Últimas indefectivações

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Vem aí o dilúvio?

"No caso português, cortadas as suas principais fontes de alimentação, receitas televisivas e bilhética, os clubes portugueses, não só os principais, viram-se agora para o céu à espera do milagre que nunca irá surgir.

Por arrastamento da crise que o país e o mundo atravessam, e que toca toda a sociedade, o futebol caminha inexoravelmente para um beco de difícil saída. É verdade que só no futuro poderá ser feita a avaliação dos estragos causados por momentos tão perturbadores como aqueles que todos vivemos. 
No entanto, é já possível olhar para um panorama desolador, para o qual os responsáveis nacionais, europeus e mundiais vão ter muita dificuldade em encontrar uma saída.
No caso português, cortadas as suas principais fontes de alimentação, receitas televisivas e bilhética, os clubes portugueses, não só os principais, viram-se agora para o céu à espera do milagre que nunca irá surgir.
O ter andado durante muitos anos a navegar ao sabor das ondas, sem necessidade de manobras radicais, deixa o futebol nas mãos do acaso.
E o acaso nunca foi, nem bom aliado nem bom conselheiro. Os dirigentes têm agora sonos mais breves e passam noites a imaginar mecanismos para sair de uma situação que também a eles vai arrastar para as proximidades do abismo: fica aí por se saber em que direcção será dado o seu próximo passo.
A maior prova da desorientação que invadiu os responsáveis fica à vista quando os ouvimos fazer previsões sobre as medidas que hão-de ser tomadas no imediato.
Em boa verdade ninguém se entende: basta recordar o que disseram o presidente da Liga de Portugal, o presidente da UEFA e outros parceiros internacionais.
Para quem assiste ao desfile de factos que confirmam o perigo que envolve o futebol mundial não sobram muitas dúvidas: o futebol, nos seus mais variados aspectos, nunca mais será como até aqui e, no imediato, a reatamento das competições é ainda miragem, que não vai passar disso nos meses mais próximos. 
Não vale a pena remar contra a maré: como o conhecemos, o futebol poderá ter acabado.
Será por isso necessário buscar novas fórmulas, mas certamente com outros protagonistas, mais adaptados às circunstâncias que vai gerar."

Todos os dias nos roubam um gesto

"Todos os dias vamos ficando mais longe de nós próprios porque também somos feitos dos outros. E cada um de nós é uma arma.

E, de repente, o mostrengo, imundo e grosso, veio querer o que é nosso, e tirou-nos carinhos, e abraços e beijos e afagos. A cada dia que passa, rouba-nos um gesto; a cada hora que passa, obriga-nos a ficarmos mais longe. Já há gente que vive na mesma casa e não se toca. Já há sorrisos embaciados que deixaram de brilhar. Já não me deixam, tonto de ternura, pousar os lábios na testa suave dos meus pais. Tiraram-nos a companhia dos filhos e dos irmãos; mandaram-nos ser estranhos dos nossos amigos; e esquivos e desconfiados, temerosos e brutos de uma rudeza desconsolada.
O mostrengo veio lá do fim do mar numa noite de breu e sujou de sombras o céu que hoje não tem nuvens. Céu incompleto de quem perdeu a liberdade. Céu exclusivo de pássaros e inacessível aos sonhos imediatos, porque o torcionário mudou as regras do tempo e deixou-nos apenas a esperança que ele passe depressa o suficiente para que certas coisas não fiquem definitivamente por fazer.
Olho a rua e não passa gente. E quando passa, passa sozinha, porque o mostrengo veio dessa morada onde ninguém o via mudar, também, a regra das distâncias. Vejo-os fugirem uns dos outros com medo uns dos outros e com medo de si próprios. O mostrengo à roda da nau rodou três vezes e anunciou, chiando com a voz das cavernas que não desvenda, que cada um terá de carregar aos ombros a ameaça da morte alheia e quer fazer de nós assassinos silenciosos, anónimos e inevitáveis. Voou sobre toda a gente com a maldição presa nas garras de sermos condutores da nau da morte e não há homem do leme que possa retirar das nossas mãos esse toque destruidor que não escolhe vítimas. Cada um de nós é, hoje, uma arma pronta a disparar. Cada um de nós é uma arma capaz de matar os que mais amamos. Cada um de nós está armadilhado por um mal que veio dos tectos negros do fim do mundo. E mandam-nos apenas estar parados.
Lembro-me de uma noite triste de chuva em Liverpool. Acho que tinha, como agora, um nó na garganta de uma ausência súbita, daquelas ausências que se tornam infinitas por mais que a gente faça por mantê-las vivas num lugar qualquer cá dentro ao qual têm direito. Porque nada tinha para fazer, caminhei por Kemlyn Road, protegendo-me inutilmente nos beirais, um rio ancho de água e homens e mulheres e meninos, ignorando as cordas molhadas do céu, unidos em vozes ora roucas, ora desafinadas, ora infantis:
«When you walk through a storm
Hold your head up high
And don’t be afraid of the dark».
E não, ninguém tinha medo da tempestade com os seus trovões volta e meia, como de costume atrasados em relação aos raios. Ninguém tinha medo da noite que ficara escura de uma escuridão sem nome. À medida que os passos se aproximavam de Anfield e ficávamos cada vez mais juntos, a amálgama de corações ia batendo ao ritmo das palavras:
«Walk on through the wind
Walk on through the rain
Though your dreams be tossed and blown».
E não, ninguém tinha medo do vento nem da chuva, não havia força da natureza que dobrasse a vontade de todos os que gritavam alto o seu direito à liberdade sem receios, à sua vida sem intervalos.
Houve o estádio e houve o jogo. Houve a colectiva conjunção de vontades, fisicamente exibida, coisa que agora deixou de haver._Mas houve, sobretudo, um aviso. Uma faca enfiada entre a terceira e quarta costela de um inimigo infame, que se esconde, incógnito, na cobardia. Não, não éramos muitos nessa noite de Anfield: éramos um só. E um eco prolongou-se pela noite. E um eco prolongou-se-me pela vida:
«Walk on, walk on
With hope in your heart
And you’ll never walk alone
You’ll never walk alone
Walk on, walk on
With hope in your heart
And you’ll never walk alone
You’ll never walk alone!».
Por vezes, a resistência não passa de uma palavra. Por vezes a luta não passa de uma música como a que Richard Rodgers e Oscar Hammerstein I compuseram para um musical chamado Carousel, em 1945, e ficou cravada no coração de Anfield.
Por vezes, no meio da solidão, é preciso encontrar um ânimo simples como o de Fernando Lopes Graça: «Não fiques para trás, ò companheiro!».
O mostrengo veio rodando nas trevas do fim do mundo para pôr um fim ao nosso mundo. Todos os dias, ele e a sua maldade, nos roubam um gesto. Todos os dias fico com os braços cansados dos abraços que não dou. Todos os dias quero rodear os meus filhos de afecto e oferecer aos meus pais um trejeito de carinho. Todos os dias tenho saudades do que venho deixando de ser. Todos os dias me perco, mesmo sabendo qual é o caminho. Todos os dias vamos ficando mais vazios porque a distância mata de forma lenta e cruel. Todos os dias estamos mais longe de nós mesmos porque somos, também, feitos dos outros. Alguns já ficaram irremediavelmente para trás. Mas, que importa? 
«Chegarão no nosso brado
Porque nenhum de nós anda sozinho
E até mortos vão ao nosso lado»."

Benfiquismo (MCDXCVII)

Injusto...

Não vá. Telefone! - Nuno Tavares

O último negócio de uma era

"Nas próximas décadas não se vislumbra como poderá um clube português contratar um internacional alemão, de 24 anos, ao Borussia Dortmund, aguardemos, pois, que Weigl se expresse na plenitude do seu futebol

Não tem a magia instantânea dos grandes artistas, que encantam plateias a agitam a indústria. Apresenta-se com rosto de cidadão qualquer e a expressão feliz de um jovem igual a tantos, em campo é silenciosa, discreto e, em menos de dez minutos, identificamo-lo como jogador despreocupado com o exterior, que não pensa em protagonismo e age, em exclusivo, em função da equipa. O papel que lhe cabe na peça não é decifrado ou mesmo valorizado automaticamente; o seu futebol não contém elementos criativos comuns aos génios, porque recusa fintas, habilidades e demais truques que retirou, ainda menino, do reportório que lhe definiu o estilo. Weigl é, assim, um operário especializado, cumpridor de todas as tarefas que lhe são atribuídas, e um funcionário superior, com técnica cristalina e profundo conhecimento táctico, que serve para manter a equipa em funcionamento, segundo princípios acordados previamente como treinador.
A maior dificuldade para um jogador com características tão especiais é o tempo que leva a acomodar-se no lar a conhecer os cantos à casa; em causa não está só a decoração, o estilo, a mobília e as regras gerais do funcionamento do lar; não é só ter a noção de onde fica a sala, o escritório, os quartos ou a cozinha, é saber quais são os armários onde estão roupa e loiças ou as gavetas que guardam a correspondência e os cofres que escondem as joias. Esse processo é complexo; moroso de assimilar e mais ainda de conjugar com o meio em que está inserido, até porque se trata de uma relação com dois sentidos - quem já habitava na casa tem de sentir-se confortável com a inclusão de um novo hóspede tão ilustre e influente na manobra colectiva.
Weigl tem a vantagem de dominar todo o terreno, conhecer as regas de circulação e acção em cada parcela por onde passa, bem como se procurar o caminho em sintonia com os outros e assim encontrar as respostas que o jogo pode. Para expressar o máximo do talento, precisa de uma equipa à volta, que lhe dê soluções para o início da criação e não a obrigue a concentrar-se na procura da bola.
Sendo um jogador evoluído e multifuncional, só atinge o máximo quando conjuga raciocínio, segurança, liderança, equilíbrio, risco e aventura. É tão responsável e zeloso a gerir o que tem para fazer que parece diminuir-se quando reparte determinadas tarefas - pode ser como Redondo, que se queixava, quando lhe colocavam um companheiro ao lado, de que lhe tapavam um olho. Weigl sublinha a importância de valores como inteligência, eficácia e simplicidade; movimenta-se em bicos de pés pelos corredores do poder (o centro do terreno), com uma autoridade clara e ao mesmo tempo discreta e silenciosa. É um médio que recusa a superficialidade do adorno e transporta uma austeridade técnica que não encanta, mas cumpre as necessidades da sua muito exigente intervenção no jogo.
Quando lhe chega aos pés, a bola não espera receber juras de amor, mas tem a certeza de que será bem tratada, vai descansar pouco, viajar depressa (joga a um/dois toques) e ter um destino seguro, Weigl recusa todos os manuais de etiqueta; não tem jeito para ser solene, intenção de ser brilhante, muito menos preocupações com a avaliação exterior. Nunca se agitará, levemente que seja, quando quiserem reduzi-lo a um número descomunal para o meio (20 milhões) e houver quem não encontre relação entre o que joga e a grandeza que não lhe atribuem. Mesmo considerando essa desfasamento, Weigl personifica o último grande e surpreendente negócio de uma era no futebol português. Nas próximas décadas não se vislumbra como poderá um clube português contratar um internacional alemão, de 24 anos, ao Borussia Dortmund. Aguardemos, então, para que possa expressar-se na plenitude do que tem para oferecer."

Rui Dias, in Record

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Dérbi

"1. Muitos (e bem) apressaram-se a criticar o Liverpool por anunciar o recurso ao lay-off para os funcionários (que não os jogadores), mas ouvi poucos elogios na hora do anúncio do recuo (e com pedido de desculpas!), algo que achei ainda mais notável. E para quem não sabe, o Liverpool costuma pagar férias em Tenerife aos funcionários do centro de treinos de Melwood e respectivas famílias (cerca de 150 pessoas entre crianças e adultos).
2. Entre avanços e recuos, entrevistas, comunicados, desmentidos, esclarecimentos e ameaças, o presidente da UEFA parece uma barata tonta. Mesmo no caos e sob enorme pressão perante a ameaça do colapso financeiro da indústria, exige-se mais de alguém com tanta responsabilidade.
3. Entre o silêncio dos inocentes e o ruído dos indecentes, percebo que tanto para a UEFA como para as ligas nacionais o plano não pode ser não ter plano, mas também não pode entrar-se no jogo de atirar datas à parede como se fossem barro, para ver se colam. Quem manda é o vírus, aceitem.
4. Com 4 mil milhões de pessoas fechadas em casa (mais de metade da população mundial), o futebol teima em sair à rua. Se os jogos sem público não forem suficientes, pode sempre tentar-se o futebol sem contacto ou um dérbi entre não infectados e imunes, pode ser que as TV's comprem os direitos. Tudo vale a pena quando a alma do negócio não é pequena. Nem a vergonha.
5. A maior parte das equipas alemãs já se treinam. Os jogadores tomam banho em casa, equipam-se por turnos em balneários separados e teimam-se em grupos de 5 e a pelo menos metro e meio de distância uns dos outros. Chamem-lhe o que quiserem, mas isto não é o regresso do futebol, é uma experiência de laboratório.
6. Parece-me que há aqui uma certa confusão quanto à sabedoria popular. Ela diz-nos que enquanto há vida há esperança. Não confundir com enquanto há futebol há esperança."

Gonçalo Guimarães, in A Bola

A pandemia acaba na sexta-feira, 29 de maio, à hora do Rio Ave-Paços

"A crise acaba no final de Maio.
Não, melhor ainda: esta pandemia acaba numa sexta-feira, 29 de maio, às 19h45. Está bom assim? Mesmo a tempo de Rio Ave e Paços de Ferreira darem o pontapé de saída para a jornada 25.
Na última semana não faltou quem caísse em cima de um colunista que defendeu no seu artigo de opinião, no Público, a ideia peregrina de que precisamos da parte do governo de «uma data para vermos uma luz ao fundo do túnel».
No que toca ao futebol, a curiosidade de João Miguel Tavares seria satisfeita pelo presidente da Liga. Pedro Proença trabalha para o regresso da Liga no final de Maio.
Não tenho ideia de qualquer outra actividade ter dado um prazo concreto para o regresso, mesmo condicionando-o – mau seria – ao que determinar a Direcção-Geral de Saúde.
O problema é que, azar dos Proenças, o final de maio coincide com o pico da pandemia em Portugal, segundo afirmou a ministra da Saúde também na última semana.
Outro problema é o de o regresso aos treinos estar programado já para daqui a um mês, numa altura em que por cá ainda está previsto o crescimento da curva epidémica. E outro ainda tem que ver com o facto de várias competições internacionais agendadas para um mês tão distante como Julho, de Wimbledon aos Jogos Olímpicos, já terem sido suspensas ou adiadas. 
Não por acaso nesta segunda-feira o presidente do Sindicato dos Jogadores veio alertar para o facto de os atletas só regressarem quando as condições de segurança sanitária estiverem absolutamente garantidas.
«Os jogadores nunca serão cobaias», afirmou Joaquim Evangelista, acrescentando como se tal fosse preciso: «Nem pensar no regresso às competições, ou sequer aos treinos, sem o aval das autoridades de saúde.»
Proença e a Liga tentam responder à pressão da UEFA, dos operadores de TV, dos clubes para que o remanescente da temporada se cumpra. Aliás, essa é inequivocamente a solução mais justa. E assim será, mas apenas quando e se houver condições para tal.
É avisado que haja um plano com os diferentes cenários possíveis, mas é ainda mais aconselhável nesta altura ser-se parcimonioso na comunicação, sob pena de se cair no ridículo.
Vivermos em estado de emergência. Numa altura em que os hospitais se debatem para não entrarem em rotura, com o país quase inteiro confinado e mais de meio milhão de portugueses já em lay-off, esta preocupação pública com o futebol e em arrumar a Liga de afogadilho torna-se, no mínimo, descabida.
O tantas vezes referido aplanar a curva é benéfico para a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde e para salvar vidas, mas faz estender por mais tempo os efeitos da pandemia e, portanto, vai atrasar a retoma de diferentes actividades, com o consequente impacto económico.
Essa é a concessão que estamos dispostos a fazer enquanto sociedade. Foi esse o compromisso tácito que assumimos, pelo que qualquer pressão pública em sentido contrário não será mais do que ruído. 
Se o futebol se quer entreter com discussões, poderá começar por algo bem mais premente: numa altura em que todos são chamados a fazer sacrifícios, há que pôr seriamente em cima da mesa o corte de salários dos futebolistas de topo – os funcionários mais bem pagos em todo o país.
Quanto ao resto, faltam à Liga Portuguesa ou à UEFA epidemiologistas, que, de momento, não mostram grandes certezas sobre este novo desafio.
A bola está do lado deles. Façam o favor de lhes deixar o campo livre."

Até quando?

"Escrevo novamente a partir de casa, a grande diferença é que desta vez, aqui estou como a grande maioria dos portugueses, em tempos de confinamento e distanciamento social. No meu caso tenho a sorte de ter junto a mim os meus filhos e a minha mulher, mas como todos, aguardo com ansiedade o retorno da minha vida. A vida de todos os dias. O meu trabalho, a profissão que abracei e que amo. Ainda na semana passada regressei à redacção e senti-me muito bem. Tendo em conta o cenário de condicionalismos, necessários e indispensáveis, este «breve» regresso soube-me pela vida, a mesma que já foi retirada a milhares de portugueses, às mãos da epidemia.
E para quando o regresso em pleno? Pois, essa é a resposta que ninguém tem, pelo menos para já, e parece-me que justificadamente. Quando oiço falar dos planos para o futebol, fico feliz, mas ao mesmo tempo apreensivo. Não se ponha o carro à frente dos bois, com base em argumentos que não os baseados nas principais orientações de quem sabe. Voltar por voltar não é solução, e quem joga, quem treina, não está disposto a isso.
Porque não faz sentido pedir aos jogadores que não se cumprimentem com as mãos, para depois os colocarem em campo durante 90 minutos, num jogo de contacto físico.
Agora pensem!
Num cenário cor de rosa os treinos estariam de regresso ainda durante o estado de emergência, limitados às regras vigentes. Sessões individuais, campeonatos terminados até final de Julho, lista das equipas para a UEFA entregue até 3 de Agosto. Será?
Para quem gosta de futebol, sim, mas para quem gosta principalmente de bom futebol, para os jogadores, para os treinadores, jogar sem público, não é a mesma coisa. E não querendo fazer futurologia, alguém acredita que com estas datas, vai haver público nas bancadas?
Para já a UEFA não admite que as federações, individualmente, atribuam os títulos de campeão. Concordo. Têm que estar todos alinhados. E temos todos a esperança de que ainda haja tempo para terminar as competições. Mas será necessária uma grande ginástica para que isso aconteça em devido tempo, e o futebol não é um desporto de grandes consensos. Temo por isso.
Temo principalmente pelos jogadores, muitos deles já assombrosamente afectados pelos efeitos colaterais da pandemia. Porque nem todos ganham milhões, e já há quem não tenha dinheiro para suportar as despesas inerentes à boa alimentação dos desportistas.
Mas, e os funcionários desprotegidos, muitos deles sem dinheiro sequer para comer. O futebol não são só os futebolistas, a indústria é muito mais que isso. Os clubes e os dirigentes que tanto dinheiro ganharam e gastaram, têm agora que se juntar para gerar consensos. E sabemos todos que não tem sido fácil no futebol português."

Campeões da secretaria !!!

"Face à situação trágica em que vivemos, optámos por nos manter em silêncio por respeito a todos e por considerarmos que as prioridades actuais são outras. No entanto, a pressão pública feita pelo #PortoaoColo, especialmente através do seu jornal oficial, fez-nos abrir uma excepção.
Manipular, omitir e mentir é este o lema d’ “O Jogo” e nestes tempos em que a luta deveria ser contra a pandemia, a única preocupação deste “jornal” é a de tentar ajudar o seu clube a ganhar onde mais gosta, fora do campo.
Quem está mais atento, sabe que tudo isto não passa de “mandar areia para os olhos”. Não é possível em Portugal “dar” um Campeonato assim. Nem mesmo ao #PortoaoColo, e eles sabem-no. No final, o que realmente querem é dizer que “o Benfica manda nisto tudo” e tentar ganhar na secretaria os 40 milhões de acesso à Champions, pelos quais estão desesperados.
O regulamento da Liga de Clubes é claro. Segundo o artigo 16º:
“1. As competições oficiais por pontos terão obrigatoriamente duas voltas simétricas e os participantes encontrar-se-ão todos entre si, uma vez na condição de visitados e outra na de visitantes, nos respectivos estádios, não sendo autorizada a inversão dos jogos.”
Alterações a este, ou outro artigo, só são possíveis com unanimidade de Todos os clubes. Repetimos, Todos os clubes.
Deixando, agora, os factos e entrando mais no campo da especulação, e mesmo sabendo que sem unanimidade nada disto é possível, é de enaltecer a forma bacoca como o #PortoaoColo está a tentar passar a imagem de que é um “justo” Campeão por estar na liderança a 10 jornadas do final, com 30% do Campeonato ainda por disputar (e com jogos com Famalicão, Braga e Sporting pela frente). No entanto, se calhar já não seria “justo” “dar” o Penta ao Benfica com esse mesmo critério.
Mais, segundo o presidente da UEFA na entrevista que hoje “O Jogo” apresenta como manchete, não há nenhum critério pensado. E os critérios poderiam ser muitos, desde a classificação da 1ª volta (há campeonatos só com uma volta por esse mundo fora, argentino à cabeça), passando por atribuir os resultados da 1ª volta aos jogos por disputar, ou mesmo atribuir à equipa que mais jornadas esteve na frente. Curiosamente nenhum destes é mencionado… e é fácil de perceber porquê. [O Liverpool acabaria na frente em qualquer um deles. O #PortoaoColo em nenhum].
No meio disto tudo, queríamos ainda saber qual a solução do #PortoaoColo para terminar os Campeonatos (italiano, inglês e francês à cabeça) com número de jogos diferentes disputados pelas equipas? Deve ser uma “coisa gira de se ver”.
No #PortoaoColo vale mesmo tudo. O fundo não tem limites, mas cá estaremos para expor as verdades dos factos e denunciar a campanha “nojenta” feita pelo #PortoaoColo e os seus aliados"

#BenficaEmCasa - Obrigado...

#BenficaEmCasa - no feminino...!!!

Mensagem do director das Casas do Benfica, Jorge Jacinto

"As 297 Casas, Filiais e Delegações do Sport Lisboa e Benfica em todo o mundo estão também, neste momento, a viver uma fase difícil e de incerteza relativamente ao que o futuro nos reservará a todos. 
Certo é que nenhuma baixou os braços e continuam a chegar-nos os relatos de enorme solidariedade como são os casos de Vila Real, que ofereceu, em conjunto com os seus atletas e familiares, material de protecção para o Município de Vila Real distribuir pelas instituições mais necessitadas. Em Bruxelas, a Casa do Benfica mobilizou-se com instituições locais e recolheu alimentos e forneceu refeições aos mais carenciados. Em Algueirão-Mem Martins (Sintra), as refeições de Take-Away servem para financiar a alimentação aos Bombeiros, Profissionais de Saúde e Famílias carenciadas referenciadas pela Junta de Freguesia. Em Moura, a Casa do Benfica ofereceu aos Bombeiros locais equipamento para salvar vidas.
Estes são apenas alguns exemplos de que, em alturas de muita dificuldade, as Casas do Benfica conseguem inventar formas de apoiar os mais necessitados e isso é conseguir levar o Benfica mais longe e estar mais perto dos que mais precisam de todos nós.
Hoje, neste vasto universo, apenas 10 Casas do Benfica conseguem ter serviços mínimos a funcionar. Quer em Take-Away (Alcácer do Sal, Algueirão-Mem Martins, Arronches, Entroncamento, Loures, Quinta do Conde e Santiago do Cacém e Toronto), ou em actividades lectivas e desportivas (Proença-a-Nova e Romont) ou mesmo na área da saúde, como é Proença-a-Nova e o seu Laboratório de Análises Clínicas.
Estão parados mais de 40 mil atletas de 46 modalidades diferentes, sejam elas federadas, amadoras ou lúdicas.
Este projecto pioneiro implementou nesta última década um conjunto de serviços, imagem e de marca em todo o mundo com mais de 300 profissionais ao seu serviço.
Estes representam já uma importante fatia dos serviços SL Benfica prestados, uma vez que já temos um conjunto alargado de Casas do Benfica onde se podem encontrar todos os produtos disponíveis no Estádio, comportando-se assim como verdadeiras agências de descentralização para que os sócios e adeptos não tenham de se deslocar ao Estádio e possam ter um meio presencial de aquisição ou resolução das suas necessidades.
Nesta fase difícil, em que a prioridade é a saúde de todos, e a responsabilidade colectiva passa por nos protegermos a nós e a todos os outros, uma palavra de enorme respeito e solidariedade para com todos os dirigentes das Casas, Filais e Delegações em todo o mundo, que hoje têm o desafio de garantir o futuro das Casas do Benfica, e dizer-lhes que vamos ultrapassar todas as dificuldades e que, quando voltarmos, estaremos mais fortes, pois o enorme trabalho que estamos a realizar nestes dias dará os necessários frutos no futuro para que nos possamos rapidamente adaptar a este mundo que vai mudar.
E porque em breve vamos estar juntos, aproveito para convidar todos os Benfiquistas a visitar a Casa do Benfica mais perto e a envolver-se e a utilizar mais estes espaços, pois eles estão concebidos para ser espaço de todos e para todos, e em que só com o empenho e dedicação podemos ter Casas do Benfica, Todos os Dias Para Todos!

Jorge Jacinto"

Benfica de Quarentena #30 - Luís Ferreira

Benfica de Quarentena #29 - Tiago Pereira

Benfica Podcast #361 - Keaton Parks

Jogadores Que Admiro #113 – Jonas

"No dia 12 de Setembro de 2014, o SL Benfica anunciava a contratação de Jonas Gonçalves. O clube encarnado tinha esperanças de que o já veterano avançado pudesse colmatar a saída de Rodrigo, mas o que Jonas viria a fazer com a camisola dos encarnados seria algo absolutamente único, superando a mais optimista das expectativas.
O brasileiro, que tinha terminado contrato com o Valência CF, chegava a Portugal desacreditado, depois de uma fraca temporada ao serviço do emblema che. “Velho” ou “desempregado” foram alguns dos termos utilizados para descrever o jogador (sobretudo por parte dos rivais) na sua chegada à Luz.
Com a temporada já iniciada, Jonas demorou algum tempo a entrar nas opções de Jorge Jesus. A sua estreia aconteceria apenas em Outubro, frente ao FC Arouca onde se estreou também a marcar.
Contudo, o seu grande momento de afirmação aconteceria na Serra, frente ao SC Covilhã, onde o brasileiro marcou três golos numa dificílima vitória por 3-2.
Desde este momento Jonas nunca mais olhou para trás. Em 187 jogos foram 131 os golos marcados pelas “pistolas”: e tão inesquecíveis que muitos deles foram.
Como esquecer os golaços de fora da área frente ao FC Paços de Ferreira ou CD Nacional. As grandes cabeçadas que tantas vezes terminavam no fundo das redes. O golo que deu a vitória frente ao FC Zenit São Petersburgo, na Luz. O hat-trick frente ao Nacional, naquele jogo às 11 da manhã.
O golo “a meias” com Mitroglou, que tanta discussão gerou. A cabeçada que finalizou o cruzamento de letra de Raúl Jiménez, frente ao Vitória SC. O décimo golo na histórica goleada ao Nacional da Madeira. Os penáltis que pareciam sempre ir ao encontro das redes.
O último tiro do “Pistolas” frente ao Portimonense SC, onde celebrou batendo incessantemente no símbolo do Sport Lisboa e Benfica. O histórico golo no Bessa, que proporcionou uma explosão de felicidade a todos os benfiquistas e que me fez celebrar loucamente em casa com o meu pai.
De pé direito, de pé esquerdo, de cabeça, de livre, de penalty, de fora da área, sem ângulo ou driblando o guarda redes. Jonas foi no Benfica realmente uma verdadeira máquina de fazer golos. Perdeu-se a conta quantas vezes as bancadas do Estádio da Luz gritaram “JONAS” o mais alto que as suas cordas vocais permitiram. Perdeu-se a conta à quantidade de vezes que Jonas colocou um sorriso na cara dos benfiquistas.
Falar de Jonas é falar de golo, mas é sobretudo falar de classe e magia. A bola parecia ter uma relação de cumplicidade única com aqueles pés.
A forma como dominava a bola e ultrapassava o seu adversário sem esboçar o mínimo esforço. A forma como, com a sua franzina figura, conseguia evitar o mais forte dos atletas. A forma como encontrava a bola perdida e incompreendida na área e, tal como fez com a sua carreira, lhe devolvia a felicidade e o sentido de existir. A forma como fazia questão de celebrar todos os golos com os adeptos, retribuindo todo o apoio. A forma como vibrava com os jogos como se fosse benfiquista desde o berço. A forma como apelava à união entre os jogadores e as bancadas.
Depois das lágrimas no último jogo e da “fuga” na lambreta de Eliseu, ficou clara a dura realidade: a história de Jonas no futebol estava a chegar ao fim, mas não sem uma última ovação num estádio que cantava apaixonadamente o seu nome semana após semana. Um estádio que Jonas apelidava de especial. Um estádio repleto de pessoas que idolatravam o brasileiro.
Quando no dia 10 ao minuto 10 saía pela última vez Jonas, cada benfiquista parecia sentir um vazio dentro de si. Os encarnados continuavam lá, mas havia a sensação de que faltava algo, de que faltava alguém. Faltava o 10. Faltava a alegria de Jonas, alegria essa que contrastava agora com a tristeza pela sua ausência.
O futebol está muito longe de ser uma das coisas mais importantes no mundo, não deveria realisticamente sequer perturbar as nossas emoções. Mas, como disse o mítico treinador Arrigo Sachi, “o futebol é a coisa mais importante das coisas menos importantes”.
Para os benfiquistas, muito desta pequena “importância”, nos últimos anos, deveu-se a Jonas Gonçalves. Parafraseando o próprio Jonas, Benfica e Jonas são duas palavras que estão interligadas. Eu acrescento: estarão para sempre.
De desacreditado a lenda. As lesões crónicas impediram Jonas de continuar a dar o seu contributo, mas, com ou sem lesões, Jonas foi, discutivelmente, o melhor jogador do SL Benfica no século XXI. 
Sempre que falo de Jonas sinto-me obrigado a demonstrar todo o meu agradecimento. Quatro Campeonatos Nacionais (melhor marcador por duas vezes), uma Taça de Portugal, duas Taças da Liga e duas Supertaças."

Benfiquismo (MCDXCVI)

De branco...

Não há condições para terminar a época

"Nada disto é favorável à racionalização das decisões a tomar pelos clubes, por mais dolorosos que possam ser

1. À míngua de acontecimentos, golos, minutos, resultados e outras coisas do género, o jogo social Placard bem se poderia basear nas próximas semanas nas previsões, aspirações e palpites que medeiam ente a quarentena e o retomar da gesta desportiva. Até porque oscilamos entre o nada e o tudo, entre o que não vai suceder e o que se tem vontade de ver voltar a acontecer. Todos palpitamos, todos opinamos e todos desejamos o regresso desportivo. Compreensivelmente, sem dúvida.
Tenho lido milhentas soluções para este inédito momento (não) desportivo. Todas elas com defensores e objectores. Nos últimos dias sobressaiu uma abordagem promovida, creio, pelo presidente da Liga de Futebol Profissional, que me parece algo peregrina, qual seja a de haver uma espécie de cerca sanitária-futebolística - o Algarve -, onde decorreriam, em jeito acelerado, as últimas dez jornadas da primeira divisão. Tudo sem espectadores, tudo - suponho - com transmissões televisivas em cadeia sequencial para que ninguém e nada ficassem de fora. Tudo forçado para que, em jeito de salsicharia em série, se terminasse a prova e houvesse vencedores e vencidos.
Imagino o entusiasmo transbordante de tão prestimosa maneira de realizar quase um terço do campeonato. Imagino até o campeão a festejar numa qualquer marina algarvia, sem pessoas (para manter a coerência), ainda que uns tantos fossem ao Marquês de Pombal em Lisboa ou aos Aliados, no Porto, consoante o campeão encontrado. Uns com máscaras e outros sem elas (se calhar, ainda no tempo da polémica que por aí anda das máscaras do põe-ou-não-põe), com cotoveladas à discrição e distanciamento social controlado por uma qualquer claque.
Não sei se a segunda divisão também terá direito a uma cerca de segunda categoria. Partindo do princípio da limitação hoteleira de um hotel para cada equipa (36 no conjunto dos dois escalões!) e da escassez de estádios existentes no Algarve, o confinamento desta divisão iria para outra zona do país. Mas qual?
E os treinos? Separados por equipas, com certeza. Onde? Em que condições? Em fila ordenada ou por moeda ao ar? Em turnos do 24 horas?
E os árbitros? E os VAR? E os delgados? E outros ainda? Confinados ou refinados? Num hotel isolado ou tudo aos molhos?
E - last but not least - os jogadores? Treinos com todos os cuidados, roupeiros minuciosos, tudo por grupos separados e, a seguir, todos juntos nos jogos, sabendo-se que o futebol é um desporto de contacto e de confrontos físicos? Faz sentido expor atletas ao risco pandémico, cuja prevenção deve constituir a mais séria preocupação, antes de todas as outras?
Obviamente não ignoro o grande problemas que pode resultar dos operadores de telecomunicações não pagarem o que está contratualizado nestes meses (quantos virão a ser?) de paralisação forçada das competições. Também não ignoro a má prática de dar as receitas futuras como garantia de financiamento de alguns clubes, o que levou a incluir nestas operações os meses agora sem transmissões. Por isso, importa chegar a um entendimento entre todas as partes, de modo a minimizar, sem assimetrias injustas, as consequências negativas da situação. Contudo, não creio que o internato compulsivo de 30 por cento da competição seja a solução num desporto chamado rei, que o é muito por causa dos que sempre o acarinharam indo aos estádios. Constituirá, quanto muito, uma solução frágil, que a acontecer vai deixar marcas no futuro. Dispensar o que é indispensável é negar a alegria, o entusiasmo, a festa que são consubstanciais ao futebol. Uma coisa é fazer-se um jogo em casa ou fora de casa sem público (como aqui escrevi e a semana passada, situação que sempre foi encarada como castigo ou punição para o clube infractor!), outra coisa bem diferente é enfiarem-se oitenta jogos (ou cento e sessenta, se considerarmos as duas principais divisões) numa correria sem público, sem entusiasmo, sem nada, afinal.

2. Bem andou a Federação Portuguesa de Futebol em dar por terminadas todas as provas que estão sob a sua alçada nos escalões jovens. Bem andaram os clubes de andebol em não concluir a época, o que certamente irá suceder com as restantes modalidades. Claro que estou consciente que, sobretudo, a primeira divisão tem outra escala, quer desportiva, quer financeira, e que, como tal, a suspensão da prova gera consequências nefastas. Mas, na primeira opinião, tal não se resolve por uma varinha mágica de um torneio clausura forçado, desenxabiado, além de implicar uma nova temporada cheia de constrangimentos. Se se entrar pela próxima época adentro, entre competição nacional, taças europeias e selecções, é como tentar meter o Rossio na Betesga.
De uma coisa estou certo: a de quanto mais tempo se estiver na expectativa e na mera gestão de hipóteses quanto ao fim da época, piores consequências advirão da impossibilidade de planeamento e de capacidade de ultrapassar problemas com vista ao futuro desportivo, financeiro, transaccional. Nestas alturas, lembro-me sempre de que uma hipótese é uma coisa que não é, mas que a gente supõe que é para ver o que seria, se fosse.
No plano escolar, não sabemos, ainda, como ficará o resto do ano lectivo em curso. Também aqui estará em causa a apertada calendarização e não se podem desvalorizar as consequências negativas de suspensão prolongada de aulas presenciais. Nem os Jogos Olímpicos de Tóquio (por acaso, até terminariam já depois da data UEFA para o fim da época de futebol...) puderam aguentar a ideia de um sim-não-talvez. Estes são apenas dois exemplos que testemunham a gravidade da situação que não acaba numa definida data x. por fantasia ou milagre. É que tudo estará sujeito ao mais importante: a saúde das pessoas e da sociedade como em todo. E, no futebol, como bem disse Joaquim Evangelista, os jogadores não podem ser cobaias. Aliás, se bem nos recordarmos, no nosso campeonato, primeiro falou-se de um adiamento por umas poucas semanas. Depois começar-se-ia a treinar em Maio para jogar em Junho. Agora já se propõe jogar em Julho. Nada disto é favorável à racionalização das decisões a tomar pelos clubes, por mais dolorosas que possam ser.

3. Lá fora, já se veem acordos, ainda que às vezes mais ou menos forçados, para a redução salarial no período de inactividade. Nada diferente do que está acontecer infelizmente em quase todas as outras actividades económicas. Por cá, tudo na mesma. Será o futebol uma ilha isolada no meio de uma situação social tão dramática? Será que o lay-off, na sua estrita expressão da lei ou na mais ampla vontade das partes e adaptada ás especialidades dos clubes, não deve ser considerado? Li que alguns clubes nem admitem a hipótese de redução temporária do valor mensal dos contratos. Será que estão assim tão folgados financeiramente que se podem dar a esse luxo? Será que não são capazes de discernir que, entre o nada fazer agora e o inviabilizar o clube no próximo futuro, a fronteira é mínima? Por outras palavras, sendo o custo salarial a parte de leão dos custos operacionais totais - em alguns clubes bem acima dos 60% ou 70% dos proveitos correntes - não agir agora é uma forma destrutiva de encarar o futuro das SAD? De que estão à espera? Dos outros, evidentemente, à boa maneira portuguesa. Marcação entre clube a clube, a ver quem avança primeiro. É aqui que o papel da Liga e do sindicato dos jogadores deverá ser decisivo para encontrar um modus faciendi que não faça desta questão mais uma competição, mas sim uma forma de cooperação.

P.S. Depois de o esloveno presidente da UEFA Aleksander Ceferin ter referenciado 3 de Agosto como limite para se concluírem as competições nacionais as competições nacionais, um comunicado diz agora que ele não disse o que disse e admite a realização de partidas em Agosto. Um carrossel de datas hipotéticas de uma instituição cheia de dinheiro mas carente de liderança. No comunicado há, contudo, um ponto que importa enfatizar: «Prioridade é preservar a saúde pública». Obviamente..."

Bagão Félix, in A Bola

terça-feira, 7 de abril de 2020

Não vá. Telefone! - Odysseas

A ponte é uma passagem

"Com a pandemia em curso não se deu a atenção devida a uma decisão corajosa da FIFA, que não pode ajudar a mudar o negócio do futebol. Foram finalmente proibidas as 'transferências ponte', isto é, um clube deixou de poder contratar e transferir os direitos desportivos de um jogador na mesma janela de mercado. A decisão produz efeitos já no próximo defeso. Para se perceber melhor, negócios como o que o Benfica fez com Yony González, contratado em Janeiro ao Fluminense e cedido ao Corinthians, deixam de ser possíveis.
Para além do passo para a humanização do negócio do futebol, contrariando-se a propensão a tratar jogadores como mercadorias (pode alguém deixar de se sentir desconfortável com as apresentações artificiais, nas quais um homem veste a camisola de um clube pelo qual nunca jogará, apenas para assinar um contrato e logo ser despachado para outro destino?), esta decisão pode ajudar a diminuir a opacidade do futebol global.
O recurso a 'transferência ponte' tem uma explicação: encontrar um clube que aloja temporariamente um atleta, funcionando como ponte para outra paragem, foi uma forma de empresários e fundos contornarem os entraves à 'third party ownership' (isto é, jogadores que não são detidos por clubes). No fundo, continuou a ser possível ocultar quem, de facto, detinha o passe de um futebolista. Sintomaticamente, alguns jogadores passaram a estar envolvidos num verdadeiro carrossel de mais-valias, percorrendo um circuito de clubes sempre em valorização (muitas das vezes sem correspondência nas suas prestações desportivas), sem que as contas dos clubes reflectissem em toda a sua extensão os resultados financeiros das transferências. É, aliás, a explicação para uma minoria ter enriquecido muito com o negócio do futebol, enquanto a maioria dos clubes vive uma situação financeira estruturalmente frágil.
Para além do mais, a FIFA parece ter sido prudente na decisão. Na verdade, continua a ser possível contratar um jogador e emprestá-lo imediatamente. Só que agora o ónus da prova recai sobre o clube e já não sobre a FIFA (que até aqui tinha de demonstrar o ilícito). A questão não é irrelevante. Para nos mantermos em exemplos com o Benfica, há casos em que fez sentido contratar um jogador que ainda não tinha condições para ocupar um lugar no plantel mas que era uma aposta de futuro. Pizzi, por exemplo, foi contratado e logo emprestado ao Espanyol de Barcelona,onde fez uma época a alto nível, antes de se afirmar no Benfica.
Mesmo um clube que tem sido useiro e vezeiro em transferências ponte, há negócios que devem poder continuar a ser feitos, desde que devidamente justificados. O que é preciso impedir é que o futebol continue a ser terreno fértil para negócios opacos que escapam à racionalidade económica. Pode ser que, passada a pandemia, alguma coisa mude."

Mensagem da atleta mais medalhada no Judo, Telma Monteiro

"Vivemos um período que apanhou o mundo de surpresa. Primeiro que tudo, quero realçar o orgulho que sinto em Portugal. Era impossível prever e estarmos preparados para uma situação destas, mas o que vejo é um país que, sob uma liderança competente – assim como no meu Clube, desde muito cedo, com as melhores decisões! –, conseguiu reagir a tempo de se evitar uma situação ainda mais dramática. Os portugueses, de um modo geral, estão a cumprir as medidas adoptadas pelas autoridades nacionais. Tenho... Temos, por isto, de estar todos bastante orgulhosos.
Bem sei que ainda falta algum tempo para que as coisas se resolvam – acredito que tal acontecerá! – e voltem à normalidade, mas se continuarmos no rumo certo, com as atitudes mais corretas e responsáveis, vamos vencer esta batalha e ser um exemplo também a nível internacional. 
Pessoalmente estou tranquila. Tento ter uma rotina diária de treinos e tarefas que me mantêm ocupada e me ajudam a passar o tempo de maneira saudável. No início, a incerteza de quanto tempo tudo isto iria durar, causava-me obviamente inquietação. Agora, aceitei que isto é uma situação temporária, que vai passar, ainda que se vá prolongar um pouco mais nas nossas vidas.
No panorama desportivo, tudo está suspenso. Os Jogos Olímpicos foram adiados por um ano, o que acabou por ser a decisão mais sensata. Para qualquer atleta, um ano é muito tempo, foi este o meu primeiro pensamento. No entanto, rapidamente reestruturei a minha mente, e agora penso que é mais um ano que tenho pela frente para melhorar. E este período pode ser isso, também, para nós todos. Um pouco por todo o planeta, fomos obrigados a desacelerar. Não tínhamos tempo para nada, para estar com a família, fazer coisas banais, pensar em novos projectos. Esta é, portanto, uma oportunidade: temos de reflectir, é essencial crescermos como pessoas.
Depois deste complicado desafio de saúde pública global, virá provavelmente um tremendo desafio económico. Mas também sei que, quando sairmos deste isolamento social, nada será igual e poderemos ser mais fortes enquanto civilização. Saberemos o quão longe podemos chegar. Este é um momento histórico, e nós podemos fazer a diferença, desde já, com atitudes solidárias e optimistas, pensando sempre no bem comum!
Quero sublinhar, com sinceras palavras de gratidão, aquilo que me parece ser o sentimento que prevalece em Portugal e no mundo: Obrigada! Obrigada a todos os que, dia após dia, saem de casa para permitir que o país não pare e que nós possamos ficar em casa, em segurança.

Telma Monteiro"

A Porta #1

Ferro e companhia...!!!

Benfica FM #107 - O nosso melhor 11...

Benfica de Qaurentana #28 - Adil Amarante

SL Benfica | Os 3 emprestados que podem regressar a casa

"O rol de emprestados é extenso, mas nem todos têm perspectivas de voltar a integrar o plantel do SL Benfica na próxima época (seja lá quando ela for). Uns por estarem em fim de linha, como Fejsa, outros por estarem no início da mesma, como Nuno Santos, outros por simplesmente não contarem, como Caio Lucas ou Cádiz.
Alguns serão seguramente vendidos, outros novamente emprestados, outros colocados nas equipas secundárias. No entanto, três emprestados podem integrar o próximo plantel encarnado, dada a qualidade e consistência demonstradas e as lacunas e necessidades dos quadros principais do clube da Luz.
Segue a lista desses mesmos três futebolistas, em ordem crescente de qualidade e probabilidade de virem, de facto, a integrar o plantel.

1. Diogo Gonçalves – É um dos produtos verdadeiramente Made in Benfica. Ingressou no clube com 11 anos e cedo mostrou ser uma das maiores promessas ofensivas dos encarnados. Alinhando como extremo/ala direito, o bejense foi fazendo furor nas equipas de formação do clube da Luz. Na época 17/18, fez os primeiros jogos pela equipa principal, concretamente treze.
A inexperiência, no entanto, fazia-se notar. Faltava capacidade regular de tomar decisões acertadas. Muita habilidade, mas pouco pragmatismo. Clube e futebolista consideraram que seria boa ideia uma experiência no segundo escalão inglês, ao serviço do Nottingham Forest FC. Não o foi. Diogo participou em apenas dez partidas e não fez mossa a qualquer adversário. Esta época, surpreendentemente, tudo mudou.
A surpresa não reside na qualidade ou falta dela do jogador, mas no facto de Diogo Gonçalves se ter afirmado numa posição mais recuada. João Pedro Sousa apostou nele a lateral-direito e o jogador cresceu de sobremaneira. Demonstrou uma boa capacidade defensiva sem perder a sua qualidade ofensiva, que conseguia exponenciar quando, por vezes, alinhava na sua posição de origem. 
Tornou-se um futebolista polivalente, sendo capaz de dar conta de todo o corredor direito. Além do mais, fê-lo numa equipa com uma filosofia de jogo semelhante à dos encarnados e numa equipa que guerreava pela Europa até ao momento da suspensão, o FC Famalicão.
Com 23 anos e muita qualidade, esta pode ter sido a época-catapulta para Diogo Gonçalves, que poderá e deverá regressar a casa para ser pronto-socorro de um lado direito que bem precisa de alternativas.

2. Filip Krovinovic – O croata chegou aos encarnados como uma grande promessa e na única época que pôde fazer “em condições” ao serviço das águias demonstrou qualidade e magia. Não contribuiu muito para as estatísticas, tendo apontado “apenas” dois golos, pouco para o que construía, e somente fez dezanove jogos. Uma lesão grave travou o que se perspectivava ser um crescimento contínuo até um estatuto de craque nacional e internacional.
Na época transacta, após a recuperação, esteve em três jogos da equipa B e nove da equipa principal. Contudo, precisava de jogar constantemente para voltar ao nível mais próximo possível do que havia apresentado anteriormente. Para isso, tinha que ser emprestado e foi-o. O West Bromwich Albion FC, candidato claro à subida à Premier League, apostou nele e deu-lhe a camisola número “7”.
O médio de 24 anos correspondeu, tendo sido aposta regular (34 jogos) e tendo provado o seu valor. Notícias veiculadas antes da suspensão do futebol a nível mundial (excepção feita à Bielorrússia) davam conta da vontade dos ingleses avançarem para a contratação em definitivo de Krovinovic, caso subissem ao principal escalão do futebol inglês.
Face à suspensão em curso, à qualidade do croata e à premente necessidade de criatividade e magia do plantel encarnado, Filip Krovinovic pode muito bem voltar a jogar de águia ao peito.

3. Facundo Ferreyra – O argentino chegou com 27 anos a Lisboa para ser aposta imediata, por força da idade, mas também da veia goleadora que havia apresentado ao serviço do FK Shakhtar, com 53 golos em três épocas. Todavia, a falta de golos na primeira metade da temporada 18/19 forçaram clube e jogador a acertar um empréstimo de dois anos ao RCD Espanyol de Barcelona.
No primeiro meio ano em terras catalãs, Ferreyra não fez mais nem melhor do que mimetizar o que havia feito na Luz: nove jogos e um golo. Na época agora suspensa, o cenário melhorou um pouco: 24 jogos e oito golos num clube a atravessar um mau momento. Sete desses golos foram conseguidos em nove jogos na Liga Europa.
Raúl de Tomás e Calleri tornam difícil a vida do argentino na Catalunha e o regresso a Lisboa também não seria fácil. Ainda assim, caso as águias optem por vender Haris Seferovic (o que seria mais provável se houvesse Europeu este ano), Ferreyra pode ser uma solução sem custos e de qualidade, tendo características interessantes para o estilo de jogo do SL Benfica, sendo forte nos movimentos de ruptura, de profundidade, de tabela com o segundo avançado/médio-ofensivo e na capacidade de prender os centrais."

Coluna Vermelha #51

Assiste a vídeos em direto de ColunaVermelha em www.twitch.tv

Benfiquismo (MCDXCV)

Fechado!

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Odysseas...

#BenficaEmCasa - Chiquinho

150 !!!

Mensagem da capitã do andebol, Patrícia Rodrigues

"Esta situação pela qual o mundo está a passar é nova para todos, e nós, atletas, não fugimos à regra. Se há uns dias praticávamos os habituais treinos e jogos, hoje em dia tudo mudou. Aceitámos esta nova realidade e mudámos os nossos hábitos!
Nesta fase, é essencial ganharmos consciência do que se passa, mantermo-nos informados sobre a evolução desta pandemia e cumprir as recomendações da Direcção-Geral de Saúde (DGS), da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de instituições com responsabilidade social, como é o Sport Lisboa e Benfica.
É certo que a pandemia COVID-19 teve um impacto global, não só no mundo desportivo, financeiro e político, mas também na vida de cada um de nós. Fez com que muitos dos nossos projectos pessoais e profissionais ficassem para segundo plano, pois agora a nossa preocupação passa por nos mantermos em isolamento.
Dando-vos o meu testemunho pessoal, estou lesionada desde Fevereiro e continuo a aguardar uma cirurgia que certamente não será a prioridade neste momento – e está tudo bem! Nos últimos tempos, realizei fisioterapia todos os dias na clínica do Benfica, algo fundamental na minha recuperação. Entretanto, nestas circunstâncias, tive de me adaptar. Hoje em dia, a minha recuperação está dependente de videochamadas e chamadas com o médico e o fisioterapeuta, do meu esforço e dedicação para chegar ao objectivo final – voltar a praticar desporto e continuar como atleta de andebol!
Mantenho-me ocupada com o que me deixa satisfeita. Continuo a ter aulas universitárias (online!), a ter contacto com as pessoas mais próximas de mim e com as minhas colegas de equipa. Esta é uma nova realidade para mim, e certamente para os que leem este artigo, e é assim que deve ser! 
Aproveito também para apelar ao bom senso das pessoas e à responsabilização social que cada um de nós deve ter. Para os que continuam a exercer o seu trabalho de forma a garantir que continuemos a ter acesso a bens de primeira necessidade e cuidados de saúde, um especial obrigado!
Unidos, iremos superar esta pandemia!
Vai ficar tudo bem.

Patrícia Rodrigues"

Benfica de Quarentena #27 - Jean Jaques

A pirataria, que “chatice”, afinal!

"Campeia a depressão colectiva, e com boas razões (e a procissão ainda vai no adro), pelo que devemos contribuir, podendo, para realçar aspectos positivos destes tempos amargos e sombrios. Pois bem, cá vai o meu contributo de hoje, oferecendo-me desde já para colocar a minha assinatura no abaixo-assinado, petição ou o que queiram fazer. Talvez depois de, porventura, lerem o que se segue, não a queiram, mas aqui fica a oferta, e é de boa-fé.

Parece que há muita pirataria de jornais e revistas, e as gentes da comunicação social insurgiram-se. E têm toda a razão, pois trata-se de uma clara violação dos direitos de autor. Não é ético, é crime, e é até uma ameaça à sustentabilidade financeira das empresas, à informação livre e independente, e pode colocar em causa postos de trabalho. Pois é. Indiscutível. Eu vou ao posto de venda – como, aliás, vou trabalhar fora de casa sempre que é mesmo necessário, embora com os devidos cuidados, e seguindo as recomendações razoáveis, claro, da mesma forma que o faço quanto ao supermercado ou à farmácia, et cetera, embora os “devidos cuidados” ainda não me tenham dado para o afastamento de quatro metros ou mais nas filas ou para os maus modos e a hostilidade que vão crescendo por aí à medida que os dias passam. Também ainda não me atirei para debaixo do sofá, seja a espreitar a televisão, seja depois de a espreitar.
Faço o que posso, e também me juntarei, com gosto, aos reclamantes contra a pirataria. Até porque eu já descobri há muito tempo, não foi só agora, que a pirataria é, afinal, uma grande “chatice”. Pois é. Há quem só descubra quando lhe toca. Quando toca aos outros, e até põe em causa coisas bem mais graves do que os direitos de autor, a pirataria ou lhe é indiferente (não a todos, é verdade) ou até acha bem, e alguns (não todos, justiça se faça), não resistindo, consomem e dão a consumir. Aí, a ética, o crime, a sustentabilidade, os direitos dos outros, et cetera, ficam postos de lado ou acomodados debaixo do tapete. Mas agora, Deus meu, agora dói que se farta. Ah, dir-me-ão, mas noutros casos há que louvar ou, pelo menos, consumir e “traficar” a pirataria (até mesmo quando se lhe junta a truncagem, a adulteração e/ou até a invenção) porque estão em causa valores mais altos.
Ah é?! Eu digo que não, e digo que não por uma razão de princípio, que é aquele ensinamento básico e quase universal de que, em regra, os fins não justificam os meios, e também por uma razão a benefício dos que agora reclamam (e bem, repito): é que daqui a uns tempos, quando meio mundo estiver totalmente à míngua e não tiver meios para sequer comprar no posto de venda ou para a assinatura digital ou por correio, os fins do acesso à informação não justificarão os meios? Se calhar. Estão a ver onde nos leva a lógica dos fins acima de tudo, e também onde conduz a hipocrisia (por ação ou por omissão)? Dói, eu sei. Desagrada, eu sei. Mas é mesmo assim. Ponto."

Um tributo a Roberto Severo e a todos os outros “não sei quem a caminho do Real Madrid”. Estamos juntos

"Ruas desertas. Filas indianas e obedientes à porta dos supermercados (só falta um árbitro munido de spray para marcar a distância regulamentar). Milhões de desempregados ou lay-officializados em todo o mundo, aviões em doca seca, autocarros da Carris cheios de lugares vazios a cruzar a cidade como fantasmas rodoviários, turismo de massas com atum, surto de padeiros domésticos em furiosas experimentações, massa-mater dolorosa, cruzeiros tomados pela peste a navegar nas águas territoriais do desconhecido, um louco bolsobravo a jurar que é só uma gripezinha e que, seja como for, o brasileiro não pega nada, tráfico de ventiladores, morcegais maldições, negócios da China, curvas exponenciais, achatamentos, tabelas de mortos em vez de índices dow-jones, curas cubanas, serenatas à varanda, clubes riquíssimos a reduzir custos e, no meio de tantas novidades, surpresas e temor, há coisas que não mudam: lá está o Rodrigo Guedes de Carvalho a apresentar o noticiário, a RTP insiste no Preço Certo para que os grupos de risco, sem sino da aldeia que lhes valha, não se percam no tempo, e, no mundo do futebol, ainda há alguém, há sempre alguém, a caminho do Real Madrid.
Não tenham dúvidas. Quando, neste mundo que julgávamos dominar, não sobrarem mais do que uns milhões de baratas, vírus protegidos por uma fina camada de gordura e os pangolins voltarem a passear pelas ruas de Wuhan, é certo e sabido que uma dessas baratas, um único e coroado vírus ou um atónito pangolim estará a caminho do Real Madrid. Quando as repartições fecharem e os porcos pedalarem livres e as vacas voarem, haverá ainda um funcionário zeloso num gabinete subterrâneo do Santiago Bernabéu a atender a chamada de um agente em teletrabalho e a ultimar os pormenores de uma transferência que “poderá ser confirmada a qualquer momento”.
Cientistas unem esforços para desenvolver uma vacina e, enquanto isso, no gigante espanhol, há quem se dedique à humanitária tarefa de resgatar Luís Maximiano da baliza leonina, preparando uma oferta estrondosa em máscaras, gel desinfetante e paracetamol.
Pois é, meus amigos, podem os jogadores distrair-se a dar toques em rolos de papel higiénico ou, como o defesa do Manchester City, Kyle Walker, mitigar a solidão com acompanhantes que servem ao domicílio, que na linha da frente do futebol estarão sempre esses soldados desconhecidos que encaminham futebolistas para o Real Madrid. Ninguém sabe quando é que os campeonatos recomeçarão, quem serão os campeões, que competições europeias teremos na próxima temporada. Só sabemos que não sei quem está a caminho do Real Madrid.
Como não recordar Roberto Severo, a.k.a. Beto, central-símbolo do Sporting e protagonista da maior não-transferência, ou quase-transferência, de sempre? Todas as noites de todos os defesos, Beto adormecia vestido de branco e, no dia seguinte, lá acordava de leão ao peito.
De todos os jogadores que nunca jogaram no Real Madrid, Beto foi o que mais não-jogou. Foram épocas espectrais, de quase jogos e quase títulos, em que no lugar que deveria ser o de Beto víamos usurpadores como o vetusto Sanchís, o eterno Hierro ou até aquele perna-de-pau chamado Woodgate. Beto está para o futebol como Peter O’Toole estava para o cinema. O actor irlandês teve oito nomeações e nunca ganhou o Óscar, até que, por caridade ou cansaço, lhe atribuíram um Óscar honorário. Beto merecia uma camisola honorária do Real Madrid. 
E enquanto escrevia isto, aparece-me a entrevista de Carlos Secretário à Tribuna, magnífica entrevista. E não é que Secretário vestiu mesmo a camisola do Real Madrid? Mais. Toda uma carreira foi reduzida praticamente a essa passagem desastrosa pelos merengues.
Eu lembrava-me disso – e do que, na altura, nos rimos com a transferência – e daquela assistência para Acosta num Sporting-Porto que quase entregou o título aos leões (quem é que era um dos defesas-centrais do Sporting nesse jogo? Beto.) e nem sabia que, no dia em que Secretário se estreou pela seleção nacional, num jogo contra o Liechtenstein, eu estava lá no Estádio da Luz, com um grupo de amigo debaixo de uma chuva torrencial a aproveitar o desconto do Cartão Jovem. E o que a entrevista fez, e bem, foi lembrar-nos, a todos nós, que no peito de um jogador desafinado também bate um coração, atrás de um atleta que se tornou uma espécie de anedota nacional há um homem e há sombras e negrume.
Secretário, tantas vezes lembrado como o infeliz sortudo que um dia, sem que soubéssemos como, se viu a caminho do Real Madrid, teve a coragem de falar desses tempos negros, do demónio do meio-dia a que chamamos depressão e, de repente, todas as piadas, todas as situações caricatas, as declarações deselegantes de Capello (diz que Secretário treinava bem, mas que antes dos jogos se borrava), soam a uma maldade gratuita de quem facilmente se esquece que somos frágeis, todos nós, que por trás do biombo da fama há uma pessoa e que essa pessoa pode sofrer enquanto nós nos rimos no sofá.
Foi tragicómica a passagem dele pelo Real Madrid? Foi. E então? Para ele, a vida continuou. Com altos e baixos aprendeu o suficiente para, já no fim da entrevista, dizer isto: “permitam-me, antes de mais questionar-vos: antes de se tornarem profissionais, seja de que área for, perguntaram-se qual foi o vosso principal papel quando nasceram?
Pois eu lembro-me, todos os dias, foi o de filho. E antes de ser jogador de futebol, um atleta de alta performance, porque a profissão assim me obrigou, fui filho, fui uma criança como qualquer um de vocês.” Sim, há sempre um não sei quem a caminho do Real Madrid, e isso tem graça. Mas esse não sei quem é, antes de tudo, filho de alguém. Esta entrevista de Secretário foi a melhor exibição que lhe vi fazer com a camisola do Real Madrid. Perdão, com a camisola de ser humano."

SAD ou Sociedade Antagónica Desportiva?


"Se queremos manter as SAD como parte integrante do tecido empresarial nacional, são necessários mais mecanismos de apoio que salvaguardem a sua sustentabilidade.

Por força do isolamento social imposto por vários países europeus, o mundo do desporto e as suas actividades e eventos continuam suspensos. Como consequência disso, treinadores e jogadores – os designados trabalhadores com contrato de trabalho desportivo – estão impedidos de prestar a sua actividade e as Sociedade Anónima Desportiva (SAD) (os empregadores) começam a ressentir-se desta paragem dos campeonatos e a sofrer as consequências que isso acarreta a nível económico e financeiro, nomeadamente no que respeita ao pagamento de salários.
Pergunta-se então: como podem os dirigentes das SAD salvaguardar os interesses das sociedades que representam e dos seus investidores, em paralelo com os interesses dos trabalhadores, credores e demais stakeholders das SAD?
Para começo de resposta, socorremo-nos do velhinho e já estudado à exaustão número 1 do artigo 64.º do Código das Sociedades Comerciais, que refere que os gestores ou administradores das sociedades comerciais (e, portanto, também os das SAD) devem observar “b) deveres de lealdade, no interesse da sociedade, atendendo aos interesses de longo prazo dos sócios e ponderando os interesses dos outros sujeitos relevantes para a sustentabilidade da sociedade, tais como os seus trabalhadores, clientes e credores”.
Em tempos que apelidamos “de normalidade”, nas Sociedades Comerciais, assim como nas Sociedades Desportivas, em concreto, assistimos por via de regra a uma simbiose entre os diversos interesses em presença: os interesses dos trabalhadores são, geralmente, paralelos ou mais ou menos coincidentes com os interesses dos accionistas e dos demais agentes económicos envolvidos, sejam eles fornecedores ou credores bancários. Na verdade, em circunstâncias normais, todos beneficiam e dependem do exercício da actividade de cada um para que a Sociedade cumpra o seu objectivo e se constitua como verdadeiro motor da economia do país.
Isto é assim, como se disse, em tempos “de normalidade”; perante uma situação como a presente, de pandemia do Covid-19, os interesses individuais dos trabalhadores – desde logo, a protecção da sua saúde, a par com a protecção dos seus rendimentos, mesmo estando impedidos de desempenhar a sua atividade – são antagónicos com os interesses da sociedade, dos investidores e dos credores. Por isso, se a SAD deixar de realizar o pagamento dos salários, terá tal atitude respaldo na protecção do interesse da Sociedade? E se, pelo contrário, a SAD utilizar a tesouraria disponível para pagar aos seus trabalhadores, um eventual incumprimento dos seus deveres perante os credores bancários será justificável pela defesa dos interesses próprios dos trabalhadores? Todas estas perguntas, até agora analisadas pela doutrina de um ponto de vista meramente teórico, são hoje colocadas na prática nas SAD e no conjunto imenso de Sociedades comerciais que, por força das restrições governamentais, viram a sua actividade – e, consequentemente, os seus rendimentos – drasticamente reduzidos. Seja qual for a resposta, uma coisa é certa: se queremos manter as SAD como parte integrante do tecido empresarial nacional, são necessários mais mecanismos de apoio que salvaguardem a sua sustentabilidade e que, no limite, garantam a sobrevivência do desporto como o conhecemos. 
Enquanto tais mecanismos não são uma realidade, é reconfortante observar as várias demonstrações de solidariedade que vão muito além daquilo que a legislação assegura e que esperamos sejam replicados no universo desportivo português. Desde logo, a iniciativa levada a cabo pelos quatro maiores clubes alemães (que, por serem financeiramente mais poderosos)que se comprometeram a doar 20 milhões de euros aos clubes mais afectados pelo surto; por outro lado, a atitude exemplar de Cristiano Ronaldo, que abdicou de receber parte do seu salário (cerca de 11 milhões de euros), que foi canalizado para o pagamento dos salários dos funcionários do seu clube Juventus. Haja idêntico espírito solidário e empático por cá, em sintonia com todas as manifestações de grandeza de espírito e de abnegação a que temos assistido nas últimas semanas."

Benfiquismo (MCDXCIV)

Carrinho...