Últimas indefectivações

terça-feira, 21 de abril de 2020

Semanada...

"1. Reembolso do Empréstimo Obrigacionista. Depois de em Janeiro termos antecipado um empréstimo obrigacionista de 25 milhões de euros, vamos ter agora que pagar o empréstimo obrigacionista que vence neste mês. Serão 48.5 milhões de euros, mais juros. A nossa dívida remunerada vai ficar agora à volta dos 70 milhões de euros. Provavelmente o plano seria emitir um novo Empréstimo Obrigacionista na casa dos 30 milhões de euros. Assim, teríamos uma dívida remunerada de 100 milhões de euros - valor que Domingos Soares de Oliveira considerou o ideal - e permitiria-nos ter alguma folga financeira para um verão apetrechado de reforços. Pois “só” teríamos que devolver ao mercado cerca 43.5 milhões de euros e não 73.5 milhões de euros. Mas sem esse novo Empréstimo Obrigacionista, o nosso range de opções ficará muito limitado, porque neste momento estamos com uma folga financeira curta.
2. Cautelas no Mercado. Nas últimas semanas vimos o Benfica com algumas cautelas na preparação do mercado do próximo verão. Há cerca de mês e meio saíram notícias de que o clube queria encontrar 4-5 reforços no próximo verão e até fechámos o Pedrinho. Mas a situação criada pelo covid-19 vai afectar o nosso mercado. A 31 de Dezembro de 2019, o clube tinha 98 milhões de euros em caixa. Dinheiro mais do que suficiente para terminar a época e enfrentar o mercado. Mas agora, desses 98 milhões, 73.5 milhões foram usados para pagar dívida. A nossa caixa continuam com algum dinheiro, mas não muito. Sendo que era praticamente certo que alguns jogadores (Rúben Dias, Alex Grimaldo ou Carlos Vinícius à cabeça) iriam ter bastante mercado e o clube iria encaixar mais receita com a venda de um ou dois deles. Agora, não é tão certo que possamos conseguir fazer vendas nos valores que pretendemos. Como tal, é pouco provável que façamos uma venda sequer, visto que as necessidades no imediato não são assim tantas e no verão seguinte, se o mercado recuperar, podemos fazer as mesmas vendas por mais dinheiro - as previsões no geral falam de quebras de 20% neste ano. Mas sem mais dinheiro, não vai haver grandes contratações. Daí o interesse em Helton Leite e Mehdi Taremi fazer algum sentido.
3. O Que É Urgente. O orçamento do Benfica para contratações na próxima época pode ser mesmo muito curto. Primeiro, porque a tendência que se prevê é para uma certa prioridade para negócios com dinheiro a pronto, em vez de negócios a prazo. E segundo, o Benfica não só não tem assim tanto dinheiro neste momento - porque pagámos 73.5 milhões da dívida - como poderá não ter grandes garantias. A Champions League não está certa e metade do dinheiro da NOS já está adiantado. Dentro destas duas situações, o clube irá naturalmente olhar mais para dentro à procura de soluções. Naquilo que não tiver, vai procurar por negócios mais em conta. O plantel, de forma algo urgente, precisa de: um guarda-redes suplente, um lateral direito, um central (pelo menos), um médio centro, um segundo-avançado (Pedrinho) e um ponta de lança (não tão urgente). Guarda-Redes Suplente. Os rumores que correm é que Helton Leite já estará fechado e é um reforço que faz sentido. Vlachodimos ganhou a posição. Mile Svilar e Ivan Zlobin precisam de jogar e evoluir. Provavelmente Svilar irá continuar na equipa B. Zlobin deverá ser emprestado. E até termos alguém capaz de lutar por um lugar na baliza com Vlachodimos, precisamos de uma alternativa sólida a quem posssamos confiar a baliza caso algo corra de forma inesperada. Helton Leite tem-se afirmado como um dos melhores guarda-redes da Liga. Tem 29 anos. Parece encaixar-se bem naquilo que procuramos. Pode ser a nossa alternativa durante as próximas 3-4 épocas. Defesa Direito. Eu acho que Diogo Gonçalves não tem cinco jogos como lateral direito no Famalicão, mas é inegável que tem feito boas exibições. A entrar na equipa principal pela posição de Pizzi, parece-me complicado, visto que já há imensa concorrência. O lugar por onde parece-me que poderá entrar é lateral direito, apesar de ser uma posição onde não tem assim tanta experiência. No entanto, o seu tipo de jogo até aparenta ter algumas coisas que se podem encaixar bem na lateral direita. É um risco que o clube parece disposto a correr. Eu gosto de Diogo Gonçalves. Até gosto desta aposta. Mas é o terceiro ano consecutivo que o clube entrará com uma indefinição na posição e isso naturalmente não agrada a ninguém. Defesa Central. Antes da situação do covid-19 parecia ser quase certo que íamos ter uma reforço aqui. Agora, já não parece tão óbvio. Ainda assim, se Jardel sair - que me parece o que faz mais sentido neste momento - é obrigatório trazer alguém novo. Mesmo havendo Kalaica, Morato e Pedro Álvaro na equipa B, todos algo promissores, o Benfica não pode ter quatro centrais na equipa principal em que o mais velho tem 23 anos. Médio Centro. A lesão de Gabriel deixou a descoberto uma das nossas maiores falhas. Acho que temos bons médios centros, mas pouca quantidade. Parece-me, pelo mercado do último inverno e pela forma como a equipa joga, que o Benfica estará a preparar uma mudança de sistema para um 4-3-3. Neste momento, o melhor médio centro da equipa B é David Tavares, que não é mau, mas também não é extraordinário. A equipa precisa de uma alternativa diferente aqui. Ponta de Lança. Acho que vai ser uma das posições afectadas pela crise. Se não aparecer nenhum comprador para Haris Seferovic, não vejo grandes mudanças a acontecerem aqui. Pelo menos no mercado de verão. No inverno, o Dyego Sousa será devolvido e aí teremos que procurar outra solução. No entanto, Mehdi Taremi encaixava-se que nem ginjas no nosso sistema. Não é um jogador de área, é um jogador capaz de participar na construção e de abranger mais terreno. Não está tão dependente do que os outros criam para ele finalizar. Faz falta um jogador assim. Se o Benfica realmente planeia mudar para um 4-3-3 em definitivo, era uma contratação sólida.
4. Modalidades na Europa. Em Portugal, para já, só o Campeonato de Futsal foi cancelado, sem ainda se saber como será o apuramento para a Europa, apesar de quase de certeza que o Benfica e Sporting terão acesso. O resto das modalidades ainda não há decisões, mas é importante que quando haja, todas as federações actuem no mesmo sentido. Em França, por exemplo, já se cancelaram os Campeonatos de Andebol, Hóquei e Futsal. Todos com campeões, subidas, descidas e apuramentos para a Europa. Em Itália também já se cancelou o Campeonato de Hóquei, mas sem campeões, descidas ou subidas. Se a Federação de Hóquei e Voleibol atribuírem o Campeonato ao Benfica, mas as Federações de Andebol e Basquetebol não atribuírem ao Porto e Sporting (ou vice-versa), só se vai criar confusão de forma desnecessária.
5. Primeiros Reforços no Andebol. Apesar da situação criada pelo covid-19, o Benfica parece continuar a preparar a próxima temporada nas modalidades. No Andebol vamos ter uma autêntica debandada no plantel. Nuno Grilo, Ricardo Pesqueira, Fábio Vidrago, Davide Carvalho e Carlos Molina, pelo menos, estarão de partida. Os dois primeiros reforços para já parecem ser o central Lazar Kukic e o ponta esquerda Mahamadou Keita. Kukic é um internacional sérvio de 24 anos, forte no um para um, com um bom remate exterior. Esteve no último Mundial e no último Europeu a representar a sua selecção. Esta temporada tinha 56 golos na Liga Asobal. Keita é um ponta esquerdo forte fisicamente, com 1.90m, que poderá dar ao Benfica a hipótese de ter algumas dinâmicas defensivas que não expusessem tanto Djordjic neste lado do campo. Kukic vai certamente elevar o nível da equipa. Com mais dois ou três reforços deste nível, podemos ter uma equipa competitiva para a Liga. Mas esta não me parece a estratégia vencedora a longo prazo. Estamos a resolver o problema atirando simplesmente mais dinheiro para a equipa e sem resolver os nossos problemas estruturais na modalidade.
6. A Atitude de Haris Seferovic. Não tem tido uma época nada fácil, mas continua a mostrar atitude e vontade de querer continuar no Benfica. Comprou 10 computadores e tem feito parte da campanha para angariar computadores para crianças desfavorecidas que não têm como assistir a aulas a partir de casa. Só faz isto quem está muito comprometido com o emblema. Outro que também não pára quieto fora do relvado é Andreas Samaris. É bonito ver atletas estrangeiros representarem assim o Benfica."

Benfica FM #109 - Época 99/00

A Bola na Noite...

Necessidade e engenho

"Faltam dez jornadas para se concluir o calendário da primeira liga, e para que a próxima jornada possa ser preparada de forma conveniente vai ser necessário efectuar desafios em ritmo que nos tempos precedentes não seria aceitável.

Diz um velho aforismo popular que a “necessidade aguça o engenho”. Na actualidade, transportando-a para o futebol, essa ideia tem indiscutível cabimento. Isto porque os últimos dias têm-nos trazido movimentos que tendem a levar-nos de novo ao jogo já no próximo mês de Junho.
Faltam dez jornadas para se concluir o calendário da primeira liga, e para que a próxima jornada possa ser preparada de forma conveniente vai ser necessário efectuar desafios em ritmo que nos tempos precedentes não seria aceitável.
Por isso, o que está aqui em causa é, quanto a nós de forma preponderante, o dinheiro e não propriamente o regresso da competição. Daí a ideia de que, no caso presente, a necessidade aguça o engenho.
No entanto, voltar à normalidade não parece possível nas condições actuais. Como vai ser preparada essa imaginária ponta final do campeonato?
Como irão decorrer os treinos, sabendo-se que a situação que vivemos restringe contactos e exige distanciamentos? Haverá possibilidade de permitir que o público assista aos jogos? E se tal acontecer, quererá esse público arriscar a sua presença, mesmo respeitando o confinamento?
Mais do que pensar nestes aspectos fundamentais, os responsáveis centram a sua atenção na governação do futebol para evitar a derrapagem que pode acontecer a curto prazo.
Sem as chorudas verbas televisivas, sem as receitas de bilheteira, reduzida a publicidade, a vida dos clubes entrará em agonia, sendo estes também obrigados ao estabelecimento de um novo tipo de relação laboral com os seus atletas.
É apreciável o esforço que está a ser feito, sobretudo pela Liga de Clubes, para que tudo volte à normalidade, mas há o risco de vir a não ter grande sucesso.
A pandemia que nos atingiu poderá tornar-se num ponto de partida para um tempo novo, mas desde já parece não haver dúvidas sobre uma certeza: o futebol, tal como o conhecemos até há pouco, não voltará a ser possível.
Veremos, em breve, o que o futuro nos reserva."

Mais desporto no feminino

"O desporto foi e continua a ser um produto de homens e controlado pelos homens. A “dominação masculina”, como diria o sociólogo Pierre Bourdieu, conduziu a percepções e a modelos culturais, determinando a forma como o desporto é dirigido e praticado. Originalmente, quando da sua criação, as mulheres não acederam às mesmas modalidades desportivas e muito menos às mesmas condições que os homens. Utilizou-se muitas vezes os argumentos de ordem médica, estética e social para limitar a sua participação desportiva. Os mitos, os estereótipos e o sectarismo fizeram com que esse direito lhes fosse negado durante muito tempo. O combate das mulheres no mundo do desporto foi o de poder ter o direito de participar. Que o diga Alice Milliat (1884-1957), praticante de natação e de remo, fundadora e presidente da Federação das Sociedades Feministas Desportistas de França, e uma das maiores militantes no combate pelo reconhecimento do desporto feminino a nível internacional. 
Durante muito tempo, a questão central foi a de se definir as práticas desportivas e as provas que se poderiam oferecer às mulheres. Em 1900, as mulheres participam, pela primeira vez, nos Jogos Olímpicos Modernos, mas somente em duas disciplinas: o ténis e o golfe. O fundador dos JO Modernos, o barão Pierre de Coubertin, não queria que as mulheres participassem. Declarou até que uma olimpíada com a participação de mulheres seria “pouco prática, desinteressante, pouco estética e incorrecta”. Para si, e para a sua “entourage”, elas estavam presentes apenas para aplaudir e coroar os vencedores. Apesar do seu desacordo e os seus discursos, as mulheres entraram, de fato, nos JO e aí permaneceram.
O universo desportivo não se conjuga mais sobre o investimento e envolvimento dos homens. O aumento da escolaridade das raparigas e a actividade socioprofissional das mulheres, induzem a um reforço da prática desportiva. Todavia, e apesar dos indiscutíveis avanços, ainda existem muitos obstáculos para aumentar a participação das mulheres no desporto a todos os níveis (lazer, escolar, amador, competitivo, etc.), funções e papéis, e para desenvolver a democracia no seio das organizações desportivas. Ainda existe um pequeno número de mulheres nas estruturas de decisão dos organismos desportivos. Defender as mulheres no desporto, é defender a igualdade e o progresso da liberdade em geral."

Como se pode perspectivar a competição? Como gerir neste ambiente moderno e globalizado?

"Para além da morte, julgo que nada será mais dilacerante que a privação da nossa liberdade; mais ainda quanto tal se verifique sem nossa responsabilidade directa, como é o período que atravessamos desde o mês passado. Dizem uns que o pior já passou, dizem outros que foi tudo alarmismo e nada mais não é que um surto de gripe que este ano veio atrasado. Não vou debater aqui isso, deixo para quem sabe de epidemiologia, ou seja, um campo da ciência que trata dos vários factores genéticos, sociais ou ambientais e condições derivados de exposição microbiológica, tóxica, traumática, etc. que determinam a ocorrência e a distribuição de saúde, doença, defeito, incapacidade e morte entre os grupos de indivíduos (in Wikipedia); quero sim abordar o que está e pode acontecer ao desporto em geral e futebol, em particular.
Todos os jogos têm implícita a competição, a superação de si para vencer o outro, na prática de uma modalidade que seja organizada institucionalmente e tem regras a serem observadas; mais ainda, acrescente-se, exige público que habitualmente gosta ou é apaixonado por essa modalidade, o que leva os praticantes a transcenderem-se pela magia do aplauso.
Embora nem sempre, o futebol traz-nos essa magia através dos artistas eleitos que transformam situações mornas em situações de enorme efervescência, quando invertem resultados não esperados, quando falham o golo de baliza aberta, ou marcam golos ditos impossíveis num período do jogo para além do tempo regulamentar. Além dessa magia, o futebol traz-nos ainda a supremacia do colectivo, do contacto físico, do aroma do balneário, das explosões de alegria/tristeza vivida em grupo, das viagens e refeições em equipa e seu staff, enfim, sempre em contacto com outros.
No período que vivemos, todas estas práticas nos foram “roubadas” pelas organizações de saúde pública. Estariam sobretudo a pensar nas enormes massas de indivíduos à volta do jogo, ou seja, do público que enche estádios. E será este o foco da minha opinião, é que o futebol, como tantas outras coisas na vida, é vivido num ambiente de extrema desigualdade entre um 1º e talvez um 5º mundo. A massa humana que se movimenta em torno do futebol varia na razão inversamente proporcional, aderindo em multidão no 1º mundo e juntando-se apenas para conviver, como num café, nos jogos de 5º mundo.
Tal facto exige que se olhe para as implicações da pandemia de forma igualmente diferenciada. Um 1º mundo com regras inexoráveis de economia e competição globalizadas e um 5º mundo com regras vindas das origens do desporto (tão bem descritas no filme recente sobre a história do jogo, com raízes na rivalidade de bairro ou de pequena cidade, onde se assistia aos jogos para conviver e beber um copo entre amigos – The English Game, Netflix).
Terão a UEFA, FPF e LIGA agido adequadamente neste período? Como se pode perspectivar a competição no futuro? Estão as diversas colectividades (com e sem SAD) preparadas para gerir neste ambiente moderno e globalizado?
Do ponto de vista económico, uma das leis inexoráveis que foi abalada foi a da Oferta e da Procura que, normalmente explica a variabilidade dos preços desde que haja condições para livre funcionamento dos mercados – agentes em grande nº, onde cada um por si não consegue influenciar o mercado. Posso ter um produto excelente para vender, mas se não houver quem o compre, o preço terá de ser muito baixo, perto de zero (transmissões pela TV); o produto pode nem ser muito bom, mas se houver muita gente a querê-lo, o preço sobe sem controlo (as máscaras antivírus).
Mas repare-se agora na desigualdade da situação entre um clube de nível europeu e um de valia regional. Ao nível europeu há muito a perder, os seus activos (jogadores de milhões) deixam de ser vistos, ficam mais ‘velhos’ e desvalorizam. Ao nível regional, deixa de haver uma razão para as pessoas se juntarem, mas os activos (jogadores de tostões) desvalorizam pouco ou nada. Reagem os clubes de forma diferenciada: os grandes baixam os salários milionários, mas não acontece nada de grave às famílias; os pequenos deixam de pagar os tostões e colocam centenas de milhares à míngua, com fome e no desespero das suas famílias. Dito isto, “a bomba” não bate em todos por igual e os clubes têm de estar organizados para reagir com humanidade e sem perdas.
Mas faz sentido haver jogos à porta fechada, sem a efervescência das multidões só para se atribuírem os prémios? Tenho as minhas dúvidas. Não estariam incluídos na definição de desporto, pois sem público as performances são diferentes. Os resultados estarão desvirtuados. Imaginam um golo não ser comemorado entre os elementos da equipa? Porque se tem medo de “congelar” as provas, até ao dia em que exista total liberdade do exercício desportivo? Em minha opinião, o momento aconselharia a uma profunda reflexão e reorganização dos clubes e das organizações. O que desejam os artistas? Querem colocar em risco a sua actividade?
Louvo a atitude dos membros da selecção de entregarem metade do seu prémio para apoio do desporto não profissional. Aí cumpriu-se a humanidade.
Para terminar falemos da evolução de uma qualquer actividade económica, coisa em que o futebol de elite se transformou, num negócio ou indústria como alguns erradamente o designam (uma indústria tem outros pressupostos).
Toda a actividade aparece porque existe uma necessidade humana associada. O futebol deixou de ser, de repente, uma necessidade humana essencial, o que se pode verificar pelo número de jornais desportivos e secções desportivas de outra imprensa e ainda ao número de programas desportivos na televisão.
De repente…. o silêncio, que todos aceitam e até agradecem. Ficaram apenas os programas dos clubes de topo e com poder e dois programas desportivos credíveis (A Bola e 11). Tudo o que era supérfluo (felizmente) desapareceu. Só metiam lixo na engrenagem.
Seguiu-se o desenvolvimento natural da economia. Se necessário vão aparecendo mais, com dimensão parecida, mas haverá sempre uns poucos que se evidenciam e passam a dominar o mercado. Têm os seus jogadores e compram o quíntuplo de outros que depois cedem/emprestam a clubes de menor dimensão, perpetuando assim o poder negocial no âmbito deste negócio. E os agentes que surgiram? No passado os negócios eram feitos pelos presidentes ou direcções dos clubes. Hoje o negócio já dá para inúmeros intermediários e até para pagar decentemente aos árbitros. Ou seja, quantos mais intervenientes no negócio mais aumentam os custos e os prémios.
Serão estes os problemas que temos de saber dar resposta. Esta indústria dá para quantos? Em que moldes? Com que qualidade? A que preços? Caminhamos para um Campeonato Europeu entre os clubes europeus? E como deverá ser feito o apuramento para entrar nesse campeonato (lembremo-nos da NBA)? O nosso papel é fornecer jogadores bem formados para essas equipas? Deveremos comprar jogadores a preços que o nosso mercado permita?
Muitas perguntas e algumas ideias que me assolam e cuja resposta espero me possam todos auxiliar. Estarei disponível para prosseguir. Cuidem-se.

PS: Hoje faz anos, esta segunda-feira, 20 de Abril, o meu querido amigo Prof. Manuel Sérgio e queria dedicar-lhe esta prosa."

Benfiquismo (MDIII)

Olhos na bola...!!!

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Golo: Linfelof... coisa linda!!!

Benfica de Quarentena #45 - Renato Júnior

Recordações: Gonçalo Alves

Não vá. Telefone! - Ferro

O Senhor capitão Humberto Coelho

"Humberto Coelho completa hoje, setenta anos de idade, o que para mim, que fui seu fã, porque era, de facto, um dos melhores defesas centrais do futebol europeu, traz a surpresa de tomar consciência de que o Humberto já deixou de jogar há largos anos. O problema é que os anos passa, mas quando a memória de cada um de nós se recorda de jogadores como o Humberto, o Eusébio, o Chalana, o Damas, o Hilário, o Baía, o João Pinto, o Futre, gente de enorme talento, perde-se a dimensão temporal.
O Humberto, com quem muitas vezes contactei como jornalista, teve duas virtudes essenciais para se ter tornado num histórico capitão de equipa do Benfica e da selecção nacional: uma inteligência invulgar no campo, capaz de ler o jogo, de o perceber e de o dominar em todos os sectores; e uma aptidão especial para uma liderança feita de autoridade natural.
Recordo um fim da tarde, após um daqueles jogos de verão, nos Estados Unidos, quando os jornalistas viajavam no autocarro das equipas, que, nos bancos de trás, um pequeno grupo de jogadores do Benfica brincava, em algazarra, com o grande jornalista de A Bola, Alfredo Farinha. Quando a brincadeira passou das marcas, o Humberto levantou-se do seu banco e deu uma tremenda reprimenda aos colegas, pedindo o respeito que era devido a um grande senhor. E, no autocarro, fez-se um respeitoso silêncio de igreja. Felizmente que o Humberto continuou, e certamente continuará por muitos anos, no futebol. Tal com ele diz na interessante entrevista ao Rogério Azevedo, deve muito ao futebol. Mas também é verdade que o futebol lhe deve muito."

Vítor Serpa, in A Bola

33

1904

Mensagem do capitão do andebol, Paulo Moreno

"Acredito que esteja a ser muito difícil para todos nós estarmos "fechados" em casa, porém acreditem que é mesmo o melhor remédio! Para mim também tem sido complicado, pois sou uma pessoa que está sempre em actividade, que não gosta de estar parada. Acreditem que tem custado bastante não poder sair de casa, ir treinar, ir ver o Benfica, enfim fazer as coisas que mais gosto e prezo na vida.
E o que me tem custado mais não é só o facto de estar em casa, mas também não ter o meu desporto – andebol – na televisão para ver, o meu fiel companheiro diariamente.
Contudo, tenho aproveitado para desfrutar muito mais da minha filha, ver filmes/séries, ler e tenho treinado em casa, não perdendo assim totalmente a forma, acabando por conseguir manter também a mente ocupada, o que é algo igualmente muito importante nesta altura.
Acredito que o esforço que está a ser realizado por cada um de nós, de forma quase perfeita, dará bons resultados.
É de louvar o respeito e a compreensão da grande maioria da população, por isso deixo aqui os meus parabéns!
Deixo também um enorme Obrigado a todos os médicos e enfermeiros, forças de segurança, INEM e bombeiros, jornalistas, elementos das telecomunicações e sistemas informáticos e a todas as pessoas que trabalham e estão envolvidas em continuar a facultar-nos todos os bens de primeira necessidade que precisamos.
Por último, peço a todos os portugueses e aos Benfiquistas que tenham muita paciência, força e esperança, de forma a voltarmos à nossa vida e a abraçar-nos o mais breve possível! Paulo Moreno 

P.S.: Parabéns ao grande capitão Humberto Coelho pelo seu 70.º aniversário."

Benfica de Quarentena #44 - Rui Lopes

Benfiquismo (MDVII)

Jamor...

domingo, 19 de abril de 2020

Road 37 - 1.º capitulo!!!

Chakall Vermelho #2

Benfica de Quarentena #43 - Rogério Vilela

Benfica de Quarentena #42 - João Lopes

Recordações: Paulo Almeida...

A Quinta da Bola...

Cadomblé do Vata (O Golo!)

"3 décadas de Mão de Vata, o irreprimível gesto técnico que colocou o cautchú em redes gaulesas e nos valeu a última final da competição maior da UEFA. Números redondos deste calibre exigem celebração condigna e já havia rascunho dela. O plano era simples, ousado e arriscado. Simples porque era um jantar com Gloriosos leitores; ousado porque pretendia-se a presença da angolana mão goleadora no repasto; arriscado porque tentaria mover montanhas para contar com a presença de José Carlos Nepomuceno Mozer, o centralão Benfiquistazorro que estava no lado errado da barricada naquele 18 de Abril de 1990.
Mozer foi o único ser humano vestido de branco e azul coninhas a não merecer a desfeita que Vata Matanu Garcia, impulsionado por mais de 120 mil almas, descarregou sobre cabeças marselhesas naquela noite de Glória. Aliás, o brasileiro foi o único ser humano que não merecia ver o seu nome associado àquele pedaço de ignomínia desportiva construído pelo magnata que veio a Lisboa ser baptizado de Bernardette.
O histórico remate de Vata foi com a mão. Não poderia ser com o ombro nem de cabeça. Sem atropelos anatómicos ou desculpas sobre hipotéticos penaltys. Só assim aquele golo poderia pavimentar a estrada para a eternidade e ter a duvidosa honra de dar nome a esta página. Aquele Marselha não se podia ajoelhar de outra forma. Foi uma Chapada se Luva Negra em tromba francesa. Um acto de Justiça Divata. E por isso o Vata nunca vai ser esquecido pelos Benfiquistas... Mozer incluído."

30 anos de uma mão que não envelhece

"18 de Abril de 1990.
Na minha cabeça, sei perfeitamente tudo aquilo que fiz nesse dia, onze anos antes de nascer. Como num dia normal de escola, levantei-me cedo, com a diferença de que pouco ou nada tinha dormido de tanto nervosismo e ao mesmo tempo excitação. Assim, numa mistura de sensações opostas e que me deixavam sobretudo pensativo, disse bom dia à minha mãe, que conhecendo-me melhor do que ninguém, sabia tão bem da importância daquele dia. Cruzei-me com o meu pai na cozinha e trocámos olhares, mas nem uma única palavra. Pairava ainda naquela casa a sombra de Estugarda dois anos antes e parecia, naquela manhã, que nada poderia correr bem.
No caminho para a escola, escolhia o onze na minha cabeça e simulava aquele que queria que fosse o discurso do Eriksson no balneário. As contas eram fáceis de se fazer. “Um golo e estamos em Viena”, lembro-me, como se fosse hoje, que foi aquilo que disse para mim mesmo antes de entrar na sala de aula. E todo o dia estive calado. Porque, muitas vezes, é o melhor a fazer quando não se sabe o que dizer. Tinha medo que qualquer palavra que pudesse dizer fosse atrapalhar as saídas do Silvino, a tranquilidade do Aldair, as arrancadas do Vítor Paneira ou a genialidade do Valdo. Por isso, assim fiquei, mesmo quando me juntei aos meus amigos à volta da Catedral, quando a hora do jogo se aproximava. Vivi, naquele dia, a maior demonstração de benfiquismo em toda a minha vida.
Já na companhia do meu pai, entrámos os dois juntos (como sempre) e subimos até ao nosso lugar cativo no 3º anel. Sempre calados. Falei a toda a gente à minha volta e dei o abraço mais apertado de que me recordo ao Sr. Joaquim, que na ingenuidade de um pequeno adolescente, tinha plena convicção de que vivia no Estádio da Luz, pois era ali o único sítio onde o via. Mas sempre sem falar.
O jogo finalmente começou. A Luz mostrou o porquê do inferno com a ajuda da magnífica campanha da direcção: “Um Benfiquista, uma bandeira”. Sentia-se a apreensão dos franceses, que nem sabiam para onde haveriam de olhar, tal era o mar vermelho. Posso garantir, que até hoje, apagou-se da minha memória tudo aquilo que aconteceu desde o apito do árbitro belga até ao minuto 82. A minha memória traz-me até hoje a bola nas mãos do Valdo, com um estádio numa vontade inexplicável de explodir.
E a partir daí, tudo o que se passou é um poema, que nunca na vida poderá ser escrito. Quando a bola saiu dos pés de Valdo, ela já sorria e sabia que ia conhecer o sabor das redes. Antes disso, foi subtilmente acariciada por Magnusson e foi cair no seio da grande área e foi nesse momento que me levantei. Eu e mais 120 000 mil corações desesperados por uma alegria que só é alcançada por um golo do Benfica. “Toquei de peito e a bola entrou” disse o angolano, no final do jogo.
Como tu quiseres, Vata, porque quando entrou fizeste-me soltar um grito que tinha preso durante todo o dia e de que nunca mais me irei esquecer. São 30 anos de uma mão que envelhece. Fizeste-me ter esta história na minha cabeça, apesar de nem sequer existir, quando decidiste respeitar a história de um gigante e pô-lo no lugar que merecia.
Que possamos celebrar mais 30 anos deste dia mágico de Benfica e, preferencialmente, com mais idas a Viena como em 1990."

Que jogos devo rever nesta Quarentena? SL Benfica 2-2 FC Bayern Munique de 2016

"Abril de 2020, futebol suspenso. Não havendo melhor, vemo-nos obrigados a rever momentos em que a euforia do futebol diminuía “o peso da cadeia enorme arrastada em comum por todos os viventes”, como escreveria Victor Hugo. Recuemos então até Abril de 2016, mais precisamente até dia 13 do quarto mês desse histórico ano para o futebol português.
No Estádio da Luz, as águias de Rui Vitória recebiam os pupilos de Pep Guardiola com a ilusão da passagem às meias-finais da Liga dos Campeões intacta, fruto da derrota pela margem mínima “alcançada” na Allianz Arena, na Baviera. Um golo madrugador de Arturo Vidal havia sido a única mossa impressa nos encarnados portugueses pelos encarnados alemães na primeira mão.
A tarefa era hercúlea, mas o objectivo era claro: marcar primeiro, marcar cedo. Confere, confere (mais ou menos). Após uma boa entrada na partida, ainda que inócua, as águias chegam ao golo da igualdade (da eliminatória) aos 27 minutos, através de um cabeceamento certeiro da arma secreta, Raúl Jiménez, em correspondência a um cruzamento longo endereçado por Eliseu.
Explosão de alegria e a ilusão a transmudar-se em crença. Um golo mais significava a vantagem na eliminatória, contra todas as expectativas. Um golo sofrido, no entanto, significava que as meias-finais ficavam à distância de dois golos. Dez minutos volvidos e golo… forasteiro. O Matador de Munique ataca novamente e faz pender a eliminatória novamente para o lado bávaro.
Intervalo. SL Benfica 1-1 (1-2 no agregado) Arturo Vidal. Com apenas 45 minutos para dar a volta à situação e a dois golos de distância de tal desiderato, a missão voltava a parecer inexequível. Todavia, a crença benfiquista não havia esmorecido durante o repouso. Aos 52 minutos, no entanto, Thomas Muller colocou essa mesma crença à prova, apontando o segundo golo dos alemães na partida e o terceiro na eliminatória.
Talvez não a tenha abatido, mas por certo abalou-a. O único antídoto para o veneno alemão era uma reação pronta. Necessitava-se um golo benfiquista o mais brevemente possível. Tardou. Tardou demasiado para que a crença esmorecida pudesse ser reavivada com o balançar das redes à guarda de Neuer.
Chegou apenas aos 77 minutos do pé esquerdo de Anderson Talisca. O brasileiro bateu um livre directo irrepreensível e não deu hipóteses ao guardião então campeão mundial de selecções. Nova explosão de alegria. Contudo, creio ser seguro asseverar que nenhum adepto acreditava que as águias de Vitória apontassem outros dois golos em 13 minutos – mais descontos – a uma das cinco melhores equipas do Mundo.
Na vitória ainda acreditavam. Uma vitória por 3-2 frente aos campeões alemães não daria a passagem aos então bicampeões lusos, mas renovaria a esperança numa equipa que na época em questão já havia perdido por três vezes – uma delas por 0-3 – frente ao Eterno Rival e, nessa temporada, rival directo Sporting CP.
Não aconteceu. O empate a duas bolas imperou até final e o FC Bayern Munique seguiu para as meias-finais. O SL Benfica não seguiu esse trajecto, mas “arrepiou caminho” para o tricampeonato. Os confrontos com os bávaros – em particular o jogo disputado na Luz – foram, pese embora os resultados, dois dos momentos altos da época 2016/2017 da equipa de Rui Vitória. O estilo defensivo e nada vertiginoso do timoneiro benfiquista, tantas vezes criticado (com razão), serviu-lhe bem nos confrontos com Guardiola.
Pouco resta desse Benfica. Do onze inicial, apenas André Almeida, Jardel, Pizzi e Fejsa (actualmente emprestado) estão ainda ligados ao clube. Ederson foi capturado pelo então treinador dos bávaros, Renato Sanches foi-o pelos próprios e os restantes foram perdendo o seu espaço. Rui Vitória deu lugar a Bruno Lage. Muito mudou, pouco resiste. A memória deste jogo resiste. Para que perdure, o melhor é revisitar aquela que foi das melhores exibições do Benfica de Rui Vitória e do Benfica da década transacta.

O jogo: https://footballia.net/matches/sl-benfica-bayern-munchen

XI Inicial e Substituições
SL Benfica: Ederson, André Almeida, Lindelof, Jardel (C), Eliseu (Jovic, 88′), Fejsa, Pizzi (Gonçalo Guedes, 57′), Renato Sanches, Mehdi Carcela, Toto Salvio (Talisca, 68′), Raúl Jiménez.
FC Bayern: Neuer, Lahm, Kimmich, Alaba, Martínez, Xabi Alonso (Bernat, 90+1′), Vidal, Thiago Alcântara, Douglas Costa, Ribéry (Mario Gotze, 90+3′), Muller (Lewandowski, 84′)."

Os 10 piores jogadores da década do SL Benfica

"Nem todas as contratações são bem sucedidas. Muitos são os exemplos de jogadores que chegam a um novo clube e geram uma alta expectativa daquilo que será o seu rendimento ao serviço da equipa.  
No SL Benfica, o fenómeno flop também existe, e, infelizmente, não é pouco. Entre os postes, chegou a existir um jogador que me dava calafrios cada vez que a bola ia na direcção da baliza. Infelizmente, os flops não ficaram só pela baliza…
Hoje, vamos apontar os 10 piores jogadores da década do universo encarnado.

1. Roberto Jiménez – Sabem quando acordam de noite, assustados e a tremer de nervos? Eu não sei, mas vi o Roberto a “defender” a baliza dos encarnados e creio que será praticamente a mesma coisa. 
O guarda-redes espanhol disputou 41 jogos pelo SL Benfica na temporada de 2010/11, tendo sofrido 46 golos.
Quando foi comprado ao Atlético de Madrid, Roberto foi nada mais nada menos do que o terceiro guardião mais caro da história do futebol, tendo custado 8,5 milhões de euros, valor que nunca justificou.
Sinceramente, nunca vi um guarda-redes tão mau no Benfica.

2. Raúl de Tomás – Este é o caso de um jogador que nunca vou ter a certeza se foi um verdadeiro flop ou se apenas teve dificuldades de adaptação.
A verdade é que RDT custou aos cofres encarnados qualquer coisa como 20 milhões de euros, um valor bastante elevado, tendo em conta a política de contratações do clube.
No Sport Lisboa e Benfica, disputou 17 jogos e marcou três golos, tendo sido vendido ao final de apenas meia temporada ao serviço das águias.
Raúl de Tomás terá sempre o meu benefício da dúvida, mas, pelo valor pago, tinha de ter mostrado muito mais.

3. André Carrillo – Mais um caso em que o Benfica tentou “roubar” um jogador ao seu rival da Segunda Circular e, mais uma vez, em vão. André Carrillo foi um autêntico fiasco ao serviço do Benfica.
As qualidades que havia mostrado nos leões, tais como a capacidade de desequilíbrio e o fantástico drible, parecem ter ficado em Alcochete.
No Benfica, não passou de apenas mais um, tendo ainda disputado 32 partidas e apontado três golos, números que fizeram com que a sua passagem pelo clube fosse encurtada através de dois empréstimos nas temporadas seguintes.

4. Filip Djuricic – Djuricic custou aos cofres encarnados seis milhões de euros e vinha rotulado de grande promessa. Pois bem, 22 jogos pelo Benfica e quatro empréstimos mal sucedidos fazem deste jogador um dos maiores flops dos últimos anos, uma vez que se esperava muito dele.
Chegou a ser chamado de “Cruyff” e até “Kaká” dos Balcãs, mas a verdade é que, em Portugal, não passou de mais uma promessa por cumprir.

5. Felipe Menezes – Mais um brasileiro que entra para esta lista. Felipe Menezes chegou ao Benfica em 2009, pela “mão” de Jorge Jesus, tendo aí permanecido por dois anos.
O médio ofensivo enrolava o jogo de tal maneira que até dava “dó” vê-lo jogar. Muito lento, com e sem bola. Simplesmente parecia que não queria estar em campo, que não queria correr.
Com a camisola do Benfica disputou 28 partidas repartidas em duas temporadas, até ser transferido para o Botafogo, por empréstimo.

6. Gabriel Barbosa – “Gabigol”, como é conhecido, chegou ao Benfica, por empréstimo, rotulado de uma grande promessa que não se estava a conseguir adaptar ao futebol europeu do Inter de Milão. 
Em Lisboa, esperava-se que o jovem brasileiro tivesse menos pressão e que finalmente conseguisse dar o salto que tanto se esperava. Não foi o caso.
No conjunto encarnado, disputou apenas cinco jogos e apontou um golo, um registo que pecou por escassez, uma vez que, no Brasil, Gabriel Barbosa é o que se vê: um autêntico matador.

7. Yannick Djaló – Djaló foi uma promessa que nunca se concretizou!
Finalizado o contrato com o Sporting CP, depois de uma transferência falhada por minutos para o Nice, o conjunto encarnado achou que seria boa ideia adquirir o passe do jogador português, uma vez que no clube vizinho até tinha apresentado bons números. Errado!
Djaló não passou de um completo fiasco. Teve a honra de envergar o Manto Sagrado por cinco ocasiões, vezes mais do que suficientes para perceber que nunca o deveria ter feito.

8. Roderick Miranda – A passagem de Roderick Miranda pelo Benfica ficou marcada por um momento que nenhum benfiquista jamais esquecerá. Dou uma pista: jogava-se o minuto 92, no Estádio do Dragão!
É preciso dizer mais alguma coisa? Creio que não.

9. Bruno Cortez – Hoje é o dia em que agradeço a Jesus (que foi quem o trouxe) pelo facto de o jogador só ter disputado seis partidas pelo Benfica.
Os encarnados viviam uma “seca” de defesas esquerdos, e Bruno Cortez foi um dos jogadores que chegou à Luz para tentar colmatar esse vazio- em vão, no entanto.
Acredito que Cortez não seja mau jogador, até porque no Grémio mostrou bastante qualidade, mas ao serviço das águias foi uma autêntica nódoa.

10. Bebé – Tiago Manuel Dias Correia chegou a ser denominado de “novo Ronaldo”, uma alcunha que qualquer jogador com 20 anos gostaria de ter.
Jogou pelo Manchester United (uma experiência que não correu muito bem), até ter chegado ao Benfica de Jorge Jesus.
Ora bem, o mínimo que se pode exigir do “novo Ronaldo” é que marque golos. Mas não. No SL Benfica, Bebé realizou apenas seis partidas e nem chegou a abrir o contador de golos.
Uma passagem inglória de um jovem que outrora prometera muito."

Benfiquismo (MDVI)

Saudades...

sábado, 18 de abril de 2020

Portugueses, ponham os olhos no doutor Zenha

"O Sporting é um exemplo para 10 milhões de portugueses aflitos. Não paga Rúben Amorim porque não quer. O administrador Zenha diz que é 'ridículo' falar de incumprimento em tempo de pandemia. Sejam grandes como o Sporting. Não paguem nada, sejam chiques.

O campeonato de futebol da Bielorússia por lá continua a ser disputado a cada fim de semana. O único campeonato imparável no continente europeu prossegue com os seus jogos, com os seus casos, com os seus heróis, com as suas bestas e, inevitavelmente, com os seus escândalos de arbitragem. Nada que nos aqueça ou arrefeça, estamo-nos nas tintas para a liga bielorussa que em nada contribui para a nossa felicidade. Nem conhecemos ninguém daquela gente porventura respeitável. Eu ainda tentei conhecer. Tentei tomar partido a favor do Belshina na partida contra o Smolevichi mas deu-me o sono. E a vitória, ainda que tangencial, do Gorodeja na casa do Energetik BGU mais sono me deu. Para acordar só mesmo o campeonato português que, mesmo parado, continua a ser um manancial de lições de vida e, sobretudo, de lições de gestão de expectativas e de gestão corrente do tipo financeiro.
Olhemos para os nossos três grandes se quisermos entretenimento. O importante agora é querer. O Benfica, por exemplo, 'quer' ser o emblema mais bem preparado em Portugal para o pós-Covid, disse-o o seu administrador Domingos Soares de Oliveira numa entrevista ao jornal do clube. É uma ambição que lhe fica bem. O FC Porto, por sua vez, 'quer' ver-se sagrado oficialmente por Pedro Proença como campeão nacional 2019/2020 sem que o campeonato tenha acabado - sempre faltam umas 10 jornadas - porque não havendo o dinheiro da entrada directa na Liga dos Campeões  o aperto do fair play financeiro transformar-se-á num garrote de dimensões épicas. Já para o Sporting, o mais original dos clubes portugueses, a questão não é querer. É o oposto, é 'não querer'. E é justamente neste ponto que o Sporting granjeia o direito a ser considerado um grande já que no capítulo do rendimento desportivo e do número de campeonatos conquistados nas últimas largas décadas vai marchando teso e a grande lonjura da grandeza.
Mais do que grande, o Sporting é enorme e não admira que ostente o nome de Portugal no seu registo de nascimento porque é um exemplo para 10 milhões de portugueses aflitos com as contas. O Sporting diz que não paga Rúben Amorim ao Sporting de Braga porque não quer. Não lhe apetece. O seu administrador Zenha diz que é 'ridículo' falar de incumprimento em tempo de pandemia. Portuguesinhos aflitos, ponham os olhos no Sporting. Sejam também grandes. Não paguem nada, sejam chiques. Nem a renda da casa, nem os empréstimos ao banco, nem a luz, nem a água, nem o pão, nem o cafezinho, nem as contas do supermercado, nem a televisão por cabo, nem a gasolina, nem o Rúben Amorim. Sejam mais do que grandes, sejam enormes, ponham os olhos no doutor Zenha, portugueses. Zero para os credores. Todos os credores são ridículos como eram ridículas cartas de amor para o poeta Fernando Pessoa, que também viveu teso a vida inteira e só lhe deram valor depois de morto."

Benfica de Quarentena #41 - Shéu

Vergonha, continua...!!!

"Enquanto que “O Jogo” continua entretido em tentar que o #PortoaoColo ganhe um Campeonato de uma maneira que não é possível, o grupo Cofina tenta pressionar a justiça na praça pública, liderando uma tentativa hedionda ao pressionar os juízes.
Hoje fomos bombardeados com notícias sobre o Benfiquismo de um juiz que vai julgar Rui Pinto. Parece que os juízes podem ser de qualquer raça, sexo, ter diferentes preferências sexuais, políticas ou religiosas. Têm também direito a ter clube. Apenas não podem ser Benfiquistas. Isso sim, parece ser um crime.
Aproveitamos ainda para lembrar mais duas coisas que parece que foram “esquecidas” por uma imprensa que não olha a meios para atingir os fins:
1) Este processo em que o Rui Pinto vai ser julgado em NADA está relacionado com o Benfica;
2) Não há um juiz, há um colectivo de juízes composto por 3 elementos (sendo um deles presidente do colectivo de juízes)."

Elogio da Mão de Vata Matanu Garcia, a quem imploro: assuma o acto, é moralmente aceitável roubar um francês


"Aconteceu há exactos 30 anos, contra o Marselha, e foi com a mão. Convém esclarecer antes que apareça por aí um Honesto da Silva Ferreira em alegações de ombros e peitos.

Foi com a mão e foi muito bem feito. Tivesse sido com o pé ou com uma parte, para efeitos futebolísticos, menos nobre da anatomia, e já o teríamos esquecido. Ao golo e ao seu autor, Vata Matanu Garcia Foi com a mão. Convém esclarecer antes que apareça por aí um Honesto da Silva Ferreira em alegações de ombros e peitos. Foi com a mão e foi muito bem feito. Tivesse sido com o pé ou com uma parte, para efeitos futebolísticos, menos nobre da anatomia, e já o teríamos esquecido. Ao golo e ao seu autor, Vata Matanu Garcia.
O que leva este homem, de quem os benfiquistas só se lembram por ter vencido uma Bola de Prata com o anorético pecúlio de 16 golos, por ter sido contratado ao Varzim enquanto o homem-forte do futebol do Benfica, Gaspar Ramos, andava pelo Brasil a tentar contratar Romário (em vez do “baixinho” trouxe na bagagem Adesvaldo José de Lima, o mesmo que sair para comprar um Rolex e voltar para casa com um Roscoff no pulso), e pelos seus três sinfónicos nomes que eu sabia por causa das cadernetas de cromos (note-se que, para mim, o central Mozer era José Carlos Nepomuceno Mozer e o artista Valdo era Valdo Cândido Filho; Aldair, por razões que desconheço, é que era só mesmo Aldair), o que leva este homem, perguntava eu, a dar entrevistas em que jura ter metido a bola na baliza de Castañeda com o peito ou o ombro?
Será que não percebe que a grandeza daquele golo, o golo mais importante da sua discreta carreira, reside precisamente na sua óbvia ilegalidade, em tê-lo marcado, com descaramento e em desespero, com a mão?
O que seria um banalíssimo golo, ainda que dando o bilhete para uma final europeia, tornou-se uma obra de arte, um golpe digno de figurar na história universal da infâmia e elevar o seu desengonçado autor à galeria onde Borges reuniu ladrões de cavalos, piratas chinesas e falsários. E isto porque o golo foi marcado com a mão.
Corrijo.
O golo foi feito à mão e é sabido que os objectos feitos à mão são mais valiosos do que qualquer artefacto industrial. Imagino-me sentado aqui, trinta anos depois daquela noite de Abril, a escrever sobre “um golo marcado na sequência de um pontapé de canto” por um jogador mediano cujo nome eu já teria esquecido. O que poderia eu escrever sobre esse golo vulgar?
Mas Vata meteu a mão e aqui estamos nós, trinta anos depois, a gabar-lhe a audácia. E sabem que mais? Vata também sabe que foi com a mão. Eis o relato que Eriksson, na altura treinador do Benfica, fez na sua autobiografia: “Os jogadores do Marselha acusavam Vata de ter marcado com a mão. Na cabina, fui ter com ele e perguntei-lhe como tinha sido. Não respondeu. Não respondeu. Só olhou para o chão. Disse-lhe que não estava zangado. Pelo contrário. Havíamos ganho e estávamos na final. Vata levantou-se e mostrou-me como tinha tocado na bola com o braço. “Okay”, disse eu. E até lhe dei uma palmada no ombro.”
Quando li estas palavras pela primeira vez fiquei em choque. Os olhos no chão! Uma palmada no ombro! Eis o que acontece quando à humildade de um filho do Uíge se junta a reserva escandinava de um antigo professor de Educação Física de Örebro. A equipa apurara-se para a final da Taça dos Campeões e ali estavam estas duas criaturas oriundas de latitudes tão distintas em festejos envergonhados, cheios de culpa católica e pruridos protestantes.
Acaso não sabiam que, sendo o adversário quem era, todas os métodos para o derrotar eram legais? Meus amigos, há apenas duas situações em que o roubo é moralmente aceitável: quando se rouba para matar a fome e quando se rouba um francês.
Como o francês se chamava Bernard Tapie, o roubo não era apenas aceitável, mas um imperativo de consciência. Lembro os mais novos ou mais esquecidos, que Tapie, o irascível presidente do Marselha, aterrou em Lisboa convencido de que a vitória não lhe escaparia. O excesso de confiança era geral. O treinador, Gérard Gili, chegou mesmo a dizer que já tinham reservado hotel em Viena, cidade que acolheria a final. Diga-se que a jactância puramente futebolística, descontando já a bazófia gaulesa, não era injustificada.
Duas semanas antes, o Benfica escapara milagrosamente de um massacre com bolas no poste e penáltis não assinalados. A derrota por 2-1 (com o golo do Benfica a ser marcado pelo tal Lima que Gaspar Ramos trouxera como despojo da sua investida brasileira) tinha sido um presente dos deuses, mesmo que Mozer, então a defender a equipa francesa, tenha escapado a uma punição severa quando, ao experimentar uma forma marcial de quiropraxia, espetou o joelho nas costas de Hernâni.
Dizer que o Marselha era melhor é pouco. No meio-campo e no ataque tinha Jean Tigana, Chris Waddle, Enzo Francescoli e Jean-Pierre Papin. Isto era o Cirque du Soleil contra uma trupe esfarrapada de velhos saltimbancos, faquires zarolhos, trapezistas gordos e ventríloquos mudos recrutados em saldos nas feiras de província. Os outros semifinalistas daquela edição eram os colossos Milan e Bayern.
Como é que o optimismo capitalista de Tapie podia olhar para o Benfica e ver mais do que um insecto insignificante no caminho da inédita glória marselhesa? Com o seu bronzeado de vendedor ambulante ou de apresentador de programa de variedades na RAI, bronzeado que sugeria esquemas ilícitos e que um juiz mais excêntrico aceitaria como prova de corrupção, deve ter pensado que a segunda mão era um exercício fútil e desnecessário, tal a superioridade da equipa que ele construíra com engenho e muitos milhões de francos.
Na véspera do jogo, declarou não temer o ruído das 110 mil almas que encheriam a Luz: “nem a mim, nem aos atletas do Olympique, faz qualquer diferença aquilo a que os portugueses chamam “Inferno da Luz”. Os rapazes jogam com os pés e com a cabeça, não é com os ouvidos. E como somos superiores, o triunfo irá para Marselha.”
Reparem: os rapazes jogam com os pés e com a cabeça, proclamou Tapie. E não é que foi derrotado por uma mão irregular? Segundo os jornais da altura, após o jogo, o presidente do Marselha estava furioso, “pior que uma barata de pernas para o ar”, e gritava, enquanto entrava e saía do autocarro: “Ladrões! Bandidos! Malandros! Gatunos! Piratas! Que vergonha…”
Enlouquecido, berrou que os portugueses eram todos uns porcos e proferiu palavras de que poucos se lembram, mas que a esta distância parecem futurologia: “Somos ingénuos e aprendemos agora com o Benfica o que devemos fazer no futuro.” Quatro anos depois, foi condenado por corrupção.
Naquela noite, a fúria dele caiu sobre o árbitro belga, Marcel van Langenhove, que, nas palavras do imortal Neves de Sousa, era considerado “um cidadão com certa vulnerabilidade perante os prazeres do mundo.” Tapie estava convencido de que o Benfica comprara o árbitro. O escândalo foi de tal magnitude que até o primeiro-ministro francês, Michel Rocard, escreveu uma carta aberta a Tapie, mencionando os “erros evidentes de arbitragem” e as injustiças “imperdoáveis e incompreensíveis”. O próprio Van Langenhove comentou o caso este ano. Diz que na altura foi alvo de ameaças de morte e embora compreenda que os adeptos não vão ao estádio para aplaudir o árbitro, pergunta-se porque é que ninguém se virou contra o verdadeiro “ladrão”, o “batoteiro”, Vata Matanu Garcia?
O árbitro belga tem razão. Não foi ele o “ladrão”. Ele foi apenas incompetente (ou talvez, e esta é uma teoria minha, tenha escrito direito por linhas tortas – não é a justiça que tem uma venda a tapar-lhe os olhos? – castigando antecipadamente o patrão do Marselha).
O ladrão, e isso é que é extraordinário, foi Vata. Bastavam as reacções descabeladas de Tapie e dos franceses, primeiro-ministro incluído, para que erguessem uma estátua de Vata ao lado da de Eusébio ou, pelo menos, fizessem como as estrelas no Passeio da Fama e permitissem que a mão do angolano ficasse para sempre gravada no chão do Estádio da Luz. Se isto não acontecer, então imploro ao antigo jogador angolano que assuma finalmente a autoria do roubo do século.
É que não foi um roubo qualquer. Não foi um roubo de igreja, nem de catedral. Foi um roubo de museu. Do Louvre. Vata entrou, pegou na Mona Lisa e saiu pela porta principal com a obra-prima de Da Vinci debaixo do braço à vista de 110 mil cúmplices eufóricos, três belgas ceguetas e um bando de gauleses gloriosamente enganados. Está na hora de reconhecer a paternidade do prodígio. Um golo assim, feito à mão desarmada, não se enjeita."

[FR] Bistrot - Carnets de voyage - nos Awaydays à travers l’Europe - épisode 3

Futebol sem assistência

"O futebol como ocorre com muitos jogadores é uma festa e um prazer jogar, mas sem assistência torna-se uma aberração e contra-natura. Ver um jogo ao vivo é completamente diferente, o entusiasmo e toda a moldura humana. Ouvir o bruaá quando é golo, ouvir o bruaá quando o árbitro não marca falta, ouvir o bruaá quando há um remate perigoso e quase é golo. Tudo isto é impagável pela sua beleza, envolvência e sonoridade única.
Vi Eusébio jogar ao vivo, quase que via Baggio, para mim o melhor jogador do mundo na posição 9, 5 (isto é um falso 9). Vi Gomes bi-bota de ouro, vi e vejo Ronaldo, entre outros.
Num jogo em que se ouve os colegas de equipa, ouve-se o barulho da bola quando sai, mas não se ouve o barulho das pessoas, os seus gritos, os seus insultos, o seu apoio, o eco que fazem. Para mim não é jogo, mais parece um treino ou uma peladinha.
Um jogo de futebol sem assistência perde a sua essência. A possibilidade de se jogar em recintos fechados devido à Covid-19 arrepia-me e falta qualquer coisa para ser futebol.
A nível táctico é o mesmo nada muda, mas a motivação dos jogadores não é a mesma. Um campo de futebol sem adeptos torna-se neutro e a vantagem de jogar em casa esfuma-se. Os jogos à porta fechada sempre foram para castigar o clube por mau comportamento dos seus adeptos, para tirar alguma vantagem de jogar em casa e receita na bilheteira.
O futebol é um espectáculo e o espectáculo é o público. Faltam os aplausos e os assobios. Os aplausos motivam os jogadores da casa, mas os assobios também motivam os adversários.
É uma sensação de tristeza, de vazio, de vida após a morte. Falta a adrenalina e a pressão do público. É esquisito, mas traz vantagens para os treinadores que podem influenciar mais, com as suas indicações e tornam-se mais audíveis, por outro lado, traz vantagens para os árbitros actuam com mais liberdade.
Os jogos em casa perdem a pressão toda que se exerce sobre os árbitros e o próprio jogo em si.
O jogo estava a ficar muito mecanizado, tirando raras excepções como o fabuloso Ronaldinho, um artista e um génio que rebentava com qualquer esquema táctico, de um momento para o outro. O futebol tinha perdido espontaneidade e agora sem público vai perder emoção."

O scouting omnisciente e o logro da modernidade

"Há algumas décadas atrás, Jeff Alger, então alto quadro da Microsoft, treinava em part-time uma equipa de futebol amador e percebeu que havia muito pouca ciência aplicada ao desenvolvimento dos jogadores.
"Não havia maneiras objectivas de medir a qualidade dos jogadores", disse, "e sem poder medir, não temos nada".
A sua sensibilidade analítica de designer de sistemas fê-lo reconhecer o problema e assim despediu-se da Microsoft, fez um mestrado em gestão desportiva e abriu uma empresa que usaria inteligência artificial para avaliar o talento dos atletas e o treino das equipas. Hoje é uma referência no reconhecimento de padrões de aprendizagem de sistemas para a melhoria do treino e disponibilização de análises avançadas sobre desempenho competitivo.
É já irrefutável que o 'machine learning' aplicado aos desportos colectivos de alto rendimento pode a melhorar a própria ciência desportiva no trabalho com os atletas em todas as suas vertentes.
Já durante esta temporada a sua empresa acompanhou o Málaga, na Liga Adelante, capturando tudo o que acontecia em campo, quer em treinos quer em jogos, com cerca de 20 câmaras sincronizadas em vídeo de alta definição 4K.
É a omnisciência no processo de observação e de avaliação.
O sistema avalia a habilidade e consistência dos jogadores. Por exemplo, a quem determinado jogador passa a bola, quem a recebe, como a recebe, com que frequência, bem como a estrutura táctica da equipa no momento de cada decisão individual. Rastreia o eixo de rotação e a taxa de rotação da bola. E esta não é a única forma como a tecnologia está a ser usada.
Os clube profissionais de futebol obtêm uma fatia cada vez mais significativa da sua receita com a venda de jogadores. As academias tornaram-se em centros de receita para muitos clubes, à medida que desenvolvem jovens jogadores e depois os vendem para outros clubes mesmo sem que estes alguma vez tenham consistentemente comprovado o seu valor ao mais alto nível, e sem uma medida objectiva do sucesso desportivo em é ainda mais difícil atribuir um valor ao atleta. Igualmente aqui, sistemas como o SCOUTPANEL, de avaliação dos atletas com a aplicação da IA (Inteligência Artificial), estão a revolucionar o mercado oferecendo aos decisores análises de performance e de potencial baseadas na recolha de centenas de milhões de dados que seriam virtualmente impossíveis de contemplar e processar pela intervenção humana. Aplicando a todos métricas apuradas ao longo de mais de uma dezena de anos de data tracking e que, ao contrário do olho humano, nada têm de subjectivo.
A questão de saber se os características/movimentos/decisões de determinado jogador correspondem às necessidades específicas de uma equipa em particular também tem sido um dos focos de aplicação destes sistemas, e com assinalável sucesso. Por exemplo, é possível identificar um jogador aparentemente menos capaz, mas que seja determinante numa execução técnica específica ou numa fase do jogo em que a equipa do clube interessado na sua contratação seja particularmente deficitária.
Outros sistemas também podem detectar ou prever lesões. A Sparta Science, trabalha num armazém em Silicon Valley que tem uma pista de corrida repleta de equipamentos para avaliar a condição física de atletas.
A empresa usa o machine learning para recolher e analisar dados de placas electrónicas no pista que medem força e equilíbrio. O sistema colecciona mais de 3.000 pontos de dados por segundo e um teste ao atleta leva cerca de 20 segundos.
Na verdade muitas vezes os atletas não reconhecem uma lesão ou ignoram sinais de vir a desenvolver uma lesão, o sistema tem um histórico comparado de todos os testes que fez e do seu próprio diagnóstico. Com base nos dados recolhidos o sistema pode até avaliar a evolução da bio mecânica do jogador, ou seja, dos seus movimentos mais detalhados e recomendar formas do atleta se aproximar da sua "assinatura de movimento ideal".
A chave para toda essa tecnologia são os dados e os sistemas de visão computacional estão cada vez mais mais avançados, seja na busca de tumores em ecografias, quer na procura de padrões de movimento numa transmissão televisiva. Neste caso, os computadores já são treinados para reconhecer a bola em várias condições de iluminação, bem como entender qual o ponto do pé que entra em contacto com a bola.
Para o computador fazer isso à priori, equipas humanas precisam de anotar meticulosamente milhões de imagens. Quanto mais dados forem anotados, com detalhe e fiabilidade, mais precisa será a análise e a aprendizagem da máquina. "Basicamente, quem tiver os dados melhor identificados ganha". Os melhores computadores a pensarem o jogo serão sempre aqueles que tiveram os melhores professores. Novamente somos confrontados com a vantagem dos sistemas que já vêm sendo desenvolvidos no seio dos gabinetes de análise dos grandes clubes internacionais e que já dispõem de um data-lake, com uma dimensão crítica de dados cruzados e testados ao longo de anos, inatingíveis pelos esforços bem intencionados de empresas mais recentes.
A Matchmetrics, como spin-off do departamento de scouting do Borussia de Dortmund, herdou o trabalho de mais de 15 anos de recolha de dados, e mais tarde com grandes clubes como o Arsenal de Londres, ou AC Milan estabeleceu colaborações que vão muito para além de uma simples relação fornecedor/cliente.
Quando se fala de algoritmos é necessário ter em conta quem, e como, "ensinou a máquina". Como o próprio futebol jogado ao mais alto nível comprova, de nada vale investir milhões numa grande equipa sem ter antes de mais um grande treinador. Assim é também com os computadores. De nada interessa a complexidade do algoritmo ou a potência do processador, se não tiver tido os melhores programadores, se as ideias nas quais radicam todas as "operações" de processamento de dados, não forem efectivas e com resultados comprovados pelos clubes que antes dos demais tomaram a dianteira do futuro. Só assim evitamos o logro da modernidade."

Futebol: 'A bagatela mais séria do mundo'

"Uma bola, 22 jogadores. Duas equipas adversárias, mas não inimigas, metade de cada lado. Fora das quatro linhas, ficam os adeptos(as) das duas equipas. Muitas vezes agrupam-se em claques de apoio e, frequentemente, vestem-se a rigor com as camisolas, cachecóis, bonés e gorros do clube que apoiam.
Jogo criado em Inglaterra por homens e para homens, o futebol, grande competição desportiva, é um produto de globalização. É uma indústria de entretenimento que age intensamente na cultura e na economia dos países. O ambiente nos estádios de futebol suscita reacções contrastadas. Uns celebram a importância das multidões que assistem aos jogos, outros denunciam a agressividade e a violência dos adeptos, outros ainda exaltam a força emocional dos cantos e clamores que aí ressoam. Seja factor de atracção ou de aversão, o futebol, como espectáculo, raramente deixa indiferente os actores sociais. Entre a glorificação entusiasta - e o entusiasmo é tal que se tornou a “bagatela mais séria do mundo”, segundo Bromberger (1998) - e a condenação definitiva, entre a fascinação devota ou a repulsão, o leque de atitudes e de opiniões são particularmente amplas.
As bancadas e as tribunas compõem um mosaico de microterritórios, mais ou menos visíveis e delimitados, mais ou menos efémeros e instáveis, mais ou menos estruturados e organizados. São o local onde se propagam as emoções mais profundas; basta olhar para os rostos para nos apercebermos da multitude de expressões que animam e revelam a panóplia de sentimentos vividos: angústia, alegria, cólera, desespero, injustiça, etc.
Acolher um megaespectáculo de futebol, tem investimentos avultados (infraestruturas, segurança, marketing, etc.). São também um meio de promoção dos países, evidenciando a importância social, cultural e económica que os grandes eventos desportivos assumem nas sociedades. Com o adiamento do Euro2020 para 2021, devido à crise originada pelo coronavírus, perdeu-se tudo isto. Para já, as maiores vítimas pelo adiamento são as federações nacionais. As fases finais das grandes competições são uma boa fonte de receita."

Europa vs. USA - O futebol a caminho do modelo americano

"O mundo do desporto, tal como muitas outras indústrias, está paralisado devido ao COVID-19. A globalização permitiu ao homem conhecer o planeta terra sem fronteiras para além das naturais, mas o podermos viajar por todo o mundo acabou por ter consequências imprevisíveis aos olhos de alguns. A verdade é que pelo menos nos últimos vinte/trinta anos tornou-se possível estarmos hoje num local e passado 48h/72h estarmos a milhares de km, levando connosco a nossa mala, com aquilo que precisamos mais aquilo que desconhecemos como, por exemplo… vírus, que viajam à boleia e não são detectados nas máquinas de segurança dos aeroportos. Assim sendo, para mim a pandemia não é nenhuma surpresa, como era fácil de se prever, esperando eu que depois da «casa arrombada saibamos meter trancas na porta».
O desporto é das actividades que mais atenção tem dos média, seja eles escritos, falados, televisão, rádio, redes sociais, um sem fim de plataformas que criam e alimentam informação, desinformação, momentos altos, momentos baixos, alegrias e tristezas.
Sem desporto sentimo-nos quase como despidos, pois aumenta a sensação de angústia do isolamento social.
Nesta situação, na europa, debate-se de forma intensa e diria mesmo emocional, a sobrevivência dos clubes, devido aos enormes prejuízos financeiros que coloca os clubes em alerta vermelho quanto à sua sobrevivência. Nos USA, a discussão económica está presente, mas foca-se mais na contribuição que o desporto pode dar para a retoma económica e para o entretenimento das pessoas.
Existe uma percepção que depois das pessoas estarem confinadas vão querer sair, vão querer viver momentos de emoção e o desporto pode-lhes proporcionar isso mesmo para além do entretenimento, e as ligas americanas querem estar presente e contribuir para tal.
Se os condicionalismos económicos têm um peso muito grande nos clubes europeus que estão na dependência das receitas dos direitos de transmissão, dos patrocinadores, receitas de bilheteira (não se aplica a todas os clubes), das verbas vindas da venda de jogadores e merchandising (nalguns casos), nos USA a realidade é completamente diferente.
No outro lado do Atlântico, as equipas são geridas como organizações, sendo propriedade de uma ou mais pessoas, ou mesmo de uma empresa, ou família, tendo uma sustentabilidade financeira que permite aguentar a suspensão das competições. Aliás, no passado recente já assistimos a greves de jogadores de diferentes ligas, sem repercussões financeiras de maior. É claro que houve perdas de receitas, mas também é verdade que as ligas regressaram sempre mais fortes e mais interessantes. O desejo de sucesso das diferentes equipas e da competição é compartilhado por proprietários e jogadores, visto que estes últimos podem ter ganhos financeiros provenientes da venda de ingressos. Para as ligas americanas o foco neste momento está na segurança dos atletas, de todo o staff das equipas e dos adeptos/fans.
Todos estas premissas assentam em modelos de organização diferentes. Nos USA, as ligas são profissionais e o sistema competitivo é fechado, há um tecto salarial por equipa, havendo penalizações financeiras pesadas para quem passar esse limite, e um propósito no compromisso com os adeptos/fans: entretenimento. Para isso cada vez mais as organizações/equipas americanas têm-se tornado organizações multimédia em primeiro lugar e marcas desportivas em segundo, que através do desporto criam conteúdos para os seus adeptos/fans de todo o mundo (o que algumas equipas do futebol europeu tentam replicar no território chinês). Nem todas as equipas têm reais possibilidades de serem campeãs, mas essas dão o seu contributo através do melhoramento de atletas, obtendo vantagens na escolha ou troca de jogadores, visto que o dinheiro nestas operações é muito condicionado. Uma equipa pode ter a pior % de vitórias/derrotas e ter casa cheia. Existem muitas formas de entretenimento, cada equipa está comprometida em captar o (engagement) interesse do adepto/fan, usando a sua marca desportiva, os seus activos (jogadores e treinadores) para criar algo de valioso e relevante.
Na Europa, o modelo competitivo é assente no modelo associativo. Nas competições domésticas, uma equipa pode ser campeã ou descer de divisão. Uma classificação nos lugares cimeiros pode dar-lhes a possibilidade de jogar nas competições europeias o que representa logo à partida um encaixe financeiro considerável e se torna uma vantagem competitiva em detrimento de receber nada, e que contribuiu para se manter dentro dos valores do fair-play financeiro. A estabilidade dos projectos é sempre relativa e pode ser colocado em causa por uma má época desportiva.
O futuro do futebol europeu caminha para que num futuro breve possa ter um quadro competitivo de dimensão europeia, através de uma competição fechada, representando um modelo de gestão desportiva com sustentabilidade financeira, de recursos humanos, e estabilidade e equilíbrio competitivo. Um melhor nível competitivo trará um maior poder de atracção de patrocinadores, adeptos/fans, espaço de tempo nas televisões e na comunicação social escrita. Um, ou mesmo dois grandes níveis europeus de competição, é algo que conjuga as aparentes diferenças entre as duas realidades desportivas: alimentar a paixão pelo jogo, o desejo de ganhar e a relação com os adeptos/fans.
Este é o momento certo para que quem gere o futebol, seja ao nível nacional, seja ao nível europeu ou mundial, contribua para a sustentabilidade e o propósito da competição e de cada organização desportiva/clube.
Fica a questão, e os outros clubes? Esses jogaram nos diversos níveis das competições doméstica, lutando pela atenção de adeptos/fans, por patrocinadores locais e nacionais, sendo que aos jogadores compete-lhes melhorar para chegar ao nível seguinte. Quanto aos clubes, estes devem estabelecer cada vez mais estratégicas de relacionamento com os seus adeptos/fans, com uma atenção especial à comunidade onde estão inseridos, preocupando-se em devolver aquilo que ela lhes dá em troca pela prática desportiva e entretenimento."

Benfiquismo (MDV)

Não correu muito bem...!!!

Benefício do infractor

"Que não se deixam os emblemas mais cumpridores cair no conto do vigário. É sempre mal aceite pelos adeptos mais correctos.

Nesta fase em que se desconhece se haverá, ou não, possibilidade de terminar o campeonato nacional e, caso se consiga terminar, se será com adeptos ou com estádios à porta fechada, nesta fase de nenhuma certeza, tenho para mim uma como definitiva, este campeonato não terá nenhum interesse desportivo. O prolongamento da época só tem razões de natureza económica e financeira. Neste momento, não se discute nada de desportivo, nem se vê algum interesse desportivo neste campeonato. Tudo o que se discute é financeiro, tudo são interesses (diga-se que legítimos e importantes) para salvar as contas de um negócio que, como outros geridos com menos solidez, atravessa uma crise séria.
Este pandemia, por pouca simpático que seja escrevê-lo, até veio justificar a incúria de gestão de muitos emblemas, a necessidade de intervenção externa de outros tantos e justificará incumprimentos que já estavam escritos nas estrelas de outros tantos. Esta pandemia pode ser uma derrota de quem cumpre e uma vitória de quem já não o iria fazer qualquer que fossem as circunstâncias.
Em linguagem desportiva, estamos num caso de benefício do infractor, o que, diga-se, é sempre mal aceite por parte dos adeptos mais correctos. Que não se deixem os emblemas mais cumpridores cair no conto do vigário, que vêm disfarçados de preocupações com o negócio. Nós sabemos quais foram os negócios que deram origem a alguns destes problemas, que não devem ser pagos por quem não lhes deu origem.
Numa entrevista dada esta semana ao Telejornal da RTP, D. Manuel Clemente, respondendo de forma simples a perguntas complexas (características própria dos sábios), dizia de uma forma singular que estas crises trazem sempre «ganhos de humidade». São esses que temos que contabilizar para o futuro. E também no futebol e no desporto, sob pena de se ter apreendido pouco.
Uma reflexão final sobre as posições de alguns adeptos, tomadas há pouco tempo, vistas à luz da actual realidade: alguém critica hoje a venda de João Félix por €120 milhões no verão passado e acha que seria melhor esperar mais um ano? Alguém hoje pensa que Frederico Varandas fez mal em vender Bruno Fernandes em Janeiro por €55 milhões? Bem me parecia... Liderar é tomar decisões, não é tentar ganhar o Euromilhões depois de saber os números."

Sílvio Cervan, in A Bola

Quarentena IV

"Muito se tem recomendado A Peste, de Camus, ou O Diário da Peste de Londres, de Daniel Defoe, e eu também quero contribuir, propondo o Némesis, de Philip Roth, em que o notável escritor descreveu o impacto, na comunidade, do surto epidémico de poliomielite ocorrido em Newark, em 1944. E já que estamos numa espiral de recomendações literárias, apesar de, infeliz e, creio, tragicamente, não haver assim tantos leitores, prossigamos nessa senda.
No meu caso, confessando-me um privilegiado, as minhas referências literárias para enfrentar a pandemia remetem-me, também, para o Camus, mas ao ensaio O Mito de Sísifo, pois é como Sísifo que me sinto diariamente ao tratar da máquina de lavar loiça, tarefa que me foi atribuída por mera apetência organizacional e total inaptidão culinária, oferecendo-se a coincidência de ter de me caber alguma tarefa doméstica e de alguém ter de tratar da loiça.
E ainda, por ter mais tempo em mãos do que o costume, aconselho a Apologia do Ócio, de Robert Louis Stevenson. Se tenho agora algo de sobra, esse é o tempo. O que, num certo sentido, ou mesmo em vários, se trata de uma dádiva. Tempo para ócio, entendido por oposição ao trabalho. Tempo para ser, estar, pensar, nada fazer ou nada produzir, além do meu bem-estar e satisfação. Não admira, portanto, a celebridade de Stevenson (escreveu mais umas coisitas) e a seguinte história envolvendo-o inadvertidamente: Depois de morrer, a sua ama de infância começou a vender o cabelo do escritor que lhe teria cortado e guardado religiosamente durante décadas. Vendeu o suficiente para estofar um sofá, contou Julian Barnes. E isto fez-me pensar nos diários desportivos em tempos de quarentena, fazendo pela vida..."

João Tomaz, in O Benfica