Últimas indefectivações

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

“Na Arábia Saudita, um presidente trouxe um guarda-redes sem avisar. Fui lá acima, atirei o computador dele ao chão e gritei: Eu sou o quê?”


"José Morais, 53 anos, ficou conhecido como o adjunto de José Mourinho, mas é como treinador principal que se quer afirmar cada vez mais. Depois de ser forçado a deixar pai e mãe em Angola, cresceu na zona de Vieira de Leiria, onde se tornou jogador, Serviu como voluntário na Força Aérea, para fugir de casa da familia de acolhimento, mas foi no curso de educação física que encontrou rumo para a vida. Esteve 10 anos na formação do Benfica, como treinador, até decidir aventurar-se pelo futebol profissional, no Estoril Praia. Casou, teve dois filhos, divorciou-se, apaixonou-se por uma sueca, voltou a ser pai, de uma menina, e andou pela Alemanha, Viseu, Açores, Suécia, Arábia Saudita, Turquia e Iémen, até receber o convite de Mourinho. (...)

Nasceu em Angola, é filho de um português e de uma angolana. Veio para Portugal quando?
Em 1974, ainda tinha nove anos. O meu pai é de Vinhais, perto de Bragança, foi para Angola com 15 anos e tornou-se responsável por uma fazenda de café, que era de um tio dele, no interior de Luanda. Chamava-se João e foi lá que conheceu a minha mãe, Esperança, nativa daquela zona, de uma senzala perto da fazenda. Segundo reza a história a minha era das mais bonitas da zona.

Tem irmãos?
Tenho uma irmã, a Alda, mais nova três anos e que é enfermeira em Vinhais, nasceu também em Angola.

Da infância em Angola, o que mais recorda?
O que vem logo à cabeça é o local onde nasci e as chuvas. Quando vinham aquelas chuvadas nós, crianças, despíamos logo a roupa para andar a correr debaixo de chuva, rebolar no barro encarnado e com a chuva limpar outra vez o corpo. Era uma espécie de jogo. Quando de repente a chuva parava e ficavas todo sujo... estavas lixado porque ias levar da mãe. O jogo era precisamente antes que a chuva parasse tu tinhas que estar limpo (risos). É uma das memórias mais fortes que tenho de criança.

Há algum cheiro, um sabor, um som que ainda hoje o remeta logo para Angola?
Há. Cada vez que vejo café em grão vejo imediatamente as plantações do café na fazenda. Logo a seguir a esta imagem volto outra vez atrás e vejo os grãos de café, que não é negro mas vermelho, na fazenda, espalhados naqueles enormes cafezais e lembro-me da brincadeira de atirar-me para cima dos grãos de café, que é uma sensação engraçada.

Fez a escola primária em Luanda?
Sim, ainda me lembro do nome da escola, era a Anangola, na zona da Vila Clotilde e Vila Alice. Lembro-me dos keds (ténis) brancos e do uniforme de educação física que era o calção e a camisola branca. Tudo branquinho.

É lá que começa o futebol?
Acho que começa na altura em que tinha uns quatro, cinco anos e ainda vivia com a minha mãe lá perto da fazenda. Já aí a brincadeira era toda à volta da bola. Mas não tinha clube. Depois quando fui para Luanda, aos cinco anos, já via futebol mas não no sentido de ter ídolos. Só quando vim para Portugal é que comecei a ter ídolos.

Vai viver para Luanda porquê?
Não é um momento feliz. Saio da minha mãe para ir viver com uma senhora a quem eu chamo tia Zulmira, que ainda é viva, e com a qual vim de lá para Portugal. No fundo deixei toda a família e todos os amigos que tinha para ir para Luanda. Há duas versões que só vim a saber mais tarde. Uma era a versão de que era melhor ir para Luanda para estudar e a segunda versão era que a minha mãe fez pressão para que eu e a minha irmã saíssemos da zona da fazenda, que era fora de Luanda, porque nós éramos filhos de um branco e não éramos totalmente negros. Na guerra da independência havia já alguns movimentos no mato, fora de Luanda, que matavam os filhos dos colonos. E a minha mãe, com receio que isso acontecesse, fez força para que eu saísse dali.

A senhora a quem passou a chamar de tia Zulmira era quem?
Era professora primária em Luanda. Fui para casa dela porque ela, na altura, não tinha filhos. Era amiga de um amigo do meu pai e foi ele que sugeriu que eu fosse para casa dela.

Ainda ficou quatro anos em Luanda. Continuava a ver os seus pais de vez em quando?
Não. Lembro-me que a minha mãe me uma ou duas vezes, não me lembro mais. As memórias que tenho da minha mãe são muito vagas.

Ela não veio para Portugal?
Não. A relação com o meu pai a partir de um certo momento passou a ser diferente, por questões entre eles que tinha a ver com ter filhos ou não ter filhos. Eles nunca viveram verdadeiramente juntos.

Vem para Portugal com essa “tia” e foi viver para onde?
Venho primeiro para Lisboa, no movimento dos retornados, porque começou a haver um clima de guerra dentro da própria cidade de Luanda. À noite vi balas a passar de uma lado para o outro. Lembro-me que, quando ouvia as balas e as bombas, escondia-me debaixo da cama. Venho para Lisboa, fiquei na Ajuda, porque havia um irmão dessa minha tia que já tinha vindo de Cabinda.
Qual é a primeira memória que tem de Lisboa?
Como criança estava fascinado, sempre fui muito curioso por aviões. Lembro-me que quando saí da fazenda para ir para Luanda deram-me 40 escudos e eu disse “vou comprar um avião com estes 40 escudos” (risos). E porque é que eu queria comprar um avião? Porque o meu tio que era o dono daquelas fazendas, quando vinha visitar as fazendas vinha numa avioneta que pousava numa pista de terra. E da parte de baixo da aldeia, perto da fazenda, tu ouvias e vias quando a avioneta começava a aproximar-se e nós, miúdos, íamos todos a correr para ver a avioneta a aterrar. Por isso eu queria também o avião.

Mas voltando a Portugal. Quais as primeiras memórias?
O aeroporto, muita gente a sair e depois o que me fez confusão foi o frio. Comecei a sentir frio pela primeira vez e como não tínhamos roupas, tínhamos de passar tempo em filas para receber apoios. Lembro-me de um casaco que me deram, tipo esquimó, com um carapuço, muito quentinho, tenho a imagem desse casaco.

Ficou quanto tempo em Lisboa?
Creio que não foi mais do que dois ou três meses. Depois fomos para Vieira de Leiria, porque apesar dessa minha tia já ter nascido em Luanda, a família dela era oriunda daquela zona. O pai dela era pica-limas na fábrica de limas em Vieira de Leiria. Fomos viver para uma espécie de dispensário.

E a sua irmã?
A minha irmã foi com os meus tios verdadeiros, irmão e irmã do meu pai, para Vinhais. Mas só fiquei a saber passado um tempo. Eu só ia passar férias para lá, para Vinhais. Fiquei sempre em Vieira de Leiria. Quando cheguei, fui para o primeiro ano do ciclo.

Houve um choque?
Acho que o primeiro choque foi a sensação de que havia uma diferença entre seres branco e seres negro. Pela primeira vez começaram a chamar-me preto. Eu nunca me tinha apercebido dessa diferença, porque nunca ninguém me tinha chamado antes isso. Só a partir dali é que comecei pensar “de facto sou diferente e sou uma minoria”. Isso e ser conotado como retornado, que de facto não era. Estas foram as coisas menos positivas. O resto sempre encarei como descobertas, coisas novas.

E o desporto, o futebol, como começa?
Quando vou para Vieira de Leiria, a bola passou a ser um amigo. Eu passava muitos momentos sozinho, acompanhado pela bola. Por isso fazia coisas com a bola. Até começar a sentir que tinha amigos mais próximos a bola foi sempre um escape. Também passou a ser uma espécie de bicho de estimação ou alguém que tu sabes que não te faz mal e está sempre lá. Entretanto os meus “tios” acabaram por encontrar uma casa na Praia da Vieira e fomos morar para lá. A casa era perto do GD Praia da Vieira e comecei a aparecer lá. Só que os iniciados tinham 14 e 15 anos e eu tinha uns 13 anos e era muito pequenino. Só me punham a jogar a 10 minutos do final mas eu fazia dribles, as pessoas começaram a reparar em mim e a chamar-me “Jordão”. Eu jogava a médio direito atacante, fazia fintas e golos. Entretanto, um dos treinadores do Industrial Desportivo Vieirense morava na Praia e diz-me para ir para lá.

Como surge o U. Leiria?
Já foi num momento em que eu era um dos melhores jogadores do Vieirense e fazia golos. O Sr. Freitas, que era uma pessoa de família, muito benfiquista, fez-me um convite para fazer uns testes no Benfica. O Sr. Arnaldo Teixeira é quem me recebe. Eu era juvenil, faço um treino, fiz dois golos e o Arnaldo Teixeira queria chegar a um acordo, mas quando chegamos ao momento dos papéis, a minha data de nascimento é 27 de Julho de 1965 e nessa altura se nascesses depois de 1 de Agosto pertencias à categoria inferior, se nascesses antes pertencias à categoria superior, o que quer dizer que eu já era júnior no ano a seguir, por uma diferença de quatro dias. Quando eles perceberam que era já júnior disseram para eu ir treinar com o Sr. Ângelo Martins, passado um mês, nos juniores.

Não correu tão bem.
Não, porque a minha capacidade era mais do que suficiente para a categoria inferior, mas nos juniores já era diferente. Lembro-me que fiz dois treinos, e perguntaram-me se tinha alternativa e como já tinha havido interesse do U. Leiria...

Foi uma grande desilusão não ter ficado no Benfica?
Foi porque era uma coisa que eu queria muito. Já era benfiquista naquela altura, embora me chamassem Jordão e o Jordão era do Sporting.

Tornou-se benfiquista porquê, tem ideia?
Eu acho que era benfiquista porque na família havia um primo que era benfiquista. Também tinha na família emprestada um sobrinho da minha tia, que era o Santana, que jogou no Benfica como defesa central. Ele era mais velho do que eu, eu tratava-o por primo. Acabou por ser uma referência. Embora eu gostasse do Jordão, do Nené, do Manuel Fernandes, todos esses jogadores.

Esteve no U. Leiria só uma época e voltou ao Vieirense.
Sim, voltei ao Vieirense já como sénior. Eu tinha feito um contrato de sénior com o U. Leiria, mas nesta família emprestada eu tinha várias "guerras" e numa dessas "guerras" decidi que tinha de sair de casa, com 18 anos. Então inscrevi-me para fazer o serviço militar voluntário. Isso não me permitia jogar no U. Leiria. O U. Leiria na altura passou por problemas graves financeiros e eu queria sair de casa. Acabei por ir para a Força Aérea.

Foi para que base?
Fui para Tancos. Fiz lá a recruta e fiquei lá. Pertencia ao grupo da Policia Aérea, porque aquilo era ar livre e havia muito exercício físico.

Nessa altura colocou a hipótese de pôr o futebol de parte?
Não. Sempre quis o futebol. Eu fui para ali mas arranjei maneira de continuar a jogar, depois da recruta. Na Vieira, como me conheciam, só ia à sexta-feira treinar e jogava ao fim de semana, eles dispensavam-me durante a semana.

Esteve quanto tempo na Força Aérea?
Dois anos, praticamente. Cheguei a um ponto em que comecei a reflectir sobre a vida, sobre o que queria ou não, que possibilidades tinha. Eu não tinha terminado o 11.º ano, deixei a escola na altura em que fui para tropa.

Já ganhava dinheiro com o futebol antes de ir para a tropa?
Ganhava, mas não era o suficiente. O meu primeiro ordenado foram 12 contos, no U. Leiria.
O que fez com esse primeiro dinheiro?
Acho que comprei uma máquina de lavar para a minha tia verdadeira, de Vinhais.

Nunca quis ir viver para Vinhais?
Quis. A minha irmã estava lá e sentia-me melhor lá, mais integrado, mais dentro da família.

Os tios emprestados não o deixavam ir?
Não era bem isso. Não havia condições para eu ir para lá. Na altura não entendia muito bem o que se passava, mas as circunstâncias não eram fáceis para eles, porque também era uma casa pequena.

Quando saiu da tropa o que foi fazer?
Eu fui o primeiro classificado do meu curso na FA, ganhei uma medalha de honra, e com tinha grandes qualidades fui para o grupo de instrução militar, ou seja, fui dar instrução aos novos recrutas, na base de Tancos. Como gostava muito de tudo o que era futebol e preparação física, era um dos melhores da selecção da base, onde conheci o Nogueira que depois jogou no Boavista. Portanto, toda a gente me conhecia com talento para o futebol, era muito querido. Entretanto, abriu um curso de instrutores de educação física na base naval do Alfeite; candidatei-me e entrei. Quando tu te candidatas a um curso desses e terminas, tens o compromisso de fazer dois anos mais. Quando fui para ali comecei a pensar no que quero da vida. Entretanto, uma grande amiga minha, que se chama Rita, neste espaço de tempo em que decido ir fazer o serviço militar, ela foi para o ISEF e quando vou fazer aquele curso no Alfeite, ela convida-me para ir a uma festa de estudantes do ISEF. Fui e gostei imenso do ambiente. Saí dali e disse,:não é a tropa que eu quero. Ainda por cima no curso da universidade havia uma equipa de futebol.

Mas não podia entrar no ISEF sem o 12.º ano.
A partir daquele momento decidi que tinha de fazer a disciplina de matemática para completar o 11.º ano e terminar o 12.º, para poder entrar naquela faculdade. E foi o que fiz. Pedi para sair do curso de educação física e voltar à base, para não ter a tal obrigação de ficar mais dois anos na FA. Fui estudar à noite no Entroncamento, terminei o serviço militar um bocadinho antes do final do ano, o que quer dizer que deixava de ter a cama que tinha na base aérea. Na altura, fui jogar para o Ferroviário do Entroncamento, depois o U. Tomar quis-me, mas foi na altura em que eu tinha que acabar o 12.º ano e concentrei-me. Ainda joguei nos Dragões de Alferrarede.

Entrou no ISEF?
Entrei, em 1987. Estudava e jogava no Atlético, cujo treinador era o Norton de Matos. No Atlético pagavam-me 30 contos.

Quando vem para o ISEF fica a viver onde?
Fui viver primeiro para a Ajuda, onde tinha estado quando cheguei a Portugal, até conseguir ter alojamento na residência de estudantes da Cruz Quebrada.

Mas entretanto vai jogar para os Açores, como é que isso acontece?
Os Açores surgem porque depois do Atlético fui jogar para o Penafiel; o treinador era o Carlos Alhinho, eu conhecia-o da universidade, e ele decidiu dar-me uma oportunidade de ir para o Penafiel. Faço a pré-temporada, fui viver para Penafiel, para uma pensão com alguns jogadores. Em Penafiel, em agosto, eu não tinha muitas possibilidades e surgiu a hipótese de jogar no Praiense dos Açores. Pagavam-me ainda mais dinheiro e ia para lá por um ano. Fui. Como jogávamos de 15 em 15 dias no continente, na altura o Praiense estava na III divisão, eu ficava mais um dia para poder assistir às aulas nesse dia.

Gostou dos Açores?
Gostei. Era um meio pequeno. Este trajecto de família dá para perceber que eu não tive uma família que funcionava como o ideal de família que eu tinha na cabeça e no coração. Para mim, os amigos foram sempre uma família. E os Açores era um meio pequeno onde as pessoas conheciam-se quase todas umas às outras. Gostei por causa disso, porque eram todos muito próximos.

Depois dos Açores, regressa e termina o curso. O que faz a seguir?
Como era um dos alunos do curso que tinha experiência como jogador, o Jorge Castelo, que era professor na universidade e também treinador no Benfica, falou-me na possibilidade de fazer um estágio no Benfica. Interessei-me. Era futebol, era o Benfica, o meu clube, por estar a estudar comecei a ter ideias relativamente ao treino; interessava-me o treino, a estratégia, por isso percebi que era uma das minhas saídas profissionais.

Mas não sonhava em ser jogador?
Eu tinha sonhos maiores enquanto jogador mas como não via que por ali fosse chegar onde queria. Entre continuar a jogar em clubes de pequena dimensão e fazer aquele estágio no Benfica, optei por deixar de jogar e fazer o estágio. Eu não tinha os meios que me permitissem chegar onde queria enquanto jogador.

Que meios?
Estava muito sozinho. Sentia-me um bocadinho desamparado, não tinha família próxima.

Não voltou a ter contacto com os seus pais?
Ia tendo. O meu pai voltava sempre para Angola, até aos últimos dias dele viveu sempre lá, nunca regressou a Portugal definitivamente, só vinha no período de férias. A minha mãe faleceu tinha eu entre nove e dez anos. Durante muitos anos pensei que ela tinha falecido por causa de qualquer coisa relacionada com a guerra. Só bem mais tarde descobri que faleceu por doença, mas nunca soube qual. O meu pai faleceu quando eu já estava a treinar na Alemanha.

Estava a dizer que aproveitou a oportunidade de ir estagiar para o Benfica.
Sim. Fui entrevistado pelo Nené, um dos meus ídolos (risos). Acabei por ser aceite e o grupo de treinadores da altura era fantástico. Era o Arnaldo Cunha, o João Santos, o Bastos Lopes, o Zé Henrique, o José Paisana e o Nené. Estive lá 10 anos.

Tanto tempo?
Estive dois anos a treinar o Benfica B, mas no total estive 10 anos no Benfica, entre 1991, quando terminei o curso, até 2001. Costumo dizer que um dia vou lá parar como treinador e já conheço os cantos à casa (risos).

Ficou a viver onde?
O meu pai tinha comprado um apartamento perto da Amora, do outro lado do Tejo, eu é que usava esse apartamento. Já tinha carro. Mais tarde comprei uma outra casa, no Fogueteiro. Depois mudei para Benfica, porque as condições foram melhorando.

E no meio disso tudo a vida pessoal? Primeira namorada, lembra-se?
(risos). A primeira namorada foi um amor de verão, lá na Praia de Vieira. Eu tinha uns 13, 14 anos. Ela chamava-se Natalie e era filha de uns franceses que eram amigos dos meus tios. Depois casei com a minha primeira mulher. Ela nasceu em Cabo Verde e conhecia-a numa festa de estudantes numa discoteca perto do Largo do Rato, em frente à casa de chá das Vicentinas. Chama-se Saída, é mãe dos meus dois filhos rapazes, Renato e Tomás. O Renato tem 21 anos, joga no Palmense e está a estudar Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Católica, e o Tomás vai fazer 19 anos e está estudar fisioterapia. Estive casado 10 anos com a Saída.

O que mais o marcou nos dez anos que passou no Benfica?
O nascimento dos meus filhos obviamente. Do Benfica tive muitas recordações, porque foram 10 anos vividos com grande intensidade. Primeiro, a relação com o grupo e a forma de trabalhar, o meu próprio desenvolvimento dentro do clube, a minha passagem em todos os escalões de formação e o trabalho que fui desenvolvendo. Os momentos do próprio clube.

Passou por uma série de presidentes...
Passei pelo João Santos, Manuel Damásio, Vale e Azevedo e Manuel Vilarinho. Depois do João Santos foi sempre um período muito atribulado, muitas dificuldades na organização, dificuldades financeiras, estive aos quatro meses sem receber...

Como fazia nessas alturas?
Eu passei por muitas dificuldades enquanto miúdo. Lembro-me de uma vez dizer "nunca hei-de contar o dinheiro para viver". O que eu vivi em casa da minha “tia” era sempre "não temos para isto, não temos para aquilo". O meu pai pagava uma mensalidade à minha "tia", mas havia momentos em que ele não conseguia pagar. E eu sentia-me na obrigação de trabalhar em casa para contribuir e de alguma forma compensar. O eu querer fugir de casa, esta minha revolta em determinados momentos, de me sentir menos querido do que um filho, tinha a haver com estes aspectos. Porque eu tinha sempre de fazer muitas coisas em casa. E se calhar até era natural fazer, só que na altura era criança e não entendia a coisa assim, entendia que eu tinha de ir jogar e não podia estar dependente de lavar a loiça para poder estar a horas na concentração. Entendia que não gostavam de mim tanto como deveriam gostar e por isso é que tenho de fazer estes trabalhos e ajudar a limpar a casa. Hoje já vejo de uma perspectiva diferente.

Como?
Uma perspectiva positiva como tendo sido parte da educação, da aprendizagem. Aquilo que sou tem muito a ver com este processo pelo qual passei. Isto para dizer que quando fazia uma coisa que achava que não era suficiente, a minha tendência era buscar outras alternativas. Então eu na altura terminei o curso, treinava no Benfica, ganhava algum dinheiro, mas fui dar aulas e ganhava outro dinheiro; entretanto fui convidado para dar uma cadeira de metodologia do treino desportivo e futebol como professor assistente na universidade Lusófona, e ganhava mais algum. Mas dar aulas não era propriamente a minha vocação e pedi para ser destacado para ser o selecionador regional da Associação de Futebol de Lisboa. Portanto, quando não recebia de um lado, tinha do outro e fui acumulando.

Desses anos no Benfica quem foram as pessoas que mais o marcaram?
O Nené, um amigo. O José Paisana, um amigo. No fundo, aquele grupo de treinadores. Todos me marcaram por diversas razões. Mas uma pessoa que me marcou muito e que faleceu inesperadamente foi o Dr. Alberto Silveira, que foi quem renovou pela primeira vez o meu contrato. Fez-me um contrato por três anos, a ganhar já um bom valor na altura. Era uma pessoa que eu adorava.
E jogadores que tenha detectado logo e que tinham grande valor?
Nesse período houve vários, mas o que mais se projectou foi o Maniche e o irmão dele. Houve outros que tinham tudo para singrar mas que não foram tão longe. O Pêpa, o próprio Mantorras acabou por estar ali pouco tempo.

Sai do Benfica e vai para o Estoril Praia. Porque sai do Benfica?
Na altura eu treinava a equipa B do Benfica e o Estoril Praia estava na mesma divisão e estava quase a descer. Eu tinha vontade de treinar uma equipa no futebol profissional. Era um objetivo. E o Mauro Aires perguntou-me se estava interessado em treinar o Estoril Praia.

É o seu primeiro embate com a realidade do futebol sénior profissional. O que foi mais complicado?
Tudo foi bom, porque já na altura o meu sentido de organização era grande. Eu gosto de desafios, gosto de ver coisas a crescer. A intenção era tentar fazer a equipa subir. Tinha esse projecto. Era um grupo bom, interessante. Correu bem. O que não correu bem foi o tempo, porque era suposto estar lá dois anos e fiquei quatro meses.

Porquê?
Porque na altura o clube foi "comprado" pelo José Veiga, ele ficou com a maioria das acções do clube, e resolveu trocar de treinador e de administração. Não foi nada pessoal, disse ele.

Não tinha alternativa?
Não. Foi o meu primeiro choque com a realidade do futebol. Foi dizer "e agora?". Estava casado tinha já os dois miúdos. Nunca me passou pela cabeça que pudesse acontecer uma coisa daquelas. Eu via aquele projecto como forma de subir na carreira, umas escadas. Deixei o clube em 4º lugar. Fiquei sem ordenado, tinha deixado já as aulas nas escolas e a AFL, porque tinha optado por uma via profissional. Fui para casa pensar na vida.

E depois?
Telefona-me um indivíduo que eu conheci no Benfica, um agente búlgaro que morava na Alemanha, Vencislav Mitov. Ele era responsável por um clube da III divisão na Alemanha, o Westfalia Herne. Pediu-me para ir terminar a época lá, porque tinham tido um desentendimento com o treinador. Eu disse: "Óptimo, quanto é que me podes pagar?". O Estoril tinha-me pago só até final de Outubro, apesar de eu ter dois anos de contrato. Na altura ainda falámos em fazer um acordo, mas pensei: "Acordo? Tenho dois filhos, vim para aqui com uma expectativa...Não posso entrar num acordo do género pago até amanhã e arranjo-te um clube. Sei lá quando é que arranjam clube". Aquilo foi para tribunal e eu não sabia quando é que recebia. Ele diz-me que não podia pagar muito, mas garantia-me casa, transporte e ajudas na alimentação, mais 2000 euros/mês. Era melhor que nada. Como não sabia muito bem o que fazer, era uma aventura fora. Fui.

Como foi o impacto num futebol diferente, num país com uma língua diferente?
Inglês eu falava, mas alemão não percebia nada. Alguns jogadores falavam inglês, outros eram de origem turca e só falavam alemão. Fui estudar alemão para conseguir melhorar comunicação.

Foi sozinho ou com a família?
Fui sozinho. Foi difícil porque os miúdos eram pequenos, mas eu também sabia que não havia outra alternativa.

Acabou a temporada e depois?
Entretanto mudei de clube fui para o Schalke 04. Isto porque eu trabalhei um bocadinho com o Jupp Heynckes, no Benfica, antes de ir para lá o José Mourinho.

Quando conheceu o José Mourinho no Benfica houve logo empatia?
Houve. Primeiro porque eu olhava para o treino dele e tinha tudo a ver com os meus sonhos, de organização, muita objectividade e a dinâmica que ele veio introduzir era a que eu gostava. Já na formação do Benfica eu buscava muito a influência dos holandeses, do método, a organização dos exercícios, exercícios com bola, objectivos em termos de espaços reduzidos... Quando ele veio trouxe tudo isso da influência que teve no Barcelona, não só do Bobby Robson, mas da dinâmica do próprio clube uma vez que o Cruijff, tinha uma grande influência, e depois do facto de ter trabalhado com o van Gaal... Havia muitos exercícios que ele trouxe e que eu adorava, adorava o treino que ele dava. 

Essa ligação no Benfica foi o que levou a que depois fosse trabalhar com ele?
Sim. Quando ele vai embora, era suposto ir trabalhar no dia seguinte para o Sporting e era suposto o Mozer ir com ele, mas lembro-me de estar no balneário e ele virar-se para mim: "Eu tenho um lugar para ti, porque não tenho preparador físico e tu podias fazer essa função. Queres vir?". A minha primeira reação foi dizer logo que sim. Depois comecei a pensar: no Sporting todos sabem que sou treinador das camadas jovens do Benfica, toda a gente sabe que eu não sou propriamente preparador físico, sou treinador. O Inácio tinha sido campeão, se eu chego ali e acontece qualquer coisa, com a nossa mentalidade vão dizer logo que a equipa está mal fisicamente. Fui ter com o Mourinho, expliquei-lhe isto e disse: "Não quero que vás passar por situações difíceis por causa da minha inexperiência como preparador físico. Se calhar é melhores levares alguém com mais experiência". Eu estava a falar contra mim. Ele olhou para mim, apontou-me o dedo naquele jeito dele e disse: "És um gajo sério. Um dia ainda vamos trabalhar juntos".
Já lá vamos. Estávamos no Schalke 04.
Sim, o responsável pela formação do Shalke 04, Helmut Schulte, que ainda hoje é meu amigo de casa, viu a minha equipa e veio falar comigo, perguntou-me se estava interessado em trabalhar para eles, até porque sabiam do meu passado no Benfica e que tinha trabalhado com Jupp Heynckes, que era uma referência na Alemanha. Queriam que eu trabalhasse não como treinador principal, mas na formação, transmitindo junto dos outros treinadores a experiência do trabalho mais latino. E que com o tempo podia até chegar a treinador principal. Ofereceram-me um ordenado, que não era muito alto, mas melhores perspectivas de futuro. Disse que estava interessado. E fui.

Mas durou pouco tempo.
Sim, em dezembro surgiu a oportunidade de ir como treinador principal para o Dresdner SC, que era uma equipa que jogava na II B alemã.

Os seus filhos reclamavam muito a sua presença?
Eu só hoje é que vejo, e nos anos mais recentes é que me apercebi, como pai, que há várias formas de ser pai e eu não aprendi a ser um bom pai. Nem sei como explicar. Mas eu hoje sei a importância do que é ser pai, sei o que é ser pai, sei a importância que um pai tem no desenvolvimento da criança, compreendo todos os aspectos onde posso ter influência positiva ou negativa no desenvolvimento das pessoas, coisa que na altura não tinha consciência, nem conhecimento. Na altura não sabia e nem sequer me passou pela cabeça que eles pudessem sentir a minha falta, o meu pensamento era: "Ah, eles são miúdos".

Como correu a experiência do Dresdner?
Eu fui para o último classificado da liga, condenado a descer. O que eu pudesse fazer de bom, servia para minha experiência. Não havia uma expectativa muito grande.

Não fica lá porque?
Fiquei de Janeiro até ao final da temporada. A equipa estava numa divisão inferior, o que pagavam não era muito e eu tinha a possibilidade de vir para Portugal.

O que ficou para si desses dois anos na Alemanha?
A língua, um país grande, organização no futebol, público nos estádios, sempre com ambiente de festa.

Ficou-lhe algum hábito?
Não propriamente o hábito, mas pela primeira vez comecei a beber weiss beer, a cerveja branca mais grossa deles. Nunca fui muito de beber cerveja, mas ficou-me isso, assim como o bratwurst, aquela salsicha enorme, gosto. E outra coisa que também comecei a beber lá pela primeira vez, no inverno, o vinho quente.

Vem para o AC. Viseu. Fica a viver em Viseu?
Sim, num hotel. Mas ia a Lisboa com frequência. A época correu bem, mas era um clube também com muitas dificuldades, sem dinheiro, com muitas dívidas aos jogadores, um Ac. Viseu num momento difícil. Tão difícil que um ou dois anos depois creio que por dívidas, a equipa acabou desaparecer.

Algum episódio marcante?
A equipa estava em zona de rebaixamento quando eu cheguei e termos conseguido chegar ao 4º lugar, estarmos quase com possibilidade de subir, foi marcante. Era gente interessante, muito humilde, trabalhadora e com grande dignidade.

Acaba a época e vai para os Açores, treinar o Santa Clara, que tinha baixado da I para II divisão. Porquê?
O Santa Clara ia fazer uma reestruturação no plantel porque tinha dívidas grandes, jogadores a ganhar muito dinheiro. Ia desfazer-se de praticamente todo o plantel e queria um projecto novo. Fui para os Açores para esse projecto, que era de dois anos, mas que acabou repentinamente. Fizemos bons jogos na pré-época e as pessoas passaram a entender que os objectivos tinham de ser já de subida imediata. O plantel nunca conseguiu estabilidade para estar em posições muito acima e acabei por ser despedido antes de dezembro.

Tinha alguma alternativa?
Na altura estava num processo um bocado conturbado de várias coisas. O meu pai tinha falecido, depois faleceu o filho da minha “tia”, que eu considerava como um irmão. Entretanto eu estava a divorciar-me. Depois, as próprias dificuldades com a equipa e com as intenções da direcção... aquilo começou a ir por um caminho que não era propriamente aquilo que eu queria. Não consegui ser suficientemente persuasivo, mas o presidente, Luciano Melo, não era uma pessoa fácil. Ele não se metia muito no trabalho técnico, mas ao nível da elaboração do plantel era muito o que ia na cabeça ele. Saí, tinha dois anos de contrato, fizemos um acordo, eles iam pagar-me mensalmente, por isso não havia grande stress. Eu tinha na equipa o Garba Lawal que me tinham trazido através de um agente que estava na Suécia. E esse agente viu o trabalho que estava a ser feito e achou que eu poderia treinar o Assyriska, da Suécia. Perguntou-me se estava interessado e fui para lá.

Esteve lá uma época apenas. Gostou?
Gostei. Fiquei perto de Estocolmo. Gostei da organização deles.

Não foi lá que conheceu a sua mulher? Ela é sueca, não é?
É, mas não foi lá; conheci a Sandra quando estava nos Açores. Ela trabalhava numa agência de viagens, nos Açores. Ela própria ficou admirada de eu ir para a Suécia.

Tem filhos com ela?
Tenho uma menina de oito anos, a Sophie.

Já namoravam quando foi para a Suécia, em 2005?
Já. E ela decidiu acompanhar-me. Tivemos a Sophie só em 2010.
Como é que vai parar a seguir ao Al-Faisaly da Arábia Saudita?
Surgiu através de um agente tunisino que trabalhava com um agente árabe. Esse agente tunisino conhecia alguém que conhecia o clube sueco onde eu estava. Fez-me uma proposta para ir para essa equipa que tinha vindo da II divisão para a I.

Tinha vontade de sair da Suécia para ir para a Arábia Saudita?
Tinha. Eu na altura estava a morar em Malmö e já num processo de integração dentro do clube de lá, porque os directores tinham gostado do meu trabalho no Assyriska e queriam que eu ficasse no clube, sendo que, quando houvesse oportunidade, e eu pegaria na equipa. Eu já estava a ajudar o treinador que lá estava, tinha ido ver jogadores ao Brasil, como scout. Ganhava algum dinheiro, mas quando surgiu a Arábia Saudita pensei "Porque não?". Ia ganhar 12.000 dólares/mês e no Malmö ganhava 2000€. Fui.

Qual foi o primeiro impacto?
(risos). Aí sim, foi duro. Acho que foi dos momentos da vida onde me senti menos eu. Não me reconhecia.

Porquê?
Porque me tornei excessivamente agressivo nas minhas intenções. Eu não levei ninguém, fui sozinho, não falava a minha língua praticamente, as dificuldades de comunicação eram grandes, as casas lá são muito fechadas, não têm janelas, não andas cá fora porque está muito calor. Pessoas vestidas com aquelas túnicas, as abaias, não conheces ninguém fora do teu meio de trabalho. Uma vilazinha que não tinha nada. A vida era ir a um café com alguém do clube jogar snooker, depois voltava ia para casa, comia, dormia e treinava.

Como é que fazia com as refeições, cozinhava?
O clube tinha um cozinheiro que fazia almoço e jantar e eu aproveitava. Hoje em dia já tenho uma perspectiva diferente, já me organizo de outra forma e como mais em casa.

Então o choque com a Arábia Saudita foi grande.
Foi, eu tinha a mala pronta atrás da porta. Acho que nunca cheguei a desfazer a mala. O meu sentimento era este: no dia a seguir vou-me embora.

O que mais o chocou?
Foi tudo muito diferente. As rezas, o parar o treino porque havia uma reza. A cultura, a mentalidade deles, gente que não estava habituada ao mesmo ritmo à mesma intensidade e dinâmica, era tudo muito mais devagar. Não estava habituado àquilo. O Al-Faisaly era um clube difícil de adaptar, mas pouco a pouco fui sentindo as pessoas, são pessoas de bom fundo, não faziam as coisas por mal, tinham era uma mentalidade diferente.

A sua mulher foi lá ter consigo?
Foi, mas só quando eu já estava no Al-Shabab. Ela adorou (risos). Mas o Al-Shabab é em Riade, que é uma cidade onde há mais coisas.

A sua mulher sendo sueca, loira de olho azul, não sofreu nenhum tipo de discriminação?
O bom da Arábia Saudita é que isso não se vê muito porque tens de andar tapada e ela andava com a abaia, achava imensa graça, não se importou, tomou aquilo como uma experiência diferente.

Como é que muda para o Al-Shabab?
Quando eu estava no Al-Faisaly ganhámos 4-1 ao Al-Nassr que é um dos grandes de lá, na altura treinado pelo Artur Jorge. Depois ganhámos também ao Al-Shabab. a equipa jogava bem e o xeque e dono do Al-Shabab, na substituição do treinador, entendeu que devia ser eu o novo técnico. Mas o clube onde eu estava não me queria deixar sair. Só que entretanto uma das coisas que me meteu confusão e me deixou fora de mim foi que eu tinha marcado ir passar o Natal a casa e na semana antes, o calendário dos jogos mudou e marcaram jogos na altura do Natal e Ano Novo. Passei-me da cabeça. Disse que não queria saber daqueles jogos para nada, que ia para casa. Queria marcar bilhete, mas não tinha o passaporte, pedi-lhes o passaporte. Eles não queriam dar o passaporte e eu disse-lhes: "Se não me derem o passaporte, não vou dar o treino". E não fui. Fiquei em casa e eles lá todos à minha espera. O presidente ligou-me e prometeu-me que me dava o passaporte mas eu tinha de prometer que ia dar o treino. Nessa altura já o Al-Shabab e o Al-Nassr estavam em contacto comigo. 

Mas conseguiu passar o Natal em casa ou não?
O presidente disse que me deixava ir a casa, mas eu tinha de prometer que voltava numa determinada data. Quando vou para casa, os do Al-Shabab telefonam-me a dizer que eu não podia voltar naquela data e que voltava só quando eles dissessem. Volto para Riade. Os do Al-Shabab vão-me buscar ao aeroporto, põe-me no hotel e dizem: “Agora ficas aqui, depois a gente já passa”. Não apareceu ninguém até às 10 da noite. Deixaram-me de manhã até às 10 da noite sem dizerem nada. Eles disseram para não me preocupar que estavam a tentar resolver a situação. Demoraram três dias. Vieram ter comigo novamente e fizemos contrato até final da temporada.

Era um clube melhor. Muito melhor.
Era em Riade, era um clube com uma dimensão diferente, com outra capacidade financeira.

Não continua porquê?
Porque na Arábia Saudita hoje é uma coisa e amanhã é outra. Para eles a novidade é importante. Agora és novidade, mas no próximo ano já não, já tem que ser outra novidade, eles funcionam muito assim.

Ainda tem uma passagem pelo Al-Hazm.
O Al-Hazm é um clube que é da terra do pai do presidente do Al-Shabab. Quando termino a temporada no Al-Shabab, esse clube estava quase a descer de divisão e ele pediu-me para ir organizar o clube da terra do pai dele. Era um clube que tinha um presidente nomeado, mas era ele que patrocinava e pagava. Pagou-me um bom dinheiro, ainda mais do que recebia no Al-Shabab para ir para lá.

Quanto tempo?
Fiquei lá seis meses.

Não aguentou mais?
Era no interior e tinha um presidente que, digamos assim... não jogávamos no mesmo lado. Uma vez mandou vir à experiência um guarda-redes para o clube. Ele e o treinador de guarda-redes, que era tunisino, sabiam que vinha um jogador novo para o treino mas eu não sabia. Quando chego pergunto quem é e dizem-me que foi o presidente que mandou. Mas o presidente manda um jogador vir treinar e não me diz nada? Saio do campo, nem digo nada ao treinador de guarda-redes, vou direito ao gabinete onde ele estava. Ele que estava ao telefone, viu-me entrar, peguei no computador que estava na mesa ao lado dele, atirei-o para o chão e disse-lhe: “Mas você pensa que eu sou o quê aqui?”. O homem ficou parado. Saio dali a deitar fumo e vem o treinador de guarda-redes que era tunisino e falava árabe, que eu não percebo nada, ver o que se passava. Eu passo por um dos meus adjuntos, o Amunike que tinha jogado no Sporting, e digo-lhe: “Eh pá, Emanuel eu vou dar cabo dele” O homem entretanto ficou fora de si, achou aquilo uma afronta e ligou ao xeque que me tinha posto ali, a dizer que eu tinha feito isto e mais aquilo, mas não contou a história toda. Entretanto, o presidente pediu para ir ter com ele de carro a Riade, para fazer 400 quilómetros de carro e ir ter uma reunião com ele. Fui. Contei-lhe o que se tinha passado, mas ele disse-me para ter paciência que não era fácil arranjar gente para tomar conta daquele clube, que não era de hoje para amanhã que ele podia arranjar presidentes e directores para tomarem conta do clube, para eu ter paciência. Mas eu disse-lhe: “É assim, o presidente do Al-Hazm tem uma forma de agir que não gosto. Se digo que quero o jogador A, ele quer o B, tem lá os negócios dele, e eu assim não consigo funcionar. E esta questão do guarda-redes que mandou vir do Kuwait para treinar nas vésperas de um jogo importante, sem falar comigo? Não dá. Se quiseres, pagas-me e eu vou-me embora”. O gajo falou com ele e eu fiquei mais uma semana.

E?
Fizemos o tal jogo importante, empatámos 1-1, em casa. A equipa estava em 6.º lugar da tabela, nunca tinha estado tão bem e ele no final do jogo na conferência de imprensa, diz “Infelizmente o nosso treinador não quer continuar connosco e vai-se embora, de maneira que também queremos agradecer-lhe”. Assim, à frente das câmaras de televisão. Foi assim que fiquei seis meses. A minha mulher tinha ido para lá um bocadinho antes porque se estava a aproximar a altura do Natal e viemos juntos para o Dubai; passámos lá o Natal e o fim de ano.

Depois vai parar à Tunísia.
Fico seis meses sem trabalhar e começo a temporada na Tunísia, no Stade Tunisien.

Outra realidade a Tunísia.
Sim, outra realidade completamente diferente para melhor. Mais aberta, com sítios fantásticos para visitar.

Tem alguma história engraçada que nos possa contar?
Tenho várias, mas a única que por acaso nem é engraçada, foi que passados dois jogos, recebo uma proposta para ir para o Iémen. Depois da pré-época na Tunísia, fizemos dois jogos bons, já não sei se ganhámos ou empatámos, mas foram dois jogos difíceis para a equipa, face ao momento difícil por que estava a passar, uma equipa sem muito dinheiro, com jogadores que também não eram grande coisa, mas o futebol que apresentámos logo no início despertou a atenção. Entretanto, ligaram-me do Iémen e fazem uma proposta para ganhar quatro vezes mais. Numa paragem do campeonato, pedem-me para viajar para o Iémen. Fui, acerto o contrato e quando volto e digo que me quero ir embora, eles que sabiam que eu tinha ido ao Iémen já tinham feito o seu trabalho. Vem escarrapachada num jornal a minha caricatura com um saco, tipo o saco do Tio Patinhas, com insinuação de que eu só queria saber do dinheiro (risos). Mas quando voltei o clube estava numa revolução grande, o presidente não se tinha recandidatado, já era velhote, veio uma direcção nova que falou comigo, mas eu disse-lhes: “Eh pá, eu dou-vos 30 mil dólares, nem mais, nem menos. Se querem, querem, se não querem eu vou-me embora na mesma”. Eles: “Não, não”. Fui-me embora.

Isso deu tribunal?
Puseram-me em tribunal. Mas isto tudo para dizer que quando vou para o Iémen passado uma semana, rebenta uma bomba na embaixada dos EUA. Uma confusão, mortes, a minha mulher que estava comigo só me disse: “Amanhã quero ir embora e tu não vais ficar aqui”. Já andávamos nós a ver casas e tudo. Ela até já tinha sido convidada para um casamento nesse espaço de tempo. Rebentou a bomba e ela quis ir embora. Eu fiquei lá ainda mais algum tempo.

No Iémen foi uma experiência diferente porque foi treinar a selecção.
Sim foi uma experiência completamente diferente. Em termos de adrenalina prefiro clube porque é o dia-a-dia, vives com mais intensidade a competição.

Tirando a explosão, no Iémen o que mais o marcou?
Foi o ter ficado preso no elevador num edifício da federação (risos). Foi o mais marcante.

Ficou lá quanto tempo?
Não foi muito tempo, mas foi o suficiente para tu veres a vida a passar. Aquilo são dois pisos. No primeiro piso está o gabinete do seleccionador e, no rés-do-chão, havia uma sala de reuniões onde eu queria fazer uma reunião com o pessoal. Entrámos no elevador para descer e o elevador para, sem corrente.

Quem é que estava dentro do elevador?
Estava eu e mais dois elementos da equipa técnica. O elevador não era muito grande. Aquilo pára e agora o que é que fazemos? Ninguém se mexe, estivemos ali há uns cinco minutos e eu começo a puxar a ver se porta abre. A porta abre um bocadinho mas depois tinhas um pequeno espaço para poder sair para o piso de baixo. A decisão era: ficas ou sais. Mas se sais e de repente o elevador volta a ter corrente (não sabes quando é que a corrente vem)? Um dilema. Mas quanto mais tempo passava, mais tu começas a pensar, já passou algum tempo, a luz deve estar a vir... Foi horrível.

Resumindo quanto tempo é que lá ficaram?
Uma hora.

Ninguém arriscou sair?
Ninguém arriscava sair e eu também tinha medo. Passado uma hora fui o primeiro a sair, disse: “Bem, só há uma forma de sair daqui. É rápido”. Foi horrível. Tentar meter o corpo num pequeno espaço e descer. E depois, outro dilema. Meto primeiro as pernas ou a cabeça e vou de mergulho? Porque se a luz voltasse, aquilo andava e podias ser cortado ao meio. Então o que é que me ocorreu: se vem a carga e eu meto primeiro as pernas, o elevador traça-me e eu vou à vida. É melhor ir de cabeça, porque se a cabeça passar, a probabilidade é de me apanhar só as pernas (risos).

Nessa altura já tinha feito jogos pela selecção?
Não cheguei a fazer nenhum jogo oficial pela selecção, sai antes. Estávamos a preparar a Taça do Golfo que era em Janeiro, eu fui para lá em Agosto e sai em Outubro.

Veio embora porquê?
Porque a minha mulher tinha vindo embora e, pelo que fui vendo, não me pareceu um país com estabilidade para conseguir fazer alguma coisa.

Continua a viver um clima de guerra, com milhões de pessoas a morrer de fome...
...Falando mais a sério, duas coisas que me impressionaram naquele país, uma é o nível de pobreza em contraste com a riqueza de algumas pessoas ligadas ao presidente, ao governo. O presidente da federação era riquíssimo assim como as pessoas que estavam perto dele. Mas tudo o que era motoristas eram pobres. Quando eu saía, era só gente a pedir nas ruas, dava dinheiro às pessoas. E outra coisa que se calhar tem a ver com o estado em que as pessoas vivem, é que eles mastigam khat, a partir do meio dia até adormecerem. É uma planta, eles parecem ruminantes a mastigar aquilo. Começam a mastigar ao meio dia e já não dá mais para trabalhar porque entram num estado… Eles dizem que aquilo relaxa e que trabalham melhor. Não trabalham nada, estão é relaxados. Só dá para trabalhar de manhã. E o impressionante é que eles gastam todo o dinheiro que têm a comprar aquilo. Famílias inteiras a mastigar aquilo. É uma coisa impressionante, nunca tinha visto nada assim. Mas tenho outra história do Iémen.

Conte.
Havia uma selecção do Iémen que tinha feito muito bons:resultados num Campeonato do Mundo de Sub 17. Tinha feito a vida negra a Portugal e ao Brasil. Eu agora não me recordo dos resultados. E quando cheguei em 2007 disse para mim, este Mundial dos Sub 17 foi há uns quatro, cinco anos, deixa lá ver onde andam esses jogadores. Vou buscar a lista dos jogadores, começo a tentar ver onde é que estavam esses jogadores, onde e qual é o meu espanto quando me começam a dizer que alguns jogadores já não jogam. Mas onde é que eles estão, perguntava eu, foram para fora? Até que me explicaram que os jogadores tinham dois passaportes, o desportivo e o normal. Ou seja, faziam passaportes para jogadores muito mais velhos. Nesses países olhas para eles e parece que todos têm mais ou menos a mesma idade e então para esse Campeonato do Mundo de Sub 17, foram jogadores que tinham 26 e 27 anos. Portanto, muitos já tinham demasiada idade para fazer parte da selecção e outros já não jogavam.

Segue-se a Espérance de Tunis.
Que aparece no momento em que começo a dizer isto não lembra ao diabo, tenho de me ir embora daqui. O meu primeiro jogo pelo Espérance de Tunis foi para a Liga dos Campeões Árabes. Quando cheguei eles já tinham jogado a primeira eliminatória em casa contra o Al Ittihad, da Líbia. Tinham empatado 0-0 em casa e fomos jogar a segunda mão, fora. Estavam 100 mil espectadores e o presidente do clube era o filho do Gaddafi. Só me lembro de um estádio igual ao da Luz na final do Campeonato do Mundo dos Sub 20, estava cheio, à pinha. Vem o filho Gaddafi a meio do campo para cumprimentar os árbitros (risos), foguetes e eu: “Isto vai ser uma coisa do outro mundo”. Por obra e graça do Espírito Santo, empatámos o jogo 0-0, fomos a penáltis e nos penáltis ganhámos. Ganhámos e passámos para as meias-finais. Mais à frente apanhámos outra equipa, o Ismaeli, mas entretanto a equipa foi fazendo bons resultados, fomos sendo sempre os primeiros, até que num célebre dia recebo a chamado do Zé Mourinho.
“O clube de sonho que gostava de treinar é o Benfica, mas espero voltar a trabalhar com José Mourinho”
José Morais, que esta semana assumiu a liderança de um clube sul-coreano, revela alguns pormenores dos anos em que esteve como adjunto de José Mourinho, conta como foram as passagens como treinador principal por clubes da Arábia Saudita, Turquia, Grécia, Inglaterra e Alemanha e como o AVC, sofrido há dois anos, lhe mudou a vida, tornando-o numa pessoa mais calma e tolerante com os outros

Como surge o convite para trabalhar com José Mourinho?
Estava no Espérance de Tunis quando recebo a chamada do Zé Mourinho. “Zé, como é que estás? Sabes quem é que está a falar?”; “Claro que sei, reconheço a voz. Conta ai”; “Queres vir trabalhar comigo”;“Trabalhar contigo?!”; “Eh pá estou farto deste gajo aqui, ele está maluco e vai-se embora no final da época, tenho dois mil gajos para virem trabalhar comigo, mas quero que sejas tu. Já falei com o resto do pessoal que vai ficar cá, a equipa técnica, sabem já o que é que se vai passar e eu quero que tu venhas. Sei que as coisas aí estão a correr bem...” . Já tínhamos ganho a Taça das Taças do Norte de África, qualificados para os quartos de final da Taça da Tunísia, estávamos nas meias-finais e já tínhamos jogado uma eliminatória em casa contra o Ismaeli e tínhamos ganho, e estávamos em 1º lugar na Liga da Tunísia. “Sei que as coisas aí estão a correr bem e se quiseres continuar aí, amigos como dantes, há-de haver outras oportunidades, mas se quiseres vir, vens ter comigo para a gente conversar”. Não pensei em mais nada. Cheguei ao pé deles e disse: “Desculpem lá, mas tenho de ir” [risos].

Nem pensou duas vezes. O que o levou a aceitar?
Não pensei duas vezes porque já viu todo este envolvimento de clubes: seis meses aqui, seis meses ali... No fundo tinha estado em países em que não existia estabilidade. A possibilidade de poder ter a família junta não se viabilizava.

Mas ainda não tinha a sua filha.
Ainda não, a minha filha foi precisamente fruto da estabilidade. Então de facto não pensei duas vezes. Desde aquela altura em que ele era para ter ido para o Sporting, mas não foi, ficou sempre aquela vontade. Nunca pensei que acontecesse mas gostaria muito. É um nível de competitividade diferente e gostava de ter a experiência de trabalhar ao mais alto nível. Ainda por cima com ele, uma pessoa que admirava como treinador desde o dia em que nos conhecemos e pelo caminho de sucessos consecutivos que construiu.

Uma coisa é admirar o José Mourinho e o estilo dele, outra coisa é lidar com ele todos os dias. O que mais o surpreendeu nele?
Primeiro, a forma como ele é próximo dos seus colaboradores, como ele se preocupa com o bem-estar deles. O tipo de ambiente que cria à volta dos seus colaboradores e da equipa de trabalho. Ele cria sempre um ambiente de harmonia e de boa disposição. Isto foram as coisas mais surpreendentes. Depois, a capacidade que tem de construir, às vezes em equipas que nem sempre são as melhores. Nós encontrávamos sempre equipas cuja qualidade individual acabava por ser, em determinados momentos, superior às equipas que ele treinava e mesmo assim ele conseguia ganhar. Fazia com que os jogadores se superassem.

Acha que o ponto forte do Mourinho é a gestão pessoal e colectiva dos jogadores?
Acho que é um dos pontos fortes, um. Porque ele na minha perspectiva tem outros. Sob o ponto de vista estratégico não conheço nenhum treinador com tanta perspicácia como ele. Costumo dar sempre este exemplo, e foram vários, lembro-me de um célebre jogo, no ano em que ganhámos a Champions League com o Inter, contra o Dinamo de Kiev. Ao minuto 80, 80 e tal estávamos a perder por 1-0, em Kiev. O empate dava-nos alguma esperança mas dependíamos de outros e a derrota afastava-nos completamente de passar. E ele mexe com a equipa, altera a organização de uma tal forma que o Millito e o Sneijder fazem golo. Ganhámos 2-1, nos últimos minutos.

Nessas situações ele pergunta opinião a alguém?
Não, é o instinto dele. Ele de repente ele toma decisões que surpreendem.

Quais eram as suas funções em concreto, o que lhe pediu?
Foi mais ou menos isto que ele me disse: “O Villas Boas vai sair e ele é responsável pelo material para preparar o jogo, pela observação dos adversários e tu como tens experiência enquanto treinador principal, vais fazer isso, essa é a tua tarefa principal. Depois, desde que garantas isso, tens toda a liberdade para estar connosco no campo. À partida tu podes dar uma mais-valia que outros não podem dar pelo facto de já seres treinador e teres a experiência que tens. E à medida que te fores sentindo mais à vontade, vais-te libertando e vais tendo mais tempo para estar no campo e fazeres o que gostas”. Foi isto.

Deu-lhe prazer esse trabalho?
Muito, muito.

Mais do que ser treinador principal?
Vamos lá ver, ser treinador principal é diferente, é como tu seres dono de ti próprio e tomares as tuas próprias decisões e conduzires o processo como tu entendes.

O que ganhou enquanto treinador principal, dos anos em que trabalhou com Mourinho?
Muitas coisas. Desde capacidade de organização, a uma visão mais criativa das situações, a método, rigor, liderança.

Pode dar exemplos relacionados com esses pontos? O que quer dizer com método?
Todo o exercício que ele faz, é um exercício pensado em função da forma de jogar da equipa. É no fundo quando tu tens um sistema de jogo e crias exercícios que servem o propósito de continuar a dar a dinâmica que tu queres desse sistema de jogo. Método no sentido lato, também tem a haver com a organização em si. Como tu começas o treino, como geres o treino, como fazes a transição de exercícios, a intensidade que dás na liderança do exercício. A dinâmica que tu pretendes, aquilo que exiges dos jogadores em termos de aplicação.

Trabalhar com ele obrigou-o a estudar mais?
Sim, a ir buscar mais porque o nível em que estás a trabalhar é tão alto... E ele não repete exercícios, cada treino era diferente e para o treino ser diferente tens formas diferentes de chegar ao mesmo objetivo. E estavas sempre mentalmente predisposto a ir buscar e investigar, para poder sugerir alguma coisa. Para sugerir alguma coisa a um chefe que é assim, que tem esta dinâmica, tens de estar sempre a estudar para poderes estar à frente, mas não conseguias porque estavas a pensar numa coisa e ele já estava a pensar naquilo e noutro passo à frente.

Esteve um ano em Itália, certo? A sua mulher foi lá ter, viveu lá?
A minha mulher esteve sempre comigo a partir do momento em que fui para Itália.

O que fazia no dia-a-dia?
Ela tinha uma paixão pelo design e nessa altura começou a estudar design pela universidade dos EUA, mas como estávamos em Roma, e volta e meia vinham um ou outro familiar e amigos, e ela própria, utilizando o gosto e os seus dotes, fazia de guia turística.

A seguir foram três anos no Real Madrid, também com Mourinho.
O Real Madrid foi fantástico, top, não há igual. Real Madrid é... é Real. É difícil haver um clube no mundo, na dimensão, na organização, no interesse que suscita nas massas, a paixão que existe pelo clube, o número de simpatizantes que o clube tem é fantástico.

Mas era um clube com um balneário mais difícil do que o do Inter, ou não?
Vou dizer com franqueza: creio que todos os balneários têm as suas barreiras, para não chamar outro nome. Não quero chamar ovelhas negras porque nunca senti que houvesse em nenhum dos balneários, mas em todos os balneários existem as suas, como dizer...

Resistências?
Resistências. Acho que o termo é mesmo esse. Obviamente que eu como treinador adjunto não sinto as coisas da mesma forma que o treinador principal.

Mas via.
Posso garantir pela experiência que tenho que é difícil e é impossível sentir as coisas da mesma forma enquanto treinador adjunto. Enquanto treinador adjunto o que tu fazes é sentir aquilo que o teu líder é, e em determinados momentos, porque é necessário manter a mesma linha, tentar minimizar o atrito que pode ser criado na dificuldade ou distância da comunicação que possa existir momentaneamente entre jogadores e treinador.

Alguma vez aconteceu o José Morais dizer ao José Mourinho: “Estiveste mal, não agiste bem”?
Não, nunca aconteceu dessa forma. Ele, enquanto líder, a partir do momento em que tomava a decisão, a decisão era aquela.

E tem capacidade de assumir quando não tem razão?
Acho que o Mourinho tem capacidade de assumir quando não tem razão, o problema é que ele tinha sempre razão. Como líder tens que seguir um caminho, liderança tem a ver com estas coisas.

Tem capacidade para ouvir?
Tem.

E poder de encaixe?
Depende de como é que tem de encaixar. No fundo existe uma hierarquia, ou seja, há um treinador e há jogadores. Há um responsável que tem que tomar decisões e há quem tenha que acatar decisões. E é um meio onde em determinados momentos tu não podes ser democrático porque é um meio extremamente competitivo, com níveis de agressividade extremamente elevados, por isso tens que agir em conformidade.

Ele foi sempre justo?
Na intenção sim, sempre teve a intenção de ser justo. Para ele a intenção de ser justo tem a ver com um aspecto único, que é beneficiar toda a organização e a organização que ele tem que beneficiar é a equipa, o conjunto. A justiça dele não é para com uma pessoa, mas sim para com um todo, isso por vezes pode provocar um sentimento de injustiça para o indivíduo.

Mourinho e Ronaldo têm personalidades fortes. Houve alturas de choque entre ambos?
Assim como às vezes não é fácil uma relação entre pai e filho. São pai e filho, mas em determinado momento alguém tem de dizer que o caminho é este, e quem manda pode.

Nesses três anos de Madrid, deve ter muitas histórias de balneário. Não pode revelar nenhuma?
Nós vemos os jogadores como indivíduos que são grandes atletas e num balneário como o do Real Madrid encontrares jogadores cuja sensibilidade lhes permite chorar num balneário...Vi jogadores a chorar como se fossem crianças porque o sentimento daquilo que se está a passar, acaba por ser superior à capacidade que eles têm de manter a estabilidade emocional.

Por estarem a levar uma dura?
Sim.

Isso marcou-o?
Marcou-me pela positiva. Eles são tão sensíveis como os nossos próprios filhos. São humanos e necessitam em determinados momentos que a gente chegue e lhes dê uma palmada nas costas ou lhes passe a mão pelas costas e lhes diga: “Eh pá, tranquilo”. Necessitam de sentir que têm reconhecimento, independentemente de serem indivíduos pagos milionariamente.

Houve alguma atitude que o tenha deixado de boca aberta?
Acho que a única coisa que me deixou de boca aberta foi a capacidade que estas equipas e que estes jogadores têm de um momento para o outro mudar o curso do jogo. São de uma qualidade extraordinária, alguns deles. E neste percurso todo, daqueles com os quais trabalhei, digo que o Cristiano é uma máquina. Eles chamavam-lhe máquina e ele era mesmo uma máquina.

Demasiado obcecado?
Obcecado mas pelo que era importante: ser o melhor. E com isso ajudava a que a equipa e o clube subissem à dimensão em que ele queria estar sempre, o melhor do mundo. Ele concilia isso com a capacidade individual. Ele individualmente pensava: “Eu sou e eu quero”, mas com esse tipo de atitude ele beneficiava a equipa porque ele tinha noção de que sozinho não conseguia, a equipa era um suporte para ele e tinha consciência de que quando a equipa funcionava ele tinha melhores resultados.

Nunca lhe fizeram nenhuma partida?
A mim, que me lembre, não.

E ao Mourinho fizeram alguma?
Ao Mourinho não se podia fazer partidas.

Não?!
Como é que íamos fazer uma partida ao chefe?

Ele não tem sentido de humor?
Tem sentido de humor, mas não convém arriscar [risos]. Além de que ele é o rei das partidas, acho que ele prega mais partidas aos outros.

A sério? Dê lá um exemplo?
Eh pá, várias [risos], desde esconder coisas... Ele é um indivíduo engraçado. Uma vez fez uma brincadeira no balneário, juntou os jogadores e o staff e começou a contar uma grande história, de que estavam num avião, colocou-os em fila, com o Rui Faria à frente a fazer de piloto e ia contando uma grande história e nós sabíamos que a partir do momento em que ele dizia “mayday, mayday”, era porque havia fogo nos motores, e eu e o Silvino vínhamos por trás com um balde cheio de água, o Rui fugia, e atirávamos com os baldes de água para apagar o fogo [risos]. Molhávamos o pessoal todo [risos]. Ele é que inventava estas coisas. É um tipo com muito sentido de humor.
É em Espanha que nasce a sua filha.
Sim, nasce em Setembro de 2010, na primeira época no Real Madrid.

Mudou a sua vida?
Olhas para a vida de forma diferente, sentes de forma diferente. O amor de uma filha é sentido de forma diferente pelo pai, em termos de afectividade e aproximação é diferente dos rapazes. Tu acabas por perceber que o teu coração tem muito mais para dar quando tens uma filha.

O José também já estava numa outra fase da sua vida, tinha outra maturidade.
Sim, talvez. Outra maturidade, uma perspectiva diferente da vida em termos de futuro. Em casa, ainda hoje quando falamos em sítios onde estivemos, dizemos sempre que se pudéssemos reviver momentos do passado, seria o tempo de Madrid. Tive imensa pena de vir embora. Aliás ainda hoje quando falo, a voz treme, porque sinto que foi dos períodos de que mais gostei dentro do futebol e da minha própria vida. Se pudesse dizer qual é o ideal de clube e o ideal de ambiente que gostaria de ter sempre, acho que foi o do Real Madrid, apesar de no Inter também ter sido muito bom, mas sem dúvida o do Real Madrid.

De todas as vitórias conquistadas ao serviço do Real Madrid qual foi a que o marcou mais?
A conquista da Liga dos Campeões não tem igual. Mas há uma que também me marcou, no nosso primeiro ano em Espanha, a conquista da Taça do Rei. Porque era um jogo extremamente difícil, o adversário era o melhor Barcelona de todos os tempos e termos conseguido ganhar da forma como ganhámos, 1-0, em Valência, com o golo do Cristiano, foi de facto um ponto de viragem emocional que nos fez conseguir ganhar o campeonato no ano a seguir.

Segue com Mourinho para o Chelsea. A saída de Espanha para Inglaterra custou-lhe?
Era futebol inglês e tinha curiosidade em conhecer por dentro o futebol inglês, mas depois revelou-se... Gosto do futebol inglês, gosto da organização, de toda aquela festa, daquela dinâmica mas continuo a achar que o campeonato espanhol é vivido com outra emoção.

Tem mais salero.
É, acho que tem mais jogo, para quem gosta do jogo, o jogo é trabalhado. Tem outro sentido táctico, tem outra estratégia, tem outra qualidade técnica.

É por isso que se vai embora para a Arábia Saudita ou zangou-se com o Mourinho?
Vou para o Al-Shabab por causa de uma brincadeira

Como assim?
Primeiro porque me convidaram. Na altura o Al-Shabab precisava de um treinador, mudou de presidente e o presidente era um príncipe que me conhecia já do tempo em que lá tinha estado. Faz-me uma oferta financeira bastante alta e eu como ganhava menos no Chelsea do que ali, disse ao Mourinho: “Zé, os gajos lá da Arábia estão a chatear-me para eu ir, é o príncipe que vai ser o novo presidente, quer que eu volte e paga-me um balúrdio”; “Eh pá, isso é bastante dinheiro”. Ele olhou para mim e: “Olha, faz assim, quando ele voltar a ligar, tu pedes-lhe este dinheiro” - era o dobro daquilo que ele me estava a oferecer e que já era bastante. “E se ele te pagar isso, eu deixo-te ir e no ano seguinte voltas”. E não é que ligo ao príncipe, explico-lhe a minha situação e ele: “OK, está feito”; “O quê?”; “Está feito”. Ligo ao Mourinho: “Zé, os homens aceitaram” [risos]. “Eh pá então vai, vai que eu vou falar com o clube, vamos ver como é que vamos fazer. Tu vais, manténs aqui o teu contrato na mesma e voltas. Eles deixam de pagar-te e é como se fosse um empréstimo”. Foi isto. 

Chegou a fazer alguma coisa de relevante no Al-Shabab?
Ganhei a Supertaça contra o Al-Nassr, que tinha sido campeão com 20 pontos de avanço. O Al-Shabab normalmente é o 5º clube no ranking da Arábia Saudita. Excecionalmente pode fazer um bocado melhor, mas ganhámos a Supertaça logo no início e ganhámos os cinco primeiros jogos e empatámos um. Depois o príncipe quis que eu treinasse com uma pessoa que ele achava que devia ser meu adjunto, porque merecia uns adjuntos com mais qualidade do que aqueles que tinha.

Que tinham sido levados por si quando foi para lá?
Exactamente.

Quem eram?
O Baltemar Brito e o João Cunha, que ainda hoje trabalha comigo, e um analista espanhol, que era o Jaime. Levei estas três pessoas e ele achava que havia um indivíduo alemão que ele conhecia que devia ser meu adjunto. Disse-lhe que não. Numa paragem disse para eu tirar três ou quatro dias e ir a casa descansar. Quando voltei ele tinha despedido os meus três adjuntos e queria que eu fosse treinar com os novos. Disse-lhe que não e vim embora.

Teve de pagar alguma coisa?
Não, depois falei com ele e chegámos a um acordo. Enquanto estou à espera (eu ia voltar no final da época ao Chelsea), é quando os tunisinos do Espérance de Tunis, que estavam lá para o 5.º ou 6.º lugar, com dificuldades, pediram para eu voltar. Voltei mas só até final da temporada.

Depois vai para o Antalyaspor da Turquia. Como é que surge o convite?
Surge quando terminamos o contrato do Chelsea. O Samuel Eto'o, que tinha sido nosso jogador e que jogava nesse equipa, ligou-me a perguntar se estava livre e se não queria dar uma ajuda, porque o clube estava com problemas.

Nessa altura o que lhe disse o José Mourinho? Ficou com pena de deixar a equipa dele?
Falei com ele. Eu gostava de fazer essa experiência e ele disse-me para eu ir, compreendia, mas desta vez achava que não seria possível fazer como aquando da minha saída temporária do Chelsea para o Al-Shabab. E eu tinha que decidir. O primeiro ano no Antalyaspor foi muito bom. Foi também um marco, um ponto de viragem relativamente à minha forma de estar na vida e na minha forma de pensar.

Porquê?
Porque tive um problema de saúde, tive um AVC durante a minha estadia na Turquia.

Como é que aconteceu?
Eu creio que foi um acumular de situações que estava a viver naquele momento, no fundo um conjunto de contradições que estava a viver na liderança da equipa e do próprio projecto de trabalho e que me levaram a um momento de stress. Não tinha nada a ver com a família, tinha a ver com o trabalho.

Começou a haver interferências?
Exactamente, muitas interferências que criaram um estado de contradição entre aquilo que tinha que fazer e aquilo que podia fazer. E gerou um estado emocional difícil para mim.

Mas aconteceu como? Num treino, em casa?
Lembra-se de alguma coisa, o que é que sentiu? Foi antes de um treino, estava a falar com a equipa, antes de um jogo contra o Fenerbahçe, na altura treinado pelo Vítor Pereira. Era um momento importante para a equipa, um momento de viragem, e eu queria que a equipa tivesse uma atitude diferente. E num momento de emoção dei um murro na parede e senti que se tinha passado alguma coisa, senti uma dor de cabeça muito forte. Senti que a minha voz mudou e que eu já não conseguia alterar a tonalidade da voz. Emocionalmente não conseguia alterar o meu estado, fiquei num estado zen. Embora os jogadores não se tivessem apercebido, eu percebi e até pensei que tivesse deslocado qualquer coisa com o murro que dei, eventualmente um disco na coluna, e que isso me pudesse estar a provocar a dor de cabeça forte que estava a sentir.

Já não fez o treino.
Fiz na mesma o treino. Lembro-me que saí da sala de reuniões onde estávamos, terminei a reunião um ou dois minutos depois de ter sentido aquilo. Disse numa voz calma, mais zen: “É preciso tomar atenção a alguns aspectos, agora vamos treinar e vamos preparar o jogo convenientemente”. Apelei mais um bocadinho ao sentido de responsabilidade e à importância de lutar pelas coisas de uma forma diferente e fizemos o treino. Foi um treino muito difícil. Lembro-me de ter apitado para dar um sinal, uma coisa normal de se fazer num treino, e o som do apito parece que fez uma ressonância 50 vezes superior ao normal. Fiz um esforço tremendo para estar de pé, mas terminei. Depois do treino, eu já tinha avisado o médico que não me estava a sentir muito bem, fui com o médico para cima, nem sequer fiz as entrevistas que era necessário e normal fazer antes do jogo. Cancelei e fui para cima. O médico mediu-me a tensão e estava alta, ele percebeu que alguma coisa se estava a passar, deu-me uma injecção para tentar baixar a tensão, disse que aquilo iria passar. Mas não passou. Duas horas depois estava igual, sentia as mesmas dores de cabeça. Disse ao médico: “Isto não é normal em mim. Nunca me aconteceu uma coisa deste tipo, as dores que estou a sentir são muito fortes, nem parece dor de cabeça.” Disse-lhe que devia ter deslocado qualquer coisa na cervical e que o melhor seria fazer uma radiografia ou uma ressonância. Ele ainda me disse que aquilo ia passar, para ir para casa descansar. Insisti, aquilo não era normal. Ele lá chamou a ambulância e fui para o hospital onde detectaram que eu tinha tido um AVC.

Esteve quanto tempo sem saber que estava sofrer um AVC?
Isto aconteceu entre as dez da manhã e as duas da tarde e estive sempre consciente das coisas. Quando estou no hospital começam a chegar pessoas do clube, o presidente, os directores, depois veio a minha mulher e a minha filha, os treinadores adjuntos. Eu ainda não sabia o que é que se tinha passado. Eles disseram-me que tinha que lá ficar em observação mas eu achei estranho aquele pessoal ter ido todo visitar-me.

Mas quando é que soube que tinha tido um AVC?
Só às onze e tal da noite. Porque entretanto veio um médico cirurgião perguntar-me se eu estava consciente do que podia acontecer no dia seguinte. “Amanhã? Amanhã tenho é que ir para o jogo” [risos]. “Você há-de ir para o jogo mas quando as coisas estiverem melhor. Você teve um derrame de dois centímetros”. Eu não sabia, devo ter feito uma cara que ele fica muito admirado a olhar para mim: “Mas ainda não lhe tinham dito nada?”; “Não” [risos]. E ele: “Sou médico cirurgião, vamos esperar até amanhã, fazemos um exame e vamos ver como é que a situação está. Podem acontecer duas coisas. Ou fazemos um tratamento convencional ou vamos ter que operar. Mas só amanhã depois do exame é que podemos tomar uma decisão”.

Nessa altura o que é que lhe passou pela cabeça?
Depois do médico ter saído é que percebi não ia haver jogo nenhum para mim e que tinha de preparar-me para o que podia acontecer no dia seguinte. Mas tive sempre pensamento positivo, pelo estado em que me encontrava nunca pensei que pudesse ser alguma coisa de outro mundo. Se o médico me punha essas duas possibilidades, tinha que estar preparado para essas duas possibilidades. 

A sua mulher e a sua filha estavam conscientes disso?
Estavam num estado diferente porque lhes foi dito que de um momento para o outro eu podia morrer, e por isso estavam muito mais preocupadas do que eu. Desde o momento em que me foram visitar pela primeira vez, que deve ter sido por volta das quatro ou cinco da tarde, que tinham toda a informação.

Como foi o dia seguinte?
Fiz o exame e eles chegaram à conclusão de que o derrame não se tinha propagado e que havia hipótese do organismo absorver, não sendo necessário operar.

Ficou quanto tempo no hospital?
12 dias. Tive todos os tratamentos necessários. Monotorizaram-me para ter a certeza de que o derrame era absorvido e que não havia problemas maiores. Tive todos os cuidados, o clube nesse aspecto foi extraordinário. No dia do jogo os fãs puseram máscaras com a minha cara e foram visitar-me ao hospital. O presidente da câmara foi visitar-me, o próprio Fenerbahçe mandou uma delegação ao hospital com um director, antes do jogo.

O Vítor Pereira não foi visitá-lo?
Ele não podia porque tinha jogo no dia a seguir, mas foi uma delegação do clube, em nome do presidente.

Nesses dias em que esteve no hospital o que fazia para passar o tempo?
Nos primeiros dias aconselharam-me a não fazer grandes esforços, nem leituras, nada, tinha de descansar completamente. Passados dois ou três dias já estava a preparar treinos e a passar coisas aos meus adjuntos.

Esse episódio alterou a sua maneira de estar na vida?
Alterou porque de repente o sentimento que se apoderou de mim foi que havia que relativizar coisas, havia de estar disponível para colaborar com aquilo que podia constituir também a satisfação dos outros, no fundo fez-me olhar para mim mais no sentido do que é que eu posso fazer para que os outros sejam felizes.

Apercebeu-se que se calhar era uma pessoa um bocado intransigente e passou a ser mais flexível? 
Encontrei um outro sentido na vida. É um bocado a flexibilidade de entender que na felicidade do outro pode estar a tua felicidade também. E fazer as coisas não só pensando exclusivamente em ti, mas também no impacto que pode criar no outro. É difícil de explicar porque são muitos aspectos.

Dê exemplos de coisas que tenha alterado.
Passei a olhar para as coisas de forma muito mais positiva, a olhar para os outros como seres que também necessitam de ti para poderem atingir os objectivos deles. Olhar para mim como alguém que pode fazer a diferença na vida dos outros dessa forma e aí permitia-me olhar para o outro não como alguém que tenho que domar ou alguém que tenho que liderar, mas que tenho mais de convencer a fazer do que eventualmente forçar a fazer.

A diferença entre um chefe e um líder. Antes era chefe e passou a ser líder.
Exactamente. Embora não fosse um indivíduo mandão. Mas sim, utilizar o poder de uma forma mais positiva, relativizando um pouco mais, percebendo que do mesmo modo que eu tinha uma intenção positiva para as coisas e para os outros, os outros também teriam uma intenção positiva, e no fundo era tentar entender melhor as intenções dos outros para conciliar e encontrar uma harmonia que permitisse chegar às coisas.

Foi confrontado pela primeira vez com a noção da finitude da vida.
Exacto. Levou-me a encontrar uma perspectiva diferente da vida. Passei a pensar que tinha de encontrar a satisfação de viver o dia-a-dia, que a vida tem a ver com viver momentos de felicidade e tirar o máximo desses momentos. Porque o amanhã pode não existir. O amanhã tem que ser vivido na felicidade que sentes hoje, de criares os momentos hoje.

Tornou-se uma pessoa mais calma?
Muito mais. Calmo no sentido de mais controlo sobre aquilo que pretendo dos meus comportamentos emocionais. Mais conhecedor do que é o aspecto emocional da vida e o que pode provocar. Antes era um bocadinho mais reactivo, provavelmente até um bocadinho mais agressivo.

Durante esse período o José Mourinho foi visitá-lo ou telefonou?
Ele esteve sempre em contacto com a minha família, preocupado com os meus filhos, sempre a ligar para saber como é que eles estavam. Ligou para mim, enviou mensagens, nos primeiros dias eu também não podia falar. Mas foi como se de um irmão ou um elemento da família se tratasse.

E o jogo com o Fenerbahçe, ganharam ou perderam?
Ganhámos 4-2. Foi importante porque foi um jogo de viragem, até para o comportamento da equipa, que a partir daí foi tendo uma atitude diferente. Saí do hospital e acabámos o campeonato em 9.º lugar, mas fizemos um bom campeonato a partir daí, houve uma viragem na equipa.

Gostou da Turquia?
Gostei, gostei muito das pessoas. A partir daí também percebi que as pessoas estavam muito mais comigo do que eventualmente poderia imaginar. O movimento e a onda de solidariedade que se levantou ao redor da minha pessoa fez-me perceber que afinal há muito mais gente ao teu lado do que contra. Quando por vezes pensava: "Mas o que é que estes gajos querem? Querem a mesma coisa do que eu?" Creio que é gente extraordinária, gente com um sentido de solidariedade muito grande, muito apaixonada pelo jogo mas também com uma sensibilidade muito grande em relação aquilo que é ser solidário.

Nesse período em que esteve na Turquia deu-se a tentativa de golpe de Estado.
Sim. Na temporada seguinte. Foi uma situação até um pouco caricata. Nós estávamos numa festa, lembro-me que estava lá o Samuel Eto’o e outros jogadores que tinham sido convidados por ele para fazer um jogo de solidariedade e estávamos todos no hotel porque o jogo iria ser no dia a seguir. E há um momento em que se começa a ouvir um burburinho na sala, pessoas a levantar-se e a ir embora. Havia gente da classe política que estava no evento. Começaram a sair, um burburinho e o evento acabou por ser interrompido e ninguém sabia muito bem porquê. Ao sair tomamos contacto com a realidade. Os tanques estavam na rua, a televisão já tinha lançado alguns comunicados. Nós estávamos longe, em Antalya e o golpe aconteceu em Istambul. Ainda são duas horas de voo, é longe, mas de qualquer modo as pessoas que estavam ligadas ao presidente, ao Erdogan, ficaram preocupadas.

Nunca sentiu medo?
Não. Foi sempre dada uma imagem de que as coisas estariam mais ou menos controladas pelo regime e nunca houve uma preocupação exagerada. Mas houve confrontos em Istambul que foram preocupantes.

Essa situação de alguma forma ajudou a que tivesse ido parar à Grécia?
Não propriamente. A Grécia teve que ver com outras coisas que já estavam ligadas ao meu estado de espírito no final da época anterior. No fundo eu queria ter saído e as pessoas convenceram-me a ficar, mas as circunstâncias não eram muito favoráveis.

Porque é que não queria ficar?
Porque a forma como queria conduzir as coisas não era possível.

E como é que surge o convite do AEK?
A partir de uma conversa anterior e que em finais de Setembro se concretizou. Perguntaram-me se estaria interessado e pensei, caso as circunstâncias aqui não mudem estaria interessado, e foi assim que aconteceu. Nada mudou em Antalya relativamente aquilo que eu entendia que era melhor e sai. 

Foi de armas e bagagens para Atenas com a família?
Sim. No primeiro momento parecia um projecto interessante, mas depois acabou por... Gostei em termos de trabalho e de equipa, do clube, mas depois em termos de organização e de fazer aquilo que verdadeiramente gostaria de fazer, acabou por ser um bocado uma desilusão para mim, porque eu queria construir uma equipa e tinha-me sido dito que podia e que no momento em que se abrisse a janela das transferências, uma vez que cheguei em Outubro, poderia eventualmente fazer as mudanças que fossem necessárias para fazer um grupo melhor. Mas acabei por sentir que não tinha autonomia e que não tinha decisão em relação à qualidade dos jogadores que queria. Pedi para me darem mais tempo e autonomia senão pedia a demissão. Pedi a demissão e sai.

Vem para Portugal ou foi directamente para Inglaterra?
Vim para Portugal. Foi também um momento em que senti que precisava de descansar um bocado e reflectir sobre outras coisas. Senti que necessitava de fazer uma paragem e reencontrar-me um bocadinho comigo próprio. Também foi no momento em que a minha filha ia começar a escola. Até essa altura ela podia andar de um lado para o outro, mas como iria começar a 1.ª classe era importante nós criarmos estabilidade. Criámos a nossa base em Cascais.

Como é que surge o convite do Barnsley, de Inglaterra?
A equipa estava nos últimos lugares e nós sempre acreditamos que somos capazes de fazer qualquer coisa mais. O convite surge em Fevereiro, também com a janela de transferências já fechada. O contrato era de Fevereiro até maio, se a equipa se conseguisse salvar era óptimo, se não haveria a possibilidade de continuar, mas para mim continuar na League One não era uma opção. Vamos tentar fazer o melhor que pudermos e no final do ano, logo vemos. Conseguimos melhor mas o tempo era curto e a Championship é um campeonato em que tens jogos a cada três dias, quase sem possibilidade de treinar, mas houve de facto muitas melhorias e a equipa até à última jornada ainda estava no fundo em circunstâncias de se poder salvar, mas no último jogo não conseguimos ganhar, era um jogo fora, difícil, contra o Derby County, uma equipa que precisava de ganhar para estar no playoff para poder subir à Premier League.

Esteve com o Mourinho?
Não, ele estava em Manchester. Nem sequer tive tempo de ir ver um jogo dele. Os meus adjuntos, o Dimas e o João Cunha, é que foram. Mas conversávamos por telefone.

Entretanto vai parar à Ucrânia.
Sim, já depois da temporada ter começado. Vou já em finais de Agosto do ano passado, para um projecto interessante, mas uma equipa humilde, com poucos recursos financeiros. Era um projecto para durar dois anos, mas acontece que surgiu uma proposta muito interessante para ir treinar o campeão da Coreia do Sul e acabei por optar por sair da Ucrânia. Na Coreia tenho hipótese de começar um projecto desde o início, há uma mentalidade diferente, uma organização e recursos financeiros diferentes. É um projecto que me dá outras possibilidades que não me deram os anteriores. 

Vai com altas expectativas.
Vou com expectativas positivas.

Quando é o primeiro jogo?
É só em Março. Agora vamos para a pré-época.

A família vai consigo ou fica cá?
Como vou sair daqui no meio do ano escolar, a nossa decisão é que a nossa filha termine o ano escolar. Entretanto vão-me visitar nas férias da Páscoa para ver a escola e as condições que temos.
Ao longo da sua carreira onde é que ganhou mais dinheiro?
Creio que foi na Turquia.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Não sou de grandes extravagâncias, mas eventualmente poderá ter sido quando estive no Real Madrid e comprei um Porsche Cayman, desportivo.

Onde é que tem investido o seu dinheiro?
Tenho duas paixões em termos de negócios: gosto de investir na bolsa de valores e em empresas, não em muitas.

Portuguesas ou estrangeiras?
Gosto da Boeing, porque gosto de aviões e invisto. E a outra é no ramo imobiliário.

A maior amizade que fez no futebol foi mesmo com o Mourinho ou há outras?
Foi com o Mourinho. Para mim ele é família.

Já estava à espera da saída dele do Manchester United?
Confesso que não estava à espera, por duas razões: porque o Manchester não é um clube que por norma mude de treinadores a meio da época; por outro lado, pela qualidade que ele tem como treinador.

Porque é que acha que aconteceu?
Como não estou lá, acabo por não saber. Mas creio que nestas coisas, com ele, passam sempre por ele próprio. Se ele não quer continuar, não continua. Penso que ele poderá não ter querido continuar. 

Sabe se ele já tem clube?
Acho que não. Mas ele é uma pessoa tranquila nesse aspecto.

Nota um Mourinho diferente daquele com quem lidou no Real Madrid e no Chelsea?
Para melhor.

Em todos os aspectos?
Noto aquilo que todos notamos, que a vida vai proporcionando experiências diferentes e nós vamos também mudando a nossa perspectiva das coisas.

Não sente que se tornou mais tenso?
Não, não sinto isso.

É supersticioso?
Não, não sou [risos]. E curiosamente esse foi um dos aspectos que me levou a sentir grandes dificuldades na Grécia porque as pessoas eram muito supersticiosas e era tudo muito em função de Deus. Até o padre teve que lá ir duas vezes para abençoar.

É crente?
Nós somos parte da crença e a crença não vem pelo facto de acreditarmos em qualquer coisa de sobrenatural, que irá fazer o trabalho que nós temos de fazer, se não as coisas não acontecem.

Qual era a equipa de sonho que gostava de treinar?
O Benfica.

É esse o seu objectivo?
Digamos que passa por ser. Disse sempre que o Arsenal seria uma equipa que gostaria de treinar, mas na vida e pelo que passei no clube, o Benfica seria de facto essa equipa de sonho.

Tem recebido convites da Liga portuguesa?
Ainda não tive oportunidade de treinar na Liga portuguesa mas creio que um dia vai acontecer. Todo o percurso que tenho feito tem sido importante em termos de experiência. Haverá um dia em que se vai concretizar a possibilidade de estar na Liga portuguesa e, aí sim, creio que poderei chegar a essa objectivo.

Se receber um convite de Mourinho para acompanhá-lo no novo desafio que ele vai enfrentar, está disposto a ser novamente adjunto ou prefere continuar como treinador principal?
Tenho a convicção de que um dia vou voltar a trabalhar com ele, é uma vontade que tenho. Não sei quando é que vai ser, mas quando surgir a oportunidade com certeza que sim.

Qual o jogador que mais o marcou até hoje?
O Cristiano, pela sua capacidade de transformar o jogo, pela sua determinação.

Já superou ídolos como o Pelé, Maradona?
Não posso falar daquilo que não conheço pessoalmente. Conheço o Cristiano pessoalmente, trabalhei com ele, sei o que ele é como atleta, aquilo que consegue e aquilo que provoca na equipa e de facto é o melhor do mundo neste momento. Acredito que o Pelé e o Maradona tenham sido também grandes jogadores e tenham sido os melhores do mundo naqueles momentos, mas actualmente creio que o Cristiano Ronaldo é de facto o melhor.

E Mourinho é o melhor treinador do mundo ou é o José Morais?
Não me posso comparar. Até porque ser o melhor do mundo tem a ver com coisas concretas, com ganhar títulos, e ele de facto tem conseguido tudo. Para mim ele é o melhor do mundo porque ganhar os títulos que ganhou no espaço de tempo em que o fez e nas condições em que fez, não há outro treinador que tenha feito parecido. Ele não o fez apenas com as melhores equipas do mundo, fez até com equipas que ninguém esperava que fossem capazes. Por isso o considero o melhor do mundo. E também porque o conheço.

Última pergunta, qual é a sua maior ambição?
É ser feliz, contribuindo para a felicidade dos outros. Essa é a minha maior ambição."

Benfiquismo (MLVIII)

Abraços

Benfica FM - Mudanças...

Benfica entre provisórios e definitivos

"Com tanta coisa ainda por decidir nesta época, fará pouco sentido que o Benfica não faça uma aposta forte no comando técnico da sua equipa

Rui Vitória acabou por não resistir à onda negativa em que mergulhara e viu, ao fim de três anos e meio, chegar ao fim o seu consulado no Benfica, um registo que o coloca em quarto lugar no ranking dos treinadores mais duradouros dos encarnados, atrás de Biri, Jesus e Otto. Encerrado este ciclo, o Benfica fez saber, em comunicado, que Bruno Lage assumia inteiramente o comando da equipa, deixando no ar a expectativa quanto ao nome do senhor que se segue no banco da Luz. Quando faltam 18 jornadas para o fim do campeonato, estando ainda o Benfica vivo nas Taças da Liga e de Portugal e na Liga Europa, não fará sentido que o clube não procure uma solução com mais profundidade, embora as limitações do mercado - os técnicos mais interessantes ou são muito caros ou estão no activo - possam condicionar a decisão. Mas perante o que se avizinha, numa segunda volta com viagens a Alvalade, ao Dragão, a Braga, a Guimarães e a Vila do Conde (Uff!!!), não será prudente apostar num treinador provisório, mesmo que passe a definitivo, porque este, a construir estatuto, será sempre mais vulnerável do que alguém que já brilhe com luz própria (é olhar para Solari, no Real).
Dito isto, há que louvar Bruno Lage, que enfrentou o jogo de ontem com a coragem de romper com o 4x3x3 de Vitória e com bons resultados ofensivos. Sejamos absolutamente claros quanto a uma coisa: em abstracto, o 4x4x2 não é melhor ou pior do que o 4x3x3 ou outro sistema qualquer. O que importa é a dinâmica aplicada a cada um dos modelos e as características dos intérpretes. Para este plantel do Benfica (que há duas semanas, a jogar em 4x3x3, deu 6-2 ao SC Braga!), sempre me pareceu mais acertado apostar em dois avançados - e ontem até deu para chamar Ferreyra do degredo - o que implica algum trabalho que manifestamente ainda está por fazer. Ontem, o Benfica revelou uma debilidade defensiva muito acentuada, especialmente na zona do meio-campo, onde os jogadores do Rio Ave tiveram tempo e espaço para criar jogadas de muito perigo. Após um jogo que podia ter corrido muito mal e acabou por correr bem, será de bom tom que Luís Filipe Vieira apresente uma solução estável para o Benfica, um técnico que não olhe para o jogo que se segue como se fosse o último. E é isso que acontece com qualquer treinador interino, aqui e em todas as partes do mundo.

Uma nota introdutória que só lhe ficou bem
«Quero enviar um abraço ao 'mister' Rui Vitória, não podemos esquecer o trabalho aqui feito ao longo de mais de três anos...»
Bruno Lage, treinador interino do Benfica
Infelizmente, tem sido demasiado comum ver treinadores de transição a esquecer, num piscar de olhos, quem os antecedeu. É a escola do «eu ganhei, nós empatámos, ele perdeu». Bruno Lage, depois da vitória do Benfica sobre o Rio Ave, começou por se referir elogiosamente a Rui Vitória e ao seu legado, dando corpo a um gesto que só lhe ficou bem. Fica como exemplo positivo e muito pouco visto.

Ás
Haris Seferovic
Terá realizado ontem o melhor jogo de águia ao peito, cirúrgico a assistir e sempre disponível para o trabalho invisível em prol da equipa. E, é evidente, sentiu-se muito mais confortável com um parceiro nas cercanias, primeiro João Félix, depois Facundo Ferreyra. Está de parabéns...

Rei
Wenderson Galeno
Mora em Vila do Conde, por empréstimo do FC Porto, um projecto de jogador, Galeno de seu nome, que tem condições para cumprir uma carreira de grande sucesso. Bom de bola, fortíssimo no um contra um e com remate fácil, precisa ainda de ser mais focado no jogo, ganhar disciplina táctica e privilegiar o colectivo de outra forma.

Duque
Florentino Pérez
Como destruir a equipa com mais sucesso da era-Champions em três tempos? É perguntar a Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, que fez com que Zinedine Zidane e Cristiano Ronaldo abandonassem a Casa Blanca, precisava de um goleador e contratou um guarda-redes, e está agora ser vítima da sua arrogância.

O brilho da estrela
Há cinco anos, Portugal chorava a morte do 'king'. Entretanto, secaram as lágrimas, Eusébio descansa em Santa Engrácia e a vida, como sempre, continua. Hoje, a presença do 'pantera negra', na estátua, no museu, no cinema, nos livros de história, na memória de cada um e no imaginário colectivo, mantém-se bem viva, à altura de quem, ao longo de décadas, foi bandeira da nação multirracial, multicultural e multicontinental que o viu nascer. A estrela de Eusébio brilha cada vez mais forte, no céu dos que se libertaram da lei da morte...

A noite de sonho de James Harden
No melhor jogo da fase regular da NBA, os Houston Rockets foram a Oakland derrotar os campeões Golden State Warriors por 135 - 134, depois de um prolongamento. James Harden, com um triplo ao soar da buzina, foi o herói da noite e exibiu-se ao nível dos melhores jogadores que pisaram os palcos da NBA. Sublime!"

José Manuel Delgado, in A Bola

O dedo de Lage

"Foi só um jogo, é verdade. E ninguém melhor do que os benfiquistas - que viram Vitória despedido uma semana depois da goleada ainda mais gorda que a de ontem - sabem que nenhuma vitória, por mais entusiasmante que seja, é por si só sinal de retoma. Mas a verdade é que Bruno Lage (que o Benfica apresentou como provisório e não interino, o que talvez não pareça mas encerra algumas diferenças) ganhou, pelo menos, direito ao benefício da dúvida. Não tanto por ter vencido, mas pela coragem que demonstrou. Ser-lhe-ia fácil, escudando-se no facto de ter apenas três dias para preparar a recepção ao Rio Ave, defender-se e mexer o menos possível, esperando que a qualidade dos jogadores revolvesse, por si só, os problemas. Mas não: recuperou Ferreyra; fez regressar a águia ao 4x4x2, sistema com que o Benfica ganhou tudo o que havia para ganhar em Portugal - e que, como o próprio Lage afirmou no final da partida, se enquadra muito melhor num plantel que conta com quatro avançados; colocou João Félix na posição em que o seu talento pode, de facto, atingir a expressão máxima.
Significa isto que Lage resolveu, com um estalar de dedos, todos os problemas do Benfica? Claro que não. As fragilidades da equipa continuam lá e ficaram, até, à vista em vários momentos do jogo. Mas o treinador provisório (ou não, logo se verá) só precisou de três dias para perceber o que Vitória nunca conseguiu perceber: que não chegavam promessas de mudança, o Benfica precisava, de facto, de mudar. E com esse feeling, como lhe chamou, criou também boas sensações nos adeptos, que lhe prestaram merecida homenagem, e, quem sabe, algumas dúvidas a Vieira, que tem uma decisão para tomar: encontra já um novo treinador ou dá a Bruno Lage a oportunidade de, pelo menos nos Açores, mostrar que o que se viu ontem não foi de um acaso?"

Ricardo Quaresma, in A Bola

O talento e a vertigem

"Num jogo de características especiais destaque para uma dupla atacante eficaz

Jogo especial
1. Antes de mais e porque os jogos se disputam também numa dimensão psicossocial, é de sublinhar que esta partida tinha um enquadramento especial para o Benfica, face à derrota a que se seguiu uma mudança de treinador, mas também para o Rio Ave, que também apresentou uma nova equipa técnica. Estes jogos, com este tipo de contexto, têm sempre particularidades especiais e aquilo que vimos foram duas equipas a jogar de forma intensa, com linhas defensivas agressivas e subidas, com ambas as equipas à procura da profundidade e acima de tudo vimos um jogo com poucas paragens. Seis golos num só jogo é de enaltecer e o sinal da predisposição que ambas as equipas levaram para o campo.

Rio Ave eficaz
2. Entrou muito bem o Rio Ave a surpreender o Benfica com dois golos, mostrando grande eficácia. Mérito de Galeno no primeiro golo e não desistir da bola mesmo junto à linha de fundo e a cruzar para Gabrielzinho marcar. Houve demérito de alguns jogadores do Benfica, desatentos na movimentação defensiva. O segundo golo do Rio Ave demonstrou também essa desconcentração e foi a prova de que no futebol não basta apenas a superioridade numérica: estavam apenas dois jogadores do Rio Ave na área contra vários do Benfica e Bruno Moreira conseguiu o golo.

Jogo intenso
3. Na segunda parte e eficácia mudou-se para o lado do Benfica, que já conseguira empatar o jogo antes do intervalo. No reinício, com duas oportunidades surgiram mais dois golos. Foi, assim, um jogo bastante intenso e criativo. Houve capacidade de reacção para o Benfica ultrapassar desvantagem de dois golos, algo que normalmente cria dificuldades ainda para mais vindo a equipa de uma derrota. Uma palavra também para o Rio Ave, que foi à Luz disputar o jogo e tentar ser protagonista.

Seferovic e Félix as figuras
4. Escolho como figuras deste jogo a dupla Seferovic/João Félix. O primeiro pela capacidade de trabalho e potência e o segundo pelo talento, qualidade e atrevimento. Da parte do Rio Ave, há que também destacar Galeno pela capacidade em acrescentar qualidade à equipa do Rio Ave. Quando falo da dupla Seferovic/João Félix destaco a dinâmica do Benfica é diferente a jogar com dois pontas-de-lança e ainda mais diferente será consoante as características dos intervenientes que a compõem. Foi interessante a dinâmica que ambos acrescentaram ao jogo do Benfica, com um sistema táctico que incluiu os dois jogadores no ataque. Ainda assim, não creio que isso tenha sido o factor principal do sucesso deste jogo mas apenas a nota para uma dinâmica distinta. O Rio Ave também se apresentou a jogar na Luz com dois avançados, atrevimento que é de enaltecer provavelmente pelo facto de querer aproveitar as características dos seus atacantes."

João Carlos Pereira, in A Bola

Futebol: coisa acéfala, boçal e linda

"Numa publicação nas redes sociais, o professor Frederico Lourenço escreveu, entre outras coisas mais importantes, que sempre achou o futebol uma actividade um tanto boçal e acéfala. Eu acrescento: primitiva e básica. E maravilhosa. Se não fosse assim, como se poderia explicar a alegria pura de, aos seis anos, marcar um golo no pátio da escola primária como se estivesse a disputar o mais importante dos troféus, como se em vez de uma plateia de pedras, prédios em construção e árvores despidas, milhões de pessoas nos estivessem a ver e a festejar aquele feito?
Sim, o futebol é uma coisa boçal, acéfala, primitiva e básica e é por isso que, como escreveu o cronista Paulo Mendes Campos, um homem adulto que vê uma bola vir na sua direcção não a pega gentilmente com os braços para a devolver aos donos. Mesmo desarticulado, dorido, sem jeito, ele dificilmente será capaz de resistir à tentação de chutar a bola para uma baliza imaginária: “O brinquedo essencial do homem é a bola. Quem ganha uma bola descobre dois mundos, o de dentro e o de fora. Um psicólogo do futebol imagina a seguinte cena: meninos jogam na rua; a bola sobra para o cavalheiro que passa. Que fará o austero transeunte? Ficará indiferente? Devolverá a bola com as mãos? Já vimos todos nós o que ele irá fazer: o homem, sem perder a gravidade rebate a bola com o pé, aparentemente para prestar um serviço à garotada, mas na Verdade porque não resiste ao elástico e impulsivo prazer de dar um chute. É sempre um grande prazer, uma das coisas agradáveis da vida, dar um chute na bola, sobretudo quando conseguimos colocá-la na meta almejada.”
Há dias, os miúdos da escola dos meus filhos pediram-me que lhes devolvesse a bola que tinha saltado a rede e estava perdida no meio da estrada. Em vez de a fazer passar com delicadeza por cima da rede, algo de acéfalo e boçal fez com que eu a chutasse. Ver a bola subir, tocar os ramos das árvores e cair na relva artificial do outro lado da rede: que proeza magnífica! Que bela maneira de começar o dia!
Veja-se o primeiro golo do Benfica ontem contra o Rio Ave. João Félix conduz a bola, passa para Cervi que abre na esquerda para Grimaldo, este devolve para o centro da grande área onde Félix, pura inteligência em movimento, deixa a bola passar entre as pernas para Seferovic que, numa fracção de segundo, toma uma decisão que tem tanto de instintivo como de genial: dá um toque com o calcanhar esquerdo que tira o adversário da jogada e depois, em esforço, com o mesmo pé esquerdo, ainda consegue rematar para a baliza.
Ou veja-se o toque de graça e subtileza de Félix no segundo golo, a aproveitar a velocidade da bola para a desviar do guarda-redes num gesto tão preciso quanto a tacada de um mestre do snooker. Ser testemunha destes atos e só ver no futebol o que este tem de acéfalo e boçal não é, para mim, sintoma de elitismo ou um desprezo aceitável por uma actividade menor. É, que me perdoem os indiferentes ao “pontapé na bola”, uma falha da inteligência, uma falha na capacidade de apreciação estética. Perdoem-me eles a mim e que Deus os perdoe a eles.
Na “Ilíada”, poema homérico que Frederico Lourenço traduziu com excelência, as descrições de actos terríveis sucedem-se a um ritmo que traz à boca do leitor o sabor a sangue e destruição. No capítulo VI, Ajax, o dos aqueus e não o de Amesterdão, derruba “o alto e possante Acamante”, desferindo-lhe um golpe no elmo: “pela testa dentro lhe empurrou a lança”. Nestor exorta os seus companheiros: “Que ninguém fique para trás, ávido de despojos, para que maiores quantidades possa levar para as naus, mas chacinemos homens! Depois, já tranquilos, podereis despir das armas os cadáveres que jazem na planície.” E, no entanto, no meio da carnificina, no meio de tanta violência acéfala e boçal, brilham os exemplos de nobreza, coragem e até de amizade.
Longe de mim querer converter alguém ao futebol e ao que ele tem de belo. Ontem à tarde, um domingo frio e soalheiro, oito mil pessoas juntaram-se num estádio para ver um jogo de das distritais. Em confronto, duas equipas históricas, o CD Estrela (herdeiro do falido Estrela da Amadora) e o Belenenses (agora separado da SAD). Para quem não gosta de futebol, isto pouco ou nada diz. É apenas um ajuntamento de desocupados, eventuais energúmenos.
Para quem, como eu, se lembra do pontapé de Juanico no Jamor e do bigode de Duílio, da careca do central José António e dos golos de Renato Gaúcho, da noite em que Adão levou o Belenenses de volta ao paraíso e de um longínquo empate do Estrela num estádio da Luz às moscas, de um avançado de nome Djão que talvez já só exista na minha memória de um cromo numa caderneta e de uma entrevista de um jovem negro alto e desengonçado chamado Birame desiludido porque o empresário lhe tinha dito que em Portugal o dinheiro saía das paredes, para quem o futebol é tudo isto, este tricô de memórias banhado pelo sol de um domingo qualquer, o jogo de ontem foi uma viagem a esse passado, uma viagem à infância.
Mais do que apoiar o clube do coração, foi isso que os oito mil adeptos foram fazer ao estádio José Gomes: recuperar um pouco dessa infância perdida, pagar o tributo aos ídolos do passado apoiando as camisolas que os simbolizam.
Mas o futebol não é apenas nostalgia. Nele também cabe o futuro. Após o jogo do Sporting com o Belenenses (SAD, não o outro), um repórter do canal do clube da casa entrevistou um senhor à saída do estádio: “venho do jogo, venho de ver o meu neto, marcou um golo, foi o homem do jogo, sou a pessoa mais feliz do mundo.” Por um desses acasos felizes, o senhor era avô de Miguel Luís, jovem de dezanove anos que tinha acabado de marcar o golo da vitória com um potente remate. “Estou muito orgulhoso”, prosseguiu o homem, “não simpatizava com o Sporting, mas agora aos setenta anos parece que vou mudar para o Sporting.” Costuma dizer-se que um homem só não muda de clube. Eis a prova em contrário (ou a excepção que confirma a regra).
Não é difícil imaginar que, no momento em que o pé de Miguel Luís acertou na bola e a atirou para a baliza, um pouco da força e da intenção tenha vindo do avô que, na bancada, assistia ao jogo. Com a energia dos seus setenta anos e o orgulho de avô, o senhor Américo Luís era o homem da crónica de Paulo Mendes Campos, a redescobrir esse prazer simples e bárbaro (boçal e acéfalo) de “dar um chute na bola” e regressar por instantes, à infância, que é como quem diz, ao futuro."

Luís Filipe Vieira na SIC...

"Quem vai suceder a Rui Vitória?
"As pessoas ainda vão ter muitas saudades dele. Saiu porque achou que, naquele momento, não era a solução no Benfica. Pôs o lugar à disposição e foi uma saída muito pacífica. Neste momento a única hipótese que existe é Bruno Lage. Nunca poderei dizer o futuro e todos gostariam de estar no Benfica. [Jorge Jesus?] É meu amigo. Não viu agora, não sei quantos treinadores apareceram para o Benfica. Ainda ontem falei com o Júlio Mendes [presidente do Vitória de Guimarães] por causa de Luís Castro. Nunca houve interesse em nenhum dos treinadores que têm estado aí… Na próxima semana as coisas vão clarificar-se e os Benfiquistas podem ter a certeza que vão ter um treinador." 

Bruno Lage e o projecto
"Já o conheço há muito anos e teve uma boa prestação [como treinador da equipa principal do Benfica]. Vai continuar, ainda hoje estivemos a falar numa reunião, mas a decisão final vão tê-la na próxima semana. Se Bruno Lage tem perfil certo? Sim. Temos um projecto e não queremos, a meio, alterar o percurso. Todo o investimento e sucesso do Benfica vai passar pela formação do Caixa Futebol Campus. O Benfica não se pode desviar disso."

José Mourinho?
"É meu amigo. Não falei com ele e só vão saber a decisão para a semana. Não há treinadores de sonho. Os treinadores com que temos de sonhar são aqueles que nos poderão garantir resultados e há um ou outro que sabemos que nos vão garantir resultados. Mas quem não gostava de ter o Mourinho? Se ele disser amanhã que sim, vem logo. O dinheiro não é um problema para o Benfica neste momento. Se viesse um José Mourinho para o Benfica, em vez de termos 27 jogadores só tínhamos 20. Isso resolve-se sempre."

O Caixa Futebol Campus
"O Seixal é o orgulho dos Benfiquistas. Ainda não o acabámos… Vamos ainda criar expansão: mais seis campos de futebol, uma unidade hoteleira, um colégio aberto ao público – o colégio internacional do Benfica –, mas principalmente para os nossos jovens. Vai ser obrigatório estudar lá e vai-nos distinguir em relação à nossa concorrência. Fizemos profundas alterações. Há quem diga que os quartos são cinco estrelas, mas eu também acho que isso cria uma responsabilidade muito grande aos atletas."

A chegada à presidência
"Nunca sonhei ser presidente do Benfica, ao contrário do que dizem. Frequentei o Estádio da Luz na pendura dos eléctricos – na altura não havia dinheiro para ir ao Estádio – e lá conseguia escapar-me para entrar graciosamente. Houve uma pessoa que me disse 'Luís, tens de ir para o Benfica, tens de te candidatar porque temos de salvar a melhor marca deste País'. Entretanto, falei com o Manuel Vilarinho, que também ia concorrer, e resolvi não concorrer porque o Manuel dava-nos garantias, tinha capacidade para derrotar o presidente [Vale e Azevedo] daquela altura. Passados uns meses foi o Manuel Vilarinho que me ligou a dizer que eu tinha de ir ajudá-lo e, a partir daí – que era uma coisa transitória –, já lá vão 18 anos."

Cadeira de sonho?
"Há coisas que eu não percebo. Há pessoas que me dizem que a posição que ocupo é mais importante do que a do Presidente da República e eu nunca o encarei como um lugar de poder. Não me considero um homem poderoso. Acho que os Benfiquistas não olham para mim pelo poder, podem, sim, admirar-me pelo trabalho que tenho desenvolvido ao longo destes anos, em conjunto com eles, obviamente. Quando cheguei ao Benfica consegui retirar a palavra 'eu' e passar a 'nós'… Só assim chegámos onde chegámos. Conseguimos alavancar o Benfica de uma fase horrível, sem credibilidade nenhuma."

Emoções, paixões e a obra feita
"Vivi e vivo o Benfica de uma forma muito intensa. Assumi um compromisso com os Benfiquistas que é levar uma determinada obra até ao fim e acho que vou conseguir fazê-lo, com a ajuda de todos. Com momentos menos bons também… As pessoas vivem muito as emoções e as paixões e às vezes têm reacções que nem deviam ter. Não podemos, debaixo de um mau resultado, dar a ideia de que temos de caminhar para um suicídio quando tudo o que fizemos para trás foi bem feito, tudo planeado e elogiado por tanta gente. Vou dar um exemplo: ainda ontem, no final do jogo, as pessoas gritaram o meu nome de uma forma que não deviam ter feito. Magoou-me. Eu não tenho de dar provas a ninguém da obra que está feita, de uma casa que não existia e foi transformada no mundo que é hoje, uma casa que não pagava salários e que hoje paga a tempo de horas, com um enorme património." 

Liderança, pessoas simples e coisas extraordinárias
"Um líder é uma pessoa simples que consegue fazer coisas extraordinárias. Acho que dentro deste país têm sido as pessoas simples a fazer coisas extraordinárias. Temos o exemplo do Presidente da República, a maneira como – falemos em termos empresariais – gere o nosso mundo de uma forma tão simples, e a unanimidade está à volta dele. Se calhar no Benfica, por ser muito simples, por falar a linguagem dos Benfiquistas – porque o Benfica é o povo –, as pessoas olharam sempre para mim dessa maneira. Por isso é que eu ganhei quatro eleições com 90 e tal por cento…"

Comandar até quando?
"Para já assumi um compromisso de me candidatar mais uma vez, depois tenho de avaliar como vai ser o resto da minha vida porque nessa altura estarei com 70 e poucos anos."

E qual é o segredo?
"O trabalho! Aquilo que prometo, faço e fazemos. O Benfica está estruturado já para o futuro, ou seja, quando sair do Benfica, quem vier a seguir só tem de seguir os passos que temos dado. A obra está feita, em termos de infraestruturas, a única que nos faz falta é a das ditas modalidades amadoras – que são profissionais –, que é o CAR [Centro de Alto Rendimento] que vamos fazer em Oeiras." 

Bairrista puro
"Nunca poderei esquecer as minhas origens. Sou bairrista puro. Foi ali [Bairro das Furnas] que fui criado, que brinquei, que estudei, que fiz grandes amigos. Até à morte do meu pai ia muitas vezes ao Bairro, onde está a minha génese. As pessoas eram muito unidas, muito chegadas…"

A família
"Conheci a minha mulher a fazer uma cobrança pelo telefone. Casámos a 23 de Agosto de 1974. Estou há muitos anos com a mesma mulher e vai acabar assim. Não me via hoje a viver sem a minha mulher. Desta 'brincadeira' toda nasceram dois filhos e cinco netos."


O Homem e o Presidente

"O Presidente do Benfica passou o final da manhã de hoje na SIC, como convidado especial na estreia do 'Programa da Cristina'. Há fenómenos comunicacionais com tanta força mediática que, a esta hora, não deve haver nenhum português que não saiba que Luís Filipe Vieira esteve à conversa com Cristina Ferreira entre o meio-dia e a uma da tarde.
A entrevista, num registo (quase) sempre descontraído, não impediu que o Presidente abordasse algumas questões da actualidade do Benfica. Esses foram os momentos em que esteve no estúdio Luís Filipe Vieira/Presidente – que recordou a obra realizada nos últimos 15 anos, que falou da importância do Seixal, de títulos, de treinadores, do futuro.
Mas houve também tempo – até mais – para que a apresentadora e os portugueses conhecessem um pouco melhor Luís Filipe Vieira/Homem. Foram momentos com uma carga emocional diferente, que permitiram perceber, uma vez mais, a dimensão humana do homem que lidera os destinos do Benfica. Um programa marcante que contou com o Presidente do Benfica como convidado de honra e que teve, igualmente, outro momento especial quando o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, entrou em direto ao telefone para desejar felicidades a Cristina Ferreira."

Três casos relacionados com o videoárbitro

"O protocolo do videoárbitro continua a suscitar muitas dúvidas.

Em cada jornada que passa novas situações acontecem que se relacionam com o videoárbitro (VAR) e que deixam o público em geral e os treinadores e jogadores em particular confusos e com dúvidas sobre as questões do protocolo e da sua aplicação. No artigo desta segunda-feira, e com base em lances ocorridos recentemente, venho esclarecer exactamente três questões que têm a ver com o protocolo. Baseio-me no que está escrito originalmente em inglês, pois a tradução pode dar sempre azo a dificuldades na interpretação do verdadeiro espírito do legislador.

A primeira questão prende-se com o seguinte: sempre que uma equipa obtém um golo o VAR revê a fase de ataque que levou directamente à decisão/incidente e isso pode incluir a forma como a equipa ganhou a posse de bola.
A fase de ataque consiste numa jogada que vá rapidamente na direcção da baliza adversária, mas se essa equipa recuar em direcção ao seu meio campo ou a equipa adversária, pelo meio, joga a bola, isto é, tem a posse de bola, passa a ser uma nova jogada eliminando-se as eventuais infracções técnicas cometidas na anterior fase de ataque.
Ora, a questão aqui principal prende-se com o facto de um defesa, ao interceptar a bola aliviando a mesma, não invalidar a fase de ataque. O conceito é: esse defesa tem de tocar a bola e sair com ela a jogar, ou então esse defesa intercepta a bola e um outro seu companheiro toca e sai a jogar. Esse sim é o conceito de posse de bola. Por isso, o facto de haver um cruzamento para a área, um defesa "aliviar" a bola e esta voltar a ser jogada pela mesma equipa atacante significa que continua a fazer parte da mesma jogada e que esse "corte" não anula o que está para trás e que, portanto, em caso de revisão por parte do VAR, este tem de recuar e incluir alguma irregularidade que tenha acontecido antes desse alívio ou intercepção por parte do defesa.
Para melhor perceberem o que estou a dizer basta verificar o que está escrito no texto original do protocolo sobre o conceito de posse de bola: "(...) The following are not considered a clear gain of possession: a save, deflection or rebound that does not result in control of the ball, a clearance that does not reach or is not controlled by a team mate (...)."

O segundo caso tem a ver com uma questão de natureza disciplinar: o VAR em matéria de cartões só pode intervir para efeitos de uma expulsão, isto é, quando acha que ficou um cartão vermelho por mostrar ou se um cartão vermelho que foi mostrado em certas circunstâncias foi incorrecto. Nunca pode intervir para uma situação de cartão amarelo mesmo que seja o segundo. Contudo há uma incidência específica em que, de forma indirecta, pode levar à amostragem de um amarelo. Passo a explicar.
Um jogador comete uma infracção em que o árbitro, por exemplo, não assinala, ou mesmo assinalando não mostra, nenhum cartão. O VAR, por achar que essa infracção poderia ser passível de expulsão vai rever o lance e se, na sua opinião, chega à conclusão que era vermelho de forma clara e óbvia, chama a atenção do árbitro para o sucedido. O árbitro vai ao monitor, revê as imagens que lhe são facultadas, mas não concorda com o vermelho. Acha que são, claramente, para amarelo. Então, neste caso específico, vai ter com o jogador e mostra-lhe o cartão amarelo.
Este lance ocorreu, por exemplo, em pleno Mundial, no jogo entre Portugal e o Irão, no tal lance que Carlos Queirós denominou do "elbow" (cotovelo) do Cristiano Ronaldo. O VAR disse ao árbitro que era para vermelho, o árbitro foi rever o lance no monitor, não concordou com a indicação da expulsão, mas por ter achado que era uma acção negligente e de comportamento antidesportivo foi ter com o capitão português e mostrou cartão amarelo.
Portanto, em conclusão deste assunto, embora o protocolo só preveja a possibilidade de intervenção do VAR para efeitos de vermelhos directos, esta é a situação que, indirectamente, pode levar à amostragem de um amarelo desde que o árbitro, ao rever as imagens, considere incorrecta a expulsão mas entenda que é merecedora de advertência. E, nesta circunstância, mostra mesmo o respectivo cartão amarelo.

O terceiro e último caso prende-se com a ideia de que um jogo, após recomeçar, já não permite a intervenção do VAR. Ora, isso já não é totalmente assim, havendo uma excepção de natureza disciplinar. Assim sendo, se o jogo foi interrompido e recomeçado, o árbitro apenas pode efectuar uma revisão e a respectiva punição disciplinar, em caso de erro de identificação ou de uma potencial infracção para expulsão relacionada com conduta violenta, cuspir, morder ou gestos extremamente ofensivos, insultuosos e/ou abusivos."

Reconquista

"Assumo a ousadia de sugerir que, com a contratação de nova equipa técnica, o Benfica tenha uma só estrutura de comunicação

1. Hoje é dia de Reis. Tal como a origem dos Reis Magos escrevo do Oriente. Deslumbrante e vibrante. Exótico e caótico. Vendo de longe e ao longe a mudança de ano, a substituição de treinador no Benfica, as novas disputas nas televisões, decisões judiciais que ilibam e, logo, absolvem e o arranque deste período de Inverno para a contratação de jogadores. Já que a de treinadores é permanente! Ao longe e de longe tudo se relativiza. Não há a pressão do imediato. Não se salta de canal para canal como se este tempo de televisão fosse, como ontem, de canal único e não de múltiplos canais e diferentes plataformas de comunicação e de informação. De longe e ao longe, mesmo com apenas três horas de diferença horária, não estamos sujeitos à pressão da notícia ou do comentário, da última da hora ou do alerta proclamado. O que sabemos de longe ao longe é que este Benfica em mutação, diria que em transição tranquila, joga hoje na Luz frente ao Rio Ave e não pode perder pontos. Mais, este Benfica sabe que tem de terminar em grande a primeira volta da Liga e tem de fazer uma segunda volta extraordinária. E nas próximas jornadas quer o Benfica quer o Sporting de Braga - que também joga hoje e com o Boavista - jogam sempre antes do Futebol Clube do Porto e Sporting. Com a lembrança que no próximo fim-de-semana teremos a visita a Alvalade da equipa liderada, e bem, por Sérgio Conceição. Daí ser imperioso que o Benfica não perca pontos quer frente ao Rio Ave quer face ao Santa Clara. É que, apesar de tudo, e mesmo ao longe e de longe, a reconquista é uma palavra que tem de fazer todo o sentido nestes primeiros dias do mês primeiro deste novo Ano. E importa que a reconquista esteja presente nos balneários e nos relvados, nos corredores e nas bancadas do Seixal e da Luz. A estrela que acompanhou e guiou os Reis Magos, mais os seus emblemáticos presentes, todos os anos faz a mesma viagem. E nós benfiquistas, nesta unidade na diversidade que nos caracteriza e diferencia, temos de ter presente que a reconquista é o nosso objectivo. Que é possível. E que importa lutar! Suar! Agarrar!

2. Rui Vitória saiu do Benfica pela porta pequena. Entregou-se ao Benfica, com a sua equipa técnica, de alma e coração. Conquistou títulos, fez crescer jogadores e foi um permanente aliado da administração da SAD. Acreditou em finais do ano passado que teria uma nova oportunidade. No seu prisma cometeu um erro. Deveria ter assumido a ruptura. Quando não se é desejado deveremos ter a força interior para nos afastarmos. E essa força era, para mim, uma das essências da personalidade de Rui Vitória. Sabemos bem que não há uma segunda oportunidade para causar uma boa impressão. E também sabemos que no futebol o treinador, qualquer que ele seja, é o elo mais fraco. O relevante, aqui, é agradecer, reconhecido, a Rui Vitória pelas alegrias que nos proporcionou, os sorrisos que nos motivou, os abraços que nos impulsionou e as dores que a outros suscitou. Este agradecimento, extensivo a toda a equipa técnica, é reconhecimento pelo que foi feito, e muito foi feito.

3. Neste tempo de transição, e vendo de longe e ao longe, assumo a ousadia de sugerir que, com a contratação de nova equipa técnica, o Benfica, este concreto Benfica, tenha uma única estrutura de comunicação. O futebol é a essência do clube. E sendo-o,e perante os múltiplos desafios e as diferentes ameaças, o Benfica, este concreto Benfica, deve ser uma comunicação única. Forte e dura, ignorando certas disputas e ampliando determinados actos e factos. O Benfica, este concreto Benfica, tem de ter uma voz permanente. E a voz é som e presença. Diria que porta voz que amplifica e determina, motiva e suscita, provoca e informa. Este sinal também é relevante para a ambicionada reconquista. Não ter medo de mudar para além de mudança de equipa técnica é um acrescido sinal de uma revolução tranquila. E esta tranquilidade tem de se sentir. E não apenas pressentir. É um desafio. Dito e escrito de longe e ao longe. Com a consciência plena que só os homens - e as mulheres - calados é que não erram! E como benfiquista assumido - e hoje em dia sofrido - aqui deixo a minha modesta, mas sincera, opinião.

4. (...)

5. (...)"

Fernando Seara, in A Bola

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Vieira entre a solução e o problema

"Vieira terá de fazer regressar o Benfica à sua identidade. Se não o fizer, passará a ser, ele próprio, o principal problema do clube

A saída de Rui Vitória do Benfica era uma saída anunciada, desde aquela noite de insónia de Luís Filipe Vieira, que lhe deu tempo para pensar e mudar de opinião. No jantar da véspera, o treinador estava despedido e ao pequeno almoço do dia seguinte estava readmitido. O problema, como Vieira viria a constatar, é que nem mesmo o presidente do clube consegue mudar o destino quando ele próprio o traça. Vitória tornou-se, desde essa altura, um treinador a prazo, porque estava definitivamente fragilizado na sua autoridade e na sua capacidade de fazer convencimento das suas capacidades para pôr a equipa a jogar bom futebol, recuperando-lhe a saúde mental que manifestamente lhe faltava.
Portimão foi a gota que entornou, em definitivo, a paciência dos benfiquistas e do seu presidente e, sinceramente, até acho que acabou por ser um alívio para Rui Vitória, que sendo um homem com princípios e com sentido de dignidade humana, sofria com o prolongar de uma situação constrangedora.
Porém, perante o coro conformado pela inevitabilidade da medida tão drástica quanto previsível, há que colocar um grãozinho na engrenagem dos pensamentos feitos à medida. E a questão é esta: se Rui Vitória foi competente durante os primeiros dois anos para dar uma bi-campeonato ao Benfica, como pode ter sido incompetente nos dois anos que se seguiram, mantendo (no mínimo) os mesmos conhecimentos e juntando a esses conhecimentos mais e melhor experiência?
A resposta não está obviamente na qualidade técnica do treinador, estará, isso sim, na inabilidade com que tratou a gestão humana da equipa, que se ressentiu de muitas e variadas circunstâncias, a menor das quais não terá sido o desmanchar da feira de uma estrutura que, afinal, só era aparentemente sólida na fachada.
Vitória terá, assim, sido vítima da sua impreparação para se confrontar com este tempo peculiar do Benfica. Nunca imaginou que, atacada pelas forças dos generais do Norte, a sólida e impenetrável estrutura desabasse e o deixasse, a ele e à equipa, totalmente desprotegidos e indefesos.
Para se aguentar neste vendaval em que as ondas passavam por cima do barco, o Benfica teria precisado de um comandante capaz de agarrar sozinho no leme e decidir o rumo, levando, com el, uma tripulação crente e convicta. Rui Vitória não tem esse estilo. E mais um homem de se encarregar de uma tarefa do que de uma missão; mais um rigoroso executante técnico do que um líder capaz de navegar sem terra à vista.
Vieira procurará, agora, alguém com esse perfil de comando. Em tempos muito recentes tinha um eleito: Jorge Jesus. Neste momento, até por intuição, algo em que é verdadeiramente qualificado, percebe que corre um risco sério de ficar exposto na primeira linha de tiro de uma parte muito significativa de adeptos do clube.
Entretanto, aqueles que mais e melhor pensam a realidade do Benfica, já perceberam que o problema mais importante que o Benfica tem para resolver não é o treinador, mas o próprio Benfica. Prioritário é mudar de rumo de política e de gestão, regressar a uma ideia de competência e de honradez e, sobretudo, não se sentir atraído por repetir o estilo e a prática do FC Porto. Lisboa não é o Porto, o Benfica não é o FC Porto, Vieira está muito longe de ser Pinto da Costa, a cultura desportiva dos dois clubes é muito diferente, e expressão social dos adeptos é outra, quase nada do que resultado no Dragão alguma vez resultará na Luz. Daí que Vieira tenha de fazer regressar o Benfica à sua identidade e ser capaz de a fortalecer. Se não o fizer, então, Vieira passará a ser, ele próprio, o principal problema do Benfica."

Vítor Serpa, in A Bola

Inevitável!

"Pode Vitória não ter perdido muitas batalhas mas estava na cara que perderia a guerra. Pelo que fez e como fez e pelo que disse e como disse

Estava mesmo a ver-se que a corda partiria ao primeiro desaire: Vitória durou apenas mais um mês como treinador do Benfica desde que esteve quase despedido. Era tão frágil a sua condição de treinador na Luz que à primeira derrota acabou, mais ou menos como se esperava, por cair de vez.
Há um mês, mais dia mesmo dia, quando Rui Vitória esteve despedido e deixou de o estar em apenas 12 horas, talvez só mesmo o presidente do Benfica acreditasse numa nova luz ao fundo do túnel que pudesse, súbita e surpreendentemente, renovar a relação de Vitória com a equipa, a relação da equipa com Rui Vitória e, sobretudo, a relação de Vitória e da equipa com os adeptos.
O que o presidente do Benfica devia ter percebido e, pelos vistos, não conseguiu na altura perceber é que ao ter mantido Rui Vitória depois de quase o despedir ainda o deixou num cenário pior. E, com isso, apenas adiou o inevitável. No fundo, talvez o próprio Vieira o soubesse e talvez tenha querido apenas ganhar tempo. Mas era, como foi, inevitável este fim.
Quase tão difícil como entender a decisão de Vieira de manter Vitória foi, porém, a decisão de Vitória de se ter deixado manter por Vieira.
No que terá, há um mês, acreditado Rui Vitória que já não fosse capaz de acreditar agora, a crer na verdade, como creio, que foi o próprio Vitória, desta vez, a pôr o lugar à disposição?
Acreditou no inacreditável?
Acreditou que ter apenas o presidente do seu lado seria suficiente para voltar a cair em graça?
Sim, admito que será mais fácil criticar agora a decisão que Vieira tomou há um mês.
Mas a verdade é que mesmo a ganhar (e o Benfica do repescado Rui Vitória só perdeu um jogo, este de quarta-feira, em Portimão) foi sempre mais ou menos evidente que a decisão de Vieira não teria grande futuro.
Há muito que a questão no Benfica deixou de ser ganhar ou perder; a questão, no Benfica, foi sempre o modo como a equipa foi ganhando, e o modo como, mais tarde ou mais cedo, a equipa voltaria a perder. Como perdeu.
O problema no futebol, como sempre, não é ser derrotado; o problema é como se é derrotado.
Ganhar e perder faz parte.
Mas o Benfica ganha muitas vezes mal e perde quase sempre bem. E é isso que os adeptos já não suportam.
E não suportam que o treinador ache tudo isto normal como se o futebol fosse isso mesmo, apenas um jogo de futebol, onde tudo acontece porque acontece, porque é assim mesmo, porque se foi feliz ou infeliz, se teve sorte ou azar, porque querer não é sempre poder ou poder nem sempre é querer.
Pode Rui Vitória gostar do estilo e desse discurso e podem muitos dos seus defensores a apreciar bastante o estilo e o discurso de Rui Vitória.
Mas a realidade é outra: ganhar como o Benfica ganhou em Montalegre e perder como o Benfica voltou a perder, desta vez em Portimão, torna-se facilmente inaceitável para quem, como os adeptos, exige a uma equipa como a do Benfica que dê sempre tudo em todos os jogos. E para quem, como os adeptos, esperam que o treinador lhes explique o que se vê e lhes mostre que podem confiar na mudança. Nada que Rui Vitória já conseguisse fazer.

É difícil compreender como pode o Benfica jogar tão pouco depois de dar 6 ao Braga. Mais: já não tinha sido muito fácil de compreender, aliás, como pôde o Benfica jogar tão pouco como jogou na Vila das Aves, para a Taça da Liga, meia dúzia de dias após a goleada aos bracarenses. E quase tão difícil como entender o jogo da equipa foi sempre perceber o modo como o treinador o explicou.
Por mais estranho que possa parecer, aliás, talvez o melhor exemplo da frágil situação de Rui Vitória tenha sido o continuado discurso cinzento do treinador mesmo após ver a equipa esmagar o Braga, com uma exibição que sem ter sido deslumbrante foi, ainda assim, do melhorzinho que se viu o Benfica fazer esta temporada. O que deveria esperar-se?
Que o treinador viesse dizer: «É este o Benfica que eu quero; é este o Benfica que o presidente quer e é este o Benfica que os adeptos querem. É este o Benfica que temos de ser e é este o Benfica que vamos ser!»
Em vez disso, o discurso de Rui Vitória voltou a ser, pura e simplesmente, mais do mesmo: inócuo, de muita fala e pouco diz e, sobretudo, sem chama ou entusiasmo, incapaz de seduzir ou inspirar, como se a explicação de um jogo de futebol pudesse, repito, ser reduzida à simples condição de no futebol, como diria La Palisse, se ganha, se perde ou empata, porque o futebol é mesmo assim!...

No Benfica, Rui Vitória ganhou nos dois primeiros anos muito mais do que muitos (como eu) esperariam; e ganhou por muitas razões, entre as quais, por ter, naturalmente, sabido ganhar. Sem dúvida. Esses êxitos já ninguém lhos pode tirar.
Mas concordará Rui Vitória que ganhou também pode ter sido surpreendentemente feliz mesmo quando pareceu mais perto do insucesso; ganhou porque outros inesperadamente se deixaram perder; ganhou porque os astros se alinharam me muitos jogos, e ganhou, em última análise, porque nalguns momentos até Nossa Senhora de Fátima o protegeu.
Vitória soube ganhar, mas concordará que, nesses dois primeiros anos, a sorte também raramente lhe foi madrasta.
E mesmo num jogo de futebol onde muito do que acontece tem explicação, a sorte não nos virar costas pode fazer muita diferença.
Nestes últimos dois anos (que acaba por não cumprir), o percurso de Rui Vitória foi mais de acordo, afinal, com o que muitos (como eu) esperavam: quase sempre a descer. E chega o percurso de Vitória ao fim pelo fraco jogo da equipa e pelo fraco discurso dele como primeiro responsável.
Mesmo perdendo apenas algumas batalhas, Rui Vitória acaba, como já há muito se esperava, por perder assim a guerra. Perde pelo que fez e pelo que disse. Perde pelo modo como fez e que fez e pelo modo como disse o que disse.
Não sai por ter deixado de ganhar jogos, porque foi ganhando sempre mais jogos do que perdeu.
Sai porque falhou o penta, sai porque não ganhou mais títulos, sai pelo que a equipa foi jogando (mal) ou deixou de jogar (bem), sai pelo que a equipa foi sendo capaz de fazer ou de não fazer nos chamados jogos grandes, sai pelo folhetim Luisão, sai pelos reforços que afinal pouco reforçaram, sai, também, pela pobre e lamentável imagem que a equipa foi deixando, nestes últimos dois anos, na Europa, e sai, pelos vistos, porque já ninguém dentro do próprio Benfica (incluindo talvez mesmo os jogadores) é capaz de acreditar no treinador e de aceitar o que se vê: um treinador incapaz de pôr a equipa a jogar bom futebol.

Não imagino quem será, em definitivo, o sucessor de Rui Vitória. Mas acho piada a quem sugere que a larga maioria dos benfiquistas não quer que o sucessor de Rui Vitória seja Jorge Jesus. Há mesmo quem fale de 90 por centro contra o regresso de Jesus e apenas 10 a favor. Acho piada.
Terá sido perguntado a todos os benfiquistas se querem Jesus e não dei por isso? Terá sido feita alguma verdadeira sondagem e estive distraído?
Devo evidentemente admitir que muitos benfiquistas possam não querer Jorge Jesus de volta ao Benfica. Mas parece-me inaceitável que alguns ilustres comentadores falem nas televisões em nome dos adeptos do Benfica só porque alguns desses ilustres comentadores televisivos defendem que Jesus não deve voltar ao Benfica.
Não estou assim tão certo que a maioria dos benfiquistas não queiram Jesus e apenas o digo pelo que ouço de alguns adeptos do Benfica, do mesmo modo que ouço alguns adeptos do Benfica afirmarem não desejar o regresso de Jesus.
Daí concluir-se que um ou outro universo representa a maioria vai, naturalmente, uma enorme distância. Ou não vai?
Não sei, repito, se vai ser Jesus ou não o sucessor de Vitória. Defendo apenas a minha opinião, a de que esta equipa do Benfica precisa de um treinador como Jesus.
 Uma única certeza, considerando o que nos habituámos a ver: a de que Filipe Vieira decidirá pela sua própria cabeça. Com ou sem luz. Queira ele ou não Jesus.
(...)"

João Bonzinho, in A Bola

Gotham City !!!

"Vou partilhar uma história de ficção. Num País que não existe, um profissional de uma cidade contacta um colega de outra cidade. Invoca uma necessidade urgente de conversarem. Presencialmente. E qual era o tema? Uma investigação que decorria nas autoridades da sua Cidade, movida por afinidades clubisticas assumidas por fanáticos. O fanatismo e ódio a membros de outros clubes e Cidades - desse País de fantasia - eram os valores sociais reinantes, segundo disse. E por aí podia ganhar-se muito. O ambiente era o de uma espécie de Gotham City, para evitar extensas descrições. Em síntese, eram frequentes as actividades criminosas impunes, mesmo os processos que chegavam a julgamento acabavam com a absolvição de arguidos fortemente indiciados. Ultimamente, já nem abriam inquéritos sobre notícias de crime divulgadas publicamente.
Segundo o profissional dessa animada Cidade, foi delineado um plano de longo prazo que passava por esgotar os recursos públicos da acção criminal, através de frequentes denúncias anónimas contra outros clubes da outra Cidade. A par disso, tinha sido organizada uma milícia que recorria à violência constante para criar um ambiente de intimidação junto da comunidade desportiva e não só. A execução deste plano seria ocultada com a imputação falsa destas práticas aos outros clubes vítimas das mesmas.
Durante a reunião, o profissional contactado ouviu uma história na qual os factos não eram muito precisos mas indiciavam que um dos Clubes da sua cidade manteria contactos com empresários e dirigentes de outros clubes, para estes serem muito competitivos em determinados jogos. Era esta a tese de mais um caso. Nada de muito original, portanto. Mas o sumo da abordagem era a possibilidade de afectar investigações que poderiam ser perturbadoras, a troco de dinheiro! Com pilim tudo mudaria. Até o ódio! Seriam pagos serviços em ambiente internacional. Esses fluxos seriam depois distribuídos por canais de confiança.
A questão óbvia foi colocada: como é que isso sobrevive à jurisdição soberana? A resposta foi tranquila, existiam laços familiares que fortaleciam a rede. Paralelamente, existia ainda um meio de comunicação disposto a pagar uma choruda prestação por um exclusivo. Para que tudo corresse bem ainda havia uma proposta de parceria para partilha de oportunidades.
O profissional contactado ouviu e transmitiu a quem de direito. Nunca mais se disponibilizou para conversas deste tipo e chegou a interrogar-se se teria sido ameaçado. Mesmo no plano da ficção, ficou a pensar se isto seria possível... Encolheu os ombros e desejou que fosse tudo uma mistificação. Só num País muito corrupto seria possível uma tal degradação de valores institucionais.
A esperança é que nesse País, que não existe, a opinião pública resistisse aos estímulos básicos do crime organizado, apesar de réplicas desta história aparecerem noticiadas de quando em quando. Por exemplo, quando as actividades criminosas contínuas eram mais evidenciadas (fraudes nas arbitragens de jogos, agressões a adeptos de outros clubes no espaço público) logo surgia um título num jornal a insinuar que o criminoso seria a vitima. Caramba, que história!
Isto nunca aconteceria entre um povo de brandos costumes. A ficção e a realidade não coincidiriam numa miséria tão decadente. Só que quem não gosta de Gotham City tem de estar preparado para tudo."

Bis !!!

Benfiquismo (MLVII)

Mais um...

Vermelhão: Ambição...

Benfica 4 - 2 Rio Ave


Remontada, com muitos golos e muita alegria...!!! Foram dois os treinos dados por Bruno Lage, se alguém estaria à espera de uma alteração radical, não percebe muito como isto funciona... Se alguém quiser usar o exemplo do Mourinho no Manchester United, desengana-se, pois lá por Inglaterra o problema era claramente 'pessoal' entre o treinador e a 'estrela' da companhia, algo que não aconteceu no Benfica!!! No Benfica, os 'problemas' são mais complicados de debelar... E não são dois treinos que iriam mudar tudo...

Mas mudaram alguma coisa, principalmente a ambição. Ao apostar num 442, o Bruno Lage deu imediatamente uma indicação clara: jogar para a frente... sem medo! Sempre defendi que o Benfica tem que jogar em 442; deve existir um plano B, mais conservador, mas o plano A, tem que ter dois avançados na frente... O Bruno com tão pouco tempo de preparação, podia-se ter refugiado na 'continuidade' táctica, mas não... e nem no final, depois do 4-2, regressou' ao 433.
Notou-se hoje, a vontade de mudar os processos ofensivos. Houve menos bola longa sem sentido (houve algumas mudanças de flanco intencionais...). Houve mais saídas de bola 'controladas'. Houve mais jogadores em zonas de finalização. Houve jogo 'entre-linhas' no meio, com o Félix: para se aproveitar as alas, têm-se que criar potencial perigo no meio, senão fica fácil defender...!!!

Defensivamente, voltámos a cometer muitos erros. O principal 'problema' do 442 são os equilíbrios no meio campo, e neste momento a equipa não tem os mecanismos posicionais para fazer bem esse trabalho... E no início da 2.ª parte, antes do 3-2, abriram-se demasiados 'buracos' na zona central... Com o Fejsa a sair na pressão, e o Pizzi a não conseguir compensar... Mas os problemas são mais profundos: a equipa tem que apreender a defender novamente...
É verdade que o Rio Ave ao jogar com 2 avançados fortes fisicamente, colocou-nos problemas que 'raramente' temos no Tugão, mas temos que melhorar... Creio que a 'cassete' deste jogo, será muito útil na revisão deste jogo, para fazer entender aos jogadores quais os movimentos que têm que fazer, a defender... A 'linha' defensiva praticamente não existe: o 'famoso' jogador 'coberto, 'jogador' descoberto, que o Benfica era especialista deixou de funcionar!!!
A equipa entrou com a intenção de pressionar alto, retirar a bola ao Rio Ave, mas quando fomos obrigados a recuar as linhas, a nossa má defesa 'posicional' ficou exposta.
Haverá alguns a recordar os seis golos ao Braga, para dar a entender que esta 'fome' goleadora na Luz não é nova. Mas eu realço a ausência do Jonas!!! Nas últimas épocas, sempre que o Jonas não jogou, a nossa média de golos baixou. Esta época, sem o Jonas, só em Salónica marcámos muitos golos... A dinâmica ofensiva que a equipa demonstrou foi novidade... E com este esquema, o talento do Jonas ainda terá mais espaço...!!!

Se o nosso 3-2, foi um pouco contra a corrente do jogo, naquele momento, o 0-2 no início também tinha sido contra a corrente, pois foi o Benfica que entrou melhor no jogo...

O MVP para o Seferovic foi totalmente justo (esteve nos 4 golos!!!)... mas o Félix também fez um grande jogo, fazendo de Jonas, no jogo entre-linhas e marcando!!! Eu sei que não serei consensual, mas o Pizzi mesmo falhando algumas marcações defensivas, fez um dos melhores jogos da época: foi dele a recuperação de bola, e ainda fez a assistência para o 4.º!!!
Excelente entrada do Zivkovic...
Em sentido contrário, o único erro que o Bruno Lage cometeu foi não substituir o Salvio mais cedo!!! Fez um jogo horrível... Vem de uma longa paragem, em Portimão, até tinha entrado razoavelmente bem, mas... A questão do 442, expõe em demasia o Fejsa, que mesmo melhorando nos últimos jogos, está longe do Fejsa de outras épocas... Noutros jogos, provavelmente será necessário, outra 'companhia': como o Gedson... ou o Gabriel com boa atitude!!!
Tem feito boas exibições, mas hoje também esteve mal: o Odysseas podia e devia ter feito mais nos dois golos... a bola devia ter sido interceptada, nas duas ocasiões, principalmente no 1.º... pois no 2.º a bola faz uma trajectória 'complicada'!!!

Impossível não falar do Godinho: não são os erros que me irritam, todos erram... Agora, a intenção do Godinho durante os 90 minutos foi clara: três expulsões perdoadas, Nadjack e Bruno Moreira. além do Matheus Reis... Mas onde a 'premeditação' foi mais clara, foi na marcação dos locais das faltas ou dos lançamentos laterais: o Rio Ave chegou a marcar lançamentos 10 metros à frente do local correcto; ao Benfica chegou a marcar faltas 2 metros 'atrás' do local onde a falta foi efectivamente cometida!!!
Ainda não vi na televisão, mas não preciso, porque aconteceu à minha frente: no lance do 1.º golo do Rio Ave, no inicio da jogada, existe uma falta clara sobre o André Almeida... é empurrado, pelas costas, quando tenta cortar uma bola de cabeça... mais uma vez o VAR 'desligou-se'!!!
Sempre apreciei o Bruno Lage, ainda antes de ir para as Arábias, quando estava nos Juvenis. Um dos problemas desta mudança de treinador foi o momento do calendário. Estamos numa sequência extremamente complicada, com pouco tempo para treinar... e com jogos fora de casa, de elevado grau de dificuldade. Pessoalmente, acho que o Bruno deveria ser o treinador, pelo menos até ao final da época... Mas isso tem que ser assumido, deixar a 'moer' nos media um autêntico 'rodízio' de putativos treinadores, é extremamente negativo...

Liderança...

Benfica 4 - 0 Eléctrico

Mais uma boa vitória, com mais um festival de oportunidades perdidas, em mais um jogo com uma arbitragem ridícula...
Agora temos a Taça da Liga...

Mais uma goleada...

Sintrense 0 - 15 Benfica


Estamos quase a chegar aos 200 golos!!!

Vitória (e derrota)

"No futebol, há máxima que diz que os deuses estão sempre ao lado de quem tem o melhor treinador - e quando Rui Vitória começou a parecer pior treinador do que é deixaram de estar ao lado do Benfica (e, em Portimão, foi claro como a água e a mágoa). Por isso lhe aconteceu o que lhe aconteceu.
José Mourinho afirmou-o, uma vez:
- Sou treinador de futebol, não sou o Harry Potter. O Harry Potter faz magia. No mundo real, a magia não existe, a magia é ficção - e o futebol é realidade.
Sim, o futebol é realidade - e é, sobretudo, a realidade do resultado. E é realidade porque não se pode ganhar através de varinhas mágicas ou pós de perlimpimpim - e só se ganha fazendo o que é preciso fazer-se para não se perder o que se está obrigado a ganhar (ou a continuar a ganhar) - e sim: Rui Vitória deixou de conseguir fazê-lo. Por isso lhe aconteceu o que lhe aconteceu.
É, também é realidade: no futebol mais importante do que explanar-se uma boa ideia de jogo é uma equipa mostra-se em boa emoção. Depois de epifania que Luís Filipe Vieira teve durante o sono (descontando-se-lhe o fogacho do SC Braga) o que realmente se viu foi uma equipa sem boa ideia de jogo e sem melhor emoção - firme no seu carácter, apaixonada na sua vontade. Foi uma equipa a ceder ao disparate e ao desleixo, angustiada e angustiante - mesmo que Rui Vitória desatasse a exclamar que não (em vez de lhe mudar o rumo). Por isso lhe aconteceu o que lhe aconteceu.
Se na guerra o pessimismo pode ser uma traição - no futebol é sempre uma perdição. Com ele na cabeça dos adeptos (e nos pés de quem está a jogar mal e a competir ainda pior...) a cada minuto que passava o Benfica era menos Benfica - e Rui Vitória também. Por isso lhe aconteceu o que lhe aconteceu. E aconteceu-lhe o que lhe aconteceu por outras razões, por o futebol ser mesmo assim: ser mais fácil despedir o treinador do que o presidente (ou os jogadores contratados em vão e os que partem ou incendeiam o balneário) - escondidos ou não...).

António Simões, in A Bola

Futebol não é para românticos

"Vieira e Vitória terão, há um mês, acreditando em algo que todos sabiam impossível. E só adiaram um divórcio que se percebia ser inevitável

Rui Vitória não resistiu à primeira derrota depois de voto de confiança que Vieira lhe dera há pouco mais de um mês. De nada lhe valeram as sete vitórias que se seguiram - a que juntou o empate na Vila das Aves que garantiu presença na final four da Taça da Liga. Ao primeiro desaire o treinador caiu mesmo. O que mostra, por si só, quão frouxa era a luz vista pelo presidente naquele noite de insónia no Seixal. Sejamos claros: a saída de Rui Vitória era inevitável. O que Vieira fez há um mês foi apenas adiá-la, embora ninguém tenha ainda percebido bem porquê. Era - depois daquele desastre em Munique e da crise que o antecedeu - evidente que nem Vitória tinha condições para continuar a ser o treinador do Benfica nem o presidente tinha condições para segurá-lo, por muito que quisesse. Foi pena que nem um nem outro tenham percebido que chegara, ali, a hora de se despedirem. Acima de tudo porque, por tudo o que ganhou em três anos e meio na Luz, Vitória merecia uma saída bem mais graciosa. Culpados? Os dois, que terão acreditado em algo que todos os outros percebiam ser impossível. Ou a prova de que o futebol não se coaduna com romantismos.

Por falar em romance. Haverá, porventura, apenas uma falha que Vitória pode apontar a Vieira nesta relação de três anos e meio: a forma como nunca o conseguiu proteger da sombra de Jorge Jesus, fragilizando mais ainda (junto dos adeptos e, até, no balneário) a posição do treinador que lhe dera o tetra. Que fique, pelo menos, a lição para o futuro: seja quem for o treinador que escolha para o futuro, imediato ou mais longínquo (a não ser que seja José Mourinho...), tem Vieira de enterrar de vez esta história. Costuma o povo dizer que não há amor como o primeiro. Talvez seja verdade. Mas quando se está noutro casamento, é contraproducente andar sempre a falar de quão bom eram esses tempos ou, pior ainda, ser incapaz de descartar um possível regresso a outros braços. Pode até pensar-se. Dizê-lo à boca cheia é mais chato. Mais vale negar, mesmo que seja mentira. Que, ao contrário do romantismo, é coisa com que o futebol nem se dá mal.
(...)"

Ricardo Quaresma, in A Bola

Alteram-se os prémios

"A 27.12.2018 foi publicada a Portaria n.º 332-A/2018 que altera a Portaria que fica os resultados desportivos a considerar, o montante e os termos da atribuição de prémios em reconhecimento do valor e mérito de êxitos desportivos.
De acordo com o preâmbulo da Portaria: «A presente alteração vem suprir as lacunas identificadas, procurando, desde logo, melhorar globalmente os montantes dos prémios a atribuir por resultados obtidos em Jogos Olímpicos, Jogos Paralímpicos e Campeonatos do Mundo e da Europa, estimulando ainda as representações multidesportivas nacionais (...). Por outro lado, garanta-se a equiparação dos prémios entre os universos olímpico e paralímpico, introduz-se ainda, para efeitos de reconhecimento do respectivo mérito, a previsão de atribuição de prémios a resultados obtidos nos Jogos Europeus, organizados pelos Comités Olímpicos Europeus. Pretende-se assim dar um novo estímulo dos atletas de alto rendimento para a obtenção de resultados de mérito, aos seus treinadores e equipas técnicas, aos seus clubes e aos árbitros, juízes, jurados e coordenadores de equipas de arbitragem que atinjam patamares de excelência no desempenho das suas funções no contexto desportivo internacional. As medidas de apoio agora introduzidas têm por base a relevância para o País dos resultados obtidos nos principais eventos desportivos internacionais, tendo também em consideração critérios de qualidade nas classificações que vieram a ser obtidas».
As disposições transitórias determinam que o regime actual aplica-se aos resultados desportivos a partir de 01.01.2017 e também aos prémios a árbitros, juízes, jurados ou coordenadores de equipas de arbitragem já solicitados."

Marta Vieira da Cruz, in A Bola