Últimas indefectivações

sábado, 11 de abril de 2020

É para mudar tudo!

"A epidemia transformou as nossas vidas, e ainda há muita gente que não entendeu isso. Não vale a pena estarmos a desejar que tudo volte ao normal, como era antes da covid-19. Não vai acontecer. Ninguém sabe o que fazer, porque ninguém viveu isto antes, é simples. Todos nos estamos a adaptar, seja no nosso trabalho, na nossa vida familiar ou naquilo que somos enquanto indivíduos. E é bom que o mundo do futebol entenda isso. Esta paragem em que todas as competições deveria servir para repensar o modelo do futebol português. Já que estamos perante circunstâncias tão especiais, o acertado é aproveitá-las da melhor forma. Queremos mesmo ter jogos de uma divisão principal com menos de 500 pessoas a assistir? É porque temos de ser claros: uma boa fatia dos clubes que disputam os campeonatos profissionais de futebol não vai conseguir recuperar da catástrofe humana e financeira já vai ser um berbicacho... Reduzam o número de participantes, façam mais voltas, tentem novamente as liguilhas, criem espectáculo, modernizem-se.
Arbitragem: não seria agora uma boa oportunidade para perceber o que tanto tem falhado com as tecnologias? Melhorem-nas, reduzam o erro humano, reinventem-se. E, se os árbitros que lá estão não dão garantias, sigam os vossos regulamentos e aceitem a presença de árbitros estrangeiros. Alguns árbitros portugueses sabem bem o que é apitar jogos de um campeonato de outro país. Aí já não há problema, certo? E nós, adeptos, que podemos fazer? Será que não conseguimos aprender nada com esta epidemia? Já todos percebemos como o ar está mais puro.
Não são só os níveis de poluição que estão a baixar globalmente, é também o ruído da guerrilha desportiva. Façamos aquilo que já há algum tempo muitos de nós fazermos nesta família clubística: concentremo-nos mais - e apenas - em nós. Porque, para ultrapassar o que aí vem,só se, de todos, fomos um."

Ricardo Santos, in O Benfica

Um duelo da apanhada para eleger o campeão

"Então é assim que seria o mundo se o futebol não existisse? Triste, pobre, vazio. Neste momento, a vida parece um filme sem pipocas. Um prato de aletria sem canela ou uma tosta mista sem queijo nem fiambre. Os dias não têm sabor. Sem resultados de 10 ligas diferentes para acompanhar no fim de semana, sem Liga dos Campeões à terça e à quarta-feira, sem resumos para ver no domingo à noite? Sem entrar no Estádio da Luz ou ver o Benfica em acção noutro recinto qualquer? Sem os golos do Vinícius, os passes do Pizzi ou os desarmes do Rúben Dias? Sem euforia nem angústia? A dormir tranquilamente a semana inteira porque não se aproxima nenhum jogo que afugente o sono? Caramba, tenho saudades de uma boa insónia. A competição faz falta. Diverti-me imenso a assistir aos desafios dos toques com rolos de papel higiénico e bolas na barra que invadiram as redes sociais, no entanto foi insuficiente. Houve duelos de FIFA 20 e Football Manager 20 entre alguns jogadores, ainda assim continua a ser pouco. Os adeptos precisam de mais. Para quando confrontos de Monopoly, jogo do Stop ou jogo do galo? Estou certo de que o Gil Vicente alinha neste último. Seja o jogo do sério ou o macaquinho do chinês, está na hora de Pedro Proença arregaçar as mangas e criar torneios didácticos. Não me importo de que o campeão nacional seja decidido, por exemplo, num duelo de apanhada. Pode vir qualquer um contra o Rafa, tenho a certeza de que seria uma vitória fácil. Ninguém o conseguiria apanhar, pelo que não só estaria assegurado o título como ainda seria possível salvaguardar o distanciamento social sugerido pela DGS."

Pedro Soares, in O Benfica

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Estupidez matural

"Na semana passada trouxe para aqui o orgulho que generalizadamente sentia nos portugueses, que em diversas actividades têm mostrado o melhor de nós no combate à pandemia. Infelizmente há excepções, e neste campo a estupidez parece não ter limites.
O director de ou outrora prestigiado semanário, entre duas tacadas de golfe, lembrou-se de propor que o Estado despedisse funcionárias de forma a haver 'moralidade' face ao sector privado. Por sorte não exigiu que empresas que praticamente não sentem a crise (como a sua) fechassem portas para equilibrar as coisas relativamente a outras.
De facto, não se compreende como certas pessoas ascendem a determinados cargos.
Outro exemplo brilhante é o de um conhecido colunista e comentador televisivo que, depois de ter exigido que o Presidente da República - de 71 anos e tendo sido exposto a uma situação de risco - abandonasse a quarentena para heroicamente se apresentar em Belém, também exigiu que o governo lhe desse uma data certa para o fim da pandemia e o regresso à vida normal. Ou seja, queria um palpite, completamente ao arrepio dos maiores especialistas e mais reputados cientistas de todo o mundo. Talvez esta sexta-feira calhasse em, digo eu, para podermos aproveitar a Páscoa...
Em vez de se aperceber do ridículo e humildemente pedir desculpas, o fulano ainda insistiu na tese achando-se incompreendido.
Enfim, estas são excepções. Há outras, mas felizmente o país e as suas instituições não são geridos por idiotas."

Luís Fialho, in O Benfica

José Magalhães

"Nesta fase terrível das nossas vidas, fomos confrontados com mais uma perda irreparável - partiu José Magalhães. Aos 91 anos, deixa uma pesadíssima herança. O nosso antigo capitão da equipa de voleibol e treinador da mais notável equipa feminina daquela modalidade deixa um enorme legado que nos convida a várias reflexões. A primeira de todas é o seu exemplo. As 31 épocas em que José Magalhães se dedicou ao Benfica, primeiro como atleta de eleição e depois como técnico, configuram um verdadeiro caso de benfiquismo. Tudo o que ajudou a conquistar fica nos anais da história do voleibol português. Os 11 títulos conquistados como técnico da célebre equipa das Marias são um verdadeiro caso de estudo. Em meados dos anos 60, o SL Benfica montou um projecto desportivo vencedor que lhe permitiu ter uma equipa imbatível durante nove épocas consecutivas. Foram nove campeonatos e duas Taças de Portugal conquistados fruto de um trabalho metódico, dedicado e inspirado nos mais puros princípios do benfiquismo. José Magalhães liderou com mestria, resiliência e inteligência uma das melhores equipas do desporto nacional. Um projecto que inspirou a actual direcção do Clube e o presidente Luís Filipe Vieira a apostar no feminino. Desde Novembro de 2003, as nossas equipas seniores, masculinas e femininas, conquistaram 430 títulos em 20 modalidades. Desses títulos, 146 foram da autoria das equipas femininas, sendo que estas ajudaram a conquistar amsi 12 em provas mistas. Quem assiste à forma de competir das nossas equipas de futsal, hóquei em patins, atletismo, judo, triatlo, râguebi, luta, basquetebol, voleibol, andebol, polo aquático, natação, bilhar, boxe, ténis de mesa, ginástica e futebol só pode concluir que todas elas são verdadeiras Marias.
Os meus sentidos pêsames à família Magalhães, em especial ao seu neto e nosso ex-voleibolista e campeão, o João Magalhães, e aos seus amigos e alunos. Saibamos inspirar-nos no seu exemplo."

Pedro Guerra, in O Benfica

Quanto vale um par de luvas?

"Há prémios que sabem mesmo bem. Este é um deles, conquistado na escola pelo trabalho e pela atitude do Rodrigo, que se destaca pelo compromisso e pelo percurso exemplar no projecto 'Para ti Se não faltares!'. Mais que um prémio bem merecido, é de um sonho que se trata. É que o Rodrigo sonha com uma baliza só sua, num relvado imenso e num estádio ensurdecedor, infernal, como só a Luz consegue ser. Quer ser relevante e agarrar o toiro pelos cornos, gosta e aceita desafios e não vira a cara ao risco e à responsabilidade. Sabe que para isso só há um caminho, estreito, inclinado, com obstáculos e sobressaltos. Esse caminho tem um nome próprio: Trabalho, e um apelido: Resiliência. Não é para todos, por isso o desafia tanto na flor da juventude e lhe desafia tanto na flor da juventude e lhe desperta paixões. Mas nesse caminho do sucesso e da realização do sonho não há só dificuldades, há compensações que, vencida cada etapa, reconfortam e valem memórias inesquecíveis. Recordam-lhe que valeu a pena e reafirmam que vai continuar a valer a pena, trazendo-lhe o perfume suave da vitória para lhe encher o peito e atiçar a vontade. Nesse caminho há também ídolos e heróis que inspiram e motivam pelo exemplo, inalcançáveis, inacessíveis aos demais, mas ao alcance de uma videochamada social que, paradoxalmente, ofereceram ao Rodrigo, pelo seu esforço, um contacto privado com o seu ídolo de sempre: Odysseas! Não interessa agora a conversa, mas o que Rodrigo dela retirou e fez chegar à Fundação com palavras escritas no calor do momento. Seria real, teria mesmo acontecido? O Odysseas, a quem disse que estava a trabalhar para conquistar as luvas, ofereceu-lhe as dele? Acabou dizendo que a Fundação Benfica já fez tanto por ele, que, um dia, ia retribuir tudo em dobro. Obrigado, Rodrigo, goza bem as luvas e conquista o teu sonho. Quando chegar o momento, vamos mesmo cobrar, porque precisamos de ti do teu exemplo para inspirar outros jovens!"

Jorge Miranda, in O Benfica

Vanguarda cívica

"Estranho combate, este, em que ao homem comum não é exigido mais do que cumprir uma completa inacção e observar o mais absoluto recato. Como se, afinal, fosse possível que indivíduos, famílias, comunidades ou países pudessem escapar, por milagre, à ameaça da inexorável pandemia... Da inconsciência inicial acerca da natureza e do poder maléfico do vírus que por toda a parte foi apanhado os países desprevenidos e impreparados, passar-se-ia a uma conjunção da incredulidade geral: a inaudita virulência progredia a uma velocidade tal, que, fosse onde fosse e fossem quais eles fossem, os recursos disponíveis cedo deixavam de parecer suficientes para conter ou retardar o pesadelo.
Agora, mais de um terço da humanidade se encontra em confinamento mais ou menos assumido; e, apesar disso, a peste continua a disseminar-se insidiosamente, afinal devastando de modo implacável todas as condições de vida, em todas as geografias.
Inseguros, frágeis e indefesos, alguns - os que continuavam entretidos com as pequenas incidências e competições do quotidiano - só demasiado tarde se dariam conta das fatais vulnerabilidade dos sistemas de defesa individuais e colectivos. Em todo o caso, em órgãos de Estado, como em entidades públicas em que o espírito comum já era forte, houve quem, aqui e ali, tendo sabido ler os sinais que chegavam do extremo oriente, pôde tomar a tempo algumas providências que um realismo prospectivo deles decorrente logo aconselhava. Os sólidos canais de relação que a pulsão universalista do Sport Lisboa e Benfica estabelecera com a grande nação chinesa durante a última década terão certamente sido contributivos para que a Direcção de Luís Filipe Vieira tivesse percepcionado a gravidade do cenário desde os primeiros dias de Março, antes de qualquer outro clube em Portugal, de modo a assumir um primeiro prudente conjunto de informações e medidas. Poucos dias depois, o Benfica anunciava uma segunda leva de resoluções mais abrangentes e firmes, cujo impacto se revelaria determinante além das fronteiras da Família Benfiquista, e terá ficado como um novo exemplo da vanguarda cívica que o Benfica sempre representou na sociedade portuguesa.
Fosse pela capacidade de mobilização dos recursos adequados, fosse pela determinação adoptada em todas as instâncias do Clube e do Grupo empresarial - e em especial na Fundação, como nas Casas do Benfica - ou, até mesmo, ao nível das próprias estruturas competitivas que naturalmente se mantêm em situação de confinamento, o conjunto de medidas adoptadas desencadeou e fortalece o mesmo solidário sentimento geral da responsabilidade social que os Benfiquistas sempre avocam nos momentos mais difíceis da nossa História contemporânea.
Carlos Moia, o responsável da Fundação Benfica, sintetizou de forma lapidar o contexto em que vivemos no Clube: 'O Benfica reagiu com força, músculo financeiro e dimensão. É admirável a grandeza deste Benfica que, perante a enormidade deste embate universal, mobiliza todas as suas energias e actua a uma só voz, directo, incisivo, grande!«
E se, nestes momentos, nos sentimos talvez verdadeiramente 'todos juntos' como nunca, porque, por enquanto, ainda é mais urgente estarmos todos no 'mesmo clube', já ninguém tem dúvidas de que, no dia de amanhã, sairemos deste pesadelo ainda mais fortalecidos, mais solidários e mais úteis. Ao Benfica. E à nossa Pátria."

José Nuno Martins, in O Benfica

"Política Responsável Permite-nos Encarar o Futuro Com Uma Confiança Redobrada"

""Espero que se encontrem bem, assim como as vossas famílias. Quero começar esta pequena intervenção com um agradecimento àqueles que estão hoje na linha da frente no combate à COVID-19. Temos alguns membros da estrutura profissional e também dos órgãos sociais envolvidos nesta batalha. Quero agradecer a todos aqueles que nos permitiram ter este regresso a casa em condições absolutamente excepcionais. Fomos dos primeiros a reagir, e reagimos com extraordinária eficácia, permitindo que, hoje, mais de 600 colaboradores estejam a trabalhar a partir de casa. Quero agradecer também àqueles que ao longo destas últimas semanas nos têm permitido continuar juntos, quer através das suas mensagens (de atletas, de membros dos órgãos sociais e de vários colaboradores), quer pela parte tecnológica, que tem permitido resolver vários problemas ao longo do tempo"
"Este é um momento difícil, nenhuma organização estava preparada para fazer face ao mesmo, mas é preciso dizer que o Benfica, através daquilo que tem sido uma política responsável, chegou bem preparado, conforme viram nos resultados que apresentámos no último semestre e ao longo dos últimos seis anos. Graças a essa preparação encaramos o futuro com uma confiança redobrada. O que não significa que não tenhamos de ter uma atitude responsável e de rever uma série de matérias, criando vários cenários, de curto e de médio prazo, a nível de investimentos, de retoma das competições e dos impactos económicos que vamos ter na época em curso e que poderemos eventualmente ainda vir a sofrer durante a época 2020/21"
"Preocupa-nos a situação de várias Casas do Benfica e dos nossos patrocinadores que estão a sofrer mais com esta situação. Ao longo destas semanas, e ainda nos últimos sete dias, o comité de operações do Benfica (a Comissão Executiva, o Conselho de Administração da SAD e a Direção) esteve reunido e está a pilotar a matéria,"
"A responsabilidade de cada um dos colaboradores do Benfica é garantir que, quando chegar o momento da retoma, seja apenas uma normal actividade. Mas quando chegar o 'boom' – porque este retomar de actividade pós-COVID vai ser muito forte –, é importante que o Benfica seja o clube que esteja melhor preparado para fazer face aos desafios nessa altura"
"Estou certo – tal como os órgãos sociais do Benfica e todos os Benfiquistas estão absolutamente convictos – de que a nossa estrutura profissional saberá dar uma resposta adequada ao futuro e que seremos o clube melhor preparado para aproveitar o relance das actividades. Peço-vos este empenho, estou certo de que poderei contar convosco, e os Benfiquistas também. Carrega, Benfica! Vão ficando em casa, em breve estaremos todos juntos""

Benfica de Quarentena #32 - Zé Carlos

Pedraza, o possível sucessor de Grimaldo

"Em Espanha aponta-se Pedraza ao SL Benfica.
Campeão Europeu de sub21 pela Espanha no Euro que decorreu em Itália e consagrou Fábian Ruiz como o melhor jogador da competição, Pedraza foi formado no Villarreal, onde rubricou uma temporada de nível elevado em 2018/2019. No presente encontra-se emprestado ao Real Betis, ele que também já actuou no Alavés e no Leeds United em tal condição.
Com condições para defender de forma mais competente que Grimaldo – Não apenas morfologicamente mas também nas abordagens em situações que requerem contenção, Pedraza não tem a destreza motora do actual lateral do Benfica (quem tem?), mas é também um jogador de forte pendor ofensivo, capaz de acelerar com espaço e incorporar-se ofensivamente explorando todo o corredor, funcionando como um extremo aquando da posse encarnada.

Pedraza em momentos ofensivos:


Pedraza em momentos defensivos:"

Arsenal 1-3 Benfica. Não houve um remate desde então que não se tenha inspirado em ti, profeta Isaías Marques Soares

"Se Beckett fosse vivo, teria uma conta no Instagram e outra no Linkedin. Em vez de lives com o Markl ou o Quadros, o dramaturgo passaria grande parte do tempo a denunciar usurpações da sua mais célebre máxima, uma das que mais fez e continua a fazer pelo complexo industrial de auto-ajuda e palmadinhas nas próprias costas.
Para muitos, o encontro com esta ideia - falhar melhor - foi a epifania que permitiu justificar tudo o que correra mal até então. Faz tudo parte de um plano, nem que seja o PER. Foi assim que o mantra se celebrizou, sendo hoje uma espécie de alibi partilhado por indivíduos com menos de 30 anos e startups elegíveis para o Portugal 2020.
Uns tropeçaram em Beckett. Outros, como eu, descobriram a essência de se falhar melhor numa noite fria em Highbury Park. Diz-se que só uma pequeníssima percentagem das startups evitará o falhanço. Muitos dos seus fundadores tentarão várias vezes ao longo das suas vidas, e falharão sempre, ou quase sempre. A passagem de Isaías Marques Soares ao serviço do Benfica foi, à sua maneira, e vistas bem as coisas, uma ilustração muito mais bonita desta verdade.
Comecei a perceber isto com 10 anos de idade. Já vira o Benfica perder uma final da Taça dos Campeões Europeus e sabia que estava perante uma enormidade de clube, mas a verdade é que eu tinha quase tanta experiência em noites europeias como o Tomás Tavares. Talvez por isso não soubesse exactamente o que esperar daquela 2ª mão frente ao Arsenal, numa eliminatória da Taça dos Campeões Europeus.
Começou mal, com o Arsenal mais forte a adiantar-se, mas a partir daí foi a noite de Isaías, que os livros de história do Benfica se encarregaram de eternizar como o profeta. Nunca mais nos esquecemos dele, não apenas pela perfeição dessa noite em que bisou e arrumou a eliminatória, mas por tudo o que fez enquanto esteve no Benfica, e que me devolve sempre a essa noite. Eu não os contei, mas dizem que fez 178 jogos ao serviço do Benfica. Terei visto seguramente quase todos os jogos. Fez 71 golos e, arrisco dizer, dez vezes mais remates à baliza. Tornou-se um herói pessoal depois da eliminatória contra o Arsenal e posso dizer-vos que nunca mais hesitei em apoiar toda e qualquer tentativa sua de acertar na baliza adversária, por muito absurda que parecesse, e algumas pareceram. O verdadeiro empreendedor sabe que é assim que funciona. Um dia a bola entra e nunca mais esquecem o nosso nome.
Tudo desde sempre. Nunca outra coisa. Nunca ter tentado. Nunca ter falhado. Não importa. Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.
Um remate de Isaías para as imediações do estádio era ele a aquecer. Um remate 3 metros por cima da trave era uma forma de nos dar as boas vindas, pedindo que nos sentássemos e desligássemos os telemóveis. Um remate à trave era provocação bem humorada, e o remate que acertasse em cheio na baliza era golo. Guardem lá o vosso fact-checking que eu não quero saber. Por cada máxima de auto-ajuda, há uma multidão pronta a celebrar a sua mais que provável falibilidade. Eu nunca duvidei, Profeta, desde aquela noite em Highbury. E, se por acaso leres isto, ficas a saber. Talvez tenha chegado aos 71 golos na minha incursão sofrível pelo futebol amador, mas só porque aprendi a falhar melhor. Não é romantismo. É mesmo verdade. Não houve um remate desde então que não fosse inspirado por ti. O meu filho de 3 anos só sabe rematar. Não interessa em que direcção chuta, é o que digo sempre. Chuta com força e o resto há-de vir. Para a bancada, ou em cheio na baliza."

“Ser o mais caro não pesa, o que pesa são as pessoas a falar mal de ti. Quando estive mal, ninguém do futebol me ajudou”

"Em entrevista ao Canal 11, o médio português do Lille abordou a transferência para o Bayern de Munique, confessa que ainda fala com Pizzi, garante ter evoluído como jogador e revela ter aprendido uma lição

Ninguém Quer Saber
"A minha mensagem para os jovens é que sigam os vossos sonhos e estejam perto da família. Muitas pessoas é que metem coisas na cabeça dos jogadores. Tens dinheiro e aproximam-se de ti, o que é normal. Tens de te apoiar na tua família e nos verdadeiros amigos. Quando estive mal, ninguém do futebol me quis ajudar, foram os meus amigos e a minha família".

Os Números
"Os números não pesam. Fui a contratação mais cara do Bayern e Lille e nunca pensava nisso. As pessoas e Comunicação Social é que tornam isso um peso. Ver as pessoas a falar mal de ti pesa mais".  
Pizzi
"Continuo a falar com ele. É um médio que faz muitos golos e penso que consigo fazer isso. Pode ser que um dia façamos uma aposta em relação a golos numa época."

O Lille
"Estou confiante porque tenho jogado e atravesso uma boa fase. Acho que quando qualquer pessoa tem oportunidades para jogar e fazer o que gosta, vai sempre corresponder da melhor maneira. Preparei-me bem para mostrar valor quando chegasse a oportunidade e quero fazer ainda melhor no clube", sublinhou o internacional português, que chegou à Ligue 1 proveniente do Bayern.

A Evolução
"Sinto que sou um jogador mais completo. Com bola estou mais calmo, falho menos passes, posiciono-me melhor e isso faz parte da maturidade. Se ficasse preso no que me aconteceu há um ou dois anos, não avançava. Temos de aprender com o que correu mal. No Bayern, achava que ia conseguir jogar como no Benfica, mas o ritmo era completamente diferente. Se tivesse ficado mais um ano no Benfica, talvez não teria feito mal, mas acho que estava preparado. Dizem que fui para o Bayern por dinheiro, mas não! Vinha de uma boa época"."

Os adeptos não contam?

"São centenas de milhões que contribuem para um regabofe de transferências, comissões, luxos asiáticos e, afinal, não são tidos nem achados para nada. Só pagam em troco de uma louca paixão e não bufam

O futebol, tal como todos os outros sectores de actividade, não estava preparado para um vírus destruidor. Mas é penoso assistir a colossos, pujantes marcas de reconhecimento universal, emblemas que arrecadam somos astronómicas em direitos televisivos, publicidade e merchandising, a cortarem despesas nos salários dos astros que encantam as bancadas. Afinal, solidez e poupança são palavras que não constam dos manuais de gestão para aquelas bandas. Não deixa de ser sinistro confirmar que o desporto-rei vive numa falsa redoma, num mundo artificial de estrelas, milhões, destinos exóticos no Instagram quando os seus dirigentes governam na realidade da penúria, sobrevivendo com receitas extraordinárias no meio de folhas de Excel completamente calamitosas.
E depois não podemos esquecer os jogadores. Porque muitos não se recordam que o descrito no parágrafo anterior é atingido apenas por uma nata. A grande realidade é que 90 por centro dos jovens que sonham ser felizes dando uns pontapés na bola, nunca chegam a assinar um contrato de profissional e nas divisões secundárias os salários são pequenos para um carreia curta e o cumprimento dos clubes com as suas obrigações é sempre no fio da navalha. Logo, o sonho torna-se uma ilusão ou um logro. Importante, assim, a intervenção da FPF com 5 milhões da sua tesouraria para o apoio do Campeonato de Portugal e salvação dessas equipas, jogadores e técnicos que enfrentam uma situação duríssima, tal como o nosso país real.
Porém, numa altura em que alguns clubes retornam timidamente ao trabalho, se tenta calendarizar um quadro competitivo para que as Ligas internas e competições europeias terminem, se ouvem associações do sector, parceiros (e Altice e NOS deviam, pelo seu peso no negócio, ter sido ouvidos no imediato), doutores fala-barato e alguns embusteiros, é estranho como ninguém se interroga como pensará o eixo essencial desta actividade, o que dá audiências, compra bilhetes e camisolas e tem saudades de ver um jogo do seu desporto preferido, até para matar o cansaço com o confinamento. Os adeptos não contam? O que pensam eles destes cenários diversos? Acaba-se o campeonato? Não há títulos nem despromoções? Prolonga-se a temporada pelo ano civil? Que estranho, são centenas de milhões de adeptos em todos os cantos do Mundo, que contribuem para um regabofe de transferências, comissões de intermediação, luxos asiáticos e, afinal, não são tidos nem achados para nada. Só pagam em troco de uma louca paixão e não bufam.
(...)"

Rui Calafate, in Record

O futebol é a coisa mais importante das menos importantes

"Os pitões das chuteiras a bater no chão. O clima de tensão à porta do túnel. O barulho da bola a rolar na relva. O grito desconcertante dos adeptos apaixonados. O abraço apertado dos companheiros de bancada. A cerveja e o panado ao intervalo. A apreensão da segunda parte. O nervosismo da compensação. As unhas no chão. A euforia da vitória. O desalento da derrota. A viagem em passo acelerado para o carro (normalmente mal estacionado). A emissora da rádio a transmitir as conferências de imprensa. Aquela francesinha pós-jogo como cereja no topo do bolo. Bem, tudo isto está suspenso. Dá para acreditar?
Ainda assim, tudo aquilo que vale realmente a pena fica guardado na nossa memória. E no nosso coração. Para sempre. Por isso, resta-nos a nostalgia da recordação para alimentar um amor verdadeiro e único pelo desporto e pelo futebol. Porque acredite, é isso que a verdadeira magia do desporto faz. Atinge-nos com tamanha emoção e intensidade que não permite que o tempo atropele toda aquela sensação de arrepio na espinha. Já faltou mais. E vai correr tudo bem.
Em forma de contraste, surge-nos a história ingrata do Liverpool. A formação orientada por Jürgen Klopp não vence a Premier League desde 1989/90. Doloroso, não? Ainda mais se pensarmos que, recentemente, esse troféu esteve muito perto, mas acabou por cair aos pés da escorregadela do eterno capitão Steven Gerrard. Ainda mais doloroso? Talvez. E, na presente temporada, os “reds” lideram a prova com 82 pontos, mais 25 (!) do que o Manchester City, segundo classificado, que tem um jogo a menos. E faltam apenas nove jornadas para o final do Campeonato. No entretanto, uma pandemia instala-se no mundo e ordena que toda a esfera do futebol fique estagnada. Surreal.
Todavia, o que é isto de um troféu há muito desejado comparado com o mais importante e valioso de todos: a vida? O avançado senegalês Sadio Mané explica da melhor maneira possível: “É um sonho que eu tenho. E espero vencer a Premier League ainda este ano. Mas se não acontecer eu tenho que aceitar. Faz parte da vida. Tentaremos vencer no próximo ano. Claro que é uma situação difícil para o Liverpool, mas também para milhões de pessoas em todo o mundo. Muitas pessoas morreram ou perderam familiares. E esse é o pior cenário de todos”.
Amamos o desporto. Mas não nos confundamos."

9 de Abril de 1995: Gascoigne tentou desarmar Nesta e partiu a perna em dois sítios. Um ano depois voltou a jogar pela Lazio

"Há 25 anos, Paul Gascoigne voltava aos relvados após uma paragem de 12 meses, culpa de uma lesão num lance fortuito com o então adolescente Alessandro Nesta durante um treino da Lazio. Seria o princípio do fim de uma aventura cheia de peripécias do britânico em Itália, da qual ficaram muito mais histórias para contar do que exactamente títulos

Era um simples treino da Lazio, daqueles aos quais Paul Gascoigne a custo se tinha habituado. Itália, naqueles tempos, não era Inglaterra. A Premier League ainda dava os primeiros passos quando na Serie A já se faziam treinos específicos, já se escrutinava o que os jogadores comiam, bebiam, o físico trabalhava-se tanto quanto a bola. Gascoigne sentiu a mudança.
Alessandro Nesta era então apenas um garoto de 16 anos que saltitava entre a equipa de juniores e os treinos com os grandes, porque Dino Zoff já via ali aquilo em que o central se tornaria anos depois - a saber, campeão de Itália, campeão mundial, vencedor da Liga dos Campeões, um dos centrais mais elegantes do jogo. Gascoigne, talvez para colocar o miúdo em sentido, não lhe deu tréguas naquele treino. Uma, duas entradas, nada de grave, uma pequena praxe. Mas entretanto algo corre muito mal: o britânico tenta roubar a bola a Nesta, vai com demasiada força e o choque entre ambos acaba com Gascoigne em lágrimas, agarrado à perna direita, estilhaçada em dois sítios. E com Nesta a chorar inconsolável, julgando-se culpado daquele infortúnio.
Estávamos em Abril de 1994 e a vida de Paul Gascoigne em Itália já tinha peripécias para vários livros. Mas aquela perna partida era o início do fim, apesar do médio só ter deixado a Lazio quase um ano e meio depois.
Mas já lá vamos.
Paul Gascoigne, talento acima da média para aquilo que as ilhas britânicas estavam habituadas, mas um louco empedernido, era uma das figuras da First Division - a Premier League era ainda apenas uma ideia - quando Itália o chamou. Havia gente disposta a gastar muito dinheiro na península, empresários cansados dos seus negócios lucrativos mas aborrecidos. No Mundial de 1990, em Itália, precisamente, Gascoigne tinha brilhado naquela Inglaterra que chegou às meias-finais. Os italianos gostavam do talento, mas também da malandrice, do carisma e na época seguinte a Lazio acenou com um cheque de 8 milhões de libras a um Tottenham que por esses dias lutava para tirar a corda da garganta às suas contas. E Gascoigne era um dos mais excitantes jogadores daquela geração.
Já de malas feitas para Roma, Gascoigne lesionou-se gravemente num joelho na final da Taça de Inglaterra de 1991. O acordo desmoronou-se. A hipótese de Gascoigne se tornar num dos melhores jogadores do Mundo, como muitos vaticinavam, também. O britânico esteve um ano inteiro sem jogar e ainda fez o favor de atrasar a recuperação quando em finais de 1991 se envolveu numa cena de pancadaria numa discoteca no norte de Inglaterra, o seu norte de Inglaterra, onde cresceu pobre, com um pai doente uma mãe alcoólica.
Ainda assim, a Lazio acreditou. Em 1992, Gascoigne seguiu mesmo para o Olímpico de Roma. Com o prémio de assinatura comprou casas para os pais e para as irmãs - Gascoigne era e é louco, mas sempre foi generoso. Estreou-se a 27 de Setembro na Serie A, frente ao Génova.
Mas até para os latinos, Gazza, alcunha cunhada nos tempos de júnior no Newcastle, era demasiado. Na sua biografia "Gazza: My Story", o médio revela que a relação com as altas patentes da Lazio começou logo com o pé esquerdo, depois de fazer um comentário inapropriado sobre o tamanho dos seios da filha de Sergio Cragnotti, então presidente do clube. Ao próprio Cragnotti.
Já Dino Zoff, treinador, tolerava as suas maluquices, mas não a sua propensão para engordar, a forma física inconstante e as lesões que, consequentemente, apareciam. Ainda assim o britânico era um dos preferidos dos adeptos, que lhe respeitavam o carisma e a cara de pau, e até dos colegas, que elogiavam o coração mole e a capacidade de fazer os outros rir com as suas constantes partidas - chegou a colocar uma cobra morta dentro do casaco de Roberto Di Mateo. Mas o talento de Gascoigne só apareceu a espaços na Lazio.
E para história da pouco dolce vita de Gascoigne em Roma ficam mais as anedotas dos que os títulos. A 24 de janeiro de 1993, depois de Dino Zoff o deixar de fora da convocatória para o jogo frente à Juventus por não estar em condições físicas mínimas, vários jornalistas esperaram no final do jogo por uma explicação a viva voz de Gascoigne. Por essa altura, os jogadores da Lazio estavam em blackout e o britânico era alvo constante da imprensa, ora crítica ora apreciadora dos seus empreendimentos dentro e fora de campo. E quando lhe meteram um microfone à frente, Gascoigne respondeu com um sonoro arroto para o microfone da RAI. Os adeptos adoraram, Sergio Cragnotti, pouco habituado a gafes deste calibre até entre os jogadores de futebol mais mal-comportados, menos. Seguiu uma multa milionária, mas Gascoigne não perderia um pinga de rebeldia.
No início da temporada seguinte, apareceu em Roma, após um verão passado em Miami, com 89 quilos, para fúria de Dino Zoff. Para não perder o lugar na equipa, e tal como conta na sua biografia, perdeu 13 quilos e ganhou de novo a confiança do treinador, que chegou mesmo a entregar-lhe a braçadeira de capitão. Mas depois chegou abril e aquele treino, o lance com Nesta e aquela dupla fratura na perna direita.
Alessandro Nesta contaria, anos depois, que Gascoigne fez questão de o tranquilizar e assegurar que a culpa daquela terrível lesão tinha sido inteiramente sua e da sua imprudência no lance. E que para provar que não havia ressentimentos lhe ofereceu cinco pares de chuteiras e um kit de pesca. Gascoigne terá também ele próprio acalmado as claques da Lazio, que nas semanas seguintes ao incidente ameaçaram e assobiaram o jovem Nesta incessantemente. Generosidade, já lá diziam os colegas.
Foram 12 longos meses de recuperação até ao regresso aos relvados, a 9 de Abril de 1995, na vitória da Lazio frente à Reggiana por 2-0. Mas aquela Lazio já era outra Lazio: Zoff tinha saído, Zdenek Zeman era o novo treinador e o estilo físico do técnico não encaixava em Gazza.
No final da época sairia para o Rangers, onde teria uma espécie de renascimento: ajudou os protestantes de Glasgow a ganhar dois campeonatos em três épocas, antes de regressar a Inglaterra para jogar no Middlesbrough e Everton. Nessa já amarga fase final da carreira, os problemas com o álcool tornaram-se demasiado visíveis. As entradas e saídas de clínicas de desintoxicação sucediam-se, uma das quais depois de cair redondo no chão inconsciente, depois de ter bebido 32 shots de whisky.
E daí veio a decadência e as depressões. Hoje, aos 52 anos, ficamos sempre à espera da próxima notícia sobre Gascoigne e tememos ser a última. E praticamente já nos esquecemos que ele, no seu tempo, foi o mais talentoso jogador inglês da sua geração."

Roma 4-5 Inter. Um dos melhores jogos do ídolo (...): um '10' italiano chamado Roberto Baggio

"O mundo estava parado para ver o "fenómeno", que tinha perdido a final do Mundial de 1998, na sua segunda época no campeonato mais duro do mundo naquela época. Ronaldo lesionou-se em Janeiro e regressou para jogar uma parte do dérbi de Milão em Março. Em Abril já estava na máxima força e tendo em conta que a época do Inter estava longe de ser brilhante (8º lugar), e que a Roma disputava o acesso à pré-eliminatória da Liga dos Campeões, no Inter, todos os ingredientes gritavam pelo "fenómeno".
Naquele momento, era o jogador mais desequilibrador da equipa e a referência para quem todos olhavam quando se pensava na possibilidade de a equipa romana ser derrotada em casa pela primeira vez. Apesar disso, eu estava vidrado no Roberto Baggio. Com 32 anos, terminava a primeira de duas épocas no Inter, as duas últimas em que o vimos jogar com a pressão e o peso de lutar pelos primeiros lugares.
Quem viu o génio italiano com a camisola da Fiorentina, da Juventus e até do AC Milan, encontra aqui um jogador diferente. Antes jogava com a maior capacidade física que tinha e mais perto da baliza, numa abrangência de espaço distinta. Aliás, as melhores jogadas que estão por aí em compilações do YouTube são lances de desequilíbrio puro em drible, em condução, em aceleração com a bola no pé. Ele aparecia, fundamentalmente, no último terço para ser ele a finalizar ou em lances de envolvimento próximos do golo. Também tinha qualidade na execução das bolas paradas. Eu adorava os dribles, a elegância como que gingava, a forma limpa como procurava finalizar e, sim, também a qualidade para definir os lances. Gostava dele pelo que fazia a correr, pelo que fazia sozinho. Brilhou nesse estilo como poucos, ganhou campeonatos, taças, provas europeias, bolas de ouro e foi o melhor do mundo para a FIFA.
Apito inicial…
As primeiras acções com bola não foram exuberantes; guardou a bola e esperou que a equipa se reorganizasse, uma tabela mal executada com Colonese, e um alívio. Mas não foi preciso esperar muito para sentir o impacto de Baggio no jogo. Aos 5 minutos, Simeone recebe de Cauet no meio campo. Nessa altura, o criativo italiano estava numa posição mais avançada, entre linhas, e pedia a bola observando o espaço nas suas costas, próximo da linha defensiva da romana. Simeone opta por abrir para Zanetti, e é este que encontra Baggio de costas para a baliza. Fazendo-se valer da leitura do espaço nas suas costas, orienta para onde vai ter mais opções e assiste Ronaldo.
Repare que o avançado brasileiro estava numa posição mais recuada, apesar da linha defensiva da Roma estar alta, e só depois de Baggio ter orientado a recepção naquela direcção é que ele começa a cavalgada em direcção ao golo. Com uma recepção para onde havia mais e melhores soluções, e apesar de pressionado por Aldair, o italiano conseguiu indicar a Ronaldo o que deveria fazer, e executar de forma brilhante o que imaginou com o pé que não era o mais forte.



Entre muitos pormenores de classe na primeira parte, fica na retina a assistência para o segundo golo, quando espera por uma solução de passe melhor, ao invés de despejar a bola de qualquer forma para a molhada. O Inter vai para o descanso a vencer por 3-1, e Roy Hodgson (o quarto treinador da época) satisfeito com o resultado.
Cinco minutos depois do recomeço, a Roma faz dois golos e a incerteza volta ao marcador. Os romanos tornam-se mais pujantes, mais agressivos, mais focados no jogo, e com isso Baggio sofre durante alguns minutos. 
Ainda assim, no quarto golo do Inter, segundo do "fenómeno", num contra-ataque que surge no seguimento de um lance de bola parada defensiva, o recém-convertido médio ofensivo aproveita ausência de Aldair (que estava ainda perto da área do Inter a recuperar) e um mau corte de Quadrini para de primeira colocar em Zamorano que depois assiste Ronaldo. Com a equipa em vantagem, regressa o dono do jogo, que o gere da forma que lhe interessa; passa, mostra-se para a devolução, acelera, trava, guarda, roda, varia.
Mas é depois do empate da Roma, o 4-4, que acontece o momento alto do jogo. Ao minuto 83’, Baggio tinha acabado de perder a bola depois de uma decisão estúpida de a picar num lance em que nada o justificava, naquela que para mim foi a sua pior ação no jogo. Simeone recupera e lateraliza para Zanetti, este atrasa para Simic. A Roma sobe para pressionar quando o central croata entrega para o criativo italiano, que solta de primeira para Zanetti. Depois de entregar a bola, o criativo percebe o espaço que ficou livre e é aí que começa a desenhar a jogada na sua cabeça: ataca esse espaço, recebe a devolução do lateral argentino, e começa a marchar em direção à última linha dos romanos; olha para a desmarcação do Ronaldo mas entende que não é ainda aquele o momento de lhe colocar a bola, uma vez que não tem as condições ideais; usa Djorkaeff, que tinha entrado minutos antes e estava em apoio frontal, para eliminar o médio que o vinha pressionar, e ganha o tempo e o espaço que queria para definir o lance sem pressão nas suas costas; em dois toques deixa pronto para Ronaldo finalizar de forma fantástica. Com uma tabela ultrapassa três opositores, com outra livra-se da pressão que recebia nas suas costas. Extraordinário!



O lance foi invalidado por fora de jogo, mas é o momento mais alto da criatividade de um jogador possibilitada pela colaboração dos colegas. Foi tudo em passe, mas só o foi, e Baggio só teve a possibilidade de fazer o que fez, porque os colegas lhe deram aquelas opções de passe e não outras quaisquer. O lance só teve qualidade porque os colegas colaboraram com as suas intenções, e por melhor que ele fosse só poderia ter sucesso com este tipo de colaboração.
(Podem ver todos os toques dele na bola, no vídeo seguinte.)



Depois deste jogo, o meu conceito mudou e passei a admirar a forma como ele, a andar, fazia o que a maioria não conseguia a correr. Foi aqui que percebi que a forma mais eficaz de comunicação num jogo de futebol é o passe, foi aqui que comecei a pensar que a melhor finta era um passe.
Não deixei de perceber que o drible é uma qualidade rara, e que jogadores que consigam tirar um adversário do caminho são também eles especiais. Veja-se Marlos no Shakhtar Donetsk - a forma como desmonta a primeira barreira e a partir daí aproveita o ajuste que o adversário tem de fazer para desequilibrar o adversário. Olhe-se para Sancho no Dortmund, num estilo completamente diferente de Marlos, mais físico, mas com uma capacidade incrível para passar no um contra um, e até um contra dois. Em português há Trincão no Braga – absolutamente desconcertante para quem o defende. Há Neymar, em Paris, a gozar férias do nível de futebol que o jogo dele pede, mas que continua a ser o número um a destruir defesas no “mano a mano”. E há Messi, claro - o número um de sempre em tudo o que é ofensivo.
Porém, Baggio, neste jogo, mostrou-me o que viria a ser Iniesta no futuro. E não é coincidência que Iniesta seja o meu médio preferido de todos os que vi jogar. Elegante, com grande capacidade para desequilibrar, com uma criatividade fora do normal, e com o gesto técnico mais delicioso que vi nos últimos largos anos – não fazia uso da força como a sua principal arma, e jogava para fazer com que os outros fossem melhores.
Foi nisto que Baggio se transformou na última fase da sua carreira. Davam-lhe a bola para que ele fizesse dos colegas melhores, para que ele fizesse aparecer os miúdos cheios de energia, para permitir que fossem outros a finalizar o que ele criava. Num estilo de jogo como o do Inter, que jogava para o contra-ataque, ele ter tido a capacidade para dar mais posse de bola à equipa, para gerir os momentos de acelerar e travar, para conter muitas vezes os ímpetos dos colegas, é uma lição que ficará comigo para sempre.
Queremos hoje jogadores que joguem o que o jogo dá; mas eu continuo apaixonado por quem vai contra o contexto de jogo e tente criar condições para que ele e a equipa saiam beneficiados e estejam mais próximos do sucesso.
É verdade que este jogo aconteceu no final da época, e que estas novas funções como organizador e criador de jogo já lhe haviam sido atribuídas numa fase inicial. Já se havia visto que pisava terrenos diferentes, e que jogava um futebol mais de serviço e menos de finalização - tinha deixado de ser avançado para passar a ser médio. Este jogo, porém, foi o ponto mais alto de uma adaptação que demorou, mas que resultou num dos jogos mais proveitosos da história do meu ídolo.
O Roberto Baggio do início da sua carreira jogaria hoje de caras em qualquer equipa do mundo; o do final, o deste jogo, em muito poucas. Ele não corria por não ter o vigor físico, e ainda queria estar em ritmo de passeio em todo o campo a pisar os espaços que lhe apeteciam. Não era intenso nas capacidades físicas, nas disputas, nos duelos. Não mordia defensivamente para desarmar, nem recuperava rapidamente a posição. Por tudo isto, é muito difícil imaginar que tivesse lugar num meio-campo das equipas actuais, ainda que quando a bola lhe chegasse aos pés metesse toda os outros a jogar.
Emocionei-me como poucas vezes e chorei quando o Baggio falhou aquele penálti na final do Campeonato do Mundo em 1994, mas são as sensações deste jogo no Olímpico de Roma que marcam um ponto de viragem fundamental na minha forma de olhar para o futebol.
Constituição das equipas
Roma: Michael Konsel. Antônio Carlos, Aldair, Vicent Candela, Marco Quadrini, Luigi Di Biagio, Dmitri Alenitchev, Totti, Eusébio Di Francesco, Marco Delvecchio, Paulo Sérgio.
Treinador: Zdenek Zeman
Inter de Milão: Pagliuca. Javier Zanetti, Dario Simic, Giuseppe Bergomi, Mikael Silvestre, Francesco Colonese, Diego Simeone, Benoit Cauet, Roberto Baggio, Ivan Zamorano, Ronaldo.
Treinador: Roy Hodgson"

Jogos Olímpicos: os 100 dias… que afinal serão 464

"O tema que vos trago não é novidade, nem tão pouco interessante para todos aqueles que na próxima semana iriam entrar na contagem decrescente dos 100 dias para os Jogos Olímpicos Tóquio 2020. 
Atletas, Treinadores, Federações e Comités Olímpicos de todo o mundo, que tanto investiram nesta preparação olímpica, vêem agora adiado por um ano a sua participação nos Jogos.
A situação em que o mundo se encontra, o estado pandémico que está a forjar a nossa história, faz-me recordar uma passagem dos Lusíadas em que Luís Vaz de Camões refere que um fraco Rei faz fraca a forte gente.
A liderança do Movimento Olímpico tardou em anunciar este adiamento e com isso enfraqueceu todos aqueles que norteiam a sua vida pelos valores que o desporto e o olimpismo celebram.
Nem que por momentos, todos aqueles que fazem parte desta família olímpica temeram pela sua segurança, uma segurança diferente daquela que levou ao cancelamento de três edições dos Jogos (Tóquio esteve envolvido numa delas), mas uma segurança para a qual o mundo não tem ainda uma resposta.
Em Janeiro de 2020, aquando daquela que julgávamos ser a última visita técnica a Tóquio, tivemos a oportunidade de visitar o Museu Olímpico do Comité Olímpico Japonês. A forma atroz como a edição de 1940 é remetida para um canto não traduz a dimensão de uns Jogos, nem tão pouco a importância que os acontecimentos à escala global impactam na organização do maior evento desportivo.
Em 1938, por ocasião da Segunda Guerra Sino-Japonesa, Tóquio devolveu a atribuição dos Jogos ao Comité Olímpico Internacional. Por sua vez, entregues a Helsínquia, os Jogos viriam a ser cancelados devido à II Guerra Mundial.
Mas a decisão desta vez foi diferente. O Comité Olímpico Internacional optou não por cancelar, mas sim por adiar os Jogos, abrindo dessa forma um novo capítulo na história olímpica.
Vários números contribuíram para esta decisão:
- Aproximadamente 70% dos Atletas só participa numa edição dos Jogos;
- 57% dos cerca de 11.000 Atletas que irão participar nestes Jogos já tinham garantido a qualificação;
- A organização do calendário desportivo internacional, nomeadamente das 33 Federações Internacionais, tem como referência a celebração dos Jogos Olímpicos;
- Desde a candidatura até à organização de uns Jogos decorrem 10 anos de investimento e de trabalho na cidade que os acolhe;
- Mais de 200.000 pessoas iriam ser acreditadas para que a realização dos Jogos fosse uma realidade; · Em Tóquio foi construída uma Aldeia com 18.000 camas;
- Foram construídas/contratadas 43 instalações desportivas, para além de todos os espaços de apoio à organização dos Jogos;
- Foram contratados todos os serviços de apoio a Atletas e Treinadores para o período dos Jogos que vão desde o catering (3.000.000 de refeições só na Aldeia Olímpica), aos transportes (2.000 autocarros), ao alojamento (46.000 quartos de hotel bloqueados)…
- O evento seria divulgado por mais de 25.000 jornalistas, repórteres de imagens e outros representantes de meios de comunicação social;
- O cumprimento dos contratos com os 14 Worldwide Partners do Comité Olímpico Internacional e dos 67 parceiros locais que tornam possível a organização dos Jogos;
- Os milhões de espectadores que adquiriram bilhetes para as 750 sessões desportivas destes Jogos. 
Por tudo isto, Tóquio 2020 irá manter-se, agora em 2021, e esta era a única solução possível.
Os tempos não são fáceis e talvez nunca tenha feito tanto sentido avaliarmos, no contexto desportivo, o efeito borboleta de Edward Lorenz como parte da teoria do caos. Neste caminho longo, árduo e de muito trabalho que é a preparação olímpica, vamos assumir que o adiamento abriu a possibilidade de reflectirmos, identificarmos as oportunidades e definirmos as estratégias para melhorar aquilo que fizemos no último ano, mas sempre, sempre em segurança.
Até já, Tóquio!"

Benfiquismo (MCDXCVIII)

Saudades!

Telma Campeã...

Dá-lhe música...

Play: Grátis...

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Uma romaria pela Azinhaga dos Alfinentes

"Na edição da Taça de Portugal de 1970-71, o Benfica andou a acumular goleadas até à final surpreendentemente perdida para o Sporting por 1-4. Mais uma vez teve de se cruzar com um clube das colónias: o Independente de Porto Alexandre, a quem a Federação Portuguesa ofereceu casa em Marvila.

Ah! Que bela tarde na zona oriental de Lisboa, Poço do Bispo, Xabregas, Beato, Bairro da Madredeus lá mais ao alto, Marvila...
Gente aos magotes pela Azinhaga dos Alfinetes. Desta vez não era o chamado do Oriental que se ouvia, era o chamado do Benfica, que, como sabemos, às vezes parece ser uma espécie de canto de sereia, ou irresistível como o feitiço de Circe que quase enganou Ulisses.
A malta ia por ali acima, para um jogo curioso, eram sempre curiosos os encontros que traziam à Metrópole os campeões das colónias, para participarem na Taça de Portugal, desta vez coubera ao Independente de Porto Alexandre viajar até à capital do império para enfrentar o Benfica, a Federação Portuguesa de Futebol, convenhamos, não tinha grande paciência para o futebol africano, nem dava possibilidades iguais a esses clubes, fazendo-os disputar as partidas em Portugal Continental, emprestando-lhes um campo para fazerem de conta que jogavam em casa, como era agora o caso do Independente, instalado no Carlos Salema.
Não faltava entusiasmo aos angolanos que vinham lá das areias do Mamibe que chegam até ao mar, hoje em dia Porto Alexandre tem outro nome, como seria de esperar após a independência, é a cidade de Tómbua, e o Independente mediocrizou-se como tantos clubes descentralizados.
Bandeirinhas drapejando ao sopro da brisa do sul. Eusébio no banco, veja-se bem o luxo, Diamantino Costa, José Torres, Artur Jorge e Praia no quarteto ofensivo.
Como seria adivinhável, o entusiasmo angolano não chegou para incomodar demasiado os encarnados. Golo cedo de Torres, logo aos 6 minutos, 2-0 por Artur Jorge, aos 35, e eis as águias a preguiçar sob o sol de Marvila, aborrecendo os espectadores protegidos com aqueles chapelinhos cónicos de cartão e elástico para segurar ao pescoço, uns a boçejar, outros à procura do homem das queijadas e do nougat, finalmente mais alguns e recuperarem o ânimo ao perceberem que Eusébio ira entrar. Entrou mesmo, aos 63 minutos, para o lugar de Messias. A tempo de disparar duas fogachadas que provocaram uns 'ooohs!' de espanto não escutados até aí.

E na volta, houve Eusébio
Essa edição da Taça de Portugal foi das mais estranhas da história do Benfica. Nas duas primeiras rondas, jogadas a um só encontro, viu-se a braços com clubes do Barreiro. No dia 16 de Maio, desmanchou por completo o Luso por 11-0 com José Torres a somar, só à sua conta, nada menos de sete golos. Do quilé!, como diria o meu amigo e mestre Fernando Assis Pacheco. Em seguida, no dia 22, teve de ir ao Campo D. Manuel de Melo, defrontar o Barreirense, e a folia manteve-se: 7-1 com golos de Nené(2), Artur Jorge(2), Vítor Martins, Eusébio e Simões.
Era nessa jornada da competição que os «teams» das colónias entravam em liça. O Ferroviário de Lourenço Marques foi batido pelo FC Porto por 1-4, os infelizes cabo-verdianos do Mindelense levaram para assar do Sporting, com um disparatado 0-21, e só o surpreendente Independente conseguiu a proeza de eliminar o União de Coimbra, por 1-0.
Dia 4 de Junho: eis os angolanos na Luz.
Ninguém esperava outra coisa que não fosse um saco de golos.
Quando o intervalo surgiu, com apenas 1-0 para os encarnados, o povo fez sentir a sua desaprovação. Vendo bem, havia quem estivesse na expectativa de repetir o resultado do Sporting...
O problema é que, com tudo controlado os jogadores do Benfica resolveram jogar  a passo. Apesar de tudo, o toque de calcanhar de Eusébio que deixara Artur Jorge cara a cara com o golo ainda levantou alguns rabos do cimento que fervia de calor.
Osvaldo, o guarda-redes do Independente, era um saltidão. Queria abusar da elasticidade para dar nas vistas, mas, na maior parte dos lances, largava a bola e tinha de ir em busca dela como se andasse a tentar apanhar uma galinha aos ziguezagues Armandinho e Mário José deixaram os bofes em campo e saíram com a língua a rojar pelo chão, mas nada puderam fazer contra o acerto ainda que molengão de Eusébio, que, no segundo tempo, despachou serviço com 5 golos, fixando o resultado em 6-0. Pois, pois... para o Pantera Negra não havia preguiça que lhe tirasse a fome dos golos.
Nas meias-finais, o Benfica eliminou o Tirsense com uma perna às costas: 1-3 em Santo Tirso, 5-1 na Luz.
O percurso fora impressionante: 6 jogos, 6 vitórias, 34 golos marcados. Depois, no Jamor, derrota perante o Sporting por 1-4. Como se tivesse de pagar os custos de, até aí, viver um sossego supremo. Custos pagos com os juros de uma derrota muito dolorosa."

Afonso de Melo, in O Benfica

O jogador que brilhava nos jogos internacionais

"Apesar da baixa estatura, Palmeiro agigantava-se perante equipas estrangeiras

Palmeiro ingressou no Benfica em 1953. O extremo começou por jogar pelas reservas, onde se destacou ao vencer a Taça Imprensa, merecendo a chamada à equipa de honra dos 'encarnados'. A estreia aconteceu a 25 de Dezembro desse ano, num jogo particular frente ao Independente. O nervosismo fez com que não conseguisse demonstrar todas as suas capacidades. Ainda assim, dois dias depois, voltaria a merecer a confiança do treinador Alfredo Valadas, contra o Boca Juniors. Apesar da derrota por 1-0, Palmeiro evidenciou-se e mereceu elogios por parte dos adversários: 'Magnífica equipa do Benfica. Defende-se muitíssimo bem e possui alguns elementos que me agradaram imenso, como o n.º 8 (Palmeiro)'. O jogador agarrou a titularidade e na temporada seguinte contribuiu para a conquista do Campeonato Nacional e da Taça de Portugal, a segunda dobradinha da história Clube.
Rápido, com excelente qualidade técnica, o extremo era encarado como um dos melhores jogadores jovem portugueses, cada vez mais determinante no futebol ofensivo benfiquista. Em Abril de 1956, a imprensa pedia a sua convocação à selecção nacional: 'Se o público e a crítica mandassem, já tinham incluído Palmeiro na selecção, não por mera simpatia, mas por uma questão de direito e justiça'. Poucos meses depois, o seleccionador nacional, Tavares da Silva, concedeu-lhe a primeira internacionalização. Na sua estreia, a 3 de Junho, frente à Espanha, realizou uma excelente exibição e apontou os três golos da vitória dos portugueses por 3-1. A imprensa ficou rendida: 'Palmeiro, o herói deste inesquecível encontro, no seu estilo veloz, ágil e habilidoso, foi admirável do primeiro ao último minuto, afirmando um conjunto de predicados para além do simples elogio de grande vontade e enorme apego, se traduz melhor por uma só palavra - classe'. Ribeiro dos Reis, em A Bola, sintetizou a sua prestação: 'Tirando excelente partido do afundamento do defesa direito espanhol, dobrou-o como quis e pôde caminhar frequentemente para a baliza, espalhando o pânico à sua volta'. O dia tornou-se memorável tanto para o jogador como para a sua família. Orgulhosa, a avó felicitou-o pela fantástica prestação: 'Dezenas de pessoas correram a nossa casa para nos dar os parabéns. Toda a vila vibrou de satisfação e não calculas a alegria e contentamento que deste aos teus queridos pais'.
A 19 de Setembro de 1957, assinalaria outro marco frente a equipas estrangeiras, ao tornou-se no primeiro jogador do Clube a marcar na Taça dos Clubes Campeões Europeus, frente ao Sevilha.
Saiba mais sobre este e outros jogadores do Benfica que representaram as suas selecções nacionais na área 20 - Águias-Mores do Museu Benfica - Cosme Damião."

António Pinto, in O Benfica

Mensagem da capitã de futsal e médica, Inês Fernandes

"É difícil distinguir os dias desde o início desta pandemia, mas sei que há pouco mais de quatro semanas realizei o meu último treino com a equipa, e que também tinha sido o primeiro após uma paragem de duas semanas devido a lesão. Ainda não tinha sido anulada a Final Four da Taça de Portugal Feminina de Futsal, mas a decisão surgiria no dia seguinte com algum alívio da nossa parte. A nossa saúde e a de todos nós em primeiro lugar!
Desde então, a minha rotina aumentou de ritmo e acelerou. Queria agradecer a todos os benfiquistas e adeptos do desporto em geral que me mandaram mensagens pelas diversas redes sociais. Não pude responder a todos, mas estou muito grata e garanto-lhes que estou bem.
Só senti saudades do futsal ontem… quando o Facebook me relembrou do Torneio Europeu de 2018. A vida de atleta tem estado em "standby" e tem sido difícil compatibilizar a flexibilidade dos turnos e as horas de sono alteradas e descontínuas com treinos caseiros para manter a forma.
Em geral, tenho orgulho dos Portugueses! Daqueles que estão na linha da frente: forças de segurança, bombeiros, profissionais de saúde, auxiliares de limpeza e todos aqueles que mantêm o saneamento extra das nossas cidades, camionistas e motoristas dos transportes públicos, voluntários, todos os trabalhadores das superfícies comerciais e das outras indústrias que se desdobram para termos acesso ao material básico para sobreviver e vencer esta epidemia; daqueles que nos bastidores contribuem com o seu empreendedorismo e a sua solidariedade para termos cada vez mais material de protecção individual, dispositivos médicos e capacidade logística para acolher quem está doente; e daqueles que percebem que, às vezes mesmo se não pudermos fazer bem, devemos não fazer mal e permanecermos em casa a respeitar as regras de distanciamento social!!!
Tal como numa equipa em qualquer modalidade colectiva, temos de desempenhar o nosso papel com rigor para ajudar ao sucesso de todos! E tal como qualquer equipa que pretende ganhar uma prova, devemos ser consistentes no nosso trabalho e esforço!
O meu último pedido é nesse sentido, não vacilemos no nosso compromisso até ao final do mês de Abril. Se cumprirmos o distanciamento social e sairmos à rua apenas para o básico e com máscara (seja ela de tecido básico) e lavarmos as mãos frequentemente, iremos ultrapassar esta batalha com a consciência o mais tranquila possível e a sensação que só temos as mortes inevitáveis a lamentar!
Já faltou mais! Cuidem dos vossos!

Inês Fernandes"

Isaías, O Profeta

Benfica de Quarentena #31 - Flávio Cruz

José Antonio Camacho | O primeiro do Renascimento

"Muito em voga, os treinadores frontais da nova era continuam sem conseguir reunir em si a integridade de outros tempos, onde a impulsividade não era desculpada com o feitio. A frontalidade e a fúria justa de José Antonio Camacho eram mais que rótulos bacocos: aglomerava o carácter e alma dos grandes, humildade de braço dado com uma dignidade sem paralelo.
No final de 2002, era precisamente de alguém assim que o SL Benfica precisava. Ele estava livre, depois das polémicas na Coreia e Japão, onde a Roja se viu vergada a uma Coreia do Sul impune e apoiada de forma descarada nos bastidores. “As minhas equipas serão sempre como eu: honradas, disciplinadas, sérias e trabalhadoras”, afirmou em princípio de carreira nos bancos, postura vincada e demonstrada no ano e meio que experienciou o Estádio da Luz.
O chamamento do clube do coração catrapiscou-o e permitiu a entrada de Trapattoni, que aproveitou as bases por si criadas para ser campeão. Voltou como D. Sebastião em 2007, mas a velha máxima de que nunca se deve voltar a um lugar onde se foi feliz prevaleceu. O clube estava de pantanas e ele nunca tolerou desorganização e interesses cruzados.
Aquele 24 de Novembro foi farrusco. A chuva que inundava a Luz não ajudava ao futebol pobre da equipa naquela terceira eliminatória da Taça. A depressão era tanta que há quem diga que os adeptos do Gondomar SC estavam em maioria. Eufóricos ficaram com o golaço de Cílio aos 10 minutos: o 0-1 manteve-se até final, fruto da impotência dos titulares e da inépcia de Jesualdo Ferreira, que viria a ser despedido ainda nesse dia.
A Chalana pediram para tomar conta enquanto se ultimavam pormenores em relação ao contrato com o novo técnico – bastou ao Pequeno Genial um jogo para descobrir em Miguel um lateral-direito de estirpe internacional, numa vitória caseira frente ao SC Braga.
Na segunda semana ao comando da equipa, José Antonio prepara-se para realizar o último derby no velhinho Alvalade. Uma exibição contundente permitiu aos encarnados uma vitória clara por 2-0, jogo que servia de premonição do que aí viria: com Camacho, o Benfica estaria sempre mais próximo de ganhar pela sua atitude.
No descalabro da demolição da antiga Luz e da necessidade de andar com a casa às costas, o treinador espanhol foi sempre o farol de competência que permitiu cumprir os objectivos e manter o clube nos mínimos olímpicos. O segundo lugar final de 2002-03 permitiu uma classificação uefeira que já não se via desde 1999-00, marcando o inicio da retoma do clube e do seu prestígio.
A consolidação da espinha dorsal daquele plantel – Moreira, Ricardo Rocha, Petit, Tiago, Geovanni, Simão e Nuno Gomes, à qual se juntou Luisão depois – foi tarefa que levou a cabo com muita dedicação e trabalho, dotando o clube de uma nova identidade que se manteria até finais da década e que permitiu os sucessos seguintes.
Se não chegou para ultrapassar a SS Lazio, na pré-eliminatória da Champions, permitiu uma caminhada digna na Taça UEFA, só bajulando aos pés do Inter de Milão nos oitavos-de-final. A equipa cumpria em solo nacional, conquistando a Taça de Portugal nesse ano e só não almejando mais dada a concorrência do FC Porto de José Mourinho.
A capacidade de trabalho com a qual José António dotou a equipa permitiram a conquista de classificações importantes em termos pontuais: 75 e 74 pontos (respectivamente) que o clube não almejava desde 1995-96 e que permitiriam conquistar o título em 2001-02, 2004-05, 2006-07, 2007-08 e 2008-09, a título de exemplo.
Com todas as dificuldades inerentes à mudança de Estádio e à desorganização total da estrutura, o treinador espanhol teve ainda que lidar com um assunto ultra-sensível como a morte de Miklos Fehér, naquela noite fria de Janeiro em Guimarães.
Teve que ser ele, enquanto líder inquestionável e, a partir daí, figura paternal de todo o staff e jogadores, a entregar a mensagem a todos. Na viagem de autocarro de regresso a Lisboa. No meio de toda a tristeza, conseguiu manter a honra e terminar a época de forma positiva, onde abundaram as demonstrações de afecto e união de todos.
O segundo lugar final, ganho em cima da meta frente ao Sporting CP de Fernando Santos já no novo Alvalade, foi a definitiva prova de superação de um grupo atingido pela tragédia. O futebol, sendo a coisa mais importante das menos importantes, serviu como catarse da tristeza profunda sentida no seio do grupo.
Como sempre, Camacho arregaçou as mangas, determinou todas as vitórias como homenagem a Miklos e puxou pelo brio dos colegas. Só com um plantel psicologicamente blindado e unido como nunca seria possível a vitória no Jamor frente a Mourinho, duas semanas antes de Gelsenkirchen e da conquista portista da Liga dos Campeões.
A competência e o estrondoso trabalho cumprido chamaram a atenção do seu clube de sempre. De Chamartín, depois de despedirem Carlos Queiroz, veio o chamamento do coração e ele optou, como todos o faríamos. Por cá ficaram as bases que alavancaram o clube rumo ao título nacional do ano seguinte e das campanhas europeias precedentes.
Trappatoni pegou no seu onze titular organizado em 4-2-3-1, deu-lhe a manha que só a experiência das principais ligas entrega e o espírito campeoníssimo da Velha Raposa permitiu a feliz conjugação de contextos nos três grandes para o triunfo final, 11 anos depois.
Em termos estatísticos, foi o pior campeão de sempre: seis empates e sete derrotas. Caricato, mas a recompensa tardia de um enorme trabalho feito. José António Camacho, como Simão, foram as figuras do rejuvenescimento do Benfica.
A amizade que o ligava a Luís Filipe Vieira serviu como bóia de salvação para o descuidado planeamento de 2007-08. Não resultou. Demitiu-se e, à saída, nos idos de Março, alegou não ter mais poder na motivação da equipa. Não quis descortinar outros motivos para a debandada. Mas, percebeu-se sempre que conflitos internos se sobrepunham aos seus valores e, assim, fez mais uma vez jus de uma das suas máximas: «Quando não me sinto bem no sítio onde estou, mudo-me»."

A crise dos clubes

"Caso a actual situação se mantenha e os clubes e as sociedades desportivas comecem a registar quebras acentuadas de pelo menos 40% da sua facturação poderão recorrer ao regime do lay-off simplificado

Em virtude da suspensão das competições, e da recente decisão tomada por alguns clubes em recorrer ao regime do lay-off simplificado, questiona-se se é lícito aos clubes e sociedades desportivas recorrerem à aplicação desse regime, aprovado pelo decreto-lei n.º 10-G/2020, de 26 de Março, designadamente à redução temporária dos períodos normais de trabalho ou à suspensão dos contratos de trabalho.
Ora, o lay-off simplificado destina-se a “empregadores de natureza privada”, noção na qual se enquadram quer clubes, enquanto associações, quer sociedades desportivas (na forma de SAD ou SDUQ), enquanto sociedades comerciais.
O regime do lay-off simplificado verifica-se em situações de crise empresarial, designadamente por uma de três vias:
(i) encerramento total ou parcial da empresa ou estabelecimento, decorrente de disposição legal ou administrativa;
(ii) paragem total ou parcial da actividade da empresa ou estabelecimento que resulte da interrupção das cadeias de abastecimento globais, ou da suspensão ou cancelamento de encomendas;
e (iii) quebra abrupta e acentuada de, pelo menos, 40 % da facturação no período de trinta dias anterior ao do pedido, com referência à média mensal dos dois meses anteriores a esse período, ou face ao período homólogo do ano anterior ou, ainda, para quem tenha iniciado a actividade há menos de 12 meses, à média desse período.
Estando certos de que estes requisitos são alternativos, e não cumulativos, basta que se verifique uma das situações anteriormente descritas para se considerar que existe “situação de crise empresarial”. 
Assim, torna-se necessário saber se o clube ou a sociedade desportiva que participe em competição desportiva, objecto de decisão administrativa de suspensão ou conclusão antecipada, se encontra em situação de crise empresarial para efeitos de acesso às medidas de apoio à manutenção da actividade das empresas.
Os clubes que, publicamente, já assumiram a intenção de avançar para o lay-off, invocaram o encerramento da empresa para esse fim. Contudo, parece-me que o fizeram indevidamente. Para essa análise, entendo que devem ser chamados à colação os seguintes argumentos:
1. O lay-off pressupõe sempre um impacto financeiro negativo significativo, que coloque em causa a viabilidade financeira do clube ou da sociedade desportiva e faça perigar os postos de trabalho existentes. Assim sendo, a suspensão das competições deve originar algum tipo de afectação ou impacto financeiro relevante e que sustente e justifique, por si só, a existência de uma real situação de crise empresarial. Esse impacto financeiro negativo tem de ser presente, actual, e não hipotético ou potencial, dado o carácter imediatista a que subjaz ao regime de lay-off, que é o de assegurar a viabilidade da empresa e manutenção dos postos de trabalho existentes.
2. Não decorre da leitura da definição de crise empresarial, prevista nas alíneas do n.º1 do artigo 3.º do Decreto-Lei n.º10-G/2020, que para se aferir o encerramento total ou parcial de uma empresa, nos tenhamos de socorrer do critério financeiro da quebra abrupta da facturação. Aliás, se tal fosse critério, seria exigível para os casos de encerramento total ou parcial a apresentação de certidão do contabilista certificado da empresa que ateste esse impacto financeiro, o que não acontece por força do n.º 2 do artigo 4.º do mesmo diploma, in fine. Contudo, não nos podemos afastar da ideia original e da teleologia que sustenta a figura do lay-off, que consiste em permitir temporariamente ao empregador suspender os contratos de trabalho ou reduzir os períodos normais de trabalho, pela verificação de motivos que tenham afectado a actividade normal da empresa e desde que essas medidas sejam indispensáveis para assegurar a sua viabilidade e a manutenção de postos de trabalho existentes.
3. A Liga e a Federação Portuguesa de Futebol, assumindo o carácter exemplar da medida, ordenaram a suspensão dos campeonatos profissionais no dia 12 de Março. Quer isto dizer, em primeiro lugar, que estamos perante uma suspensão de actividade e não de um encerramento da empresa; e em segundo lugar, que a suspensão não resultou de uma decisão governamental, mas sim de uma decisão autónoma e voluntária da Liga e da Federação, que antecipou a posterior decisão governamental.
4. O Decreto n.º 2-B/2020 refere, no seu artigo 9.º. que “são encerradas as instalações e estabelecimentos referidos no anexo I ao presente decreto”, nas quais se incluem os estádios. Poderíamos daqui retirar que, estando os estádios encerrados, os clubes e as sociedades desportivas ficariam obrigados a encerrar a sua actividade. Contudo, de acordo com o n.º 3 do referido anexo, esse encerramento não se aplica às instalações desportivas destinadas à actividade dos praticantes desportivos profissionais e de alto rendimento, em contexto de treino, o que permite que os clubes e as sociedades desportivas realizem, pelo menos, uma parte da sua actividade, mantendo os respectivos centros de treino abertos para essa finalidade.
Face ao exposto, parece-me claro que o recurso ao encerramento da empresa, pelos clubes e sociedades desportivas, para sustentar a crise empresarial, fica de todo afastado, em virtude de poderem continuar a fomentar o desenvolvimento de actividades relacionadas com a prática desportiva profissionalizada, bem como pelo facto de manterem as principais fontes de receitas próprias, tal como acontece com as receitas provenientes dos contratos de patrocínio, dos direitos de transmissão e das transferências de jogadores.
Todavia, caso esta situação se mantenha e os clubes e as sociedades desportivas comecem a registar quebras acentuadas de receita, como por exemplo pelo cancelamento dos contratos anteriormente referidos, pela ausência de prémios de qualificação ou pela redução da bilhética, poderão recorrer ao regime do lay-off simplificado, desde que exista uma quebra abrupta e acentuada de, pelo menos, 40 % da sua facturação."