"A NARRATIVA DO HOMEM
QUE, DURANTE MAIS
DE 17 ANOS, CUIDOU DAS
INSTALAÇÕES DESPORTIVAS E DAS EQUIPAS DO
BENFICA COM DESVELO
A história que agora se
apresenta teria ficado
perdida no tempo, não
fosse uma oportuna entrevista que a revista Stadium fez
a esta figura popular do Clube em
junho de 1934.
António das Equipes, como
era chamado, zelava há 17 anos
pela manutenção do campo do
Benfica. Certo dia, encontrando-se nos seus preparos matinais para mais uma ronda pelo
Campo das Amoreiras, deparou-
-se com os repórteres da Stadium. Ficou admirado com a sua
presença, pois ainda era bastante cedo e, se estivesse bem lembrado, naquele dia não iria
haver nenhum acontecimento
desportivo digno de nota. Quando António descobriu que,
naquela manhã, o foco das
atenções estava centrado na
sua figura, nem queria acreditar. Riu-se e começou calmamente a contar a sua história
enquanto se barbeava numa das
cabinas do Estádio.
Nascido em Torres Novas,
António era já homem feito
quando ficou sem trabalho, e foi
nessa altura que o seu destino se
cruzou com o do Clube. O seu
cunhado mandou-o chamar a
Lisboa, prometendo-lhe emprego. Disse-lhe que “ia para contínuo do Benfica, até ver… Enquanto não aparecesse coisa
melhor…”. De imediato aceitou a
generosa oferta, tomando a seu
cargo a conservação do campo e
dos equipamentos.
Com o tempo, Mestre António
foi aprendendo a conhecer as
botas, os calções, as caneleiras e
as meias de todos os jogadores.
Estava tão calejado nessa matéria que, quando lhe aparecia um
jogador novo, só de olhar para a
sua constituição física sabia o
tamanho que vestia. Foi o que
aconteceu com um rapazote que
foi jogar à experiência ao Campo
das Amoreiras. António logo lhe
emprestou camisola, calções,
meias e botas. Três semanas volvidas, o moço voltou a aparecer
no Clube e, para seu espanto,
recebeu das mãos daquele
homem de farto bigode o mesmíssimo equipamento que usara
no primeiro treino!
Orgulhoso dos seus feitos e
entusiasmado com a sua narrativa, pegou em seguida nos jornalistas, levando-os a percorrer as
prateleiras onde repousavam as
roupas das diversas equipas:
“Aqui está a roupa do primeiro
grupo de futebol; aqui e ali a da
Reserva e segundo, e acolá a do
terceiro.” Mostrou também as
botas de Vítor Silva e de Amaro,
as prateleiras do andebol, do
râguebi e do atletismo. Ao longo
desses 17 anos, conheceu e conviveu com grandes figuras do Benfica: Cosme Damião, Cândido de
Oliveira, Alberto Augusto, Artur
Augusto, Francisco Vieira, Jesus
Crespo, entre muitos outros.
Por fim, Mestre António despediu-se dos jornalistas afirmando o seu carinho pelo Clube:
“A ele tenho dado o meu trabalho, com alegria, sinceridade,
sem interesses secundários.
A vontade é a mesma e o interesse é só um: servir bem o Sport
Lisboa e Benfica.”
Conheça mais sobre outras
figuras associadas a instalações
do Benfica na área 17 – Chão
Sagrado, do Museu Benfica –
Cosme Damião."
Ricardo Ferreira, in O Benfica

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