Últimas indefectivações

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Tetra (II)

"(continuando com o tetra)
1. Só nas últimas duas épocas jornadas, Rui Vitória teve à disposição todo o plantel. Jonas jogou 1/3 da Liga, Grimaldo os jogos finais, Luisão, Lisandro, Jardel e Jiménez com sucessivas lesões, Fejsa ausente em jogos decisivos, etc. Chegámos a jogar sem pontas-de-lança. O que se diria se tal acontecesse nos principais rivais?
2. Certamente por mero acaso, o tetra encarnado coincide com os 4 anos da actual presidência leonina e com o mandato do actual presidente da CM do Porto que, por razões diferentes das do seu predecessor, ainda não teve oportunidade de abrir a Câmara ao seu clube de coração;
3. No actual plantel dos eternos e clássicos rivais do Benfica não há um único jogador que tenha alguma vez sido campeão nacional. Perdão, esqueci-me de Maxi Pereira, campeão pelo Benfica! E havia um do Sporting que agora é campeão no Benfica: Carrillo. Já no SLB, 17 jogadores sabiam o que era já ter sido campeão.
4. É já um clássico: quando o Benfica ganha um campeonato, o sempre unido grupo dos despeitados descobre, com afinco e infinita imaginação e a preciosa ajuda técnica de especialistas de marketing e comunicação, uma razão para desvalorizar a vitória encarnada. Por favor, continuem a inovar e divirtam-se! Este ano até li que a Liga havia mudado de nome. Sem canelas, mas com Salazar. Uns nostálgicos, estes talibãs comunicacionais!
5. Ao invés e com elevação, Nuno Espírito Santo e Jorge Jesus felicitaram os campeões.
6. Em suma e em linguagem anagramática, nós ficamos com o tetra (e a lambreta), esperando que alguém se entretenha com a treta, disfarçando, embora, o ar tétrico..."

José Manuel Delgado, in A Bola

A verdade de ciscuntância

"O campeonato está a terminar e agora é o momento de perceber a diferença entre a verdade per si e as verdades de circunstância. Ao longo da prova, o Sporting e o FC Porto criticaram duramente a arbitragem e a disciplina por favorecerem o Benfica, recém-consagrado tetracampeão. Havendo coerência, esse deveria ser o discurso aos derrotados depois de o Marquês se vestir de vermelho.
Mas não foi por aí que os leões caminharam. Após a derrota em casa frente ao Belenenses, o presidente Bruno de Carvalho soltou um sonoro e representativo «basta!», assumindo que na próxima época «tudo terá de ser diferente». Palavras duras com uma natureza profundamente autocrítica. Perante isto, Jorge Jesus não estaria neste momento muito seguro. Já os dragões têm mantido a mesma linha: que esta foi a Liga Salazar, e das cartilhas, de arbitragens altamente favoráveis às águias e com erros grosseiros contra os azuis e brancos. Posto isto, só poderia deduzir-se que Nuno Espírito Santo teria o lugar mais que garantido. Mas os sinais evidenciam o oposto: Jesus mais estável, NES mais tremido. O que nos leva à ideia inicial: só depois de assente a poeira dos resultados é que a racionalidade molda o pensamento dos dirigentes; a gritaria ao longo da época serve apenas para dar corpo ao ditado: quem não chora não mama. E alimentar a cegueira clubística.
Luís Filipe Vieira percebeu isso mais ou menos no final do seu segundo mandato na presidência do Benfica: em vez da crítica permanente ao FC Porto, virou-se para dentro e fez o que fazem as grandes empresas que querem crescer: aprender com os erros e tomar melhores decisões. Os seus rivais deviam fazer o mesmo, mas já vão com atraso: o Benfica está vários anos à frente da concorrência em áreas visíveis e invisíveis (o investimento em conhecimento, por exemplo). Não reconhecer esta realidade apenas serve para alimentar ódios estéreis."

Fernando Urbano, in A Bola

E depois do tetra?

"Preto no branco sobre FC Porto, Sporting e... Benfica. Surreal! O comunicado SCP-FCP (como é que Pinto da Costa caiu nisto!) e o 'post' do adeus ao Facebook

Depois do quarto título consecutivo conquistado pelo Benfica (sim, hegemonia), anuncia-se competição ainda mais renhida entre os três gigantes - o que é excelente! Mas também ainda maior conflito bélico, tipo vale tudo nos bastidores - o que é péssimo!
Antes do mais: parabéns ao justo campeão. Como Jorge Jesus e Nuno Espírito Santo tiveram a hombridade de reconhecer, ao contrário de dirigentes atafulhados num desvario de passa culpas; tão inútil esforço de fechar pública cortina sobre o que falhou - e os porquês - dentro da sua organização.
Vamos lá pôr preto no branco:
- É fundamentalmente por causa de arbitragens que o FC Porto soma 4 anos a fio desfalecendo no absoluto/incrível jejum de nem sequer uma Taça conquistar?! Culpa de sucessivos treinadores, todos primorosamente escolhidos, mas, afinal, todos maus?! Não era este o clube/SAD que se orgulhava de a sua estrutura fazer de qualquer treinador um campeão?!
- É fundamentalmente por causa de arbitragens que o Sporting continua a não se sagrar campeão (e vão 15 anos; e só 3 títulos em 35)?! Verdade: nas 4 épocas da revolucinária era Bruno de Carvalho, melhor que o FC Porto: Taça de Portugal (Marco Silva logo despedido...), Supertaça (quando Rui Vitória dava os primeiros passos num Benfica aos papéis vindo de desastrosa digressão americana), dois 2.ºs lugares na Liga (o mais difícil, vindo de 7.º!, com Leonardo Jardim, que tão facilmente logo saiu...). Mas, nas duas épocas de grande investimento e enorme galvanização (Jorge Jesus arrebatado ao Benfica), são as arbitragens que fundamentalmente justificam nicles nas Taças de Portugal e da Liga, actual abismo (14 pontos face ao campeão, 9 para o 2.º) e esse pormaior de rotundos e consecutivos fiascos europeus?!
Sim, apesar de tudo, há notória diferença. Tem vindo a crescer o Sporting que o novato Bruno de Carvalho encontrou moribundo num mortífero deserto. E o FC Porto do jubilado Pinto da Costa, brilhante líder de tantas glórias, tem vindo a cair numa rampa muito inclinada. Sendo no FC Porto, durante décadas o grande patrão da arbitragem (lembre-se: absoluto domínio da AF Porto e consequente sucessão de presidentes do CA... - bem como dos CD e CJ...), que mais faz sorrir esta revolta contra ela...

E o Benfica? Ganhou imenso ao sair das trogloditas trocas de palavreado oficial em que também andara. Serenando, criou caixa forte, sem se dispersar. Equipa de futebol menos pujante esta época. Mas resistiu a mais de 30 lesões (Guinness!?), a meia temporada estando o importantíssimo Jonas em baixa clínica (com regresso aos solavancos), ao adeus, em Janeiro, a Gonçalo Guedes, durante meses o substituto de Jonas, ao larguíssimo período sem Grimaldo e Jardel, às lesões do pilar Fejsa, à falta de n.º 8 opcional ao ultrarresistente Pizzi. É esse o maior, enorme!, mérito de Rui Vitória, nunca se lamuriando, concentradíssimo a arranjar soluções. E não - escrevi, há semanas e, noutro dia, com detalhe voltarei ao assunto -, o plantel do Benfica não tem mais qualidade (valores individuais) que o do FC Porto.


Surreal! O comunicado conjunto de FC Porto e Sporting anunciado a sua aliança (obviamente anti-Benfica). Feito à pressa e... confrangedor! Do apelo a videoárbitro e divulgação dos relatórios dos árbitros (após FPF já tal ter decidido...) à caricata reclamação de títulos nos primórdios do futebol, todo um rol de... coisa alguma! Como é que o mestre Pinto da Costa caiu nisto?!!!
Surreal! O texto em que Bruno de Carvalho anuncia a sua saída do Facebook (excelente decisão). Vai tudo a eito... Os meninos (atletas) e treinadores que não podem ser acarinhados quando perdem injustificadamente... (o presidente já se mandara ao ar na derrota em final europeia de futsal; mas aquela equipa foi vice-campeão europeia, certo?!). E até os adeptos levam críticas por deficiente militância... Num clube que, nesta época, bateu recordes de votantes na eleição presidencial e de adeptos nos jogos em Alvalade! Alto nível exigência é bem importante! Mas o presidente parece esquecer-se de não ser com vinagre que se apanham moscas. Muito menos com tamanho excesso!"


Santos Neves, in A Bola

Vitória, Vitória...

"Se o Benfica - V. Guimarães era o jogo para definir o campeão, foi o jogo que mostrou que só o Benfica poderia ser campeão, campeão contra as dúvidas e as desconfianças, as insinuações e os alibis (e as tontices da Liga Salazar...) - o incontestável campeão, (Eu sei que há quem não ache - são aqueles para quem o futebol não se joga com uma bola nos pés que os empolga, joga-se com um coração nos olhos que os cega).
Mostrou mais, mostrou Rui Vitória numa tirada filosófica do Marcelo Bielsa:
- Nós, os treinadores, podemos cometer dois pecados: fazer andar os jogadores que voam ou fazer voar os jogadores que andam. E eu penso: se tiver de ir ara o inferno que seja pelo segundo.
Sim, Rui Vitória conseguiu (sem pecar) que os seus jogadores voassem (mesmo quando não parecia que andavam) - e fez mais ainda. Se, na vida, o melhor do ser humano ou o insucesso o ameaça, no futebol é diferente - no futebol, o melhor do jogador (ou do treinador) tem de aparecer quando o sucesso não pode ser abandonado ou o insucesso não pode ser uma ameaça. Foi o que o Benfica fez bem - graças ao grande treinador que tem.
Porque grande treinador é o que consegue que a sua equipa seja mais do que a soma aritmética de 11 jogadores à liça, 11 jogadores com a cabeça nos pés a levarem mais além as boas ideias do treinador - não para o jogar mais bonito, mas para ganhar mais. Grande treinador é o que consegue tocar os seus jogadores sem grinaldas de palavras hesitantes (ou enganadoras) - dando-lhe a coragem e a fé, o entusiasmo e a galvanização, que não os deixe de pés a desarrumarem-se, desconfiados de si próprios ou do seu destino (como os do FC Porto). Quando isso acontece, a estrela da equipa é a equipa, a sua estrela é o treinador. Razão por que, ao perguntarem-me quem foi o melhor jogador do tetra, a minha resposta se soltou sem um titubeio: o Rui Vitória!"

António Simões, in A Bola

Fintas...

No coração vermelho do Inferno do Marquês

"É a crónica de uma festa anunciada. Um gajo do Vitória de Setúbal, a ver o seu benfiquismo florir em plena febre primaveril do Tetra. Cheiros, outfits, futurologia pintada a encarnado vivo e umas imagens da celebração.
Saí de casa ao intervalo do jogo, o que até podia ser irresponsável face a todas as reviravoltas possíveis num jogo de futebol, só que há resultados que parecem indestrutíveis. Era o caso deste. O Benfica ia ser campeão, estava mais que visto. Não tinha dado grandes hipóteses ao adversário de adiar a festa. Eu vestia à civil, não tenho camisola do Benfica, nem costumo usar vermelho. Ponderava se ia dar muito nas vistas lá no Marquês, se me iam barrar a entrada, ou se me iam confundir com um espião do Bruno de Carvalho.
Assim que saí do meu prédio encontrei o vizinho de baixo, um tipo simpático que veste fato de segunda a sexta, tronco nu ao fim-de-semana e, pelos vistos, camisola do Benfica em dias como este. Disse-me logo: "Vai já para o Marquês? É que já cá canta!". Concordei, até gritei Ben-fi-ca! para entrar no mood, mas quando já descia a rua, chamou-me com um assobio e franziu o nariz ao mesmo tempo que me perguntou: "Olhe lá, mas o meu amigo não é do Vitória de Setúbal?".
Sim, sou. Não estou habituado a celebrar campeonatos nacionais. Também não sou louco pelo glorioso (costumo dizer que gosto de viver em Lisboa, tem é muitos benfiquistas), mas a grande verdade é que adorei os jogos que vi no Estádio da Luz. Ainda assim, acredito que não ser portista ou sportinguista me podia ajudar a conseguir este trabalho de campo. Quando me mentalizei de que iria ao Marquês assistir à festa, tinha planos de fazer um levamento sociológico deste evento – atraía-me o quanto era mediático, a sua má-fama.
No café do bairro havia um clima de felicidade geral, regada a imperiais. Uma carrinha Renault Traffic transmitia o relato para quatro betos já equipados.
Para alguém como eu, que gosta mais de literatura do que de futebol, impressiona a importância do desporto-rei no nosso dia-a-dia, na nossa vida em sociedade. Dou de caras com os comentadores (prefiro o termo paineleiros) em qualquer um dos canais, ouço os dilemas da Liga Record através dos meus colegas de trabalho, acredito que estejamos viciados em apostas desportivas.
Segui pelo Rato, reparando em quem fazia o mesmo caminho que eu. Vestidos a rigor, pontilhavam a cidade de encarnado. Carros passavam a buzinar, cachecóis sacudios à janela. Quem ia a pé respondia à chamada, gritavam Benfica, campeões e glorioso S.L.B. Já devia estar na Brancaamp quando dei por dois turistas que pareciam congelar face a toda aquela actividade. Não resisti a perguntar-lhes se também iam para o Marquês.
"É o Benfica, certo?" – perguntou-me o pensionista, em francês. Respondi-lhe em português que sim. Apontei para o Marquês onde tocava We Are The Champions. Ele continuou com o mesmo ar de enjoado com que estava, a sua senhora suspirou. Perguntou-me qualquer coisa que não percebi de todo e tive de lhe pedir para o repetir em inglês. Queria saber qual seria a duração da festa. Disse-lhe que ia durar toda a noite. Ficou a olhar para mim como se a culpa fosse minha até me ter ido embora. 
Quando virei para a enorme fila de polícias onde fui revistado, não consegui evitar a ideia de que estes não são tempos pós-terroristas, são os tempos do terrorismo. Barricadas interrompiam algumas das principais artérias da cidade, faziam-se revistas demoradas a cada um destes festivaleiros benfiquistas. Para além de evitar atentados, também podiam estar a evitar as oito detenções que aconteceram nas celebrações do título passado.
Ainda mais absurdo que isto, foi a simpatia das forças policiais. Eu sou do tempo dos ACAB's e das cargas policiais à porta da Assembleia. Calhou-me um polícia sorridente, mas não era o único. Alguns deles até tiravam fotografias ao Marquês, cada vez mais cheio. Apercebi-me que deviam ser polícias e benfiquistas, tal como há padeiros benfiquistas, economistas benfiquistas, um país inteiro de adeptos do Benfica.
Quando cheguei à rotunda do Marquês do Pombal, fui confrontado com a conclusão de que este é um evento popularucho. Desculpem, é o que é. Não sei porque é que apresentei isto como uma grande conclusão - quem ainda não tem a certeza, já deve suspeitar.
Estes são alguns dos detalhes do quadro geral:
Vou começar pelas fragrâncias. Há benfiquistas que cheiram a transpiração e há benfiquistas que cheiram a 1 Million do Paco Rabanne. É natural, são muitos, uma nação é feita de pessoas muito diferentes. Um dos primeiros colocou o braço sobre mim para cantarmos We Are The Champions numa das dezenas de vezes que passou. É claro que não o ia deixar mal, eu próprio me sentia algo contagiado por tanto benfiquismo. Ainda assim, tentei despachá-lo o mais rápido possível. O cheiro a pessoas, no entanto, não era o mais intenso no Marquês, predominavam as notas de cerveja entornada, os cigarros e os cigarros de haxixe de qualidade duvidosa.
Também havia uma amplitude estética considerável: vi benfiquistas vestidos à benfica dos pés à cabeça e vi benfiquistas vestidos como se fossem sair à noite. A verdade é que se estiverem à procura de uma alma gémea obrigatoriamente benfiquista, é muito provável que a encontrem aqui.
A música não podia ser mais ecléctica. Ouvi temas que iam da pop mais rádio (Calvin Harris) ao hit de bairro (DJ Télio), passando pelo reggaeton (inevitável "Bailando", incontornável "Despacito"), até ao hip-hop ("All I Do Is Win No Matter What" – os benfiquistas que o digam). O próprio espectáculo de variedades que se sucedeu incluía alguns grandes nomes da música popular portuguesa, ainda melhor se fossem afectos ao Benfica, como Carlão ou os AmorElectro. Houve canções que era obrigatório cantar em uníssono, o que não só foi arrepiante, como também belo.
A verdade é que os benfiquistas costumam ser vocais acerca das suas vitórias, mas no Inferno do Marquês são ensurdecedores. Achei que ia ser aterrador, mas foi um espectáculo digno de se ver.
No meio de tanta gente é impossível não reparar em toda a chungaria que dizem estar sempre presente no Marquês, mas estaria a ser injusto se não dissesse que eram largamente ultrapassados por famílias "normais", famílias felizes. Pais e filhos, mães, avós, cães, uma grande celebração familiar. O próprio Luisão o disse. "O Benfica é família, isso não é cliché". Senti uma profunda alegria quando reparei nisso. Pensei que fosse um local mais propício a assaltos do que a celebrações familiares. 
Afinal de contas, o que somos nós senão portugueses, um povo de amores e desamores, paixões e desilusões, vitórias e derrotas; para muitos de nós há uma certeza épica, chama-se Benfica e é uma águia que sobrevoa as nossas vidas, uma certeza que se mantém sobre nós, enquanto a vida é feita de altos e baixos, de épocas de melancolia – é esta paixão encarnada que aqui se ouvia, se via, se celebrava de braços no ar. Há anos melhores, há anos piores e, pela primeira vez na história, há quatro anos seguidos a vencer o campeonato. Até parece que é condenável criticar um feito destes, uma massa de gente tão radiante.
Pelos comportamentos a que assistia, também parecia ser um bom sítio para beber copos.
Fui interpelado por uma família estrangeira (pai, mãe e três filhos) que queria saber onde se comprava cerveja. Eram britânicos. Perguntei-lhes: "Vieram celebrar o título do Benfica" e a resposta foi "of course" – disse-me logo ele – "estamos de férias em Lisboa, não podemos perder a vitória do grande Benfica!". Fui apanhado de surpresa, nem me estava a lembrar de que, para além da febre nacional, há esta ideia de que o Benfica é um símbolo de Portugal pelo Mundo fora.
Ainda assim, comecei a sentir-me aborrecido, o autocarro ainda estava a caminho e eu algo perdido ali no meio. Uma senhora simpática, que me devia estar a achar tristonho, perguntou-me: "Já sabe do Festival da Canção?". Disse-lhe que não sabia e ela disse-me qualquer coisa como "o Salvador está em primeiro!", tinha a filha, sportinguista, a mandar-lhe os resultados por mensagem. Não demorou muito até que esse fosse o assunto por entre toda a multidão. Sim, entretanto já éramos uma multidão – o espaço reduzia a olhos vistos, cotovelos perdiam espaço de manobra. Adeptos não paravam de chegar.
Depois de algum tempo no meio das famílias "normais" (algumas zarparam antes da equipa chegar) a olhar para os adeptos mais bizarros (que também são os mais divertidos), lá chegaram os jogadores. Subiram ao palco a pé e eu comecei a furar o mais possível até chegar à fila da frente, cruzando espessas nuvens de ganza e do fumo vermelho que se associa a estes dias de Marquês.
Estes adeptos, que em qualquer lugar do Mundo diriam que são do Benfica, aqui mostravam o quanto eram do Benfica. Senti que se a estátua não tivesse sido barricada, correríamos todos a trepá-la também. Ouvi os discursos de vários jogadores, aceitei uma das cervejas que o Cervi distribuía e fiquei fascinado com algo que o Rui Vitória disse a todos: "Queremos prolongar este momento". 
Como? É que eu só tinha visto uma coisa parecida e foi porque ganhámos um Euro. Isto não pode ser algo que acontece todos os dias. É a espera que cria este momento. São quase 40 jogos, 40 períodos de 90 minutos com a águia ao peito. Há paixões e ódios ao longo de uma época. Há grandes surpresas e profundas desilusões. Sim, eu sei que ele estava a falar de um possível penta-campeonato, mas esta foi uma catarse de cor e som, uma das maiores demonstrações de alegria colectiva a que alguma vez assisti.
Até porque julgava que ia assistir a um grande peixeirada, pancadaria geral e acabei mais um benfiquista, cheio de vontade de comprar um daqueles fatos de treino à tropa do bairro.
E foi aí que aconteceu, a música do Salvador Sobral começou a tocar no Marquês. Grande parte do público já a sabia de cor. Sei que já devem estar fartos de piadas com o mantra dos três éffes, mas tive de pensar nisso quando o Papa estava em Fátima, Portugal vencia o Festival Eurovisão da Canção e eu estava a celebrar o campeonato do Benfica.
Quando me vim embora, tive a certeza de que para o ano lá estaríamos todos outra vez. Podia ser futurologia despassarada, ou uma demonstração precoce do meu novo benfiquismo. A verdade é que, se não há duas sem três, também não deve haver quatro sem cinco."

Guerra, pela alvorada...!!!

El Benfica hace historia y deja al Oporto de Casillas sin liga

"El conjunto de Rui Vitoria arrolló al Guimaraes y conquistó su liga número 36, la cuarta consecutiva por primera vez en sus 113 años de historia

Quizás su discreto entrenador Rui Vitória nunca pasará a la historia, quizás tampoco su once titular, pero con ellos el Benfica, después de 113 años de historia ha conseguido ganar cuatro ligas de forma continuada. Benfica ya es tetra, como se canta anoche en la plaza de Pombal, donde sus aficionados han celebrado la gesta tras arrollar al Guimaraes con goles de Franco Cervi, Raúl Jiménez, Pizzi y Jonas (2).
El triunfo del Benfica se ha cimentado en la cohesión del grupo, en la unidad, en el esfuerzo común en pos de una causa cuando todo parecía que estaba en su contra. Con un presupuesto muy inferior al Oporto y con la discreción por bandera, frente a los gritos del rival de enfrente, el Sporting de Lisboa, al Benfica nunca se le fue la fuerza por la boca.
De esta forma, el Oporto de Iker Casillas se queda sin el título de liga. Se queda a ocho puntos de los lisboetas pese a que al conjunto de portero español le quedan dos partidos por jugar mientras que al equipo de Rui Vitoria ya solo le falta la última jornada.
En cinco ocasiones el Benfica había ganado tres ligas seguidas; pero en dos ocasiones el Oporto y en tres el Sporting le impidieron conseguir la cuarta. A la sexta ha sido la vencida, y con casi todo en contra.
Rui Vitória jamás se quejó de que le vendieran a los mejores, ni que se quedara sin delanteros en la primera parte de la temporada. Los que salían tenían toda su fe.
El club había vendido sus tiernas joyas a precios exorbitantes: Renato Sanches (más de 80 millones sentados en el banquillo del Bayern) y Guedes (más de 30 millones sentados en el banquillo del PSG). Había comprado otra tan vistosa como supervalorada (Rafa del Braga) y su garantía de gol, Jonas y Mitroglou, se pasaron los primeros meses de la temporada lesionados. Daba igual, el Benfica sacaba adelante los partidos con unos inmensos Pizzi y Salvio, mientras que en la defensa se recuperaba el gran capitán Luisão, con sus 36 años, y en la portería Julio César dejaba ya el paso definitivo a su compatriota Ederson, de apenas 21 años.
El triunfo del Benfica es el triunfo de la cohesión frente a los vaivenes del Oporto y el griterío continuo del Sporting, desde el palco al banquillo. Rui Vitória ha dotado serenidad y confianza a un plantel menos brillante que el del Oporto, pero con mayor consistencia y cuando las cosas al final de la temporada se ponían feas, pues Mitroglou se había cansado de meter goles, Jonas dejó de tener lesiones y comenzó a marcar de dos en dos prolongando su edad de oro.
Este Benfica que ha conseguido la mayor hazaña de su historia no es, ciertamente, el Benfica de Eusebio pero ha sabido aprovechar las debilidades de los demás, quizás, porque su objetivo era ganar el título, mientras que sus rivales solo querían ganarle al Benfica."

Benfiquismo (CDLXXII)

Beijoqueiro !!!

Lanças... 36

Um entusiasmado bocejo

"Em 1984, o Benfica tinha mais campeonatos sozinho do que os outros clubes todos juntos. Eu tnha 10 anos. Foi assim que o mundo me foi apresentado; era assim que eu esperava que ele se mantivesse. Nos 30 anos seguintes, entre 1984 e 2014, o Porto ganhou 20 campeonatos, mais do que os outros clubes todos juntos. O Benfica ganhou sete. Em 30 anos. Imaginem que vivem 30 anos da vossa vida com um desconforto permanente. Uma pedra no sapato. Todos os dias. Um terçolho que não passa. Uma chuva miudinha que dura três décadas. Uma pessoa quer existir sossegada e a pedra não deixa, o terçolho incomoda, a chuva irrita. O mundo, que era ameno, torna-se hostil. Não é uma hostilidade violenta, é só a sensação constante de que alguma coisa está errada, fora do sítio. A vida não é a mesma coisa.
Em 2004, numa altura em que já não era campeão há 10 anos, o Benfica ganhou a Taça. Fui para o Marquês com uma alegria embaraçada. Não conseguia conter a vontade de festejar - mas (ou por isso mesmo) tinha remorsos. Estávamos tão desesperados que havia gente com camisolas que diziam: 'Benfica, campeão da Taça de Portugal'. Era uma festa do Benfica, e no entanto a simples existência da festa demonstrava que o Benfica não era bem o Benfica. É um raciocínio complicado, acessível apenas a benfiquistas. Pessoas de outros credos, muito provavelmente, não o compreenderão.
Entretanto, o mundo foi-se consertando. Nos últimos oito anos, o Benfica ganhou mais campeoantos do que outros clubes todos juntos. Nos últimos quatro, ganhou todos. Cito a lista dos últimos clubes campeões nacionais: Benfica, Benfica, Benfica, Benfica. Foi monótono, repetitivo, previsível, chato. Foi uma maravilha. A única coisa que eu peço do mundo é que se mantenha aborrecido. Que o facto de o Benfica ganhar o campeonato se transforme outra vez numa ocorrência tão corriqueira que, no Telejornal, passe a ser noticiada mesmo antes do fim: 'Entretanto, pela décima terceira vez consecutiva, o Benfica sagrou-se campeão. Vamos à meteorologia para amanhã'. E que eu esteja cá para festejar tranquilamente, com um entusiasmado e orgulhoso bocejo."

Ricardo Araújo Pereira, in Visão

Visto de cima !!!

A 'outra' rotunda...!!!



A PSP anunciou 20 detenções durante os festejos do 36. Sendo que a grande maioria foi por posse de tochas!!!!! Muito sinceramente não compreendo... Já  afirmei várias vezes: sou totalmente contra os Petardos... mas as tochas, cumprem uma função coreográfica que deve ser respeitada...
Devido a esta absurda 'caça às tochas' muitos Benfiquistas decidiram não ir ao Marquês... e por isso criaram na Rotunda Cosme Damião, o ambiente que devia ter sido criado no Marquês! 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Tetra (I)

"Tetracampeão! Líder isolado desde a 5.ª jornada, o Benfica consumou o almejado 4.º título consecutivo num jogo sublime contra o Vitória de Guimarães. Uma das melhores exibições do Glorioso Benfica, de há muito.
Em jeito curto, algumas notas sobre este objectivo alcançado:
1. Um campeonato ganho estabilidade, coesão, espírito colectivo solidário, jogadores com elevado profissionalismo, presidente e estrutura técnica olhando sempre adiante e não se lamentando pelos retrovisores, mesmo em momentos mais complicados;
2. Um tetra dividido - é justo reconhecê-lo - por dois técnicos portugueses: Jorge Jesus e Rui Vitória;
3. O obreiro da segunda parte do tetra, Rui Vitória é um exemplo de trabalhador e não complicador, de serenidade e educação, capaz de unir sabiamente e não de dividir erraticamente, competente e com carácter, sem o tique dos jogos de palavras, engraçadinhas com que muitos se entretêm no mundo do futebol;
4. Bem sei que uma vezes se ganha e outras de perde. Afinal essa é a beleza da imprevisibilidade do futebol. Mas também sei que a estabilidade e o hábito de ganhar são fundamentais para se continuar a vencer;
5. O Benfica passou a ter 43,5% dos campeonatos. O dobro dos conquistados pelo Sporting e mais 9 do que o Porto. É patético o ponto do comunicado do neófito grupo dos vencidos da vida (perdão, do futebol) que se autorizaram reciprocamente a deliciar-se com pseudo títulos-tacinhas de há quase 100 anos;
6. Fejsa, talismã vitorioso e um jogador de excelência, conquistou 10 campeonatos em 9 anos consecutivos (os últimos 4 no Benfica). Tantos quanto o Sporting conquistou nos últimos 63 anos.
(continua)"

Bagão Félix, in A bola

Carta aberta a Rui Vitória

"Caro Rui Vitória, mesmo tendo ganho, em dois anos no Benfica, dois Campeonatos (o primeiro com recorde de pontos), uma Taça da Liga e uma Supertaça, sem esquecer que está na final da Taça de Portugal e passou sempre a fase de grupos da Champions (no primeiro ano chegou aos quartos), mesmo tendo apostado e valorizado vários jovens, mesmo tendo lidado com um número recorde de lesões nas duas campanhas (sobretudo a última), ainda parece haver quem faça a questão de duvidar da sua competência.
E deixe-me dizer-lhe abertamente que a culpa é toda sua. Já devia ter percebido que ser bom rapaz e ser bom treinador (ou grande treinador) é algo incompatível. Veja se atina, tem de escolher uma coisa ou outra. Quem o manda ser sempre tão correcto, educado e respeitador? É evidente que assim só ganha porque tem sorte.
Caramba, homem, mude de atitude, torne-se num enfant terrible dos bancos e logo passará a ter carisma e personalidade vincada. Um predestinado. Quando ganhar, será no mínimo o Guardiola ou o Mourinho de Alverca. Quando perder, alguém arranjará desculpas por si. Mas, por favor, torne-se polémico, obcecado, louco, egocêntrico, indelicado e provocador. Fale sem pensar. Se não resultar, vá mais longe no próximo campeonato que ganhar: roube a lambreta do Eliseu e faça piões no balneário, beba uns copos a mais e cante no Marquês o Amar pelos Dois do Salvador Sobral, chame Luís Filipe Vieira para cantar consigo.
Deixe de ser demasiado certinho, assim não pode ser bom treinador (ou grande treinador). Adopte em definitivo um perfil que venda, que tenha impacto. Faça da sua profissão um fogo de artifício constante.
É esse o segredo. Caso contrário, essa minoria teimará em não lhe reconhecer os méritos. Você continuará a ser apenas uma boa pessoa que, sabe-se lá como, tem a sorte de ganhar campeonatos e outros troféus. E isso obviamente, é uma chatice..."

Gonçalo Guimarães, in A Bola

Uma questão de objectivos

"Se a edição 2016/17 da Liga portuguesa foi, fora das quatro linhas, demasiado truculenta, há que esperar, infelizmente, que a próxima seja ainda pior. Apenas o primeiro lugar dará acesso à Liga dos Campeões, enquanto que o segundo classificado terá de disputar a terceira pré-eliminatória e o terceiro será remetido à Liga Europa. Ou seja, o que dava, em tese, para três, passa a ser certo só para um. Uma diferença substancial que vai aumentar a dramatização fora do campo, com todo o rol de malefícios que lhe estão associados.
Neste contexto, embora o dinheiro não abunde e se recomendem gestões responsáveis, aos clubes, especialmente aos três grandes, será pedido um esforço acrescido, no sentido de apresentarem plantéis capazes de entrar na liga milionária, etapa fundamental para o desenvolvimento dos projectos desportivos e financeiros.
O Benfica, tetracampeão, mostrou estar mais bem estruturado que os rivais, dispondo ainda de uma equipa com cultura campeã. Será normal, pois, que não só não se verifique nenhum desinvestimento nas águias, como ainda seja possível um reforço da equipa, mesmo tendo em conta algumas saídas que parecem inevitáveis. O Benfica que provou estar alguns passos à frente da concorrência, pode até estabelecer como objectivo (para além da presença na prova rainha da UEFA) a conquista do hexa, proeza inédita em Portugal e que catapultaria jogadores, técnicos e presidente para o Olimpo da fama a nível nacional.
Enquanto isso, se o FC Porto e Sporting não quiserem perder o comboio, é bom que tratem de resolver, quanto antes, os problemas internos. Ou..."

José Manuel Delgado, in A Bola

O líder pacato que não deve nada à sorte

"Às críticas e provocações iniciais – que amiúde se continuam a ouvir aqui e ali –, Rui Vitória respondeu com trabalho... e dois campeonatos

A bomba rebentou a 4 de Junho de 2015: após seis anos de muitas conquistas e algumas desilusões, Jorge Jesus ia trocar o Benfica pelo eterno rival do outro lado da Segunda Circular. Seis dias depois, Rui Vitória era oficializado como novo treinador das águias, bicampeãs em título e em busca de um tri que fugia desde 1977.
Longe de ser um desconhecido do futebol nacional – já com uma presença na final da Taça da Liga pelo Paços de Ferreira (derrotado pelo Benfica) e outra na final da Taça de Portugal (bateu... o Benfica), a contratação de Vitória foi porém recebida com desconfiança por uma enorme fatia dos adeptos encarnados. O perfil do novo técnico estava longe de se assemelhar ao do anterior, que se havia tornado no mais titulado da história do clube – e nem o conhecido benfiquismo de Vitória retirava o ar carrancudo a quem duvidava.
A ideia de Luís Filipe Vieira era simples: fazer igual – ou melhor – com menos. Investimento, pois claro. “Um treinador ganhador e sem medo de apostar nos miúdos”, disse o presidente encarnado na hora da apresentação. Tudo começou mal: a pré-temporada, a derrota na Supertaça frente ao... Sporting de Jesus, a entrada em falso no campeonato até ao 0-3 na Luz novamente perante os leões. Por esta altura, Rui Vitória era insultado, humilhado e enxovalhado em praça pública, tanto pelos adeptos dos rivais como por grande parte dos seus.
Um ano e vários meses depois, o homem nascido há 47 anos em Alverca do Ribatejo, que “aprendeu” a tocar bateria por gostar do som que ouvia quando batia nas portas de casa, em criança, celebra a conquista do segundo título consecutivo, conduzindo o Benfica ao primeiro tetracampeonato da sua história. Para trás ficou uma carreira mediana como jogador – o máximo que conseguiu foi fazer uma época pelo Alverca na II Liga –, no meio da qual cursou Educação Física; conheceu o flagelo dos salários em atraso já como treinador, primeiro logo na experiência inaugural, no seu Vilafranquense – pelo qual assinou uma semana depois de ter perdido os pais, num acidente de viação, em Setembro de 2002 –, e depois num profissionalíssimo Vitória de Guimarães; e ainda se aventurou pela escrita, adaptando o clássico “Arte da Guerra”, de Sun Tzu, para a realidade do futebol.

A arte de bem dialogar
Em entrevista ao “Expresso”, Rui Vitória professou um dia a seguinte ideia: “Antes de mais, um jogador é um ser humano. Se conseguir entrar dentro do ser humano, consigo chegar ao jogador; se quiser começar pelo jogador, talvez não consiga chegar ao ser humano e poderei ter problemas. Os futebolistas são bem pagos, ok, mas têm pais que têm problemas, filhos que têm problemas, mulheres, namoradas... Tudo isto tem importância no rendimento deles. Não tenho de andar a coscuvilhar, mas tenho de conhecer o homem; às vezes, damos um abraço; outras, uma marretada nas costas [risos]”.
Pegando neste mote, o i foi ouvir gente bem conhecida do treinador do Benfica: um ex-colega, um ex-treinador e um ex-jogador seu. Dos depoimentos dos três salta uma conclusão óbvia: Rui Vitória é um mestre na arte de motivar. “Nota-se que ele conseguiu formar um grupo de trabalho unido. Aquela equipa do Benfica é uma verdadeira família”, salienta Pedro Xavier, seu treinador no Alcochetense em 2002/03. “Uniu o grupo em torno de uma causa, fez das fraquezas forças. A maneira como os suplentes vão festejar os golos com os titulares, todos unidos... É um conhecedor exímio da parte técnica e táctica, claro, mas fez da motivação um factor fundamental no Benfica”, realça Pedro Correia, treinado por Vitória em três fases: juniores do Benfica, Fátima e Vitória de Guimarães e hoje a actuar na Académica. Carlos Fernandes, que com ele conviveu enquanto jogador no Vilafranquense, recorda um “verdadeiro líder” dentro e fora do campo. “Era um grande capitão. Sabia falar e estar com qualquer pessoa. Era ele quem negociava os prémios de jogo com o presidente, tinha muita maturidade. Nós, os mais novos, tínhamos muito respeito por ele. Tenho a certeza que uma das suas grandes chaves para o sucesso como treinador é a sua capacidade de diálogo, foi assim que segurou os jogadores. Por exemplo: nunca vi o Jiménez com azia, apesar de ter jogado muito pouco. E agora acaba a época a ser decisivo. Isso de certeza que é fruto do que o Rui Vitória fala com ele nos treinos”, frisa o antigo guarda-redes de Boavista, Rio Ave ou Steaua de Bucareste, entre outros.
Carlos, de resto, vê o actual treinador do Benfica com a personalidade intacta em relação ao que era enquanto médio: “Era muito inteligente, pensava muito o jogo. Jogava mais ou menos na posição oito. Mostrava muita serenidade, muita tranquilidade. Era um pensador. Até os árbitros o respeitavam muito por isso, era bem visível. Sempre foi uma pessoa justa, ajudava muito os jovens, dava-nos a mão. E hoje continua igual: uma pessoa calada, discreta, que só quer fazer o seu trabalho. Quanto mais despercebido passar, melhor.” Pedro Xavier tem a mesma percepção. “Quando foi meu jogador, era o mais velho do plantel e já dava muitas indicações aos colegas. Era o cérebro da minha equipa, tecnicamente superior, pensava o jogo todo. Hoje, é um líder pacato, tem as ideias dele e foi assim que conseguiu ter sucesso: treinar e calar. Sempre esteve à altura nas polémicas e sempre respondeu com resultados dentro do campo”, enaltece o antigo técnico.
Pedro Correia já não conheceu Rui Vitória enquanto jogador, mas não esconde o impacto positivo que os juniores do Benfica sentiram quando o então jovem treinador assumiu a equipa. “Era jovem, mas já tinha as suas ideias muito bem definidas e claramente estava talhado para voos maiores. Foi notória a diferença para as equipas técnicas anteriores, em termos de metodologias de treino, que eram muito inovadoras. Os treinos eram sempre com bola, mas ao mesmo tempo dava muita atenção à parte táctica, tanto defensiva quanto ofensiva”, lembra o lateral-direito, que voltaria a encontrar o técnico no Fátima e mais tarde em Guimarães: “No Fátima, ele estava igualmente ambicioso, mas com uma diferença significativa: tinha integrado o Arnaldo Teixeira na equipa técnica, que além de ser um profundo conhecedor, tem um lado humano muito forte, é uma pessoa muito próxima dos jogadores. Complementa bem com a parte da autoridade do Rui Vitória. Foi uma mescla perfeita. E depois, durante a época, ainda juntou à equipa técnica também o Sérgio Botelho, que fazia parte do plantel, o que também ajudou muito. No Vitória só lhe tenho a agradecer, pois deu o aval para a minha renovação mesmo com a grave lesão [fractura na tíbia]. Outro treinador qualquer podia dizer ao presidente que eu não fazia parte dos planos, por estar lesionado, e dispensava-me, mas ele não o fez.”

“Mágico” e “Del Bosque português”
Desde o início, Rui Vitória teve de lidar com as comparações com o seu antecessor. Na pior fase da passagem pelo Benfica, choveram as críticas, com a Comunicação Social desportiva e os próprios adeptos encarnados a questionar o seu pulso para lidar com grandes vedetas, a exemplo do que parecia acontecer com Jesus. Teriam essas dúvidas alguma razão de ser? Na opinião de Pedro Correia, nem por sombras. “Nada disso! Se há coisa que ele tem é mão no grupo e autoridade. Tem a sua maneira de ser, mas quando é preciso dar um berro e uma reprimenda também o faz. É um motivador nato e sabe como retirar o maior rendimento possível dos jogadores. A sério: autoridade não lhe falta”, reforça.
Pedro Xavier é mais taxativo, mas com a mesma conclusão: “Qualquer treinador que chega a um grande pode ser campeão. Desde que beneficie de um conjunto de factores: condições, bom plantel... e conseguir ter os jogadores na mão.”
No currículo, além dos títulos, tem outras distinções de mérito. Como ter sido considerado pelo prestigiado jornal italiano “La Gazzetta dello Sport” um “treinador mágico”, após vencer a Taça de Portugal pelo Vitória de Guimarães com grande parte da equipa formada por jogadores oriundos da equipa B, ou ainda ser comparado ao mítico técnico espanhol Vicente Del Bosque pela agência EFE. 
Pelas mãos, passaram-lhe várias pérolas do futebol português actual, muitos dos quais chegaram a internacionais (André André, Paulo Oliveira, Ricardo Pereira, Pizzi, Nélson Oliveira, André Santos ou, já no Benfica, Nélson Semedo, Renato Sanches, Lindelof ou Gonçalo Guedes). Em 14 épocas como treinador, nunca foi despedido – e talvez não seja obra do acaso. “Uma boa época pode ser fruto da sorte, de ter um bom plantel. Agora, quando começam a ser dois, três, quatro bons trabalhos em clubes diferentes... é porque as coisas estão a ser bem feitas”, sentencia Pedro Correia."

Rui Vitória: o Lamborghini que deixa Bruno de Carvalho em pânico

"1. Jorge Jesus, em 2015, pretendeu insultar Rui Vitória, afirmando que para treinar uma equipa como o Benfica era necessário ter habilitações para tal – da mesma forma que conduzir um Ferrari não é para todos. Rui Vitória não teria “mãos para um Ferrari”.
2. Ora, volvidos dois anos, o que nos dizem os factos? Rui Vitória é bicampeão, entrando para a história como concretizador do primeiro tetracampeonato do clube, já venceu uma Taça da Liga, uma Supertaça, chegou aos Quartos de Final da Liga dos Campeões e prepara-se para ganhar mais uma Taça de Portugal. Em dois anos, é obra! Em termos comparativos, Rui Vitória já fez mais nos primeiros dois anos como treinador principal do Benfica do que Jorge Jesus, o qual, por esta altura, apenas tinha ganhado um campeonato…
3. Os factos mostram, pois, à exaustão que Rui Vitória tem sido o verdadeiro homem do leme, ou melhor, o homem do volante do Lamborghini que é o plantel do Benfica. Já se fez tudo para descredibilizar o treinador do Benfica e desvalorizar as vitórias do Glorioso: em vão, porquanto a equipa revela-se cada vez mais forte, com mais alma, com mais resiliência colectiva.
Desafio para o futuro? Desafiar os limites da Glória do Glorioso, que é dizer, manter a chama da vitória bem acesa. Há que conquistar o penta no próximo ano, consolidando o ciclo dominador do Sport Lisboa e Benfica no futebol português. Domínio, esse, traduzido em vitórias desportivas, no campo, com lealdade e orgulho.
Já quanto aos rivais do Benfica, nota-se já uma inversão de estratégia. No caso de Bruno de Carvalho, os primeiros meses do seu segundo mandato não têm corrido particularmente bem, o que leva o Presidente do Sporting a reponderar a sua estratégia.
Sentido, Bruno de Carvalho já estuda as possibilidades legais ao seu alcance para despedir Jorge Jesus com o mínimo custo possível. Ponderando a personalidade do técnico leonino, diríamos que Jesus sairá com uma indemnização mais reduzida (nunca dela abdicará!), desde que a sua relação com Bruno de Carvalho cesse definitivamente. Não tenhamos dúvidas: Bruno de Carvalho e Jorge Jesus são bacteriologicamente incompatíveis.
4. Incompatíveis porque ambos são demasiado ambiciosos, com um ego ilimitado e com sede de poder (efectivo e mediático) – duas pessoas com tentações mediáticas tão gigantes quanto incontroláveis só podem viver em conflito. No primeiro ano de Jesus, o conflito – que esteve sempre em Alvalade, ainda que meramente aparente – foi disfarçado pelas vitórias do Sporting, que redundaram na melhor época do clube desde a temporada 2001/2002. Perante a frustração da derrota na época transacta e a tragédia da época presente, os egos de Jorge Jesus e Bruno de Carvalho ressurgiram: Bruno de Carvalho precisa de culpar Jorge Jesus pelas derrotas para não erodir sua base eleitoral de apoio; já Jorge Jesus precisa de culpar Bruno de Carvalho e a estrutura directiva do Sporting para não beliscar a sua aura e fama de melhor treinador português.
5. Conclusão: a manutenção no cargo de treinador do Sporting na próxima temporada será fatal para Jorge Jesus – ele será sempre o elo mais fraco, ficando nas mãos (que é dizer, dependente das conveniências eleitorais) de Bruno de Carvalho. Jesus terá de tramar Bruno de Carvalho – antes que Bruno de Carvalho trame Jorge Jesus. É um verdadeiro jogo do gato e do rato a que assistiremos nas próximas semanas em Alvalade.
6. E os sportinguistas já devem estar seriamente preocupados: Bruno de Carvalho acabou de cometer um erro crasso e gravíssimo para a afirmação do clube ao juntar-se ao Futebol Clube do Porto: significa que o Sporting se menoriza face à estratégia comunicacional do Porto. Nuno Saraiva, talvez sem saber, acabou de começar a escrever a história do seu fim no Sporting.
7. Afinal, os críticos – como Rogério Alves e Paulo Farinha Alves - podem mesmo estar certos: o Sporting Clube de Portugal pagará bem caro a presidência cheia de precipitações de Bruno de Carvalho (que tinha qualidades pessoais para fazer mais e melhor…)."

Os homens e o presidente (como o Benfica chegou ao tetra)

"É preciso recuar 11 anos para explicar como chegou o Benfica até este lugar estável e consistente, que permitiu a conquista de quatro títulos consecutivos, uma marca inédita no clube

Não deixa de ser curioso que o clube que mais títulos ganhou, que melhores equipas teve e que tem a maior base social, aquele a quem os seus adeptos chamam Glorioso quando não usam o acrónimo SLB para encurtar o nome Sport Lisboa e Benfica, o popular Benfica, dizia eu, não deixa de ser curioso que este emblema nunca tenha vencido quatro campeonatos seguidos.
Tanto mais que o Porto ou o FCP, o Futebol Clube do Porto, já teve o seu ‘tetra’ e inclusivamente o seu ‘penta’, que conferiu o estatuto singular a um treinador que ficou para sempre conhecido como o “engenheiro do penta”, até se tornar o salvador da pátria portuguesa no Euro-2016. E não deixa também de ser curioso que esse mesmo engenheiro, o pragmático Fernando Santos, é o ponto de ligação entre estas duas histórias que se cruzam.
É preciso recuar 11 anos para explicar como chegou o Benfica até este lugar estável e consistente. Em 2006, Luís Filipe Vieira apresentou Fernando Santos e Rui Costa, dois benfiquistas, um para treinar, outro para jogar, num passo que o presidente achava ser suficiente para conquistar o seu segundo título. Correu mal.
Fernando Santos ganhou zero, Rui Costa lesionou-se e Vieira veio a despedir o treinador no início da época seguinte, algo do qual se arrependeria publicamente – e repetidamente. Já Rui Costa regressou em bom plano em 2007/08, com os pés no relvado e a cabeça naquilo que o levara a voltar a casa com um cheque em branco – a presidência do Benfica. O ‘Maestro’ pendurou as chuteiras, entrou para a direcção desportiva do clube e trouxe Quique Flores, um técnico com o discurso e o look certos para um Benfica supostamente moderno. Vieira, fragilizado interna e externamente pelos maus resultados e pela incoerência na escolha dos treinadores, viu a sua escolha vetada – era Jorge Jesus, na altura, treinador do Belenenses. Depois, foi o que se viu: Quique era limitado e, sobretudo, não percebia o futebol português; o Benfica perdeu o embalo e Rui Costa o ascendente.
Então, Vieira agiu pelos seus próprios termos, ‘encostou’ Rui Costa, que tinha “ainda muito para aprender”, comprometeu-se com Jesus à revelia do Sporting de Braga e ganhou a sua aposta com uma superequipa onde já se notava o braço armado de Jorge Mendes. Aos poucos, Jorge Jesus pôs a equipa a atropelar os adversários, o estádio da Luz encheu, o clube fez bons encaixes financeiros com a ajuda de Mendes, e Domingos Soares de Oliveira começou a transformar o Benfica numa máquina mediática e influente – o fim da parceria com a Olivedesportos e a transmissão dos jogos estava a ser preparada nos bastidores.
Isto foi acontecendo aos solavancos e resistiu aos três anos em que o Benfica de Jesus veio a ser derrotado pelos FC Porto de Villas-Boas e de Vítor Pereira, forçando Vieira, fã de uma boa ‘suecada’, a jogar a cartada mais arriscada – manter J.J. após aquela Taça de Portugal perdida para o Vitória de... Rui Vitória. O presidente do Benfica continuou ao lado de Jesus, mas condicionou-lhe o raio de acção; o treinador sentiu-se isolado, disse a Vieira que queria Rui Costa perto dele, precisava de alguém com quem discutir futebol, e assim o ‘Maestro’ reassumiu funções de director desportivo. O grande salto em frente começava aqui.
O plano andava há anos nas mãos do triunvirato Vieira-Soares de Oliveira-Mendes, ao qual se tinham juntado o director de comunicação João Gabriel, ex-jornalista e antigo assessor de Jorge Sampaio, e Paulo Gonçalves, antigo assessor jurídico, vulgo advogado, do Boavista.
Os dois tornaram-se próximos. João Gabriel uniformizou o que se dizia publicamente, poliu as gafes de Luís Filipe Vieira e depois retirou-o dos holofotes, assumindo ele próprio as críticas aos rivais e à arbitragem, por exemplo, numa conferência de imprensa caricata e numa célebre entrevista a “A Bola”. Já Paulo Gonçalves foi a mola que fez o Benfica amigar-se de alguns clubes do Norte, o território de Pinto da Costa noutros tempos – é, dizem ao Expresso, o homem das sombras, um dos defensores do discurso agressivo e dos processos contra Jorge Jesus.
A rede de contactos esticou e diversificou-se, emprestaram-se jogadores e recomendaram-se treinadores a emblemas mais pequenos, ligações sempre úteis quando há decisões a tomar e votos a contar em assembleias da Liga. Por outro lado, houve a aproximação táctica ao presidente da FPF, Fernando Gomes, que entretanto se desamigara do FC Porto, clube em que chegara a ser administrador financeiro. E, por fim, sistematizou-se a boa relação com a arbitragem e com os árbitros, e os vouchers são a prova, e pôs-se a circular a cartilha – o autor moral e o executante das duas práticas são a mesma pessoa, o consultor Carlos Janela. O lobby empresarial entranhou-se na Luz, a marca internacionalizou-se com a Fly Emirates, o Benfica somou dois títulos consecutivos, em 2013/14 e 2014/15, e toda a gente estava aparentemente contente. Só que não.
Apesar de tudo, Jorge Jesus era um obstáculo ao circuito Benfica-Jorge Mendes, porque não punha os miúdos da formação a jogar na equipa principal – J.J. chegou mesmo a ligar a Mendes exigindo-lhe que o deixassem em paz, que jogava quem ele queria e “mais nada”. Mendes tem um dos seus colaboradores com ‘assento’ permanente no centro de estágios do Seixal, o ex-futebolista Valdir Cardoso, cuja missão é convencer os melhores e os mais talentosos a assinar pela Gestifute. O caso de Gonçalo Guedes é paradigmático – o jovem era agenciado por Paulo Rodrigues e trocou-o por Jorge Mendes, que acabou por levá-lo para o PSG por 30 milhões de euros.
Outro exemplo: na foto oficial da assinatura de Renato Sanches com o Bayern de Munique estão Valdir Cardoso e Paulo Rendeiro, do escritório de advogados da Morais Leitão, o braço legal da Gestifute. Nas duas transferências, ganhou Mendes e ganhou o Benfica, porque, diz-se na Luz, no banco de suplentes já estava Rui Vitória. O treinador do Benfica que ficará provavelmente para a história como o ‘professor do tetra’ tem o perfil certo: é um motivador nato, não olha a nomes, não faz perguntas desnecessárias, trabalha com o que tem, não arranja desculpas e a coisa flui. E, isso, é aparentemente suficiente se a estrutura está cristalizada. E operacional."


PS: A Lagartice é uma doença difícil de 'desligar'!!! O autor desta crónica é Lagarto, e mesmo quando tenta fazer uma resenha histórica é incapaz de 'desligar' a Lagartice: ligar os 'vouchers' a supostas boas relações com a arbitragem é demasiado ignorante para um profissional do 'desporto'; achar que o Benfica controla os 'bastidores' da Liga, quando o Benfica tem perdido sucessivamente todas as eleições na Liga, é demasiado parvo; construir uma suposta 'conspiração maléfica' em cima de relações privilegiadas com um agente de jogadores, é demasiada 'inveja'!!!

Como se fabrica um tetracampeão?

"A obtenção de resultados consistentes, resultantes de performances com flutuações mínimas intra ou interjogo(s), advém, independentemente da modalidade, de um processo desportivo solidamente concebido e estruturado.
Este é, por certo, um dos "responsáveis" do resultado que o Sport Lisboa e Benfica alcançou este fim-de-semana.
De facto, independentemente da qualidade do plantel ou das competências de liderança do seu treinador, já sobejamente reconhecidos e agraciados pelo público em geral e pelas diferentes instâncias desportivas e da sociedade em geral, existe toda uma imensa "máquina" por trás, do meu ponto de vista, demasiadamente "invisível" para o grande público, que todos os dias se entrega para que, ao nível do futebol profissional, todas as condições de excelência possam estar presentes.
Estas pessoas, que em regime de anonimato, muitas vezes, em prejuízo das suas próprias famílias, trabalham elas próprias em 'alto rendimento', dando o suporte necessário quer à equipa profissional, quer à formação (que um dia, num projecto ideal, deverá ser a principal fonte de matéria prima da equipa sénior) e, quase nunca vêem o seu esforço espelhado e reconhecido.
As "famílias", muito frequentemente, vêem também a sua importância não reconhecida - curiosamente, em contexto internacional, já existem "cursos" para trabalhar os skills de pais e cônjuges, no sentido de poderem ser um consistente suporte de afectos para um "atleta" (reconhecendo, desta forma, o seu papel e importância no sucesso desportivo do mesmo).
Esta tem sido a "tradição".
Se calhar, já era tempo de mudar a tradição.
Na realidade, quando em 2004 a imprensa noticiou que Scolari teria optado por dividir o prémio, em partes iguais, com todos os elementos integrantes da comitiva do Euro, e lhe foram reconhecidos elevadíssimos valores humanos... na realidade, ele estava a fazer um reconhecimento, simultaneamente interno e externo, da importância que 'a equipa dos invisíveis' tem para o sucesso final do processo desportivo, expresso no rendimento colectivo dos atletas.
Ele sabia, em essência, da importância do seu contributo e fê-los (fez-nos!) sentir isso.
Por cá, e voltando à "equipa de invisíveis" (impossível de os nomear a todos...) que tem contribuído para a consistência de resultados observada, importa referir que, do ponto de vista científico, este clube é, sem dúvida, um case-study importante e um óptimo exercício de "benchmarketing" para a concorrência (tal como os outros clubes o serão, certamente, em outras áreas).
De facto, a consistência observada nos últimos anos, ainda que "invisivelmente", vem sendo construída quase há 10 anos, pela iniciativa e visão estratégica do Dr. João Paulo de Almeida que, entregando a criação do primeiro departamento de Nutrição de Alto Rendimento a Inês Miranda Fernandes e integrando sob sua alçada (do departamento médico) os departamentos de Fisiologia, Fisioterapia e Psicologia, viria a ensaiar um trabalho de cariz verdadeiramente multudisciplinar.
O exercício deste grupo de profissionais, a sua própria crescente especialização e optimização de trabalho, enquanto equipa, viria a culminar na criação do já conhecido (e distinguido como organismo de excelência pela UEFA) Benfica LAB, sob a responsabilidade do Fisiologista Bruno Mendes, que tem evidenciado, quase como o seu DNA, um marcado cruzamento entre ciência e tecnologia (com, por exemplo, a integração de especialistas em IT ou a recente parceria estabelecida com a Microsoft).
Em boa verdade, e atendendo ao panorama internacional, o sucesso pontual alcança-se, muitas vezes, à custa de um excelente treinador e/ou do talento individual de um conjunto de atletas mas, o sucesso consolidado (um tetra ou penta campeonato) resulta de uma equação mais complexa onde todos os intervenientes (dos naturais protagonistas aos, aparentemente, "figurantes"), com o devido suporte directivo, assumem uma missão conjunta de excelência, cruzando o conhecimento científico, tecnológico e humano que, com um treinador com elevadas competências emocionais e de gestão motivacional , com alguma naturalidade, nos conduz a um espectáculo como o do fim de semana passada onde, sem dúvida, assistimos a um raro fenómeno de flow de equipa.
Porque, de resto, o futebol profissional é, cada vez mais, Ciência e 'bastidores' - afinal, os "ingredientes secretos" que permitem, aos Treinadores e Atletas, espelhar o seu efectivo valor."