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sábado, 29 de agosto de 2026

André Villas-Boas, Farioli e os… ‘juros de Mora’


"André Villas-Boas quer ser presente e futuro, mas ainda está muito ligado às técnicas do passado

1. Rodrigo Mora já fez a sua estreia na Série A pela Roma e deixou água na boca, na vitória da sua nova equipa por 4-0 diante da Fiorentina. Só não marcou um ‘golaço’ à passagem dos 20 minutos porque o guarda-redes espanhol De Gea realizou uma defesa espetacular a um remate não menos espetacular do ‘internacional’ português, titular no jogo de estreia do campeonato italiano, com pouco menos de uma hora em campo e a justificar rasgados elogios da imprensa transalpina.

2. A transferência do menino de 19 anos, sempre muito acarinhado no Dragão como uma referência para os sócios e adeptos do FC Porto, já fez correr muita tinta e ela ainda suscita muitas interrogações, a partir do momento em que o advogado de Rodrigo Mora entrou na operação de venda para lhe dar suporte jurídico e fez um conjunto de considerações que visam sobretudo André Villas-Boas (AVB).

3. É público que houve um impasse entre FC Porto e Roma antes da transferência ficar acertada, num movimento financeiro que faz entrar 25M€ fixos nos cofres portistas (não é conhecido o calendário de pagamento, mas é natural que esse montante seja liquidado no imediato), acrescendo mais 2M€ por objetivos, mas em função da forma como foi desenhada a operação, a Roma adquiriu os direitos de inscrição e o FC Porto conservou 50% dos direitos económicos. Em 2027, a Roma terá uma primeira oportunidade para adquirir os 50% restantes por 25M€ e, em 2028, uma segunda ocasião para o fazer. Se a Roma não comprar imediatamente após a ‘janela’ de 2028, o FC Porto pode exercer uma opção de venda incondicional, obrigando a Roma a comprar a percentagem que o FC Porto queira vender. O clube azul-e-branco, em vez de obrigar a Roma a comprar tudo, ainda tem a possibilidade de conservar uma parte dos direitos económicos para beneficiar de uma futura transferência por valor superior.

4. Este é, em síntese, o desenho da operação financeira e só mais tarde saberemos com rigor a dimensão e o impacto da operação neste domínio. O debate, contudo, começou antes, muito antes, praticamente desde que Farioli chegou ao FC Porto e agudizou-se nos últimos tempos, em função da não utilização regular da coqueluche portista e foi isso mais a necessidade do clube azul-e-branco necessitar de fazer encaixe(s) a fazer com que a transferência para a Roma se concretizasse. Na procura dos factos é importante assinalar que o FC Porto fez, depois da partida de Martín Anselmi, um esforço considerável para reforçar a equipa. Acredito que nesse reforço, posição por posição e intersetorialmente, AVB e Farioli tivessem encontrado pontos de comunhão para tornar o FC Porto mais forte e nessas equações Rodrigo Mora foi começando a perder espaço…

5. …Mas a questão mantém-se: sendo um jogador tão querido e acarinhado pela massa adepta do FC Porto, que sempre olhou para ele, com 19 anos, como a bandeira-craque do presente e do futuro, como é que se chegou ao ponto de não se encontrar uma fórmula táctica para encaixar um jovem atleta tão promissor? É este debate que não me faz sentido, embora compreenda a legitimidade do treinador para escolher quem quer para corporizar o seu modelo de jogo, sobretudo depois de ter levado o FC Porto ao título de campeão nacional, com as suas ideias, com as suas opções nucleares e com o apoio, que sempre pareceu incondicional, do presidente e da sua estrutura de apoio.

6. Não sabemos ao certo quanto é que o FC Porto vai lucrar com esta operação de deixar Mora fora do seu balneário, foi público que o Al-Ittihad em outubro do ano passado prometera chegar aos 63M€, o que não se concretizou, mas independentemente da questão financeira (AVB disse há três meses que queria manter o jovem atleta, uma vez que se tratava de «um dos melhores talentos do Mundo»), mas aqui é que as coisas não batem certo, porque sendo verdade que AVB ressalvou sempre imperativos de natureza financeira, há dois raciocínios incontornáveis: (a) como é que «um dos melhores talentos do Mundo» não tem lugar na equipa? (b) não é verdade que os imperativos de natureza financeira poderiam ser resolvidos, pelo menos em parte, pela venda de… outros jogadores?!!!

7. O FC Porto não possui outros jogadores vendáveis, já para não falar em apostas arriscadíssimas, como foi a compra de Samu? Basta perguntar ao Chelsea, antes do ponta-de-lança ter rumado ao Dragão. Para encaixar 25M€ no imediato, independentemente de se ter de olhar para a negociação de uma forma global (cujos resultados só serão possíveis de apurar em 2027 ou mesmo em 2028), não haveria outras formas de fazer receitas, sem prescindir do menino-prodígio e, repito, secundando as palavras do presidente, manter no Dragão «um dos melhores talentos do Mundo»? Há duas semanas, o próprio Farioli dizia que o jogador vinha tendo um comportamento «muito profissional» mas não há forma de menosprezar a declaração do advogado de Mora (Luís Miguel Henrique), realizada na mesma altura, segundo a qual o jogador estava triste e «a sofrer», principalmente por sentir que era uma espécie de terceira opção no lugar que lhe podia estar destinado na equipa portista, com toda a subjetividade que isso alcança. Nem se deve diminuir o impacto das palavras de Farioli quando classificou a saída de Mora como uma decisão de natureza.

8. Preto no branco: as narrativas do enquadramento desportivo e dos imperativos financeiros, que estão sempre presentes na indústria do futebol – e com toda a propriedade, diga-se de passagem, quando correspondem, em cada situação pontual, à realidade plena – escondem uma parte essencial do negócio, aliás como acontece também na esmagadora maioria dos negócios no futebol. Para se alcançar o todo e não apenas uma parte. Refiro-me às questões das intermediações, que arrastam com eles o tema das comissões e das relações entre clubes e empresários.

9. Sem medo das palavras: quem é o agente de Rodrigo Mora? Jorge Mendes. Qual é o nível de relação atual entre Jorge Mendes/Gestifute e a estrutura central do FC Porto? Como se move essa estrutura central do FC Porto? Quem representa a esmagadora maioria dos jogadores do clube azul-e-branco? Não é Raul Costa hoje uma figura dominante na área da representação e da intermediação? Não é Antero Henrique o principal conselheiro de André Villas-Boas? Não terá sido Rodrigo Mora prejudicado ou preterido por não estar enquadrado na nomenclatura dominante?

10. Com efeito – e passe o trocadilho – não é normal que um jogador elogiado por todos, e agora até pelos romanos, esteja a pagar ‘juros de Mora’ por uma situação que nada tem que ver com o seu talento, potencial e relação afetiva com o clube onde cresceu desde os 9 anos de idade. As dinâmicas de intermediação e o ‘efeito Mendes’ contribuíram muito para que Mora deixasse de se sentir como o ‘menino bonito’ do Dragão. Esta é a parte (in)visível do icebergue. A outra tem a ver com as mais recentes declarações de AVB sobre as condições oferecidas pelos nossos estádios e o tema da tecnologia (100% de acordo com ele) e, também, com o seu comportamento presidencial, preenchido por inúmeras contradições e antagonismos. Na verdade, AVB quer ser presente e futuro, mas ainda está muito ligado ao passado. Não atuou internamente como prometeu para eliminar conflitos de interesses e situações que possam beliscar os interesses do FC Porto (vide ‘Porto Seguros’) e isso é algo que muita gente não gosta nem perdoa. Nem os indefetíveis de Pinto da Costa (AVB ainda não está convencido de que não vai buscar nem 1% aos 20% que votaram no antigo presidente) nem muitos daqueles que somaram 80% a seu favor nas urnas.

Porque a promessa de regeneração choca brutalmente com algumas técnicas do passado. Com proteções nominais que ninguém esperava que pudessem acontecer…"

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