mais importante, a partir do momento, em que que o Rafa substituiu o Sudakov! O Aursnes, passou a ser o nosso ´8´ e o nosso ´10', além de dividir a posição de '6' com o Barreiro, um verdadeiro 3 em 1 !!!

O Enzo acabou por fazer um bom jogo, os melhores minutos do Enzo, desde da lesão no ombro, mas não tem a capacidade de pensar o jogo como o Aurnses, principalmente no passe vertical, na capacidade de aparecer em zonas avançadas, nem que seja em desmarcações para arrastar os adversários, e na pressão alta.

A surpresa foi o regresso do Araújo à Lateral Direita! Não sei se o Mourinho quis testar algum esquema para o Real Madrid, ou se ficou com medo de apostar no Banjaqui, contra um adversário manhoso, com um jogadores perigosos e rápidos, que caem nas Laterais! O Sidny creio que ficou provado contra o Alverca, que não dá muita confiança como Lateral neste tipo de jogos...

O Santa Clara está a sofrer com o vírus Europeu!!! Várias equipas que se conseguiram qualificar para a Europa (normalmente ficam pelas pré-qualificações), e não estão habituadas a essas andanças, acabam por ter épocas sofríveis, e às vezes, acabam mesmo por descer de divisão! Trocaram recentemente de treinador, e estão de facto numa fase com menos fulgor, mas continuam a ter jogadores com talento... Mas, hoje, o Benfica deu poucas abébias! Tirando o golo, e o respectivo frango do Trubin, conseguiram alguns remates de longe, quase todos interceptados, e pouco mais...

Bem o Benfica, na reacção à perda de bola... e com um Rafa mais entrosado com os colegas, apesar de continuar a achar que o Sudakov neste momento, daria mais à equipa, mas se o Rafa não jogar, nunca ganhará essas rotinas! Mas ao contrário de outros jogos recentes, até fomos eficazes, e num jogo onde até criámos menos oportunidades do que em Tondela, acabámos por marcar mais golos!!!

O Pavlidis, com o golo e a assistência, foi facilmente o MVP, mas também não foi complicado ser eleito o melhor em campo, numa partida, que também ficou marcada, pelo relvado complicado, apesar de estar seco, não ajudando nada os jogadores mais habilidosos. Notas de destaque para o Prestianni e o Araújo... apesar do argentino, mais uma vez, ter 'falhado' um golo cantado, se não tivesse sido o 'azar' do defesa do Santa Clara, teria sido menos um golo!!!

O Trubin, na Ucrânia, jogou de certeza em campos em piores condições, aquele monte de lama na pequena área, é uma armadilha conhecida pelos guarda-redes... Neste tipo de bolas, pede-se uma deslocação lateral, no momento em que se vai agarrar a bola, tem que ter o corpo por 'trás' da bola, em caso de acontecer um ressalto inesperado...

Com a vantagem mínima, e com o Benfica a dar prioridade à defesa, o jogou ficou um pouco mais nervoso, mesmo sem grandes sustos, mas impediu o Mourinho de fazer outra gestão na substituições... Por exemplo, com uma vantagem maior, o Lukebakio teria tido minutos, se certeza!


O jogo ficou marcado, mais uma vez, pela arbitragem absolutamente horrorosa, do Cabeçudo das Caldas, António Nobre! Permitiu praticamente tudo ao Santa Clara, nos últimos 30 metros, não marcou nada a favor do Benfica, perdi a conta às faltas, em zonas perigosas, perto da área dos Açorianos, que ficaram por marcar! E depois, os penalty's, mais uma vez, os penalty's!!! Já percebi que os Expert's só vão admitir que ficou por marcar o penalty sobre o Prestianni! Difícil justificar descalçar o Prestianni sem o seu consentimento!!! Mas houve mais 3! Sim, mais 3 !!!


- Barreiro: sim, o Barreiro ao sentir o contacto, deixa-se cair, mas o defesa coloca os dois braços, no Barreiro, um no peito e o outro no ombro! A intensidade é irrevelante!
- Pavlidis: sim, quando o defesa estica a perna, não existe contacto inicialmente, mas quando o Pavlidis, dá a passada em frente, existe um contacto de joelho, com joelho!!!
- Otamendi: agarrão evidente, sem bola, numa bola parada, que passou em claro à realização... e aos Expert's e até ao próprio Benfica, que não colocou este lance no 'resumo' dos penalty's que ficaram por marcar!


Nos últimos 3 jogos, ficaram 10 penalty's por marcar (4 Tondela, 3 Alverca e 3 Santa Clara), é um número absurdo, que só se explica pela impunidade! Os nossos adversários sabem que é bastante improvável sofrerem um penalty contra o Benfica, sendo assim, actuam de forma descuidada, sem qualquer 'travão' na forma como defendem! O Benfica esta época, estatisticamente, até tem um número aceitável de penalty's a favor, mas quando começaram a fazer algum barulho nas televisões, houve claramente uma 'ordem' para deixarem de marcar penalty's a favor do Benfica... Neste momento, nem com uma fratura exposta no perónio, será penalty a favor do Benfica!


Terça-feira de Carnaval, o reencontro com o Real Madrid na Luz. O jogo será seguramente diferente, nem que seja pela atitude dos Castelhanos, que vão estar picados, na forma como perderam na Luz, em Janeiro! O Lukebakio já está disponível, o Ríos também poderá estar no banco, o Dedic deverá regressar (vamos ver...), e o Aursnes também poderá jogar em sacrifício! Resumindo estamos longe das melhores condições! Os jogadores que têm estrado lesionados à mais tempo, não têm ritmo de jogo, o o Dedic e o Aurnses arriscam-se a jogar sem estarem a 100%, e se jogar contra o Real Madrid nunca é fácil, jogar com debilidades é ainda mais complicado!


Se por um lado é bom os jogadores e os adeptos acreditarem que podem ganhar! A ambição é positiva. É também importante, não pensar que podemos dividir o jogo com o Real Madrid, só poderemos ambicionar verdadeiramente a uma qualificação histórica, jogando nos limites, com inteligência, solidariedade e muita garra! No campo e nas bancadas!



Critérios elásticos


"O Sporting investiu €20,5 milhões em dois jogadores neste mercado de inverno. O Benfica ficou pelos 11. O FC Porto pelos 10. No futebol português, tantas vezes o que pesa não é o investimento, mas a narrativa construída à volta dele.

Há mercados que se analisam pelos números. Outros analisam-se, sobretudo, pelas reações. E este inverno ficou marcado menos pelo que cada um fez e mais pelo modo como se falou do que cada um fez. No futebol português, tantas vezes o que pesa não é o investimento, mas a narrativa construída à volta dele.
Os factos são objetivos. O Sporting investiu 20,5 milhões de euros em dois jogadores. O Benfica ficou pelos 11. O FC Porto pelos 10. Ainda assim, foi no Dragão que se assistiu ao maior rodopio, quatro entradas e umas quantas saídas, num mês que, segundo a cartilha repetida ano após ano, serve apenas para retoques cirúrgicos, pequenos ajustes, correções pontuais ao que ficou mal resolvido no verão. A teoria é sempre essa. A prática, como se viu, nem sempre acompanha o discurso.
Quando o Benfica ultrapassou os vinte milhões em janeiro passado, a leitura foi imediata e quase unânime. Falou-se em desespero competitivo, em all in, em falha estrutural de planeamento. Disse-se que um clube organizado não precisa de gastar tanto a meio da época. Este ano, com valores praticamente idênticos noutra paragem, o tom foi substancialmente diferente. Análise técnica, contextualização estratégica, explicações ponderadas. O critério, pelos vistos, adapta-se às circunstâncias e, sobretudo, às cores.
O FC Porto apresentou como último reforço um médio de 30 anos. Antes dele tinham chegado um central de 41, um avançado de 26 e um jovem de 17. Um mercado heterogéneo. E é inevitável a pergunta que raramente se faz quando o protagonista veste de azul e branco: o que se diria se fosse o Benfica a construir um mercado com esta lógica? Quantas horas de comentário televisivo seriam dedicadas à falta de planeamento, ao desespero competitivo ou à ausência de rumo?
No Benfica, a contratação de Rafa foi catalogada como um penso rápido, quase um remendo de última hora. Curiosamente, no FC Porto, dois reforços chegaram por empréstimo em poucas semanas e o silêncio foi quase absoluto. Ora, se há solução tipicamente transitória no futebol moderno, é o empréstimo. Mais do que um penso rápido, é uma sutura provisória. Serve para resolver o imediato, raramente para construir o futuro.
Ainda no FC Porto, a renovação de Farioli entra na mesma lógica. Apresentada como visão estratégica, como antecipação inteligente de Villas-Boas, como sinal de estabilidade e confiança num projeto. Recordo bem o que se escreveu quando Rui Costa renovou com Roger Schmidt, tendo ainda dois anos de contrato. Imprudência, precipitação, risco desnecessário, excesso de confiança num treinador que, diziam, ainda tinha muito por provar. Hoje, mesmo com a equipa azul e branca a perder cinco pontos em duas jornadas e a dar sinais evidentes de quebra de rendimento, o tom mantém-se moderado. Não se fala em precipitação. Não se fala em risco. Fala-se em convicção.
Talvez a história venha a ser diferente. Talvez Farioli nem venha a ser campeão uma única vez. Mas uma coisa é certa: a diferença no julgamento já é evidente.
E depois há Alvalade. O capitão ficou de fora frente ao Nacional, sem lesão, sem castigo, sem proposta confirmada. Explicações vagas, declarações que procuram desvalorizar o tema e fechar o assunto rapidamente. A pergunta continua por responder e é simples: por que não jogou Hjulmand? Se não houve recusa, se não houve negociação iminente, se não houve qualquer impedimento disciplinar ou físico, o que justificou a ausência do líder de equipa num jogo oficial? Se fosse com o capitão do Benfica, quantas horas de televisão teríamos dedicado ao tema? Quantas teorias se construiriam? Quantas certezas nasceriam antes mesmo de haver factos?
Vamos agora ao clássico. Esse que tantos anunciaram como decisivo para o título acabou por ser curto de futebol e excessivo em tudo o resto. Dentro das quatro linhas houve pouco para recordar: intensidade irregular, poucas oportunidades claras, demasiada cautela. Fora delas acumulou-se matéria suficiente para regressar a uma velha discussão do futebol português, a de saber se mudam os presidentes mas permanecem certos hábitos.
A tão proclamada lufada de ar fresco que André Villas-Boas prometia trazer teria sido útil, desde logo, no balneário do Sporting, onde o ar condicionado funcionava a temperaturas impróprias e sem possibilidade de regulação.
Vieram depois as cortinas colocadas na bancada dos adeptos leoninos para limitar o apoio, a música em volume elevado a sobrepor-se aos cânticos, as mensagens constantes do speaker lançadas pelo sistema sonoro do estádio, num esforço evidente para controlar o ambiente. Nos minutos finais, a coreografia repetiu-se com os apanha-bolas recolhidos atrás dos painéis publicitários, levando consigo bolas e cones, num expediente antigo, demasiado ensaiado para ser acaso e demasiado conhecido para surpreender quem acompanha o futebol português há tempo suficiente.
No acesso aos balneários, a comitiva sportinguista foi ainda conduzida por um corredor decorado com capas de jornais evocando glórias da casa, quase um museu improvisado para lembrar quem manda naquele espaço. Para quem tem memória longa, foi difícil não recuar aos anos noventa, quando o Benfica chegou a equipar-se em corredores por causa do cheiro nos balneários. Outros tempos, dirão alguns. Talvez. Mas a sensação de repetição foi impossível de ignorar.
O adepto pode discutir opções, criticar mercados, questionar renovações e até relativizar episódios paralelos. Faz parte do jogo. O que já custa mais a aceitar é a elasticidade permanente dos critérios. Quando um investimento é desespero num lado e gestão ponderada no outro, quando uma ausência do capitão gera silêncio aqui e geraria tempestade ali, quando um clássico pobre em futebol mas fértil em episódios paralelos é tratado como simples folclore competitivo, então o problema já não está apenas dentro das quatro linhas. Está na forma como escolhemos olhar para elas. E essa escolha, consciente ou não, acaba sempre por moldar a forma como o futebol é vivido, discutido e, no limite, julgado."

Mourinho já acertou. E agora?


"Tardou até que o treinador encontrasse o encaixe certo das peças, mas lesão de Aursnes e regressos de Ríos e Lukebakio voltam a baralhar-lhe os planos

O empate no clássico de segunda-feira no dia seguinte ao muito suado triunfo frente ao Alverca reabriu o apetite do Benfica pelo título. Sete pontos para o primeiro lugar continuam a ser distância considerável, que nunca foi recuperada em Portugal com 13 jornadas por disputar, mas o cenário na Luz é francamente mais animador do que há um par de semanas, sobretudo tendo em conta que o FC Porto visita a Luz no início de março.
Não é que o Benfica esteja a deslumbrar, muito longe disso, mas, pelo menos, José Mourinho encontrou, ao fim de muito tempo, o onze base que melhor tem funcionado desde que assumiu o lugar de Bruno Lage, em setembro passado. É certo que o encaixe de Aursnes, Barreiro, Prestianni, Sudakov e Schjelderup atrás de Pavlidis foi forçado por várias ausências no plantel, desde logo Barrenechea, Ríos e Lukebakio, mas a equipa parece ter, finalmente, encontrado alguma harmonia em campo. Resta saber o que irá na mente de Mourinho, agora que o período crítico de lesões parecia ter ficado para trás, exceção feita a Bah, cuja disponibilidade a curto prazo é ponto de interrogação.
As melhorias no coletivo depois de um arranque de 2026 paupérrimo em resultados e exibições foram notórias e em grande parte justificadas pela revolução a meio-campo: Barrenechea e Ríos foram apostas altas do Benfica que, até agora, não corresponderam ao que deles se esperava e a dupla Aursnes-Barreiro tem funcionado largamente melhor do que a sul-americana. Não só pelo trabalho de para-brisas à frente dos centrais, mas porque isso permite à equipa encaixar Sudakov na sua melhor posição e soltar a criatividade de Prestianni e Schjelderup, que, com o tempo de jogo merecido, têm justificado a aposta de Mourinho.
Ríos é o segundo mais caro de sempre e Lukebakio barato não foi, mas, nesta altura, não mexer no que está a funcionar seria o mais aconselhável. A lesão de Aursnes, quando o norueguês tinha recuperado o rendimento da primeira época, volta, contudo, a baralhar as contas ao treinador. Sem falar de Rafa, que certamente não terá vindo para passar muito tempo sentado no banco.

P. S. — Já muito se escreveu sobre as bafientas tradições que o clássico no Dragão trouxe de volta, mas importa perguntar: ainda alguém se surpreende? As paredes do balneário estavam decoradas por motivos turísticos, a televisão com imagens para pressionar Fábio Veríssimo no intervalo foi um erro de interpretação e, no FC Porto-Arouca de 2023, o VAR esteve desligado durante 13 minutos por culpa da MEO. Há coisas que não mudam e os limites no Dragão continuam a ser algo muito difícil de entender."

O que é Aursnes para vós?


"Fredrik Aursnes é primeiro o que querem que ele seja e não precisa de brilhar sozinho: faz toda a equipa parecer melhor. E esta terá de viver sem ele nos próximos tempos

O que realmente vale Aursnes? Esta época, soma três golos e duas assistências. Desde que chegou à Luz, contabiliza 34 remates certeiros e 12 últimos passes em 190 encontros, divididos por 15.653 minutos. Dá uma ação decisiva a cada 340 minutos. A cada 3,8 jogos. Não são números que impressionem, ainda mais porque andou a pisar terrenos mais adiantados do que aqueles em que José Mourinho o quer ver agora.
Dificilmente serão estes os números que sustentam a aposta consistente. Que explicam porque nenhum treinador abdicou do norueguês em campo e porque lhe falta apenas experimentar ser guarda-redes, central e ponta de lança com a camisola dos encarnados vestida. Não só nunca estará obviamente descartado o poder ter acabar de fazer mais uma ou outra posiçã até ao final do contrato, daqui por três épocas e uns poucos meses, como é também normal que o habitual não sabe jogar mal se estenda, no seu caso, a em que posição for.
Não serão também outras estatísticas a defini-lo. Seguramente não os 86% de passes curtos certos, que baixam para 27,8% no meio-campo contrário. Ou os 47% de eficácia nos longos. Ainda menos os 28% de cruzamentos que chegam ao destino procurado. Faz dois desarmes por jogo, recupera uma vez a posse para lá do meio-campo, 4,7 nas duas metades do relvado. Ganha 55% dos dribles que tenta e 51% dos duelos. Eventualmente, talvez os quilómetros percorridos... Mas isso por si só não convenceria quase ninguém que contratasse só pela big data.
Aursnes faz as delícias dos adeptos. É protagonista de piadas, punch line de campanhas de marketing. Não é um driblador ou um criativo nato. Não tem uma técnica de passe brilhante ou um incrivelmente certeiro. Não voa sobre os centrais para cabecear. A sua meia-distância, não sendo má, também está longe de ser fulgurante. Não rouba dezenas de bolas. Não ganha em velocidade. Com bola ou sem esta. A técnica não é o seu forte e há quem seja mais... forte. Não é nada disto e, ao mesmo tempo, é tudo.
Uma ideia parece certeira: faz sempre o colega do lado ser melhor do que é. Se tem Dedic por perto, está lá para colocar o bósnio a jeito, permitindo-lhe massacrar o flanco. Se é Dahl ou Schjelderup, disfarça-se de totem para ajudar a envolver o rival. Já que agora o mandam descer para o lugar para o qual foi contratado, porém raramente desempenhou, será aquele que Leandro Barreiro precisa que seja para que o luxemburguês se vista do 10 que, a dada altura, Mourinho achou que poderia ser o início e o fim de tudo. Se voltar a ser lateral, sê-lo-á como antes, tornando-se tão útil que parecerá que não é preciso mais ninguém, que ele dará sempre conta do recado. Menos que os cruzamentos não saiam sempre perfeitos, ele encontrará um jeito.
Fredrik é, primeiro, o que quiserem que ele seja. Depois, é o que acha que deve ser, mediante o papel que entendem necessário que desempenhe. E isso é entrega. Dedicação. Um homem e uma causa. O verdadeiro exemplo do latim bordado no emblema que tem ao peito. O capitão de um Benfica bem para lá dos que ostentam os habituais símbolos de liderança. Mas um anti-herói, que deixa escapar aquele eu? com sotaque, quase pueril, quando lhe pedem protagonismo.
E, no fundo, é isso que o define. Não os números que se leem em relatórios, nem as estatísticas que aparecem no final de cada encontro realizado, mas a capacidade de ser indispensável sem precisar de brilhar individualmente. Cada passe, cada desarme, cada deslocamento é pensado para que o coletivo funcione melhor — e é essa inteligência silenciosa que faz a diferença quando tudo parece encaixar. Ele sabe sempre o que fazer mesmo que não saiba como fazer. Por isso, está lá para ajudar quem sabe.
Enquanto uns se perdem em estatísticas ou lampejos de genialidade, ele transforma consistência e entrega em vantagem concreta para a equipa. E, se no final de uma época, a balança não mostrar golos ou assistências em abundância, o que aparece a nu é, paradoxalmente, o efeito Aursnes, invisível nos números, mas sentido em todos os setores do campo por jogadores, treinadores, adeptos e até jornalistas. Será para todos, enquanto por cá andar, ele e mais dez.
O que vale Aursnes, portanto, não se medirá apenas em números, golos ou percentagems. Está na paciência com os colegas, na capacidade de interpretar espaços, de cobrir falhas, de criar soluções invisíveis, que só os que jogam ao lado percebem. Vale na quietude com que impõe equilíbrio, na leitura antecipada das jogadas, na entrega sem espetáculo, na forma como simplifica praticamente tudo com ou dois toques na bola. É o tipo de jogador que faz parecer fácil o que seria impossível sem ele, e essa é a sua grande virtude.
O efeito Aursnes manifesta-se em detalhes que escapam ao público — embora ache que o da Luz está há muito convencido —e às estatísticas oficiais. Cada movimento sem bola, cada antecipação, cada troca de posição é calculada para criar linhas de passe, abrir corredores ou neutralizar adversários antes mesmo de serem notados. É essa capacidade de moldar o jogo sem precisar de se mostrar que o torna verdadeiramente indispensável.
No fundo, perguntar «o que realmente vale Aursnes?» é quase uma tarefa tão complicada como tentar medir o vento. Não se vê, mas sente-se e, por vezes, é tão forte que nos faz embalar ou, se for contrário, nos derruba— e quem está ao lado percebe que sem ele, o espetáculo não seria o mesmo. Mais. Para essa mesma pessoa seria tremendamente mais difícil. E é por isso que, no relvado ou fora dele, Aursnes permanece essencial. Não pelos flashes, não pelos números, não pelos elogios fáceis. Mas pelo efeito silencioso, contínuo e profundo que imprime à equipa. Pela entrega que nunca cessa, pelo esforço que ninguém nota, mas que todos sentem em abundância. É o tipo de presença que muda jogos sem precisar de glória, que torna cada colega melhor e transforma o coletivo num organismo quase perfeito. E o Benfica tem agora de aprender a viver sem ele por uns tempos."

Mauro: Arbitragem...

Cancella dixit

Cancella e as bitolas!!!

O Benfica Somos Nós - É para cima deles #7 - Santa Clara

Terceiro Anel: Diário...

Observador: E o Campeão é... - Relvado ou lesão de Aursnes? Qual a maior dor de cabeça?

Observador: Três Toques - A campeã olímpica que saiu dos jogos com ouro... e noivo

SportTV: Primeira Mão - 🤨 E se o fã do Manchester United fosse adepto em Portugal?

Vizak: Liga das Nações...

Ganhar nos Açores


"O Benfica visita o Santa Clara hoje, com o início da partida agendado para as 18h30. Este é o tema em destaque na BNews.

1. Somar três pontos
José Mourinho só pensa na vitória: "Olhamos para cima, e olhando para cima, somos nós, verdadeiramente, que desesperadamente precisamos de pontos. Viajamos para os maravilhosos Açores com o objetivo de lutar muito, de trabalhar muito, para podermos voltar com os pontos de que precisamos."

2. Bastidores
De Lisboa à receção calorosa em Ponta Delgada.

3. Bilhetes esgotados
Os bilhetes para o jogo Real Madrid-Benfica, da 2.ª mão do play-off de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões, estão esgotados.

4. Agenda desportiva
São vários os jogos marcados para amanhã e domingo, com destaque para a partida da equipa B com o Felgueiras no Benfica Campus e quatro embates na Luz: Marítimo às 15h00 em andebol; Vitória SC às 17h00 em basquetebol; Águias de Santa Marta às 19h15 em futsal no feminino; CP Esneca Fraga às 21h00 em hóquei em patins no feminino. Consulte a agenda.

5. Da Nigéria para o Benfica Campus
Christy Ucheibe e Peter Edokpolor, futebolistas encarnados oriundos da Nigéria, falam da sua experiência de águia ao peito.

6. Visita especial
O Rodrigo cumpriu o sonho de conhecer o Estádio da Luz. 

7. Convocatória
A guarda-redes Thaís Lima está convocada pela seleção brasileira de futebol.

8. Reportagem
Conheça em detalhe a formação de futebol no feminino do Benfica.

9. Em busca de títulos
Neste fim de semana realizam-se, no Fórum Braga, os Campeonatos Nacionais de atletismo em pista curta.

10. Protagonista
Inês Severino, hoquista do Benfica, é a entrevistada da semana.

11. Entrevista
Velocista do Benfica, Pedro Afonso partilha os seus objetivos ambiciosos para a carreira desportiva.

12. Título regional
Os Sub-19 de hóquei em patins do Benfica são hexacampeões regionais.

13. Parceria
60 crianças e elementos do staff do Mediterranean College of Sports, parceiro do Benfica em Malta, estiveram no Benfica Campus ao longo de cinco dias.

14. Acervo mais rico
Fotografias e registos pessoais de José Torres foram cedidos por empréstimo da sua filha, Ana Torres, ao Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica.

15. História agora
Veja a rubrica habitual das manhãs de quinta-feira da BTV.

16. Em destaque
Os principais conteúdos e temas que marcam a agenda do Sport Lisboa e Benfica nas diferentes plataformas do Clube."

Águia

Chico-espertice à moda do Porto


"O que aconteceu no Dragão no clássico entre FC Porto-Sporting, e foi visto em todo o lado onde o jogo passou (que bela propaganda para o campeonato), não pode acontecer.

Balneário decorado (com intervenção do Querido mudei a casa recente ou menos recente, não importa), adeptos em interação com adeptos, portas fechadas ou entreabertas ao staff, colunas para abafar adeptos, beijinhos de presidente, ar condicionado abrasador, queixinha contra queixinha… O rol de acusações e contra-acusações no pós-clássico do Dragão é extenso e leva o jogo entre FC Porto e Sporting (1-1) a estender-se por dias desde segunda-feira. O motivo não é, nem podia ser, a qualidade do jogo no relvado mas tudo o que se passou ou se diz ter passado fora dele. Sinceramente não vou por qualquer dos assuntos referidos, porque um clube acusa e o outro defende-se, o que se defende acusa depois e o que acusa passa a defender-se… Um diz e outro desdiz.
Vou pelo que vi. E para isso recuou a outubro de 2024. Na jornada 8 da Liga, na vitória do FC Porto sobre o SB Braga, 2-1 no Dragão, Nico González entregou o prémio de melhor em campo ao jovem apanha-bolas Gonçalo Cruz, que repôs rapidamente a bola para jogo e na sequência Pepê marcou o segundo dos dragões. Não foi a primeira situação do género, lembro-me de há uns bons anos treinadores adversários fazerem referência aos apanha-bolas de Alvalade de rápidos que eram.
Confesso que nessa altura não concordei com o elogio, muito menos com o prémio entregue ao jovem dragão. Porque no fim de tudo, o que está na base é uma chico-espertice, para não dizer batota — não uma baatooootaa, mas uma batotinha. Sim, porque a rapidez a dar a bola para campo acontece quando dá jeito à equipa da casa e a lentidão também quando dá jeito à mesma equipa. Fair-play seria que a rapidez fosse em igual velocidade para a equipa visitante e o exemplo do último clássico revela que até para os apanha-bolas, jovens apanha-bolas, aspirante a futuros jogadores, há uma tática e essa tática não é didática e é ensinada em tenra idade e vai servir de exemplo de que para ganhar vale tudo — não nos poderemos queixar das futuras gerações quando lhe ensinamos esquemas desde cedo…
No final do jogo com o Viktoria Plzen — 1-1 na Chéquia na jornada 7 da Liga Europa, a 22 de janeiro —, o treinador do FC Porto queixou-se de haver muitas bolas em campo. «Acho que o tempo-extra foi curto. Eles perderam muito tempo a cada pontapé de baliza, só havia quatro bolas à volta do campo e numa prova UEFA isto não pode ser permitido», apontou Francesco Farioli.
Ora, numa prova da Liga portuguesa também o que aconteceu no Dragão, e foi visto em todo o lado onde o jogo passou (que bela propaganda para o campeonato), não pode acontecer. Mas Farioli certamente não se incomodou e talvez tivesse oferecido um prémio para melhor em campo a um dos apanha-bola se Luis Suárez não tivesse empatado o jogo aos 90+10’.
Podia ter escrito sobre o balneário decorado, os adeptos em interação com jogadores, as portas fechadas ou entreabertas ao staff, as colunas para abafar adeptos, os beijinhos do presidente leonino, o ar condicionado abrasador, a queixinha contra queixinha… (podia até ter voltado à TV no balneário de Fábio Veríssimo no Dragão, mais um caso, para mim o mais grave, numa casa em se esperava uma lufada de ar fresco em vez de bafio…) E até podia, imagine-se, falar do futebol jogado, que foi pouco. Mas não, escrevi só da chico-espertice que mostra bem o ridículo em que tudo isto se tornou."

BolaTV: Entrevista Francisca Veselko

«Percentagem do passe»: um conceito que não existe


"Nas conversas de café fala-se, com naturalidade, do «passe» de um jogador. «Vendemos o jogador, mas ficámos com 30 por cento do passe.» A expressão é repetida como se designasse uma realidade jurídica autónoma e divisível. Mas o que é, afinal, esse «passe»?
Na vox populi, o jogador teria um «passe» transacionável, suscetível de ser repartido entre clubes, que manteriam uma percentagem desse ativo para futura negociação. Numa formulação mais sofisticada, fala-se em «direitos económicos»: vende-se 80 por cento dos direitos desportivos e retêm-se 20 por cento. A linguagem muda, a ideia permanece.
Sucede que ambas as formulações induzem em erro.
Para perceber porquê, é útil recorrer a uma analogia societária. Numa empresa dividida em quotas, cada sócio detém uma percentagem do capital social e pode, em regra, dispor livremente dela. Quem tem 30 por cento pode vender 15 por cento a um terceiro e realizar o respetivo valor. A quota é um bem autónomo, fracionável e transacionável per se (salvo cláusulas específicas e direitos de preferência assumidos que por simplicidade da menção no caso em apreço não iremos aprofundar).
No futebol, a lógica é diversa.
Importa ainda sublinhar que, nos termos dos regulamentos aplicáveis, apenas o próprio jogador e os clubes que ele representa ou representou podem ser titulares de direitos emergentes de uma futura transferência. Não é admissível que terceiros estranhos à relação desportiva - pessoas singulares, fundos ou outras entidades - detenham direitos económicos sobre o jogador. Assim, qualquer direito percentual relativo a uma futura transferência tem necessariamente de radicar na esfera jurídica de um clube participante na relação desportiva ou do próprio jogador, não sendo livremente destacável ou atribuível a entidades alheias a esse vínculo.
Ademais, nenhum clube detém «uma parte» do jogador, como quem detém uma quota de sociedade. O que existe é um vínculo contratual e um registo federativo que legitimam o jogador a representar determinado clube. Quando, numa transferência, o clube vendedor «fica com 30 por cento», não está a reter uma fração do jogador, nem um direito autónomo que possa circular independentemente do vínculo contratual.

O que verdadeiramente sucede é mais simples
Imaginemos que o Clube A transfere o jogador X para o Clube B por um milhão de euros, acordando que terá direito a 30 por cento de uma futura transferência. Em rigor, o Clube A vende a totalidade da posição contratual pelo valor fixo e reserva para si um valor adicional, meramente condicional, dependente de um evento futuro e incerto: uma nova transferência onerosa.
Não há aqui «partilha» do jogador. Há um mecanismo de preço variável.
A existência desse direito depende integralmente da subsistência do vínculo do jogador ao Clube B. Se o contrato cessar e o jogador sair a custo zero, o direito do Clube A extingue-se. Se fosse uma verdadeira percentagem de «passe», o Clube A manteria sempre 30 por cento do ativo, podendo transacioná-lo autonomamente, independentemente da relação contratual vigente. Mas tal não acontece.
O chamado «direito económico» não é, pois, um direito real sobre o jogador, nem uma quota fracionável do seu estatuto desportivo. É, isso sim, um direito de crédito eventual: um preço condicional, cuja exigibilidade depende da verificação de um facto futuro - a concretização de uma nova transferência onerosa, temporária ou definitiva.

Direito percentual futuro tem várias dimensões
Aqui chegados, importa ainda esclarecer as várias dimensões que o direito percentual futuro de um clube pode assumir.
Na maioria dos casos falamos de sell-on ou, em português mais corrente, «cláusula de revenda», que será nada mais do que a estipulação de que, numa futura transferência, o Clube B (utilizando o exemplo anterior) deverá pagar 30 por cento da receita total realizada, montante esse que deverá ser pago pro rata temporis com a verificação do pagamento efetuado pelo Clube C (novo clube adquirente do jogador).
Por regra, o cálculo da receita total reduz os valores devidos a clubes terceiros e, na maioria dos casos, os custos de intermediação incorridos na transferência. Ou seja, assume-se que o percentual será apenas aferido depois de deduzidos os custos regulamentares (designadamente o mecanismo de solidariedade) e eventuais custos acessórios (como comissões).

Então e como funciona a percentagem da «mais-valia»?
Existem ainda situações em que os clubes acordam que a percentagem incidirá sobre a «mais-valia» (plusvalia). Quando o direito futuro corresponde a uma percentagem da mais-valia alcançada com a transferência do jogador, entende-se que a receita do Clube A apenas será calculada depois de deduzidos todos os custos incorridos pelo Clube B na aquisição do jogador, incluindo os valores fixos pagos ao próprio Clube A.
Em termos práticos, se o Clube B vender ao Clube C o jogador por um valor fixo e único de um milhão de euros, não conservando o Clube B qualquer direito futuro, o Clube A não terá direito a qualquer valor decorrente dessa transferência e, em consequência, não beneficiará de qualquer receita proveniente de uma eventual cedência temporária ou transferência onerosa futura do jogador do Clube C para um putativo Clube D, porque o seu direito já se extinguiu.
Assim, o «passe» não existe como realidade jurídica autónoma. O que existe é um acordo obrigacional que faz depender parte do preço de um evento futuro. Tudo o resto pertence mais ao léxico popular do que ao direito.

Regulamentos proíbem poder de interferência de terceiros
Explicado assim o conceito, é fácil compreender a razão pela qual os Regulamentos Nacionais e os Regulamentos da FIFA protegem não só quem pode deter direitos de crédito futuro, mas também - e com maior relevância - proíbem expressamente qualquer interferência, indicação ou influência de terceiros na relação laboral e, consequentemente, na sua gestão.
Caso contrário, poder-se-ia abrir espaço a que qualquer clube detentor de um direito futuro tivesse poder para influenciar o percurso de um jogador no clube onde este se encontra vinculado.
O direito a um crédito futuro não se pode confundir com qualquer direito de influenciar, ou sequer de emitir opinião, na gestão de uma eventual transferência (ou da sua não concretização), ainda que exista, maxime, um direito próprio do Clube A associado a essa eventual operação.
Qualquer tentativa - ainda que implícita ou indireta - de exercer influência é considerada ilícito disciplinar, com a correspondente relevância sancionatória."