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segunda-feira, 8 de julho de 2019

Mentiras sofisticadas e mentes crédulas: Lance Armstrong e o Tour e o ciclismo (...)

"O Tour de France, a maior competição velocipédica do mundo e um espectáculo extraordinário mesmo para aqueles que o acompanham à distância, arrancou este fim de semana e o meu desinteresse é quase absoluto. Não conheço as equipas e não faço ideia de quem são os candidatos à vitória final. Os nomes dos sprinters, aqueles que dominam as primeiras etapas e disputam a última etapa a velocidades suicidas pelas ruas de Paris, no último dia da prova, nada me dizem, e dos trepadores, os homens que oferecem o filet mignon, creio que só me é familiar o nome de Nairo Quintana, embora tenha de confirmar nos jornais se o colombiano está mesmo na prova.
O meu desinteresse nada tem de notável, excepto por um pormenor: durante anos combati o tédio das férias grandes acompanhando religiosamente as transmissões televisivas do Tour, num fascínio pela modalidade que tinha começado em 1989 com a Volta a Portugal em bicicleta. Atirada para uma zona menos nobre do chamado calendário velocipédico internacional, a Volta nunca atraiu as grandes equipas internacionais, nem os maiores nomes da modalidade. Em 1997, o polaco Zenon Jaskula, que tinha alcançado o terceiro lugar no Tour uns anos antes, venceu a prova portuguesa, mas na altura já não era um ciclista de topo, antes uma espécie de pré-reformado que veio passear a sua superioridade numa prova paroquial.
Eu vivia com a esperança de que, um dia, a nossa Volta atingisse o estatuto da quarta grande prova por etapas, a seguir ao Tour, ao Giro e à Vuelta, mas isso nunca aconteceu e, muito provavelmente, nunca acontecerá. Apesar do entusiasmo dos jornalistas desportivos que acompanhavam o evento e em cujas palavras a subida à Torre se transformava num Tourmalet e o Monte Farinha – a Senhora da Graça – pedia meças ao Alpe d’Huez, a Volta nunca deixou de ser uma competição menor, com os seus ídolos caseiros, uma espécie de pequeno panteão lusitano que, não obstante a sua condição secundária, preenchia a minha imaginação de criança.
A primeira Volta a Portugal que segui com devoção islâmica, convocado pelos muezzins da rádio para as orações diárias, foi a de 1989. Como é natural, Joaquim Gomes, que venceu essa edição, tornou-se o meu ídolo. Ainda recordo uma reportagem que passou no Domingo Desportivo em casa do campeão, depois do triunfo, e de pensar que o corredor da Sicasal-Torreense era um dos maiores ciclistas do mundo, um dos maiores ciclistas de sempre. Nunca deixei de torcer por ele, fosse nos míticos embates com o brasileiro Cássio Freitas ou com Orlando Rodrigues ou naquela Vuelta de 1994, em que ele, chefe de fila de uma equipa – o Boavista – sem pedalada para aquelas andanças, lutou bravamente contra alguns dos melhores ciclistas do pelotão internacional. Raras vezes sofri uma desilusão desportiva tão grande como naquele ano de 1990 em que Joaquim Gomes perdeu a Volta a Portugal para Fernando Carvalho na última etapa, um contrarrelógio que terminava na Maia. 
A nossa Voltinha foi a droga de entrada, salvo seja, para uma paixão pelo ciclismo que me levava a acompanhar o Tour e a festejar os seus campeões como o norte-americano Greg Lemond e, acima de todos, a montanha que era o navarro Miguel Induraín, mas também a admirar o cortejo de secundários como os italianos Claudio Chiapucci e Gianni Bugno, os suíços Tony Rominger (especialista em Vueltas) e Alex Zülle, os franceses Richard Virenque e Laurent Jalabert, e os sprinters, como Abdoujaparov, os homens das camisolas verdes, cujo sistema de pontuação nunca percebi e continuo sem perceber. Equipas como a Banesto, a Once, a Festina, a Motorola, a Deutsche Telekom, a Française des Jeux, eram para mim nomes tão admirados como os dos maiores clubes de futebol. Julgava que durariam para sempre.
Em 1995, assisti em direto à etapa em que um jovem ciclista italiano, Fabio Casartelli, morreu após uma queda. Creio que no dia seguinte os seus colegas de equipa – a Motorola – cortaram a meta todos juntos, à frente do pelotão, em jeito de homenagem. Entre esses homens estava Lance Armstrong. O norte-americano tinha sido campeão do mundo de estrada em 1993, numa prova disputada na Bélgica. Nesse ano, eu estava a passar umas férias no Luxemburgo, em casa de uns tios, e recordo-me de ler os jornais com a notícia da vitória do norte-americano. Foi a primeira vez que ouvi falar dele. No ano em que Casartelli morreu, Armstrong ganhou uma etapa no Tour e dedicou a vitória ao malogrado colega. Ninguém poderia imaginar que, dez anos depois, o ciclista norte-americano estaria a comemorar a conquista inédita de um sétimo Tour consecutivo.
Depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro em 1996, de se ter submetido a um tratamento agressivo e, contra as previsões dos médicos, ter sobrevivido, Armstrong voltou a competir. Se isto já por si era uma história extraordinária de superação, a primeira vitória do norte-americano no Tour, em 1999, foi considerada um milagre e transformou Armstrong numa estrela global que o ciclismo, apesar de todos os grandes nomes do passado, nunca conseguira criar. As vitórias seguintes alcandoraram-no a um posto em que o seu único rival histórico só poderia ser Eddy Merckx, com a diferença de que o “canibal” disputava todas as provas do calendário enquanto Armstrong era uma máquina programada para triunfar no Tour.
As suspeitas sobre os métodos de Armstrong apareceram cedo, mas foram sendo arrumadas por uma série de interesses que, como depois se veio a descobrir, mancharam toda a modalidade: de ciclistas a directores desportivos, da União Ciclista Internacional à agência de controlo de doping. A história de Armstrong começou por ser demasiado boa para ser verdade até que se tornou demasiado grande para cair por terra, “too big to fail.”
Ontem, com notável sentido de oportunidade, a RTP passou o filme Vencer a Qualquer Preço, do estimado Stephen Frears, e que conta a incrível história da ascensão de Armstrong e da sua espectacular queda. Está longe de ser um dos melhores filmes de Frears, mas isso para o caso pouco interessa. O que interessa é que o filme consegue mostrar que a fraude montada por Armstrong, apesar de bastante sofisticada, só funcionou porque contou com a conivência de uns e a credulidade de quase todos, incluindo os adeptos da modalidade. Como é que um ciclista que era um trepador sofrível antes da doença se transformou num Super-Homem, a subir montanhas como se estivesse de mota? As justificações para esse mistério residem menos na genialidade do esquema de Armstrong do que na nossa necessidade colectiva de acreditarmos numa boa história.
Após o escândalo da Festina, em 1998, toda a gente queria acreditar que o ciclismo era agora um desporto limpo em que era impossível aos batoteiros escaparem à malha cada vez mais apertada do controlo. Mas se a malha do controlo era mais apertada, a malha da credulidade era um enorme buraco e foi por aí que Armstrong, com a cumplicidade de quase todo o sistema, incluindo os jornalistas, passou sem que o questionassem a sério. Por muito boa que seja, uma mentira só vende se houver um mercado de mentes crédulas. Numa época em que o descrédito da modalidade era enorme, toda a gente precisava de um redentor. Hoje, quando muitas pessoas, como eu, já não conseguem acreditar no ciclismo e o fascínio infantil que tinham pela modalidade ficou para sempre manchado, é bom lembrar que os redentores anunciados quase nunca salvam ninguém. A começar por quem os idolatra e a acabar, tragicamente, em si mesmos."

“O meu pai morreu de cancro, tinha eu 14 anos. Tenho noção de que posso ter prejudicado o meu irmão para continuar no futebol”

"Aos 43 anos, o ex-médio do Benfica, que tinha como imagem de marca cabelo comprido e ar tímido, perdeu o cabelo mas não a vontade de manter-se ligado ao futebol, ainda que num papel de gestão. Coordenador da formação do Amora FC, clube onde iniciou a carreira antes de rumar à Luz, recorda (...) o seu percurso, que passou por Espanha e também pelo Sporting, ainda que sempre de forma discreta. Com dois filhos adoptados, Bruno Caires revela de quem foi a ideia do famoso livre em que ele e Dani fingem que se zangam e conta alguns episódios que viveu no Japão com a selecção de sub-18, campeã da Europa em 1994

Nasceu em Lisboa, é filho de um jogador de futebol, comece por falar-nos do seu pai e da sua mãe.
O meu pai chamava-se Eurico Caires, oriundo da Madeira, e a minha mãe Maria Helena Dias Caires, do Algarve. Onde estamos agora, na Amora, era onde a minha mãe residia. O meu pai veio jogar para o Benfica muito novo e através de uns amigos conheceu a minha mãe. Casaram e tiveram três filhos. 

O seu pai foi só jogador de futebol ou teve outra profissão?
Quando deixou de jogar virou a página e fez algo diferente, teve uns talhos e teve uma churrasqueira, aqui na zona. A minha mãe era doméstica.

Tem quantos irmãos?
Dois. O mais velho tem 47 anos e a minha irmã tem 39 anos. Sou o irmão do meio.

Lá em casa sempre se torceu pelo Benfica?
Sim, a veia sempre foi benfiquista.

Lembra-se de ver o seu pai jogar?
Vagamente. Ainda vi aqui uns cinco ou seis jogos. Eu era pequeno, não tenho uma noção muito viva. 

Era um miúdo calmo ou deu muitas dores de cabeça?
Era uma criança calma. Dos três irmãos sou o mais calmo. O meu irmão é mais falador, a minha irmã também é mais extrovertida.

O futebol começou muito cedo?
Sim, começou onde estamos, no campo do Amora FC, só que na altura era pelado, e não havia infantis. Mas umas pessoas ligadas ao clube quiseram formar uma equipa para participar no Girabola, porque também não havia campeonatos distritais como há agora. Foi a partir daí. Jogávamos na escola, mas toda a gente sabe quem é que jogava bem, o meu pai era uma referência na zona da Amora e a pessoa que levou isso para a frente juntou um lote de atletas, incluindo eu, e fizemos uma boa equipa.

Tinha quantos anos?
10, 11 anos. Fizemos um excelente campeonato e acabamos por ir à final.
Gostava da escola?
Quer dizer... É aquela situação que agora vejo nos meus filhos. Tenho um filho e uma filha, a filha vai entrar este ano na escola, e já gosta de andar com os livros atrás, é dedicada; o filho temos de andar sempre a chatear [risos]. Eu nunca fui um grande aluno, fui fazendo a escola. Mas gostava de ir porque fiz grandes amigos na escola.

Como vai parar ao Benfica?
As coisas correram bem no Amora, na altura era diferente, hoje os pais são mais presentes, mais preocupados - às vezes até demais - com os filhos e o meu pai não. Mas, como fomos à final, como toda a gente dizia que eu tinha alguma capacidade e o meu pai também via isso, porque eu passava a vida a jogar à bola na rua, resolveu levar-me ao Benfica. É engraçado que o meu irmão foi para o Sporting e eu fui para o Benfica.

Porquê?
O meu pai foi ao Benfica tratar de algumas coisas, porque ele jogou com o João Alves, o Nené, Artur Jorge... E o Nené era o coordenador do futebol juvenil e perguntou ao meu pai: "Então porque é que não trazes cá o miúdo?" Fui lá fazer um treino e pronto. O meu irmão foi para o Sporting nas mesmas circunstâncias, o meu pai dava-se muito bem com o Carlos Pereira, que estava ligado ao Sporting, e de uma forma parecida também levou o meu irmão, que já estava no Sporting quando eu fui para o Benfica, com 11 anos. Foi por acaso.

Custou-lhe deixar os amigos do futebol da margem sul para ir para o Benfica?
Não, na altura a única coisa que custava é que demorava duas horas a chegar ao Estádio da Luz.

Ia sozinho, com 11 anos?
Ia sozinho, de transportes. Na altura era o fim do mundo. apanhava aqui o autocarro para a Piedade, na Piedade apanhava outro autocarro para a Praça de Espanha e de lá o metro para o Colégio Militar. Outros tempos, hoje andamos sempre atrás dos filhos. Também tinha vários amigos que viviam na zona, uns na Piedade, outros em Paio Pires e quando chegámos ao último ano de juniores já éramos à volta de 12 atletas da margem sul. O único drama é que se perdêssemos o autocarro só chegávamos no outro dia quase [risos]. A ponte era um caos, às vezes chegava atrasado e por isso devia pagar multas mas como era o mais novo e o que ganhava menos, era perdoado [risos]. Na altura o Gaspar Ramos era o director do futebol do Benfica e também tinha o mesmo problema, por isso estava safo [risos].

Quem eram os seus ídolos?
Eram jogadores que via passar lá no Benfica, porque quem se lembra do antigo estádio da Luz recorda-se que os seniores passam por nós e havia uma grande ligação. Ricardo Gomes, Paulo Sousa, Mozer, Rui Costa, vários atletas, é difícil enumerar todos.

E o cabelo comprido, era para imitar alguém?
Não. Sempre tive o cabelo comprido, desde miúdo. Também não gostava muito de ir ao cabeleireiro. Naquela altura usava-se cabelo comprido. Agora já não o tenho [risos].
Quando começam as primeiras saídas à noite?
Com 16, 17 anos. Havia um ou outro que puxava e começou por aí. Até então estávamos sempre ocupados ou com torneios ou na selecção. Mas a minha primeira saída à noite deve ter sido com o meu irmão. Nós íamos muito para Sesimbra. Mas era mais nas férias.

Já era reconhecido como jogador do Benfica?
Não, isso foi só quando cheguei aos seniores do Benfica. Uma pessoa queira ou não as pessoas reparam, há os autógrafos ou querer tirar fotografias. Acaba por ser um bocadinho incómodo, porque não se consegue estar à vontade ou fazer uma parvoíce que toda a gente faz.

Os namoros também começam nessa altura?
Sim, com a namorada de sempre, a Carla, que é a minha mulher. Vivíamos na mesma praceta. O nosso casamento foi muito engraçado. Porque no dia do casamento quem conhecia os noivos ia a casa de um e do outro e não saía da mesma praceta [risos]. Conhecemo-nos desde pequenos e começámos a namorar a partir dos 15, 16 anos.

Lembra-se do valor do primeiro ordenado?
Em juniores já havia uma tabela e todos ganhavam o mesmo, mas não me lembro. Depois nos seniores, se calhar equivalia a 1500€.

É no Belenenses que faz a estreia como sénior.
Sim. Nas Antas, com o FCP. Da minha geração, fomos campeões da Europa de sub-18 e eu fiquei no Benfica, na altura do Artur Jorge. Nesse primeiro ano não joguei no Benfica porque naquele tempo não era fácil com 18 anos chegar e jogar. Em dezembro fui para o Belenenses com o João Alves. As coisas correram bem.

Estava muito nervoso?
Uma das coisas que os meus colegas na altura me diziam é que eu não tinha a idade que tinha. Porque eu tinha 18 anos mas eles achavam que eu fazia coisas com muita calma e sem estar nervoso. Na altura o João Alves só me deixou jogar meia parte e correu-me muito bem. Sempre fui um jogador que, como se costuma dizer... O stress não passa por mim.

Foi campeão Europeu em 1994 com a selecção.
Sim, nos sub-16 ficámos em 4º lugar e fomos campeões depois. No Europeu de sub-16 perdemos nas meias-finais contra a Espanha, foi um amargo de boca porque tínhamos uma selecção com grande capacidade. Lembro-me que ficamos no grupo da Holanda, o Ajax tinha acabado de ser campeão da Europa com o Seedorf, Kluivert, mais um ou outro e eles também jogavam na equipa da Holanda. A nossa equipa tinha Dani, Nuno Gomes, Quim, Rui Óscar, Beto, Alfredo Bóia, José Soares, Mariano, João Peixe e outros.

Faziam muitas asneiras, muitas partidas uns aos outros nos estágios da selecção?
Sim. Ali era onde fazíamos mais asneiras. Acho que a federação na altura tinha muita paciência para connosco. Mas também já sabiam que havia sempre um mais artista do que outro.

Recorde lá umas histórias dessa altura.
Fomos campeões da Europa e depois fomos fazer uma digressão ao Japão e aí foi o caos, só fazíamos asneiras. Lembro que ficávamos sempre em hotéis de cinco estrelas, mas a comida não era nada agradável para nós. Num deles, fomos jantar para uma sala onde meteram um biombo, os treinadores e o staff ficaram de um lado e nós do outro. Só que aquilo tinha um vidro que dava para o hall, por onde as pessoas passavam para ir para os quartos. Vieram aquelas sopas de ninho não sei das quantas e mais comida, e quando demos conta tínhamos as pessoas todas com as mãos na cabeça porque estávamos a atirar as coisas uns aos outros e o vidro estava imundo [riso]. Outra parvoíce que fazíamos era entrar nas lojas e sair com ursos de peluche do nosso tamanho, sem pagar, e eles como são muito civilizados, não nos diziam nada [risos]. No final claro que devolvíamos, porque havia alguém na federação que nos obrigava a fazê-lo. Não tinha a ver com o dinheiro porque nós já ganhávamos dinheiro, era mais pela brincadeira, para chocar, porque eles culturalmente eram completamente diferentes de nós. Lembro que também saíamos desses almoços e íamos a correr para o McDonalds. Na altura ainda não havia aqui. Como as salas de jogos, cá não havia muitas e lá era em todo o lado. Até é coisa de que não gosto muito, mas íamos para lá e fazíamos corridas de carros, gastávamos o dinheiro todo na sala de jogos e nos hambúrgueres. Nos hotéis também havia sempre um que acordava com a cara cheia de pasta dos dentes ou metíamos sal nos lençóis, enfim, as brincadeiras que acabavam por ser muito saudáveis.
Também as fazia ou ficava a ver os outros a fazer?
Era mais de observar e às vezes também me tocava a mim. Também sofria na pele. Lembro-me de outra, antes de irmos para o campeonato do mundo de sub-20, era a mesma geração: acabámos o estágio e só saíamos de viagem no domingo. Era uma sexta-feira à noite, estávamos todos motivados para ir jantar e ir beber uns copos depois do jantar. E houve um artista, não vou dizer o nome, que deu uma mocada com o carro à noite e em vez de irmos sair fomos todos tristes para casa [risos].

Nesse Campeonato do Mundo em 1995 o Bruno protagoniza um livre com o Dani que ficou para a história. Simulam que se chateiam, empurram-se e tudo, mas marcam e é golo.
É verdade. Quando cheguei à selecção o Carlos Queiroz já tinha subido à selecção A, mas toda a estrutura, o Nelo Vingada e o Agostinho Oliveira, mantinha-se e por isso havia um trabalho de continuidade. A nossa selecção muitas vezes ganhava os jogos e nós perguntavamos como era possível porque tínhamos a noção de que os outros tinham mais capacidade, mas nós, não sei como, lá conseguíamos ganhar os jogos e os torneios. Lembro-me que para nós, aquilo era uma seca, passar a tarde a treinar livres. E o Nelo Vingada tinha essa metodologia desses livres e treinámos aquilo umas 10 vezes. Naquele jogo, contra a Holanda, já estavam a ganhar 3-0, então o Agostinho foi para a área e naquela altura dissemos: "Bora fazer aquele livre". Fizemos e quando olhamos para o adversário vemos que eles pensavam que nós estávamos mesmo a chatear-nos à séria e correu bem. 

Mas de quem foi a ideia de ensaiar um livre assim, com aquela simulação de zanga?
Foi o Nelo Vingada: “Vocês vão, fazem que batem um no outro, vão para trás e chutam logo a bola”. Passámos uma tarde toda a treinar aquele livre no Estádio Nacional. Resultou [risos].

Depois do Belenenses, volta ao Benfica, entretanto sai o Artur Jorge e o Mário Wilson assume o comando da equipa. Como era o velho capitão?
Era fantástico, fantástico. Tinha o dom de cativar. Normalmente os treinadores gostam de falar um bocadinho antes do treino e muitas vezes é maçador, ele não. Ele contava histórias e metia-se com toda a gente. Aquela meia-hora ou 40 minutos antes do treino, toda a gente estava lá só para ouvir as histórias do Mário Wilson. Os ensinamentos dele não tinham muito a ver com a parte técnico-táctica mas com vivências. Ganhámos a Taça de Portugal. Foi muito giro. Estive seis meses em que não tive muitas oportunidades de jogar e ele lançou-me.

A época seguinte seguinte já foi com o Paulo Autuori.
Mais uma metodologia. Ele tinha estado no Marítimo e vinha como campeão do Brasil. Mais rigoroso na pré-época. Acabou por sair. Houve ali uma altura em que o Benfica vendeu alguns dos melhores atletas, estávamos em 1º lugar, o Helder e o Dimas saíram, depois houve uns problemas com alguns brasileiros e aquilo desmoronou um bocadinho. Depois veio o Manuel José até ao final da época. Já se sabe que isto no futebol não há o amanhã, é ganhar.

E o Manuel José, que tal?
Diferente também. Muito rígido. Quis implementar as suas ideias. Conseguimos ir à final da Taça mas perdemos com o Boavista. No ano seguinte começa a pré-época, faço as primeiras jornadas e depois é que vou para o Celta de Vigo.

Como e porquê?
Já havia muitos clubes certamente interessados em mim e o Benfica achou por bem, e eu também, que seria uma boa oportunidade ir para um campeonato completamente diferente. Foi um salto qualitativo.

Tinha empresário?
Era o José Veiga.

Foi sozinho para Espanha?
Não, a minha mãe foi comigo. A Carla também passou lá muito tempo. Foi fácil. Estava lá o Cadete, havia alguns jogadores espanhóis da minha idade que jogavam na selecção e que estavam no Celta, por isso acabou por ser muito fácil a minha integração. Sendo que os primeiros seis meses são sempre mais complicados por estar longe do seio familiar e dos amigos, que é uma coisa a que dou muita importância.

E ao futebol, foi fácil adaptar-se?
O futebol era totalmente diferente, os métodos de treino também, treinos mais curtos, o nível dos atletas era muito bom. Fizemos um grande campeonato. Depois tive a infelicidade, em Fevereiro, de me lesionar. Foi uma ruptura de ligamento cruzado. Estava pré-convocado para o Europeu 2008, pelo Humberto Coelho, mas num jogo em Salamanca, a tentar fazer um corte, lesionei-me. Esse ano já não joguei mais.

Começa a época seguinte com o Victor Fernández.
Sim, treinador também diferente, o jogo com poucos toques na bola, nesse ano voltámos a ter grandes jogadores, tínhamos uma super equipa, ou seja, estivemos dois anos sem perder em casa. Chegámos às meias-finais nas competições europeias... Foi giro. Fiz também grandes amigos na cidade, tenho lá quase uma segunda família, uns espanhóis que conheci através de amigos e com quem criei grande amizade. Vou lá regularmente e dou-me muito bem com eles.

No ano a seguir começa no Celta de Vigo mas acaba por ser emprestado ao Tenerife. Porquê?
Fui para lá nos últimos seis meses da época. No Celta não estava a jogar muito, tínhamos o Mazinho, Celades, Makelélé, Giovanella, e eu como vinha de lesão queria ter mais minutos.

Gostou da ilha?
Sim, nunca tinha estado numa ilha, gostei porque também acabou por não ser por muito tempo. Fui no final do Janeiro e a época terminou em maio.

Estava sozinho ou com a sua mãe?
Estive quase sempre sozinho.

O que fazia nos tempos livres?
Havia treinos bidiários, havia vários jogadores portugueses, o Tiago, o Costinha e outros brasileiros com quem estava. Depois por ser ilha, todos os jogos que tínhamos fora, ao fim e ao cabo passávamos o fim de semana todo fora.

Não tinha nenhum hobby, como jogar Playstation, por exemplo?
Não. Em Espanha os treinos eram mais tarde, só começaram às dez e meia, onze. Almoçam tarde, jantam tarde, era outra dinâmica. Também descansava ou acaba por estar com os colegas ou em casa.

Não tem nenhuma história para contar dos tempos passados em Espanha?
Quando cheguei ao Celta de Vigo, no segundo ano, depois de fazermos uma excelente época, fomos convidados para ir jogar com o AC Milan, no centro de estágio onde eles estavam, em Itália. E na altura o Celta de Vigo ainda estava com uma estrutura bastante pequena. Tínhamos um roupeiro que já era uma pessoa com alguma idade, mas que era acarinhado por todos. Quando chegámos ao jogo ele começa a desfazer as malas e descobrimos que não tinha trazido os equipamentos. Aquilo foi uma risota total. Foi história para mais de um mês em Espanha, porque tivemos de jogar com os equipamentos do clube da terra [risos].
Como é que vai parar ao Sporting?
Vim fazer um jogo à selecção B e fui dos melhores jogadores. Na altura o Sporting foi para a Liga dos Campeões, queria reforçar-se, eu também tinha vontade de jogar mais.

Não lhe fez confusão ir para o Sporting, sendo benfiquista?
É como todas as profissões, se gostamos muito de fazer uma coisa, e neste caso é jogar, e se temos um clube que mostra interesse... Também achei interessante poder jogar na Liga dos Campeões e o Sporting tinha acabado de ser campeão. Muitos dos colegas que lá estavam tinham jogado comigo no Benfica: Dimas, Paulo Bento, João V. Pinto... O Sporting ia estar em muitas competições, por isso queria um grupo grande mas isso fez com que essa gestão não fosse fácil para o treinador. Todos os jogadores que lá estavam tinham bastante capacidade.

Arrependeu-se?
Como em tudo na vida, se nós não tomamos as decisões não sabemos. É sempre relativo. Na altura as coisas não correram bem. Eu sempre fui um jogador que precisei de jogar. Há jogadores que não jogam mas entrando conseguem enquadrar-se bem. Eu tinha umas características diferentes, precisava de jogar para ter algum sucesso, só entrar não me era fácil.

Era um problema psicológico?
Não, tem a ver com as minhas características, como não era um jogador muito rápido, precisava de jogar muito.

Vai parar à equipa B porquê?
Na época seguinte o Sporting quis fazer algumas alterações, são situações que temos de perceber. O Sporting tomou essa decisão, sempre tiveram uma postura correta comigo, e tentámos arranjar outras soluções.

É quando vai emprestado para o Maia.
Sim, estive no Maia, onde já joguei com mais alguma regularidade. Depois voltei ao Sporting, mas fiquei na mesma na equipa B.

Já lá voltamos. Quando veio de Tenerife toma a decisão de casar.
Sim.

Foi viver para onde?
Onde vivo hoje, na zona do Lumiar.

A sua mulher foi consigo para a Maia?
Sim, foi giro. Como estávamos perto de Vigo íamos lá muitas vezes.

Não foi complicado quando voltou ao Sporting e dizem-lhe que vai para a equipa B? Era o mais velho.
Nós queremos sempre outras situações. Mas foi interessante passar algumas das vivências que eu tinha aos jovens. Claro que sentia que aquilo era um espaço mais para os jovens e acabei por tentar ir para outro clube. Fui para o Sporting da Covilhã. Fui em Fevereiro, o campeonato acabou em maio. Foi pouco tempo. Fiz lá alguns amigos. O clube tinha poucos pontos mas desde que lá cheguei fizemos o dobro dos pontos que tinham feito até então, quase que nos salvávamos.

Entretanto vai para o Louletano. Como surge?
O Amílcar da Fonseca tinha jogado com o meu pai, eu já conhecia bem Portimão, porque é onde passo sempre as férias. Ele enquadrou-me, explicou o projeto. Tentou fazer uma equipa para subir, mas foi um ano também difícil porque a mentalidade que estava instaurada no clube não era para aquilo. Ou seja, parte do plantel, uns trabalhavam, outros estudavam, o clube estava numa fase que queria e tinha capacidade financeira para tentar subir mas aquilo não resultou porque os treinos eram bidiários e havia uns que vinham aos treinos, outros que não vinham. Não foi fácil. Tínhamos individualidades com alguma capacidade mas com o passar do tempo aquilo foi desgastando, se o clube subisse, se calhar a maior parte dos atletas não podia continuar e alguns eram filhos de directores... Até que acabámos por, na parte final, passar um mau bocado no sentido em que as expectativas eram altas e tivemos de lutar para não descer de divisão.

E resolveu pendurar as botas. Porquê?
Aquilo que passei nesse ano foi totalmente diferente do que tinha sido a minha carreira até aí e resolvi que estava na hora de parar. Uma das coisas que me desgastou também é que tínhamos de ir jogar muitas vezes à Madeira e aos Açores e eu não gosto muito de andar de avião [risos]. A minha vida foi sem os amigos, sem a parte familiar e eu gosto muito do convívio. Foram muitos anos a comer só massa e arroz e chegou a uma altura que me fartei. Depois também tinha algumas mazelas que não me deixavam treinar bem. Tinha alguns problemas ao nível dos gémeos, já treinava e jogava com algumas dores e achei por bem colocar um ponto final.

Já sabia o que ia fazer a seguir?
Sempre gostei do meio imobiliário, o dinheiro que fui ganhando fui aplicando em imobiliário. Criei uma empresa, a "Friends & Company", que cresceu e ganhou novos sócios, neste momento temos dois clubes, um que é o Amora FC, onde gerimos o futebol juvenil até aos juniores, e o outro que é o Leão Altivo, que funciona dentro de uma escola. Quando chegámos aqui ao Amora FC há cinco anos, com esta direção, da qual também faço parte como vice-presidente para o futebol juvenil, tínhamos cento e tal atletas e hoje temos 400. Já temos equipas no nacional, já temos uma estrutura bem engraçada.

Mas desde que pendurou as botas até vir para o Amora FC, passaram 10 anos. O que fez nesses 10 anos?
Criámos a tal empresa "Friends & Company" e o Sporting lançou nessa altura as escolas de futebol Academia Sporting e nós fomos um dos primeiros a ter essa oportunidade. Criámos aqui em Corroios esse espaço para atletas fora do Sporting e começamos a partir daí esse caminho.

Na área de treino?
Não, eu estive sempre mais na área de gestão. Nunca tirei o curso de treinador e acho que ser treinador é uma profissão muito igual à de futebolista, para pior. Ou seja, é 24 horas sobre 24 horas a pensar no futebol e eu não quero. Por isso estou na parte de gestão. Mas claro que quando há necessidade, porque os treinadores aqui estão por gosto, nós conseguimos pagar a gasolina... Às vezes há um treinador que sai e meio da época e em vez de estar a substituir então eu acabo por preencher essa lacuna. Mas do que gosto mesmo é do jogo, isso é que motiva, porque é tentar passar alguma das vivências que temos, corrigir os atletas, o jogo.

Deixou os estudos em que ano?
Quando estava no Benfica, no 12º ano, não terminei.

Quando foi pai pela primeira vez?
Eu tenho dois filhos adoptados. Eu e a minha esposa não tivemos filhos biológicos.

Por opção?
Não, por outras situações. Não deu. Temos o Nelson, de 11 anos, e a Maura, que tem 6.

Adoptaram há quanto tempo?
Ambos vieram para nós com seis meses de vida. Portanto, há 10 anos e meio e há cinco anos e meio. É fantástico. É das experiências mais bonitas. Uma das coisas que me deixa mais feliz é que ambos são de cor negra, o Nelson de descendência angolana e a Maura cabo-verdiana, e as pessoas olham para eles e dizem que são muito felizes.

Eles já fizeram as perguntas difíceis?
O Nelson tem uma noção melhor, porque fez o acompanhamento da irmã, mas não faz muita questão de falar. A irmã tem uma forma diferente de estar, ela é mais curiosa, mais faladora. Ela pratica desporto, está na ginástica acrobática de competição e é normal que alguns miúdos perguntem porque é que ela é de cor diferente dos pais. Obviamente eles sabem que são adoptados. A família e os amigos têm ajudado também desde que eles chegaram, há sobrinhos meus que sobre a Maura já perguntaram por que é de cor diferente, do Nelson nunca perguntaram. São dois filhos fantásticos. São muito apegados a nós.
É crente?
Não posso dizer que seja crente a 300%, porque a vida também me tirou algo, estar com o meu pai mais tempo. Eu tinha 14 anos e ele 35 quando faleceu.

Faleceu como?
De cancro. Começou na perna, os médicos tentaram resolver mas passados uns anos voltou. Apareceu quando eu tinha oito, nove anos e depois mais tarde. Eu passava muito tempo no futebol e não tive muita noção. Só quando ele faleceu.

Do que sentiu mais falta depois dele falecer?
Acima de tudo da presença dele. A minha mãe acabou por ser uma super mulher que teve de fazer os dois papéis com três filhos. Tinha na altura o talho e a churrasqueira que o meu pai tinha criado. Foi difícil para ela.

Foi para lá ajudar muitas vezes?
Eu não tanto, agora o meu irmão... Tenho a noção de que posso tê-lo prejudicado porque ele também tinha alguma capacidade no futebol e na altura como era o mais velho, teve de participar na parte familiar.

Ele ainda jogava nessa altura?
Jogava, jogava aqui no Amora. Ele esteve no Sporting e no Belenenses, só que o meu pai precisava de ajuda e o meu irmão teve de vir jogar para mais perto e veio aqui para o Amora.

Nunca teve problemas com nenhum pai?
Não, há sempre uma explicação para as coisas. Há o contexto do clube, do treinador, dos atletas. Mas é verdade que o grande problema do futebol hoje tem a ver com as pessoas que estão fora do campo. E já houve reportagens sobre pais que agridem treinadores. Tento sempre que eles perceberam que isto é um caminho, uma forma dos filhos fazerem desporto e de ter amigos, de perceber que há regras.

Vi que é apoiante do PCP, aqui no Seixal?
Acima de tudo o meu apoio tem a ver com a dinâmica que temos criado aqui. A junta de freguesia tem sido um motor de apoio ao nosso desenvolvimento. Quando fazemos aqui um torneio, a Câmara apoia. Há um movimento de toda a gente e toda a gente acaba por beneficiar do crescimento do Amora FC. Acho que é legítimo da minha parte apoiar as pessoas que nos têm apoiado, mas não sou filiado em nenhum partido.

Para terminar, não tem mais nenhuma história que possa contar?
Lembro-me de uma. Quando deixei de jogar à bola fui fazer um jogo de veteranos. Quando cheguei ao campo vi que só tínhamos 10 atletas. Reuni o grupo e disse, vamos entrar a jogar assim, não vamos dizer nada à outra equipa e quando chegar o colega que falta, entra, é tranquilo. O que imaginei? Como tínhamos uma equipa forte, se fossemos dizer que tinhamos menos um eles podiam galvanizar-se. Começamos um bocado retraídos, marcamos um golo, mas sempre com menos um e eles sem darem conta [risos]. Quando chega o colega que faltava, abeira-se da linha e pergunta se tem de sair alguém. Um colega responde: “Não, entra”. E nisto a equipa adversária para toda: "Não. Então? Vão jogar com mais um?” E nós: “Com mais um não, que nós temos estado a jogar com menos um”. E eles: “Está bem está, se com menos um é assim…” Levaram uma tareia [risos]."

Benfiquismo (MCCXXV)

Perfil...

domingo, 7 de julho de 2019

Princípio e fim

"Temos, logo no arranque da Liga, jogos entre os ditos grandes e no seu final confrontos entre os reconhecidos candidatos à vitoria final

1. Aprendemos com Maquiavel, nas suas Histórias Florentinas - e há tantos séculos... - que o «que tem começo tem fim»! E aqui estamos no princípio da nova época e aqui vibramos com o fim de competições que encerram a época que já passou. O calendário da Liga já o sabemos, já o vamos analisar, já fizemos as nossas contas, já projectámos as nossas viagens mas, aqui, com a consciência que a data definida não será a data concreta do jogo. Desde sexta à noite é a certeza da sucessão de adversários, da ponderação de determinados jogos com as datas dos jogos da fase de grupos da Liga dos Campeões e, também, da Liga Europa e, até, uma larga vista de olhos pelos jogos dos directos adversários. São, afinal, as contas antes das contas, o começo antes da bola saltar, o principio antes dos árbitros apitarem para o arranque da época. E, em simultâneo, teremos nas próximas semanas os derradeiros jogos da Taça Africana das Nações e, hoje mesmo, em França, a final do Campeonato do Mundo de futebol feminino e no Brasil a final da Copa América. É o começo é é o fim. Na certeza que o presente «não é um passado em potência, ele é o momento da escola e da acção». E em França é a disputa entre EUA e Holanda e no Brasil o confronto entre a canarinha e o surpreendente Peru. E, aqui, com o VAR, e as suas interferências, a serem objecto de muita polémica principalmente em razão do Argentina - Brasil. Mas o futebol sem um pouco de sal e pimenta não é loucamente apaixonante. E é esta paixão que nos leva a saber a sucessão de jogos da nossa equipa e dos nossos directos adversários. É mesmo princípio e fim!

2. Vamos ao calendário da Liga. Com a certeza que o Benfica arranca a época oficial com o Sporting - na Supertaça - e termina, em tese - digo em tese já que acredito que nesta época de 19/20 o Benfica vai marcar presença na final da Taça de Portugal - a referida época recebendo na Luz a 17 de Meio de 2020 o mesmo Sporting. Que quinze dias antes visitará o Dragão o que evidencia que poderemos ter um Maio de 2020 bem quente em termos de classificação final da nossa Liga. Mas o que o Benfica sabe é que em Agosto próximo só sai de Lisboa para a Supertaça. Arranca a reconquista do título nacional com o Paços de Ferreira, visita, em princípio, o Jamor para defrontar a SAD do Belenenses e quase no final do mês - nas ante-vésperas do sorteio da fase de grupos da Liga dos Campeões - recebe na sua catedral o Futebol Clube do Porto. E logo a seguir, e antes da primeira pausa para os compromissos da selecção nacional rumo ao singular Europeu de 2020, desloca-se a Braga para defrontar a equipa agora liderada por Ricardo Sá Pinto. Que, aliás, quinze dias antes, na segunda jornada, irá a Alvalade medir forças com o Sporting. O que fica do sorteio é que temos, logo no arranque da Liga, jogos entre os ditos grandes e no seu final confrontos entre os reconhecidos candidatos à vitória final e à conquista dos lugares de acesso às competições europeias de clubes. E com a certeza que para Bruno Lage o sorteio determina, na essência, o próximo adversário interno da sua solidária equipa. E, assim, a devida e cuidada preparação tendo em vista a conquista dos determinantes três pontos. Sendo que o principio é o jogo e o fim é a conquista. E tendo cada jogador comprometido, como sujeito e não como objecto, com o desígnio que o colectivo, a estrutura, a massa adepta e os milhões de simpatizantes acreditam em cada arranque de época: que uma nova reconquista é possível. Tendo como lema, na linha de Charles Bos, que «a cada instante há que sacrificar o que somos ao que podemos vir a ser». E é este compósito entre o individual, que se pode assumir, e o colectivo, que se deve privilegiar, que marca - sendo uma marca! - a liderança de Bruno Lage. E da sua equipa técnica como bem vimos no momento do agradecimento da conquista do troféu de melhor treinador da Liga 2018/2019!

3. Permitam que, neste domingo em que se disputa a final do Mundial de futebol feminino, lhes dê nota de uma iniciativa que vai marcar, acredito, os próximos arranques de épocas das grandes marcas do futebol mundial. Diria que é um marcante princípio. E em que o nosso Sporting será testemunha efectiva no Yankee Stadium no próximo dia 24 de Julho. Falo do Liverpool, do campeão europeu. Na sua digressão aos EUA, que arranca a 16 de Julho, o LIverpool junta a equipa masculina com a equipa feminina. As jogadoras estarão nas mesmas cidades - como Boston ou Nova Iorque - disputarão jogos com equipas americanas e como disse Jurgen Klopp «agora viajamos como uma grande família do futebol». Aprendemos como o nosso imortal Luís de Camões que o mundo é feito de mudanças. Mas este sinal que vem de Liverpool de juntar toda a família e ser, desta forma, uma inequívoca marca de igualdade é um princípio motivador. E acredito que outras grandes marcas do futebol europeu, que estão a entrar com todo o empenho no futebol feminino, não deixarão de acompanhar esta deslocação histórica do Liverpool! É um exemplo neste presente. Mas também é um sinal, e que sinal, para o futuro que já está a chegar. E que importa abraçar!

4. Arrancou ontem em Bruxelas mais uma edição da Volta à França em bicicleta, uma das grandes provas do desporto mundial. Organizada pela primeira vez em 1903 torna-se, logo no arranque, um sucesso popular e leva milhares de pessoas para as bermas das estradas e para os atractivos picos da lindas montanhas do mosaico - e do hexágono - francês. E muito mais tarde alarga-se a outros países. Mas continua a ser uma prova emblemática, sob a liderança do principal jornal desportivo francês, e recordando, como aconteceu ontem, figuras da sua história. Ontem foi o belga Eddy Merckx, um grande senhor do ciclismo. Por mim, e regressando à minha adolescência, não esqueço os ciclistas de plástico, os dados para os pontos, a areia lisa da Figueira da Foz ou as tardes em frente à televisão para acompanhar, e vibrar, com a participação de Joaquim Agostinho no Tour. Eram tardes enternecedoras e que, depois, na Volta a Portugal, nos levaram à Torre para vibrar com uma subida única, paisagens singulares, queijo do outro mundo, pão, presunto e chouriço de chorar por mais e um sentido do comunidade - a tribo do ciclismo! - que nos faz, agora, já na terceira idade a ter, ano após ano, vontade de regressar à estrada, de Viseu à Torre, de Montalegre à Senhora da Graça, e de vibrar com os heróis da estrada. E reler um livro de referência, de Serge Laget, 'A saga da Volta a França'! Um livro que já tem quase trinta anos mas que nos ajudou, e ajuda, a conhecer cada mês de Julho em França. Agostinho e Acácio Silva, Coppi e Anquetil, Hinault e Rui Costa, Nélson Oliveira e José Gonçalves, são nomes que estão presentes. Pela história e pelo presente. Os três últimos, aliás, são os portugueses participantes nesta 106.ª edição do Tour de France!"

Fernando Seara, in A Bola

Oportunidades e estética

"Estamos na sociedade com mais sentados por quilómetro quadrado

Sentadinho
1. Para muitos pensadores, estar sentado é uma forma de nos colocarmos em posição frágil, de quem apenas recebe, aceita. É a posição de aluno ou do paciente do hospital: sente-se, por favor. Navegamos na internet e na cabeça (alguns), mas estamos na sociedade dos sentados. A Sociedade com mais sentados por quilómetro quadrado.

Oportunidade
2. Como já falámos em crónicas anteriores, a etimologia é um trabalho de escavação. Em vez de se escavar o solo escava-se uma palavra. É bom perceber o que está debaixo dela.
A palavra oportunidade, por exemplo, segundo diversas fontes, bem da combinação «do prefixo op, em direcção a, e portus, 'porto do mar'».
Diz-se que, na origem, «a palavra era usada apenas para representar os ventos mediterrâneos» que ajudavam «os barcos à vela a chegarem ou a partirem de um determinado porto». Havia «ventos oportunos»: os que nos faziam aproximar do porto certo; e os ventos inoportunos: aqueles que nos afastavam do porto e que queríamos chegar.
Uma oportunidade é, pois, um vento favorável. Algo que, no limite, não depende do humano, depende de algo a que se pode dar o nome da natureza, destino ou acaso.
Uma oportunidade é um vento veloz e rato que se tem de aproveitar. E como? Colocando as velas com a orientação certa e exercendo toda a força necessária para aproveitar essa oportunidade.
Assim, as oportunidades não seriam criações humanas, mas sim elementos não dominados: o vento ou a referida sorte. Uma oportunidade na vida ou num jogo seria isto mesmo: algo que na verdade não criámos, mas que temos de aproveitar.

Como descer? Como subir?
3. O interessante nas pesquisas do google é que estas mostram os saltos que a curiosidade humana dá. Vejamos dois exemplos.
Algumas consultas muito comuns no google, por ordem decrescente de frequência. Descidas.
Como descer a febre
Como descer o colesterol
Como descer escadas com cadeiras de rodas
Como descer a glicose
Como descer a tensão arterial
Como descer escadas de muletas
Algumas consultas muito comuns no google, por ordem decrescente de frequência. Subidas.
Como subir a média do secundário
Como subir a plaquetas
Como subir a pressão arterial
Como subir ao castelo de São Jorge
Como subir a auto-estima
Como subir a tensão
Como subir a Serra da Estrela.
Tentar perceber o que é o ser humano a partir daquilo que ele quer saber.

Estética e estatística
4. Se transformas a estética em estatística perdes a beleza. Se transformas a estatística em estética pode ser que apareça algo de interessante.
Podemos imaginar, disse-me um amigo, cuidados estéticos da estatística. Por exemplo, contratar um extraordinário desenhador para desenhar, isso mesmo, números.
É imaginar, por exemplo, Miguel Ângelo ou Leonardo da Vinvi contratados por um príncipe para pintar, mão um quadro, mas o número 34 na porta do palácio.
Transformar a estatística em estética, uma possibilidade.

Instruções a seguir de forma meticulosa
5. Falemos de outro assunto e olhemos para o mundo. Ramon Gómez de la Serna, escritor espanhol, um provocador, homem do teatro e de tiradas rápidas e decisivas. Morreu em 1963 em Buenos Aires. No youtube encontram alguns vídeos bem insólitos deste escritor-performer.
Eis, pois, uma sugestão, uma sequência de procedimentos meticulosos de Ramon Gómez de la Serna nos deixou e que, infelizmente e violentamente, é bem actual:
«Os que matam uma mulher e depois se suicidam deviam variar o sistema: suicidar-se antes e matá-la depois»."

Gonçalo M. Tavares, in A Bola

Alterações ao RSTP (II)

"Foram introduzidos, pela organização que tutela o futebol a nível mundial, alterações ao Regulamento do Estatuto e Transferência dos Jogadores da FIFA, normativo que regula para todas as associações que sejam suas filiadas vários aspectos relevantes para os atletas, mas também para os clubes, demais agentes desportivos e para as próprias federações nacionais. Para além das alterações que visam esclarecer que o jogador não é um terceiro relativamente à matéria do TPO - que aqui já demos conta -, foram introduzidas outras modificações relevantes.
Foi feita uma alteração ao artigo 24 paragrafo 2 do Regulamento, que aumenta o valor da causa de referência para que um caso seja submetido à apreciação do juiz singular do DRC (Câmara de Resolução de Disputas da FIFA) de 100.000 para 200.000 francos suíços. Esta alteração visa imprimir celeridade nos processos e permitir que mais casos sejam decididos pelo juiz singular do DRC, deixando assim os casos mais complexos para decisão do próprio órgão. Entrará em vigor em 1 de Outubro de 2019. Além disso, foram feitas outras alterações tendo em vista a implementação obrigatória de algumas novas tecnologias.
Por fim, ficou estabelecido nesta nova revisão do Regulamento que todas as transferências internacionais de jogadores amadores também passem a ser processadas pelo Sistema de Transferências da FIFA (conhecido pela sigla TMS).
Estas alterações entrarão em vigor em 1 de Outubro de 2019, sendo a sua aplicação obrigatória a partir de 1 de Julho de 2020.
O texto a explicar todas as mudanças, bem como a versão final do Regulamento, estão publicado e disponíveis para consulta no site da FIFA."

Marta Viera da Cruz, in A Bola

O que se pode esperar de Jhonder Cádiz?

"Uma das aquisições já anunciadas pelo Sport Lisboa e Benfica para a nova temporada foi a do venezuelano Jhonder Cádiz. O avançado, que teve passagens por União da Madeira, CD Nacional, Moreirense FC e que representou o Vitória FC na última temporada, custou três milhões de euros aos cofres dos encarnados.
Claramente, esta contratação não é consensual por parte dos adeptos. Jhonder Cádiz não é o ponta-de-lança que os adeptos desejariam ver de águia ao peito. No entanto, existem vários factores que fazem com que esta contratação mereça o benefício da dúvida da minha parte.
Primeiro que tudo, quando a imprensa o começou a associar ao Benfica, o treinador Bruno Lage elogiou o avançado venezuelano, referindo-o como um jogador muito forte a atacar a profundidade e muito intenso a defender, características importantes no seu modelo de jogo.
Segundo, o Vitória FC teve o terceiro ataque menos concretizador do último campeonato, com apenas 28 golos marcados. Cádiz marcou nove, 32% dos golos marcados pela equipa sadina na Liga. Fora dos quatro primeiros classificados, apenas Tomané no Tondela teve um maior impacto na sua equipa em termos de golos marcados.
Terceiro, da mesma forma que Nicolas Castillo e Facundo Ferreyra na época passada eram vistos como grandes reforços no papel e fracassaram de águia ao peito, o contrário também pode acontecer. Cádiz ainda tem que crescer muito se quiser afirmar-se no Benfica, mas tem características que encaixam no modelo de jogo de Bruno Lage e isso pode ajudá-lo a evoluir.
Há uns tempos atrás, a imprensa avançou que este poderia ser emprestado ao Belenenses SAD. A meu ver, dentro dos clubes da Primeira Liga, é dos melhores clubes onde poderia rodar. Porque, trabalhando com um treinador como Jorge Silas, um eventual empréstimo seria um “tira-teimas” para o jogador, onde se tirariam as conclusões para perceber se Cádiz só serve para andar no carrossel dos empréstimos, ou se serve para algo mais.
O presidente do Benfica Luís Filipe Vieira deixou claro na última Assembleia Geral que havia uma estratégia por detrás desta contratação. Resta aguardar para ver o que o jogador poderá fazer."

O Cantinho do Olivier - ep. 6

Nem tudo é política...

"Nem tudo é política, mas a política está em tudo. No entanto, com o advento do capitalismo neoliberal, a política diluiu-se, proporcionando a hegemonia total a um ditatorial economicismo. Tudo se tornou débil e fraco… menos uma certa economia! O “panem et circenses”, com os seus perturbantes antagonismos, entre nós, Porto-Benfica, Sporting-Benfica e outros patetas e patéticos exacerbamentos, servem, com precisão matemática, para adormecer as pessoas à recusa de uma sociedade sem uma pauta de valores humanizantes.
Quando comecei a teorizar a Ciência da Motricidade Humana (CMH), um objectivo eu tinha (e mantenho) sobre os mais: rejeitar o estafado mecanicismo cartesiano e defender um dualismo epistémico, onde o sujeito não se confundisse com o objecto, onde o sujeito se respeitasse e cuidasse como filho de Deus. Não escondo, nem deveria fazê-lo, o muito que aprendi com Pierre Teilhard de Chardin: “Tradições de todos os géneros, conservadas pelo gesto ou pela linguagem, escolas, bibliotecas, museus, sistemas diversos de direito, de religião, de filosofia ou de ciências – tudo o que se acumula, se organiza, se encontra e se fixa aditivamente para formar a Memória Colectiva da Humanidade. No Homem, por uma espécie de invenção genial da Vida, a hereditariedade, até aí sobretudo cromossómica, isto é, veiculada por genes, torna-se sobretudo noosférica, isto é, transmitida pelo meio ambiente, pela cultura”(l’Avenir de l’Homme, Tomo V das Oeuvres). É como sujeito livre e responsável, dotado de consciência e de cultura, que o homem-desportista deverá observar-se e estudar-se. Ainda há pouco, na revista do Expresso (2019/6/29), Isabelle Hupert, atriz francesa de inegável talento, afirmava convicta que a pessoa da actriz, do actor está antes da personagem. Eu também digo que não há fintas, há pessoas que fintam; não há remates, há pessoas que rematam; não há defesas, há pessoas que defendem – se eu não conhecer as pessoas que fintam e rematam e defendem, jamais compreenderei as fintas, os remates e as defesas. São pessoas que fazem desporto, são pessoas que desejam desporto, são pessoas que dão sentido ao desporto, são pessoas que vivem o desporto.
E a vida é um termo polissémico, é tanto biologia como cultura. E, porque é cultura, enquanto o “esprit de finesse” de Pascal não informar os nossos métodos, a todos os níveis, no desporto, o cartesiano “esprit de géométrie” de certos políticos, de certos universitários, de certos treinadores, de certos dirigentes não deixará de produzir autênticos aleijões, verdadeiras perfídias e aleivosias.
Por outro lado, verifico, com alguma apreensão, que a maioria dos treinadores da alta competição desportiva, nem lêem, nem sabem o que hão-de ler. Nas minhas aulas, no INEF, no ISEF e na FMH, eu dizia, frequentemente, aos alunos: “Leiam boa Literatura. Leiam o Régio, o Torga, o Manuel Alegre, a Sofia, o José Cardoso Pires, o Fernando Namora, o Urbano Tavares Rodrigues, o António Lobo Antunes, o José Saramago, etc. É que a Literatura é vida e tem, por isso, muito a ensinar à prática desportiva”. E cheguei a recitar-lhes poemas de inúmeros poetas. Como este da Sofia:
“Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça,
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos.
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos.
 Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 
A paz sem vencedor e sem vencidos”.
O Desporto é vida e tudo o que for vida (e vida tão luminosa de tão pura) concorre ao progresso, ao desenvolvimento do Desporto. Quando digo que “o desporto é mais do que desporto” não quero dizer outra coisa. Mas interessa também que os “agentes do desporto” se reconheçam, na prática desportiva, como Sujeitos e não como objectos. E que portanto só como ciência hermenêutico-humana o Desporto se pode praticar, teorizar e estudar.
Por vezes, adormeço, ao escutar algumas versões em circulação, sobre o Desporto mas, podem crer, é mais por irónico desdém do que por me sentir vencido. De facto, há um tema forte e fundo, que volta sempre, como uma obsessão, ao estudo do treino e da competição, no Desporto: a concepção mecanicista do organismo humano e a importância mítica (porque é um mito mesmo) da tecnologia no surgimento de novos génios ou talentos. Esta atitude resulta de uma visão cartesiana do corpo, observado como uma máquina que requer a presença do técnico, para consertá-la, quando sofre uma avaria. E tudo isto se faz, sem ter em conta os aspectos psicológicos, sociais e morais da enfermidade. De acordo com o modelo biomédico de pendor cartesiano, só o médico sabe o que importa à saúde do atleta, pois que todo o conhecimento, acerca da saúde, resulta da observação objectiva dos dados clínicos, dos testes laboratoriais e da medição de parâmetros unicamente físicos. Não se põe em causa o trabalho indispensável do médico, mas que não se esqueça a avaliação do estado emocional, da história familiar e da situação social do atleta, ou do paciente.
Um contexto biomédico reducionista é, frequentemente, transferido para o treino e o ser humano não é uma simples máquina alopoiética, mas autopoiética, quero eu dizer: que a si mesmo se faz. Não posso deixar de fazer alusão às abordagens estritamente fisicalistas e às conclusões que guardam, para a neurobiologia e a anátomofisiologia, as “causas das causas” dos principais factores do treino e da competição. Métodos e técnicas de complexidade e delicadeza, sempre crescentes, não se coadunam com uma exígua base conceitual do treino desportivo e da própria medicina desportiva. A interacção corpo-mente-cultura-desejo-sociedade; a adopção de um conceito holístico e complexo e ecológico de saúde – exigem uma reeducação radical dos “agentes do desporto”, incluindo aqui os médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, etc. O diagnóstico médico (sempre indispensável) não dispensa e supõe bem mais do que os métodos da ciência natural.
É conhecida a frase célebre de Platão, na República: felizes as cidades cujos filósofos são reis, ou cujos reis são filósofos. Aristóteles, na Política, retomou o projecto da República de Platão: fundamentar o Império na Lei e a Lei no Bem. Com o triunfo da mecânica newtoniana, estabeleceu-se o continente físico-matemático, como o de maior importância e relevo, no âmbito do conhecimento científico. Ao mesmo tempo que, paulatinamente, a filosofia e a teologia eram dispensadas de pensar, de criticar a ciência, pois que tudo, no mundo dos homens e das mulheres, deve apresentar um objectivo supremo: o bem comum! O todo é necessariamente anterior à parte e nem a física, nem a matemática, nem a economia deverão esquecer que são partes do mesmo todo. Ora, é sob a hegemonia absoluta dos mercados que se planificam, se estruturam, se propõem, se concretizam os actuais programas políticos. Vivemos num tempo em que tudo é mercadoria. Veja-se o futebol: são os números exorbitantes das quantias gastas na aquisição do atleta que, em primeiro lugar, nos dizem o valor futebolístico de um jogador. E, assim, a verdade da política é a economia! A economia surge como a imagem perfeita de uma política ideal. “Platão concebeu uma ideia tornada clássica, segundo a qual a tirania é o irracional total, o poder sem-Razão (…), o devir-corpo da alma, a alma irrecuperável, completamente perdida. A tirania será o império da paixão, da quase-animalidade, a expressão política do Mal (Sousa Dias, Razão e Império, Livraria Civilização Editora, p. 82). E, na economia imperante, os valores mais publicitados e cultuados são precisamente os que podem quantificar-se monetariamente. E a ênfase atribuída à quantificação confere à economia a aparência de uma ciência exacta cartesiana-newtoniana, onde o qualitativo concreto se desconhece ou despreza, onde o quantitativo abstracto se aceita ou idolatra. Mas não me adianto mais, no curso deste tema. Onde há política, necessariamente. No termo da vida, o chão que percorremos vai-se cobrindo de muitos gestos inúteis, de muitos sonhos falhados. Ser velho é um permanente ato de humildade…"

Benfiquismo (MCCXXIV)

Outros tempos...

sábado, 6 de julho de 2019

Treino e palavras...

Calendário encarnado na Primeira e Segunda Liga 2019/2020: clássico na terceira, derby e duelo de B’s na última

"O sorteio dos campeonatos profissionais realizado na sexta-feira, no Palácio da Bolsa, no Porto, ditou o início oficial da época 2019/2020. Como tal, foram conhecidos os calendários para a Primeira e Segunda Liga, bem como o emparelhamento da primeira e segunda fase da Taça da Liga. A cerimónia também serviu para atribuir os prémios aos jogadores e treinadores que se destacaram na época transacta.
João Félix foi, sem surpresa, distinguido como Jogador Jovem do Ano, Seferovic arrecadou o troféu de melhor marcador, com 23 golos, e Bruno Lage recebeu o prémio de melhor treinador. O agora reforço do Atlético de Madrid e o internacional suíço juntam-se a Grimaldo e Rafa Silva no onze do ano. Quanto ao sorteio da Taça da Liga, o Benfica, na qualidade de campeão nacional, tem passagem direta para a fase de grupos da Taça da Liga, cujo sorteio se irá realizar em Agosto.
No entanto, o grande destaque foi, sem dúvida, a revelação do calendário que acompanhará o Benfica na temporada que agora começa. Eis o calendário completo:
Jornada 1-18 (Agosto-Janeiro): Paços de Ferreira (Casa-Fora)
Jornada 2-19 (Agosto-Fevereiro): Belenenses SAD (Fora-Casa)
Jornada 3-20 (Agosto-Fevereiro): FC Porto (Casa-Fora)
Jornada 4-21 (Setembro-Fevereiro): SC Braga (Fora-Casa)
Jornada 5-22 (Setembro-Fevereiro): Gil Vicente (Casa-Fora)
Jornada 6-23 (Setembro-Março): Moreirense FC (Fora-Casa)
Jornada 7-24 (Setembro-Março): Vitória FC (Casa-Fora)
Jornada 8-25 (Outubro-Março): Tondela (Fora-Casa)
Jornada 9-26 (Outubro-Março): Portimonense (Casa-Fora)
Jornada 10-27 (Novembro-Abril): Rio Ave (Casa-Fora)
Jornada 11-28 (Novembro-Abril): Santa Clara (Fora-Casa)
Jornada 12-29 (Dezembro-Abril): Marítimo (Casa-Fora)
Jornada 13-30 (Dezembro-Abril): Boavista (Fora-Casa)
Jornada 14-31 (Dezembro-Abril): Famalicão (Casa-Fora)
Jornada 15-32 (Janeiro-Maio): Vitória SC (Fora-Casa)
Jornada 16-33 (Janeiro-Maio): Desportivo das Aves (Casa-Fora)
Jornada 17-34 (Janeiro-Maio): Sporting CP (Fora-Casa)
O arranque da Primeira Liga está marcado para o fim de semana de 11 de Agosto no Estádio da Luz, com o Paços de Ferreira, o campeão da Segunda Liga do ano passado. Por ser um confronto entre campeões, promete ser interessante logo no início. As três jornadas seguintes esperam-se escaldantes, com confrontos nada fáceis: ida ao Jamor, clássico com o Porto na Luz e deslocação à Pedreira para defrontar os arsenalistas. Diria que é a altura do ano mais complicada para os encarnados.
Pelo meio, merece destaque a recepção a Moreira de Cónegos, com a equipa revelação da época transacta, na 6ª e 23ª jornada; o sempre ambicioso Rio Ave à 10ª e 27ª, respectivamente, e a deslocação a Guimarães nas antepenúltimas jornadas.
O eterno derby com os leões está reservado para a última jornada de ambas as voltas: os encarnados começam por jogar em Alvalade e terminam a época junto dos seus adeptos, na Luz, no que promete ser uma recta final vibrante.
A emoção está certamente garantida desde o início e não se espera uma época nada fácil. Os confrontos de maior relevo estão marcados para alturas decisivas do calendário e, nos restantes, não se esperam facilidades. A pressão não poderia ser maior, uma vez que o Benfica entra em campo para tentar revalidar o título, com vista ao já tão desejado 38.

Virando as atenções também para Segunda Liga, a cerimónia premiou o Benfica B com dois prémios: Clube Fair Play e Jogador Jovem do Ano, atribuído a Jota, que começou a época passada na Segunda Liga antes de rumar à principal. A chave, essa, ditou o seguinte emparelhamento:
Jornada 1-18 (Agosto-Janeiro): Estoril Praia (Casa-Fora)
Jornada 2-19 (Agosto-Fevereiro): Vilafranquense (Fora-Casa)
Jornada 3-20 (Agosto-Fevereiro): Oliveirense (Casa-Fora)
Jornada 4-21 (Setembro-Fevereiro): Cova da Piedade (Fora-Casa)
Jornada 5-22 (Setembro-Fevereiro): Académico de Viseu (Casa-Fora)
Jornada 6-23 (Setembro-Março): Leixões (Fora-Casa)
Jornada 7-24 (Outubro-Março): Nacional (Casa-Fora)
Jornada 8-25 (Outubro-Março): Académica (Fora-Casa)
Jornada 9-26 (Novembro-Marco): Chaves (Casa-Fora)
Jornada 10-27 (Novembro-Abril): Penafiel (Fora-Casa)
Jornada 11-28 (Dezembro-Abril): Mafra (Casa-Fora)
Jornada 12-29 (Dezembro-Abril): Feirense (Fora-Casa)
Jornada 13-30 (Dezembro-Abril): Varzim (Casa-Fora)
Jornada 14-31 (Dezembro-Abril): Sporting da Covilhã (Fora-Casa)
Jornada 15-32 (Janeiro-Maio): Farense (Fora-Casa)
Jornada 16-33 (Janeiro-Maio): Casa Pia (Casa-Fora) 
Jornada 17-34 (Janeiro-maio): Porto B (Fora-Casa)
O destaque maior vai para o confronto duplo com o Porto B na última jornada. Aliás, era uma das condicionantes principais do sorteio: que as únicas equipas B’s se defrontassem na derradeira parelha de jogos. No entanto, as duas jornadas iniciais não se revelarão nada fáceis para a turma de Renato Paiva, ou não fossem os duelos o sempre candidato à subida, Estoril Praia, e o finalista vencido do Campeonato de Portugal, o Vilafranquense, que se estreia na competição. Entre a sétima e a nona jornada, os jogos com Nacional, Académica e Chaves também merecem especial atenção, para não falar da ida a Santa Maria da Feira (13ª), Covilhã (14ª) e a partida no Caixa Futebol Campus com o vencedor do Campeonato de Portugal e também estreante Casa Pia, na antepenúltima jornada.
Os dados estão lançados e a bola começa a rolar na segunda semana de Agosto, com os primeiros de muitos jogos que marcarão a longa temporada que se avizinha. Vem aí a 86ª edição da Primeira Liga e a 30ª do segundo escalão. Uma das melhores alturas do ano está prestes a chegar e, do Benfica, espera-se mais uma temporada ao mais alto nível, sabendo sempre as facilidades não estão garantidas."

O melhor lateral direito é um lateral esquerdo

"Há uns anos, o mais considerado comentador em Portugal disse no seu púlpito que “quem julga o futebol pelas estatísticas não percebe nada de futebol”. Eu, que me considero pioneiro nesse tipo de análise na imprensa portuguesa, a partir de 1983, enfiei a carapuça, não porque reduza a minha observação a esses parâmetros, mas porque julgo que eles indiciam quase tudo sobre a capacidade de um jogador ou de uma equipa e, numa análise alargada, fazem sempre o retrato minucioso de qualquer atleta.
Mas há excepções. Há casos de jogadores com estatísticas excepcionais, que coleccionam triunfos e títulos, mas nunca entram nas contas dos que exaltam a sua sapiência com o sacramental “futebol é isto mesmo” e percebem tudo sem recorrer às estatísticas. Mário Jardel não foi contratado pelo Benfica porque, disse-me um dirigente na altura, “só marca golos”, ou seja, tinha boas estatísticas, mas não saberia jogar!
André Almeida é também um destes casos raros, visto pelos especialistas como um jogador banal apesar dos números excepcionais. No final da sua melhor época de sempre, em que foi o mais produtivo lateral direito do futebol europeu, viu-se ultrapassado por dois laterais esquerdos na equipa-tipo da sua própria Liga. E porquê? Porque tanto Grimaldo como Alex Telles tiveram estatísticas semelhantes, mas jogando noutra posição.
Os técnicos da Liga Portugal não tiveram coragem de escolher entre Grimaldo (34 jogos, 4 golos, 12 assistências) e Telles (33-4-8) e atiraram Almeida (32-2-12) borda fora, sem sequer considerar que jogou menos tempo e custa cinco vezes menos que os outros dois. Arrisco-me a dizer que quem fez esta escolha percebe pouco de futebol e ainda menos de estatísticas.
Podiam tê-lo substituído por Manafá ou Ristovski ou Marcelo Baiano, apesar de terem estatísticas bem piores mas serem excelentes jogadores, mas não: o melhor lateral direito de Portugal é um lateral esquerdo
 Pagava para ver Grimaldo ou Alex Telles, de quem o saudoso Neves de Sousa diria que só têm pé direito para subir ao estribo do eléctrico, fazerem um joguinho de alta competição como laterais direitos. Devia ser hilariante, no mínimo. Mas já vi André Almeida desenrascar-se muito bem como lateral esquerdo (39 jogos, 1 golo, 3 assistências, na carreira) e noutras posições, pois ninguém que perceba de futebol lhe negará a condição de melhor jogador polivalente desde António Veloso.
Por tudo isto, também não tinha entendido a desconsideração permanente que lhe faz o seleccionador nacional Fernando Santos, um treinador a quem as estatísticas triunfais acabam, no final das contas, por justificar as decisões mais incompreensíveis.
André Almeida está numa fila atrás de João Cancelo, Nelson Semedo, Cedric Soares, Ricardo Pereira e Diogo Dalot, pelo menos, mas talvez também depois de Mário Rui e Rafael Guerreiro, que são óptimos laterais esquerdos. Talvez tenha de nascer dez vezes, como diria outro grande empírico da bola!"

Saudades...

Benfiquismo (MCCXXVIII)

Grandes...

Sorteio... 2019/20

Admito, não foi nada mau!!! Principalmente se compararmos com os cozinhados dos últimos anos, mesmo assim, ainda temos algumas coincidências 'estranhas': voltamos a ter um jogo 'grande' na 3.ª jornada (não gosto, recordo que o Mercado ainda está aberto...); e os Lagartos voltam a ter um jogo 'grande' na última (provavelmente com a Liga já decidida)!!!
Por outro lado, os jogos com os Corruptos, o Sporting e o Braga, vão-se realizar em momentos onde não temos jogos Europeus...
Janeiro e início de Fevereiro, será importantíssimo: jogaremos no Alvalixo, no Dragay e depois recebemos o Braga, tudo em 5 jornadas!!!

O primeiro objectivo é a Supertaça, mas para nós adeptos, temos que começar a 'preparar' o jogo do Paços na Luz e depois teremos uma visita ao Jamor em Agosto, com muito emigrantes e de preferência com casa cheia... sem esquecer que na última época, perdemos 5 pontos com o Belenenses!!!

Mas a prova dos nove sobre o Sorteio, só após o Sorteio da Champions! Será muito importante perceber quais serão as jornadas, após o 'regresso' das Selecções, e perceber os 'encaixes' com as jornadas da Champions: essencial jogar em casa, após os jogo fora da Champions!!!

Recordo também, que tanto os Corruptos como o Braga vão ter jogos nas pré-eliminatórias da Champions e/ou da Liga Europa em Agosto...

I Liga
1.ª Benfica - P. Ferreira 
2.ª Belenenses - Benfica
3.ª Benfica - FC Porto
4.ª Braga - Benfica
5.ª Benfica - Gil Vicente
6.ª Moreirense - Benfica
7.ª Benfica - V. Setúbal
8.ª Tondela - Benfica
9.ª Benfica - Portimonense 
10.ª Benfica - Rio Ave
11.ª Santa Clara - Benfica
12.ª Benfica - Marítimo
13.ª Boavista - Benfica 
14.ª Benfica - Famalicão
15.ª V. Guimarães - Benfica
16.ª Benfica - Aves
17.ª Sporting - Benfica

A Liga aproveitou para distribuir alguns prémios, relativos à época anterior... com algumas curiosidades 'excêntricas'!!!
Bruno Lage, o melhor treinador
Seferovic, o melhor marcador
Félix, o melhor jogador jovem
No melhor onze da época: Grimaldo, Rafa, Félix, Seferovic

Inacreditável como o Rúben Dias e o Pizzi ficaram de fora do melhor 11 (o 2.º classificado tem mais jogadores no melhor onze!!!!)... Já para não falar que só na I Liga Portuguesa, o melhor jogador, não é Campeão!!!
Estes prémios 'subjectivos' são decididos com o voto dos Treinadores e Capitães da I Liga, não deixa de ser um 'bom' indicador para perceber o alcance do 'polvo' Corrupto, em todos os Clubes da I Liga: nem nestas ocasiões conseguem despir a camisola!!!

Jota, o melhor jogador da II Liga
Benfica B, prémio fair play da II Liga

II Liga
1.ª Benfica B - Estoril Praia
2.ª Vilafranquense - Benfica B
3.ª Benfica B - UD Oliveirense
4.ª C. Piedade - Benfica B
5.ª Benfica B - Ac.Viseu
6.ª Leixões - Benfica B
7.ª Benfica B - Nacional
8.ª Académica - Benfica B
9.ª Benfica B - Chaves
10.ª Penafiel - Benfica B
11.ª Benfica B - Mafra
12.ª Feirense - Benfica B
13.ª Benfica B - Varzim
14.ª Covilhã - Benfica B
15.ª Farense - Benfica B
16.ª Benfica B - Casa Pia
17.ª FC Porto B - Benfica B