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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Mestre António


"A NARRATIVA DO HOMEM QUE, DURANTE MAIS DE 17 ANOS, CUIDOU DAS INSTALAÇÕES DESPORTIVAS E DAS EQUIPAS DO BENFICA COM DESVELO

A história que agora se apresenta teria ficado perdida no tempo, não fosse uma oportuna entrevista que a revista Stadium fez a esta figura popular do Clube em junho de 1934.
António das Equipes, como era chamado, zelava há 17 anos pela manutenção do campo do Benfica. Certo dia, encontrando-se nos seus preparos matinais para mais uma ronda pelo Campo das Amoreiras, deparou- -se com os repórteres da Stadium. Ficou admirado com a sua presença, pois ainda era bastante cedo e, se estivesse bem lembrado, naquele dia não iria haver nenhum acontecimento desportivo digno de nota. Quando António descobriu que, naquela manhã, o foco das atenções estava centrado na sua figura, nem queria acreditar. Riu-se e começou calmamente a contar a sua história enquanto se barbeava numa das cabinas do Estádio.
Nascido em Torres Novas, António era já homem feito quando ficou sem trabalho, e foi nessa altura que o seu destino se cruzou com o do Clube. O seu cunhado mandou-o chamar a Lisboa, prometendo-lhe emprego. Disse-lhe que “ia para contínuo do Benfica, até ver… Enquanto não aparecesse coisa melhor…”. De imediato aceitou a generosa oferta, tomando a seu cargo a conservação do campo e dos equipamentos.
Com o tempo, Mestre António foi aprendendo a conhecer as botas, os calções, as caneleiras e as meias de todos os jogadores. Estava tão calejado nessa matéria que, quando lhe aparecia um jogador novo, só de olhar para a sua constituição física sabia o tamanho que vestia. Foi o que aconteceu com um rapazote que foi jogar à experiência ao Campo das Amoreiras. António logo lhe emprestou camisola, calções, meias e botas. Três semanas volvidas, o moço voltou a aparecer no Clube e, para seu espanto, recebeu das mãos daquele homem de farto bigode o mesmíssimo equipamento que usara no primeiro treino!
Orgulhoso dos seus feitos e entusiasmado com a sua narrativa, pegou em seguida nos jornalistas, levando-os a percorrer as prateleiras onde repousavam as roupas das diversas equipas: “Aqui está a roupa do primeiro grupo de futebol; aqui e ali a da Reserva e segundo, e acolá a do terceiro.” Mostrou também as botas de Vítor Silva e de Amaro, as prateleiras do andebol, do râguebi e do atletismo. Ao longo desses 17 anos, conheceu e conviveu com grandes figuras do Benfica: Cosme Damião, Cândido de Oliveira, Alberto Augusto, Artur Augusto, Francisco Vieira, Jesus Crespo, entre muitos outros.
Por fim, Mestre António despediu-se dos jornalistas afirmando o seu carinho pelo Clube: “A ele tenho dado o meu trabalho, com alegria, sinceridade, sem interesses secundários. A vontade é a mesma e o interesse é só um: servir bem o Sport Lisboa e Benfica.”
Conheça mais sobre outras figuras associadas a instalações do Benfica na área 17 – Chão Sagrado, do Museu Benfica – Cosme Damião."

Ricardo Ferreira, in O Benfica

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