Últimas indefectivações
domingo, 25 de agosto de 2024
Tudo a dormir!!!
Descubram as diferenças.
— Alberto Mota (@lbrtmt1904_mota) August 24, 2024
O Farense até tem um leão no emblema... pic.twitter.com/u01vduIWcK
Comprar, vender e sonhar
"Falta uma semana para o fecho do mercado. Nenhuma equipa portuguesa parece satisfeita com aquilo que tem. A tentação é grande, mas os cofres estão demasiado vazios. Mesmo assim, talvez a loucura compense. Às vezes, um tiro, um único tiro e acerta-se no meio do alvo. Ou não. O tiro pode sair de um olho estrábico e falhar clamorosamente o alvo.
No Benfica, estuda-se a engenharia financeira da contratação de mais um avançado e de mais um lateral. Assim, de memória, já não consigo alinhar neste texto o número verdadeiramente estratosférico de laterais contratados e dos tiros vesgos que os tornaram irrelevantes. Mas há, na Luz, uma ânsia, que começa a parecer vício, de contratar e de meter muitos jogadores em cima do problema da equipa jogar pouco e jogar sem rumo.
No Sporting, tal como tem acontecido nas últimas épocas, assume-se a consolidação de uma política de contratação mais cirúrgica, mais responsável, mais metódica. Surgem planos B e C, mas percebe-se que Rúben Amorim quer mesmo contratar o grego Ioannidis, o que, se por um lado demonstra profissionalismo e rigor, por outro cria evidentes problemas na negociação, porque quem muito quer tem de esperar maiores dificuldades para ter.
Quanto ao FC Porto, limitado no seu conhecido emaranhado financeiro, que a anterior administração do clube deixou como prenda ao pescoço do dragão, a mira aponta para um avançado sueco, conhecido por lutar e correr muito, na esperança de que, assim, ainda se vá a tempo de corrigir o indesculpável erro de não ter reparado em Gyokeres, antes do Sporting.
A verdade é que esta será uma semana nervosa, instável, perturbadora para a grande maioria dos treinadores das equipas portuguesas. Não conhecer o plantel definitivo é sempre uma condicionante forte e, no entanto, nenhuma equipa portuguesa, das maiores às mais pequenas, pode, alguma vez, garantir que ninguém sai e ninguém entra.
Portugal é um país de muitas dependências, mas a maior delas será a competência das administrações. Acontece também no futebol. Não é possível contratar os melhores jogadores do mundo, mas é possível fazer boas equipas com jogadores da formação, mais os jogadores que acrescentam valor sem arrasar cofres exaustos. Daí que a relação entre treinador e administração tenha de ser muito especial e, sobretudo, muito inteira. Não se trata, apenas, do treinador se limitar a pedir e a esperar o que entendam dar-lhe. Ao contrário do que muitos dizem, os jogadores não são só para jogar e os treinadores não são só para treinar. Decisivo haver sintonia no projeto e unidade no plano.
Os clubes portugueses sabem, pois, que o seu destino é vender, comprar e…sonhar. Não cometer erros a vender e a comprar é o que permite a realização do sonho. Poucos o conseguem.
É verdade que o futebol se deixou capturar por um neocapitalismo sem dó nem piedade do histórico e da alma popular do futebol. E ainda será um jogo do povo, porque as televisões o transformam num espetáculo de massas. Por detrás, existe uma indústria poderosa que torna os clubes ricos cada vez mais ricos e os clubes pobres cada vez mais pobres.
É precisamente por isso que a sobrevivência dos clubes pobres e remediados, como os portugueses, se joga decisivamente no rigor, na resiliência e na competência de todos os profissionais de cada um desses clubes.
Dentro da área
Lamento de PC
Pinto da Costa vive tempos de sombra. É sempre difícil, para quem viveu uma vida longa ao sol. Na mais recente oportunidade de falar, recuperou a humildade do lamento. O ex-presidente lendário do FC Porto queixa-se da ingratidão dos seus antigos colaboradores, que mal sentiram que o vento estava a mudar no clube, logo se passaram para o outro lado. É só o princípio de muitos que prometiam não o esquecer…
Fora da área
Madeira que arde
Não consigo entender, por muito que me expliquem os méritos de certas políticas autónomas, que se tenha esperado oito dias para recorrer a meios externos, mas essenciais para, enfim, combater um incêndio que devastou montes e vales de uma floresta única na Madeira. A sobreposição dos interesses políticos sobre o bem público é abjeto. Nem a Madeira, nem os madeirenses merecem esta gente."
Benfica caminha sobre gelo fino
"Saldo positivo no mercado, qualidade dos reforços e a impaciência dos adeptos no outro prato da balança
A janela para transferências fecha-se no dia 2 de setembro, em Portugal, e o plantel do Benfica ainda vai mexer, mas, olhando para os números já detalhados em trabalho de A BOLA, o saldo, entre compras e vendas, é positivo.
Do que é do domínio público, a SAD encaixou €91,92 M com as saídas de João Neves, Neres e Paulo Bernardo; e gastou €43 M com as aquisições de Pavlidis, Beste, Gustavo Marques, Rollheiser e Carreras. Pavlidis custou €18 M, Beste €8 M, Rollheiser €9,5 M e Carreras €6 M, mas no mercado estão avaliados em €25 M, €15 M, €10 M e €7 M, respetivamente. As águias fecharam estas contratações abaixo do valor estimado. O que não é simples.
Os adeptos têm dificuldade em aceitar as vendas de João Neves ao PSG, por €59,92 M, e de David Neres para o Nápoles, por €28 M (além das verbas possíveis em prémios), mas foram dois bons negócios para o Benfica e que permitem uma almofada financeira importante. Acresce, a estes dois casos, que se em relação a João Neves seria muito difícil recusar uma proposta tão alta, sobre Neres o Benfica limitou-se a defender a sua posição num negócio em que o principal interessado foi sempre e essencialmente um: o próprio jogador. Neres queria sair e saiu mesmo.
Apresentado este cenário, a movimentação do Benfica no mercado não parece desajustada. Será injusto ou pelo menos precoce, concluir que o plantel esteja melhor ou pior do que na temporada passada com base numa má exibição e derrota na jornada inaugural da Liga, em Famalicão, depois de uma pré-época em que a equipa deu bons sinais e na qual faltavam jogadores fundamentais.
O nível de tolerância para Roger Schmidt e jogadores é pouco mais do que zero e mostra que a estrutura, incluindo o presidente, Rui Costa, caminham em gelo muito fino. E essa impaciência vem sobretudo dos adeptos do próprio Benfica, o que torna tudo mais complicado e representa perigo maior do que lutar apenas contra adversários.
É verdade que as peças do puzzle da equipa ainda parecem desencaixadas, mas o nível de investimento e a qualidade dos que estavam e de alguns que chegaram merece crédito. Embora com a consciência de que terá de ser ganho principalmente no campo. O Benfica tem vários desafios nesta época e o principal talvez seja recuperar a confiança nele próprio."
Roberto Martínez, e o que está à vista de todos?
"Da informação confidencial de Cristiano Ronaldo à estatística mais óbvia de Pedro Gonçalves
Roberto Martínez concedeu duas entrevistas nesta semana. Em ambas, como era óbvio, foi-lhe perguntado sobre a utilização de Cristiano Ronaldo durante o Euro 2024. Também foi questionado sobre a continuidade do capitão. A segunda não depende apenas do selecionador, a primeira sim. Se volto ao tema é porque a explicação de Roberto Martínez não convence. A mim, claro…
Disse o selecionador que tem «informação confidencial que mostra que Ronaldo foi bem utilizado no Europeu». Seria de espantar se não houvesse esse tipo relatórios. Mas há o que é confidencial e o que está à vista de todos. Primeiro, porque não é só na parte física que o desempenho de Cristiano dever ser analisado. Um futebolista pode estar em plena forma física e errar todas as decisões que toma num jogo. Pode, até, decidir bem e executar tudo mal, já agora.
Roberto Martínez passou pelas outras componentes, para além da física, é justo dizer. «Abriu espaços, reagiu bem à perda, mas acho que a falta de golo do Cristiano foi geral. O que Ronaldo fez enquanto ponta de lança foi o que nós esperamos dele. Em geral, trabalhou muito bem», afirmou. Não, não foi o que se espera de Ronaldo, nem o que ele próprio, seguramente, espera. Porque, desde logo, foi pelo golo que Cristiano se tornou o maior português da História e um dos melhores jogadores do futebol.
Depois, foram muitas as vezes em que as combinações que pareciam lógicas com colegas não surgiram. É a parte em que os relatórios confidenciais não entram, nem precisam, pois ficou à vista de todos. De outro modo, o tema nem seria tema…
É como as pré-listas, confidenciais. Pote, Pedro Gonçalves do Sporting, estava nelas. Roberto Martínez tem a legitimidade de tomar as decisões que quiser. É pago para isso mesmo. Pode, até, achar que o estilo de jogo de Pote não se adequa ao que pretende. Ou que para aquilo tem melhor.
Não entro na tese que o selecionador não escolhe Pote por ser de determinado empresário ou, não sei se pior, por ser do Sporting. Aliás, Martínez, em janeiro, falou mais de Giovani Quenda do que qualquer treinador leonino, provavelmente.
Pote tem sido consistente e influente numa equipa que nos últimos anos ou foi campeã ou andou na luta. Martínez poderá ter dificuldades em ver onde o encaixar, pode, o que até poderia dizer alguma coisa do selecionador. A principal questão, porém, é que nem tentou.
Disse Martínez que um dos problemas no Euro 2024 foi a falta de golo em geral. Consistente, influente, talentoso e…já agora com golo. Não é preciso um relatório confidencial com a estatística de Pote. Ela está à vista de todos."
Duzentos e onze milhões contra o River
"No ano passado, o Fluminense venceu a Taça dos Libertadores. Em 2022, foi a outra metade da dupla Fla-Flu, o Flamengo, que se sagrou rei do subcontinente. Nos dois anos anteriores, o Palmeiras, de Abel Ferreira, levantou o troféu. Em 2019, deu Fla, de Jorge Jesus. São cinco anos seguidos de domínio brasileiro da prova.
Com a segunda população, 211 milhões de habitantes, e a segunda economia, 1,92 biliões de dólares, das Américas, atrás, em ambos os casos, apenas dos EUA, o Brasil tem tudo para manter a preponderância em 2024: nos quartos de final estão o campeão Flu, o Atlético Mineiro, o São Paulo, o Botafogo e o Mengão.
Sobram os uruguaios do Peñarol, os chilenos do Colo-Colo e os argentinos do River Plate, os últimos não brasileiros a ganharem a prova, em 2018, frente ao rival Boca Juniors, em Madrid. O River de 2024 é, aliás, o principal (para alguns observadores, o único) obstáculo entre o Brasil e a taça.
Com mais conquistas, quatro, do que qualquer clube brasileiro, Los Millonarios, para fazerem jus à alcunha, investiram 21 milhões de euros nesta janela, segundo o jornal Olé. Em Ledesma, guarda-redes do Cádiz, Bustos, lateral do Internacional, Meza, médio do Monterrey, Gattoni, central emprestado pelo Sevilla, Carboni, lateral emprestado pelo Inter, e ainda a dupla de campeões mundiais Pezzella, central ex-Betis, e o antigo leão Acuña, lateral ex-Sevilha.
Mesmo num cenário económico desafiador na Argentina, o clube divulgou no fim de 2023 o que chamou de melhor superávit da história, 52,3 milhões de dólares, para o qual contribuíram as vendas de Enzo Fernández para o Benfica, por 44 milhões de euros, e as de Echeverri (Manchester City, 18,5), De La Cruz (Flamengo, 14,5), Beltrán (Fiorentina, 12,6) e Barco (Spartak, 14), num total de 103 milhões em duas épocas.
O River, atrás apenas de Palmeiras e Flamengo e imediatamente à frente de Botafogo e Atlético Mineiro, é agora o terceiro clube mais valioso da América do Sul, segundo o site Transfermarkt. Livre no mercado, James Rodríguez, ex-FC Porto, pode ser o próximo às ordens do maior reforço, o treinador Marcelo Gallardo, que ganhou duas Libertadores, uma Copa Sul-Americana um título argentino e até uma estátua de sete toneladas em frente ao Monumental de Núñez.
Por falar em Monumental de Núñez, ou Mâs, o nome de uma cadeia de supermercados que o patrocina, a final da Libertadores deve ser lá: deve porque, para já, só é conhecida a cidade sede, Buenos Aires, não está oficializado que o jogo será no reformado recinto do River.
Com o dono da casa em campo? O sorteio ajuda: os Millonarios estão na parte fácil do quadro, enfrentando Colo-Colo nos quartos, e, se passarem, Flu ou Galo nas meias; na outra metade, estão Fogão, Fla e São Paulo..."
Jogos Paralímpicos: sejam felizes em Paris!
"Margarida Lapa e Luís Figueiredo foram convidados de A BOLA TV esta sexta-feira e ensinaram-nos mais em 20 minutos do que o que aprendemos em 20 dias.
A Margarida é atiradora, o Luís chefe da missão portuguesa aos Jogos Paralímpicos, onde os atletas nacionais já conquistaram 94 medalhas. As Anas, a Carina, a Carolina, os Miguéis, o Mamudo, o Sandro, a Beatriz, o André, a Carla, a Cristina, o David, o José, o Alex, o Norberto, o Luís, o Telmo, o Daniel, o Diogo, o Marco, o Tomás, o Djibrilo, a Simone, a Margarida e o Filipe são exemplos para todos nós e representam muito do que a sociedade tem de bom. Cito o meu amigo Jorge Pessoa e Silva no final do programa: «Sejam felizes.»
De chorar por mais
O golaço de Ioannidis ao Lens, na Liga Conferência, começa a explicar a insistência do Sporting no avançado grego.
No ponto
O provável regresso de Fábio Vieira a Portugal constitui uma boa notícia, e não apenas para o FC Porto.
Insosso
Gostava de ter visto a Supertaça feminina, mas tive de escrever sobre o Farense-Sporting. Não fui o único.
Incomestível
Dois campeões da Europa, Rui Patrício e Adrien Silva, treinam-se sem clube. Quem os deixou cair pelo caminho?"
sábado, 24 de agosto de 2024
Até o Verdíssimo achou que era demasiado!!!
Este penálti a favor do Sporting é um escândalo. Recorde-se que o Sporting foi de tal forma beneficiado na época passada que levou a que o Conselho de Arbitragem lançasse um comunicado a admitir um desses erros. Este ano estão a roubar ainda mais. pic.twitter.com/B56sxXxQ2r
— Polvo das Antas - Em Defesa do SL Benfica (@moluscodasantas) August 23, 2024
Derrota...
Benfica 1 - 2 Sporting
Prieto
Supertaça mal perdida! Já se sabia que com as ausências, o grau de dificuldade seria maior... Marcámos primeiro, e estávamos a gerir bem a vantagem, com a bola longe da nossa baliza, mas bastou um remate para iniciar a reviravolta...
A Pauels, é neste momento, meia equipa... o 2.º golo nunca entraria e mesmo no 1.º o ano passado defendeu várias bolas idênticas!
Pessoalmente, continua a achar que a equipa precisa de duas contratações: uma Central, e uma média organizadora ofensiva!
Infelizmente, a arbitragem continua na mesma, e o Benfica continua calado!
Conclusão: equipa que não ganhou o Campeonato, e nem sequer foi à Final da Taça de Portugal, vence a Supertaça!!!
Comunicado
"O Sport Lisboa e Benfica informa que o seu Presidente, Rui Costa, está impedido de marcar presença, nesta noite, na final da Supertaça de futebol feminino devido a um castigo aplicado pelo Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol.
O castigo, conhecido precisamente esta semana, tem por base o jogo da Taça de Portugal da época passada entre o Benfica e o Sporting, ocorrido no dia 2 de abril.
O Sport Lisboa e Benfica expressa, por isso, profundo repúdio e preocupação pelo facto de esta punição surgir mais de 4 meses depois e precisamente na única semana em que há uma competição organizada pela Federação Portuguesa de Futebol.
Tal facto impede o Presidente do Benfica de estar no estádio, ao contrário do que aconteceria numa competição organizada pela Liga, onde seria apenas impedido de aceder às áreas técnicas, podendo marcar presença na tribuna.
Por todas as razões e mais uma, um timing para castigar o Benfica que muito se estranha, sendo mais uma vez incompreensível esta decisão do Conselho de Disciplina da FPF."
Felicidade nas margens do Sena
"Bastaram 45 minutos. Uma parte apenas de um jogo de futebol. Surgiu mais leve, mais livre, mais solto e (futebolisticamente falando) mais feliz. Beneficiou da qualidade de quem com ele jogou, é um facto. Beneficiou da inteligência de quem, sem quaisquer problemas e como se jogassem juntos há anos, soube perceber como, quando e onde deveriam promover trocas posicionais, sem que isso fragilizasse a equipa e a deixasse descompensada.
Mas beneficiou imensamente mais por ter um treinador como Luis Enrique, alguém que não teve quaisquer problemas em acrescentar mais inteligência e qualidade à equipa, mesmo que isso tenha implicado lançar um jovem jogador recém-chegado ao plantel. Alguém que não se importou com o peso do tempo, barómetro que tantas vezes utilizamos como fuga ou escapatória para a não utilização daqueles que parecem não precisar dele.
Luis Enrique não só lançou João Neves como deu-lhe palco para ser aquilo que inicialmente todos perspectivámos aquando do seu aparecimento na equipa principal do Benfica, mas que ultimamente parecia impossível: um médio centro completo, cerebral, com raio de acção alargado com bola, com chegada às zonas de decisão e finalização. As duas assistências para golo não foram fruto do acaso e mostram o quão importante foi a liberdade técnico-táctica dada pelo treinador espanhol ao jovem internacional português.
Significará isto, a meu ver, que em pouco tempo Luis Enrique viu em João Neves algo que Roger Schimdt não conseguiu descortinar em vários meses: o tal médio centro completo, total e cerebral (à imagem e semelhança do icónico João Moutinho). E não apenas o bombeiro de serviço, responsável pelas coberturas e compensações defensivas de um ataque anárquico e de uma equipa incapaz de ocupar racionalmente os espaços em organização ofensiva por ausência de ataque posicional (diria até por inexistência de treino/trabalho nesse sentido).
Ao ver os últimos jogos de João Neves ao serviço do Benfica cheguei a temer pela sua descaracterização. Estava cada vez mais vocacionado para ser o «apaga-fogos» da equipa, o homem dos equilíbrios de uma ideia de jogo e um modelo de jogo desequilibrados. As avaliações qualitativas passaram a ser constantes no que à entrega, à disponibilidade física defensiva e ao compromisso diz respeito. A esperada influência ofensiva, outrora idealizada e tão notória aos olhos de quem consegue enxergar o simples, esfumura-se e dera lugar a um médio com tracção à retaguarda. Como se João Neves pudesse ser reduzido apenas a um carregador de piano...
Felizmente, e à primeira vista, as margens do Sena trouxeram outros ares, outras ideias e outros hábitos a João Neves. Bastaram 45 minutos. Uma parte apenas de um jogo de futebol. Surgiu mais leve, mais livre, mais solto e (futebolisticamente falando) mais feliz.
PS - Jogar com Vitinha, por estes dias, é um luxo de valor incalculável. Ao lado do maestro português a bola tem sempre destino e destinatário, e os colegas têm sempre a certeza e a garantia de que a bola chegar-lhes-á redonda. Difícil seria não saber jogar ao lado de alguém que é bússula, farol, polícia sinaleiro, carteiro, arquitecto e engenheiro em simultâneo."
Há muitos ‘Félixes’ no Chelsea
"Clube inglês vai em 1200 milhões em contratações nos últimos dois anos e o português terá de destacar-se para não ser mais um ‘flop’
João Félix deve sentir, por estes dias, alívio. Não só se desvinculou definitivamente do clube que menos o desejava no mundo, como ainda por cima garantiu que nos próximos 7 anos não tem nada com que se preocupar. Só que estas não são razões para um futebolista profissional de alto nível – sobretudo os que custam tantos milhões – poder estar descansado. Sobretudo quando se vai jogar no Chelsea.
O clube inglês tem sido muito generoso em transferências, mas pouco simpático para quem lá joga e gosta de ganhar e/ou valorizar-se. Não vale a pena recordar aqui a longa lista de reforços e de valores envolvidos (nem sei se teria espaço para tantos zeros), mas Félix deverá fazer algumas contas. Bastar-lhe-á olhar para Enzo Fernández, também ele uma venda astronómica do Benfica, ou Moisés Caicedo, ou Sterling, ou Mudryk… Enfim, exemplos não faltam de jogadores com muito talento que andam a passar ao lado dos grandes momentos.
O português, de coração partido desde que deixou a Luz, desperdiçou os últimos cinco anos e já muito se escreveu e disse sobre as razões para isso. O Chelsea poderá ser a última oportunidade de Félix mostrar que consegue estar ao nível das expectativas, embora tenha ideia que também já muitas vezes se escreveu e disse que esta seria a última oportunidade de Félix fazer isso. O que suspeito que o vá dificultar agora é que há demasiados jogadores neste clube que precisam de provar desesperadamente o que valem. Há muitos Félixes no Chelsea…
Enzo Maresca quererá certamente fazer melhor do que Graham Potter, Frank Lampard ou Mauricio Pochettino com este conjunto de estrelas sem brilho, mas ou este Chelsea se transforma numa equipa e todos estes jogadores podem finalmente sentir que o problema nunca foram eles, ou o rótulo de clube dos flopes só terá tendência a aumentar.
Individualmente, João Félix poderá decidir se quer continuar a ser destaque pela desilusão, ou se quer ser o próximo Cole Palmer (isto é, o sobrevivente da tragédia). Mas só um coletivo forte o poderá salvar de um clube que não me parece a escolha certa para motivar um jovem que aos 19 anos estava a ser vendido por 120 milhões e nunca soube lidar com isso.
Maresca disse recentemente que só treina com 21 jogadores e os restantes 20 do plantel estão à parte e nem os vê. Não sei se Félix já percebeu ou quer perceber isto: ainda o estamos todos a ver, mas tem de mostrar algo mais se não quiser acabar assim.
Já o escrevi aqui e repito: João Félix precisa de acelerar na mentalidade competitiva para deixar de mostrar uns truques a espaços e ser finalmente o craque que tantos esperam. Já está longe do trauma Simeone e o gestor de conta não vai chateá-lo nos próximos 7 anos. Agora resta-lhe trabalhar muito e esperar que o Chelsea… deixe de ser o Chelsea."
Cristiano Ronaldo: gratidão não rima com razão
"Ainda me está fresca a memória, apesar dos 21 anos passados. Um estádio disruptivo pela arquitetura de Tomás Taveira, a herança pesada de um José Alvalade mítico, por grandes nomes e importantes conquistas.
Dulce Pontes a empolgar com o Amor a Portugal na música épica de Morricone e, no relvado, um miúdo lançado por Fernando Santos frente ao Manchester United, ilustre convidado para a festa sportinguista de inauguração do seu novo recinto.
Começa o encanto absoluto de Cristiano Ronaldo, ao ponto de Ryan Giggs e companheiros do United convencerem Sir Alex Ferguson a avançar, de imediato, para a contratação do jovem fenómeno português.
Velocidade, capacidade de drible no duelo direto, remate possante e colocado, variação do tipo de jogo. Tudo Cristiano oferecia, tudo Cristiano ofereceu durante muitos anos. Aliando as condições genéticas e de talento indispensáveis a uma capacidade de trabalho único, o madeirense rapidamente se tornou referência em Inglaterra e no “planeta Futebol”. O primeiro a chegar e o último a sair das sessões de treino, a obsessão pela perfeição (que, não existindo, é sempre o alvo dos predestinados), a capacidade de se integrar e de começar a liderar, aliada à propensão goleadora que dele fez recordista em várias ligas e em múltiplos desafios.
A história de sonho de Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, menino nascido para a bola da rua em bairros condicionados do Funchal e transportado, quase num ápice, para o patamar mais alto da competição, do desafio, da maturação profissional num mundo global em que se torna ídolo, benchmarker, referência, influencer, motivação, figura quase estelar.
Cristiano foi notável, do ponto de vista puramente desportivo, durante 15 anos. Os primeiros seis no Manchester United, depois no Real Madrid, para onde verdadeiramente protagonizou a primeira grande transferência global, recordista de valores à altura e projetada pelos merengues ao nível das suas ambições.
Nos últimos seis anos, a sua carreira tem decrescido em ternos de impacto. Desde logo porque o movimento para a Juventus talvez tenha sido o mais mal pensado da sua carreira, do ponto de vista estratégico: o futebol italiano não é o espanhol e muito menos o inglês, a “Juve” vinha de uma fase muito difícil nos capítulos desportivo e financeiro (vendo o português como uma inegável mais-valia, mas não lhe concedendo o espaço e o tempo de que, porventura, necessitaria), e a idade em crescendo obrigava Ronaldo a uma dupla perspetiva de leitura: por um lado, as condições físicas inatas (e, obviamente, muito potenciadas por uma capacidade de trabalho única e transversalmente reconhecida) obrigavam-no a um reposicionamento tático e a uma contenção na disponibilidade que não reconheceu; por outro, a destreza mental que sempre revelou na tal obsessão pelo treino implicava que percebesse a evolução do jogo, o sentido coletivo do mesmo e a sua integração nos novos patamares de competição, com jogadores jovens, profundamente disponíveis, dotados e agressivos para o futebol ao mais alto nível de rendimento.
E foi aí que algo mudou, que algo não funcionou no necessário aggiornamento do grande jogador português. Foi notória a componente mais individualista, que se revelou na Juventus, se maximizou na última e menos conseguida passagem por Old Trafford e se exponencia, agora, no Al Nassr, de uma liga saudita em que o dinheiro consegue apagar a ética de um país em que as liberdades ainda não são totais e em que um futebolista profissional com a dimensão universal e o impacto global de Cristiano Ronaldo poderia ter uma importante palavra a dizer, por exemplo, na defesa dos plenos direitos das mulheres, longe de estarem garantidos em Riade, e curiosamente num momento em que a FIFA e a UEFA se esforçam por dignificar a ajudar a comparar, em todos os aspetos do jogo e da sua organização, as vertentes masculina e feminina…
Cristiano, enquanto capitão da seleção nacional portuguesa, atirou por três vezes a braçadeira ao relvado, barafustou com companheiros pelo facto de a bola não lhe ter chegado redonda, revelou-se não disponível quando a competição parecia menos interessante (a fase de grupos da Liga das Nações, por exemplo). Marcou golos decisivos e falhou ocasiões determinantes (como no último Europeu). Beneficiou sempre de uma boa imprensa, que lhe reconhecia (e muito bem) todos os méritos mas que, muitas vezes, olvidava situações de menor acerto.
E, no que diz respeito à sua presença na seleção, ela será tão importante como fator de empolgamento e motivação, quanto dispensável como titular indiscutível, fator que conduziu a um claro menor rendimento coletivo do combinado nacional no Mundial do Qatar e, sobretudo, no Europeu da Alemanha. A influência de um jogador (ainda que seja um mito, um recordista de muitos fatores e golos a nível mundial, o mais exemplar e incansável dos trabalhadores no jogo e no treino), pode ser fundamental no balneário, não tem de o ser no retângulo. Para mais, quando Portugal tem uma geração extraordinária de jogadores do mais alto nível (porventura, a melhor sempre…), que, em determinados momentos, parece ofuscada pela tentativa de individualização do brilho de quem já não precisa de tentar marcar todos os livres diretos para provar quem é e assinar o seu nome na história do futebol.
Caro Cristiano, foste, és e serás único.
Que saibas sair na exata medida da grandeza da tua carreira.
Fica a gratidão, que agora tem mesmo de dar lugar à razão."
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