Últimas indefectivações

sábado, 10 de dezembro de 2022

Um transtorno de 90 minutos


"Há muito que digo, por graça, que os adeptos da seleção – sobretudo os que afirmam que nem gostam propriamente de futebol, apenas destes momentos de fervor patriótico – são como condutores de domingo. Surgem de tempos a tempos, sem dominar bem a tarefa e ignorando até algumas regras básicas, mas são muitos, pelo que rapidamente provocam engarrafamentos desnecessários, com protestos mal informados como consequência.
Claro que têm todo o direito a participar da festa e até é nestes momentos que se ganham mais uns quantos adeptos definitivos, mas a maioria circulante provoca sempre ruído, muito dele inútil.
Acompanho Europeus e Mundiais há décadas e já me habituei ao trânsito. Vai em crescendo, a partir das manifestações iniciais de dúvida: se este caminho é melhor que aquele, se quem nos guia é fulano ou sicrano. Sempre em busca da solução fácil, do fator x que tudo explica e autoriza. E passa-se depressa da crítica gratuita à mitificação do herói. E vice-versa.
Em Portugal, então, é numa vertigem que se avança do «não jogamos nada» ao «vamos ser campeões do mundo». Voltou a acontecer na última semana. O treinador é à vez bestial e besta, como sempre, e glorificam-se ou atacam-se jogadores em função da tonalidade clubística que carregam desde a formação. Nem a pátria em chuteiras nos livra disso.
Os que cá andam por sistema, como eu, gostam de ter razão, que as exibições e resultados lhes confirmem os vaticínios. Mas é bem menos por isso que me agrada que esteja a correr bem desta vez, do que por se provar que afinal é possível ver Portugal jogar como equipa grande, colocando em campo, ao mesmo tempo, os maiores talentos que tem. É o gozo que dá. E há muito que ver Portugal jogar não dava tanto, na incomparável qualidade de Bernardo Silva, na capacidade de Bruno Fernandes para resolver qualquer jogo, na afirmação exuberante do génio de João Félix, na confirmação de Otávio como craque completo.
E tantos mais, que a partir do banco podem acrescentar na zona criativa, do meio-campo para a frente, onde verdadeiramente se determina se uma equipa é apenas boa ou tem qualidade extra. Claro que se perder com Marrocos, ou no jogo a seguir, ou até na final como nunca jogámos, lá se dirá que faltou quem defendesse naquele meio-campo, ausente de jogadores mais rápidos ou robustos. Fernando Santos será então acusado, desta vez, de excesso de ousadia. Não deixa de ser irónico.
Escreveu há um par de dias Juan Manuel Lillo, ex-assistente de Guardiola e um dos que melhor refletem sobre futebol, já a propósito deste Mundial: «às vezes penso que os 90 minutos são quase um transtorno para algumas pessoas, que só querem mesmo ou elogiar os vencedores ou dizer o piorio (talk shit, no original) de quem perde.»
Se Portugal acabar a celebrar - só aconteceu uma vez! – seremos todos parte daquele povo fantástico, conquistador e raro. Caso contrário, os culpados serão os de sempre, com o treinador à cabeça, sobretudo por não ter colocado Ronaldo mais tempo. E até o futebol, ele próprio, será de novo verberado por ter importância a mais num país como o nosso. Será quando acordaremos de novo para a realidade, ainda de guerra e inflação, como numa qualquer segunda-feira em que voltam a andar na estrada os do costume, obrigados ao percurso atribulado para o trabalho ou levar os filhos à escola em hora de ponta.
Os domingueiros da bola, com posts mais ou menos populistas, hão de voltar numa próxima oportunidade. Porque, até lá, cada sequência de 90 minutos é uma canseira para eles."

Não é futebol, é política e da boa!


"É sempre da boa, o que me recorda episódio do Brasil da ditadura militar, durante o Mundial de 1970. Era importante para o regime que o Escrete, com Pelé à cabeça, conquistasse o Tricampeonato. Para a oposição comunista, na clandestinidade, era importante que o México 70 corresse muito mal aos canarinhos. Conta um desses clandestinos, que assistiu ao jogo da final num apartamento de São Paulo, queria que perdessem e quando o Brasil marcou foi para a janela, deu três tiros para o ar e gritou em lágrimas "puta que pariu, como é bom ser brasileiro!"
O Portugal-Marrocos de amanhã, descascado à margem das mialgias e dos 4x3x3 mais os alas, em tudo espelha a importância política do futebol para ambos os regimes. Ou porque será que o Presidente Marcelo se mantém em campanha sem hipótese de um terceiro mandato? E tudo e tudo e tudo, que todos/as estamos sintonizados/as domingo à noite com o que vale a pena ver da encenação, primeiro com os comentários de Marques Mendes e depois com o ritmo e a poesia de RAP, Ricardo Araújo Pereira. Ou seja, já só vemos o compacto da semana, o melhorzinho, apresentado pelos maiorzinhos!
Os Leões do Atlas, a Selecção Marroquina de Futebol, também tem peso semelhante, duplo, talvez triplo até em Marrocos. Porquê?
Porque as vitórias desta equipa, todas elas e nós temos o exemplo do México 86, aliás uma referência na memória colectiva de todos/as súbditos/as esses 3-1 de Guadalajara! Dizia, porque as vitórias desta equipa, todas elas, são fruto de um trabalho colectivo maroco-marocain! Quero dizer, os resultados de uma equipa são sempre fruto do colectivo, mas no caso marroquino escala para múltiplas dimensões. Há a dimensão da perspectiva da equipa mais pobre face aos milionários galácticos que vão defrontar, cuja referência bíblica David e Golias tem lastro no Islão. Ganhar, começando com prolegómenos de base na força divina, "Morra Sansão e todos os que aqui estão!" Um primeiro sintoma de Comunidade inabalável, até porque está tudo a passar na TV.
Depois há a perspectiva da bipolaridade, com amazighs a evidenciarem a berberidade de Marrocos com base na berberidade da Selecção e os árabes a fazerem o mesmo, mas no seu sentido, evidenciando o facto de nunca nenhuma equipa árabe ter chegado tão longe num Mundial. Os amazighs levantam a bandeira de África e de ser a única equipa em representação do continente nesta fase final da competição. Outra responsabilidade, afinal os leões estão todos em África! Todos ganham, porque é tão bom ser-se brasileiro como tão bom ser-se marroquino!
O ponto alto das comemorações da noite de terça-feira, foi O Unificador superlativo, o Monarca quando saiu à rua para comemorar com o seu povo. As redes sociais invadem-se de pequenos vídeos de diferentes ângulos desse momento e passasse a comemorar logo a próxima vitória, que já não se aguenta com tanta alegria!
"Futebol é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer!"
O "desatino desta dor" na vitória face à Espanha, é o agridoce da vingança do ex-colonizado sobre o principal parceiro comercial. Já o jogo com Portugal terá no cenário uma batalha naval entre bons piratas, velhos amigos, que verão comemoração na Baia de Salé, onda uma Aisha Qandisha está sempre à espreita!"

Ronaldo não pode sair pela porta pequena. Só depende dele


"Ronaldo não precisava de jogar os 90 minutos de todos os jogos, não precisava de “exigir” que todos jogassem para si, até para bater mais recordes. Apenas precisava de mostrar uma disponibilidade total para a equipa, estando dentro ou fora do campo.

O que se está a passar com Cristiano Ronaldo é lamentável e o jogador deve estar a ser muito mal aconselhado, pois só isso justifica que tenha escolhido um caminho que tem a porta da saída no abismo. O homem que deve ser dos mais conhecidos do mundo, que foi considerado o melhor jogador do planeta por cinco vezes, que ganhou títulos atrás de títulos, marcou golos de todas as maneiras e feitios, sujeita-se a sair pela porta pequena, quando este Mundial podia ser o da consagração da sua brilhante carreira - Cristiano ficará na montra ao lado de Pelé, Maradona, Messi, Di Stefano ou Eusébio, embora o craque madeirense tenha muito mais títulos e campeonatos mundiais do que o Pantera Negra.
Ronaldo não precisava de jogar os 90 minutos de todos os jogos, não precisava de “exigir” que todos jogassem para si, até para bater mais recordes. Apenas precisava de mostrar uma disponibilidade total para a equipa, estando dentro ou fora do campo. Os comentários de familiares, que não são da sua responsabilidade, como é óbvio, revelam bem o que pensa Ronaldo: ainda se acha o melhor do mundo e quer ser tratado como tal. Acontece que a seleção portuguesa tem jogadores geniais que estão no auge da sua carreira, ao contrário do capitão, que vê o fim aproximar-se, nem que seja na Arábia Saudita. Por mais dura que seja a realidade, Mbappé, por exemplo, está a quilómetros de Ronaldo como este estava a quilómetros dos jogadores que vinham atrás de si, excetuando Messi, quando estava no auge.
O jornal espanhol a A Marca dava ontem conta que chegou a hora de Bruno Fernandes e Bernardo Silva ditarem as suas leis e não querem mais sujeitar-se às obsessões de Ronaldo. A forma como estes dois festejaram os golos de Gonçalo Ramos foi reveladora do que pensam que é o melhor para a seleção - Bruno Fernandes até fez a brincadeira de “roubar” o prémio de melhor jogador ao avançado centro. E como a equipa subiu com Ronaldo no banco...
Já Ronaldo abandonou o campo sozinho, não festejou efusivamente todos os golos e tem no rosto toda a amargura do final de carreira - e até pode jogar mais dois ou três anos e fazer brilharetes. Mas o único jogador sem clube que está no Mundial pode e deve perceber que o passado brilhante não pode ser manchado com birrinhas e ordinarices. Que aproveite o que falta do Mundial para conseguir levantar a única taça que lhe falta: a de campeão do mundo. Isso sim, será uma bela despedida e uma justa homenagem a tudo o que fez em campo."

Anti anti-Cristiano Ronaldo


"O Portugal-Suíça provou que é possível continuar a gostar da Seleção Nacional, de futebol e não menosprezar Ronaldo. Nem mesmo este. E se Portugal ganhar, com Ronaldo suplente, que seja.

É possível glorificar o papel de Ronaldo no futebol português e na mesma frase criticar os seus últimos meses.
E se, por mera casualidade e sem qualquer dose de anti-patriotismo ou anti-ronaldismo, muitos daqueles que criticam o Cristiano Ronaldo que está no Catar o façam só baseados no desempenho que ele tem apresentado no Mundial"2022? Considerando, ainda, que dificilmente poderia fazer melhor depois de uma pré-época inexistente e meses de conflito no Manchester United.
Talvez seja possível não virar as costas ao melhor jogador português de todos os tempos e considerar veemente que esse mesmo craque desatou - e nem se percebe bem porquê - a rematar sempre ao lado. Especialmente fora do campo e, soube-se ao minuto 66 do Portugal-Coreia do Sul, igualmente dentro.
Porventura, é possível não minimizar o papel de Ronaldo para o futebol português e na mesma frase acrescentar que aquilo que ele disse dirigido a Fernando Santos foi, no mínimo, reles. O mesmíssimo treinador que menos - porventura, nunca - questionou a grandeza de Ronaldo fora e dentro das quatro linhas.
Posto isto, não é preciso ter o doutoramento em futebol que João Félix exige a quem fala sobre a Seleção, para concluir que nem a "especificidade" de Marrocos pode levar o selecionador a trocar Gonçalo Ramos por Ronaldo. Fazendo com que o autor de um incrível hat-trick regresse ao lugar que muitos acham reservado a 25 jogadores - agora 23 - da Seleção Nacional: a sombra de Ronaldo.
O Portugal-Suíça provou que é possível continuar a gostar da Seleção Nacional, de futebol e não menosprezar Ronaldo. Nem mesmo este. E se Portugal ganhar, com Ronaldo suplente, que seja. Prefiro isso a 500 milhões de seguidores no Instagram ou a um programa de humor na SIC."

Porque Ronaldo é Ronaldo?


"É egoísta? É. Mas se não fosse não teria chegado onde chegou. E isso está a findar, como tudo. 

Ao longo das últimas semanas, muitos se têm questionado a respeito das atitudes de Cristiano Ronaldo. Ora invetiva o treinador que o substitui, ora não comemora junto dos colegas as façanhas da equipa e recolhe ao balneário isolado, anda sozinho, carrancudo, de rosto fechado. Parece contrariado e infeliz, as coisas não lhe correm - não é de agora - como correram durante largos anos em que pulverizou muitos recordes do mundo do pontapé na bola. Porém, este lado lunar não é mais nem menos do que a outra face de Cristiano Ronaldo: um jogador perfeccionista, devoto em ser o melhor e sempre o melhor, que aprimorou todas as dimensões do seu jogo, e desse modo, ergueu-se ao panteão dos maiores aríetes. Um jogador que rejeita não ser o melhor, o centro das atenções, a figura que todos os olhares atrai e que leva o espetador a pagar bilhete para o ver. É egoísta? É. Mas se não fosse não teria chegado onde chegou. E isso está a findar, como tudo. Isso não nos torna menos gratos ou menos seus admiradores, leva-nos apenas a colocar a seleção onde deve estar, acima de tudo.
No fim de contas, é a personalidade invulgar de CR7, a sua extraordinária persistência, a convicção com que se bate por cada objetivo que aos olhos dos demais parecem inatingíveis, que o levam a exibir este retrato mais sombrio, no momento descendente da sua carreira. Ronaldo quer ser sinónimo de história. Por isso, luta por mais um golo, uma assistência, com o fito de ver o seu nome cravado à imortalidade. E isso é notável, mas pode ser muito frustrante.
Ronaldo ainda pode ajudar. Ronaldo pode liderar. A equipa precisa dele, como em 2016, fora de campo, mas omnipresente."

BandSports: Suíça...

9 de Dezembro


sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Vitória...

Riba d'Ave 3 - 6 Benfica

Ainda não recuperámos a forma no pós-Mundial, continuamos a desperdiçar Bolas Paradas, mas acabámos por vencer, agora o resultado não espelha as dificuldades que tivemos...

Emoção...

Benfica 5 - 4 Ferreira do Zêzere

Mais um jogo, disputado abaixo do desejável, mas com a equipa a não desistir, e apesar de todas as limitações, a conseguirmos ganhar... com um grandíssimo golo!!!
Aliás, apesar da qualidade do jogo jogado, os golos foram quase todos, grandes golos!!!
E por incrível que pareça, defendemos a liderança com a vitória!!!

Vitória...

Benfica 3 - 0 Viana
25-17, 25-18, 25-21

Fim da 1.ª fase com vitória, e com muita rotação...

Derrota na Bélgica...

Namur 72 - 56  Benfica
18-9, 23-13, 18-10, 13-24

A ausência da Compal (AC Rodrigues), está a ter muito impacto na eficácia da equipa, mas hoje, com o primeiro lugar já garantido, acabámos por 'facilitar' demasiado!!!
O pior jogo da época, por larga margem...

A Carrinha do Bento


Grande vitória


"Magnífica exibição da nossa equipa feminina de futebol na Suécia, frente ao Rosengard, coroada com um excelente resultado e esperanças intactas de passar a fase de grupos da Liga dos Campeões. Este é o tema em destaque na News Benfica, na qual também chamamos a atenção para os vários jogos hoje.

1
Perante as muitas dificuldades expectáveis na visita ao 12.º classificado do ranking europeu de clubes da UEFA, o Rosengard, as Inspiradoras não se atemorizaram, exibindo-se a um excelente nível. O 1-3 parece curto face à inegável superioridade patenteada pelas comandadas por Filipa Patão ao longo dos noventa minutos.
A nossa treinadora elogia a exibição e a reação à desvantagem no marcador contra a corrente do jogo: "Começámos bem, mas não concretizámos as oportunidades criadas e acabámos por sofrer um golo num remate em que a bola bateu numa jogadora nossa. Mas a equipa demonstrou um grande caráter, reagimos bem e conseguimos estar por cima do jogo e do resultado."
Após este triunfo voltámos a ascender no ranking de clubes da UEFA, ocupando agora, durante apenas a terceira participação europeia, a 23.ª posição.
Veja o resumo da partida no site oficial.

2
A nossa equipa feminina de hóquei em patins consolidou a liderança isolada da zona sul do Campeonato Nacional ao vencer o Stuart Massamá, por 4-2.

3
A equipa principal de futebol está de regresso. Ontem houve sessão dupla de treino, imperando a intensidade e o empenho após alguns dias de descanso. Veja o vídeo, aqui.

4
Hoje temos diversos jogos para acompanharmos e apoiarmos o nosso Benfica.
A equipa feminina de basquetebol, já apurada para os 16 avos de final da FIBA EuroCup Women, visita o Belfius Namur Capitale, da Bélgica, às 19h30. À entrada para a quinta jornada, com quatro vitórias obtidas, lideramos isolados o grupo G.
Na Luz há voleibol e futsal. Às 14h00 recebemos o VC Viana em voleibol. A equipa feminina joga às 18h00, na Luz, frente ao Clube K. Às 19h30 é a vez de entrarmos em ação no futsal, com a receção ao SC Ferreira do Zêzere. No hóquei em patins temos a deslocação ao Riba d'Ave (18h30).

5
O Benfica voltou a organizar Campos de Futebol na Califórnia, nas cidades de Fresno, Livingston e Sacramento, nos Estados Unidos da América, nos quais participaram cerca de 120 jovens jogadores. Este tipo de iniciativas é parte integrante da metodologia de formação do Benfica, sobre a qual relembramos que pode conhecer mais em detalhe através do notável documentário "Benfica: fábrica de sonhos", disponível na Prime Video, da Amazon."

O que esperar do SL Benfica na segunda metade da época?


"O campeonato do Mundo de futebol já vai a mais de metade e, aos poucos, os jogadores vão regressando a casa e, consequentemente, aos seus clubes para retomarem a sua rotina, uma vez que vão sendo eliminados. O Sport Lisboa e Benfica tem, ou teve, seis jogadores que estão nos seus quadros a representar as suas seleções, sendo que apenas um deles foi eliminado da competição até à data.
A Dinamarca de Alexander Bah foi, a par da Alemanha, uma das maiores desilusões, para mim, deste mundial. Após terem alcançado as meias-finais do último campeonato da Europa, caem na fase de grupos do Mundial sem mostrar a sua verdadeira capacidade.
Quanto aos outros cinco, é possível que regressem ao SL Benfica apenas no final da competição e sem ofensa a Enzo e a Otamendi, mas que seja João Mário, Gonçalo Ramos e António Silva a celebrar no dia 18 de dezembro!
Voltando ao caso em questão, resta perceber como será o Sport Lisboa e Benfica depois desta competição de seleções que, de forma tão atípica, decorreu a meio da temporada de clubes. Estará a equipa/plantel em modo “rolo compressor” como vinha a ser até à pausa?
Infelizmente, tenho as minhas dúvidas. Acredito que a equipa encarnada acuse esta quebra e isto se venha a notar no seu rendimento, mas acredito ainda mais na capacidade de Roger Schmidt em reacender a chama que o Benfica emanava cada vez que entrava em campo.
Certamente que ninguém se esqueceu de como jogar futebol, obviamente, mas tanto tempo de paragem a meio da temporada não é normal nem nunca tinha acontecido. É uma incógnita o que estará para acontecer e resta acreditar que será o mesmo Benfica a entrar em campo dia 30 em Braga.
Quem tem visto os jogos da Taça da Liga sabe que não tem sido a mesma coisa e é mais que normal. Faltam ali uns quantos titulares indiscutíveis no XI e é natural que a equipa se ressinta em termos exibicionais, embora o resultado tenha sido mais do mesmo.
Contudo, abriu-se caminho e deu-se espaço a jogadores que de outra forma não iriam poder mostrar que merecem estar no plantel das águias.
É tempo de reestruturar e perceber quem está bem e com quem pode contar o técnico alemão. Acredito plenamente que em janeiro haverão mexidas no plantel e que alguns excedentários estarão na porta de saída. Espero ainda que não hajam saídas de “pedras” essenciais no xadrez de Schmidt e sobretudo que o balneário continue unido, aconteça o que acontecer.
O Sport Lisboa e Benfica já demonstrou esta temporada que consegue jogar ao mais alto nível e que está preparado para qualquer situação, mas num ano tão atípico como este, esta pausa para competições de seleções nacionais veio dar mais instabilidade e incerteza que um período de descanso e reconstrução para os encarnados.
Se o SL Benfica ia embalado pelas vitórias e pelo “Roger Ball”, resta perceber se vais ser capaz de replicar tudo o que fez até aqui e continuar nesta senda de bons resultados."

Modalidades #107 - Semanada...

Kika, Dancing Queen!!!

Carta de João Malheiro a Eusébio


"Meu querido amigo:
As saudades são tantas, tantas mesmo. Que falta fazes aqui! Com o teu carisma magnético, com a tua experiência, com as tuas opiniões.
O nosso Benfica está bem, vive um grande momento, depois de um já longo pesadelo. Imagina que está há 27 jogos consecutivos sem perder! Nem no teu tempo houve igual registo. Ainda nada ganhámos, mas estamos no bom caminho. O treinador é excelente, a equipa consistente e talentosa, os adeptos estão felizes. E, claro, o presidente é o Rui Costa, que foi treinado por ti nos infantis do Benfica. Sei o orgulho que sentes, quando vez um ex-jogador na cadeira da presidencial. Sempre me disseste que um dos pecados do futebol era haver dirigentes que percebiam pouco, que dirigiam clubes como se de empresas normais se tratassem.
Agora, estamos em tempo de Mundial. Depois da espetacular vitória sobre a Suiça, temos Marrocos nos quartos de final. Em 66, foi a Coreia do Norte, naquele jogo épico que resultou na maior reviravolta de sempre, com quatro golos da tua autoria.
Nem de propósito, sabes que ainda és tu, desde a década de 60, o recordista de remates enquadrados à baliza? Foram 9 com os coreanos. Pode dizer-se que tinham pouca expressão futebolística, apesar de terem eliminado a Itália ainda na fase de grupos. Pois bem, na lista, aparece o grande Maradona, com 8 remates. E sabes quem é o terceiro? Outra vez tu, mercê dos 7 remates frente ao Brasil, que era bicampeão mundial.
Outra coisa que se vai dizendo é que, no decurso da tua carreira, Portugal só foi a uma fase final de um Mundial. Acaso saberão que, nesses tempos, apenas 16 equipas disputavam o certame e só 8 o Europeu? Apenas o primeiro classificado na fase de qualificação era apurado. Se continuasse assim, este ano, por exemplo, não estavamos no Qatar, porque ficámos atrás da Sérvia. Tu sorris? Eu entendo. É que também nunca jogaste contra Andorra, Gibraltar, Liechtenstein ou quejandos.
Outra coisa irritante são as comparações, sobretudo entre ti e o também nosso Cristiano Ronaldo. Já nem falo do recorde de golos na Selecção. Tu fizeste um Mundial e marcaste 9, o Ronaldo vai no quinto e contabiliza 8. Sei que, por ti, até porque te conheço bem, gostarias que o Cristiano Ronaldo marcasse mais golos, escrevo no plural, a bem das insígnias que defendeste com devoção quase evangélica. Tal como estiveste, carregado de orgulho, em cerimónias de consagração do Ronaldo com Bolas ou Botas de Ouro, até na apresentação dele no Real Madrid. Como fizeste com o Gomes e o Figo, sempre com o teu abraço amigo, para já não falar da enorme amizade que cultivaste com o Yazalde.
Mas, meu caro, deixa-me dizer, mesmo que não queiras: a tua média de golos, na Seleção é superior à do Ronaldo, para não falar do Pauleta.
E lembro as sete (!) operações que fizeste aos joelhos, as vezes que jogaste infiltrado (quanto deves ter sofrido!), só para o Benfica e a Seleção dilatarem o cachê, para já não falar da bola que não era impermeável, dos pelados, de treinos desajustados, de assistência médica insuficiente. Hoje fico por aqui, certo de que, nesta altura, torces muito por Portugal, esperando que possa chegar à final e ultrapassar a magnífica epopeia de 66.
Sei que a tua família está bem. Os teus netos, então, cresceram tanto e estão muito bonitos. Os melhores amigos falam sempre em ti. O Hilário vai andando, embora apareça poucas vezes. Sei quanto sofreste, ultimamente, com as despedidas do Chalana, do Gomes, do Jordão. A vida, por vezes, é cruel.
Este teu amigo pensa em ti todos os dias ou não fosses o meu ídolo e o maior herói popular do século XX português.
Com tanta gratidão quanto tanta saudade.
João Malheiro"."

Catarses 2️⃣3️⃣ Carta aberta a Fernando Santos


"“Vivos, mortos ou no mar” - estas eram as opções da roleta russa existencial dos marinheiros de antanho. Assim, também a vida das grandes figuras do futebol enfrenta permanentemente três possíveis “status quo post bellum”, como os rebuscados de Latina se referiam aos resultados das guerras: seguir em frente, ser eliminado ou ficar à mercê de um tiro no escuro.
Esta é igualmente a história de Fernando Santos, o treinador português de maior sucesso, Capitão de Mar-e-Guerra do Europeu, Comodoro da Liga das Nações e possível Almirante do Mundial. Quando enfrentou estes mares raramente navegados, conseguiu sempre encontrar o caminho de regresso, com mais ou menos enjoos, e agora lá vai ele outra vez, nas águas cálidas do Golfo Pérsico, com meio caminho andado desta circum-navegação virtual dos tempos modernos, do banho nas costas selvagens do Gana ao sobreaquecimento dos glaciares da Suíça, voando com os “pássaros pintados” do Uruguai ou perdendo por momentos o azimute no paralelo 38 da Coreia.
Seguro ao comando, sem receio do naufrágio futebolístico, que bela viagem está fazendo, senhor engenheiro - permita-me que o trate assim, pela primeira vez, nestes meus desabafos catárticos com que tento disfarçar a ansiedade obsessivo-compulsiva de ainda estar vivo para ver Portugal ganhar um Mundial.
Durante anos, milhares de sábios da bola, taxativos e presunçosos, apontaram-lhe os erros, as faltas de coragem, as dependências, a invejável sorte, recusando-se reconhecer-lhe o mérito pelos resultados bons e responsabilizando-o pelos maus - como se o futebol tivesse de ser preto ou vermelho, par ou ímpar, sem meio termo, de perder a cabeça, sim ou sim.
Lembra-me a personagem central da autobiografia daquele outro engenheiro de São Petersburgo, dado às filosofias e que trabalhou como preceptor, uma profissão parecida com a de treinador de meninos ricos e mimados, o grande Dostoievski, em “O Jogador”, tentando recuperar a auto-estima, a fortuna perdida e o amor não correspondido, num mundo frívolo e egoísta de generais e barões de pacotilha, nos casinos de Ruletemburgo.
O futebol consegue ser ainda mais surpreendente do que uma roleta aleatória, pois não depende da sorte da vida nem do azar da morte, mas do tal terceiro “status”, o da sabedoria de ler as cartas, sejam de jogar ou de marear, e de manter a mão quente e a cabeça fria, tanto ao leme como no carteado.
Caro engenheiro, temos em comum a amarga experiência profissional de qualquer leigo saber mais do que nós, ter mais certezas do que nós, ser presumidamente mais competente do que nós. Jornalistas e treinadores de futebol - e árbitros também - são as profissões mais fáceis e desqualificadas, as únicas em que os “caçadores de cabeças” dos recursos humanos desprezam em vez de promover e despedem em vez de confiar, com a certeza científica do marinheiro que levanta o dedo indicador molhado de saliva para perceber a direcção do vento.
Tenho de ser, portanto, solidário com o seu trajeto. Estou farto de me irritar com as suas opções, mas tento reconhecer que talvez não pudesse ser de outra maneira. Ou podia?
É que - e espero que algum dos basbaques das conferências de imprensa de Doha lhe venha a fazer essa pergunta - falta-me entender por que razão não fez as alterações desta semana mais cedo, há uns quatro ou cinco anos, quando tantos começaram a alvitrar que a soma da qualidade individual dos jogadores era muito mais valiosa do que a produção da equipa.
Por que não atalhou a rota mais cedo?
Por que foi deixando rolar o tambor até ficar testa a testa com a última bala? Não gosto nem quero associar este triunfo histórico sobre os suíços a um golpe de sorte, prefiro até pensar que as decisões tenham saído de algum conselho divino, e sei o que lhe custaram, imaginando que dobrar o ego de Cristiano Ronaldo provoque mais suores frios do que encarar o Adamastor.
E curvo-me pela sua capacidade de orientação quando me lembro que tantos aventureiros se perderam nos mares sem encontrar o rumo de regresso a bom porto.
Parabéns pela vitória, mas trate de reforçar o actual “status quo ante bellum”, o estado em que as coisas estão antes de nova batalha, liderando com mão firme, sem margem para desvios caprichosos, aqueles a quem, no próximo sábado, compete remar contra as correntes adversas das praias de Arzila, vencer finalmente Alcácer-Quibir e regressar à pátria como reis nestas manhãs frias e húmidas de dezembro.

P.S.: Por um bem maior, abro uma trégua na questão da FEMACOSA. Mas não está esquecida."

Catarses 2️⃣2️⃣ “Nóóóóóós”, o grito do Catar


"Foi há precisamente 200 anos (1822) que D. Pedro, entre a espada e a parede, nas margens de um riacho paulista, proclamou o grito de “independência ou morte” que estabeleceu a libertação do Brasil, mais tarde imortalizado como “Grito do Ipiranga” numa tela a óleo cujo título acabou por se converter em “passe partout” linguístico.
O líder da FEMACOSA, cuja ligação ao reino da Federação também já teve melhores dias e estava encostado na parede, é bem menos dado a posições extremistas do que o príncipe trânsfuga, mas como diz o povo a ocasião faz o malandro. E como a seleção precisava de um “grito do Catar” que libertasse de vez, das amarras do futebolisticamente correto, o génio dos seus jogadores para a malandrice!
Por seis vezes o grito ecoou à distância do Rei “traído”, Sua majestade Cristiano Ronaldo. Mas já não o seu “Siiiiii” mundialmente famoso a sonorizar o salto com meia pirueta conhecido como “estou aqui”, sozinho como Narciso, à frente dos espelhos de todos os fotógrafos do mundo.
Desta vez, ouviu-se um coro bem ensaiado de “Nóóóóóós”, que o líder já anunciara, antes do primeiro jogo desta campanha, ser "a única palavra escrita no balneário” - uma retórica a que os cépticos não reconheceram importância.
Mas foi realmente o que se sentiu por cada proeza do mundialmente desconhecido Gonçalo Ramos e dos seus patronos, transformando o ícone mediático em nada mais que um “wally” anónimo no cacho dos festejos dos golos de Portugal, poucos minutos depois do momento chocante em que todas as câmaras do Catar viraram costas à seleção perfilada, para gravarem o insólito quadro do protagonista sentado à margem do palco - tal como o pintor brasileiro imortalizara a cena da fundação do Brasil.
“Onde está Cristiano Ronaldo?”, perguntámo-nos, surpreendidos por uma sequência de festejos de golo em que ele não era a personagem central, nem orquestrava a coreografia.
Julgamos conhecer as pessoas, mas, à mínima distracção, elas deixam-nos sem palavras com decisões que considerávamos impossíveis. É neste estado catártico que me encontro há horas, tentando entender o que se passou no quartel-general da FEMACOSA antes do jogo com a Suíça.
Até um treinador a quem anos e anos de decisões timoratas e controversas tinham moldado um perfil de ganhador sem saber como, na realidade, pode um dia abusar da sorte e fazer o seu “all in” de afirmação, surgindo à porta da história como um novo D. Pedro em revolta contra o poder dos Reis do futebol português.
Quem mais se vai atrever a sugerir de novo que as suas decisões são meras formalidades pelos interesses do Principe Regente Jorge Mendes e da sua Corte de “yesmen” bem instalados?
A vitória sobre a Suíça foi apenas um primeiro passo revolucionário, a precisar de confirmação, mas faz sonhar com uma nova seleção, livre, criativa, fecunda e inspiradora que, no fundo, todos sabíamos que existia por dentro daquela prisão mental que a bloqueava pelo medo de ser feliz.
Parece que no final, ainda houve um último estertor de individualismo do capitão fantástico, uma tentativa de roubar o foco no regresso ao balneário, à parte do grupo de "Nós" em festa, mas nessa altura já era inapagável o brilho intenso desta geração de diamantes encrustrados nas jóias douradas da geração anterior.
Foi apenas uma revolução, não está tudo bem, não somos campeões do Mundo. A dignidade da independência é um caminho das pedras interminável que é preciso calcorrear com a mesma determinação e coragem com que os antepassados de Gonçalo Ramos conquistaram os Algarves à ameaça marroquina em batalhas bem mais encarniçadas do que a rendição das tropas em Pernambuco, esburacadas como queijo suíço.
Mas nunca será apenas sorte.
Nem mera gestão de orientações alheias.
Quanto muito, uma epifania transcendental de quem acredita em forças e desígnios superiores.
Seja o que for, obrigado.
“Siiiiii”!"

BF: Ramos...