"Houve um tempo em que entrar no Estádio da Luz era entrar num autêntico vulcão. O velho lema "Inferno da Luz" não era apenas uma expressão feliz; era uma realidade. As bancadas rugiam, o relvado tremia e os adversários percebiam, desde o apito inicial, que tinham noventa minutos de sofrimento pela frente. Jogar na Luz era enfrentar doze jogadores.
Hoje, infelizmente, o inferno mudou de significado. Continua a haver "inferno", mas agora é um inferno de luxo.
Os Red Passes nasceram para premiar a fidelidade e aproximar os adeptos do clube. Em muitos casos, acabaram por se transformar num símbolo de estatuto. Para alguns, o Red Pass deixou de ser um passe de entrada para o Inferno da Luz e passou a ser um passe para as redes sociais. Vai-se ao estádio para publicar uma fotografia, fazer um direto antes do apito inicial ou garantir a selfie da praxe. O jogo? Esse, por vezes, parece ser apenas o cenário.
As bancadas enchem-se de telemóveis erguidos quando deviam estar cheias de cachecóis levantados. O brilho dos ecrãs começa a substituir o brilho dos olhos de quem vive cada lance como se dele dependesse a própria vida. Há mais filtros do que fervor.
É verdade que muitos detentores de Red Pass, quando não podem comparecer, cedem o lugar a familiares ou amigos. Nada contra isso. O problema começa quando esse lugar acaba ocupado por alguém que gosta de futebol, mas que não sente o Benfica. Vai assistir ao jogo como iria a um concerto, a um festival ou a qualquer outro grande evento. Está presente... mas raramente participa.
O benfiquismo não se mede. Não existe um aparelho capaz de dizer quem ama mais o clube. Mas a paixão sente-se. Vê-se em quem perde a voz ao fim de vinte minutos, em quem vive cada corte defensivo como um golo marcado, em quem canta quando a equipa está por cima e, sobretudo, quando está por baixo. A paixão nunca precisou de um certificado; sempre se reconheceu pelo barulho que faz.
Basta olhar para as imagens que a BTV transmite antes dos jogos e ao intervalo. A realização percorre as bancadas à procura dos rostos mais fotogénicos, das figuras de montra, daqueles que ficam bem em qualquer plano televisivo. E atenção, eu também gosto dessas imagens. Fazem parte da festa. Mas, sem falsa modéstia, mesmo sendo eu muito menos fotogénico do que qualquer um desses protagonistas de bancada, tenho a convicção de que faria muito mais falta ali a cantar e a puxar pela equipa. Porque o futebol nunca se decidiu pela beleza da bancada, mas pela força da bancada.
Há alturas em que certas zonas da Luz parecem mais uma plateia VIP do que uma bancada onde se joga um campeonato. O adversário já não entra intimidado pelo ambiente; entra confortavelmente instalado no silêncio.
Enquanto isso, há milhares de benfiquistas que vivem os jogos no sofá ou nos cafés. Não porque lhes falte amor ao clube, mas porque lhes falta oportunidade. São aqueles que dariam tudo para ocupar uma dessas cadeiras. Não para aparecer na televisão. Não para colecionar fotografias. Apenas para fazer aquilo que sempre fez do Benfica um clube diferente: apoiar incondicionalmente.
E aqui reside o maior paradoxo. Muitos dos que mais poderiam ajudar a equipa são precisamente aqueles que ficaram do lado de fora.
O futebol moderno trouxe conforto, melhores infraestruturas e uma experiência mais sofisticada. Nada disso é mau. O problema surge quando o espetáculo nas bancadas passa a ser mais importante do que o espetáculo dentro das quatro linhas. Quando a plateia substitui a massa adepta. Quando o silêncio vence o cântico.
O Benfica sempre foi mais do que um clube. Sempre foi um sentimento passado de pais para filhos, de avós para netos. Não vive de fotografias, vive de memórias. Não cresce com publicações, cresce com paixão. E essa paixão não se mede pelo número de "likes" conquistados, mas pelo número de vezes que uma voz rouca ajudou a empurrar a equipa para a vitória.
Talvez tenha chegado o momento de refletir sobre o verdadeiro significado de possuir um Red Pass. Não é apenas garantir um lugar. É assumir a responsabilidade de ocupar um lugar que milhares de benfiquistas desejavam ter. Cada cadeira vazia de emoção é uma oportunidade perdida de tornar a Luz um verdadeiro inferno para quem nos visita.
Porque o Inferno da Luz nunca foi construído em cimento. Foi construído por gente. Gente que cantava, sofria, acreditava e fazia acreditar. Gente que percebia que apoiar a equipa não era um extra do espetáculo; era parte essencial dele.
O Benfica não precisa apenas de um estádio cheio. Precisa de um estádio vivo.
Porque entre um lugar ocupado por quem quer dizer "eu estive lá" e outro ocupado por quem faz a equipa sentir "nunca estará sozinha", existe toda a diferença entre um Inferno da Luz... e um simples inferno de luxo."

Sem comentários:
Enviar um comentário
A opinião de um glorioso indefectível é sempre muito bem vinda.
Junte a sua voz à nossa. Pelo Benfica! Sempre!