"A vida não é tanto construir situações, é mais agarrar o que se apresenta à nossa frente. Não é tanto erguer algo, é mais estar pronto para entrar nas portas e janelas que se abrem perante nós. É menos ter o edifício perfeito projetado pela nossa cabeça, é mais aproveitar o que nos calha.
A Vuelta 2026 tinha um vencedor ainda antes de alguém começar a pedalar. É assim sempre que Tadej Pogačar está no pelotão. Os outros têm de ficar calados, silenciosos perante o ruído do predador, ofuscados pelo brilho do rei-sol.
Até que se abriu a nesga de chance. O esloveno caiu, abandonou. A camisola vermelha foi para o corpo de Enric Mas, que no primeiro dia em que subiu ao pódio para a vestir até se recusou a colocá-la, por respeito ao seu anterior dono.
Sim, Mas não tirou por mérito desportivo a liderança a Pogačar. Ela calhou-lhe em sorte. Mas havia muitas etapas, muita montanha, muita Vuelta pela frente.
Havia a oportunidade de uma vida. Não uma oportunidade esperada, pensada, planeada, mas algo que, como tantas coisas na vida, lhe surgiu. Aconteceu-lhe. O ponto é estar preparado para o que nos acontece, quando acontece, como acontece, com curvas e inesperados, não num ambiente controlado e pensado, não em laboratório.
Enric agarrou a oportunidade de uma carreira com todas as forças. Vimos o balear adaptar-se perfeitamente ao estatuto de número um da corrida, sorrir, falar com mensagens claras, brincar com o seu gosto por correr ao calor. Até atacar, algo tão raro e tantas vezes motivo de críticas.
A vitória de Mas na Vuelta 2026 é um pontapé na crise do ciclismo espanhol e na crise da Movistar, duas entidades que se confundem. O núcleo do ciclismo dispersou-se, o eixo França-Benelux-Itália-Espanha já não é dono e senhor, agora há toneladas de eslovenos, dinamarqueses, colombianos ou australianos prontos a ganhar corridas.
Outras equipas, outro tipo de dinheiro, chegou à modalidade. Há conjuntos com orçamentos colossais, uma corrida difícil de acompanhar para a velhinha equipa que já foi Reynolds, Banesto ou Caisse d'Epargne.
Subitamente, eis Enric. O criticado, quase gozado, líder, o futuro Alberto Contador que não chegou a ser Alberto Contador. Até que foi Alberto Contador, sucedendo a Alberto Contador e acabando a seca do país em grandes voltas.
Enric Mas ganhou com contundência, controlando, nunca estando, sequer, perto de perder a vermelha.
Que a vitória tenha chegado depois da queda de Tadej não a deixa com um asterisco. Não a diminui. Pelo contrário.
Quedas fazem parte do ciclismo. Corredores abandonam, lesionam-se, são 21 etapas com centenas e centenas de quilómetros. Curvas inesperadas, chuva, sol, calor, frio.
Mil e uma hipóteses do inesperado.
Mil e uma hipóteses de oportunidades. O mérito está em agarrá-las. Em aproveitar o que nos toca. Como Mas, que não se limitou a estar no sítio certo à hora certa. Competiu no sítio certo à hora certa, elevou o seu nível. Não se tratou de algo passivo, de se sentar no lugar de outro.
O mais inesperado vencedor das grandes corridas do ciclismo de 2026 é, também, um dos mais meritórios. Enric Mas já não será espaço de chacota."

Sem comentários:
Enviar um comentário
A opinião de um glorioso indefectível é sempre muito bem vinda.
Junte a sua voz à nossa. Pelo Benfica! Sempre!