Últimas indefectivações

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Silas, o colete salva-vidas do doutor Varandas

"Jorge Silas é o terceiro treinador do Sporting esta época. Incluo Leonel Pontes na contabilidade, se o doutor Frederico Varandas não se incomodar.
Em apenas três meses, a SAD leonina decidiu manter o treinador da época passada, para mais tarde dispensá-lo e dizer o óbvio: «Ele teve dificuldades em adaptar-se ao futebol português.»
O óbvio? Obviamente. Basta reler um Chuteiras Pretas escrito por mim em Novembro de 2018. O título mostrava ao que eu vinha: «Porquê Marcel Keizer?»
Era fácil, demasiado fácil, perceber que pouco ou nada recomendava o treinador holandês. O contexto leonino, a realidade muito própria do futebol português, o próprio perfil/ideias de Keizer. Correu mal porque tinha tudo para correr mal.
Depois de Keizer, Varandas e companhia tentaram reeditar o milagre-Lage com Leonel Pontes – como se o futebol fosse um fenómeno metafísico ou esotérico -, com os resultados que também já se conhecem. No fundo do túnel, e na sequência de semanas em sofrimento, lá estava o nome de Jorge Silas.
Se alguém descobrir coerência nestas opções, esteja à vontade para me ajudar.
O plantel do Sporting não é tão mau como se pinta, os jogadores estão muito acima da média portuguesa e Silas tem Bruno Fernandes, o melhor futebolista do campeonato. Acima de tudo, Silas tem as suas convicções e não parece homem para delas abdicar.
Eu diria que esta é a melhor notícia para o universo leonino nos últimos largos meses, a prescrição mais acertada do médico-presidente. Apesar de pouco ou nada ter a ver com as anteriores. Ou por causa disso mesmo.
Silas é um bom treinador e a tábua de salvação (colete salva-vidas?) da gestão de Frederico Varandas. No trabalho do treinador está a última oportunidade de o dirigente convencer a desmembrada massa crítica de adeptos leoninos. Basta olhar para a recente AG para perceber que o momento, uma vez mais, é de urgência humanitária para o leão.
Se Silas for capaz de passar a mensagem, o Sporting tem tudo para fazer uma época positiva até maio.
O que é uma época positiva no contexto actual? Não andar longe de FC Porto e Benfica (derrotá-los nos confrontos directos), jogar um futebol atraente, passar a fase de grupos da Liga Europa e chegar às finais das taças nacionais.
Jorge Silas foi a primeira boa escolha de Frederico Varandas para o lugar de treinador do Sporting. Merece ter sorte. 

PS1: procuro ser coerente em tudo o que penso, digo e escrevo. Se é verdade que sempre olhei com desconfiança para Marcel Keizer, não é menos certo que elogio Silas há muito tempo. Este Chuteiras Pretas do dia 15 de Março pode confirmá-lo.

PS2: há opções desportivas no Sporting difíceis de entender. Como haverá também nos rivais, naturalmente. Neste caso refiro-me ao desaproveitamento estúpido de um dos melhores médios a jogar em Portugal: Mattheus Oliveira. O filho de Bebeto formou-se no Flamengo, brilhou no Estoril-Praia e justificou a oferta de um contrato de cinco temporadas do Sporting. Jogou pouco com Jorge Jesus e rumou a Guimarães para elevar o seu nível de jogo (intensidade, reacção à perda) e confirmar os predicados técnicos que já se lhe conheciam (41 jogos/4 golos em época e meia). Mattheus tem qualidade mais do que suficiente para ser opção neste Sporting de Silas, uma equipa que privilegiará a posse de bola e a construção em apoio desde a linha mais recuada. As respostas estão, muitas vezes, nos sítios mais óbvios."

Racismo, 0 - Inglaterra, 6

"Desde já importa assumir que o título não é meu, mas traduz com total exatidão aquilo que penso sobre o que se passou em Sófia. O seu a seu dono, o título é do Daily Mail, um dos muitos jornais ingleses que expressaram a sua indignação perante os insultos a Tyrone Mings, Raheem Sterling ou Marcus Rashford, que obrigaram à interrupção, por duas vezes, do Bulgária-Inglaterra. E porquê estes três jogadores? Porque um bando de energúmenos entende que pode insultar alguém, apenas e só por causa da sua cor de pele.
O aviso já tinha sido lançado antes ainda da partida, mas foi desvalorizado por Krasimir Balakov. Dizia o seleccionador búlgaro: «Não acredito que tenhamos este grande problema como, por exemplo, tem a Inglaterra.» O médio que passou pelo Sporting e que era um virtuoso com os pés, não o foi com as palavras. E a comparação, para além de traiçoeira, foi infeliz. O racismo não tem cor ou nacionalidade, é um flagelo que cruza todos os continentes e que não pode ser ignorado. Foi isso que fez o capitão da selecção búlgara, que ao intervalo se abeirou da bancada para tentar pôr um travão na indigna atitude de alguns dos seus adeptos. Em vão.
Nesta altura a boa notícia é que as responsabilidades estão a ser assumidas. Mas foi necessária a intervenção governamental, para que o presidente federativo se demitisse. Outro irá ocupar o lugar, com a difícil missão de erradicar o racismo dos estádios búlgaros. Como também de outros estádios espalhados pelo mundo. A UEFA terá certamente mão pesada para com a Federação Búlgara, e uma multa, ou um ou dois jogos à porta fechada, não resolvem o problema. A questão tem que ser levada bem mais a fundo, e a voz de indignação dos que não pactuam com este tipo de atitudes, tem de ser ouvida. Importa criar nova legislação para colocar fora dos estádios, como também da sociedade, estes energúmenos cuja principal ocupação é promover o ódio.
Termino como comecei, com a goleada inglesa ao racismo. Que sirva de exemplo, e que nos obrigue a todos a pensar em soluções para colocar um ponto final neste péssimo exemplo, sem lugar no futebol que tanto adoramos."

A morte de um futebolista profissional

"Os “jogadores de futebol profissional” têm “Estatuto de Trabalhadores”, então por que razão os trabalhadores da Autoeuropa não são sujeitos à despistagem de doping?

O Tribunal da Relação de Lisboa decidiu que a morte de um futebolista, no campo de jogo, “lugar de trabalho”, era de facto um acidente de trabalho. Afirmou ainda que “o campo de futebol era o Local de Trabalho” (2011).
Este foi sempre o entendimento de todos aqueles que estudaram as Leis do Trabalho e que sempre respeitaram o Espírito da “Organização Internacional do Trabalho (OIT)”, criada pelo Tratado de Paz assinado em Versalhes, em 28 de Junho de 1919.
Portugal foi um dos signatários do “Tratado de Versalhes” e um dos Membros Fundadores da “OIT”. 
Segundo os Tratados, Escritos, Declarações e Discursos Políticos do tempo, e não só, consta que Portugal foi sempre um “Membro” que sempre prestou à “OIT” uma colaboração leal e activa. 
Depois do Estado Português ratificar uma Convenção Internacional fica obrigado a cumprir as regras e princípios nele formulados, e, evidentemente, que qualquer Tribunal de um país signatário, terá que aplicar aquilo que passou a ter Força de Lei. Daqui se saúda o Tribunal da Relação de Lisboa que, em 28/dez./2010, num seu Acórdão, afirmou que “o campo de futebol é o local de trabalho” de qualquer jogador. Quer em competição ou em situação de treino, dizemos nós, e ainda se pode aceitar que no trajecto para o trabalho e do trabalho até à residência possa ser considerado “Acidente de trabalho”. 
Gostaríamos ainda de referir que a convenção n.º 17, Decreto n.º 16586, e a Convenção n.º 18, Decreto n.º 16587, da “OIT” podem ser invocadas no caso do jogador de futebol Fehér. Não está em causa qualquer Instituição, quer seja Clube de Futebol ou Companhia de Seguros, o que está em causa é que tem que ser assumido por toda a sociedade que um jogador de futebol profissional, não é um desportista, quando está a trabalhar, o que ele é de facto é um trabalhador. Por isso é que o seu Estatuto não deve ter nada a ver com aquele de um desportista amador, ou de um estudante do Ensino Oficial, Secundário ou Universitário, quando pratica Desporto.
Já Piaget dizia que a Lógica é a Moral do Pensamento. Afinal os “jogadores de futebol profissional” têm “Estatuto de Trabalhadores”, então por que é que os trabalhadores da Autoeuropa não são sujeitos à despistagem do uso de doping, como são aos trabalhadores do futebol?
Do que se trata é de proteger um negócio instalado de milhares de euros, que condiciona uma actividade comercial, aumentando a pressão sobre os trabalhadores, de forma ilegal. Este Acórdão vem proteger os trabalhadores do futebol e colocar em maus “lençóis” a Secretaria de Estado do Desporto, por que trata os trabalhadores do futebol profissional de forma diversa dos trabalhadores da Autoeuropa. É que no Desporto as “Regras” são outras, daí a confusão do Ministério da Educação que trata o futebol profissional com se fosse Desporto.
O futebol profissional só deve depender da Direcção Geral dos Espectáculos e, quiçá, com a colaboração da “ASAE”...Esta atividade não pode estar subordinada ao Ministério da Educação Nacional."

O que se entende por Budô?

"O conceito de “Budô” implica uma complexidade de considerações que, a nosso ver, potencialmente diferenciam a prática das artes marciais “orientais” de quaisquer outros desportos.
O Budô, palavra de criação japonesa, e que define as artes marciais tradicionais, compõe-se de um conjunto de duas palavras chinesas: “wu” (japonês: “bu”), guerreiro, armas, e “dao” (japonês: “dô”), via, caminho em direcção ao conhecimento, com a conotação moral do aperfeiçoamento de si mesmo. O “bu” significa o que é viril e forte. Na época de Edo (1603-1868), durante o qual o Japão se fecha ao Ocidente, a palavra “Budô” assumiu um sentido mais amplo. Ela designa sempre uma via que deve seguir o guerreiro, englobando todos os “bugei”, diferenciados em diferentes disciplinas sistematizadas em imensas escolas, mas ele assume, sobretudo, uma conotação ética mais clara ao ponto de se confundir com o termo “bushidô”, a via do samurai.
Para se designar as diferentes disciplinas, empregava-se geralmente as palavras do sufixo “jutsu” (técnica): jujutsu, kenjutsu, kyujutsu, etc. O hábito actual é de utilizar os termos com o sufixo “dô” (judô, kendô, kyudô, etc.). Estes termos conheceram uma vaga crescente, quando do aumento do militarismo nipónico, quando os ensinamentos do “Budô” se tornaram obrigatórios nas escolas para fortificar as virtudes guerreiras e, eventualmente, servir no combate.
O desenvolvimento das artes marciais na época Edo não é paradoxal. Ele explica-se pelo fato das artes marciais serem consideradas, pela sua vertente formativa, como um elemento maior na educação do samurai e como parte integrante do “bushidô”, a palavra que designa o código moral do guerreiro, suplantando outras antigas expressões, como “mononofu no michi”. Com o período Edo, a paz instalou-se, um mercado nacional se constituiu e uma economia monetária se desenvolveu. Os “bushi” (classe social) deixam de conhecer os combates reais e alguns passam por dificuldades, tendo que encontrar os meios de subsistência, dando “aulas” de artes marciais. Assiste-se, então, à eclosão de escolas de artes marciais. Aqueles que ensinam nesses locais, têm tendência a codificar o seu saber-fazer, a apresentar as “técnicas-receitas” melhores do que os seus concorrentes, universalmente reprodutíveis e susceptíveis de serem ensinadas a todas as pessoas.
A palavra “Budô” foi adoptada e adaptada. É da responsabilidade dos mestres e adeptos japoneses (mas não só) preservar e desenvolver um património cultural, o Budô, e comunicar e transmitir aos outros. Para isso, é necessário ter uma visão abrangente do mundo do Budô, por forma a analisar e compreender a situação actual do Japão e de outros países."

´Patrick Baumann House of Basketball'

"Há exactamente um ano atrás (14.Out.2018), quando assistia aos Jogos Olímpicos da Juventude na Argentina, o então Secretário Geral da Federação Internacional de Basquetebol (FIBA), Patrick Baumann, 51 anos de idade, nascido em Basileia, Suiça, não resistiu a um ataque cardíaco e faleceu. Para além da enorme perda para a sua família, o Movimento Olímpico em geral e o Basquetebol em particular, perderam um dirigente de alto gabarito. Um estudioso do fenómeno desportivo que procurava a sua permanente valorização pois possuía no seu currículo um MBA na Business School da Universidade de Chicago, um Mestrado Europeu em Gestão do Desporto patrocinado pelo Comité Olímpico Internacional desencadeado nos anos noventa por Jean Camy da Universidade de Lyon, Andreu Camps da Universidade de Barcelona e Gustavo Pires da Universidade de Lisboa e uma Licenciatura em Direito na Universidade de Lausana.
Tendo começado muito cedo a gostar de basquetebol na qualidade de praticante, também exerceu funções de treinador e de árbitro ao longo da sua carreira desportiva. A sua vocação para a área educativa e o seu entusiasmo pelo jogo da “Bola ao Cesto” fez com que a Federação Internacional o convidasse para os seus quadros de gestão. Depressa mostrou as suas capacidades e em 2002 foi indigitado como Secretário Geral da FIBA, o terceiro homem a exercer aquele cargo ao longo da história da modalidade, depois do inglês William Jones e do jugoslavo Borislav Stankovic.
Foi o grande responsável pelas principais mudanças efectuadas no basquetebol a nível internacional, com realce para a articulação com as regiões continentais sob o lema “One FIBA”, numa perspectiva de desenvolvimento da modalidade com objectivos comuns. O ressurgimento do 3x3, e a sua implementação no contexto nacional, continental e internacional, tornou possível a sua introdução no programa olímpico. Liderou o processo de alteração e implementação do Novo Sistema de Competição da FIBA.
Face ao seu eficiente trabalho efectuado na Federação Internacional de Basquetebol (FIBA) foi posteriormente nomeado dirigente do Comité Olímpico Internacional (CIO) no qual foi progressivamente exercendo diversas funções como membro:
- 2009 - Internacional Advisory Board of the World Academy of Sport;
- 2010 – International Council of Arbitration for Sport (ICAS);
- 2011 – Council Association of Summer Olympic International Federations;
- 2011 – Executive Committee of the World Anti-Doping Agency (WADA).
Numa das suas últimas intervenções públicas Patrick Baumann disse que o Basquetebol era um desporto de equipa e, como tal, devemos trabalhar sempre em equipa. Independentemente de onde estivermos no mundo, num clube, numa liga, numa associação, numa federação ou qualquer área específica do jogo a nossa tarefa deve ser sempre feita em conjunto (Team Work).
Em homenagem a Patrick Bowmann que exerceu o cargo de Secretário Geral, de 2002 até Outubro de 2018, a sede da FIBA conhecida por “The House of Basketball”, situada na cidade de Mies (Suiça), passou a ser denominada por “Patrick Baumann House of Basketball”, para sempre."

A Paz sem vencedor e sem vencidos

"Começo por reler Sofia de Mello Breyner Andresen, uma Senhora assumidamente católica, mas que não pensava apenas com a religião ou a teologia, mas também com arte, poesia e política. Daí, a originalidade da sua poesia e da sua prosa: nada do que é humano lhes é estranho. O “homo sum, humani nihil a me alienum puto”, de Terêncio, nela ressoa, sem exaltações, como uma intelectual magnificamente serena. O culto da sobriedade, da harmonia, do equilíbrio, a delicadeza das tonalidades significam, nela (o que não é comum) movimento, diacronia, inovação, renovação. O continuísmo é um caso flagrante de miopia mental. No continuismo, não se descortina poesia, mas o gralhar dos “teóricos da petrificação e da repetição”. Ninguém sabe dialogar melhor com uma sociedade verdadeiramente alternativa do que uma poetisa, de projecção universal, como Sofia. Como se vê, no seu poema A Paz sem Vencedor e sem Vencidos: “Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos / A paz sem vencedor e sem vencidos / Que o tempo que nos deste seja um novo / Recomeço de esperança e de justiça / Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos / A paz sem vencedor e sem vencidos. / Erguei o nosso ser à transparência / Para podermos ter ,melhor a vida / Para entendermos vosso mandamento / Para que venha a nós o vosso reino / Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos / A paz sem vencedor e sem vencidos. / Fazei Senhor que a paz seja de todos / Dai-nos a paz que nasce da verdade / Dai-nos a paz que nasce da justiça / Dai-nos a paz chamada liberdade / Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos / A paz sem vencedor e sem vencidos”. Mas esta paz sem vencedor e sem vencidos não se constituirá como realidade presente, em todos os momentos da vida, enquanto cada um de nós não a pedir a Deus, fonte de todo o Bem, mas também não a exigir a si mesmo e à sua consciência de pessoa e de cidadão.
Aprendi em Teilhard de Chardin que, na Evolução universal do “cosmos”, da cosmogénese se passa à biogénese e desta à noogénese e da noogénese à cristogénese. Toda a Evolução é uma ascensão ininterrupta para o Espírito. Não sou um teórico da “revolução permanente” mas não escondo que, para mim, é da categoria cultural, que é a crise, que se anuncia um novo paradigma. Só que a deterioração de um mundo que envelheceu nem sempre é reconhecido, em determinadas instituições universitárias, onde proliferam os “lentes” que marginalizam qualquer fundamentada e generosa combatividade. Actualmente, na ciência, “a tendência global é no sentido da normalização de um número crescente de campos. Deste modo, embora rejeite qualquer visão teleológica ou ortogénica da ciência, Kuhn salienta a direccionalidade e a irreversibilidade da mudança científica. Ele parece elaborar isto ao mesmo tempo como uma descrição da verdadeira história da ciência e como um critério de maturidade científica” (Hermínio Martins, Hegel, Texas e outros ensaios de Teoria Social, Século XXI, Lisboa, 1996, pp. 69/70). E o sociólogo (neste caso, um sociólogo eminente) prossegue: “Mesmo que rejeitemos o conceito de paradigma como uma categoria da historiografia ou da epistemologia da ciência, em qualquer sentido estrito kuhniano, temos (…) de garantir não só que as crenças científicas mudam, mas também as normas procedimentais, os critérios de aceitabilidade e as formas de pensamento”. Repito o que me parece evidente: o mal não está em mudar de ideias, mas em não ter ideias para mudar. A superabundância de paradigmas atrapalha principalmente os que inventam “teorias do conflito” diante de tudo o que os obriga a um novo estado de espírito. E um estado de espírito novo significa sempre, no ser humano, um carácter histórico singular porque, em todo o sujeito humano, tudo é um apelo à cultura e à vida espiritual. Assim, a ética representa bem mais do que um conjunto de regras porque é, antes do mais, uma tomada de consciência do nosso lugar na história e do que nela nos cumpre realizar.
Mas, neste mundo, não se escutam apenas os apelos da Verdade e do Bem. Nele, também existe a mentira, a falsidade, a inveja, a calúnia. crimes de toda a ordem, enfim o mal. Na visão genial de Teilhard de Chardin, se vivemos num mundo em permanente evolução, visando condições superiores de complexidade, o mal é inevitável porque, num processo de crescimento, o imperfeito, o inacabado, o defeituoso é um dos momentos da evolução. Em poucas palavras: o mal existe, porque o bem não existe ainda. O mal pertence, estruturalmente, a um mundo em evolução. Assim, bem longe de significar uma alienação, a crença em Deus insinua-se em tudo o que existe, na Vida, no Homem, na Sociedade e na História, pois que tudo é um “tornar-se”, em direção à “cristogénese”, nas palavras de Teilhard de Chardin. Ao adquirir a fisionomia de uma cosmogénese e de uma antropogénese, o próprio mal se justifica, como dimensão histórica de uma via em direção ao “inteiramente Outro”. Nasce assim um novo humanismo, que não se confunde com o humanismo literário dos autores clássicos, ao jeito do Humanismo e do Renascimento. Um humanismo, aliás, que a Portugal chegaram ecos, principalmente durante o reinado de D. João III, o mais decidido monarca português, protetor das letras. E foram, então, muitos os portugueses que prezavam abastança de tempo, para o consagrar ao estudo dos clássicos greco-latinos. Para eles, a Idade Média era “a noite de dez séculos” e só era atual quem voltasse a Platão e Aristóteles e cultivasse o convívio com Erasmo. A Teilhard de Chardin, no entanto, o que lhe importava, sobre o mais, era uma pintura de cores vivas, donde se vislumbrasse o sentido da vida, ou seja, vivemos, pela transcendência física, social, política, espiritual, à procura do Absoluto. Ocorre-me o Jean Lacroix de Le Sens de l’atheisme moderne, editado pela Casterman: “A própria ideia de Deus não é uma solução já feita, mas exigência, para cada um de nós, em fazê-la”. Principalmente, através do mandamento supremo: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos”…
Sílvio Lima, que fez uma exploração intelectual minuciosa e rigorosa, do desporto, escreveu: “o desporto é nuclearmente espírito, soberania do espírito (não há autêntico desporto, sem ascese) e pretende criar, não o perfeito animal, mas o perfeito cidadão, exemplar harmonioso de formosura moral e física”. E João Tiago Lima, seu discípulo (de perdurável brilho, acrescente-se) continua: “Daí decorre uma implicação obrigatória: porque se trata de uma actividade essencialmente espiritual, não há autêntico desporto, sem ascese” (João Tiago Lima, Estética e Desporto, Edições Afrontamento, Porto, 2016, p. 91). Assim, se bem penso, a própria competição desportiva, que tantas vezes reproduz e multiplica as taras da sociedade de mercado, também pode “destilar espírito”, também pode basear-se num conceito de género humano, onde todos possamos encontrar uma história, um destino e uma dignidade iguais e colectivos. O conceito de “acção”, para Blondel, é mais amplo, mais abrangente, mais complexo do que um simples movimento, ou um qualquer desempenho desportivo: “todo acto es en su origen una unidad indivisible en la que se encuentran la iniciativa humana y la contribución del universo” (M. Blondel, La Acción, BAC, Madrid, 1996, p. 235). E, porque os problemas da vida, tantas vezes escondidos aos olhos mais fundos e astuciosos, só vivendo se resolvem – é preciso viver, ou seja, é preciso amar, cantar, sofrer, esgadanhar a terra com os dedos até desenhar riscos de sangue, morrer exausto de expectativa, ou ressuscitar radioso de sol e de esperança… para poder resolvê-los! “Quem não pratica não sabe” e, porque sabe, não tem desculpas o seu absentismo, o seu comodismo, o seu indiferentismo. O valor de uma árvore avalia-se pelos frutos que dela nascem. No ato de construção de um mundo mais fraterno e mais justo, ergamos uma Paz sem vencedor e sem vencidos. Porque assim nasce um desporto novo? Não só. O desporto é menos causa que consequência."

Olímpicas responsabilidades

"Primeiro construíram um modelo desportivo boçal, anarquizado, sem valores e ao serviço da promoção da política, da socialite e dos negócios. E como precisavam de dinheiro para manter os negócios a funcionar, em detrimento da educação, arregimentaram o povo e puseram-no nos estádios e recintos desportivos a berrar pelos seus clubes favoritos quando não pelas várias selecções nacionais. Agora, estão muito escandalizados e umas donzelas, ao estilo de qualquer nova virgem, até resolveram manifestar publicamente o seu alvo pudor, porque uns doutos Juízes da 9ª Secção do Tribunal da Relação de Lisboa exararam um acórdão em que consideram não ser crime de injúria o delegado ao jogo de uma equipa de futebol ter trocado umas palavras com o treinador da equipa adversária em que proferiu o seguinte discurso: “Vá lá p’ra barraca, vai mas é pó c... seu filho da p...”.
Quer dizer, construíram um sistema boçal e anarquizado e, agora, querem que os Tribunais caiam sobre os seus principais protagonistas que, em consequência, se comportem sem educação e civilidade.
E reivindicam que os Tribunais façam pela coerção aquilo que eles, com todos os meios que o Estado lhes proporcionou, através da pedagogia e da cultura não foram capazes ou não quiseram fazer ao longo dos últimos trinta anos.
Ora bem, se os Tribunais fossem a agir como suas excelências pretendem o mais certo era serem invadidos por milhões de processos e metade do País ir parar à cadeia. Porque, quando se diz que os portugueses não têm cultura desportiva está-se a laborar num erro. Os portugueses têm cultura desportiva e ela traduz-se na sua sublime plenitude nas palavras do delegado ao jogo: “Vá lá p’ra barraca, vai mas é pó c… seu filho da p…”. Esta, quer se goste quer não, é a cultura que tem sido promovida através de um antissistema em que o desporto funciona em autogestão.
E foi isto que os Juízes se limitaram a constatar no seu acórdão quando escreveram: “No mundo do desporto, e, em particular, do futebol, estão instituídas determinadas práticas que a generalidade das pessoas valora de uma forma mais permissiva, desde que tais condutas se desenvolvam no âmbito restrito do sub-sistema desportivo, sucedendo tal com as injúrias.”
Nunca ninguém em Portugal esclareceu, tão dura e claramente o País, sobre o que se está a passar no mundo do desporto. Nunca ninguém em Portugal disse, com tanta oportunidade, aos especialistas do “dress code” das festas e das festarolas em que se condecoram todos uns aos outros que, no mundo do desporto, “O Rei Vai Nu”.
Nunca ninguém em Portugal afirmou com tanta propriedade que os Tribunais não servem para branquear e superar a incompetência que graça na superestrutura pública e privada do desporto nacional.
É evidente que “chamar os bois pelos nomes” cria controvérsia. E cria tanta mais controvérsia quanto se sabe que, desde 2004, tem sido, paulatinamente, instituído um doentio manto de silêncio sepulcral sobre o desporto. Ora, só com controvérsia se pode combater o silêncio sepulcral instituído e voltar a dar saúde democrática ao desporto nacional. Por isso, aqueles que lutam por um desporto limpo, credível, honesto, competente, educativo, social e económico ao serviço dos portugueses só se podem regozijar com tal acórdão que, na minha opinião, passará a ser um marco no processo de desenvolvimento do desporto em Portugal. Um marco que deve ser divulgado em todos os cursos de motricidade humana, quer dizer, de educação física e de desporto, do treino à gestão, das várias Universidades e Politécnicos do País, bem como em todos os cursos de formação de treinadores e de dirigentes (se é que ainda existem).
Mas, o que mais escandaliza não são as palavras do delegado ao jogo: “Vá lá p’ra barraca, vai mas é pó c… seu filho da p…”. Elas são, tão só, as que mais se ouvem nas competições desportivas, sobretudo de bola, por esse país fora. O que mais escandaliza é ver a superestrutura do desporto nacional que, saltitando de poleiro em poleiro, o administra há vários anos, dizer-se surpreendida com o teor do acórdão como se nada tivesse a ver com a situação que o motivou!
Porque, o que motivou o acórdão não foram, só por si, as palavras “Vá lá p’ra barraca, vai mas é pó c… seu filho da p…”. O que motivou o acórdão foi a cultura que permite que tais palavras possam ser ditas sem que constituam ofensa. E essa cultura não foi construída pelos Juízes nem pelos Tribunais. Foi construída, desenvolvida e acarinhada pela superestrutura dirigente que lidera o desporto nacional.
Em conformidade, quando a nomenklatura desportiva, numa despudorada fuga às responsabilidades, sugere que os Juízes estão a transformar o desporto numa espécie de offshore onde o crime não é punido, é bom lembrar que esse offshore há muito que já caracteriza o desporto pelo que os Juízes se limitaram a constatar uma realidade mais do que evidente pelo que, muito embora, tais expressões traduzam “…um comportamento revelador de falta de educação e de baixeza moral e contra as regras da ética desportiva; contudo, esse tipo de comportamento, socialmente desconsiderado, é também ele, de alguma forma tolerado nos bastidores da cena futebolística”. E esta é que é a verdade. É vergonhoso que assim seja mas, infelizmente, para além de todas as hipocrisias que sempre surgem, é a verdade nua e crua.
Assim, quando vejo o ar escandalizado de algumas novas virgens perante o acórdão, sou levado a perguntar se elas, realmente, nos últimos anos, viveram em Portugal ou, simplesmente, acabaram de chegar de Marte ou de outro planeta qualquer.
O que aconteceu e, espero que continue a acontecer, foi que os Juízes não entraram num lógica de violência coerciva exercida por condenações em Tribunal quando as verdadeiras causas do problema estão nas Políticas Públicas em matéria de desenvolvimento do desporto que criaram e continuam a criar as condições para que tais cenas aconteçam e venham a acontecer cada vez com mais frequência. Se os Tribunais fossem a agir com a violência que muita gente, eventualmente, deseja, muito provavelmente, uns largos milhares de portugueses estariam presos a começar por muitos daqueles que frequentam as assembleias gerais de alguns clubes. O grande problema do estado de confrangedora boçalidade em que o desporto nacional se encontra tem a ver com as estuporadas Políticas Públicas direcionadas em regime de exclusividade para o rendimento, a medida, o recorde, o espetáculo, o comercialismo, a hiperespecialização e o profissionalismo precoce, em prejuízo da generalização da prática desportiva e da assunção de uma cultura desportiva de superior nível.
Por isso, a pergunta que se impõe é a seguinte: Como é possível que, ao cabo de dezenas de anos de permissividade relativamente a uma práxis desportiva da mais primária boçalidade, agora, se pretenda que os Juízes resolvam pela coerção das condenações um problema que, há muito, já devia estar resolvido pela educação e pela cultura? Nestes termos, o acórdão é bem claro quando diz: “… na avaliação do preenchimento do tipo de crime de injúria não basta a consideração das palavras e expressões proferidas: é preciso situá-las no enquadramento preciso em que foram ditas.”
E quem é que construiu o enquadramento (ambiente) em que foram ditas?
Não foram, de certeza, os Juízes.
Foram os dirigentes desportivos, públicos e privados (salvo sempre as devidas excepções) que, ao longo dos anos, tiveram responsabilidades políticas em matéria de desenvolvimento do desporto e promoção de uma cultura desportiva de participação, de fair play e de civilidade, mas optaram por uma cultura de exclusão, deseducação e antissocial. Nestes termos, na minha modesta compreensão, o acórdão do Tribunal é, implicitamente, claríssimo: 
Deitem-se na cama que vocês próprios fizeram. 
E o pior é que, tudo leva a crer, as coisas vão piorar.
Basta olhar para os milhares de jovens portugueses que de Ciclo Olímpico, em Ciclo Olímpico, à revelia da Constituição, são, simplesmente, descartados do desporto nacional. É assim que querem construir uma cultura desportiva?
Sem jovens a praticarem desporto não há educação desportiva e sem educação desportiva não há cultura desportiva por muito que os nossos dirigentes, vaidosos até dizer basta, respeitem o “dress code” das festarolas desportivas.
Segundo os dados oficiais, desde 2004, a Taxa de Descarte dos jovens portugueses (raparigas e rapazes) quando atingem a idade para passarem do Escalão Etário de Juvenis para Juniores foi de: De 1996 a 2004 (63,4%); De 2004 a 2012 (76%); De 2012 a 2017 (83,9%). Se entrarmos numa análise mais fina a Taxa de Descarte, de algumas modalidades, atinge mais de 95% dos jovens. Quer dizer, em cada dez jovens portugueses não chega a haver um que prossegue a prática desportiva. Repare-se que a Taxa de Descarte, que já era grave antes de 2004, desde então, tem-se vindo a agravar para níveis obscenos. Quer dizer, desde que, em Janeiro de 2005, foi instituído um Programa de Preparação Olímpica que, de Ciclo Olímpico, em Ciclo Olímpico, tem vindo a produzir não só cada vez piores resultados a nível dos Jogos Olímpicos (Três medalhas em Atenas (2004); Duas medalhas em Pequim (2008); Uma medalha de prata em Londres (2012); e uma medalha de bronze no Rio (2016)), como, o que é mais grave, por ausência de formação a nível da base do Sistema Desportivo, a obrigar as Federações Desportivas a contratarem atletas estrangeiros para, através de “naturalizações de aviário”, representarem Portugal.
Por tudo isto, o problema não está, como querem fazer crer, no exemplo dito “socialmente negativo” que o acórdão faz passar para a sociedade. Antes pelo contrário, o acórdão põe na ordem do dia a mediocridade das Políticas Públicas e o estado lastimoso a que o desporto chegou que, à semelhança das Repúblicas formadas da desagregação da União soviética vive concentrado na prossecução de um isotérico desígnio nacional consubstanciado em seis medalhas olímpicas determinadas em 2005 no Programa de Preparação Olímpica. Em consequência, de 2004 a 2007, o já de si débil crescimento da prática desportiva nacional desacelerou pelo que está a agravar ainda mais a pior Taxa de Participação desportiva da UE (28) que é a de Portugal e a aumentar a Taxa de Descarte da prática desportiva dos jovens portugueses que, no período referido, foi de 20,5 pontos percentuais. Por isso, perante as lamúrias das mais diversas instituições públicas e privadas relativamente ao acórdão dos Juízes o que se me oferece dizer é que, antes de o criticarem, tenham coragem e assumam as vossas responsabilidades."

Só um Benfica!

"A exclamação faz sentido e o convite está feito, com a bola a ficar do lado dos Benfiquistas. Sábado há jogo grande no nosso estádio, um dérbi. Com um toque de humor: quem se atreverá a faltar a uma chamada para a história? Daqui a poucos anos, o Museu Benfica – Cosme Damião assinalará data, resultado e número de espectadores registado na primeira vez que a Luz recebeu um encontro a contar para competições oficiais femininas.
Ou seja, os adeptos assumirão, como tantas vezes no Clube, renovado papel relevante e impactante. 
8136 pessoas na Luz, há pouco mais de um ano, na apresentação da primeira equipa feminina de futebol do Clube. 15 204 espectadores, em Março, no Restelo, no dérbi solidário Por Moçambique. 12 632 adeptos de futebol, em maio, na final do Jamor. A partir de sábado, o número máximo de assistentes numa partida de futebol feminino em Portugal será seguramente muito superior.
Em casa estamos sempre bem. Por isso, se vier com amigos ou família, melhor ainda: será um marco partilhado.
As regras são iguais em todo o mundo, seja o jogo praticado por mulheres ou por homens. Dentro do campo, há semelhanças nos mais diversos aspectos: o peso das camisolas, o calçar as chuteiras, o aquecimento, a saudação aos adeptos, os movimentos e os gestos técnicos, as indicações exclamativas que vêm do banco, as tácticas, a celebração do golo...
Por vários motivos, os próximos dias serão de forte impacto para este primeiro Benfica-Sporting. Andarão previsivelmente de boca em boca comentários sobre aqueles momentos em que ambas as equipas seniores, feminina e masculina, se juntaram num treino no Seixal e demonstraram que, no fundo, só há um Benfica. Serão citadas e repetidas as declarações de fair play e grande desportivismo das capitãs das formações rivais numa antevisão conjunta a este dérbi.
Sendo sempre arriscado prever o futuro, existe um fortíssimo potencial de sucesso generalizado neste jogo da quarta jornada da Liga BPI. Pela qualidade das equipas, pela dimensão social dos emblemas que carregam, pela oportunidade de promover, mais uma vez, a alta competição feminina. Um pouco por todo o Estádio, estarão presentes o ecletismo – há outras equipas e modalidades em actividade no Complexo Desportivo do SL Benfica – e os valores do Clube. Adeptos, atletas, técnicos, dirigentes. Nomes associados à música, ao cinema e à televisão. Muitas são as caras conhecidas que já confirmaram presença.
O jogo tem apito inicial marcado para as 17h00, mas convém chegar cedo, identificar o lugar que reservou nas bancadas e usufruir plenamente deste evento histórico para o desporto português. O resto, o espectáculo jogado, será com elas, frente e a frente, à flor da relva, e promete ser de muita qualidade.
Shéu Han, António Veloso, Valdo e Simão Sabrosa são referências de outros tempos que já partilharam com as nossas "Inspiradoras" o sentir particular do Glorioso. O convidado mais recente, deixou em pleno treino um apelo ao espírito de equipa: "É motivante poder jogar neste grande palco, perante milhares. Num sítio onde as condições são diferentes, onde só por ser dérbi já é motivador. Joguei lá muitos jogos e era fantástico estar no Estádio da Luz, com os adeptos a apoiar-nos. Quem me dera poder voltar a jogar lá..." Simão já não joga, mas estará presente, entre muitos adeptos de futebol.
Quando se sente a mesma mística, só pode haver mesmo um Benfica! #PeloBenfica"

Só há um Benfica!

Benfiquismo (MCCCXXIV)

Mais uma....!!!

105x68... Santos, Duarte & Cunha!!!

Será que depois da tempestade vem a bonança?

"A derrota em São Petersburgo ante o FC Zenit, por 3-1, fechou um ciclo pouco positivo para o SL Benfica. As exibições, não raras vezes, foram paupérrimas e o “rolo compressor” da época passada não apareceu. Ainda assim, os encarnados seguem na luta por todas as competições internas e acreditam ainda em conseguir o apuramento para a fase a eliminar da Liga dos Campeões.
E é com o objectivo e com a obrigação de vencer que as águias enfrentam um novo e duríssimo ciclo. Até à próxima paragem competitiva, o Benfica fará sete jogos em três semanas: quatro para o campeonato, dois frente ao Lyon para a liga milionária e a visita ao CD Cova da Piedade, a contar para a Taça de Portugal, inicia, dia 18 de Outubro, este novo ciclo.
Apenas três dos sete jogos vão ser jogados no conforto do Estádio da Luz – Lyon, Portimonense e Rio Ave – e os comandados de Bruno Lage vão entrar em campo sempre duas vezes por semana, até terminarem o ciclo de jogos em casa do Santa Clara. Serão três semanas de enorme exigência física, psicológica e competitiva. E, claro, de grande exigência dos sócios e adeptos, que desejam ver jogar de novo o Benfica de Bruno Lage, não um Benfica cujo treinador se chama Bruno Lage.
É um dos momentos-chave na descoberta da real capacidade do jovem treinador benfiquista. Será um bom período para analisar se Lage terá de novo a capacidade de gestão física e mental dos jogadores e de fazer mudanças de peças, de tácticas e de estratégias de jogo para jogo, sem muito tempo para treinar e para pensar. Será também um momento fulcral para este Benfica provar o que é – ou não – capaz de fazer no panorama europeu.
Por outro lado, estarão, neste ciclo, mais jogadores à disposição de Lage, recuperados de lesão. Nesse sentido, estando todo o plantel – ou perto disso – às ordens do setubalense, será também o momento para perceber que futebolistas do plantel são vistos como segundas escolhas, podendo ser já iniciada uma pré-triagem a pensar no mercado de inverno.
Em suma, “ou vai ou racha”. O novo ciclo encarnado terá, dê por onde der, que ser vitorioso e pautado por exibições convincentes, de forma a minorar – porque não anula – o anterior ciclo, no qual o Benfica somou três vitórias (duas pela margem mínima), um empate e duas derrotas. É o momento da verdade para um Benfica que se quer – e que assume essa ambição – europeu."

terça-feira, 15 de outubro de 2019

O maior crime de sempre em Portugal - Parte III

"Assustador! Assustador! Assustador! Mas há muito mais, muito mais coisas assustadoras!
'290. Com efeito, no dia 12 de Dezembro de 2017, pelas 22:13:56h, o arguido Rui Pinto, fazendo uso do IP 128.31.0.13 através de formas de anonimização, criou o blogue mercadobenficapolvo.wordpress.com, acessível, à data, através do URL https://mercado-benficapolvo.wordpress.com no domínio Wordpress.
291. Aquando do registo indicou como nome de utilizador 'mercadobenficapolvo' e, como endereço electrónico, 'ose-mails-dopredroguerra@tutanota.com', tendo dinamizado o conteúdo do blogue desde a sua criação, com publicações alusivas ao mundo futebolístico, como correio para efeitos de contacto'.
Dúvidas então não existem de que foi Rui Pinto que publicou as caixas de correio electrónico de todas as pessoas do Benfica que por isso foram afectadas e todas e quaisquer pessoas que trocaram e-mails com todos estes benfiquistas, eu incluído! Todos, mas mesmo todos, são lesados pela conduta de Rui Pinto.
Outra coisa bem diferente é a quem foram entregues estas caixas de e-mails? Quem tem a informação toda dos e-mails destas pessoas?

Ataque à PLMJ
255. O arguido Rui Pinto teve conhecimento deste comunicado (comunicado de quem iria representar o Benfica no processo E-Toupeira) e, em virtude do mesmo, decidiu aceder ao sistema informático e de correio electrónico da PLMJ.
256. Primeiramente, criou um procedimento capaz de obter credenciais de acesso ao sistema informático visado, sem provocar qualquer tipo de alerta para o utilizador.
257. Para o efeito, procedeu à construção de um website manipulado, em tudo semelhante a uma plataforma de download da Sapo Transfer, que, após ser activada pelo utilizador que a recepcionasse, procedia ao encaminhamento, para uma nova janela com a aparência de acesso ao e-mail via Microsoft Webmail.
258. Essa janela exigia a introdução das credenciais de acesso ao e-mail/computador por parte dos utilizadores, que, caso não notassem que a janela não era fidedigna, as introduziriam.
259. Após introdução dessas credenciais, essa informação era guardada e canalizada em formato de ficheiro para um website correspondente a http://www.jeromeismaae.com/demo/maestro135753423al423513806.html, ao qual o arguido Rui Pinto acedia através do TOR Browswe1.
260. Em execução desse plano, e por forma não concretamente apurada, o arguido Rui Pinto obteve a informação sobre o endereço de correio electrónico da colaboradora e advogada da PLMJ...
261. No dia 26 de Outubro de 2018, pelas 04:42:55h, remeteu, para o referido endereço, um e-mail do qual se extraía que o remetente era a dflisbod-lird@gov.pt com o texto incluso dizendo: 'Olá, dflisboa-dlird@-at.gov.pt enviou-lhe um ficheiro usando o SAPO Transfer' e com uma janela com a identificação de que o ficheiro iria estar disponível até 1.11.2018.
262. Nessa janela, era igualmente visível um botão denominado 'Download', que fazia crer que, através do mesmo, ficaria acessível o ficheiro que a 'dflisboa' queria disponibilizar.
266. O colaborador... identificado como externosl04, assumiu a recepção do pedido de assistência, efectuado pela advogada, e, por razões que se desconhecem, concluiu o processo de introdução das suas credenciais na janela que se abriu com o aspecto gráfico do Outlook Web - BenficaOl## -, que foram capturadas pelo arguido Rui Pinto.
267. No dia 26 de Outubro de 2018, na posse das credenciais de externosl04 e por acesso remoto, o arguido Rui Pinto entrou no sistema informático da PLMJ, com o propósito de retirar a informação e a documentação que lhe interessavam.
268. Para além disso, nesse mesmo dia 26 de Outubro de 2018, e após aceder ao sistema informático da PLMJ com as credenciais de externosl04, o arguido Rui Pinto decidiu alcançar toda a estrutura do Microsoft Office e visualizar caixas de correio dos colaboradores.
270. Nessas caixas de correio, todos os seus utilizadores continham documentos internos da Sociedade de Advogados PLMJ, sujeitos a confidencialidade, quer por se tratar de documentos/informações trocadas entre advogados e entre estes e seus clientes (no caso de utilizadores advogados), bem como documentos relativos à rede e infraestrutura informática da PLMJ (no caso de utilizadores do Departamento de Tecnologias de Informação), ou documentos contendo informação sobre clientes da sociedade, com a inclusão de elementos como o nome, número de cartão de cidadão, telefone e número de identificação fiscal (a serem tratados no âmbito do secretariado).
273. Pelas 03:11:08h do dia 27 de Outubro de 2018, o arguido Rui Pinto criou o perfil de VPN da PLMJ (Virtual Private Network) 2, com recurso ao programa Check_Point_Endpoint_Connect_R73_HFA1_For_Windows_8350000024_PLMJ.msi, sua máquina virtual, por via do qual passou a ter acesso remoto a toda a infraestrutura da rede da PLMJ de forma anonimizada, incluindo pastas partilhadas em servidores internos e websites internos com conteúdo institucional.
274. Em seguida, procedeu ao mapeamento e inventário de todos os serviços e dispositivos disponíveis na rede da PLMJ, por meio da utilização do programa Zenmap, o que lhe permitiu efectuar um reconhecimento com grau definido de profundidade da infraestrutura de rede, bem como de todos os equipamentos conectados e vulnerabilidades.
275. Em concreto, no dia 27 de Outubro de 2018, pelas 03:56:25h, o arguido Rui Pinto accionou o programa Zenmap, após ter entrado no sistema informático da PLMJ através das credenciais de externosl04, com o qual mapeou toda a range do IP 10.40.2.0 do porto 3389, do protocolo Remote Desktop Protocol (RDP).
277. Daí em diante e até ás 21:28:43h do dia 23 de Dezembro de 2018, o arguido Rui Pinto passou a conectar-se, via VPN, ao servidor LXAD032 da PLMJ.
278. Servidor este que funcionou como máquina intermediária para alcançar remotamente 119 computadores, de entre os quais computadores de colaboradores e servidores.(...)
286. Até 16 de Janeiro de 2019, o arguido Rui Pinto guardou no seu disco rígido da marca Western Digital (Elements) com o S/N WX51E944XR33, 1369 ficheiros, incluindo os formatos 'doc.', 'docx.', 'xis.', 'pdf', 'video e audio', ficheiros comprimidos e '.csv', exfiltrados das pastas dos colaboradores da PLMJ.
288. No disco rígido da marca Western Digital (Elements) com o S/N WX51E944XR33, que se encontrava na residência do arguido Rui Pinto a 16 de Janeiro de 2019, concretamente no ficheiro de texto 'W.rtf', o arguido dispunha de anotações por si redigidas referentes a palavras-chave de acesso a um e-mail com domínio da PLMJ - biblioteca@plmj.pt.
289. Na posse do acesso aos elementos contidos nos computadores, dispositivos associados e correio electrónico dos advogados colaboradores da PLMJ, o arguido Rui Pinto decidiu publicar informações às quais acedeu sem qualquer autorização, no blogue mercadodebenficapolvo-wordpress.com, que havia criado.
294. Em dia anterior a 5 de Novembro de 2018, o arguido Rui Pinto acedeu ao conteúdo dos computadores dos assistentes João Medeiros, Rui Costa Pereira e Inês Almeida Costa e, de entre eles, retirou elementos relativos ao processo conhecido por 'E-Touperia': a digitalização dos autos principais, o apenso de buscas do domicílio e viaturas de Paulo Gonçalves, o apenso de buscas ao domicilio e viaturas de José Augusto Silva, o apenso de busca ao gabinete de Paulo Gonçalves, o apenso de buscas ao Estádio da Luz, o apenso de vigilâncias e a gravação dos áudios de inquirição das testemunhas Rui Pereira, Ana Zagalo, Nuno Gago e Paulo Figueiredo e o áudio do primeiro interrogatório judicial.
Assustador! Assustador! Assustador! Mas há muito mais coisas assustadoras!"

Pragal Colaço, in O Benfica

Ciclo intenso

"Na sequência da paragem para os compromissos internacionais das selecções, avizinha-se agora um novo ciclo intenso das competições futebolísticas até nova interrupção devida ao calendário FIFA, em que a nossa equipa disputará sete partidas em 23 dias. 
O primeiro destes sete jogos será já na sexta-feira, às 20h45, na Cova da Piedade, frente à equipa local, da LigaPro, englobado na 3.ª ronda da Taça de Portugal. À semelhança das restantes competições nacionais, esta é uma prova em que o Benfica se apresenta para ganhar.
O primeiro objectivo da temporada – vencer a Supertaça – foi cumprido brilhantemente e importa recordar que o Benfica é mesmo o único, entre os habituais candidatos ao título, que já tem um objectivo cumprido, sem que tenha falhado algum com perda de receitas de milhões.
No Campeonato, a nossa equipa leva seis vitórias em sete jornadas e está a apenas um ponto do líder Famalicão. O próximo jogo será em Tondela e, como sempre, lutará para somar mais três pontos. Se os actuais campeões nacionais conseguirem a 13.ª vitória consecutiva fora de portas no Campeonato, registarão a terceira melhor marca na história do Benfica. E, nesse caso, Bruno Lage chegará às 25 vitórias no Campeonato em 27 jogos, o que se constituiria como um recorde (Fernando Riera é quem tem o melhor registo, alcançando as 25 vitórias em 28 jogos).
Mas antes dessa partida em Tondela haverá ainda, no dia 23 às 20 horas, a recepção ao Lyon na 3.ª jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões e é nessa data que a cadência de jogos se intensificará, com cinco em somente 14 dias. No dia 26, às 15 horas, será a já referida visita a Tondela. Depois, na quarta-feira, dia 30, às 20h15, será a vez de o Portimonense se deslocar à Luz e, passados três dias, sábado, dia 2 de Novembro, às 18 horas, Benfica–Rio Ave. Dia 5, às 20 horas, haverá um Lyon–Benfica. Finalmente, dia 9, às 18 horas, o sétimo e último jogo deste ciclo, o Santa Clara–Benfica.
Que venha então este ciclo de jogos para que possamos ver, apoiar e vibrar com a nossa equipa! #PeloBenfica"

E a Pantera Negra gelava ao frio da montanha

"No dia 18 de Dezembro de 1960, Eusébio, acabado de chegar ao calor de Lourenço Marques, acompanhou a equipa do Benfica, mesmo sem estar autorizado a jogar. Béla Guttmann queria que ele se fosse habituando à equipa. 'Nunca pensei que pudesse haver temperaturas tão baixas', contou-me uma vez

Benfica e Sporting da Covilhã voltarão, finalmente, a reencontrar-se. Já houve muitos jogos importantes entre os dois.
Até uma final da Taça de Portugal, favorável aos encarnados por 3-1.
E uma derrota de terríveis consequências, lá na Covilhã, que custaria um campeonato.
Posso lembrar-me de vários desafios, mas primeiro veio-me um à memória.
Eusébio tinha chegado há pouco a Lisboa.
Uma vez na Tia Matilde, do grande Ti' Emílio, queixou-se: 'Sabes lá. Nunca tinha sentido tanto frio na minha vida. Nem queria acreditar. Pensei que estava metido em grandes sarilhos se todos os jogos em Portugal fossem assim. Que não iria aguentar'.
E nem jogou.
Eusébio viera há tão pouco do calor de Lourenço Marques. Estava frio em Lisboa, mas viu-se metido num frio ainda maior. Béla Guttmann quis que o jovem recém-chegado acompanhasse a equipa na deslocação do Benfica para a 12.ª jornada do campeonato nacional, e Eusébio foi com os outros jogadores até à Covilhã. Pela primeira vez entrou no Portugal profundo e, como ele próprio conta, sentiu-se a morrer de frio.
Aí viu os seus companheiros derrotarem o Sporting da Covilhã na Estádio Santos Pinto (3-1), com golos de Águas (2) e Santana, para o Benfica, e Martinho, para o Sporting da Covilhã. Era o dia 18 de Dezembro de 1960, e Eusébio, por via das complicações burocráticas que se seguiram, só voltaria a acompanhar a equipa, mesmo sem poder ainda jogar, em Março do ano seguinte, a Évora e à Dinamarca, para defrontar o Aahrus.

O Covilhã outra vez
Os meses foram passando. Tão, tão devagar para Eusébio. Tão, tão depressa para o Benfica metido naquela azáfama da Taça dos Campeões Europeus.
De repente, ponto final nos processo, nos acórdãos, nos recursos, nos comunicados, nas exposições, nas interrupções. A transferência de Eusébio do Sporting de Lourenço Marques para o Benfica demoraria precisamente um ano a resolver-se.
Era um Maio quente, em Lisboa. O termómetro mostrava o mercúrio bem acima dos 30ºC. Eusébio não terá, no entanto, deixado de sentir o alívio próprio de uma brisa fresca. O acordo entre o Benfica e o Sporting de Lourenço Marques, definido pelo dr. Martins da Cruz e pelo dr. Campos Figueira, em representação dos clubes, era claro: através do Banco Nacional Ultramarino, o Benfica remetia à Direcção do Sporting de Lourenço Marques a quantia de 400.000$00, o clube moçambicano enviava por via aérea para Lisboa a carta de desobrigação do jogador. Datava de 10 de Maio.
Dois dias bastaram: a transferência bancária concluiu-se na quinta-feira, dia 11 de Maio; a carta de desobrigação de Eusébio chegou no sábado, dia 13.
Apesar de todos os esforços, Eusébio não jogaria a final de Berna, contra o Barcelona. Determinava a UEFA que, para poder representar um clube num encontro da Taça dos Campeões, um jogador deveria estar inscrito por esse clube num prazo de três meses antes da data de realização do encontro.
O Benfica - Barcelona seria no dia 31 de Maio.
A burocracia do 'caso Eusébio' entrava no seu estertor de morte. Cabia ao Benfica enviar ao jogador para a Federação Portuguesa de Futebol, que, através da Associação de Futebol de Lisboa, autorizaria a sua inscrição. 72 horas depois, já Eusébio poderia vestir a camisola encarnada.
E eis que o Sporting da Covilhã volta à vida de Eusébio.
José Augusto abre os braços desconsolado; está só de calções, descalço e em tronco nu nas escadas que levam ao balneário do Estádio da Luz. Não se sente bem naquela figura. Data 14 de Maio de 1961.
Germano e Neto, também em tronco nu, estão em primeiro plano. Correm sorridentes. Em segundo plano uma multidão avança das bancadas do Estádio da Luz para o relvado. Parece uma onda ameaçadora.
Benfica 8 - 0 Sporting de Covilhã.
Golos de Águas (2), José Augusto (3), Santana (2) e Coluna. Benfica campeão nacional da época 1960-61. Faltava uma jornada para terminar o campeonato.
Eusébio assiste ao jogo na bancada, na companhia de outros colegas. Este título não é seu, mas a alegria está-lhe estampada no rosto, como está estampada no rosto das pessoas que se espalham pelo átrio de entrada do estádio, à porta das cabinas, junto ao autocarro do clube. A sua apresentação ao público já tem data: dia 23 de Maio, num jogo frente ao Atlético inserido no Festival de Despedida Rumo a Berna.
Eusébio já esqueceu o frio terrível que sofrera na serra.
Um mundo de sol abre-se na sua frente..."

Afonso de Melo, in O Benfica

Golos para maiores de 18

"Com o futebol a correr-lhe nas veias, o avançado só teve permissão para jogar futebol aos 18 anos

José Torres tinha o sonho de se tornar jogador de futebol, sentia 'pular em seu sangue o vírus de tão maravilhosa «doença»'. O pai, Francisco Torres, 'foi nos anos 30 um defesa valente do Carcavelinhos', e o tio, Carlos Torres, avançado do Benfica durante cinco épocas (1932/33 - 1936/37).
As intenções de Torres seriam defraudadas pelo seu pai. Francisco não permitia que o filho jogasse futebol, devido às consequências que lhe tinha trazido, 'partira as duas pernas e não falava com o seu irmão Carlos, justamente por causa da bola'. A resposta persistiu durante muito tempo. Francisco, habituado a travar duras batalhas com os avançados dentro de campo, conseguiu, de forma eficaz, dissuadir o aspirante a avançado. Contudo, Torres não desistia facilmente e a insistência viria a ter resultados. Aos 18 anos, o seu pai acabou por ceder, afirmando contrariado: 'perdi uma das maiores batalhas da minha vida... seja o que o destino quiser'.
Nas três épocas ao serviço do Desporto de Torres Novas, o avançado foi destaque nos juniores e, depois, na equipa principal. A sua qualidade fez com que Carlos acompanhasse mais de perto o percurso do sobrinho e o elogiasse a Silvério Gouveia, dirigente do Benfica. Após algumas observações, tornou-se jogador dos 'encarnados' a partir da temporada 1959/60.
Começou por disputar o Campeonato Distrital de Reservas. Na 2.ª jornada, apontou 10 golos e, na 4.ª jornada, marcou seis, motivos suficientes para merecer uma oportunidade na equipa de honra! Na sua estreia, o Benfica pressionava o Sporting da Covilhã, mas os 'leões da serra' mantinham a vantagem de 1-0, muito às custas da enorme exibição do guarda-redes. Perante o desespero de Torres, um defesa covilhanense espicaçou-o dizendo: 'tem paciência (...) no dia da minha estreia também perdi'. Todavia, o 'bom gigante' não era de se resignar. No segundo tempo, viria a empatar a partida e pouco depois Coluna garantiria o triunfo dos 'encarnados'. Esse mesmo defesa acabaria por desabafar com o avançado: 'pronto,«pá»! Lá me «roubaste» as minhas queridas coroas', fazendo referência ao prémio pela vitória. Foi o primeiro de 284 golos que marcaria ao serviço da equipa principal do Benfica em 347 jogos.
José Torres jogou de 'águia ao peito' durante 12 épocas e conquistou 16 títulos. Saiba mais sobre o trajecto deste esplêndido jogador na área 23 - Inesquecíveis do Museu Benfica - Cosme Damião."

António Pinto, in O Benfica

Benfiquismo (MCCCXXIII)

Aos ombros...!!!

Chama Imensa... Selecção e o resto...

Banca perdoa dívidas ao Sporting e à clínica Maló. Perdão?

"Com tanta comissão cobrada aos clientes e perdões de dívida a empresas como o Sporting, os banqueiros ainda se admiram da reputação que têm. Comissão, perdão e reputação. Isto não é rima, é realidade.

Marcelo Rebelo de Sousa disse na sexta-feira, no encontro informal do Grupo de Arraiolos, que não está seguro de que os banqueiros tenham aprendido “as lições” da crise financeira. Não está seguro o Presidente da República, não estamos seguros nós e, aparentemente, nem estão seguros os próprios banqueiros.
Há duas semanas, numa conferência em Lisboa, Paulo Macedo, presidente da Caixa Geral de Depósitos, afirmava que iria demorar uma década até que a banca fosse perdoada pelas “asneiras” que fez no passado e, nesse mesmo dia, Miguel Maia do BCP reconhecia que a banca tem “imensa responsabilidade” naquilo que é a sua reputação, ou falta dela.
Esta tentativa de expiar os pecados da banca e de procurar o perdão dos contribuintes que gastaram biliões a salvar bancos mal geridos esbarra de frente com notícias de perdões de milhões que a banca dá a clubes de futebol e a clínicas dentárias de luxo. Já para não falar das subidas desalmadas das comissões.

O que o Sporting tem em comum com as clínicas Maló?
As clínicas Maló passaram anos a fazer branqueamentos dentários a políticos e estrelas de televisão e agora deixaram os credores com um sorriso amarelo e sem 40 milhões de euros. O Sporting não tem dado muitas alegrias futebolísticas aos seus adeptos, mas os acionistas da SAD andam com um sorriso de orelha a orelha por terem conseguido um perdão de dívida de 94,5 milhões de euros por parte do BCP e do Novo Banco.
Mas, afinal, o que têm em comum o Sporting e as clínicas Maló? Aparentemente nada. A única relação que encontramos é esta notícia do Correio da Manhã que escreveu, no ano passado, que o Sporting terá pago a conta de tratamentos dentários de alguns familiares do então presidente Bruno de Carvalho, precisamente nessa clínica Maló. Bruno de Carvalho foi precisamente o presidente do Sporting que negociou com a banca este perdão monumental de dívida, acordo esse que ficou fechado na semana passada.
Depois de ter chegado a uma situação de insolvência, e no âmbito de um Processo Especial de Revitalização (PER), o Jornal de Negócios noticiou que o Novo Banco aceitou perdoar 25 milhões de euros dos 51 milhões da dívida da clínica Maló à instituição bancária. Até aqui, o que esta história nos conta é que quem deu o crédito não acautelou as garantias necessárias e que a atual gestão está a seguir aquela máxima do “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”, ou seja, mais vale perdoar 25 milhões do que perder a totalidade dos 51 milhões emprestados.
Custa esta decisão, mas aceita-se do ponto de vista da racionalidade económica. O que não se aceita é a justificação que a instituição bancária deu: “o Novo Banco tenta apoiar, quando possível, soluções que preservem os postos de trabalho e a atividade de empresas em processo de recuperação”.
A função dos bancos, sobretudo a do Novo Banco, não é a de preservar postos de trabalho noutras empresas mas sim a de preservar o seu património com decisões de créditos ou de reestruturação de créditos racionais. Não é filantropia empresarial. Isto ainda é mais verdade para bancos como o Novo Banco que está, ele próprio, a ser alvo de ajudas públicas por parte do Estado e de outros bancos: já recebeu 4,9 mil milhões de ajuda em capital e está em vias de receber outros 3,89 mil milhões de garantias públicas para limpar os créditos problemáticos que tem no balanço. Com dinheiro dos outros é fácil ser-se generoso e mãos largas a perdoar aos devedores.

Um perdão de dívida de 70% não é um perdão, é caridade
Se o perdão de crédito à clínica dentária até pode ser compreendido do ponto de vista da racionalidade económica (o administrador de insolvência acredita que a empresa tem viabilidade financeira), o perdão à SAD do Sporting não se percebe, nem do ponto de vista económico, nem moral.
Ficou fechado na semana passada mais um acordo de reestruturação de dívida do Sporting ao Novo Banco e ao BCP e, dos 135 milhões de euros que a SAD devia à banca, apenas terá de desembolsar 40,5 milhões, ou seja, estamos a falar de um perdão de 94,5 milhões. Um perdão de dívida de 70% a troco de nada não é um perdão, é caridade.
No âmbito deste acordo, anuncia o Sporting à CMVM, a SAD conseguiu ainda que a banca baixasse a exigência do valor que o clube tem de colocar de parte sempre que vende passes de jogadores ou liberta cash flow (para pagar a dívida que ainda resta). Em troca do perdão e destas facilidades, a SAD terá regularizado as “obrigações pecuniárias vencidas” e que já estavam em incumprimento. Quanto? Ninguém diz. Provavelmente por vergonha.
Os VMOC (valores mobiliários obrigatoriamente convertíveis em capital) foram uma invenção da banca para empurrar com a barriga o problema da dívida do Sporting. Como já em 2010 a SAD não conseguia honrar os seus compromissos, a banca aceitou converter esse endividamento nos tais VMOC, que são instrumentos financeiros que podiam ser transformados em ações caso o Sporting falhasse o pagamento da dívida.
O primeiro VMOC foi feito em 2010, ainda no tempo de José Eduardo Bettencourt (no valor de 55 milhões) e o segundo em 2014, no âmbito de um novo acordo de reestruturação financeira (mais 80 milhões de euros). São estes VMOC que nunca foram pagos e que perfazem a dívida de 135 milhões que a banca aceitou agora perdoar em 70%.
Apesar dos VMOC permitirem à banca ficar com a maioria do capital do Sporting (que poderia depois vender, tal como fez com as clínicas Maló que foram alienadas a um fundo de ‘private equity’), o Novo Banco e o BCP nunca quiseram convertê-los em capital e preferiram antes perdoar a dívida do Sporting. E já foram vários os perdões:
a) em 2016 aceitaram alongar a maturidade desses VMOC em dez anos;
b) em 2014, como o Sporting não conseguiu encontrar o investidor privado que prometeu à banca para injetar 18 milhões de euros, foi a própria banca novamente a emprestar mais dinheiro;
c) e, finalmente, agora o Novo Banco e o BCP resolvem abdicar de receber 70% do dinheiro dos VMOC que o Sporting não pagou, sem sequer exigir em troca uma fatia do capital da SAD.

Perdão rima com comissão e reputação
O Estado, que detém 25% do capital do Novo Banco, devia exigir explicações sobre este negócio. Não faz muito sentido que os contribuintes andem a injectar milhões todos os anos no Novo Banco para depois o banco estar a dar perdões a clubes de futebol que são mal geridos e que não honram o serviço da dívida.
Para tapar os buracos que estes perdões deixam nos balanços, a banca tem pedido dinheiro público ou carrega nas comissões cobradas aos clientes. Se antes o negócio dos bancos era pedir emprestado e emprestar dinheiro, ganhando dinheiro com a diferença, ou seja, com a margem financeira, agora com os juros negativos o negócio mudou. A banca agora ganha dinheiro nas comissões que nos cobra para guardar o nosso dinheiro ou para que o possamos movimentar.
Ainda na semana passada o ECO noticiou que a CGD prepara-se para um novo aumento de comissões. Além de passar a cobrar pela utilização do MB Way, o banco público vai aumentar as comissões numa série de serviços: nas contas pacote mais baratas, nas actualizações das cadernetas nos balcões, no levantamento de dinheiro no balcão, no processamento da prestação da casa, na requisição de cheques e no aluguer de cofres.
Este aumento acontece depois de os portugueses terem injectado mais de 4 mil milhões de euros desde 2011 no banco público e numa altura em que a Caixa se prepara para apresentar lucros recorde (só nos primeiros seis meses do ano foram 417,5 milhões). Estamos a falar da Caixa onde as comissões ainda são das mais baratas. Imaginem-nas nos outros bancos.
Paulo Macedo disse que vai demorar uma década até a banca ser perdoada pelas “asneiras” que fez no passado. Com tantas comissões e perdões, se calhar os banqueiros vão ter de esperar mais do que uma década pelo perdão dos portugueses pelas asneiras que fizeram e que ainda estão a fazer. Com tantas comissões e perdões, admirem-se da reputação que têm. Ou melhor, que não têm. Isto não é rima, é a realidade.
Se é para ser filantropo não o sejam com as clínicas Maló ou com os Sportings desta vida. Sejam com os vossos clientes que estão a pagar comissões exorbitantes, nunca tiveram perdões de dívida, e muitas vezes nem sequer têm dinheiro para ir ver um jogo de futebol ou para ir fazer fazer um tratamento dentário."

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

O advogado do diabo Lage

"Em Outubro há já uma espécie de campanha contra Bruno Lage. O clássico provocou dúvidas na equipa campeã, a Europa acentuou as de dirigentes e adeptos, e os nomes de Samaris, Cervi e Zivkovic dão tom mais pesado à acusação. Lage não é diferente e carrega os vícios da profissão. Acredita na ideia e no trabalho que o fará vingar. A virtude, que é ao mesmo tempo defeito profissional, leva-o a aceitar termos sem pensar duas vezes, facilitando a vida dos dirigentes, que adoram percorrer caminhos em que nunca sejam responsabilizados.
O espírito crítico faz com que dê sempre o benefício da dúvida ao treinador. O do Benfica terá achado que não precisava de um novo Félix, mas curiosamente defendeu que Vlachodimos beneficiaria de alguém que com ele competisse pela baliza. Se isto continuar a fazer sentido então acreditamos que há capacidade de contratar para Portugal jogadores desta qualidade. Ou então é apenas demasiado fácil fazer saber que Lage não quis.
Tudo isto, em Outubro, é tremendamente absurdo. Uma aberração.
O plantel está montado apenas para consumo interno e, da última época para cá, perdeu dos melhores a jogar entre linhas como Félix, sofreu com as lesões de Gabriel e Florentino, e passou a sentir mais dificuldades em chegar ao golo, com a pior versão de Seferovic. E há ainda que esperar que a poeira assente. A inexplicável má forma de Samaris parece confirmar que a última época foi excepção e não regra, e Cervi luta muito para proteger Grimaldo, mas não dá profundidade com bola. Já Zivkovic ainda há muito a tentar convencer treinadores sem sucesso e talvez já tenha desistido de tentar. Só quem vê os treinos saberá.
Os que já não querem Lage sonharão com Jesus, que até teve plantéis bem mais ricos que o actual, e que ganhou mas também perdeu. Tudo isto, em Outubro, é tremendamente precipitado. Uma aberração."

Luís Mateus, in A Bola

A insustentável leveza da presidência

"No pós-João Rocha, sete (!!!) presidentes do Sporting não concluíram os mandatos. Uma forma de estar autofágica, que ameaça repetir-se

Os sinais que chegam de Alvalade apontam a forte possibilidade de haver eleições antecipadas, num clube que está partido a meio e não encontra forma de sararas feridas. Neste momento, com inimigos irredutíveis, vindos do brunismo e das claques, e com os seus votantes a vacilarem na militância, Frederico Varandas depende demasiado dos resultados da equipa de Jorge Silas, o que configura uma situação de extrema volatilidade. É evidente que a escassa vocação mediática do presidente também não ajuda a causa, e o desnorte visto na última assembleia geral, com beijos a voar para as bancadas, pinta bem o quadro de um clube à beira de um ataque de nervos. Mas, sejamos claros: há uma reestruturação financeira tornada pública (independentemente das queixas à CMVM...) e não valerá muito a pena persistir na identificação dos erros associados à construção da equipa de futebol, o que está feito, está feito. Acima de tudo, o Sporting precisa de estabilidade que decorrer do normal cumprimento das legislaturas. E, se a memória não me falha, no pós-João Rocha, Jorge Gonçalves, Pedro Santana Lopes, José Roquette, Dias da Cunha, José Eduardo Bettencourt, Godinho Lopes e Bruno Carvalho não concluíram os mandatos e o clube foi para eleições antecipadas. É essa situação, tão presente na vida dos leões, que agora volta a perfilar-se, com os danos que avanços e recuos sempre causam, especialmente numa conjuntura tão periclitante como o que é vivida em Alvalade.

Portugal, joga hoje, na Ucrânia e tem a possibilidade de carimbar já o passaporte para a fase final do Euro-2020, o que representará a sétima participação seguida das nossas cores neste certame, onde são contabilizados, neste período, dois terceiros lugares (2000 e 2012), um segundo (2004) e um primeiro (2016). Depois de uma arbitragem desastrada (a falta que o VAR fez...) no encontro com os luxemburgueses, que terá impedido Cristiano Ronaldo de atingir a marca extraterrestre de 700 golos em jogos oficiais de seniores, em Kiev volta a abrir-se uma janela para que tal feito seja alcançado com a camisola das quinas vestida. Sem que nada me mova contra a Juventus, era mais bonito assim...

PS - Rui Patrício voltou a Alvalade, um regresso de bom filho...

Ás
Ricardo Leite Pinto
Vice-chanceler da U. Lusíada, Mestre em Direito e Doutor em História, Ricardo Leite Pinto descobriu, na Torre do Tombo, numa pesquisa para uma tese sobre as publicações infantojuvenis no Estado Novo, um projecto, de 1952, de A Bola Infantil, que não chegou a ver a luz do dia. Grande contributo para a história do jornalismo...

Ás
Arthur Nory Mariano
O nível médio do desporto brasileiro subiu bastante, após a implementação do programa olímpico que culminou com os Jogos do Rio de Janeiro, em 2016. Ontem, em Estugarda, o atleta brasileiro Arthur Nory Mariano sagrou-se campeão do mundo de barra fixa, exemplificando a nova realidade canarinha pós Rio-2016.

Duque
Tite
Depois de conquistar a Copa América (7 de Julho de 2019) a selecção brasileira disputou quatro jogos, perdeu um (Peru) e empatou os restantes três (Colômbia, Senegal e Nigéria). Entretanto, Tite, que tirou o escrete da crise, dá sinais de desagrado pela política em torno da equipa e perdeu o estado de graça junto aos media.

Que mal fez José Alvalade ao Sporting?
«(Estádio Cristiano Ronaldo) é uma hipótese que não deixamos de lado e da qual obviamente teríamos muito orgulho»
Frederico Varandas, presidente do Sporting
José Alfredo Holtreman Roquette, neto do Visconde de Alvalade e conhecido como José Alvalade, foi fundador e primeiro sócio do Sporting Clube de Portugal. Em 1956, os leões homenagearam esta figura ímpar, dando o seu nome ao estádio que tinham acabado de inaugurar; em 2003, foi decidido manter a designação para o novo anfiteatro. Mudar agora de nome?

'Squadra azzurra' com pressa de qualificação
Quatro vezes campeã do mundo, também vencedora de um Europeu, a Itália foi a ausência mais notada do último Mundial, disputado na Rússia. Mas, com três jornadas de avanço, a squadra azzurra já marcou presença no Euro-2020 e os tiffosi suspiraram de alívio. A primeira missão de Roberto Mancini está cumprida...

O Homem da Maratona
O queniano Eliud Kipchoge, de 34 anos, correu a maratona de Viena em menos de duas horas (1.59.40h), quebrando assim uma barreira que parecia para lá dos limites humanos. É certo que teve um percurso escolhido a dedo, o apoio de 41 lebres, uns ténis futuristas e o ritmo marcado por tecnologia laser, pelo que a IAAF não homologou a marca como recorde do mundo. Porém, ficou a saber-se que a missão não é impossível e, mais ano, menos ano, numa maratona convencional, alguém dobrará este cabo das tormentas. A INEOS, um gigante da petroquímica, associada, no desporto, à vela e ao ciclismo, e a Nike, investiram neste projecto, de matriz Red Bull, 25 milhões de euros, uma ninharia quando comparados com o retorno mediático planetário que trouxe para as marcas."

José Manuel Delgado, in A Bola

Cangalheiros...!!!