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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Uma Liga de quatro e outra de catorze


"Há um versículo de São Mateus que diz «a quem tem, mais será dado», que me ocorreu recentemente a propósito de mais um mercado em que os principais emblemas do futebol português exibiram capacidade financeira inesperada, ou, no mínimo, muita criatividade na gestão de custo e benefício. No período que se encerra esta semana – ainda com possibilidade de retoques até sexta-feira –, os principais emblemas têm todos mais: mais dinheiro investido, mais jogadores, mais soluções. E, teoricamente, menos debilidades nos plantéis, pelo menos que sejam evidentes. 
No fundo, quem já tem vantagem competitiva – provas europeias, receitas crescentes e maior capacidade de investimento - reforça-se mais ainda e aumenta a distância.
O FC Porto precisava de um lateral-esquerdo e de mais um ponta de lança, chegaram Souza e Santi Giménez; o Benfica carecia de um lateral-esquerdo e de mais um médio ofensivo, para somar a um central e a um seis, e acaba de acrescentar El Karouani e Echeverri a Circati e Palhinha; o Sporting procurava outro guarda-redes e uma alternativa a Maxi Araújo, resolveu com Kaique e Zekri, depois das várias aquisições anteriores; o SC Braga reforçou o centro da defesa, aumentou as soluções de meio-campo e juntou Milosevic (depois de Wind) ao lote de pontas de lança. Os quatro estão melhores. E se já eram mais fortes do que os outros, é fácil perceber para que lado cresceu a diferença.
O Sporting foi o único que decidiu trocar parte importante do que funcionava por algo diferente. Às saídas «normais» de Hjulmand e Morita somou-se o franquear de portas a Trincão, Pedro Gonçalves e Daniel Bragança e só no caso do primeiro destes com evidente proveito financeiro. Foi uma revolução assumida, não um acidente de mercado. Rui Borges recebeu médios novos, mais capacidade física, velocidade e verticalidade, mas perdeu talento associativo, rotinas e jogadores que sabiam ganhar juntos.
É por isso também o treinador que tem mais para provar na nova época, agora que a herança de Amorim se esgotou. E tem um problema para gerir chamado Luis Suárez, melhor marcador da última Liga, que admitiu sair, fez um Mundial apagado e se deixou envolver no ruído telenovelesco das redes sociais (e de vários programas de alegado comentário desportivo, valha a verdade).
Entre vários reforços que prometem, a melhor notícia vem do berço de Alcochete e tem o nome de Flávio Gonçalves. Aos 19 anos, joga como quem ainda não aprendeu a ter medo e – não duvido – terá mais cedo que tarde a seleção à vista.
No FC Porto o caminho foi o inverso, de absoluta consolidação, e os primeiros resultados validam-no. Farioli mantém princípios, processos e as peças essenciais de uma equipa campeã e acrescentou o que fazia falta: Souza responde a uma necessidade antiga no lado esquerdo, Giménez aumenta o nível na frente e Gabriel Mec é uma compra particularmente feliz, um talento raro adquirido por um valor que, num tempo de transferências inflacionadas, pode ser considerado uma pechincha.
Já a saída de Rodrigo Mora para a Roma continuará a dividir opiniões e só o futuro ditará se vai ser bem ou mal compreendida. E mais que o rendimento do jovem craque em Itália, pesará o que o Porto possa lograr sem ele e o que retirará das qualidades de Inbeom e do reconduzido Fofana. A incógnita maior, nesta altura, chama-se Samu. Quando regressar, encontrará Giménez com estatuto para jogar e André Silva também na fila.
Não estarei enganado se disser que na garantia dos apoios frontais, essenciais ao processo ofensivo portista, Giménez rapidamente aportará mais do que os outros candidatos à função. Se retomar a veia goleadora que exibiu nos Países Baixos, dificilmente deixará de ser opção principal. Claro que a época é longa, com vários jogos no país e na Europa, mas o cliché de que este tipo de concorrência é um bom problema para treinadores não evita que seja efetivamente um problema.
Até porque há concorrências que fazem crescer e outras que diminuem jogadores, assim com impactam, para melhor ou pior, o ambiente num balneário. Daqui a uns meses descobriremos para que lado cai esta.
O Benfica fez aparentemente o que não conseguiu há um ano: contratar com critério em vez de acumular jogadores caros. Ríos, Ivanovic e Lukebakio são exemplos do desperdício da época anterior, mas, descontada a contratação precipitada e cara de Kaminski, nota-se uma correção de tiro.
Circati e Palhinha trazem a dimensão física que não existia, El Karouani acrescenta capacidade ofensiva, Echeverri tem oportunidade de confirmar o indiscutível talento que carrega. Aqui entra a questão Sudakov, jogador com uma influência no jogo encarnado que não tem tido tradução em golos e assistências, Não é fácil que se perceba isto numa altura em que a torrente já descreu do ucraniano, mas, a despeito de poder render mais e definir melhor, está longe de ser o grande problema da equipa.
Além de dominar como poucos os rudimentos de receção e passe, essenciais para manter posse, Sudakov liga construção a criação, garante pausa e descobre caminhos que favorecem os mais adiantados da equipa. Talvez se perceba melhor que não era um inútil quando, um destes dias, não estiver em campo. Mas Sudakov é um 10 com perfil de 8, um médio, o tal terceiro médio. Por isso, Echeverri será outra coisa, alternativa, um 10 que é mais 9,5, enganche de entrelinhas, próximo da área, capaz de receber de costas, rodar e ligar-se aos avançados, finalizar.
São caminhos diferentes e dificilmente compatíveis, e jogar um outro vai sempre ter impacto no processo encarnado. Para já, o modelo tático garante um jogar de equipa grande, de iniciativa e risco, em claro contraste com o passado recente. Permanece, na Luz, a grande incógnita da baliza, que Trubin perdeu confiança, além do lugar, e, ao dia de hoje, ninguém sabe exatamente o que vale Samuel Soares como guardião de equipa grande.
Em Braga, Carlos Vicens beneficia, como Farioli, de um bom caminho feito e que pode ser aprofundado. O trabalho da época anterior deixou uma identidade reconhecível e o mercado tratou de melhorar o elenco onde era mais curto. Huseinbasic e Tommy Marqués multiplicam soluções no meio, a defesa ganhou alternativas (Barcia, Bajrami, Travassos) e na frente há agora poder de fogo aumentado. A Ricardo Horta, Fran Navarro e Pau Victor juntaram-se Jovan Milosevic e Jonas Wind.
Wind é a minha incógnita, porque tem maturidade, poder físico e um bom histórico goleador na Bundesliga, mas começou condicionado e viu chegar entretanto o promissor sérvio de 21 anos por quem o Braga fez um investimento relevante. E ainda há Fran Navarro, que garante sempre uns quantos golos por ano. É, aliás, essa a diferença essencial entre estas quatro e quase todas as outras equipas: quando lhes falta um jogador têm outro, e quando o outro falha podem ainda ir buscar um terceiro.
Lembramos sempre Cruyff que nunca viu «um saco de dinheiro marcar um golo», mas, se é verdade que num dia feliz qualquer equipa pode surpreender – o Estrela já o fez com o Sporting e o Académico com o Benfica -, competir em 34 jornadas contra plantéis que acumulam este nível de soluções tornou-se outra coisa. O problema da Liga portuguesa não é apenas haver três grandes e um Braga lá perto. É esses quatro estarem cada vez mais longe dos restantes, por muito que aumente também a capacidade de investimento noutros emblemas.
Chega a ser incrível como se fala tanto em dificuldades financeiras dos maiores clubes e nestes momentos, seja por via de compra direta ou de empréstimos (alguns milionários), surja sempre dinheiro para mais um all-in. Lá está: «a quem tem, mais será dado»."

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