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sábado, 5 de setembro de 2026

A nobre arte portuguesa de dizer mal


"O português tem uma queda especial para dizer mal de si próprio. Olhar para o desporto hoje e não reconhecer melhorias é doentio. Já agora, há 17 pavilhões no País com ar condicionado

A possibilidade de caracterizar um povo por inteiro é apenas mais uma forma de generalizar, o que como sabemos é extremamente perigoso, pode acarretar injustiças e normalmente até está errado. Sempre ouvi, por exemplo, que «os espanhóis recebem mal os portugueses» e no entanto ando, há muitos anos, a ter provas do oposto de cada vez que passo a fronteira.
Mas quando penso na capacidade de dizer mal de si próprio não consigo deixar de imaginar, imediatamente, um português. Um qualquer de nós. Pode ser a figura do Zé Povinho do Bordalo, que sem deixar de corresponder a um estereótipo não deixa de ter a sua graça.
Recentemente, numa excelente conversa com o José Manuel Delgado, nas plataformas de A BOLA, o presidente da Confederação do Desporto de Portugal chamou a atenção para uma série de problemas incontornáveis. Daniel Monteiro sugeriu o aumento da dotação ao desporto do dinheiro resultante de impostos sobre apostas desportivas, muito bem, e chamou a atenção para carências inacreditáveis em federações menos expostas ou ricas.
Esta é a forma construtiva de criticar e procurar soluções, sabendo todos que Portugal é hoje um país desportivo muito mais rico do que no século passado. A nossa primeira medalha de ouro olímpica ainda não fez 50 anos, e só bem mais tarde começámos, por exemplo, a vencer em modalidades e disciplinas mais técnicas que o fundo e o meio fundo. Isto revela trabalho, treino e algum investimento, ainda que talvez longe do ideal. Há, seja como for, muito mais infraestruturas e os resultados estão à vista.
Pareceu, por isso, desajustado o desabafo do selecionador de basquetebol sobre o calor no pavilhão do Casal Vistoso. Um desabafo, ainda por cima, solto bem à portuguesa, questionando se os governantes trabalhavam em gabinetes sem ar condicionado. Não trabalham (espero) e ainda bem.
A Seleção de basquetebol podia ter escolhido um de 17 pavilhões públicos climatizados ou cinco de ar forçado existentes no País para trabalhar. Além dos que certamente alguns clubes poderiam disponibilizar. Não foi por nada disso que Portugal fez história ao vencer em Espanha dias depois ou perdeu, mais tarde, com a Geórgia.
Não somos a maior potência desportiva do Mundo, da Europa ou sequer da Península Ibérica, mas escusamos de exagerar na crítica gratuita."

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