"Acabou o Mundial da América.
Do Norte, geograficamente fa -
lando. Ganhou a Espanha.
E bem. Não só foi a equipa mais
competente, como também a
que soube usar melhor quase
todos os jogadores convocados
por Luis de la Fuente. O antigo
lateral-esquerdo do Atlético de
Bilbau, do Sevilha e do Alavés
mostrou-se um gestor de
homens e de egos, recorrendo a
profissionais de clubes de meio
da tabela do campeonato espanhol para compor o ramalhete
das oito estrelas do FC Barcelona. Do Real Madrid não foi
nenhum, mas conseguiram
fechar negócio com Cucurella já
ao serviço da seleção. Contas
feitas, assim se fez uma equipa
e não um conjunto de jogadores.
Foi justa a vitória, por muito que
estivesse a torcer pela Argentina. As minhas raízes familiares
falam sempre mais alto nesses
momentos, mas, de facto, o título está bem entregue. Se é
assim no que diz respeito ao
futebol, a vitória é ainda mais
merecida se olharmos para os
atuais indicadores sociais e
políticos de ambos os países. Aí,
a Espanha goleia em vários
campos. Do lado ibérico, um
país inclusivo, com boas práticas, respeito pela diferença e
indicadores de crescimento
assinaláveis e elogiados.
Na
outra metade do terreno, um
país liderado por um louco que
ouve vozes e está a levar as
classes baixa e média argentinas para um poço sem fundo.
E a entregar o troféu e a querer
ficar na fotografia, outro alucinado. Nem o espetáculo do
intervalo, a apelar ao amor global, conseguiu fazer esquecer o
cenário de perseguição, mentira
generalizada, belicismo e divisão nos EUA de Trump, da ICE e
dos seus apoiantes. Os cofres
dos organizadores devem ter
ficado bem cheios, mas a maioria dos adeptos de coração não
pôde lá estar a assistir, com
preços proibitivos e vistos de
entrada sempre em perigo.
A mim, este Mundial não deixa
saudades. Foi tudo demasiado
plástico e descartável. Valeram
Espanha, Argentina, Cabo Verde
e Noruega para mostrar paixão
e qualidade."

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