"Um dos jogadores polacos da
equipa de André Villas-Boas confessou, sem vergonha na cara,
que não lhe é permitido usar
emojis de corações vermelhos
nas suas publicações nas redes
sociais. E que não deve falar de
Lisboa ou, sequer, visitar a capital portuguesa. Daria para rir, se
não fosse profundamente triste.
A lufada de ar fresco, que os
especialistas preconizavam com
a chegada do novo presidente do
FC Porto ao poder, é, afinal, a
continuidade de uma realidade
provinciana. Depois de já ser
público que chuteiras e peças de
roupa vermelhas estavam vedadas a jogadores e funcionários
do clube para sempre ligado ao
Apito Dourado, vem agora esta
confirmação da pequenez de
mentes de quem gere um clube
de impacto nacional que, na verdade, nunca deixou de ser o veículo de uma mentalidade tacanha e ultrapassada.
Com um quarto do século XXI já
vivido, é lamentável este tipo de
atitudes e de pensamentos que
só fomentam ódio, violência, divisão e perseguição. Haver quem
pense assim não me espanta –
basta ver o estado a que chegámos enquanto sociedade ocidental. O que surpreende é a facilidade com que se admite este
sentimento latente de inferioridade, sem receio de cair no ridículo, mas não só caindo, como
mergulhando – com todo o gosto
– neste comportamento acéfalo.
Pouco mais de 300 quilómetros
separam Lisboa da segunda
maior cidade portuguesa (ou
terceira, se contarmos com
Paris e os seus portugueses e
lusodescendentes), mas há
– pelo menos – uns quantos
anos-luz a separar a clarividência dos dirigentes portistas da
realidade. Estas são as batalhas
que lhes dão vida. Não é de hoje,
vem do tempo de Lisboa a arder,
do avião da Chapecoense, do
estádio de Oeiras, dos enforcados nas pontes, das bolas de
golfe no relvado, das agressões
a Pizzi, dos balneários empestados, dos árbitros de férias no
Brasil, do café com leite ou dos
negócios ilícitos da guarda pretoriana. Mas está tudo bem,
quem joga com o estádio interdito somos nós."
Ricardo Santos, in O Benfica

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