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quinta-feira, 26 de julho de 2018

Uma visão cristã do desporto

"O documento avisa que não se trata de falar de uma visão de desporto cristão, mas antes de uma visão cristã do desporto

A Santa Fé, através do seu Dicastério para os Leigos, a Famílias e a Vida criado pelo Papa Francisco em 2016, tornou público no passado dia 1 de Junho um documento intitulado 'Dar o melhor de si: uma perspectiva católica do desporto e da pessoa humana'.
Trata-se de uma reflexão profunda e substantiva, numa abordagem que incita e uma verdadeira pastoral do desporto, que, além do mais, é inédita na Igreja Católica que, justa ou injustamente, foi sempre vista como hostil ou dando pouca importância humana, social e ética ao fenómeno universal e global do desporto.
Reservo esta coluna de hoje para, ainda que muito parcelar e resumidamente, registar alguns elementos que considero mais interessantes e reflexivos. No meio do actualismo insaciável e do primado dos epifenómenos que satisfazem a gula desportiva mediática de quem notícia e de quem consome as notícias, sei que estas temáticas não entusiasmarão a maioria dos leitores. Aliás, a ausência de referências e o silêncio dos meios audiovisuais quanto ao documento são elucidativos do desprezo de quase tudo o que vem da Igreja, excepto se for algo criticamente excitante. Mesmo assim, não mudei de ideias e registo este documento como um ponto marcante na essência antropológica do desporto e um lugar de encontro «onde pessoas de todos os níveis e condições sociais se unem para atingir um objectivo comum» nas palavras do Papa.
O documento avisa que não se trata de falar de uma visão de desporto cristão, mas antes de uma visão cristã do desporto. Este, enquanto actividade física em movimento, individual ou colectiva, de carácter lúdico ou de competição, com sistema de regras e de códigos, deve ser valorizado como um «ginásio de vida», no qual as virtudes de temperança, da humildade, de coragem, da paciência podem ser desenvolvidas.
É chamada a atenção para o «sistema de desporto», que visto do seu lado exterior e sujeito à multiplicidade interpretativa e apreciativa, o torna fascinante e popular por toda a parte e em todas as expressões, mas que, também e ao mesmo tempo, «o expõe a formas de instrumentalização funcional e ideológica» que não lhe são originárias.
A parte do texto que mais me chamou a atenção foi a que discorre sobre um conjunto de elementos substantivos para um desporto de corpo, alma e espírito: liberdade, criatividade, igualdade de oportunidades, alegria, fair-play, coragem, harmonia, solidariedade.
Quanto ao fair-play reafirma-se que deve ser sempre visto como «uma oportunidade de educação para toda a sociedade», uma polinização do exemplo de virtudes comportamentais: «Uma coisa é respeitarem-se as regras do jogo evitando ser-se sancionado pelo árbitro ou desqualificado por uma violação regulamentar; outra coisa é respeitar o adversário e a sua liberdade seja qual for o enquadramento regulamentar».
Está muita difundida a mentalidade individualista e egocêntrica, pela qual interesses individuais parecem prevalecer sobre o espírito de equipa. O documento adverte para essa situação e refere que «todos se revestem por si de um contributo único e específico que pode tornar mais forte o colectivo».
É enaltecida a alegria que se alcança praticando um desporto e emerge, muitas vezes, das dificuldades e dos desafios mais duros, não esquecendo que «há muita gente que pratica desporto apenas pelo prazer, pela oportunidade de relacionamento saudável, para aprender novas competências ou para se sentir parte de um determinada comunidade».
O documento aborda, também, reais perigos de desestruturação da harmonia imanente ao desporto. E exemplifica com a excessiva comercialização de alguns desportos e a dependência de modelos científicos sem preocupações éticas, ou a promoção de modos desportivos nos quais o corpo é reduzido a um mero meio ou objecto para conquistar um determinado objectivo. O fascínio que cada vez mais suscita o desporto ao mundo global, com eventos planetários que são vistos por milhões de pessoas e o «vencer a todo o custo» expõem-no a desvios de práticas e políticas incomparáveis com a dignidade da pessoa, quer no que se refere aos praticantes, quer a outros interessados em redor do desporto, como sejam os espectadores e adeptos. A reflexão aponta, por exemplo, a instrumentalização para veicular interesses políticos, mediáticos, de facção ou de formas espúrias de poder, nacionalismos e explorações financeiras condenáveis.
Quanto à igualdade que deve estar implícita no desporto, diz-se que, todavia, «não significa homogeneidade e conformidade, significando, antes, respeito pela diferença e pela diversidade da condição humana, designadamente quanto ao sexo, idade, proveniência cultural e social e tradição», não deixando de promover ou sustentar uma cultura de encontro, de paz e da inclusão.
O tema da solidariedade está desenvolvido com clareza, havendo um ponto mais específico que se refere à responsabilidade social dos atletas mais famosos e vitoriosos em actividades desportivas que «todos os fins de semana e aos quais os meios de comunicação social dedicam amplo espaço».
Já na parte conclusiva, o texto chama a atenção para o que considera serem os quatro grandes e específicos desafios para o integral e são desenvolvimento desportivo, tendo em consideração a multiplicidade de agentes co-envolvidos no fenómeno desportivo (atletas, espectadores, media, gestores, empresários, políticos, etc.): a exploração e aviltamento do corpo, o doping, a corrupção na prática e gestão desportivas e nas apostas e comportamentos desviantes no seio dos espectadores e adeptos.
Quanto ao primeiro ponto, adverte-se para o perigo da «automatização» de atletas, sobretudo nas competições de alto nível desportivo, na obsessão de alcançar o sucesso, as medalhas, os recordes e ganhos pecuniários. Denunciam-se situações como as que «vêm tornando cada vez mais frequentes práticas em que jovens são deixados nas mãos de treinadores e dirigentes unicamente interessados na especialização unidireccional de talento (...) com especializações precoces que abrem a porta, não raro, a infortúnios (...)», exemplificando com a ginástica de elite, onde há uma ditadura do protótipo de corpo ideal que exige brutais restrições alimentares e excessivas cargas de treino.
Sobre o doping físico e mecânico, que cada vez mais se disfarça de formas desenvolvimento tecnológico ou descobertas no campo médico, é afirmado que é, tão-só, a ponta do iceberg de um fenómeno que está crescentemente a entrar nas profundezas do desporto. «Para o combater (...) não basta apelar à moral individual de cada atleta», mas também envolver os principais agentes que, tantas vezes, estão na base da tentação de a ele recorrer.

Ainda o Mundial
1. O jogo da final trouxe-nos um campeão esperado, ainda que não excitante. A França venceu bem a Croácia foi uma digna finalista. Aqui e agora, gostaria, tão-só, de registar momentos que tiveram tanto de belo, como de estranho. Refiro-me à entrega das medalhas e da Taça realizada sob copiosa chuva de Verão. Três presidentes a ela presidiram. Emmanuel Macron e a sua homóloga croata, Kolinda Grabar-Kitarovic, indiferentes à chuva que os encharcou, foram calorosos e com um assinalável sentimento de festa e fair-play, em particular a derrotada. A seu lado, o presidente russo, frio, calculista, enigmático, distante, com uma atitude que culminou numa incrível deselegância, ao não passar aos seus convidados o guarda-chuva que logo a organização lhe proporcionou. «Não havia necessidade», até porque este Mundial foi desportiva e civicamente exemplar.

2. Na última semana da competição, a pressurosa FIFA anunciou que iria falar com as cadeias de televisão para que fossem diminuídas as imagens nas bancadas dos estádios, devido às elevadas queixas de sexismo que haviam surgido durante o Campeonato do Mundo (trinta, credo!). «Falámos de forma individual com todas as operadoras para que deixem de focar nas raparigas que podem ser consideradas atraentes. É trazer uma carga sexista desnecessária ao futebol», disse o responsável pelo 'programa de diversidade' (sic) da FIFA. Eis a obsessão de falso puritismo que varre a correcção política sexual! Ridículo, no mínimo. Já agora - e pondo de lado, a cientificidade na definição de «raparigas atraentes» - por que razão a FIFA não faz de policia de costumes no controlo de entradas das raparigas ou não define limites de vestuário (ou falta dele)?"

Bagão Félix, in A Bola

Orgia

"1. Sérgio Conceição dispensou dois reforços de verão (Saldy Janko e Ewerton) e dois de Inverno (Paulinho e Waris), já depois de terem saído Gonçalo Paciência e Osório (também tinha chegado em Janeiro). É mais difícil perceber a política desportiva do FC Porto do que saber a idade correcta de Mbemba.
2. Porque estamos no verão, há que dizer que o Benfica sem Jonas seria como uma praia sem vendedores de bolas de Berlim, sobretudo num ano de gulosa «reconquista».
3. Costuma dizer-se que eleições com vários candidatos são sinal de democracia e vitalidade, mas quando em causa estão oito ou nove listas (se Figo avançar), então é uma orgia eleitoral.
4. «O Sporting não pode viver dias de total falta de democracia», diz Bruno de Carvalho. Há crianças que têm amigos imaginários, Bruno de Carvalho tem uma consciência imaginária. E uma grande lata, já agora. O homem, para voltar ao poder, é capaz de jurar a pés juntos que Herrera sempre teve as orelhas para dentro.
5. A vida do Benfica continua a ser um e-mail aberto, com alguns blogs (sobretudo um) a tentarem fazer justiça pelas próprias teclas. Perceber-se o sentimento de impotência das águias (independentemente do que a Justiça venha a decidir), mas daí a processar a Google é como eu processar Adão e Eva quando a minha mulher me pedir o divórcio. Revela um desespero maior do que barriga de Viviano e tão ridículo como as quedas de Neymar.
6. Os testes físicos de Ronaldo na Juventus indiciam tratar-se de um jovem de 20 anos e não de 33. É mais ou menos o que tem acontecido com Sousa Cintra no Sporting. Nunca vi bombeiro com 73 anos em tão boa forma.
7. A FIFA quer acabar com as imagens de mulheres bonitas durante as transmissões. Viva os homens gordos e peludos em tronco nu, as crianças a tirarem orangotangos do nariz e as mulheres sem dentes e com cabelo oleoso. No fundo, viva a estupidez."

Gonçalo Guimarães, in A Bola

O tempo que foge ao Benfica

"O Benfica está a duas semanas de começar a época oficial, e logo com um compromisso europeu que pode determinar toda a temporada. Ao contrário do que vinha sendo hábito na casa encarnada, a turma da Luz está este ano obrigada a testes prévios no caminho que pode abrir as portas da Liga dos Campeões e aí a margem de erro de que dispõe é diminuta. Um insucesso, que acarretaria um prejuízo de pelo menos 40 milhões de euros, transformaria o dia a dia da equipa de Rui Vitória num exercício de convívio penoso com o descontentamento dos adeptos.
É por todas estas razões que se vê com alguma apreensão, na certeza de que o futebol nacional só terá a ganhar com duas equipas na máxima competição da UEFA, o atraso no fecho do plantel do Benfica, o que cria uma sensação de déjà-vu relativamente a 2017/2018, época que redundou no fracasso da perda do título nacional e numa presença que ficou a anos-luz do prestígio europeu dos encarnados na liga milionária.
A Rui Vitória, por certo, não bastaria ter o plantel fechado na véspera do primeiro jogo com o Fernerbahçe, o treinador do Benfica precisa de todas as unidades à disposição mais cedo, por forma a poder trabalhar os automatismos e a desenvolver uma lógica colectiva sempre na base do sucesso no futebol.
Se, ao azar de lhe ter tocado uma fava turca nesta terceira pré-eliminatória, o Benfica adicionar um comportamento pouco agressivo no mercado, podemos estar perante o desenvolvimento de uma tempestade perfeita, dramática para a retoma prometida na Luz. E, pelo que tem sido possível observar, o plantel do Benfica não pode estar fechado, há posições que carecem de reforço, de olhos postos na Champions e não só."

José Manuel Delgado, in A Bola

Sabe quem é? Com o não de Salazar - Eusébio

"Aos 15 anos, a Juventus quis levá-lo para Turim, não foi por causa da mãe. Tentaram-no de novo, tropa travou-o

1. Aos 15 anos, poderia ter sido o primeiro português na Juventus, Elisa Anissabene não deixou. Vendo-o em jogo, um turista acidental beliscara-se para saber se era mesmo verdade o frenesim que lhe saía do corpo, o fulgor que lhe saía dos pés - e era. «Falaram com a minha mãe para me levar logo dali - mas Itália, para ela, era uma grande confusão, por me achar um garoto e ser longe. Disse-lhes não e, não muito depois, surgiu o Belenenses a dar 110 contos por mim. E a seguir, apareceu o FC Porto a dar 150».
2. Não foi para o FC Porto - e, sem grande tardar, puseram-no no Benfica. Ao sabê-lo, o Sporting tentou desviá-lo para Alvalade. «Muito dinheiro me prometeram para dar o dito por não dito. Não dei, passaram às ameaças: que nunca seria autorizado a jogar pelo Benfica, que seria irradiado do futebol - e pior: Coluna chegou a aconselhar-me cuidado até a atravessar a rua, que podiam atropelar-me...»
3. Percebendo que nem a pressão, nem a ameaça o tiravam no finca pé, o Sporting tentou, então, a sedução para o demover. A pretexto de o levar ao cinema, Hilário levou-o, clandestino, a casa de Jaime Duarte, chefe do futebol no Sporting: «Apresentou-me papéis nos quais queria que eu pusesse a minha assinatura. Não sei o que diziam, não cheguei a lê-los. O que sei é que o senhor me disse que se eu os assinasse, me daria os maços de notas que me mostrou». (Os maços faziam 500 contos, hoje seriam 183 mil euros).
4. Estava a viver no Lar do Benfica. Para lá voltou em alvoroço a contar o que se passara com Jaime Duarte. Gastão Silva ordenou a Domingos Claudino, proprietário de frota de táxis, que o levasse para o Algarve - e que lhe escondesse até calças e sapatos, por precaução. (Para os sportinguistas foi rapto, para ele não). «Fomos para Meia Praia durante 12 dias. Pegava na bola de manhã e passava o dia a correr e a dar toques sozinho, na praia».
5. Ao cabo de vários meses em turbilhão fechou-se a novela com 400 contos despachado para o Sporting de Lourenço Marques. Atraso no desfecho impedira-o de jogar a Taça dos Campeões que o Benfica ganhou ao Barcelona - e, na que ganhou ao Real, jornalista inglês escreveu: «Às 21.20 horas desta quarta-feira, Di Stéfano, de 35 anos, tirou a camisola, entregou-a a rapaz de 19, de Moçambique - e assim lhe entregou o velho capitão a sua posição, a sua coroa simbólica...».
6. Antes, num jogo de Portugal em Wembley, Haynes, o capitão inglês, não calara já deslumbramento que lhe cruzara os olhos: «É excepcional! Ganha 50 libras? Eu fazia greve!» (Greve era palavra maldita. Que censor, distraído deixou que passasse em parangonas por A Bola. E 50 libras eram 4 contos).
7. Era cada vez mais fascínio - e em Outubro de 1963, chamaram-no à selecção do Mundo para partida de comemoração do Centenário do Futebol - em Wembley.
8. Horas após o seu regresso de Londres assentou praça no Regimento de Artilharia Antiáerea Fixa, como soldado-recruta 1987/63 - com direito a 200 escudos de pré por ser desarranchado (200 escudos era a multa mínima aplicada pelos cabos de mar que, de fita métrica a eito, criandavam pela areia a ver se os fatos de banho cumpriam a norma de um decreto que os determinava de muito tecido - a máxima podia ser de 4000).
9. Se, no quartel de Queluz lhe coubesse serviço qualquer, acabava sempre por arranjar forma de se livrar dele, pagando a colega para  fazer - os oficiais permitiam-no a... Bem da Nação. Mandá-lo para a tropa fora a solução que Salazar patrocinara para evitar que pudesse ir para Juventus.
10. A Juventus oferecera ao Benfica por 16 mil contos. Para ele, poderiam ser, em prémios e salários, 4000 (que, agora seria, quase milhão e meio de euros) - e revelou-o: «O Benfica deve ter falado com ele, o Salazar mandou chamar-me e disse-me que eu não podia sair do país porque era uma instituição nacional ou lá o que era. Depois, ainda fui umas oito vezes a São Bento - e, mal, entrava, o Coluna avisava-me, preocupado: 'Não digas nada!' Só queria perguntar-lhe por que é que não me tinha deixado sair para a Juve, nada mais. O Coluna repetia: 'Está calado, caladinho' - e eu estava». Continuou, por cá, a receber 4 contos ao mês - e o cachet de Amália andava pelos 10 contos ao espectáculo."

António Simões, in A Bola

PS: Mentira. É pena que o António Simões, tenha este tipo de interpretações maliciosas, quando tenta passar por historiador:
O Salazar pessoalmente estava-se marimbando se o Eusébio ficava no Benfica ou no Cascalheira de Cima... O Regime, não 'inventou' serviço militar obrigatório para o impedir de ir para a Juventus, todas as figuras públicas, principalmente os 'grandes' atletas, principalmente os futebolistas, todos eles cumpriram o serviço militar obrigatório, mesmo que na maioria dos casos tenha sido um serviço militar a 'fingir' longe das obrigações normais de qualquer militar... Era essencial para o esforço de 'guerra', como bandeira de propaganda, o Eusébio e outros, vestirem a farda...
Em Portugal sobre Ditadura, ou nos EUA Democráticos como aconteceu com o Elvis, ou o Ali...!!!

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Perdido dentro do tabuleiro

"Em Canal Street, Nova Orleães, um negro idoso propôs a Morphy: «Jogo sem uma das torres, para te dar vantagem»

Em Nova Orleães, no final do século XIX, Canal Street era um centro do xadrez de rua, geralmente espontâneo. Baixo, magro, de colete e monóculo, bengala sempre pronta a ser erguida perante alguém mais expansivo, Paul Morphy tornou-se num fantasma habitual do sítio. Já poucos lhe prestavam atenção. Tornara-se um maníaco, convencera-se que queriam envenená-lo, pelo que só comia refeições preparadas pela mãe e pela irmã, recusava-se a entrar num barbeiro garantindo que todos os fígaros da cidade queriam cortar-lhe a garganta.
Vários anos antes, Morphy sentara-se frente a frente com um negro idoso e perturbador. Com o tabuleiro entre ambos, este propusera-lhe: «Para te dar uma pequena vantagem, jogo sem uma das torres». Assim fez e ganhou. Na desforra, repetiu a facécia. Ao terceiro jogo, Morphy disse que jogaria também sem uma das torres. Deu um xeque-mate fácil. Mais tarde explicaria: «Ao tirar uma das torres, ele passava a jogar outro jogo. Não era xadrez. Era quase idêntico, mas diferente. Quando, por minha vez, tirei a torre, passei a jogar o mesmo jogo do que ele e a partir daí foi simples».
Desde criança que Paul Morphy se mostrou absolutamente dotado para o domínio das 64 casas. Apresentava-se no clube de xadrez da Royal Street de calções de veludo e laçarote ao pescoço e provocava umas boas gargalhadas antes de deixar profundamente abespinhados os que iam tendo a coragem de desafiá-lo. Ernest Morphy, seu tio, diretor do jornal La Régence, escreveu sobre ele: «When seated before the chessboard, his face betrays no agitation even in the most critical positions; in such cases he generally whistles an air through his teeth and patiently seeks for the combination to get him out of trouble».
O assobio entredentes de Morphy era exasperante para os adversários. Algo de causar aneurismas e comichões no sangue, diria o Alencar d’Os Maias.
O miúdo estava-se bem nas tintas. Depois de ter batido Johann Lowental, um refugiado húngaro com fama de xadrezista invencível, o fedelho limitou-se a reduzir a isto o seu espinafrado opositor: «Um tipo cómico».
Paul Morphy concluiu o seu curso de Direito, na Universidade da Louisiana, tão jovem que teve de esperar dois anos para poder praticar advocacia. Conta a lenda que se limitara a decorar, sem qualquer esforço, todas as sebentas. A paciência não era, de certo, uma das suas virtudes. De tal forma que, nesse tempo em que os lances de xadrez não eram cronometrados e os jogos podiam durar horas a fio, ou mesmo dias inteiros, criou uma aversão atroz a todos os adversários que considerava lentos, como por exemplo, Louis Paulsen, um emigrante alemão que o levava ao desespero pela sua lerdeza e, desconcentrando-o, acabava por vencê-lo.
Em 1858, Morphy tinha criado uma obsessão. Ou melhor: mais uma obsessão. Teria de defrontar, desse por onde desse, o inglês Howard Staunton, considerado o mais forte jogador de xadrez da Europa. Tanto assim que embarcou para Londres na sua peugada. Debalde. Bem à inglesa, Staunton recebeu o seu convite como snob que era: «Morphy is a professional, not a gentleman!». Frase definitiva, por mais que o americano jurasse a pés juntos que nunca tinha ganho um tostão num tabuleiro.
Frustrado em Londres, seguiu para Paris onde se tornou famoso por disputar simultâneas de olhos vendados contra oito adversários, ganhando sempre. Foi aí que a confusão começou a tomar conta dele. Regressou a Nova Orleães decidido a nunca mais voltar a jogar xadrez. Abriu um consultório jurídico mas os seus clientes queriam ouvi-lo falar do jogo e não de querelas legais. Podia ter desistido dos tabuleiros, mas estes nunca mais sairiam da sua vida.
Voltou a estudar. Matemática, física, qualquer matéria que lhe desse na gana. Ao contrário da opinião de Staunton, a fama de Morphy nos Estados Unidos estava firmemente escorada. A revista Chess Monthly dedicou-lhe uma edição na qual se podia ler: «His genial disposition, his unaffected modesty and gentlemanly courtesy have endeared him to all his acquaintances».
De pouco lhe serviu.
Durante a sua estadia em Paris, Morphy foi atacado por violentas febres intestinais e tratado à base de sanguessugas. Talvez tenha nascido aí o seu pavor ao envenenamento. E foi certamente a partir daí que começou a ter comportamentos cada vez mais estranhos. Edward Winter, que escreveu uma biografia sobre ele, refere o seu hábito de compor no meio do quarto um semicírculo formados por uma dúzia de pares de sapatos. Questionado sobre isso, encolhia os ombros:«Fica mais fácil para escolher os que quero usar».
Depois saía para Canal Street de monóculo equilibrado numa das arcadas supraciliares e observava os jogadores de xadrez à distância. Eles sabiam quem era Paul Morphy. Já Morphy tinha muitas dúvidas em relação ao assunto. Ficara infinitamente preso para lá do tabuleiro."

Deus perdoa, Thomas não… E o contrarrelógio?

"Resolvida que parece estar a questão da liderança da Sky - na estrada, como os responsáveis da equipa britânica sempre defenderam -, a favor do camisola amarela, vale a pena sublinhar que não só o galês mostrou estar melhor do que Froome como respondeu afirmativamente à dúvida sobre como se aguentaria na terceira semana do Tour, teste ao qual nunca fora devidamente submetido. E ainda amealhou uns segundinhos - grande demonstração de confiança e vontade de vencer! -na duríssima chegada da original etapa de hoje, que provocou mesmo estragos. Que o diga Froome, que a 2m31s do colega de equipa na geral terá mesmo de ficar feliz por ser um Sky que não ele a subir ao lugar mais alto do pódio de Paris.
Tudo indica que far-se-á história nesta Volta a França, mas dificilmente acontecerá o quinto triunfo do britânico nascido no Quénia e sim uma estreia. Thomas ou Dumoulin? Essa é a questão e todos os olhos estão já nos 31 quilómetros do contrarrelógio de sábado, pois a complicada etapa de sexta-feira termina com 20 quilómetros de descida. Não é crível que, em condições normais, o holandês ganhe dois minutos ao galês no exercício individual, apesar de ser superior na especialidade de maior sofrimento do ciclismo. É campeão mundial de contrarrelógio em título e nos 12 em que se defrontaram, de 2013 até hoje, só por uma vez Thomas ficou à frente de Dumoulin, no Tirreno-Adriático do ano passado (um foi oitavo, o outro 13º). Os dados de Dumoulin nesses confrontos são, no entanto, arrasadores: cinco vitórias e quatro segundos lugares; Thomas tem um segundo, um terceiro e mais quatro top-10. O pior que Dumoulin fez foi o já referido 13º posto...
Só que com 1m59s de desvantagem e com a camisola amarela no corpo de Thomas - que dá uma motivação extra a quem a enverga -, a missão de Tom Dumoulin parece impossível. Até porque o derradeiro "crono" de uma grande volta depende, em maior medida, de questões de motivação e do estado físico do que de ser ou não especialista."

Novo desafio na carreira de um génio

"Nunca um jogador com 33 anos esteve no centro de uma operação de mercado tão espectacular – mas também nenhum, entre os melhores de sempre, chegou a fase tão adiantada da carreira com físico intacto e tanta fome de glória. Cristiano Ronaldo trocou o conforto do Real Madrid, clube no qual já era o mais extraordinário futebolista da história merengue, pela proposta da Juventus, que procura acomodar-se como potência europeia; deixou para trás uma carreira fantasmagórica, levada a cabo num contexto que já dominava, para abraçar um futebol mais táctico e rígido, menos livre e espectacular, susceptível de lhe levantar problemas de adaptação. Isto de aceitar desafio tão grande e arriscado aos 33 anos, com expectativa tão alta à volta, tem muito que se lhe diga: é o espelho perfeito de CR7.
A caminho da sexta Bola de Ouro, que fará dele o futebolista mais reconhecido da história do futebol, CR7 prolonga o desplante, que muitos continuam a interpretar como arrogância e má-educação, de invadir território sagrado: em Portugal (Eusébio posto em causa), no Real Madrid (vejam só, um português a discutir o trono com Di Stéfano…) e no Mundo (um deus a quem Pelé, Cruyff, Maradona e Messi já rendem tributo como parceiro). Vão tarde os pobres de espírito que julgam interferir no percurso imaculado com críticas despropositadas e irrelevantes para o que importa de facto. CR7 é, aos 33 anos (ou serão 25?), no início da aventura final da carreira, o maior fenómeno atlético e goleador da história do futebol.
Sendo incomparavelmente mais do que a monstruosidade estatística que o caracteriza, CR7 vai perceber que os números são o principal alimento dos interesses da nova realidade. O que fascinou a velha senhora foi marcar, há mais de uma década, ao ritmo dos grandes bombardeiros da primeira metade do século XX; é a expressão numérica evidenciada em produção individual própria de um extraterrestre fora de tempo; é o currículo repleto de distinções e honrarias personalizadas, como nenhum outro jogador na centenária história do futebol – cinco Bolas de Ouro e quatro Botas de Ouro, acompanhadas por cinco Ligas dos Campeões. Foram principalmente esses registos estratosféricos e o peso relativo nas grandes conquistas, Champions acima de todas, que levaram a Juventus a perder a cabeça por ele; é a associação à dinâmica vencedora do maior colosso futebolístico de sempre (Real Madrid) que lhe conferiu a imagem de profeta da sonhada glória europeia da Juve; de detonador da paixão do colosso italiano e alvo do maior negócio do calcio em muitos anos.
Em Madrid, mesmo quando não marcava, interferia no jogo, do qual era o sempre o epicentro indiscutível, como inspirador dos companheiros, ameaça para os adversários e eterno protagonista do espectáculo. Não é líquido que tal se repita agora em Itália. Foi a exuberância física, a impressionante regularidade e o talento grandioso que sustentaram a aura de génio absoluto, para muitos o maior de todos os tempos. Em Itália, onde só se glorifica a eficácia e rende tributo a dados concretos, como jogos, minutos, assistências e golos, CR7 está condenado a não descurar a estatística e os recordes; a manter a gloriosa capacidade para se construir com números e distinções individuais, ultrapassando limites cuja dimensão o tempo acentuou. Na Juve só cumprirá todos os requisitos da milionária contratação se, por exemplo, fizer mais de 30 golos numa época (só por duas vezes isso foi conseguido); se acrescentar mais títulos de campeão nacional (e vão sete seguidos para a Signora) e se conseguir liderar a Juventus à terra prometida da Champions (só duas no palmarés). Vai precisar, entre os 33 e os 37 anos, de repetir o que fez dos 20 até aqui. Ninguém o conseguiu. Mas os outros não se chamavam Cristiano Ronaldo.

Renato Sanches voltou a sorrir
Tudo mudou com um golo, uma grande exibição e elogios do novo treinador
Renato Sanches leva dois anos de desilusões. O último sorriso foi no Euro’2016 onde, partindo da indiferença, se tornou peça decisiva na grande conquista. Atravessado o deserto, no Bayern e no Swansea, viu-se entre a vontade benfiquista em resgatá-lo e de Niko Kovac, o novo responsável bávaro, em vê-lo em acção. O jogo com o PSG, sendo só um episódio, é para ser tido em conta. A história ainda só vai no início.

O renascimento de Rúben Semedo
Acabou o pesadelo de um homem que foi vítima dos seus próprios impulsos
Rúben Semedo assinou pelo Huesca, que subiu ao primeiro escalão espanhol. É uma grande notícia que o jovem (24 anos) prossiga a carreira, depois do enorme percalço que lhe aconteceu. Rúben não é um delinquente comum mas um cidadão que cometeu o crime (grave) de fazer justiça pelas próprias mãos. Mas um erro não pode legitimar outro, por sinal muito maior: acabar prematuramente para o futebol.

Enorme talento de João Filipe
O Europeu de sub-19 mostra geração notável, da qual sobressai um talento
João Filipe pintou a manta com a Finlândia: jogou, fez jogar, marcou, deu a marcar e foi permanente fonte de exaltação. Há cerca de quatro anos era, para a comunidade técnica nacional, o maior projecto do futebol português. A afirmação foi travada por lesões complicadas e inibidoras mas valeu a pena esperar. Mantenha ele o compromisso e o orgulho profissional que pode estar aqui um verdadeiro fenómeno."

Então e o "chuveirinho"?

"Caros treinadores, não tenham medo de fazer o feio. Ai, essas modernices...

Cenário: jogo a eliminar. A equipa A está a perder por um ou até dois golos, a menos de dez minutos do fim do jogo. Até aí, passou largos minutos a tentar cercar a área da equipa B e ter oportunidades de golo. Foram escassas, as que teve. Em grande parte, porque a equipa B está “fechadinha” e forte a ocupar os espaços e impedir as investidas junto da sua área.
Senhoras e senhores, o “chuveirinho” não é um bicho papão! Actualmente, com o emergir do futebol de posse e de passe, parece que recorrer ao tradicional “chuveirinho” – vulgo despejar a bola na área contrária, fazendo subir os jogadores mais altos – se tornou algo próximo de uma heresia.
O Mundial já lá vai e já poucos querem saber dele, mas ainda cabe, dez dias depois da final, esta inquietação: foram, pelo menos, uns cinco jogos nos quais fiquei com uma urticária tremenda a ver os últimos minutos. “Por que motivo aquele gajo não manda subir os centrais e diz aos médios para despejarem lá a bola? Isto assim já não vai lá”. Esta foi a questão que fiz – umas vezes sozinho, outras acompanhado – durante várias partidas do Mundial. E aqui, claro, não podemos contar com os vários golos marcados nos últimos minutos dos jogos da fase de grupos.
Para que fique claro: jogar a bola pelo chão, usando a qualidade técnica dos criativos e os movimentos trabalhados no treino (ainda que esse trabalho, em caso de selecções nacionais, seja discutível) será, quase sempre, a melhor forma de chegar ao golo. Defendo isso. Mas reforço: é quase sempre a melhor solução. Quase sempre.
Caros treinadores, não tenham medo de fazer o feio. O "chuveirinho" é feio, sim, mas, por vezes, é a única solução. Ou pelo menos a mais indicada nos dez minutos finais de desespero.
Os jogadores já estão cansados, sem discernimento e, sobretudo, sem frescura física e mental para criar boas jogadas e decidir bem em zonas de criação e definição. Se a isto somarmos o facto de o adversário estar a defender em 30 metros e não ter um único jogador em zona ofensiva, o que impede o treinador, neste cenário, de, com risco controlado, fazer subir os gigantones e despejar lá a bola? A única coisa que o impede é o complexo. Complexo de querer fazer as coisas pela via mais bonita e de querer manter a dele avante: “foi a dar a bola aos craques que aqui cheguei, é com eles que vou ganhar”.
Mas não. Às vezes, é preciso chamar os tanques. Nunca saberemos o que teria acontecido a algumas equipas (Portugal, por exemplo, demorou muito a apostar nisto e, quando o fez, continuava a abusar da condução de bola) se tivessem feito chuveirinho, mas sabemos o que lhes aconteceu por não terem feito: nos últimos minutos, foram parcas as oportunidades de golo. Nos últimos minutos, somaram mais perdas de bola do que boas decisões. Nos últimos minutos, abdicaram de lutar com a melhor arma que poderiam ter. Boa escolha? Talvez não.
Modernices."

A verdadeira Sociologia indica o futuro!

"Quando alguém, que se intitula sociólogo, se comporta de forma tão absurda, que até surpreendeu António Costa, só podemos admitir que está a preparar o seu próprio futuro

A “A Ciência que tem por objecto o estudo das relações sociais que se estabelecem entre seres humanos que levam à constituição das sociedades”. Esta é uma definição possível de Sociologia. 
...Mas, hoje, o que interessa, com tanta “informação” e “data”, é a visão prospectiva, ou seja, poder adiantar, ou “antever”, o futuro, de modo a podermos preparar a sociedade para o enfrentar melhor e com menos “acidentes de percurso”...
Aliás “qualquer médico, com grande conhecimento e experiência, é o que faz perante um doente: avalia a situação actual (presente), ou seja, faz um diagnostica e, perante as perspectivas da evolução da situação, prescreve uma terapêutica, ou seja, um caminho a seguir, de modo a evitar um fim trágico, que poderia ser a morte do doente. Neste sentido o médico é também um cientista social, que existe há milhares de anos só que a Sociologia é muito recente, estamos a falar de Conte (curso de Filosofia Positiva), e Durkhein, (séc. XVIII / XIX).
... Mas quando alguém, que se intitula sociólogo, e se comporta de forma tão absurda, que até surpreendeu António Costa, só podemos admitir que está a preparar o seu próprio futuro, porque “exigir” à “geringonça”, (leia-se estrema esquerda) “Respeito” pelos compromissos com a “U.E.” e a “NATO”, é o mesmo que dizer-lhes: adeus, felicidades e até sempre...!
Hoje, ser um bom político, requer uma elevada dose de cinismo, de hipocrisia, grande domínio da semântica, para escolher palavras que só alguns letrados conhecem e, sobre tudo, o domínio absoluto da “Doutrina da Mentira Plausível”, ou seja, da desinformação, que teve o seu expoente máximo num conhecido político, durante a invasão do Iraque e a queda do seu ditador. 
...Mas voltando a Portugal, faz impressão assistir à “derrocada” da democracia, da verdadeira, e ver surgir uma “oligarquia” “P:S:”, com discursos musculados, populistas, estilo “Podemos”, mas que sabemos hoje, que, nas suas vidas privadas, se comportam como a “esquerda caviar”...
No futuro, este “P.S.”, será um partido que troca a competência e a independência, dos filiados escolhidos, pela obediência e submissão, absolutas, ao líder, ou seja, ”queres o tacho, então tens que obedecer, cegamente, ao teu líder”!
Tal e qual como no tempo de Salazar! Mas ao menos não digam que são democratas.
É pura questão de léxico!. É que quando alguém, que desde sempre, após o “25 de Abril”, se identifica com a social-democracia, do Dr. Mário Soares, e vê o que se passa hoje, sofre muito mais que qualquer outro cidadão de outro sector, porque sente que está a perder todas as suas referências e, que elas, estão de facto mortas, ou seja, morreram com Mário Soares.
Agora, resta-nos o futebol, a praia, se o Verão aparecer... e o preparar de mais uma legislatura que se afigura uma grande incógnita, já que há-de chegar o tempo do contra--ciclo, quer do Turismo, quer da “Onda” do Imobiliário, e, da paz, na Europa e no Mundo. Depois resta-nos voltar à rotina da prática da corrida matinal, na rua, de madrugada, porque não há dinheiro para mais, o ginásio, para os mais endinheirados e esclarecidos, pois sabem que esta prática é que os poderá manter vivos, e com alguma sanidade mental, já que sem este “desiderato”, podem perder a sua Homeostasia, ou seja, o seu equilíbrio funcional-orgânico.
Então, até à remodelação, não daquilo que possam pensar, mas daquilo em que nunca pensaram, ou seja, uma nova forma de mentir dizendo a verdade!"

'Top performance' e exaustão emocional: quando a vulnerabilidade se transforma em sucesso (o exemplo de Horta Osório)

"Depois de termos assistido a um grande (e merecido) destaque das questões de saúde mental associadas quer ao alto rendimento desportivo (através do discurso directo de diversos atletas, alguns “super-atletas”), quer ao contexto empresarial, através da coluna de Horta Osório (CEO do banco britânico Lloyds, e um dos, reconhecidamente, 'top-performers' deste segmento) no “The Guardian”, importa começar a colocar este tema “em cima da mesa”, não de uma forma pontual e episódica, mas através de um conjunto de medidas estratégicas para fazer face ao mesmo.
Como tão bem caracterizou Horta Osório “o problema da saúde mental é um problema de todo o Reino Unido que impacta a nossa economia todos os anos, aumentando os custos dos empregadores (através de produtividade baixa, pedidos de licença por doença, mudanças constantes de pessoal) e do nosso governo (pedidos de subsídios, menos impostos recolhidos). Mas, combater este tema não é só um tema de aumento de prosperidade, mas de forma crucial, de como trazer um enorme impacto na vida e no bem-estar das pessoas”.
Assim também o é em Portugal, onde a importância de criar soluções é igualmente urgente.

O Exemplo de Horta Osório
A forte defesa de Horta Osório de um tema que, seja qual for o contexto de performance, se encontra vincadamente estogmatizado, resulta, como não podia deixar de ser, do seu próprio processo de transformação pessoal.
Como refere em discurso directo inúmeras vezes, ocupando cargos de elevada responsabilidade desde os 29 anos de idade, cedo compreendeu quão solitária pode ser a existência de um CEO, na medida em que, muitas das questões fracturantes com as quais sempre teve que lidar (do foro pessoal ou profissional), foram muito possivelmente vividas num silêncio auto-imposto, numa clara tentativa de não fragilizar a imagem do líder.
Assim se vive... ou por outra, “sobrevive”... na generalidade das organizações.
Por mais estudos que indiciem a necessidade imperial de se apostar na construção de 'Soft Skills' (ou, como referi num artigo anterior, 'Critical Skills') dos colaboradores pois, tornando-os mais resilientes, mais focados e comprometidos (com a sua vida pessoal e profissional) estamos, seguramente, a apostar na sua qualidade de vida e, em última análise, na sua capacidade em ser produtivos, a realidade continua a evidenciar que, maioritariamente, não existe uma estratégia clara (nem aposta) das organizações em munir os colaboradores com este tipo de ferramentas – opta-se ainda, num estilo muito mais clássico e ortodoxo, por apostar em formação técnica/tecnológica, por vezes sem aplicabilidade alguma, apenas para “cumprir” os planos obrigatórios de formação anual.

O Poder dos Testemunhos Reais
Como em qualquer outra área, nomeadamente nas que abordam temáticas que, classicamente, não se associam com um contexto “imaginado de super-heróis” (super atletas, super gestores), o TESTEMUNHO de pessoas que vivenciaram situações de “burnout” emocional para, em seguida, ativando os seus mecanismos de resiliência, se reerguerem e prosseguirem no seu projecto de vida (por vezes, até em patamares superiores) são perfeitamente fundamentais para quebrar o estigma e “tabu” que, infelizmente, ainda impera na nossa cultura de desempenho (desportivo, empresarial, artístico, outros...).
São fundamentais para dar o exemplo e indiciar o caminho a seguir.
O discurso directo de quem transformou adversidade em oportunidade, de quem aceitou olhar a sua fragilidade como fonte de informação para um novo salto desenvolvimental, transformando-a numa alavanca de superação e aumento de qualidade de vida e bem estar, não só é fundamental como é necessário.
Necessário para, de uma vez, entendermos que a nossa condição humana exige que se aprenda a lidar positivamente com todo o tipo de emoções, sabendo-as expressar pelos canais adequados, no timing certo.
E, daqui, não resulta nenhum “defeito” ou “falta de personalidade”... Resulta sim, uma enorme compreensão do funcionamento humano.

Quanto Maior o Poder, Maior a Responsabilidade
Era assim que aparecia escrito nos livros de banda desenhada de super-heróis da Marvel que lia em miúda e, na vida real, não é diferente.
Tão mais importante se torna o testemunho, quanto maior for a responsabilidade e influência do cargo que ocupam numa empresa ou do protagonismo que assumem numa dada área de performance, pois podem aproveitar os mesmos para começar a criar um novo olhar para uma questão que, afinal, pode muito bem ser apenas o primeiro passo para a elevação de toda a nossa existência.
O programa de “Optimal Leadership Resilience” de que Horta Osório nos fala no seu artigo traduz isto mesmo – a preocupação de uma Organização em capacitar as funções que se encontram mais sujeitas a stress com um conjunto de ferramentas (claramente também associadas ao desporto de alta competição) que potenciam as qualidades físicas e psico-emocionais de qualquer “performer”:
- Nutrição, monitorização cardíaca, gestão do sono, avaliação e análise psicológica, numa perspectiva de habilitar o individuo a confrontar-se positivamente com os desafios do presente.
Excelente a iniciativa de Horta Osório e do Lloyds pela visão e estratégia (a médio/longo prazo), pela preocupação com o ser humano e não com o “colaborador”, pela aposta numa equipa de “maratonistas felizes” e não de “sprinters exauridos”, enfim, uma vez mais pelo exemplo que nos trazem de que é possível fazer diferente... e repare-se (o grande “bicho papão” que existe em contextos de alto rendimento), sem qualquer receio de prejuízo da capacidade de performance da equipa (por que sabem, em última análise, que estão mesmo é a elevar as condições de performance). 
Por cá, fica o desafio para as empresas (e desporto em geral), que há muito, pessoalmente, vinco nas empresas e organizações desportivas com quem tenho a oportunidade de trabalhar, de se alinharem e criarem planos verdadeiramente focados nas necessidades das pessoas sem medos ou estigmas...
Ou não revelassem, as nossas “coxices” (entenda-se: fragilidades emocionais e físicas), também todo o nosso potencial de transformação e margem de progressão."

Alvorada... do Júlio

Benfiquismo (DCCCXCIX)

Ao alto...!!!

Benfica FM - pré-época...

2.º treino nos Stades...

terça-feira, 24 de julho de 2018

O violino macabro

"Em 1947, Rogério Lantres de Carvalho saiu do Benfica para tentar a sorte no Brasil, no Botafogo. Para sua infelicidade, chocou de frente com uma das figuras mais romanescas da história do futebol: um cavalheiro chamado Heleno de Freitas.

Se há figura curiosa na história do futebol, essa figura é Heleno de Freitas. Aliás, há uma extraordinária biografia sobre ele e que, pelo caminho, fala do Benfica. Mas já lá vou.
Heleno de Freitas foi, segundo Nelson Rodrigues, grande mestre da crónica, uma personagem romanesca. Já Marcos Eduardo Neves, o autor do livro Nunca Houve Um Homem como Heleno de Freitas, conta: 'Heleno é o tipo perfeito do grãfino. Ele dita modas. Veste-se com grande apuro. As roupas são impecáveis na confecção, e a sua colecção de gravatas causa inveja aos milionários. Dificilmente, no futebol actual, se pode apontar craques do gramado que também são craques no salão. Heleno reúne os dois predicados. E pode-se dizer que, dada a sua condição social, o artilheiro do Botafogo é craque apenas por esporte'.
Filho de boas famílias, Heleno de Freitas foi jogador do Botafogo entre 1940 e 1948. Indiscutível a sua qualidade técnica e a sua categoria, na altura talvez só comparável a Leónidas, o Diamante Negro do Flamengo, que se tornou famoso na Europa durante o Campeonato do Mundo de 1938, em França. Se fora de campo era um cavalheiro, sempre que se encontrava numa situação competitiva tornava-se insuportável. Discutia com os árbitros (as suas expulsões foram motivo para páginas inteiras de jornais), pegava-se à pancada com adversários e, às vezes, até com os próprios colegas, que tratava, como gosta de dizer o povo, abaixo de cão.
A embirração com Rogério
mais tarde se percebeu que a loucura de Heleno de Freitas estava umbilicalmente ligada à sua vida de galã. Conquistador inveterado, esbelto, rico, boa figura, rapidamente se viciou em éter (à época encharcavam-se lenços e inalavam-se para dar sensação de euforia) e chegou a abusar da cocaína. Boémio como era, contraiu a sífilis ainda jovem, e a doença levá-lo-ia a uma inconsciência dos seus próprios comportamentos e um estado permanente de megalomania.
Heleno de Freitas teria um fim triste, encarcerado num hospital psiquiátrico em Barbacena, abandonado pela fileira de amigos da classe alta que passaram os seus tempos de devassa acompanhando as suas presenças assíduas em boates e casinos, desfigurado e, finalmente, sem saber sequer a sua própria identidade.
Mas, antes disso, cruzou-se com uma grande figura benfiquista: Rogério Pipi.
Na verdade, Rogério sairia do Benfica para tentar uma aventura no estrangeiro, precisamente no Brasil e no Botafogo. Deixo-vos com a prosa de Marcos Eduardo Neves, o autor desse livro formidável: 'Em Julho, chegava ao Rio, contratado por seis meses, o ponteiro Rogério Lantres de Carvalho, craque da selecção de Portugal. O investimento alvinegro foi caro. Ídolo do Benfica e da Europa, Rogério fazia uma novidade na ponta: dava arranques para superar o marcador e, alacançado o fundo, centrava para a área. Primeiro português importado pelo futebol brasileiro, muitos da comunidade lusitana não saberiam para quem torcer num Botafogo-Vasco. Rogério, entretanto, não corresponderia às expectativas. Muito por causa de Heleno de Freitas. Era notório que o centroavante se invocava com pontas. Logo em seu primeiro contacto com o grupo, Rogério sofreu com a estrela do clube. Ao fazer um passe errado no treino, Heleno chegou junto do gringo e soltou: - Acho melhor você tirar as chuteiras e calçar tamancos... Segundo Juvenal, Rogério era um óptima pessoa, bastante calmo, se dava com todo o grupo. Menos com quem deveria: - Se o Rogério acertasse metade das bolas que tentou, o Heleno o colocaria nas nuvens; ia se consagrar no futebol brasileiro. Só que ele errava uma, duas, a pressão aumentava, o Heleno se descalibrava, humilhava, irritava, e o Rogério, só faltava chorar... Ávila pedia calma a Heleno. Em vão: - Que nada, Ávila! O cara tem de jogar! Esse sujeito veio para jogar futebol, chega aqui e não sabe jogar? Que volte a terra dele, então!'
Como vêem, o moço de boas famílias espinafrava como um carroceiro. No seu regresso a Portugal, Rogério refiria as dificuldades de relacionamento que teve com Heleno de Freitas, praticamente dono do clube por toda a sua influência desportiva e social.
Heleno acabaria por sair a mal do Botafogo e tentar a sua sorte no Boca Juniors, da Argentina, no Vasco da Gama e no Junior Barranquilla, na Colômbia. A sua personalidade destruí-o como jogador, a droga destruiu-o como atleta, a doença destruiu-o como homem.
Rogério não estava habituado a ser destratado no Benfica.
Rebelou-se. E fez bem.
De Heleno de Freitas dizia um médico seu amigo: 'É como um violino macabro. Os seus nervos estão todos esticados, que, a qualquer momento, podem rebentar'. Como rebentaram. O que fez dele uma personagem fascinante."

Afonso de Melo, in O Benfica

Taça Repórter X

"'A lenda maior do jornalismo' no acervo do Sport Lisboa e Benfica

Nas primeiras décadas do século XX, Portugal conheceu uma das figuras mais controversas do jornalismo nacional: o Repórter X. Pseudónimo de Reinaldo d'Azevedo e Silva Ferreira (1897-1935), surgiu por 'lapso de um tipógrafo' e é, ainda hoje, sinónimo da 'lenda maior do jornalismo português'.
Reinaldo Ferreira deu os primeiros passos no jornalismo aos 17 anos, n'A Capital. Encarregue apenas da cobertura de pequenos casos que considerava desinteressantes, como incêndios e pequenos furtos, o seu espírito criativo começou a incluir alguns pormenores fictícios nas reportagens, 'abrindo uma via de dois sentidos entre a realidade e a ficção - para desespero de uns e gáudio de muitos'.
Dono de 'uma imaginação prodigiosa' e de uma particular 'propensão para o insólito', o Repórter X é 'uma figura ainda hoje embrulhada num misto de realidade e lenda'. Foi repórter, folhetinista, novelista, dramaturgo e realizador de cinema. Colaborou com periódicos como O Século, Domingo Ilustrado, A Manhã, Ilustração e ABC e trabalhou em Paris, Madrid, Barcelona e Bruxelas. Pioneiro no romance policial em Portugal, entre as suas obras estão O Mistério da Rua Saraiva de Carvalho, a sua primeira ficção publicada como se de uma notícia real se tratasse; O Táxi n.º 9297, folhetim do Janeiro posteriormente 'publicado em livro, levado ao palco e convertido em filme, que o próprio Reinaldo Ferreira' dirigiu; e A Virgem do Bristol Club. Esta última versa sobre uma papillon de um dos mais icónicos night clubs lisboetas, que, pouco tempo depois, daria lugar à secretaria do Sport Lisboa e Benfica (1933-1984), na Rua do Jardim do Regedor.
A 1 de Junho de 1931, uma taça com o nome desta mítica figura integrou o acervo do Clube: a Taça Repórter X. Taça por votos, foi disputada entre o público presente na festa de homenagem aos actores Fernando de Sousa e Alves da Costa, no Teatro da Trindade. Nos intervalos do espectáculo, os espectadores votaram 'a favor do seu club favorito' e, uma vez mais, o Benfica reuniu a preferência do colectivo.
Sendo um dos muitos objectos que constituem o acervo do Sport Lisboa e Benfica que não integram a exposição permanente do Museu Benfica - Cosme Damião, a Taça Repórter X encontra-se em reserva no Departamento de Reserva, Conservação e Restauro."

Mafalda Esturrenho, in O Benfica

Mensagem de Samaris

Benfica: primeiras impressões

"Os jogos de preparação servem mais para expor debilidades das equipas do que, propriamente, para retirar ilações definitivas do que será a longa temporada que se avizinha. Ainda assim, do que já se viu do Benfica 2018/19, persistem incógnitas, mas há indícios positivos. Destacaria três: 
Estabilidade. Ao contrário do que aconteceu há um ano, o Benfica parte para a nova temporada com o essencial da espinha dorsal da época anterior e com a defesa praticamente intocada. O quarteto defensivo titular do ano passado (Grimaldo, Jardel, Rúben Dias e André Almeida) parte com grande vantagem no onze deste ano. Mais, há boas alternativas para as laterais (em particular Yuri Ribeiro, que cresceu muito depois da passagem pelo Rio Ave) e as primeiras indicações deixadas por Conti são também positivas. Na posição 6, Fejsa – estando em condições físicas – confere enorme equilíbrio à equipa. A incógnita continua a estar na baliza (Vlachodimos ainda não foi posto à prova) e nas alternativas aos titulares: Alfa Semedo tem um longo caminho a percorrer para poder substituir o sérvio e Ebuehi vem de uma realidade competitiva muito diferente (se bem que, por ser um jogador com um perfil diferente de André Almeida, possa oferecer uma alternativa mais vertical ao lateral titular). Na frente, para além das trocas de Jiménez e Seferovic por Ferreyra e Castillo (um tem um curriculum goleador que impressiona, outro tem revelado poder de choque e de fogo), tudo na mesma. A estabilidade é uma vantagem.
Versatilidade. A principal debilidade táctica do Benfica dos últimos nove anos tem sido alguma falta de versatilidade táctica. Com Jesus, primeiro, e depois com Rui Vitória, umas vezes por opção, outras para melhor acomodar as características de jogadores nevrálgicos, o Benfica privilegiou um 4x4x2 eficaz para dominar equipas mais fracas, mas que exige muito do meio-campo e diminui a capacidade de controlar o jogo em posse contra equipas mais fortes. No ano passado, iniciou-se o processo de mudança para um 4x3x3 que resolve parte dos problemas de organização. Agora, o Benfica parece estar apostado em ter dois sistemas, que pode ir alternando no decorrer dos próprios jogos. O plantel está, aliás, construído nesse sentido. Estas cambiantes oferecem uma versatilidade táctica que pode ser uma mais valia numa época que se deseja longa e com muitos jogos, de perfil diversificado. 
Leveza. Com um mês de Agosto que, se tudo correr bem, pode ter sete partidas, disputadas de quatro em quatro dias, uma parte significativa da equipa (por exemplo, Jardel, Grimaldo e Pizzi) apresenta índices físicos já muito interessantes, com leveza na forma como se apresenta em campo. Estar bem fisicamente pode ser meio caminho andado para um início de época que tem, necessariamente, de correr bem. Desde já, com o Fenerbahçe."

Alvorada... do Bernardo

O núcleo sportinguista da Assembleia da República

"É preciso não ter nada na cabeça para achar que em 2018 o Parlamento é o lugar certo para promover núcleos futebolísticos e ouvir candidatos de clubes em campanha eleitoral.

O título da notícia dizia isto: “Bruno de Carvalho satisfeito com receptividade dos deputados leoninos”. Era um take da Lusa que nos informava que Bruno de Carvalho estivera reunido na quinta-feira com – e cito – o “núcleo de deputados sportinguistas na Assembleia da República”. Nem sequer fora o primeiro. “Depois de Frederico Varandas e Fernando Tavares Pereira, ambos na terça-feira, e Carlos Vieira, também esta quinta-feira, foi a vez do ex-líder leonino explanar as suas ideias aos deputados afectos ao clube de Alvalade, numa sessão de esclarecimento que durou perto de duas horas.”
Fiquei a olhar para aquilo com genuíno espanto – um “núcleo de deputados sportinguistas” a fazer audições no Parlamento aos candidatos do clube? Eu já conhecia o péssimo hábito de organizar uns repastos anuais entre deputados e presidentes do futebol. O jornal i até fez em Fevereiro um trabalho sobre esses jantares, procurando saber quem organizava e quem pagava a conta. Aprendi nesse artigo do jornalista Luís Claro que o jantar do FC Porto já se realiza há 20 anos no restaurante da Assembleia da República. Os deputados portistas assumem os custos – sendo o jantar no Parlamento, desconfio que parte deles assumimos nós – e Pinto da Costa ainda leva prendinha para casa (em 2018, “uma bandeja e um açucareiro de porcelana num valor a rondar os 80 euros”). O jantar do Sporting segue a mesma lógica: restaurante do Parlamento e deputados a fazer uma vaquinha para pagar a parte do seu presidente. O jantar anual dos deputados do Benfica realiza-se no restaurante Catedral da Cerveja, o que, sendo na mesma foleiro, sempre é um pouco mais digno.
Aquilo de que nunca tinha tomado consciência – embora, em bom rigor, tivesse sido aflorado no artigo – era que os deputados têm um núcleo formal de apoio aos seus clubes constituído na Assembleia da República. O Benfica formou o dele em 2016, juntando deputados actuais e antigos e funcionários do Parlamento. O Sporting deu o pontapé de saída em 2015, com o referido “núcleo sportinguista”, onde todos os partidos estão representados, excepto o Bloco de Esquerda e o PAN. 
Fascinado com isto, fui à procura desse gesto fundador. Encontrei notícias de Março de 2015 no Sapo Desporto e no DN: “Núcleo sportinguista formado na Assembleia da República”. Aí somos informados do regozijo de Ferro Rodrigues pela iniciativa (até assumiu a presidência da mesa da assembleia geral), e também que o presidente da nova agremiação, José Manuel Araújo, declarou orgulhosamente que aquele era o “primeiro núcleo criado num Parlamento na Europa”. Infelizmente, parece que nem Ferro Rodrigues, nem o senhor Araújo, terão perguntado aos seus botões: “Curioso, porque é que nenhum deputado europeu se terá lembrado disto antes?”
Atrevo-me a avançar com uma explicação: talvez por ser uma absoluta vergonha? Faz tanto sentido existir um núcleo sportinguista ou um núcleo benfiquista na Assembleia da República, como faz sentido existir o Núcleo de Deputados às Ordens da EDP ou o Núcleo de Deputados Amigos de Angola. Pergunto: os deputados lerão notícias? Será que desconhecem o estado do futebol nacional? Vão desculpar-me, mas é preciso não ter nada na cabeça para achar que em 2018 o Parlamento é o lugar certo para promover núcleos futebolísticos e ouvir candidatos de clubes em campanha eleitoral. Caros deputados: os senhores são representantes do povo português. Dêem-se ao respeito, por favor."

Tratamento (des)igual!

"Falta pouco para o arranque da temporada 2018/2019 e os clubes participantes nas competições profissionais vão fechando a composição dos respectivos plantéis. Infelizmente, a arrumação da casa para alguns dos competidores não significa o cumprimento escrupuloso das obrigações para com os jogadores. Basta!
Todos os anos chamo a atenção para a gravidade do problema, para o que representa para a imagem do futebol português e para o que pode e deve ser feito a este respeito. Apesar do caminho percorrido e das promessas de saneamento financeiro, há clubes que não pagaram as suas obrigações salariais. 
No futebol português tudo isto é possível e acontece, geralmente, com os atletas em final de contrato, impotentes perante a atitude irresponsável dos nossos dirigentes, que continuam a contratar novos praticantes como se nada fosse, recorrem ao PER para perpetuar no tempo a sua irresponsabilidade e conseguem subsistir sem limites nesta forma de gestão, temporada após temporada. Quando achava que este filme se tornaria com o tempo e o rigor dos pressupostos financeiros uma memória desagradável, eis que em 2018 vejo acontecer no nosso principal escalão, o que enquanto presidente do Sindicato não posso aceitar.
Qual o papel do Revisor Oficial de Contas e da Comissão de Auditoria da Liga? Exigimos a punição dos infractores, uma Comissão com poderes reforçados e a revisão da portaria que lhe dá cobertura legal garanta mão bem mais pesada para o incumprimento salarial, que o acesso à competição e o regime de inscrições e transferências sejam justos e traduzam um sancionamento efectivo dos clubes que não cumprem estas obrigações e que a nova geração de dirigentes aprenda, com dignidade, a arrumar a casa!"

Benfica com osso bem duro de roer

"Rui Vitória tinha, certamente, consciência de que o sorteio lhe poderia dar um adversário duro de roer nesta difícil passagem para a Champions. entre os quatro possíveis, dois melhorzinhos e dois manifestamente piores. Saiu um destes, o turco.
Não adianta perder tempo com a sorte e os azares de um sorteio. É o que é, o que tem de ser e pronto. É preciso pragmatismo e começar já a fazer um trabalho de casa que pode marcar a diferença, mas exige muita paciência e, sobretudo, muita competência.
O Fernerbahçe estará marcado pela inevitável mudança da chegada de um novo treinador. Philip Cocu, que foi grande jogador, internacional holandês, figura marcante no Barcelona, agora jovem treinador de 47 anos (apenas menos um do que Rui Vitória), com um currículo curto, mas muito promissor, com três títulos de campeão e seis troféus nas cinco épocas em que dirigiu, com assinalável sucesso, o PSV.
Vantagem, a confirmar, do Benfica, o facto de Cocu ter assinado em Junho, ter pouco tempo de adaptação ao futebol turco e à cultura turca. Porém, vale a pena lembrar que, tal como os portugueses, os holandeses são um povo que se adapta sem grandes problemas a novos lugares e a novas gentes, e que tem uma relação afável com todos os povos do mundo.
Primeira mão na Luz, logo na primeira semana de Agosto, ou seja, já está a chegar, a segunda mão em Istambul. Histórico (duas eliminatórias europeias) favorável ao Benfica, mas reconhecimento de que vai ser mesmo preciso um Benfica forte (será bom definir-se o mais rapidamente possível) para manter a ambição de chegar à prova rainha dos clubes europeus."

Vítor Serpa, in A Bola

Sorteio antipático

"O Benfica não pode sentir-se particularmente afortunado. O sorteio da 3.ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões colocou pela frente, muito possivelmente, o obstáculo mais difícil de contornar, talvez a par do Spartak de Moscovo. Os turcos do Fenerbahçe têm, tal como o Benfica, justificadas ambições de passar à fase de grupos. Um plantel com Skrtel, Topal, Giuliano, Valbuena e Soldado, e a prometer reforçar-se, não quererá ficar-se pela Liga Europa.
O jogo da primeira mão avizinha-se, mas o Benfica, por outro lado, deu indicações satisfatórias nestes primeiros encontros da pré-temporada e parece preparado para uma batalha deste nível já nos próximos dias. A defesa será a mesma (Conti e Lema não parecem melhores do que Rúben Dias e Jardel) da época passada, o trio do miolo e os extremos também, apesar de poder acontecer uma ou outra pequena alteração. Falta perceber como funcionará o ataque. Castillo está na frente."

Eu, racista

"O presidente do Bayern Munique é da raça dos condenados por fraude fiscal. Sou a favor desse apartheid

1 - Uli Hoeness, presidente e antigo futebolista do Bayern Munique, esteve três anos e seis meses preso por fraude fiscal (aviso que os condenados por fraude fiscal são uma raça contra a qual tenho grandes preconceitos). Hoeness fez o comentário mais lido e partilhado ao recente anúncio, pelo internacional alemão Mesut Ozil, de que abandonava a seleção por estar a ser maltratado por racistas desde que posara para uma fotografia com Erdogan, ditador eleito da Turquia, país de onde são originários os pais de Ozil. A raça dos Erdogans (não dos turcos, atenção) também me cai mal na vesícula, mas não vem ao caso. O presidente/burlão fiscal ficou "feliz" com o abandono: "Há anos que Ozil joga uma merda." E é verdade. Ozil tem jogado uma merda, no Arsenal e na selecção alemã. Até pode ser verdade também que esteja a usar o episódio como escapatória para uma carreira em declínio precoce. Mas, aos olhos de muitos alemães, Ozil é turco e ser turco é defeito. O que Hoeness fez, com aquele "quero lá saber do próximo" tão teutónico, foi acicatar os racistas, primeiro contra Ozil, claro, mas depois contra o turco e a seguir contra os turcos. E, com certeza, acicatou pessoas mais lúcidas contra essa outra raça, cada vez mais duvidosa, dos dirigentes de futebol.
2 - O Conselho de Disciplina decidiu pôr a correr o processo contra o Santa Clara por ter utilizado como treinador principal uma pessoa sem a necessária qualificação. Neste preciso momento, há treinadores principais na I Liga exactamente na mesma condição e na época passada também houve. A eventual diferença está nisto: fingem que o treinador principal é outro. Ou seja, o Santa Clara pode ser castigado, apenas, por não fazer do CD e dos regulamentos palhaços. Era o que faltava."

Discurso sobre a Europa: Ozil e Mbappé

"Ozil, o bom futebolista alemão que jogou 92 vezes pela Alemanha, anunciou no domingo passado que nunca mais vestirá a camisola da sua selecção. A decisão deve-se, diz ele, porque se sentira vítima de "racismo" no seu país, meses antes, quando se fez fotografar junto do presidente turco Recep Erdogan, apoiando-o. Ozil é de origem turca e não admite que a sua situação dupla - a nacionalidade alemã e a origem turca - permita as críticas que lhe fizeram.
O tema é complexo e moderníssimo. Dias antes da decisão de Ozil, houve outra polémica internacional à volta do mesmo assunto. O comediante televisivo sul-africano Trevor Noah, no seu programa americano The Daily Show, aplaudiu os vitoriosos do último Mundial de futebol, assim: "Ganhou a África! Ganhou a África!" Para ele, havendo muitos jogadores negros na selecção francesa, ganharam os africanos. O embaixador francês em Washington discordou: a selecção era de franceses.
Começamos por ter aqui um padrão: a nacionalidade é algo menos monolítico do que se pensava. Os portugueses estão bem colocados para entender essas ambiguidades. Somos um povo de emigrantes, que é saudoso do sino da sua aldeia mas não deixa também de ser reconhecido pela lealdade com o país que o acolheu. Na segunda geração, o filho do imigrante luso, por hábito, faz gala da pertença ao novo país. Não sem razão, foi um português de Queluz, o príncipe Pedro, que lutou pela independência do Brasil e foi o seu primeiro Imperador.
Amin Maalouf, que nasceu libanês, árabe e cristão, e se tornou membro da Academia Francesa, ditou o essencial dos deveres de um imigrado no seu novo país: "Primeiro, aprender a cultura da terra de chegada; segundo, oferecer a esta, o melhor que trouxe da terra natal." Pelos vistos há muita gente de origem africana que ajuda a França a ter muito jeito numa antiga arte inglesa (o association football), coisa bem bonita. Mas da primeira parte da equação de Maalouf, no futebol, nem sempre se passou assim.
Há tempos, houve franceses de origem africana que jogavam na selecção francesa e não cantavam a Marselhesa. Tinham esse direito, a França pode preferir que lhe cantem o hino, mas não proíbe o não cantar. Ozil também pode fotografar-se com Erdogan, apesar deste defender uma forma de sociedade que não é a maioritária na Europa e apregoar, até em comícios eleitorais na Europa, que os imigrantes turcos devem lutar por esse modo de vida na Europa. Sorte a de Ozil por poder fazer essa escolha, porque a Europa permite que ele a faça. Azar meu, que não estou interessado no que ele pensa mas no que ele joga e agora resta-me só vê-lo no Arsenal.
Já do jovem francês Mbappé espero tudo, muito mais do que de Ozil. Ele representa todos que foram referidos na polémica "franceses ou africanos", o seu pai é origem camaronesa e a sua mãe de origem argelina, e o seu toque de bola faz-me lembrar muito o toque de bola dos africanos Peyroteo e José Aguas (para o caso pálidos, estes dois angolanos). Mas, para além do que Mbappé oferece ao país que acolheu os seus, reconheço-lhe a inteligência social e a contribuição cívica de fortalecer a identidade do seu país. Antes de ser campeão, Mbappé disse numa entrevista ao Le Monde: "Quero encarnar a França, representar a França e dar tudo pela França."
E ainda há quem não goste de futebol, um dos mais poderosos cimentos para fazer de nós o que somos, nós."

As raízes do ciclocrosse, o talento de Soler e… menos um dia para Paris

"Se fosse português, Julien Alaphilippe teria uma alma até Almeida pela forma como somou a segunda vitória de etapa neste Tour - com um ataque em subida num grupo de fugitivos e que garantiu na descida. Mas uma descida vertiginosa! De tal maneira que Adam Yates, que o precedia, se espalhou no asfalto num gancho à esquerda que o pequeno mas aguerrido francês negociou com mestria, tal como vários outros nos velozes nove quilómetros até Bagnères de Luchon, onde levantaria os braços depois de exibir toda a sua técnica em cima da máquina. A explicação é simples: as raízes de Alaphilippe estão no ciclocrosse, de que foi vice-campeão mundial júnior em 2010 e onde ganhou um domínio sobre a bicicleta que muitos corredores de estrada certamente invejam. Adam Yates, enquanto estiver a lamber as feridas da vitória perdida numa derrapagem da roda dianteira, certamente pensará nisto...
Numa etapa dura mas em que a Sky não se despenteou - se algo caracteriza a equipa britânica é a calma em (quase) todas as situações -, voltou a sobressair o talento e a abnegação de Marc Soler, o espanhol de quem dizem ser o próximo Indurain (nada mal para fasquia...) e cuja fisionomia evoca o grande campeão - 1,86 metros e 68 quilos que pesam a subir, tal como os enormes glúteos (vulgo "cu gordo") típicos de rolador potente, mas que nem por isso deixa de cumprir. Na subida final para o Col du Portillon, conseguiu "segurar-se"no grupo de fugitivos quando as coisas aqueceram, acabando por ser uma agradável excepção numa equipa Movistar cuja actuação tem sido decepcionante pela incapacidade de incomodarem Geraint Thomas e Chris Froome.
Falta menos um dia para Paris, mas o de amanhã poderá ser "o" dia. Duas contagens de primeira categoria e final em categoria especial, a mais de 2200 metros de altitude, em apenas... 65 quilómetros de extensão. Uma grande incógnita que promete espectáculo. Com a licença da Sky, é claro!"

Benfiquismo (DCCCXCVIII)

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Gedson...

Chama Imensa... Champions e o resto...

segunda-feira, 23 de julho de 2018

1.º treino nos Stades...



Os Pittsburgh Steelers são provavelmente a equipa da NFL mais 'parecida' com o Benfica, no 'tipo' de adeptos... inclusive é a equipa que tem mais adeptos nos jogos fora de casa...!!!
Acaba por ser uma coincidência engraçada a presença do Benfica no centro de treinos dos Steelers!!!