Últimas indefectivações
quarta-feira, 16 de novembro de 2022
Investigue-se!
"O árbitro Rui Costa que estava escalado para arbitrar o jogo SL Benfica - Gil Vicente foi substituído (por doença ou indisposição) pelo senhor dos camarotes dos azuis, à última hora.
Um passarinho contou-nos que a doença súbita foram 2 elementos dos Super Dragões à porta de casa até se saber que seria substituído.
Investigue-se...
P.S: o jogador Carraça (emprestado pelo FC Porto) estava imune, nesse jogo. E aí de quem soprasse ao lado dele!!"
A farda, o desporto, mas o Benfica sobretudo
"Júlio Ribeiro da Costa, Presidente do Benfica, foi militar, futebolista e o primeiro sócio a receber o Anel de Platina
Uma vida, longa ou curta, traz consigo as marcas de um passado. Essas memórias, para quem as carrega, são motivo tanto de suspiros como de sorrisos. E quando dura quase um século, como a do capitão Júlio Ribeiro da Costa (1894-1992), uma vida parece pouco para tanto que se fez. Nascido em Condeixa-a-Nova, cedo foi viver para Santos-o-Velho, em Lisboa. Aí decidiu ser benfiquista, por Félix Bermudes passar de bicicleta, 'com a bola pendurada no guiador, a caminho de Carcavelos'.
Sócio desde 12 de Novembro de 1912, foi futebolista ao mesmo tempo que era eleito para os órgáos sociais do Clube. Em 1917, 'largou o desporto pela farda' e foi incorporado no Corpo Expedicionário Português. Rumou a Angola como alferes para defender a colónia lusa e, após o conflito, foi colocado como oficial em Coimbra. Ali se formou academicamente e ajudou a fundar, em 1922, a Associação de Futebol da cidade. No mesmo ano, dirigiu a primeira digressão encarnada à Madeira.
Entre 1931 e 1945, vagueou por cargos de todos os órgãos sociais do Benfica. Em 1940, foi agradecido com o grau de cavaleiro da Ordem Militar de Cristo 'por serviços prestados no desempenho das suas funções oficiais'. Apesar do seu estatuto, Ribeiro da Costa foi uma personagem controversa nos meios políticos, não só por ser maçom como por ser de clara oposição ao Estado Novo. Daí que 'não podia continuar porque não queria prejudicar o Clube, com as minhas convicções políticas'. Por este motivo, a sua presidência na Direcção, apesar de desejada, foi fugaz, durante a época de 1938/39.
Comunicador nato e inteligente, era, porém, irascível. Por uma acção sua, em 1944, a Federação Portuguesa de Futebol castigou todos os dirigentes benfiquistas durante três meses.
Deixou os círculos dirigentes a partir de 1944, não obstante se ter mantido próximo do Clube, servindo várias vezes de braço direito de Joaquim Ferreira Bogalho. Integrou a Comissão de Honra do Novo Parque de Jogos, em 1952, e a Assembleia dos Representantes.
Em 1986 subia a sócio n.º 1 do Clube. O seu coração, porém, dizia-lhe não aguentar ver os jogos. No final, era Rogério Jonet, seu amigo e sócio n.º 2, quem lhe comunicava os resultados por telefone. Foi ainda o primeiro benfiquista a atingir os 75 anos de associado e, juntamente com Jonet, recebeu o primeiro Anel de Platina, em 1988. No ano seguinte era agraciado com a Ordem da Liberdade e, em 1991, foi elevado a Águia de Ouro.
Muito mais há para explorar nesta longa vida. Por enquanto, pode conhecer mais sobre este e outros presidentes do Benfica na área 28 - Homens do Leme, do Museu Benfica - Cosme Damião."
Pedro S. Amorim, in O Benfica
Ninguém pára o Benfica
"Numa época incaracterística em função da paragem para o Mundial, numa altura em que em normalmente, o campeonato está, em regra, ao rubro, o jogo com o Gil Vicente era o derradeiro teste para saber se o Benfica terminava ou não esta primeira fase de uma liga a dois tempos sem qualquer derrota e só com um empate, com o Vitória de Guimarães. Prova superada.
Sem uma exibição tão exuberante se comparada com outras, o Benfica cumpriu os seus objetivos, arrancando uma vitória (3-1) que, mesmo sem deslumbrar, tem tanto de justa como de eficaz.
Para quem possa pensar que o pré-Mundial e o facto de alguns jogadores estarem já com a cabeça nas arábias seria a justificação para um ritmo menos elevado ou uma posse de bola mais repartida; convém verificar que, precisamente os "mundialistas" Gonçalo Ramos (homem do jogo), João Mário e Enzo Fernandez foram, uma vez mais, dos melhores na partida, sendo que os outros dois convocados, Otamendi e António Silva, estiveram no seu plano habitual de competência, numa tarde que não teve complicações de maior. A bola no braço de Nico Otamendi que dá origem à grande penalidade é fortuita, embora se aceite a decisão do árbitro.
Concluída esta fase, quando muitos especulam com o que possa suceder pós-paragem para a competição, é fantástica a expressão do principal autor deste sucesso, o alemão Roger Schmidt, ao afirmar que gostaria de ver os seus jogadores na final, ou seja, um Portugal-Argentina. Estará aqui uma parte da explicação do seu sucesso e da razão pela qual ninguém pára o Benfica.
A subir
Gonçalo Ramos líder dos marcadores a regressar e a caminho do Catar.
A descer
Ronaldo e a polémica entrevista."
Os convocados e CR7
"Tenho uma tese: a lista de convocados de Fernando Santos é igual à que faria a maioria dos portugueses. Cada um alteraria um nome, dois, três no máximo, mas estaríamos sempre a falar de prováveis suplentes, talvez dos que nem sequer seriam utilizados durante a prova. Ou seja, as escolhas iniciais de Santos não são propriamente controversas e não será pela opção de A em vez de B quanto ao grupo alargado que Portugal deixará de fazer um bom Mundial.
Não estão Renato Sanches, Gonçalo Guedes e Pedro Gonçalves, talvez os ausentes mais notados. Mas está Matheus Nunes, que tem a mesma vocação de Renato no transporte de bola e há muitas escolhas para a posição preferida de Pote. Quanto a Gonçalo Guedes é diferente, que na ausência de Diogo Jota, Rafa e Pedro Neto, não restam muitos jogadores explosivos para atuar nas alas. Leitura óbvia: Fernando Santos preferiu levar mais jogadores de perfil associativo e desvalorizou o contraste que Guedes representaria. Devo dizer que não discordo.
É sempre a escolha entre dois caminhos: procurar alternativa entre jogadores que deem soluções idênticas ou algo completamente diferente? Manter a coerência perante a necessidade de mexer – seja taticamente ou em função de uma lesão ou castigo - ou apostar em mais diversidade na hora de alterar? Prefiro o primeiro caminho. E acreditando num jogar de iniciativa e associação, com mais posse, que é para o que aponta o essencial da convocatória, mais depressa convocaria Podence ou Fábio Vieira do que Guedes (em vez de mais um ponta de lança), não desvalorizando em nada a qualidade do extremo do Wolverhampton.
Essencialmente pretenderia ter mais alguém, além de João Félix, capaz de ligar com qualidade o meio-campo ao ataque, numa ponte criativa entre a construção e a criação, nas entrelinhas. Claro que há Bernardo, que também serve para isso, mas também acredito que a equipa só tem a ganhar se ele puder pegar no jogo como organizador decisivo do futebol de Portugal, necessariamente no corredor central e podendo – pelo menos muitas vezes – partir mais de trás.
A minha maior dúvida quanto ao rendimento coletivo está no ataque, com relação também ao modo como será servido. Tanto Rafael Leão como Cristiano Ronaldo, os mais prováveis titulares, jogam essencialmente voltados para a baliza contrária, bem mais do que a pensar em ligação com os médios. Leão é um talento raro, tremendo em aceleração, e Ronaldo é ainda um finalizador de grande qualidade, mas juntá-los representa um desafio tático indiscutível, porque além de não serem propriamente associativos, pedem coisas diferentes ao coletivo: um reclama espaço para arrancar e outro pede jogo cruzado para definir.
Portugal terá muito a ganhar se João Félix for pelo menos o quarto mosqueteiro nas soluções ofensivas, que incluem também Bruno Fernandes. Três deles estarão em campo a maior parte do tempo. Convém não serem sempre os mesmos.
A entrevista de Ronaldo, que mostrou como joga tudo, individualmente, neste Mundial, talvez seja uma desforra dos meses infelizes em Old Trafford ou a abertura de portas de um outro clube que o devolva ao topo. O problema é que pelo meio há a seleção. E uma sensação: a de que o CR7 já não voltará a ser o que foi numa prova longa, mas que num torneio curto, com a força mental que se lhe reconhece, ainda pode triunfar.
Isso dependerá, no entanto, do modo como irá lidar com uma substituição mais prematura do que gosta ou até uma suplência. Porque se o coletivo falhar, Ronaldo já não o salvará sozinho. A seleção já não é, porque já não pode ser, ele e mais dez.
O que vai ser mesmo decisivo é o perfil dos onze escolhidos para cada jogo."
A grandeza dos futebolistas e o timing de Cristiano
"A quantidade de jogos de futebol durante a semana transformou em domingo quase todos os dias, mas domingo ainda é domingo, então um dia santo para os nostálgicos futeboleiros. Por um acaso, este bendito domingo que passou começou com leituras de crónicas escritas por Sócrates Brasileiro, um futebolista genial dos anos 80 que era também uma “metamorfose ambulante”, um soldado contra a ditadura militar no Brasil. A Democracia Corinthiana deixou rasto. O que pensaria ele de um Campeonato do Mundo no Catar? Enfim, talvez tirasse o chapéu ao que vai fazer a seleção neerlandesa.
A televisão matou a estrela do livro, somente naqueles momentos, graças ao PSG-Auxerre. “Que desinteressante será sem Messi, Neymar e Mbappé…”. Mas, para surpresa do queixo que se separou do resto do rosto, os três artistas jogaram mesmo, assim como Carlos Soler, Achraf Hakimi e os nossos Danilo e Nuno Mendes. Todos eles convocados para o Mundial que começava em meros sete dias. A dignidade do futebolista é realmente uma coisa admirável. Ninguém tirou o pé ou interveio com o travão de mão puxado. Viu-se Lionel, cercado, numa biblioteca de dois metros quadrados a polir espaços. Neymar pegou no berlinde como quem resolve o mundo. Kylian correu desenfreado como habituou as testemunhas do costume, driblando, perdendo bolas e correndo atrás de seguida. Nuno Mendes foi todos os melhores laterais esquerdos da história durante 90 minutos e Danilo, austero e comprometido, andou nas bulhas que lhe diziam respeito. Golearam, 5-0. Admirável.
Estavam, quem sabe, protegidos por um manto de rezas dos compatriotas espalhados pelo mundo, que os pouparam ao fado de jogadores como Diogo Jota, Pedro Neto, Paul Pogba, N’Golo Kante, Ben Chilwell, Reece James, Arthur Melo, Giovani lo Celso, Marco Reus, Timo Werner e tantos outros, que se lesionaram e desfalcam as seleções nacionais no torneio que se jogará entre 20 de novembro e 18 de dezembro. Vendo os vídeos das reações às convocatórias, é impossível não perceber que jogar um Mundial é, para os futebolistas, o que está acima de qualquer céu.
Parece que os 26 convocados de Portugal, escolhidos por um vago e pouco dado a explicações Fernando Santos, passaram pelos pingos da chuva neste derradeiro e aflitivo fim de semana. Os eleitos reúnem-se esta segunda-feira e, na quinta-feira (18h45, RTP1), têm mais um teste à carapaça e resistência física, castigadíssimas pelo comprimir do calendário, num jogo contra a Nigéria, em Alvalade. O avião para Doha, no Catar, levanta voo na sexta-feira. Tudo certo, então, certo? Não.
Cristiano Ronaldo, o capitão da seleção portuguesa, decidiu dar uma entrevista a Piers Morgan, na “TalkTV”, onde arrasou Manchester United, treinador e ex-treinador. É o assunto do momento no mundo inteiro, pelo menos nos lugares em que se olha para o futebol como a coisa mais importante entre as coisas menos importantes. A entrevista estava há muito prometida e é publicada num momento em que o 7 não terá de se deparar com ninguém do clube, agora que começam os trabalhos na seleção, talvez piscando o olho ao mercado de inverno. Tresanda a improvável o regresso ao outrora Teatro dos Sonhos.
Como escreve o Diogo Pombo na Tribuna Expresso, “dito o que foi dito por Cristiano Ronaldo na véspera de o futebol carregar no botão de pause para as atenções se centrarem no Mundial, é provável que os holofotes se mantenham focados nele, ainda mais do que o costume”. Ou seja, “com conferências de imprensa quase diárias e face ao aparecimento pouco frequente do jogador nesses momentos de pergunta-resposta, os jogadores da seleção nacional que forem surgindo serão, porventura, questionados sobre o tema Ronaldo face ao timing das palavras do capitão”. É uma distração, é ruído. Teme-se, assim, que o Mundial seja uma coisa pessoal para o futebolista, uma espécie de ego trip. E isto sem falar de como encaixaram as críticas os colegas de clube Diogo Dalot e Bruno Fernandes, o primeiro jogador da seleção a abrir decentemente a boca contra o Catar 2022: “Sabemos o que tem surgido sobre pessoas que morreram nos estádios. Não estamos felizes”.
O timing de Ronaldo é doloroso. Por tudo, pelo tom, por colocar tanto em causa num momento em que o clube até ganhou nove dos últimos 12 jogos e sobretudo porque vem aí um Campeonato do Mundo, o último dele supostamente. Soa tudo a uma penosa e triste solidão. Mais que isso, o que custa mesmo testemunhar é a forma como alguém que, para muitos, se senta na mesa dos maiores futebolistas de todos os tempos se está a despedir do futebol. Afinal, foi esperança e o que pertence ao inevitável e fabuloso durante um tempo que parecia eterno. Cristiano ajudou-nos a todos a sonhar um bocadinho mais. Agora, mais do que nunca, o futebolista tem nas mãos e nos pés a maneira como nos vamos recordar dele, ou pelo menos de como se despediu de nós."
Autogolo tático
"Vão jogar-se dois mundiais. O de Portugal e o de Ronaldo. Caso o primeiro não corra bem, esta entrevista poderá ter sido o autogolo tático na carreira do segundo… que quis sempre ser (o) primeiro.
Ao leitor mais atento não terá passado despercebido o neologismo autogolo tático, expressão na ordem do dia futebolístico. É Luís Freitas Lobo quem reclama direitos de autor, numa epifania motivada pela ousada saída de bola do Famalicão que culminou em golo do Sporting.
Ora a expressão cunhada pelo comentador da Sport TV assumiu uma ubiquidade que me exorta a escrever este texto, ou não tivesse sido dita ao mesmo tempo em que, por terras de Sua Majestade, o jornal The Sun divulgou partes da entrevista de Cristiano Ronaldo a Piers Morgan.
Outrora auto-descrito como rei – para os anais fica o comentário “Domingo o Rei joga” numa página de fãs na antecâmara de um amigável na pré-época –, a coroa do mais alto título da nobreza deu lugar à carapuça que Ronaldo enfiou quando percebeu que um neerlandês recém-chegado à monarquia inglesa lhe tirou o trono pelo banco.
À boleia de uma frase celebrizada por Pablo Picasso, o quadro pintado pelo internacional português foi de uma natureza morta desde a saída de Sir Alex Ferguson, trazido para a mesa desta última ceia entre CR7 e os red devils.
Aos 80 anos, o treinador mais vitorioso da história do futebol mundial tem aqui um belo quebra-cabeças para continuar a estimular o raciocínio lógico na reforma.
Qual Judas Iscariotes, Erik ten Hag foi acusado pelo madeirense de traição. “Penso que não deveria dizer isto, mas não quero saber”, completou, sobre o líder da equipa que afirmou ter preferido em detrimento do rival.
Mas nem tudo são rosas, ou túlipas, e o santo e senha inicial foi galopando até o atacante se tornar num cavalo de Troia no balneário.
Consciente do alcance planetário que teria a entrevista, esta foi a tática escolhida por Cristiano Ronaldo, de 37 anos e a menos de uma semana do Mundial, contar a sua versão da história.
No Catar, vão jogar-se dois mundiais. O Mundial de Portugal e o Mundial de Ronaldo. Sendo certo que, caso o primeiro não corra bem, esta entrevista poderá ter sido o autogolo tático na carreira do segundo… que quis sempre ser (o) primeiro."
O estatuto de campeão
"Continua a ser impressionante o número de atletas que chega ao topo nas suas carreiras para a dimensão que Portugal tem
As luzes na rua, as músicas na rádio, os anúncios na televisão e, muito provavelmente, um ou outro sorteio para a troca de presentes conhecida por amigo secreto, cujo budget já deixou de permitir a oferta de uma compota da zona gourmet. Mas nada comparável à dedicação colocada numas bolachinhas caseiras, por isso o problema também fica resolvido. Numa altura em que o espírito natalício começa a ser acelerado, mais ou menos à força, Portugal continua a receber as suas principais ofertas diretamente da área do desporto. Gustavo Ribeiro foi o último atleta a colocar o país em destaque ao sagrar-se campeão do circuito mundial de skate.
Continua a ser impressionante o número de atletas que chega ao topo nas suas carreiras para a dimensão que Portugal tem, desde o futebol, com Cristiano Ronaldo como figura principal, às modalidades, com os casos mais recentes do skater ou do nadador português, o ainda mais jovem e fenómeno da natação, Diogo Ribeiro, que no passado mês de setembro fez história com três títulos mundiais júnior aos 17 anos.
A lista é infindável, dos veteranos aos mais jovens, do super titulado canoísta Fernando Pimenta à ginasta Filipa Martins, sem ainda esquecer os feitos já atingidos por Frederico Morais e Miguel Oliveira, no circuito mundial de surf e no Moto GP, respetivamente.
Nos desportos coletivos, Portugal tem mostrado a sua superioridade, seja com a poderosa equipa de futsal, atual campeã do Mundo e da Europa – e que este ano também se despediu de uma lenda, Ricardinho – ou com a seleção nacional de hóquei em patins, que espera deslizar este domingo para o título mundial, a disputar na Argentina.
A partir daqui começa oficialmente a contagem decrescente para o Qatar, Mundial de futebol até aqui marcado pelas sucessivas polémicas fora de campo. O destino já não vai a tempo de ser alterado, assim como o sonho de juntar o Campeonato do Mundo ao inédito troféu europeu de futebol de 2016. Porque o grupo, lá está, também não permite que se ambicione menos do que isso, o estatuto de campeão."
terça-feira, 15 de novembro de 2022
Uma feira em cima de um cemitério
"«Se parece um pato, caminha como um pato e fala como um pato, cozinha-o.»
Michael Palmer (1)
No dia 5 de setembro de 1972, em plenos Jogos Olímpicos de Munique, oito elementos palestinianos do grupo «Setembro Negro» invadiram e atacaram as instalações onde se encontrava acomodada a comitiva de Israel na aldeia olímpica. Com duas mortes de imediato, nove israelitas foram feitos reféns, tendo sido os jogos suspensos durante o dia. Às nove da noite, uma intervenção de resgate mal sucedida revelava o resultado: a morte dos nove reféns, de quatro árabes e de um polícia alemão. No dia seguinte os jogos foram reatados. Como teria dito na altura (já lá vão 50 anos!) o campeão olímpico de 1936, Jesse Owens, «montou-se uma feira em cima de um cemitério»!
Vem este episódio a propósito de uma nova feira montada em cima de um outro cemitério...
Há doze anos que o Qatar foi escolhido pela FIFA para organizar o Campeonato do Mundo de Futebol de 2022. Um país sem tradições no futebol, colocado em 50º lugar no ‘ranking’ das selecções nacionais da FIFA (num Mundial com 32 países representados) e em que a mesma é uma manta de retalhos de jogadores naturalizados, nunca chegaria a um Mundial… a não ser que fosse o país organizador. Uma demonstração do poder do dinheiro!
Envolta a atribuição deste Mundial em acusações de corrupção desde o início – o New York Times chegou a citar uma testemunha que afirmou que o presidente da Federação Argentina de Futebol se queixou de não ter recebido os 80 milhões prometidos para votar a favor da candidatura deste país ao Mundial de 2022 («Público», 21.10.2022) –, o próprio Joseph Blatter admitiu que a escolha do Qatar como país organizador do Mundial 2022 «teve influências políticas directas», acrescentando que «Chefes de Governo europeus aconselharam os representantes dos seus países com direito de voto a pronunciarem-se a favor do Qatar, porque estavam ligados a esse país por interesses económicos importantes» («Público», 18.09.2013). Joseph Blatter que veio agora admitir que a escolha do Qatar foi um erro…
Presume-se que rondem os 220 mil milhões de dólares o custo da construção dos oito estádios (com sistemas de ar condicionado devido ao clima desértico do país, o que também impôs a realização do campeonato no Inverno e não, como é costume, no Verão) e de todas as infraestruturas necessárias envolventes. Mais uma vez, o poder do dinheiro…
Este é o campeonato que vai ficar conhecido pelo Mundial da hipocrisia. Ou pelo Mundial da vergonha. Ou pelo «campeonato que não deveria realizar-se» (2).
Maurizio Sarri, treinador da Lázio, declarou o seguinte: «O Mundial no Qatar é um insulto ao futebol. Gostaria que alguém explicasse o que o Qatar pode trazer para o futebol, excluindo o dinheiro para o Manchester City e o Paris Saint-Germain» («A Bola», 12.11.2022).
Mas uma sociedade que não respeita os direitos humanos, em que a dignidade é retirada aos trabalhadores, em que só se pode consumir bebidas alcoólicas no recato da privacidade, em que manifestações de afecto não são permitidas em locais públicos, que discrimina negativamente as mulheres, em que os direitos dos homossexuais não são reconhecidos, em que fotografias só são permitidas com permissão e em que jornalistas não podem fazer livremente as suas reportagens acaba por ter os seus aliados no ocidente: a Dinamarca solicitou à FIFA autorização para treinar no Qatar, durante o Mundial 2022, com os jogadores envergando camisolas com o 'slogan' «Direitos Humanos Para Todos». Resposta da FIFA: negada a pretensão! Por que terá sido? Talvez porque a FIFA preveja que vá arrecadar a quantia de 5,9 mil milhões de euros… De novo o poder do dinheiro!
O jornal britânico «The Guardian» revelou que mais de 6.500 migrantes do sul da Ásia morreram no Qatar na última década (3) no que tem sido secundado pela Amnistia Internacional… São mais do dobro dos mortos no atentado de 11 de Setembro. São 813 mortos por cada estádio. São 203 mortos por cada país participante. São 9 mortos por cada um dos jogadores seleccionados. Temos, de facto, uma nova feira montada em cima de um outro cemitério...
O que fazer? O que fazermos? Uns propõem um boicote ao Mundial (os adeptos do Bayern, do Dortmund e do Porto já se manifestaram publicamente). Outros propõem uma discussão sobre o assunto (Jorge Valdano, em «A Bola» de 29 do mês passado, avança com uma televisão na sala de aula, argumentando que «trinta e duas selecções dão para falar muito de Geografia e de História: um Mundial no Qatar poderia abrir um debate interessante sobre direitos humanos…»). No mínimo, ignorarmos, não divulgarmos ou não condenarmos será sermos coniventes! Será irmos à feira sobre esse cemitério!
Jurgen Klopp, treinador do Liverpool, foi bastante lúcido quando declarou que «todos sabemos como aconteceu e todos deixámos acontecer» («O Jogo», 06.11.2022). Todos somos culpados, principalmente aqueles que vão suportar este mundial através da sua presença (estima-se que já se tenham vendido três milhões de bilhetes) e aqueles que vão publicitar a sua empresa ou o seu produto no mesmo patrocinando o evento ou as selecções nacionais. Principalmente os adeptos do espectáculo, os defensores da paixão.
O que nos faz lembrar o seguinte conto oriental:
«Um discípulo queria reduzir tudo ao entendimento. Só confiava na razão e estava preso na jaula da sua própria lógica asfixiante. Visitou um sábio e perguntou-lhe:
– Mestre, o que é que sustém o mundo?
E o mestre respondeu-lhe:
– Oito elefantes brancos.
– E quem suporta esses oito elefantes brancos?
Inquiriu de novo o discípulo intrigado.
O mestre respondeu-lhe então:
– Outros oito elefantes brancos.»"
Vinte e quatro e siga
"1. Vem aí o Mundial. Começa em Novembro e acaba em Dezembro. É a suprema anormalidade que os maiorais deste jogo fabuloso alguma vez produziram em mais de um século da história. É o descalabro moral da FIFA seduzida pelo dinheiro e insensível ao sofrimento alheio. A construção das estruturas e das infraestruturas para que o Catar possa receber e acontecimento resultou numa mortandade. Numa mortandade sem consequências. O futebol não é isto.
2. 'Isto' é o atual presidente da FIFA, Gianni Infantino, pedir aos países participantes para só pensarem em futebol e deixaram as questões humanitárias e civilizacionais de lado. 'Isto' é um ex-presidente da FIFA, Joseph Blatter, admitir que foi um erro a escolha do Catar como palco do campeonato do mundo de futebol de 2022. Em que ficamos?
3. Entre os lucros do presente e a má consciência do passado, vamos todos para o Catar fingir que o Catar não existe e que, por uma vez sem exemplo, o Mundial se vai disputar numa bolha de abstração onde só contam os golos marcados e os golos sofridos. Que retrocesso.
4. O longíssimo historial de jornalistas cuspidos, empurrados, agredidos em estádios, nos arredores de estádios e à porta de casa é pertença do nosso folclore. À sua maneira, também este fenómeno nacional sempre se manifestou numa bolha de abstração, sem consequências, sem punição, sem autores, sem mandantes. Nesta semana, no entanto, houve grossa novidade. Um tribunal de Guimarães condenou a 2 anos de prisão com pena suspensa o suposto empresário Pedro Pinto que agrediu um repórter de câmara da TVI em direto e ao vivo depois de um Moreirense - FC Porto. Registe-se o progresso.
5. O Benfica prossegue invicto no campeonato nacional. É o líder isolado, tem o melhor ataque, tem a melhor defesa e tem, sobretudo um futebol que encanta. Quem gosta de futebol não pode não gostar de ver jogar este Benfica. Não são os pontos que leva de avanço que fazem mossa na concordância. O que faz mossa é a qualidade do futebol exibido pelo Benfica.
6. O Club Brugge será o nosso adversário nos oitavos de final da Liga dos Campeões. Com os encontros marcados para 15 de Fevereiro, na Bélgica, e 7 de Março, na Luz, melhor faremos em não pensar muito no assunto, para já. Ainda falta muito. E há que há outras coisas importantes.
7. Como a Taça de Portugal. Três dias depois de visita ao Estoril para o campeonato seguiu-se uma visita ao Estoril para a Taça. Foi o 24.º jogo oficial da época. E a 20.º vitória. O Neres resolveu. Vinte e quatro e siga."
Leonor Pinhão, in O Benfica
É para ganhar!
"A contribuir para o meu fascínio pela leitura está a descoberta de palavras até então ignoradas, considerando algumas delas espantosas, indecifráveis até, desaconselhando a interpretação pelo sentido. A consulta de um dicionário resolve esse constrangimento, com a vantagem de as incrustar no meu léxico. Não poucas vezes tento, depois, usá-las quase como se de um exercício de sistematização do conhecimento recém-adquirido se trate, além de beneficiar de indisfarçável regozijo.
Numa semana em que volto a escrever este artigo de opinião antes que seja realizado um jogo cuja crónica já estará publicada nas primeiras páginas, arrisco de novo o tom ditirâmbico (cá está uma palavra descoberta há uns dias).
O que o Benfica tem feito ao longo da presente temporada e, em particular, nas últimas quatro partidas, impede o mínimo refreio de entusiasmo e convoca fantasias, por ora, bem sei, delirantes.
O sorteio da Liga dos Campeões que ditou o Brugges por adversário foi rapidamente extrapolado para uma eventual viagem a Istambul em junho. A goleada infligida ao Estoril e os oito pontos de avanço para o segundo classificado logo se traduziram numa antecipação de um título sem derrotas. Mereço condescendência: sou adepto confessada e orgulhosamente fanático, a tolerância que me é devida quanto ao optimismo desenfreado deve ser ilimitada.
E depois vejo-me temporariamente assoberbado pela razão e pergunto-me se não deveria proteger-me pública e intimamente. Na (por agora) improvável circunstância de as coisas correrem mal, evitaria que rivais se rissem à minha custa, enquanto melhor preparado estaria para lidar com a desilusão. E é preciso que se note que importa distinguir entre fantasias e reais expectativas, pois sei que chegar o mais longe possível na Champions e vencer o campeonato é o que, para já, se nos permite desejar.
Mas a palavra-chave é “temporariamente”. Que a razão esteja com dirigentes, estrutura, treinadores e jogadores, afinal é a eles que compete fazer por nos dar alegrias. A nós, adeptos, cabe-nos apoiar, ajudar na medida do possível e viver o clube da forma que mais nos aprouve. Eu escolho entusiasmar-me sem reservas, ciente de que amanhã poderá ser diferente.
Vale o seguinte: às 16:58 do dia 9 de novembro de 2022, sinto-me eufórico; depois do jogo com o Estoril, e depois, e depois, e depois (…), logo se verá."
João Tomaz, in O Benfica
O transformador e a sua obra
"Nas asas das letras e tendo a memória como motor, regresso à noite de 2 de Novembro, em Haifa, onde, sob a forma de goleada, a equipa do Benfica serviu uma rica dose (de confirmação) do bom e impositivo futebol que lhe restituiu a destreza de encarar qualquer adversário sem temor, vincando um insanciável apetite pelo sucesso. Admirável como o resultado e a consequência (1.º lugar do grupo da Liga dos Campeões, à frente do PSG e eliminando a Juventus) foi poder comprovar, num momento de decisão, os frutos da capacidade transformadora do trabalho com assinatura de Roger Schmidt. Sem Enzo (castigado) no arranque da partida em solo israelita, o coletivo encarnado perdeu dois elementos, Gonçalo Ramos e Aursnes, ambos por limitações físicas, por volta de meia hora de jogo, mas, reconfigurado com duas unidades (Chiquinho e Musa) que na época passada evoluíram noutras latitudes, manteve o nível da carburação, com o impacto e o desfecho que se conhecem. Relevante foi também constatar que, sem favores, com a maior das naturalidades, foram utilizados cinco jogadores 'Made in Benfica', três como titulares (António Silva, Florentino e Gonçalo Ramos) e dois saídos do banco de suplentes (Diogo Gonçalves e Henrique Araújo), todos eles com rendimento muito positivo. 'Qualidade não tem idade' é convicção que vinga quando há coragem e competência para a criação de um contexto favorável.
Champions League: o sonho é já ali. Pensando nos euros e nos reiterados volumosos investimentos que dão toneladas de peso aos clubes da elite, temos de reconhecer que o sorteio dos oitavos de final da Liga dos Campeões foi teoricamente generoso em simpatia para com o Benfica. Todavia, não é menos verdade que a equipa conduzida por Roger Schmidt, ao ter realizado uma fase de grupos soberba, merecia, no mínimo, a fortuna de evitar um dos denominados colossos das grandes ligas europeias. O vencedor do grupo H teve o justo prémio, vai defrontar o Club Brugge, campeão da Bélgica, daqui por... três/quatro meses, a eliminar, nos dias 15 de Fevereiro e 7 de Março do novo ano. Um hiato mais do que suficiente, claro, para insuflar o respeito, neutralizar a tentação dos levitações e não dar nada como adquirido, mas também importante para, com ou sem abono do mercado de inverno, fortalecer um processo e um estilo de jogo do melhor Benfica, com uma dimensão física e tática de alto nível, tudo isto plasmado num quadro de virtudes que faz acreditar e permite sonhar mais além."
João Sanches, in O Benfica
Espaço para sonhar
"Escrevo antes do jogo da Taça, e até ao momento a temporada do Benfica está a superar as expectativas mais optimistas. Diria mesmo que está a deslumbrar, com exibições portentosas atrás uma das outras, com jogadores em níveis de topo de carreira, com vitórias e goleadas empolgantes, em Portugal e na Europa.
Só a conquista de títulos, ou pelo menos a conquista 'do' título, poderá certificar definitivamente o Benfica de Roger Schmidt como um dos melhores, ou mesmo o melhor do século XXI. Vejo futebol desde 1976 e em toda a minha vida não me lembro de muitas equipas em Portugal com um futebol tão vibrante e esmagador. Talvez os tempos de Eriksson sejam o que de mais parecido a minha memória alcança. Apenas no final da época e comparação poderá ser sustentada.
Os adeptos andam, justificadamente, em cima de uma nuvem, beliscando-se para ter a certeza de que isto está mesmo a acontecer. Mas aos jogadores impõe-se que mantenham os pés bem assentes no chão, pois sem títulos esta sequência de resultados e exibições não servirá para nada. Euforia nas bancadas, sim. No balneário, de forma alguma. Sendo Roger Schmidt um treinador experiente, estou seguro de que a ambição não irá afrouxar até Maio.
No Campeonato temos 8 pontos de vantagem. Na Champions estamos nos oitavos-de-final. Com esta equipa, com o seu futebol cintilante, temos espaço para sonhar. Para sonhar bem alto.
No imediato, é imperioso manter esta dinâmica até à pausa - que é como quem diz, até ao próximo jogo. Depois, haverá tempo para encontrar forma de a reproduzir na reentrada do campeonato, e no resto da temporada."
Luís Fialho, in O Benfica
Subscrever:
Mensagens (Atom)













