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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Pedri e o pai, penáltis de amor


"O PENÁLTI. Pedri tem o futebol nos pés e o coração no lugar certo. Foge da tragédia a que chamamos futebol moderno, de bisturi nas mãos e a gratidão no pensamento.
Na relva, coze e costura o estilo prêt-a-porter do Barcelona e de Espanha, um casual chic prático e vencedor. Estampa a inteligência num passe de morte e a classe num beco aparentemente sem saída. Um craque.
Aos 23 anos, percebe o peso da memória na obrigação catalã de bem jogar e os ares da revolução tiki-takiana na La Roja – que a Fúria repouse em paz
Mais importante ainda: Pedri é, além de um tremendo futebolista, um extraordinário filho.
Um filho a quem a fama e a moda não roubam o chão: antes de ser o Pedri do Barcelona, Pedri era só o filho de don Fernando González.
Em Tegueste, pequena urbe em Tenerife, todos os conhecem. São respeitados por saberem respeitar, são queridos por se fazerem querer. E estimar.
Quando a família crescia e o dinheiro encolhia ao fim do mês, don Fernando tomou a mais difícil das decisões: abdicou do seu maior sonho.
A mulher ter-lhe-á exigido juízo. Os treinos noturnos, nas balizas enlameadas e de luvas mal calçadas, foram cancelados. Havia filhos e outros sonhos, prioritários: os sonhos dos pequenotes.
O avô de Pedri morreu, a cafetaria da família ficou sem dono e os treinos do próprio Pedro faziam-se tarde e a más horas. A lógica triunfou sobre a utopia.
Fernando deixou de agarrar bolas e agarrou-se ao volante, à máquina de café, ao balcão e às tortilhas.
Esse sacrifício acabou há alguns anos.
O sucesso de Pedri deu descanso aos pais. E devolveu don Fernando às balizas.
Após cada troféu conquistado, o ritual repete-se. Fernando assume a porteria e o filho remata-lhe a bola para as mãos, para que o pai voe e sonhe - por uns segundos - com o que poderia ter sido um dia, se a vida em Tegueste fosse diferente.
Em New Jersey, a cena foi particularmente bonita.
Pedri, novel campeão do mundo, afastou-se dos colegas e chamou o pai. Don Fernando avançou para a baliza onde Ferran Torres, minutos antes, marcara a Dibu Martinez. E voou.
Seja qual for a bola, a velocidade do pontapé ou o estádio, Fernando defende sempre. Afinal, não há paradas impossíveis para quem agarra o amor de um filho.

A FINAL. Permitam-me a derradeira vénia a Lionel Andrés Messi Cuccittini. Rodeado de banalidade e aspereza, o génio de Rosario caminhou de cabeça baixa, em sentida solidão, até à porta de saída do gigantesco MetLife Stadium.
«Mostrem-me um herói e escreverei uma tragédia», anunciou um dia F. Scott Fitzgerald, criador do The Great Gatsby e de outras epopeias de ascensão e queda.
Messi não merecia a ignomínia desta final, o peso de uma Argentina sem remates, sem futebol, impotente e vazia.
É possível amar o legado de dois génios (Leo e Diego Armando Maradona), de duas divindades, e execrar este grupo liderado por Scaloni? Sim, mil vezes sim.
O selecionador teve o mérito de escolher as ferramentas adequadas para entregar Leo Messi ao Olimpo em 2022, e até esteve perto de repetir o feito, só que perante a elite da Espanha Delafuentista as suas limitações foram sofríveis.
É impossível ver esta final de 2026 e não encontrar reminiscências de 1990, de uma Argentina maradoniana, batida pela RFA na final do Italia90. Uma Argentina também liderada por um D10S, mas castigada pela vulgaridade de apóstolos efervescentes e limitados.

DE LA FUENTE. Mérito total de uma enorme Espanha, onde o selecionador sereno não cede a pressões clubísticas (nem um jogador do Real Madrid nos convocados) e onde a diversidade vai do País Basco às Canárias, da Catalunha à Andaluzia, até ao Gana (Williams) e a Marrocos (Yamal).
Uma Espanha onde os futebolistas, quase todos, ostentam consciência social e política.
Daí ter sido especialmente conciliador, e uma luz de esperança, ter visto no pódio da final tantos deles a desprezarem, na indiferença e no desvio de olhares, aquele pateta que desconhece o significado de um cartão vermelho.
Na língua de Cervantes, o argentino Jorge Valdano, poeta e goleador de ironias, diria que «o futebol é um estado de ânimo» e que esse espírito decreta opções e caminhos.
Se assim for, a esta Espanha só lhe resta a Gran Vía da Eternidade. Um colosso!"

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