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terça-feira, 28 de julho de 2026

A surreal mensagem de Infantino, que uma semana depois da final do Mundial aponta o dedo a quem esteve “por trás dos ecrãs a espalhar ódio”


"Numa longa mensagem deixada no Instagram, o presidente da FIFA, que não deu qualquer conferência de imprensa após o final do Mundial, atirou-se a quem, nas suas palavras, andou “a plantar sementes de ódio” durante o Mundial, “por trás das canetas e por trás dos ecrãs”

Uma semana depois da final do Mundial, em que a Espanha bateu a Argentina, em Nova Iorque, conquistando a sua segunda estrela, Gianni Infantino falou. E escolheu uma espécie de violência, logo num texto em que tantas vezes referiu a “a alegria” e a “felicidade” que a FIFA levou ao mundo no último mês e meio.
Numa longa mensagem deixada no Instagram, o presidente da FIFA, que não deu qualquer conferência de imprensa após o final do Mundial, apontou o dedo a quem, nas suas palavras, andou “a plantar sementes de ódio” durante o Mundial, “por trás das canetas e por trás dos ecrãs”.
“A todos os que não viram as emoções, as celebrações, as gargalhadas, as lágrimas, as deceções e as alegrias. A todos os que não viram crianças, bebés, avós e pais todos juntos pelo futebol, eu digo lamento que os jogos tenham acabado e lamento que não tenham visto toda essa alegria e união. Lamento que tenham estado tão consumidos pelo ódio e pelas críticas que perderam tudo isto”, escreveu o líder da FIFA. 
“A todos por trás das canetas, por trás dos ecrãs a espalhar ódio e falsos rumores, só quero dizer que enquanto vocês estão sentados, nós na FIFA estamos na linha da frente a organizar, a trabalhar arduamente para vos dar o maior espectáculo do planeta. Enquanto vocês dividem, nós unimos”, continua Infantino, que sublinha que o Mundial não teve episódios de violência, foi “100% seguro” e que trouxe apenas “alegria e felicidade”.
Na mensagem, Gianni Infantino fala do caso do Irão, puxando dos galões para dizer que enquanto certas entidades que nunca nomeia “espalhavam ódio”, a FIFA trabalhava “incansavelmente para unir dois países em guerra”.
“O Irão entrou nos Estados Unidos sem incidentes ou conflitos”, garante Infantino estranhamente esquecido que a equipa asiática foi obrigada a montar o seu quartel general no México, por não poder permanecer mais do que 48 horas nos Estados Unidos, e viu parte importante do seu staff impedido de atravessar a fronteira.
Durante o Mundial, Mehdi Taremi, ex-avançado do FC Porto, disse mesmo que a competição era “um desastre”, acusando a FIFA de não resolver os problemas causados pela administração Trump. A mesma que, pela voz do secretário de Estado de Segurança Interna, Markwayne Mullin, disse estar “contente” pela eliminação do Irão. “Fiquei tão feliz quando conseguimos cancelar os vistos deles e lhes dissemos que podiam sair do território dos EUA que até posso ter cantado uma ou duas canções e dançado de alegria” - e sim, são declarações reais.
Convenientemente olvidado na mensagem de Infantino ficou, por exemplo, o árbitro somali Omar Artan, um dos melhores de África e impedido de concretizar o sonho de apitar num Mundial depois de proibido de entrar nos Estados Unidos.
“Vocês mencionaram as poucas pessoas que viram os seus vistos negados e não os milhões que foram aprovados, de todos os lados do planeta”, escreveu o líder da FIFA, diminuindo a importância de um árbitro ou vários membros de equipas técnicas ficarem presos na fronteira devido à sua origem.
Nada disso é relevante, aparentemente, num Mundial que “virtualmente todas as celebridades globais da música, cinema, entretenimento e desporto assistiram e desfrutaram”. E isso, no pensamento de Gianni Infantino, é que ninguém escreve.

Balogun e um pedido de reflexão
A forma como o caso Balogun, ainda que não tratado pelo nome, foi escrutinado também teve direito a críticas do presidente da FIFA.
“Decisões arbitrais ‘discutíveis’ ou ‘estranhas’ deliberações disciplinares como um cartão vermelho ou amarelo mal dado e a subsequente decisão de não castigar o jogador são rotina e aceites em algumas das maiores ligas por todo o mundo”, apontou Infantino, não exemplificando a que ligas se refere, dizendo apenas que “é curioso que os mesmos países que aplicam essas práticas são os mesmos que criticaram” a FIFA no caso.
Palavras incompreensíveis, a roçar a desresponsabilização, quando a decisão de deixar jogar Folarin Balogun foi praticamente inédita na história dos Mundiais - é preciso recuar até 1962 para ver um caso semelhante, com Garrincha, que jogou a final depois de ser expulso nas meias-finais, num processo com influência política.
Para terminar uma mensagem em que a ação da FIFA é, naturalmente, descrita de forma amplamente laudatória, em que este Mundial é caracterizado como “o mais marcante” de sempre, Infantino propõe, de forma paternalista, uma reflexão.
“A todos os que gastaram o seu tempo a odiar-nos, por favor tirem um momento para refletir, meditar e rezar ou verem um jogo de futebol e observarem verdadeiramente para as caras, os olhos, as emoções”, pode ler-se num texto em que o líder da FIFA parece confundir críticas e escrutínio com mal-dizer."

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