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segunda-feira, 4 de maio de 2020

“Os homens dizem-me I love you, fazem corações, dão flores, mandam beijinhos como mandamos às senhoras, beijam mãos e espalham”

"Acabado de chegar da Arábia Saudita onde comemorou os 50 anos, em plena pandemia, Rui Vitória diz ainda não saber se vai renovar com o Al Nassr. Numa entrevista realizada por telefone, enquanto estava na Arábia, o treinador que levou o Benfica ao tetra, foi descrevendo o filme da sua vida profissional e pessoal, que começou em Alverca, passou por Vila Franca de Xira, Paços de Ferreira, Fátima, Guimarães antes de chegar ao Benfica, onde ganhou seis títulos em três anos e meio. Com dois casamentos e quatro filhos, chegou a ter uma pastelaria, aprendeu a tocar bateria, e foi chamado de pé de chumbo quando jogava. A morte repentina dos pais, quando tinha 32 anos, moldou-lhe o carácter que, garante, sempre foi calmo

Nasceu em Alverca do Ribatejo. Apresente-nos a família.
Sou filho de um casal perfeitamente estruturado. O meu pai era soldador, a minha mãe escriturária. Tenho um irmão mais velho seis anos que hoje é uma jóia de pessoa, mas que em pequeno era mais traquina do que eu. Sempre nos demos bem, mas quando éramos miúdos eu chateava-o muito porque queria andar com ele e com os amigos dele e naquelas idades o meu irmão não gostava disso.

O Rui era uma criança sossegada?
Sim, sempre fui aquele dócil e afável, era muito tranquilo, na escola um bom aluno. Não me lembro de dar grandes problemas aos meus pais, que tinham comigo uma supervisão à distância. Eles sempre me acompanharam, mas sem uma grande pressão, no fundo davam liberdade mas com um bom controle.

Como e quando nasce a paixão pelo futebol?
Muito cedo. Desde criança que a minha principal brincadeira era estar na rua com os amigos a jogar à bola. Depois comecei a acompanhar o meu pai para ver os jogos do Alverca. Foi com ele de mão dada que comecei a viver o futebol de uma outra forma. Lembro-me de ir logo às nove da manhã de domingo ver o primeiro jogo. Muitas vezes era ir de manhã, vir almoçar a casa e depois ir ver os seniores, à tarde. Portanto foi uma ligação muito forte, que começou muito cedo.

Havia alguém na família a jogar futebol?
O meu pai foi jogador, era guarda-redes e ainda chegou a ser treinador de escalões jovens. O meu irmão também jogou mas acabou muito cedo, praticamente só esteve nos escalões de formação. 

Torcia por que clube quando era pequeno?
Em nossa casa o clube mais representativo, daqueles que qualquer miúdo e qualquer família tem, era o Benfica. Mas eu adorava o Alverca. A minha realidade do dia-a-dia era o Alverca. Havia uma grande ligação ao Alverca que nós vivemos intensamente.

Quem eram os seus ídolos?
Nunca fui de ter ídolos, nunca tive um poster no meu quarto, nunca fiz grandes colecções… Mas em criança quando me iniciei a jogar como médio comecei a olhar para o Platini e para o João Alves, porque eram daquela posição. Tentava ver como jogavam, de que forma é que jogavam. Posteriormente tive oportunidade de ver o Maradona jogar e era impossível haver alguém que não admirasse o Maradona, por isso talvez sejam estas referências, mas nunca no sentido exagerado.

Quando era pequeno o que dizia que queria ser quando fosse grande?
Desde muito cedo defini muito bem aquilo que queria para mim. Em criança era o sonho de ser jogador de futebol, na juventude comecei a pensar em ser professor de Educação Física e no início da idade adulta comecei a pensar que gostava de ser treinador. Felizmente acabei por conseguir alcançar aquilo que idealizava.

Gostava da escola?
Como eu costumo dizer, quando somos crianças gostamos da escola só não gostamos muito de ter aulas [risos]. Mas sempre fui bom aluno, nunca tive qualquer negativa. Somente quando cheguei ao 12.º ano, aí sim, tive uma pancada quis armar-me só em jogador de futebol e desleixei-me um bocado, pensei para mim: “se chumbar o ano também não faz mal”. E acabei por chumbar mesmo. No ano seguinte fiz o 12.º ano e entrei para a faculdade.

Quando e como começa a jogar num clube?
Comecei com nove anos no Futebol Clube Alverca. Fui aos treinos de captação nos infantis e fiz toda a minha formação no Alverca. Foi lá que aprendi muitos dos valores que transportamos para a vida. Em seniores saí do clube e fui para a III divisão jogar no Fanhões, depois fui andando pelas segundas divisões cheguei à II liga e só não joguei mesmo na I liga.

A passagem para sénior acontece quando?
Na segunda fase da minha primeira época como júnior comecei a trabalhar com os seniores. Fiz a minha estreia ainda com idade júnior no último jogo da época, no pelado do Estrela de Vendas Novas. Foi aí que começou o futebol sénior. Aquilo que me lembro foi de ter um nervosismo maior, mas sinceramente nada de muito especial.

Como vai parar ao Fanhões?
Vou para o Fanhões porque no final dessa época o Alverca convida-me a mim e a mais alguns jogadores juniores para fazermos parte do plantel sénior, mas eu não gostei muito da forma como abordaram a situação. Eles fizeram o que era normal, dar uma oportunidade aos jovens, mas tiraram-me a esperança de poder vir a jogar no ano seguinte. Eu na altura já tinha sido abordado pelo Fanhões e o Vilafranquense. O Alverca tinha acabado de subir à II divisão, mas decidi ir para Fanhões porque ia trabalhar com um treinador, o António Baguinho, que me conhecia e que também queria muito que eu fosse para lá. Foi um ano que correu muito bem, comecei a jogar logo no primeiro encontro e, se a memória não me falha, só faltei os últimos 20 minutos do último jogo do campeonato. Fui quase totalista no primeiro ano de sénior.

Em que posição jogava? Quando e como se define essa posição?
Quando comecei, com nove anos, jogava a defesa central. Depois pelos 14 anos, talvez em iniciados, passei para médio centro e foi aí que fiz a minha carreira enquanto jogador.

Qual o valor do primeiro ordenado, recorda-se?
O primeiro ordenado como jogador foram 15 contos (75€). E tenho uma história. Quando fui contratado, as pessoas do Fanhões disseram-me que se começasse a fazer parte dos 16 convocados, aumentavam logo esse valor. Recordo-me de lhes ter dito para se preparem para começar a rever o meu ordenado no primeiro ou segundo mês [risos]. Foi exactamente isso que aconteceu. Começo logo em Agosto a jogar os jogos de preparação e salvo erro no primeiro ou segundo mês passaram-me o salário para 25 contos (125€).

O que fez com esse primeiro dinheiro?
Eu tinha 18 anos e fiquei com o dinheiro. Os meus pais não eram de grandes posses, mas não havia necessidade de lhes dar o dinheiro. Nesse ano acabei por comprar o meu primeiro carro, um Citroën Dyane. Contei com algum dinheiro emprestado dos meus pais e fui-lhes pagando.

Namoros e saídas à noite quando começam?
Sempre fui um jovem equilibrado, tinha naturalmente os namoros normais da juventude mas nunca tive grandes problemas com noitadas ou com qualquer coisa do género. O futebol ensinou-me desde muito cedo a responsabilidade que era necessário ter. Também fui capitão em alguns anos de formação e portanto sentia ainda mais essa responsabilidade. Comecei com o namoro mais a sério por volta dos 16 anos e que acabou por dar em casamento.

Quando e por que razão troca o Fanhões pelo Vilafranquense?
Na minha segunda época no Fanhões, joguei mas não fui totalista. Entretanto o Vilafranquense convida-me e como tenho lá amigos, estava mais perto de casa, acabei por mudar.

Esteve seis épocas no Vilafranquense. Quais as mais marcantes e porquê?
O Vilafranquense foi o clube que eu mais representei no futebol sénior. Acabou por ser marcante porque foi enquanto lá joguei que me formei, que me casei, que fui pai pela primeira vez. Aliado a isto tudo foram épocas boas em que ganhei também importância dentro do clube - fui capitão da equipa sénior. No fundo foi ali que me fiz homem porque entrei com 20 anos, estive seis anos seguidos e mais dois posteriormente. Foi também lá que tive a minha primeira experiência como treinador de futebol porque, no final da minha licenciatura, num acordo que havia com a faculdade, comecei a treinar uma equipa de escolas e infantis. Fazia-o antes de começar o meu treino. Dava treino aos infantis e logo de seguida começava o meu treino nos seniores.

Lembra-se do dia em que foi pai?
Claro. Tive a minha primeira filha, a Mariana em 1999, tinha eu 28 anos, jogava o Vilafranquense na II divisão. Fui pai de manhã com muito nervosismo e à noite liguei para o meu diretor a dizer que tinha sido pai, para ver se não ia ao treino. Ele ficou um bocado assustado e disse-me para eu falar com o treinador. Assim foi. Disse-lhe: “Mister, fui pai, era para ver se hoje não ia ao treino”. Ao que ele responde: “Eh pá, mas tu não és parteiro portanto se não és parteiro vem para aqui treinar” [risos]. Era capitão de equipa, senti essa responsabilidade e não queria ser acusado de nada. Quando lá cheguei já os meus colegas estavam a acabar o treino, fiz o meu treino e regressei novamente ao hospital.

Custou-lhe treinar nesse dia.
Esse foi um dia marcante porque o parto não tinha sido muito fácil e a minha mulher sentiu muito aquela minha ausência. Ao longo de vários meses, anos, falava naquilo. Por isso hoje quando um jogador vem falar comigo, às vezes com muitas cautelas, sobre se pode ir ao hospital porque vai ser pai, sou o primeiro a dizer para ir de imediato, porque sei a importância que isso tem nas mulheres e nas suas vidas.

Assistiu ao parto?
Não assisti ao parto, porque a minha filha nasceu antes das nove da manhã, no momento em que eu tinha ido com a minha mãe tomar o pequeno-almoço a um café perto do hospital. Quando estou a vir para cima cruzo-me com a anestesista já no elevador e ela diz: “já está”. No fundo estive sempre presente excepto mesmo na altura do parto.

Volta ao Alverca. Porquê?
Eu estava no Vilafranquense e nessa época o Alverca faz um protocolo com o Benfica e vai buscar um grande número de jogadores jovens para fazer parte da sua equipa sénior. Eu acabei por ser o único jogador contratado propriamente pelo Alverca. No fundo, era jogar na II liga e também representar o clube onde nasci, portanto não tinha como dizer não. Foi uma época muito importante, porque tive a oportunidade de vivenciar experiências diferentes. Era de facto uma equipa muito sui generis porque tinha alguns jogadores bem experientes, que já estavam no Alverca, e muitos jovens o que acabou por trazer situações interessantes ao longo desse ano.

Como por exemplo?
Essa época vale muito mais pelos ensinamentos que retirei daquilo que é a dinâmica de um grupo, e do que é a perspectiva de um jovem jogador com as ambições naturais da idade. Eu já era licenciado em Educação Física, tinha uma ideia do que era o treino, do que era o jogo, por isso foi interessante desse ponto vista de aprendizagem para mim próprio.

De novo no Vilafranquense. Como e porquê?
Volto ao Vilafranquense porque o Alverca continuou com essa ligação ao Benfica, vinham novos jogadores, e porque o Vilafranquense acabou por convidar-me novamente. Já tinha sido um clube com muita importância para mim, por isso decidi voltar a uma casa que sempre me tratou bem e onde eu sabia que ia ganhar novamente o prazer de jogar.

Segue-se o Seixal. O que aconteceu de mais relevante nessas duas épocas?
No Vilafranquense estava numa situação muito confortável. Aliás eu tinha um presidente, o José Mário Cerejo, que já faleceu, que me dizia que os jogadores têm de perceber quando é que estão numa zona de conforto ou não. Ele explicava que uma coisa é dizer “o Rui não esteve nos seus dias” ou “hoje não correu bem a determinado jogador”, outra coisa é ser analisado de uma forma mais fria. No primeiro caso, o jogador nunca sente muito desagrado vindo de fora quando as coisas correm mal, sente um grande conforto. Nessa época sou convidado pelo João Santos, que já tinha sido meu treinador no Alverca, que era meu colega enquanto professor na escola Secundária Gago Coutinho, e que foi treinar o Seixal. A ideia era formar uma equipa muito forte para subir de divisão. Era também a possibilidade de ser novamente profissional porque iríamos treinar à tarde; e havia a questão financeira, era um contrato melhor do que aquele que eu tinha em Vila Franca de Xira. E assim foi, fiz lá duas épocas subimos logo de divisão e a segunda época também foi boa.

Acabou por ser mais criticado?
Sim, enquanto no Vilafranquense sentia que estava numa zona de conforto, no Seixal isso não acontece. Foi importante para ter esse sentimento e perceber o que se passa com o jogador futebol nos diferente contextos. Eu dava aulas de manhã em Alverca e à tarde era jogador.

Entretanto sai para o Casa Pia.
Curiosamente o Casa Pia foi o clube onde acabei por ter alguns problemas, porque formamos uma equipa boa, mas a meio do ano as coisas não estavam a correr muito bem e o clube quis prescindir de alguns jogadores, nomeadamente daqueles que ganhavam mais e pela primeira vez eu estava nesse lote. Um jogador que tinha tido uma carreira muito regular, de grande responsabilidade, a fazer tudo com rigor, de um momento para o outro vejo-me numa situação em que sou excluído de um clube. 

Volta ao Alcochetense.
Isto aconteceu em Dezembro e eu estava obviamente zangado, revoltado, e já tinha pensado para mim que não iria jogar mais essa época e ia para tribunal ou coisa do género. Mas salvo erro no dia 30 dezembro, recebi um convite para ir jogar para o Alcochetense. A minha primeira reacção foi dizer que não, mas amadureci um pouco a ideia, veio a parte racional e no dia 31 dezembro aceitei representar o Alcochetense. Termino essa época e começo ainda como jogador na seguinte. Foram meses muito giros, fiz amigos, gostei das pessoas que estavam na direção, tivemos uma relação até próxima e como na época seguinte começa ainda o Pedro Xavier como treinador, faço mais dois meses como jogador.

Estamos em 2002 ano em que os seus pais morrem num acidente de viação o que, naturalmente, lhe muda a vida.
Sem dúvida. O meu último jogo como jogador pelo Alcochetense foi em Loures. Entretanto dá-se a morte dos meus pais e eu fico uma semana sem treinar. Mas nesse momento o presidente do Alcochetense quis dispensar o treinador e abordou-me sobre a possibilidade de eu vir a ser treinador do clube. Só que, curiosamente, nesse mesmo domingo o presidente do Vilafranquense, que estava na II divisão, faz-me o convite para ser treinador da equipa sénior. É curioso um jogador da III divisão ser convidado para ser treinador da II divisão. Nesse dia decidi que a minha carreira de jogador acabava ali porque não achei normal no mesmo dia ter dois convites para ser treinador. Lembro de ter dito para mim mesmo que possivelmente nunca mais teria dois clubes no mesmo dia a convidarem-me para treinar. Perante este facto decidi que terminava a carreira. A questão que se colocava agora era qual o clube para onde ia. Por um lado o Alcochetense, onde eu estava a jogar, por outro, o Vilafranquense onde eu tinha jogado oito anos e que estava numa divisão acima.

Quais foram os critérios decisivos?
Não foi fácil a decisão, mas houve dois critérios que estiveram na base da minha escolha, primeiro o facto do presidente do Vilafranquense ter-me convidado 20 minutos antes do presidente do Alcochetense. O segundo aspecto foi o facto do Vilafranquense estar na II divisão. Não foi uma situação fácil porque o Alcochetense dificultou-me a saída, lembro-me do presidente dizer: “Então, mas agora nem tenho jogador nem tenho treinador? De uma assentada perco um jogador e um potencial treinador?”. Mas lá nos acertámos. Eu faço ainda na segunda-feira o último treino como jogador e na terça-feira estou em Vila Franca para começar a minha carreira de treinador. Foi assim que comecei, de um dia para o outro, sem parar, sem reflectir muito, mas decidido a abraçar uma nova função, na qual já pensava.

Onde estava quando recebeu a notícia da morte dos seus pais e de que forma é que isso lhe moldou a vida?
Aconteceu num sábado, eu estava a beber café com um casal amigo num centro comercial na Póvoa de Santa Iria e, por volta das três da tarde, recebo um telefonema a dizer que tinha havido uma tragédia e para eu ir rapidamente para Alverca. Na altura não tive noção do que se estava a passar concretamente mas já tinha ideia de que algo de grave se tinha passado. Quando chego Alverca vejo as pessoas completamente consternadas, fui informado que os meus pais tinham ido para hospital em estado muito grave e que eventualmente até já podiam ter morrido. Passado meia hora chega a notícia de que tinham efectivamente morrido. É uma tragédia que ninguém imagina ou que só quem passa por ela é que pode imaginar. Para mim foi uma lição de vida no sentido em que acabou por dar-me uma grande força para o futuro e fez-me ganhar defesas. A partir daí sempre que passo por situações desagradáveis, o meu tico e teco falam um com outro e os problemas são imediatamente relativizados. Tinha 32 anos, é natural que tenha mudado a minha forma de pensar, de encarar a vida. E há um dado curioso, acabei como jogador antes dos meus pais falecerem e comecei como treinador logo a seguir. Tenho a noção clara de que os meus pais gostariam muito de ver esta minha carreira, a minha mãe, fundamentalmente, porque ela tinha uma grande preocupação de como seria a minha vida depois de deixar de jogar.

Desde quando percebeu que não ia vingar como futebolista?
A determinada altura nós percebemos que a nossa hora de subir na carreira vai passando. Inicialmente tinha essas ambições mas ao mesmo tempo o facto de estar a tirar um curso superior… A mim, tal como a outros jovens da minha geração, e não só, foi-nos incutido que tirar um curso era importante e que é o curso que nos vai dar a estabilidade para a vida. Hoje olho para trás e vejo que tenho esta carreira de treinador porque se calhar misturei essas duas vertentes. Por um lado a formação académica, mais teórica, por outro uma formação muito prática, de viver permanentemente em equipas, de analisar, de entender os treinadores. Podia ter jogado num nível mais acima, mas nunca fui muito convicto disso, talvez porque tinha essa segurança, transmitida pelos meus pais de que era importante tirar um curso. E desde muito cedo comecei a pensar que possivelmente gostaria de experimentar ser treinador. Como jogava futebol à noite e durante o dia estudava desporto é muito natural que começasse a juntar uma coisa à outra. Lembro-me que tinha treinadores que às vezes me perguntavam uma ou outra coisa porque eu já era professor de educação física. A vontade de treinar era uma consequência daquilo que estava a aprender e ao mesmo tempo a praticar.

Mas não foi uma estreia fácil pois não?
Não foi porque nessas duas épocas apanhei alguns dos meus ex-colegas, jogadores com quem estava a jogar e no dia a seguir já era treinador. Conhecia-os todos. Ao mesmo tempo o Vilafranquense ficou com salários em atraso e no final dessa época tivemos de reformular grandemente o plantel, para salários mais baixos. Mesmo assim no ano seguinte também ficámos com salários em atraso. Portanto foram duas épocas em que o Vilafranquense que eu conhecia já não era o mesmo, porque até à data nunca tinha havido problemas financeiros.

Os jogadores falavam muito consigo, faziam-lhe exigências?
Sim. Foi um estágio muito grande porque os problemas surgiam diariamente e eu e a minha equipa técnica, que éramos poucos na altura, tínhamos que resolver. Por um lado moderar um bocadinho a situação em relação à direcção e por outro estar sempre também com os jogadores do nosso lado. Lembro-me que houve uma altura em que os jogadores quiseram entrar em campo com uma tarja a dizer "Respeitem-nos" ou qualquer coisa assim. Esses momentos nunca são agradáveis.

E entraram com a tarja em campo ou não?
Sim. Mas são momentos que também são interessantes para um treinador porque temos ali muita matéria para pegar do ponto de vista psicológico. Temos dois caminhos, ou somos passivos e deixamos que as coisas aconteçam e a situação tendencialmente vai mais para o fundo, ou aproveitamos aquilo como uma alavanca para o futuro. E foi isso que me lembro de termos feito. Nós trabalhamos a equipa para que ninguém nos acusasse de falta de profissionalismo, para ajudar também o clube a resolver os problemas, porque se o clube terminasse seria muito mais grave. Fomos arranjando este tipo de estratégias para que os jogadores estivessem ligados e comprometidos connosco. Era curioso, quando íamos a alguns campos, e era público que nós não tínhamos os salários em dia, ouvia-se as pessoas a dizer "ah não ganham salário e correm muito mais, como é que é possível? Temos é que tirar o dinheiro aos nossos também". Não gostávamos de ouvir mas ao mesmo tempo era uma motivação. Foram dois anos muito complicados ao nível da gestão porque os jogadores nessas divisões não ganham nada de especial e tinha jogadores que diziam "mister, amanhã não posso vir porque não tenho dinheiro para o gasóleo". De vez em quando tínhamos de arranjar umas artimanhas para poder manter aquilo tudo focado. Não foi fácil, mas foram dois anos de grande estágio.

Chegou a ajudar financeiramente alguns dos seus jogadores?
Sim, não de uma forma directa mas a contribuir para gasóleo. Sim, isso aconteceu.

Ainda acumulava as funções de professor?
Exactamente, só deixo de ser professor quando vou para o Paços de Ferreira, ainda estive muitos anos a acumular as duas coisas. Estava efectivo em Alverca do Ribatejo na escola secundária Gago Coutinho, e treinava ao final da tarde o Vilafranquense.

Continuava casado e com uma filha apenas?
Sim. Mas essa altura do Vilafranquense coincidiu com a separação da minha mulher.

E surge o convite do Benfica. Porque aceitou ir treinar os juniores? Não tinha outros clubes e outras equipas seniores interessados no seu trabalho?
Tinha feito dois anos de Vilafranquense e tinha possibilidade de treinar dois, três clubes na região de Lisboa, da II divisão, mas surgiu o convite do Benfica e decido ir para o Benfica por duas, três questões. Uma delas era conhecer um clube grande por dentro e estar mais próximo dessa realidade, a outra era formar, trabalhar com jogadores naquelas idades da subida para os seniores, saber como é que pensam. E também era uma possibilidade de contactos com uma outra realidade, alguns torneios internacionais, novas experiências. É com esse objectivo que vou, quase também como um aspecto formativo. Mas decidi logo para mim mesmo que tinha de ser uma estadia curta.

Porquê?
Hoje os treinadores da formação já são vistos como apetecíveis para o futebol sénior, mas na altura não. Quem era da formação levava quase um rótulo de treinador de miúdos. E eu não queria esse rótulo. Queria viver essa experiência, porque era o Benfica, era um clube grande e era a possibilidade de saber como é que isso tudo funcionava, mas depois queria sair. E saí na altura certa.

O que guarda dessas duas épocas à frente dos juniores do Benfica?
Aprendi variadíssimas coisas, mas apanhei uma fase do Benfica em que não havia o Seixal e portanto andávamos com a casa às costas. Treinava em Odivelas e nos Olivais, tínhamos treinos às 9 da manhã para que os jogadores depois do treino ainda fossem a tempo de ir às aulas da parte da tarde. Eu treinava em Odivelas, mas aquilo era muito complicado porque tinha jogadores que moravam na margem sul e estar às 9 horas, prontos, equipados, alguns apanhavam quatro meios de transporte para chegar ali. Entender como é que as mentes destes jogadores funcionam num contexto de adversidade foi muito interessante de trabalhar.

Houve algum miúdo que para si tivesse sido uma grande surpresa, que se tivesse destacado?
Talvez o Sílvio, que agora está no V. Setúbal. Esteve no Atlético de Madrid, no Benfica, no SC Braga. Depois há o Tiago Gomes, o João Coimbra, o Manuel Curto, mas não houve assim ninguém que tivesse feito uma carreira de grande relevo. Não se apostava muito e também não havia ali nenhum craque.

Quais as maiores diferenças entre treinar juniores e seniores?
Com 17, 18 anos os miúdos não têm bem a noção da realidade do que é o futebol. Nem do ponto de vista positivo, ou seja, até onde podem chegar, mas sobretudo não têm a noção da realidade de que só uma franja muito pequena de jogadores consegue chegar a níveis de auto subsistência e que o mundo do futebol não são os Ronaldos, não são esses jogadores que nós olhamos e que parece que representam um todo. Não, representam uma pequena parte. Às vezes existe uma falta de auto-avaliação daquilo que na realidade valem. Dizia-lhes muitas vezes: "O mundo real é o mundo de ir para as segundas e terceiras divisões, é aí que a maioria dos jogadores vai vivendo". Naquela altura era muito difícil aceder à equipa principal do Benfica.

Mas quem chega a júnior do Benfica tem o sonho de vingar.
Sim, mas muitos sem terem noção do seu real valor e quando assim é torna-se complicado. Ao longo do tempo é evidente que vem essa maturidade, vem experiência, vêm também mudanças na vida que são importantes, coisas tão simples como ter um carro, deslocar-se de forma autónoma. Namorar ou casar, ter um filho, mudar de cidade, tudo isto são factores que contribuem para que mais tarde o jogador tenha uma visão completamente diferente. Gosto muito de trabalhar com as idades mais baixas, porque se verifica uma evolução muito grande e muito rápida nos jogadores dessas idades e isso é muito gratificante. Lançamos jogadores que de repente começam a subir, a subir, a subir e nem eles pensam que têm essa capacidade. Isso é muito gratificante para um treinador. Muitas vezes o que influencia muito a cabeça dos jogadores é aquilo que é a visão externa sobre eles. Uma coisa é eu saber que estou a ser avaliado por 10 pessoas, outra coisa é um país inteiro comentar isto e aquilo sobre um jogador ou sobre um treinador, o impacto social tem muita importância.

Como é que surge o CD Fátima e porque decide deixar o Benfica?
Decido ir para Fátima porque não havia intenção nem minha nem do Benfica de continuar a ligação. Disse para mim, vou deixar o Benfica porque a minha "guerra" - e esta era uma palavra que utilizava - , a minha guerra é o futebol sénior. Fosse treinar para a distrital, para a III divisão, a minha guerra é o futebol sénior. E surgiu o convite do Fátima por intermédio do Luís Albuquerque, que hoje é o presidente da câmara municipal de Ourém e que na altura era director desportivo ou vice presidente do Fátima. Nos anos em que estive no Vilafranquense tínhamos jogado três vezes com o Fátima e ganhámos, salvo erro. Tínhamos feito boas exibições e bons jogos com uma equipa de recursos mais limitados e eles ficaram com isso na cabeça. Segundo me contaram foi esse o motivo. Foi de facto um risco para mim, porque quem lá tinha estado no ano anterior foi o Paulo Torres que tinha feito um 2.º lugar e portanto eu ir para o Fátima... As pessoas não me exigiram o 1.º lugar, mas eu ia com aquela sensação de que tinha de fazer melhor.

Foi viver para Fátima?
Não, vivia em Alverca e dava aulas em Alverca, fazia a viagem todos os dias. Eram 100 quilómetros exactos. 100 para lá e 100 para cá. Foram quatro épocas, subimos duas vezes e descemos uma. Na primeira época fazíamos este trajecto com um jogador, o Marinho, que depois foi capitão da Académica. Dividimos entre nós o transporte, nos outros anos a seguir já foi com uma carrinha Ford Transit em que levávamos mais jogadores. Uma nova experiência muito interessante de se viver. 

Estava a contar que na primeira época subiu da II divisão B para a II liga. Quais as diferenças de um divisão para a outra?
O envolvimento muito mais profissional que existe II liga. Sentimos que há uma Liga a supervisionar, os jogos são televisionados, há um director, há muito mais rigor em tudo e qualidade também. Quando fomos para a II liga era o ano da primeira ou segunda edição da Taça da Liga e eliminámos o FC Porto através de penaltis. Na fase seguinte dessa competição fomos ganhar ao Sporting 2-1, mas depois perdemos 3-2 em casa: o Liedson marcou o terceiro golo, passou o Sporting. Isso coincide com a saída do Marinho, um jogador importante na nossa equipa, para a Naval, coincide a ida do Marco Rosa para a CAN, e com uma lesão mais complicada de dois jogadores, o Saleiro e o Ricardo Jorge. Havia um entusiasmo porque nós fomos notícia nacional por causa desses dois jogos, mas depois veio a realidade. Uma coisa é esta mobilização para este tipo de jogos, outra coisa era o nosso campeonato e começamos a andar para trás e aí sentimos um bocadinho de dificuldades porque também não nos reforçámos bem em Janeiro.

E descem.
Sim, é também um momento importante na minha carreira, porque normalmente há sempre aquela tentação de nestas alturas de colocar o lugar à disposição ou do clube mandar embora, e isso não aconteceu. Descemos e fizemos uma coisa raríssima no futebol português que é, em três anos, subimos, descemos e subimos logo a seguir. Normalmente quando um clube sobe e depois desce, há uma grande frustração em toda a gente. As direcções, os adeptos, todo o envolvimento é muito negativo e conseguir voltar a subir outra vez, não é fácil.

Como explica então que o tenha conseguido?
Reformulámos a equipa com muita juventude, muita ambição. Nós também tínhamos mais experiência acumulada, ganhamos estatuto porque no fundo era o Fátima que tinha estado na II liga e fizemos uma ligação ao Sporting, trouxemos jogadores que acrescentaram qualidade e nos ajudaram. Aí já somos campeões nacionais da II divisão, portanto começaram aí os títulos de campeão nacional, num jogo que fizemos contra o Chaves, que na altura era treinado pelo Leonardo Jardim. Isto na minha na terceira época em Fátima. Na quarta já estamos na II Liga e fomos buscar jogadores com outra maturidade e outro conhecimento da II liga, ficamos no 8.º lugar, que me leva no ano seguinte a ir para Paços de Ferreira.

Recebe o convite ainda estava a treinar o Fátima ou só no final da época?
No final da época. Eu estava para ficar em Fátima, vou para o México de férias e mal lá chego recebo um convite. Um contacto das pessoas do Paços de Ferreira que estão interessados nos meus serviços e tal. Fiquei ali um bocado amarrado porque queria resolver a situação, mas ia começar as férias. Portanto não passei umas férias nada tranquilas, antes pelo contrário. Tinha que ser uma coisa guardada em segredo, eu não sabia se durante aquela semana o interesse se mantinha. Havia outros treinadores de qualidade. A verdade é que, na véspera de chegar a Portugal, ainda estou no México e vejo a notícia nas páginas centrais de o jornal O Jogo, a dizer que o Rui Vitória era o treinador escolhido. Não havia nada de concreto, só quando eu cá chegasse é que íamos conversar. Assim que cheguei, no dia a seguir reunimos e chegámos facilmente a um entendimento. Não foi fácil sair de Fátima porque a ligação estava muito forte, mas tudo se resolveu e fui para Paços.

Não foi fácil porquê, ainda tinha contrato?
Não, porque havia já conversas para o ano seguinte, as pessoas queriam que eu continuasse. Fiz um bocado de finca-pé porque era a oportunidade de começar na I Liga... Não foi uma situação muito fácil porque gosto de fazer as coisas de forma tranquila. Mas felizmente tudo correu bem depois. 

Quando vai para o México de férias já vai com a sua actual mulher?
Sim, conheci a minha mulher quando dava aulas de Educação Física, ela era professora também. E já tinham nascido as nossas duas filhas, a Joana que tem 13 anos, e a Matilde que já fez 12.

Foi com a família para Paços de Ferreira?
Não, meti licença sem vencimento na escola e fui sozinho. Estávamos a viver na Póvoa de Santa Iria, a minha mulher também dava aulas e ficou cá em baixo, porque queríamos primeiro ver se corria bem. Lembro-me do primeiro dia em que fiquei em Paços, no apartamento. Eles tinham-me dado umas roupas para a cama e recordo-me de estar deitado sozinho, as roupas com muito pó, eu a olhar para o tecto e a pensar: “A partir daqui é que a tua vida vai mudar. Ou vai ou racha”. Lembro-me perfeitamente de pensar isso essa noite.

A estreia foi contra quem?
O meu primeiro jogo no Paços é com o Sporting, ganhámos 1-0, era Paulo Sérgio o treinador. O estádio estava completamente cheio, na Mata Real, era pequeno mas estava cheio. Mas antes disso há a entrada no Paços, que não é uma entrada fácil, porque eu tinha a ideia de que iríamos ter condições para fazer uma boa equipa, porque o Paços tinha sempre alguma estrutura financeira boa e estável, e quando lá chego começo-me a aperceber que não dava para ir buscar os jogadores que queria. E eu pensei: “Queres ver que eu venho para cima e vou já para baixo que é um instante”. Mas depois disse às pessoas, e elas hoje ainda se recordam disso: “Se não for com estes, a gente arranja outros”. Acabámos muito bem essa época, ao ponto de termos chegado ao final da Taça da Liga, que jogámos contra o Benfica, e perdemos.

Não fica na época toda seguinte. Porquê?
Eu assino por um ano com o Paços e a seguir renovo, salvo erro por mais três anos. Tinha assinado a renovação e em Agosto da segunda época começamos a trabalhar. Muito próximo do dia 30, já não sei exactamente quando, sou convidado para ir treinar o Vitória de Guimarães. Num fim-de-semana tivemos de resolver tudo, acertar a rescisão e a indemnização ao Paços.

Sentiu que já era outro patamar?
Senti. Deixe-me contar só isto. Eu tive sempre objectivos claros quando mudei de clube. Quando fui para Fátima, era a história de querer um desafio com o futebol sénior. Depois para o Paços de Ferreira, já era, eu preciso de ter uma massa adepta e um clube que esteja ali atrás de mim, em que eu esteja a sentir a respiração, o envolvimento, um ambiente de I Liga. Porque o campo do Fátima era um campo afastado da bancada, ia muito pouca gente à bola, era uma coisa muito despida, e eu precisava desse envolvimento também para crescer. Quando vou para Guimarães foi também por querer uma massa adepta mais exigente, uma direcção se calhar mais presente, e ter tudo aquilo que é a antecâmara de um clube grande. O Vitória é um clube grande, que tem tudo, só tem é uma dimensão ligeiramente mais pequena em número. Mas as conferências de imprensa, as exigências dos jogadores, o pré e o pós jogo, é muito aquilo que depois viria a viver no Benfica. Mas a ideia era essa, era ter uma exigência maior. E não há melhor clube para se treinar, antes de treinar um grande, do que o Vitória. Quem treina ali fica quase preparado para treinar em qualquer lado.

A família vai de armas e bagagens para Guimarães?
Não, a família continua cá em baixo. Até porque o Vitória esse ano começa com problemas de salários em atraso. Outra vez uma chatice grande.

Numa outra dimensão.
Sim, eram jogadores muito mais velhos, com um estatuto muito grande, alguns já tinham sido campeões nacionais, havia jogadores de muita qualidade e de repente aquilo começou tudo a falhar, os pagamentos, as promessas e foram problemas atrás de problemas para se resolver. Tivemos que ir mudando a equipa e baixar tudo o que era salários, porque senão o clube ia à falência. Acabámos essa época em 6º. lugar mesmo assim. Os jogadores foram saindo, algumas rescisões de contrato, porque o clube estava de facto numa fase muito má, é quando se dá também a entrada do novo presidente do Vitória, o engenheiro Júlio Mendes. Mudámos praticamente o paradigma do clube e vai de apostar em jogadores que estavam na formação e de fazer uma equipa muito mais barata. É na segunda época, quando fazemos essa remodelação do clube, que vamos à final da Taça com o Benfica, em 2012/2013.

Estava mais nervoso do que nas vezes anteriores? Preparou-se de forma diferente, a palestra foi diferente?
Por norma não sou nervoso em nenhuma circunstância, pelo menos penso que tenho um bom controle sobre essas situações, mas esse jogo teve um cariz muito especial, porque era a primeira Taça que o Vitória poderia ganhar. E que acabou por ganhar. Nós fomos para esse jogo com os jogadores com cinco meses de salários em atraso, a jogar contra um super Benfica. A nossa equipa eram miúdos ou jovens jogadores, contra uma equipa muito boa. Mas nós preparámos esse jogo bem, no jogo anterior já tínhamos os objectivos praticamente alcançados e a ida à Europa passava por esta Taça de Portugal, não pelo campeonato. Por isso, nos dois últimos jogos praticamente abdicamos um bocadinho desses jogos, no sentido de preparar a equipa o melhor possível, evitando lesões, ou castigos para que os jogadores estivessem muito bem na final da Taça. E acabámos por vencer. Foi um dia memorável em Guimarães e para mim também teve um significado especial porque foi o meu primeiro grande troféu. E ganho por um clube como o Vitória é um sabor diferente. A alegria que tive, que se seguiu àquele jogo foi uma coisa que as pessoas não esquecem mais, portanto foi de facto diferente e especial. Tão especial que acabei por escrever sobre isso no livro "A Arte da Guerra para Treinadores", há um capítulo onde explico isso.

Esse livro surge quando, como e porquê?
Surge quando estou em Guimarães. Na altura já era convidado para dar umas palestras junto de empresas, porque na realidade há essa ligação no que respeita a objectivos e team building. Conheci entretanto uma pessoa que me falou nisso. Esse livro surge numa colecção de 13 livros sobre a Arte da Guerra em diferentes áreas. E o editor convida-me para eu escrever a Arte da Guerra relacionada com o desporto, para treinadores. Questionou-me como é que podíamos fazer o transfere de algumas coisas que eram ditas há muitos anos para agora, que ligações é que havia? Foi um desafio. Não pensei nunca em escrever um livro com objectivo de vender muito ou pouco, foi um desafio. Surgiu quase por brincadeira. Depois senti que teve um bocadinho mais de impacto.

Vamos terminar a passagem no Vitória de Guimarães. Fale-nos das duas últimas épocas.
Entretanto começam a sair jogadores porque a equipa era muito jovem, barata e portanto eram jogadores apetecíveis. Alguns deles foram logo para equipas mais fortes, o Ricardo, o Hernâni e o Tiago Rodrigues foram para o FCP, o Paulo Oliveira foi para o Sporting e a equipa foi-se desmembrando. Mas continuamos com a mesma filosofia porque o clube precisava de se recuperar e foram dois, três anos de fases difíceis no Vitória, com orçamentos muito baixos e a tentarmos reequilibrar. Saí de lá na 4.ª época com o apuramento para a Liga Europa. Acabou por ser um trabalho muito positivo e muito gratificante tendo em conta aquelas limitações.

Nesses quatro anos recebeu convites de outros clubes?
Sim, havia sempre possibilidades para o estrangeiro porque vem sempre mais um empresário ou alguém que fala no assunto, mas concreta e objectivamente de algum dos clubes em Portugal, não. Havia essas abordagens, de conversas, mas ninguém me colocou até essa altura uma proposta na mesa. Eu também não tinha nenhuma intenção de sair do Vitória para qualquer outro clube. Para sair do Vitória só sairia para um dos clubes chamados grandes ou para o estrangeiro. Até porque eu continuava numa fase de envolvimento muito grande com a direcção para fazer o clube crescer e tinha renovado com o Vitória mais dois anos... foi quando apareceu o convite do Benfica.

Esse convite surge através do próprio Luís Filipe Vieira?
Sim, de um telefonema do presidente Luís Filipe Vieira. Nós já nos conhecíamos. Fez um convite que, ao segundo contacto, passou a ser formal. Conversámos e acertámos as condições para ir para baixo.

O presidente do Benfica colocou-lhe objectivos e condições concretos? E vice versa?
Sim. Quando reunimos a primeira vez, entendemo-nos logo porque estávamos os dois muito virados para os mesmo objectivos. Vou para o Benfica com esses dois objectivos: continuar a ganhar e alterar o paradigma do futebol da equipa sénior do Benfica com a introdução de jogadores da formação. Aposta mais naquilo que era o Seixal. E também numa equipa se possível mais portuguesa, até como consequência disso. E nisto houve uma ligação muito clara e muito óbvia desde o início entre os dois. Eu estava disposto a isso. Foi de facto um risco porque o Benfica vinha de uma série positiva, mas eu também gostava de trabalhar nessas condições. Quando se chega a este patamar de um clube como o Benfica, não vamos facilmente dizer que não. Sabemos todos que é uma oportunidade e vamos tentar aproveitá-la. Foi isso que fiz. Foi com esta filosofia que entrámos no Benfica.

Houve alguma condição que o Rui ou o presidente tivessem colocado?
Posso revelar que logo nessa altura ficou estipulado que iriam para a equipa principal cinco, seis jogadores da formação.

Escolhidos por quem?
Pelas duas partes. Eu conhecia perfeitamente a equipa B do Benfica e portanto tinha muito claro quais eram os jogadores que queria e foram esses que foram para a primeira equipa. Mas claro que já havia jogadores que tinham contratos profissionais e no fundo quase que encaixou uma coisa na outra. Não houve nenhum jogador que fosse uma divergência. Até porque a partir dali o Benfica também passou a ser um clube mais ligado. Qualquer jogador que estivesse na equipa B, estaria próximo da equipa principal, assim ele trabalhasse.

Qual foi a primeira coisa que fez quando chegou ao Benfica?
Defini uma forma de trabalhar. A partir do momento em que entrassem na equipa de juniores, entravam no meu radar mais apurado. Porque os juniores já podiam jogar na equipa B e se assim era então a qualquer momento podiam jogar na equipa A. Tinha estas três equipas, a principal, a B e a de juniores, sob minha observação mais direta. Ia ver jogos, sabia os nomes todos dos jogadores, projectamos equipas a mais do que um ano ou dois. Fizemos projectos para jogadores individualmente para daí um, dois, três anos, poderem estar ainda mais completos. Eu tinha a supervisão de todo o futebol, as reuniões eram feitas com os treinadores desde os sub-13 até lá acima. E falávamos de tudo aquilo que era a realidade do Benfica.

Quando chega ao balneário a primeira vez sentiu que os jogadores estavam receptivos a um novo treinador ou que estavam desconfiados? Como foi a primeira reacção à sua chegada da parte dos jogadores?
Não tenho uma opinião muito fiel sobre isso. A minha sensação foi agradável, de conforto, de empatia muito grande, de boa receptividade.

Não sentiu nenhum jogador de pé atrás?
Não. Obviamente que há aquela coisa de "vamos lá a ver como o homem funciona". Mas nada de especial ao ponto de sentir algo diferente. Isso nunca senti, antes pelo contrário. Só que essa pré-época já estava alinhavada e foi muito atribulada. Fomos logo para os EUA, depois fomos para o México e andamos praticamente com a casa às costas. Com um início de época complicado que era uma Supertaça com o Sporting. Não foi uma pré-época tranquila por tudo isso, porque eu estava a chegar e já estavam as coisas todas organizadas para ir para fora, tive de adaptar-me ao que estava praticamente definido. Mas funcionou em termos de relacionamento muito bem. É evidente que isto é tudo muito bonito quando se ganha, quando surgem as derrotas há sempre aqui ou ali uma ou outra coisa que não é tão agradável, mas é perfeitamente normal. Trabalhamos bem e paulatinamente, estamos atrás do Sporting, as coisas foram andando e nós muito focados no nosso trabalho. Conseguimos ser campeões e a ganhar a Taça.

Depois de uma época no Benfica, que balanço fez? Era aquilo que estava à espera, ficou aquém ou superou as suas expectativas?
Era mais ou menos aquilo que estava a espera, se bem que vivendo por dentro há aspectos do dia a dia que nos surpreendem. O Benfica tinha coisas muito bem organizadas já. Claro que depois começamos a pôr o nosso cunho pessoal e aqui ou ali a alterar aquilo que entendemos que tínhamos de alterar.

Pode dar exemplos?
Logo à minha chegada fiz a troca do meu gabinete. Fiz um gabinete mais global para a equipa técnica, que não havia na altura como eu entendia que devia ser feito. Com mesas de trabalho, em que estávamos todos juntos e a trabalhar na mesma sala. Logo aí mudamos inteiramente duas salas. Avisei logo: "Eh pá, não quero trabalhar assim. Preciso de trabalhar com a minha equipa técnica, todos em conjunto". Depois ao longo deste percurso no Benfica coincide com as obras no centro de estágio em que aí também estive muito envolvido na estruturação dos novos edifícios da formação, no que respeita a quartos, a gabinetes, a posicionamentos de salas. Qual era a filosofia que estava por trás daquilo. Era trabalhar numa perspectiva muito global, desde os miúdos até à equipa principal. Nunca numa visão de só trabalhar para a equipa sénior, mas para um Benfica muito global.

Sente que essa foi a sua grande mudança no Benfica?
Penso que sim. Era a forma como gosto de trabalhar e tivemos essa possibilidade. Obviamente não o fiz sozinho. Fiz parte de um conjunto de pessoas que pensou e realizou isto. Mas que lá estive, estive. E que tive sempre voz activa em dar as ideias que tinha para o futebol do Benfica, isso é uma verdade.

Sentiu uma maior pressão tanto por parte da comunicação social, como de empresários?
De empresários nada de especial. Agora há duas coisas curiosas. No Vitória e na cidade de Guimarães a pressão é mais corporal. Porque vivemos praticamente no meio da cidade ou perto da cidade, as pessoas do V. Guimarães estão em Guimarães logo aquilo é muito corporal, nós vamos na rua ou vamos a subir no elevador do nosso prédio e temos de repente um miúdo de cinco anos que adora o Vitória a abordar-nos, como temos uma senhora de 80 que se cruza connosco todos os dias no café. É uma abordagem muito mais directa. Nós somos quase adeptos do Vitória. Aliás, há uma altura em que disse para mim: tenho de me isolar porque um treinador tem de ter a frieza de se destacar destas questões, senão daqui a pouco estou a pensar como um adepto e eu não posso ser um adepto. Tive a necessidade de ver a floresta de cima e não estar no meio das árvores.

E no Benfica?
No Benfica é diferente, não temos esta ligação corpo a corpo. O Benfica é mundial e portanto, saímos do Seixal e não temos ninguém perto das nossas casas que seja benfiquista como eu tinha em Guimarães. Mas temos a outra parte que é muito mais exposição em termos nacionais, da opinião pública e da comunicação social. São pressões diferentes. Em Guimarães eu reservava-me muito, ficava em casa, porque se saísse à rua, como eram todos Vitória, estaria sempre sujeito a encontrar adeptos. No Benfica a dimensão é maior e há um maior envolvimento da comunicação social. Os clubes grandes têm uma dimensão diferente de qualquer outro do nosso futebol.

É no Vitória que volta a dar largas a uma paixão antiga. A bateria. Explique lá isso.
[risos] Quando eu era miúdo tinha a mania de bater nas portas, nas mesas, gostava do barulho que faziam. Sempre tive ritmo e ainda hoje bato com os dedos na mesa com frequência. Aos 11 anos fui aprender bateria com o baterista dos Ferro & Fogo, o Seixas. Estive com ele uns meses, mas desisti. So que até hoje, sempre que vejo uma bateria em qualquer lado...Não resisto. Mas na altura em Guimarães, para ajudar a matar o tempo comprei uma bateria, uns auscultadores e voltei a tocar.

Deu algum concerto para os seus jogadores?
Não [risos]. Só tocava às vezes nas festas do Vitória. Quem me desafiava era o Neno, que gosta de cantar e é um óptimo animador. Ensaiávamos duas ou três coisinhas só para animar.

Voltemos ao Benfica. A segunda época foi melhor ainda, conquista a Supertaça, o tetra, e a Taça de Portugal. Sente que o tetra teve uma dimensão e um peso grande no clube?
Teve e tem porque vai ficar para a história. Foi aquela equipa que acabou por vencer o tetra. Por outro lado, o Benfica estava numa senda vitoriosa e, quando às vezes entramos nessas rotinas, as vitórias perdem um bocadinho de impacto e isso é uma coisa que nas empresas, nos clubes, temos de pensar muito bem. Onde e como nos posicionamos nos momentos das vitórias. A vitória é para comemorar ou não? Às tantas entramos nestas rotinas e perde-se o valor da própria vitória, porque é quase um hábito. É um tetra, mas era consequência do trabalho que tínhamos feito e estávamos a fazer. Do ponto de vista objectivo fica na história aquela equipa.

Na época seguinte tudo se altera.
O Benfica acabou por transferir um conjunto de jogadores. Mas continuamos com a mesma filosofia. Acreditávamos que era possível continuar. Quando na altura começamos a lançar os lemas no início da época. Eu, juntamente com a minha equipa de trabalho, o director geral e o presidente. Uma das ideias era a reconquista, no sentido de continuarmos a vencer, numa renovação e não nos acomodarmos, mas é evidente que esta rotina de vencer...Temos de meter ali qualquer coisa de diferente. E no terceiro ano não começámos bem, a época começou a embrulhar-se, ainda fizemos uma boa recuperação, mas depois o FCP ganhou aquele jogo perto do final da época e acabou por ficar na frente.

À distância e olhando para trás, o que correu mal?
Eu desligo-me das coisas com muita facilidade, mesmo. E portanto não tenho bem presente aquilo que é o desenrolar de uma época ou de outra. Mas falando já com esta distância, eventualmente o facto de estarmos a trabalhar juntos e a ganhar instalou-se a ideia de "o trabalho está feito". Vamos ganhar. Da minha parte não foi de certeza excesso de confiança, mas de uma forma genérica, incluindo-me então também, um bocado de excesso de confiança de que "Isto agora mais coisa menos coisa e podemos ganhar". E no futebol ninguém pode pensar assim. Se calhar houve alguma distracção. Eventualmente. E depois no futebol em cada época há sempre dois ou três momentos-chave em que às vezes por isto ou por aquilo as coisas funcionam bem ou funcionam mal, mas não há uma razão que nós digamos assim: foi isto.

Para si quais foram os momento chave?
Eu não tenho bem presente. Eventualmente em Janeiro não termos a percepção do que na realidade não estaria ali funcionar bem e do que a gente precisaria. Mas nós acreditávamos muito na filosofia que tínhamos e no trabalho que estávamos a fazer. Só que, para já não se ganha sempre, vínhamos de duas épocas tremendamente vitoriosas, com seis títulos já conquistados, pensamos que as coisas funcionam bem, mas nem sempre acontece. O que é que foi em concreto? Há quem diga que a equipa não se reforçou. Não se reforçou como nos anos anteriores não se tinha reforçado e tinha descoberto jogadores na equipa B, porque no fundo os reforços do Benfica nestes últimos anos foram sendo praticamente da equipa secundária. Seguimos mais ou menos a mesma linha de raciocínio. Agora, também é bom que fique claro: nenhuma dessas não-vitórias ofusca o trabalho que foi feito no Benfica. Isto na minha visão, quem quiser que faça as leituras que quiser. Foram muitas vitórias difíceis, e uma mudança de filosofia, o que às vezes é complicado nos clubes.

O que quer dizer com essa mudança de filosofia?
A tal aposta mais objectiva em jogadores da equipa B e em jogadores portugueses também. O Benfica passou a jogar com mais jogadores que estavam na formação, por consequência fez dinheiro em receitas. Esses jogadores tiveram uma valorização enorme e ao mesmo tempo deram uma maior rentabilidade para o Benfica porque são miúdos que começaram na formação do clube, eram 100% Benfica. Nesse sentido era uma mudança clara de paradigma. E é preciso dizer que essa nossa terceira época também coincide com tudo o que envolve o Benfica na comunicação social, a questão dos e-mails e desses processo todos.

Isso entra e abala um balneário?
Isso entra. É evidente que jogadores e treinadores temos a capacidade de ir para dentro do campo e não pensarmos nisso. O que acontece é que numa equipa que ganha, que tem uma grande percentagem de vitórias, tem que fazer tudo o que está ao seu alcance e o foco tem de ser todo para que em cada jogo esteja preparada para ganhar. Quando começamos a distrair-nos ou a haver alguns motivos que faça com que a energia não seja toda focalizada para esse fim de semana, para esse jogo, então aí estamos a perder energias que podem ser úteis para ganharmos o jogo, nem que seja por 1-0. Quando começamos a ter muitas coisas com que lidar, é transportado para o funcionário, para o jogador e para quem nos envolve, como as empresas. Se perco uma hora que seja a tratar deste assunto, já estou a perder uma hora em que podia estar a tratar de um assunto da minha equipa.

Está a dizer que o caso dos e-mails e o processo e-toupeira abalaram toda uma estrutura que se reflectiu também dentro de campo.
O clube viveu uma situação que não estava preparado para viver, nem ninguém está. E depois todos a lidar com aquilo, se calhar nem todos soubemos lidar da mesma maneira. Porque de facto eram coisas que iam até às coisas pessoas, tocavam em aspectos muito particulares e quando sentimentos esses aspectos mais centrados em nós, esquecemos a equipa principal ou esquecemos o Benfica porque estava em causa já a vida de cada um. Portanto mexe com uma estrutura que estava perfeitamente afinada. Quando temos de preocupar-nos em demasiado com coisas que não são propriamente da nossa função, então aí estamos no caminho errado. Isto funciona muito bem para quem tem de ganhar cinco, seis, sete oito nove vezes num ano, agora para quem tem de ganhar muita vez e perder pouquíssimas como o Benfica, é estar sempre a um alto nível e o alto nível requer concentração no limite e requer os recursos todos focados no mesmo objectivo. Quando isso não acontece, é evidente que ficamos em desvantagem.

Na última época não teve o acompanhamento que estava habituado a ter por parte da direcção?
Pois, às vezes saem aqueles títulos "Rui Vitória não sentiu o apoio da direcção", não gosto muito disso e não é essa a questão. Naturalmente, há uma dispersão de atenções e não se faz por querer. Pode acontecer em qualquer organização e quando isso acontece em organizações de elevado nível em que a margem de erro é muito pequena, então ainda tem mais impacto. É evidente que podíamos ter preparado tudo de uma forma diferente ou podíamos antecipar cenários. Só que ninguém ali teve a capacidade e a percepção da dimensão da coisa. É como o que estamos a viver. Todos nós agora sabemos o que é esta pandemia, mas há dois ou três meses alguém tinha a noção da dimensão que tomou? E que de repente pode tocar-nos a nós? Ali foi um bocado a mesma coisa, de repente é o meu nome que está, é o da minha família, é uma relação qualquer profissional que existiu e que vem num email. Tudo estava mais sensível e isso torna as coisas mais difíceis.

Desde que ingressou no Benfica houve uma tendência quase inevitável de fazer comparações com Jorge Jesus. Como foi lidando com isso ao longo daqueles três anos?
A mudança de clubes, treinadores com filosofias diferentes, em clubes rivais, gerou uma comunhão de acontecimentos que de facto despoletaram uma série de coisas. Houve também depois um aproveitamento. Nestas alturas em determinados contextos há sempre uma preocupação de se saber como é que podemos entrar, onde é que há alguma fragilidade. E então é por aí que é a porta de entrada. Numa primeira fase há um treinador que vem de Guimarães que as pessoas não sabem se tem capacidade ou não, e eu percebo as dúvidas que possam haver. Acontece comigo como pode acontecer com outro qualquer. E até haver uma prova, um título, há sempre essas questões. Portanto houve ali uma crispação que foi acontecendo. Mas eu fui com um objectivo muito claro para o Benfica em termos individuais: ser igual a mim próprio. Não era por ir para o Benfica que ia mudar a minha personalidade. Tenho uma forma de estar que é assim desde miúdo e não quis entrar noutra tipo de actuação. Fui-me mantendo no meu caminho, fui fazendo o meu trajecto, fui trabalhando, resistindo em determinados momentos em que me apetecia responder, mas entendi que não queria entrar nesse jogo, e só entrei quando na realidade quis. Há quem diga que tem que se defender com unhas e dentes e tem que se ser, entre aspas, um arruaceiro se for preciso, para defender o Benfica. Eu sou assim, a minha forma de estar é muito tranquila, de bem com a vida. Depois acabámos por vencer. E quando vencemos tudo também faz sentido. Porque depois daquela confusão toda, quando chegámos ao último dia do campeonato e somos nós que ganhamos, é evidente que posso dizer que aquilo que fui vivendo foram decisões bem tomadas. E foi um campeonato, o primeiro, muito difícil, com um Sporting fortíssimo. O segundo já não tanto porque começaram a distanciar-se mais, mas o primeiro foi um adversário muito difícil, com uma equipa forte e tivemos mesmo de estar nos limites para ganhar.

A relação com Jorge Jesus nunca foi uma relação próxima, pois não?
Mas eu não tenho nenhuma relação particular com nenhum outro treinador. Tenho relações de respeito e cordialidade com todos, quando existe de parte mútua. Mas até à data não tinha havido nada que justificasse quer da minha parte quer da parte do Jorge Jesus qualquer... Não houve nada que se tivesse passado anteriormente que fosse um motivo. Acho que foi todo um processo que se desenrolou naquelas alturas. Mas já está passado.

Surpreendeu-o, não estava à espera daquelas indirectas e "ataques"?
Sim. Não via grandes motivos para que isso acontecesse. Uma coisa é termos tido uma chatice com alguém na vida e ficar ali algum rancor, agora, não houve nada que eu saiba que fosse motivo para o que quer que seja. Mas estas coisas do futebol são mesmo assim, passamos à frente, a vida continua, cada um é livre de ter a sua forma de estar, cada um pode justificar tudo o que entender e bem, porque como digo sempre há duas verdades, depende dos olhos de quem vê. São coisas que não têm muitas discussão. Cada um vai defender os seus argumentos. Siga, vida para a frente.

Pode dar-nos a sua visão e justificação para o aparente volte face de Luís Filipe Vieira em relação à sua continuidade no Benfica quando veio dizer, de um dia para o outro, que viu a luz?
Eu e o presidente Luís Filipe Vieira sempre tivemos uma relação de um respeito muito grande e consideração um pelo outro. Nunca na minha carreira pensei “vou ter de sair daqui, vou ter de safar-me e abandonar isto mesmo que deixe alguém na mão”. Não funciono assim. Há pessoas que têm essa capacidade de dizer "eu vou ter de sair, quem vier que feche a porta". Não vejo as coisas assim. Esgotámos até ao final, sempre com boas intenções, todas as possibilidades. Nem eu, nem o Benfica a querer tirar partido para si próprio. Era ver se havia ali comunhão e acreditamos e trabalhamos muito.

Mas alguma coisa aconteceu para de um momento para o outro haver aquele volte face. Uma conversa...
... Quantas vezes há um problema na vida das pessoas e as pessoas podem conversar, e vamos tentar, e vamos resolver e vamos mexer aqui, acreditamos que isto pode ter futuro... No fundo é isto. Acreditamos que é possível e vamos ver se dá para a coisa funcionar. Eu transfiro para uma relação entre marido e mulher, como para uma relação profissional ou de amizade. Quisemos esgotar todas as possibilidade porque gostávamos uns dos outros, as pessoas estavam envolvidas umas com as outras, vamos tentar, e foi isso. Também da mesma forma que quando analisamos e vimos que não valia pena e que se calhar a melhor solução é afastarmo-nos, eu desligar-me e o Benfica ter a possibilidade de ter outras opções, tudo bem na mesma e tudo se resolveu e terminou ali o ciclo.

Quando é que percebeu que não tinha hipótese de continuar?
Quando rescindo é quando temos a noção. Nós tínhamos perdido em Portimão e essa derrota foi quase dizer assim: "Eh pá, estamos aqui a tentar mas as coisas não funcionaram". E foi isso. Mas anteriormente sempre acreditámos, pensámos não virar cara a luta, não atirar a toalha ao chão, não desistir, porque isso não faz parte da minha essência. Por isso até àquele momento eu acreditei sempre que podíamos prosseguir.

Mas quem deu o primeiro passo para essa decisão?
As coisas nem são colocadas dessa maneira. Conversámos. "O que é tu achas disto?"; "Presidente, olhe que também se calhar acho que sim". Acho que foi claramente um mútuo acordo. Eu entendi também que aquilo já estava difícil para continuarmos, amigos como dantes. Mais vale sermos bons amigos do que estarmos a deteriorar ainda mais as relações.

Já tinha convites de outros lados?
Tenho um princípio muito claro, quando estou ligado a um clube, não falo com nenhum presidente, nem com ninguém de outro clube. Sabia de uma ou outra coisa, de abordagens, mas concretamente comigo isso não aconteceu. Já se tinha ouvido essa questão daqui do Al-Nassr tempos antes. Quando rescindo com o Benfica, rescindo a uma sexta-feira, as pessoas automaticamente vêm cá. Eu já pensava que não iria acontecer esta ligação, mas as pessoas pessoas vieram cá no domingo e na segunda assinei contrato, portanto foram 48h.

Com que sentimento saiu do Benfica?
Saio com a noção de dever cumprido. Ganhei todos os títulos que havia para ganhar pelo Benfica, só faltou uma Taça da Liga para fazer a volta completa dos títulos nacionais. Sinto-me realizado.

Mas a nível europeu as coisas não correram muito bem... Acha?
No primeiro ano fomos aos quartos de final da Liga dos Campeões. No segundo ano fomos aos oitavos de final e no terceiro ano não fomos apurados e aí é que foi o ano negativo. E no quarto ano apuramos a equipa para a Liga Europa. Na realidade, aquele terceiro ano, por variadíssimos aspetos, não foi um ano positivo, mas o Benfica não tinha passado a fase de grupos da Liga dos Campeões há muitos anos. Nos últimos dez anos salvo erro tinha passado uma vez. Portanto em três épocas e meia, dois apuramentos, uns quartos de final, uns oitavos de final e uma liga Europa... Temos um dado negativo que é o terceiro ano, mas não ofusca o resto.

O que o leva a aceitar ir para o Al-Nassr da Arábia Saudita?
Foi uma decisão muito difícil, com a ajuda dos meus adjuntos. Mas eu tive um feeling muito positivo em relação à Arábia com a pessoa com quem falei e depois fiz uma leitura muito rápida que foi: eu tinha ganho títulos no Benfica e teria ali também a possibilidade de continuar a ganhar títulos. Ao mesmo tempo, havia a questão financeira, não vamos esconder que são verbas importantes, e ao mesmo tempo havia a possibilidade de, se as coisas não corressem muito bem, fazemos os três ou quatro meses que faltavam e depois fazíamos esta época já com o nosso cunho pessoal. A equipa estava em 2º lugar e havia a possibilidade de ganhar a Taça do Rei, ganhar o campeonato e ir à Liga dos Campeões. Foram estes os objetivos: a parte financeira e o ganhar títulos. E felizmente que tomei essa decisão naquela altura. Agora o choque é grande porque são realidades completamente diferentes.

O que mais o chocou?
Quando falo em choque não é um choque negativo, é a diferença. Gosto de deixar claro isto porque muitas vezes temos uma imagem negativa deste lado do mundo, temos um preconceito. O choque é de mudança. Basta haver cinco momentos de reza que muda tudo em função desses períodos da reza. É algo que está presente no dia a dia do Médio Oriente. Temos de adaptar tudo, os horários dos treinos, dos jogos, as alimentações, etc. Enquanto em Portugal nós dizemos as regras e não há mais nada a condicionar, aqui só isso é uma variante muito grande. Por outro lado, na Europa somos muito mais rigorosos, aqui há jogadores de enorme qualidade, mas ainda falta um carácter mais competitivo, mais rigoroso. Embora, às vezes dou comigo aqui a jogar com 40 graus, e é a mesma coisa que jogar no Alentejo às três da tarde em Agosto, é sufocante. Portanto, quem tem estes climas muito quentes há necessidade de os ritmos serem ligeiramente mais baixos.

Essa falta de ambição pode ter a ver também com o facto de todos eles terem uma vida muito confortável e terem dinheiro com facilidade, não tendo por que lutar?
Pode ser uma das razões. Não há nenhum jogadores destes da Arábia que vá para a a Europa e que tenha o mesmo estatuto e a mesma vida. Isso retira de certa forma essa ambição. Não há aqui nenhum jogador a ser vendido por preços exorbitantes para lado nenhum. Porque há de facto uma estabilidade para o jogador árabe aqui. Agora o jogador árabe tem qualidade. E tem um reconhecimento pelas hierarquias que é de enaltecer. Quando gostam e reconhecem qualidade, são muito afáveis e mais chegados do que os europeus.

Quais são as mais valias do jogador árabe.
Eles têm um futebol muito tecnicista. Só que tem de ser com dinâmicas e ritmos mais baixos. É um bocadinho o nosso futebol e o nosso jogo, mas sem a intensidade e aquela dinâmica que temos. Mas fiquei surpreendido pela positiva. É evidente que tudo isto não chega para jogarmos a um nível europeu. Mas tem outros aspectos muito bons.

Como são os adeptos? Sentiu alguma dificuldade?
Diferentes porque têm manifestações estranhíssimas mas muito engraçadas. Dizem I love you, fazem corações e mandam beijinhos como nós mandamos às senhoras, dão beijinho na mão e espalham [risos]. E nós de repente ficamos assim com uma sensação estranha. Têm também um hábito curioso, principalmente em algumas relações de hierarquia a um nível mais elevado. Quando querem falar com alguém em particular agarram-nos pela mão e vamos conversar. E estamos dois homens de mão dada a passear no campo, por exemplo. Isso é normalíssimo entre eles. São coisa estranhas para nós e, quando chegámos, sentimos essa diferenças. Mas o povo é muito afável, tem o hábito de dar flores. Chegamos a qualquer hotel e dão-nos flores. Essas coisas dos corações e do I love you é que me "mata" [risos].

Calculo que já comeu no chão com eles. Adaptou-se bem à gastronomia árabe?
Claro que já me sentei com eles no chão, fazemos essas coisas de uma forma frequente. A comida tem muitas especiarias, mas nada de extraordinário. Agora, quando estamos a comer com a mão, eles têm uma técnica apuradíssima para apanhar o arroz e o borrego assado. Mas eu como sempre de colher [risos].

A sua mulher e filhos foram consigo?
Só vieram esta época, na passada estive aqui sozinho. Estão a gostar e têm a possibilidade de conhecer o mundo. As minhas duas filhas mais novas estão num colégio internacional. O Santiago, o meu filho que tem três anos, está na creche dentro do compound onde vivemos. Na sala dele há um de cada nacionalidade, portanto já está a aprender o inglês também. Estamos 23 portugueses no mesmo compound porque além da minha equipa técnica também trouxe treinadores para a formação, equipa médica, estamos todos com as famílias.

Entretanto já regressou a Portugal devido à pandemia. Tem o seu futuro profissional definido? Vai voltar para a Arábia?
Faltavam oito jogos para o campeonato terminar quando paramos, foi na véspera da meia final da Taça do Rei. Já estava equipado para começar a treinar quando chega a notícia do governo a dizer que a partir daquele momento não havia mais competições. Já nem treinámos. Só consegui regressar a Portugal esta semana. O campeonato não recomeça antes de agosto. Tenho contrato até final desta época, há possibilidade de renovar mas a decisão não está tomada. Vamos ver.

Gostava de voltar a treinar em Portugal?
Gostava, porque quando saí de Guimarães disse que não queria sair do Vitória para o estrangeiro, porque achava que faltava mais qualquer coisa em Portugal. Gostava de não sair de Portugal sem tentar um dos grandes para ver se conseguia ser campeão. Consegui. Mas quando saí do Benfica arranjei dois objectivos mínimos, que não vou revelar quais são, para voltar a Portugal. Não sou muito de fazer as coisas a longa distância, mas se tiver possibilidade, quero voltar a Portugal para cumprir mais dois objectivos que tenho.

Quais são os jogadores que lançou e que desde início sabia que iam voar mais alto?
Quando um jogador chega à equipa principal há um trabalho de muita gente e portanto quando eles são valorizados e vão para fora muita gente tem de ser reconhecida. Mas há uma coisa que é indesmentível, por mais voltas que se dê, por mais e melhor formação que haja se a porta da equipa principal não estiver aberta a probabilidade dos jogadores se valorizarem a ponto de irem para o estrangeiro é muito menor. Portanto, o treinador da equipa principal tem uma importância decisiva nesse abrir de portas. Eu tinha a convicção que dando oportunidade a alguns na primeira equipa, o crescimento deles ia ser brutal. Agora nenhum deles era visto à partida como uma estrela. Não havia aquela coisa: "Ah o Benfica tem aqui um novo Cristiano Ronaldo".

O João Félix não era visto já um bocadinho assim?
Antes, não. Na equipa de juniores e dos juvenis não. E o Ronaldo foi um estrela desde infantil até lá acima. O João fez um percurso, esteve no FCP veio para o Benfica e é um jogador que tem uma capacidade imensa e evoluiu muito nos últimos anos da sua formação. Mas mesmo em relação aos outros e estou a falar de um Nelson Semedo, do Victor Lindelöf, do Gonçalo Guedes, Renato Sanchez, do Ederson, foram jogadores que colocámos na equipa principal, como suporte para a nossa equipa para os fazer crescer. É evidente que isto não dá para todos, mas estes jogadores quando têm qualidade e pré-requisitos e quando entram para primeira equipa o crescimento é muito rápido. Eu não previa uma coisa do género: “Eh pá este jogador vai ser uma estrela”. Mas previa que alguns deles tinham condições para jogar a níveis ainda superiores. O mais difícil, e isto é claro para o Benfica como para qualquer equipa, é projetarmos o jogador que ainda não tem as características todas que queremos, mas sabermos que naquele contexto, com aqueles colegas, naquela cidade, com aquele treinador vai melhorar e se calhar agora vale xis mas daqui a uns anos vale xis, mais uns milhões. Como é que eu o vejo daqui as uns anos com trabalho acumulado? Isto é que é projectar e não é fácil. É fácil olhar para um jogo e dizer que aquele jogador é bom, agora fazer este tipo de projecção não. E o que tentámos fazer foi isso. Sinto muito orgulho quando os vejo jogar. Agora muita gente pode dizer que está a apostar, que apostou, mas a verdade é que foi o Benfica que abriu um bocadinho essas portas. Como o Sporting fez há uns anos. E a minha carreira tem estado relacionada com isso, já quando estava no Vilafranquense ou no Vitória, transformar plantéis, ter de mudar de paradigma e tentar ter rendimento. Não foi chegar ali e escolher os melhores.

Tem algum campeonato de sonho que gostava de experimentar enquanto treinador?
O inglês e o espanhol. Mas não é uma obsessão. É só porque os exemplos que tenho foram sempre muito positivos quando lá fui jogar. Sempre ouvi dizer que é um ambiente saudável e gostava de experimentar para saber. Mas não tenho isto como uma obsessão, não vou jogar para Inglaterra ou para Espanha só por ir.

Qual foi a situação mais complicada que viveu no balneário?
Tive situações desagradáveis no Vitória no primeiro ano, porque havia salários em atraso e havia confusões, mas nada assim... Uma vez, num clube, estive quase em vias de facto com um jogador, quase entramos à pancada um com o outro e eu travei à última hora, mas esse jogador também saiu automaticamente. O jogador acabou por pedir desculpa, os colegas também. Tive um outro caso curioso e caricato.

Conte.
Um jogo em que estou expulso, portanto estou na bancada, estamos a acabar o jogo e tenho de fazer uma substituição. O estádio completamente a abarrotar e eu tenho de fazer uma substituição e alterar o sistema táctico da minha equipa a 10 minutos do fim. Falo com o meu adjunto que está no banco para lhe explicar e ao mesmo tempo escrevo num papel em cima da mão, sem nada a apoiar, faço umas setas para cá e para lá e passo-lhe o papel, ele tem de passar a informação e o papel a um jogador que não falava nem português nem inglês; esse jogador tem de falar a outro estrangeiro, que falta português, mas que não falta inglês, que por sua vez tem de falar a um estrangeiro que não falta nem uma coisa nem outra. Eu tinha de alterar o sistema para três defesas e no papel pus os nomes dos jogadores e umas setas para cima e para baixo. Quando dou por mim, o que é que aconteceu? A meio do caminho é trocada a orientação do papel, ou seja, quando chega ao último o papel já não estava na posição correta, as setas ganham outro sentido e quando dou por ela, estão dois a jogar do mesmo lado [risos]. Isto a 10 minutos do fim, num jogo internacional, a precisar do resultado, num estádio com 70 mil pessoas. Sendo que a pior combinação de jogadores que podia haver, em termos de comunicação, para aquela mensagem eram aqueles três. Foi fartar de rir.

Onde é que ganhou mais dinheiro?
Na Arábia Saudita.

Onde investiu? Em Imobiliário ou meteu-se em algum negócio?
Ainda muito novo, com 20 ou 21 anos tive em sociedade com os amigos e primos meus, uma pequena pastelaria, mas que durou dois anos. Depois, com o futebol, o único investimento que acabei por fazer foi na compra da casa. Sou muito conservador.

Qual a maior extravagância que fez?
Do ponto vista financeiro não me lembro de ter gasto algum dinheiro mal gasto só por impulso. Eu diria que se calhar a compra de uma bateria eléctrica foi aquilo um pouco menos normal, eventualmente num ou outro carro que foram sendo melhores à medida que o tempo foi passando mas nada de muito extravagante.

Tem algum hóbi?
Não tenho assim nenhum óbvio que me ocupe o tempo livre, nem a bateria. Gosto de estar em casa sem grandes preocupações. Em casa é para descontrair e para descomprimir daquilo que é o desgaste natural da minha profissão.

Pratica ou segue outro desporto além do futebol?
Gosto de ver diversas modalidades, mais as colectivas e aí se calhar destacaria hóquei em patins, o basquetebol e voleibol. Depois, gosto de ver os grandes momentos desportivos que existem no mundo.

É crente?
Sou católico não praticante, acredito que há algo superior que nos guia, mas não sou demasiado crente nem tenho aquilo que normalmente as pessoas chamam de superstições tenho sim aquilo que eu chamo de rituais de conforto. Não é nada de especial mas são coisas que faço com regularidade porque por isto ou por aquilo correu bem e gosto de repetir.

Pode dar um exemplo?
Por exemplo quando algo corre bem e usamos o mesmo fato, a mesma camisa ou pisamos o mesmo percurso. Gosto de repetir, embora isso também acabe por ir mudando, por isso não fico demasiado agarrado a nada. Se correu bem na semana passada, repito e sigo em frente, mas não é nada que seja demasiado vinculativo.

Tem ou teve alguma alcunha?
Tive uma alcunha quando era miúdo. Chamavam-me o pé de chumbo. Mas era só os meus colegas de equipa e as pessoas de Alverca que me conheciam dessa maneira. Talvez porque sempre fui um pouco mais alto e mais forte do ponto vista físico e não era demasiado rápido. Chutava bem a bola e houve um treinador que me pôs esse nome que se foi mantendo ao longo da minha juventude.

Qual a maior amizade que fez no futebol?
No futebol não fazemos muitas amizades, porque vamos trocando de clube, as pessoas começam a ter outras vidas. Os meus amigos, que se mantém ao longo dos anos, são amigos com quem convivi a partir da minha juventude. Foram meus colegas também e até estabelecemos relações familiares ao tornarmo-nos padrinhos uns dos outros, padrinhos dos filhos uns dos outros. Esse é um grupo muito restrito de amigos. Temos muitos conhecidos, mas amigos temos poucos e os meus são maioritariamente esse grupo que vem da minha juventude.

Qual o treinador que mais o marcou?
Não tenho uma referência particular. É evidente que analiso o trabalho dos meus colegas e estamos sempre a aprender. Mas dou por mim a pensar que, enquanto treinador, tenho muito daquilo que vivi enquanto jogador, por isso as minhas influências foram praticamente todos os treinadores que tive.

E o jogador que mais o surpreendeu pela positiva, do qual não estava à espera de tanto?
Para responder essa pergunta se calhar teria que estar aqui muito tempo a pensar e isso é sinal de que não houve ninguém em particular. Eu diria que talvez a evolução dos jovens jogadores que comecei a treinar tenha sido aquilo que mais gostava de destacar e não propriamente um jogador.

Treinadores que sejam uma referência para si enquanto treinador, também não tem?
Não tenho treinadores que sejam de facto uma referência. Obviamente que, quando pensamos no José Mourinho, aí sim olho como uma referência do futebol português, do futebol mundial, que nos abriu portas. Mas, digamos, posso dizer que, além de Mourinho, aprecio Guardiola e Klopp.

Não tem mais nenhuma história que possa partilhar?
Quando cheguei à Arábia percebi que as pessoas da administração e alguns funcionários tinham muito o hábito de assistir ao treino a beber o seu chazinho. Eu não gosto de ter muita gente a assistir porque gosto que os jogadores estejam focados no treino sem haver muita gente a dispersar. Entretanto comecei a perceber que acabavam por sair mais informações e no dia seguinte avisei que não queria ter ninguém dentro do campo que não fosse necessário, só quem for essencial é que está dentro do campo, se era para estar só assistir tinha que sair. Eles levaram aquilo tanto à risca que, estando eu a dar o treino, entretanto há um jogador que se lesiona e comecei a chamar pelo médico. O médico estava sempre lá estacionado com o fisioterapeuta, olho e não vejo o doutor lá no sitio dele. Então, como o treino era à porta fechada e queriam tanto agradar-me que levaram o médico e o fisioterapeuta para dentro [risos]."

SL Benfica | E depois do adeus das modalidades, qual é o futuro?

"Na passada quarta-feira, dia 29 de Abril, foi anunciado o cancelamento do remanescente calendário desportivo referente às principais modalidades de pavilhão. As diferentes federações deram por terminados os campeonatos nacionais sem atribuição de títulos. Excepção feita à Federação de Andebol, que já indicou o FC Porto para a EHF Champions League, ainda não há novidades no respeitante aos participantes nas provas europeias.
Aliada à pandemia em curso, a ausência do SL Benfica das principais provas europeias de modalidades pode significar um menor investimento nos plantéis, e uma menor capacidade de planeamento da época que se avizinha – e, por consequência, das seguintes. Num momento em que se afigurava previsível um recrudescimento do investimento nas modalidades encarnadas masculinas e femininas, importa atentar no futuro próximo das mesmas.
Em primeiro lugar, não me parece que a estrutura encarnada deixe cair por completo qualquer projecto. Acredito que a ideia geral e principal seja a de tentar assegurar a continuidade de todos os planos previamente traçados. No entanto, não será estranho se as modalidades menos consagradas das águias sofrerem um pouco mais do que as restantes.
As equipas femininas de voleibol, que lutavam pela subida ao primeiro escalão, de basquetebol, em projecto de crescimento para começar a gladiar pelo título nas épocas vindouras, e de andebol, criada na época passada e que nesta época lutava pelo pódio, poderão ser mais afectadas pelo expectável plano de contenção encarnado. Isto numa perspectiva de investimento nas mesmas. Por outro lado, será mais fácil manter estes plantéis do que outros, uma vez que são das equipas menos dispendiosas do ecletismo benfiquista.
Por sua vez, acredito e desejo que não sofram um grande baque as modalidades que, nos últimos anos, têm feito do ecletismo das águias um triunfo. Não será fácil, de maneira alguma, investir em todas elas, mas o esforço deve ser feito. As equipas femininas de futsal e de hóquei em patins, ambas na cimeira europeia das respectivas modalidades, e as equipas masculinas de voleibol, basquetebol, futsal e hóquei devem ver o seu crescimento nas recentes épocas salvaguardado.
No plano nacional, é imperativo continuar a montar equipas competitivas e capazes de verdadeiramente batalhar pelos títulos. No plano europeu, importa não deixar fugir o comboio. Seguramente não será o SL Benfica a locomotora, mas é fulcral que os encarnados estejam nas carruagens da frente.
Não será fácil fazê-lo em certas modalidades. No futsal, por exemplo, SL Benfica e Sporting CP, que já se sagraram campeões europeus da modalidade, vão deparar-se com um campo mais competitivo do que em anos anteriores, que inclui Inter Movistar FS, FC Barcelona Lassa, El Pozo Múrcia, ACCS FCA 92, Kairat, entre outros, a partirem como favoritos, sobretudo pela superior capacidade financeira.
Todavia, as águias precisam de continuar a apostar na competitividade europeia das suas modalidades, acreditando que essa aposta será recompensada num futuro não muito longínquo. Naturalmente, não importa entrar em loucuras, mas não pode a famosíssima estrutura encarnada deixar cair, por exemplo, os projectos do voleibol e do basquetebol masculinos, que, na época agora terminada, participaram em competições europeias não desbravadas por clubes portugueses. Não podem cair as equipas femininas de futsal e de hóquei em patins, que hão provado época após época estarem no topo da Europa nas suas modalidades.
Isto não quer dizer que outras equipas possam ser ostracizadas. Apenas rogo por uma meritocracia: caso escolhas tenham que ser feitas, que se priorize consoante o mérito e não consoante quaisquer outros factores. O ideal, contudo, seria apostar “à grande”, mesmo nas modalidades que hão fraquejado nos anos recentes. Felizmente, acreditando nas notícias recentemente veiculadas, esse ideal poderá concretizar-se. Porquê?
O andebol masculino tem sido das forças menos pujantes dos encarnados. Para o colocar na contenda com FC Porto e Sporting CP pelo título nacional, teria que existir uma aposta quase monstruosa, quase descabida na referida modalidade. Como tal, seria expectável que a equipa masculina de andebol do SL Benfica sofresse um pouco no pós-pandemia. No entanto, as notícias recentes vão em sentido contrário.
Chema Rodríguez, espanhol de 40 anos prestes a terminar a carreira de jogador, que conjuga com a de técnico-adjunto da seleção húngara, será o novo homem do leme. O plantel será reforçado – não é reformulado, é Reforçado – como nunca foi, com a chegada de jogadores de calibre internacional verificado. O andebol masculino das águias prepara-se, dessa forma, para dar um salto qualitativo, mesmo após um cenário de pandemia.
Se assim é com o andebol, acredito (ou gosto de acreditar) que assim será com todas as modalidades que fazem do Sport Lisboa e Benfica um clube eclético."

Messi e Guardiola juntos: uma dádiva dos deuses!

"Sempre que vejo comentários do tipo: "ah e tal o Guardiola só ganhou o que ganhou no Barcelona porque tinha o Messi, porque no Bayern München e no Manchester City nunca mais ganhou a Champions", fico com urticária, confesso! Há pessoas que continuam ainda apenas a olhar para os resultados. Há pessoas que ainda não perceberam que o que Pep Guardiola fez nas quatro épocas que passou no Barça, foi muito além dos imensos títulos que conquistou. Há gente que ainda não entendeu que o legado eterno de Pep em Barcelona deve-se, não apenas ao que ganhou, mas também, e em grande medida, ao modo sublime como o conseguiu e ao futebol distinto que praticou.
Messi obviamente foi um elemento decisivo nas conquistas de Guardiola. Sem Messi (e sem Xavi, sem Iniesta...), não teria sido possível um lugar tão diferenciado na história, isso é uma evidência. Com certeza que se em vez de Messi estivesse lá outro qualquer, o mais certo era não ter havido metade das vitórias. É evidente que sim! São os jogadores que jogam, os treinadores não andam lá dentro, sem bons jogadores não há milagres, por muito bom que o treinador seja.
O que é preciso é ter a capacidade de perceber que, tendo a sorte de poder contar com um grupo fantástico de jogadores, Pep jogou um futebol que mais ninguém conseguiu. Colocou aqueles jogadores num nível colectivo sem paralelo na história do jogo. Basta ir rever alguns jogos para se perceber o patamar que aquele Barça atingiu, sobretudo em organização ofensiva e transição defensiva. Aquele futebol de quase perfeição é quase uma utopia, quase irrepetível. Isso deveu-se ao trabalho de Guardiola!
Outros treinadores também tiveram Messi e outros craques à disposição. Ganharam também eles inúmeros títulos. Luís Enrique, por exemplo, também arrebatou a Champions. Por outro lado, Messi repetiu épocas individualmente estratosféricas sob o comando desses outros treinadores. Continuou a ganhar títulos colectivos e prémios individuais à velocidade do som. Mas nunca mais beneficiou de um contexto colectivo tão perfeito como no período 2008-2012. Nunca mais desfrutou tanto do jogo, nunca mais marcou tanta diferença de modo aparentemente tão fácil. O individual continuou a ser fortíssimo, mas o colectivo nunca mais foi o mesmo.
Messi e Guardiola juntos foi o casamento perfeito, uma dádiva dos deuses. Ambos são os melhores na sua condição de jogador e treinador. Mas apenas juntos conseguiram atingir o Olimpo. Aquele nível de jogo inalcansável nos próximos 100 anos. O Barça 2008-2012 está nos anais das melhores - para mim a melhor - equipas de todos os tempos graças sobretudo a Leo Messi e Pep Guardiola, em simultâneo. Ninguém fala do Bayern ou do City de Pep quando se pensa nas melhores equipas. Os jogadores não eram os mesmos. Como também ninguém fala no Barça de Tata Martino, Tito Vilanova ou mesmo de Luís Enrique. O nível de jogo, ainda que com Messi e companhia, também nunca mais voltou ao que era.
Então, Guardiola foi o que foi no Barcelona em grande parte graças a Messi, sim! Mas isso deve ser dito como um elogio e não como um reparo ao treinador. Porque foi a genialidade desse treinador que elevou aquele colectivo, de que Messi era a pedra de toque, a um nível que nenhum outro foi capaz. É esse o legado de Pep. Ganhar muitos ganham. Mas daquela forma..."

Lazio 1-2 Roma. Os romanos são loucos

"A 18 de abril de 2010, na época em que Mourinho ganharia tudo com o Inter, houve um dérbi de Roma em que Totti foi substituído ao intervalo, só porque sim, e a glória para o lado grená da cidade foi resgatada por um montenegrino que marcou dois golos e pôs a Curva Sud a fervilhar.

O Guglielmo abre o armário e há uma gaveta, até acho que eram duas, cheias só de coisas grenás. Está na hora de nos mascararmos, ele tira uma camisola e esmiúça-lhe a história, chega a mão a outra e detalha quem jogava, treinava e o que fez chorar nessa época. Não é que haja urgência, é de manhã, sobra tempo, mas ele lembra-se da hora, das 17h30, e interrompe o inventário mental.
Acelera-se e apressa-nos, escolhe camisola e cachecol para cada um e tragam um casaco, diz. Mas o céu está azul e o sol radia, é Abril, está calor, a lógica encurta as mangas, mas ele insiste, tragam casaco.
Não se explica, a pressa murcha-lhe a paciência, que apenas lhe alimenta a insistência. Eu e o Jordi, catalão ferrenho do Barça, nascido no dia e no ano do Messi, obedecemos. Seguimo-lo no ritmo e no ciao repentino que deixamos na sala de casa, a roçar o desrespeito pelos pais dele. Está um amigo do Guglielmo já lá em baixo, espera-nos na rua com a mota e o capacete que faltam nas contas.
Mais uma vez, ele insiste, temos de ir de casaco vestido e não é com certeza a bem dos resfriados, porque o dia está acalorado, nem pela segurança, pois se nos instruí a cobrir o corpo com uma mão, usa a outra para nos dar o que nem Belzebu nos daria para protecção e seria eufemismo chamar de capacete. Mas continua a não se explicar.
Calhou-me ser o pendura na moto do Guglielmo. Tapa-te, esconde o cachecol, diz a cada oportunidade, repetindo o aviso, pelo menos, a cada fôlego que dou e laivos de atenção que consigo dedicar ao que fala, e não ao que conduz, serpenteando entre carros, pessoas e outras motos, que são mais do que as mães e a especialmente do que a minha, que nem mãos teria para agarrar no coração se visse o circo caótico onde parece haver um concurso para ver quem se esquiva mais tarde do azar. 
Estamos a ir para uma zona de Roma, perto do Estádio Olímpico, onde é típico os adeptos da Roma se juntarem, brindarem à fortuna e empanturrarem a alma, onde a fronteira está definida e gente da Lazio não se avista. Onde estamos quase a chegar e, pouco antes de um semáforo que nos pára num sítio com mais árvores e arbustos, o Guglielmo volta a insistir no fecho do casaco.
Parados no vermelho, explica a guerrilha cromática do lugar: ali é território azul celeste, onde já aconteceram espancamentos de adeptos grenás por pessoas da Lazio, que escondem soqueiras e tacos de beisebol onde há folhas verdes, aguardam pela contribuição do semáforo e espancam quem mostre ornamentos rivais e esteja sobre duas rodas.
Bendito casaco e abençoada condução desmiolada para serpentearmos dali para fora, rápido, para chegarmos ao sítio do beberete, conversarmos com amigos romanistas do meu amigo e caminharmos até ao Olímpico, com os casacos à cintura. Mesmo à porta, o Guglielmo insiste que bebamos um caffè borghetti, de um gole só. Obedecemos de bom grado, com as resistências em baixo pelo que bebericámos antes e que ele queria aniquilar pelo que nos conta à entrada do estádio.
Os nossos dois bilhetes não eram para a Curva Sud, a bancada de peregrinação dos adeptos da Roma, atrás de uma das balizas, mas para um sector ao lado, que nos punha uma grade amarela no meio da romaria, com uns três metros de altura, salvo seja a memória atordoada. Teríamos que a trepar, como tanta gente o faz, sem arrelias com a autoridade, dizia ele.
Confiámos, que remédio, trepámos e recordo-me de que só lá no alto acreditei no que o nosso amigo garantira, porque, realmente, ninguém à volta parecia importar-se, ou sequer reparar na escalada. Já no meio de uns bons milhares, com bandeiras mil, cachecóis sempre no ar e cânticos que o Guglielmo afincadamente tentava ensinar, começou o jogo sem um hino dos mais bonitos cantado antes, porque nesse dérbi a casa era da Lazio, mas o dérbi acabaria por ser da Roma.
No campo lá ao longe, à distância da gordura da pista de atletismo, a partida era aborrecida. Muita parra de faltas, pancadas, paragens e pouca uva de futebol atraente e gostoso, se esse fosse o único atrativo para ir a Roma ver um encontro entre os rivais da cidade.
Não, era o fascínio acumulado de anos a ler e a saber do Totti, ídolo de uma causa só, que me conquistou por completo fazia 10 anos, no Europeu, com a Itália e no chapéu que pôs à Holanda, nos penáltis, mas que foi substituído ao intervalo, estou ainda hoje para saber porquê.
Eram os cânticos, as bandeiras, o hino, o tal dérbi daquele golo, aquele dérbi do tal festejo, invariavelmente o Totti a esmerar-se, mais os Contis, os Gianninis, os Delvecchios e os Batistutas. 
Eram recontados pelo Guglielmo que nos contou quem era Carlo Zampa, o narrador de jogos que, no fundo, era como ele, cheio da mesma alma na boca, da mesma emoção a que nos rendíamos, pudera, durante um semestre do ano anterior, no quarto do dormitório que ficava a dois metros do campo de futebol da Universidade de Utrecht, onde a malta de vários mundos se reagrupava, no final de cada jogo, para bater bolas de conversa sem tirar as botas dos pés.
Não me recordo de um montenegrino itinerante, feitio difícil, alguma vez ser narrado, sê-lo-ia dificilmente, porque, como tantos jogos antes deste, o penáti e a recarga ao livre que acertou na barreira de homens, após a Lazio marcar primeiro, nunca seriam dele se o simpático Ranieri não tivesse substituído o homem sobre quem todas fábulas narravam, a quem cada bola pertencia caso uma falta a parasse para ser batida.
Improvável e sem capa surgiu Mirko Vucinic, o herói do dérbi a que não voltei a ir, sei lá se voltarei e que demorei demasiado a experimentar, graças a sabe-se lá o quê, mas grato estou, porque sem um amigo romano com quem, desgraçadamente, não falo há muito, nunca teria vivido o quão louca é a vida e são aqueles que vivem à volta de um jogo."

Viagens ao corpo (I)

"Os japoneses possuem um provérbio, ‘on kochi shin’, que se poderá traduzir por "desenvolver novas ideias baseadas no estudo do passado." Este passado tem de ser revisitado como uma ponte para o futuro, ponte essa que passa pelo presente. Não se trata de prevermos o futuro mas de precavermos esse futuro.
E no passado, quer se tenha descido das árvores para a planície, como defende a teoria da savana, quer se tenha vivido num ambiente mais ou menos pantanoso, como defende a teoria do símio aquático, certo é que a evolução nos fez chegar ao bipedismo e a uma postura erecta.
Ao longo da filogénese da espécie humana talvez tenham sido estas as mudanças, que duraram milhões de anos, mais significativas.
A perda da oponibilidade do polegar no pé implicou a ausência da capacidade de preensão nos membros inferiores, o tamanho dos dedos reduziu-se, sendo o dedo grande particularmente robusto e participando, tal como os restantes, na função de sustentação.
Podemos constatar hoje que o pé humano tem um arco longitudinal idêntico ao dos outros grandes símios vivos, mas é único quanto ao arco transversal (na zona distal do metatarso, a mais próxima da ligação com as falanges), devido aos ligamentos e aos ossos do tarso que suportam antigraviticamente o peso corpo. É este arco transversal que possibilita que o homem possa criar o grau de tensão muscular adequado e necessário ao desequilíbrio que lhe permite transferir o peso do corpo para a frente deslocando um dos pés, e a seguir o outro, mudando a sua base de sustentação e originando a marcha. Esta é a grande vantagem do homem em relação aos outros primatas. Não é por acaso que todos os movimentos de mudança de direcção usando o trem inferior no Karate-do (pelo menos no estilo Goju-Ryu de Okinawa) se fazem sobre este arco: possibilitam um maior equilíbrio, uma maior estabilidade, tal como uma maior pressão dos dedos do pé no chão durante a mudança de lugar do calcanhar.
Com o bipedismo verificou-se o encurtamento e o fortalecimento dos ossos do metatarso, sendo os exteriores mais robustos (justificando como o peso do corpo na marcha passa do calcanhar para o bordo externo do pé, seguidamente para o terço ântero-interior e, por fim, para o dedo grande do mesmo).
Torna-se fácil dar conta da diferença de tamanho no homem entre os membros superiores e os membros inferiores, sendo estes mais longos. Paleoantropólogos e biólogos dir-nos-ão se foram as pernas que aumentaram ou os braços que diminuíram. Sem dúvidas o facto de o bipedismo ter libertado os membros superiores para transportar os mais novos, para melhor conseguir alimentos, para reagir mais rapidamente a potenciais perigos, para fabrico e utilização de instrumentos e para mais eficazmente enfrentar mudanças ambientais... e ter possibilitado o cruzamento (pronação), e não só o paralelismo (supinação), do par formado pelo rádio e cúbito no antebraço.
A pélvis foi-se alargando e perdendo altura, proporcionando um melhor rendimento aos glúteos que activam as pernas, permitindo uma melhor transição do centro de gravidade do corpo de modo a que a vertical que passa pelo mesmo caísse sempre dentro da sua base de sustentação.
Enquanto no chimpanzé os fémures são paralelos, no caso do ‘Autralopithecus afarensis’ (extinto aproximadamente há cerca de 2.9 milhões de anos) estes já se tornam oblíquos e orientados para dentro, evoluindo para que o crânio e as articulações de ambas as tíbias se conjuguem verticalmente. O peso do corpo passou a poder ser assim transferido directamente para a frente, evitando o impulso que os chimpanzés dão de uma perna para a outra quando se deslocam.
A caixa torácica hominídea foi sofrendo um achatamento no plano frontal, tal como uma maior amplitude lateral. A omoplata deixou de se situar lateralmente e evoluiu para a zona posterior do tórax aproximando-se da coluna vertebral, a clavícula alongou-se e robusteceu-se e o esterno tornou-se maior e mais forte.
As colunas cervical e lombar foram-se reduzindo, passando a apresentar a coluna vertebral quatro curvaturas flexíveis que permitiram a estabilização vertical.
O crânio reposicionou-se, modificando-se a posição do ‘foramen magnum’, que se situa agora sob o crânio, deixando a coluna vertebral de se alinhar obliquamente com o mesmo e apoiando-se aquele nesta.
Quanto às modificações cranianas basta-nos referir o aumento da capacidade do crânio pois há uma diferença de tamanho do cérebro entre o ‘Autralopithecus afarensis’ (400-500 cm³) e o ‘Homo sapiens’ (1.200-1.400 cm³) assim como a diminuição do prognatismo e consequentes modificações odontológicas.
Um último apontamento em relação à estatura: se o ‘Homo habilis’ (2.4 a 1.6 milhões de anos) tinha uma pequena estatura, cerca de 1.52 m, a altura média de um ser humano europeu situa-se actualmente entre os 1.73 m e os 1.78m.
Para se perceber perfeitamente a nossa filogénese seria bom não se esquecer que a evolução humana, assim como a de qualquer outro ser vivo, foi um processo complexo e não um processo linear…
Mas enquanto ao longo da mesma o corpo hominídeo se foi modificando como resultado de uma evolução condicionada pela natureza, adaptando-se, actualmente as modificações do e no corpo humano resultam de uma resposta ao ambiente criado pela sua própria espécie.
(continua)"

Benfiquismo (MDXVI)

Gran Torino, no Jamor !!!

domingo, 3 de maio de 2020

Bicampeões Europeus 1962

Memórias da Inauguração...!!!

Made in Benfica #3 - Rafael Brito

Memórias... de 2005 !!!

O dia em que o Benfica se agigantou na Europa


"Uma autêntica lição de bem defender no Pormenor.


Colectivamente não havia em 2014 muitas equipas mais bem trabalhadas que o Benfica. Com individualidades bastante melhores do que as da actualidade, o resultado foi uma aula de brilhantismo em plena Itália perante uma Velha Senhora com Tevez, Llorente, Pogba, Vidal, Pirlo, Chiellini, Bonucci e Buffon."

37 - Tondela...!!!

Dia da Mãe - Pais!!!

Recordações: Zé Luís...

Recordações: Reinaldo...

Recordações: Hélder...

#1 - Anatomia de um Sticker: de Hampden Park para as paredes da Luz, com Amesterdão no pensamento.

"Citius - Altius - Fortius
"Mais Rápido, Mais Alto, Mais Forte"
O lema que Pierre de Coubertin, fundador do movimento olímpico moderno, proferiu em Junho de 1894, na antecâmara dos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna (Atenas 1896).
O lema que Coubertin tomou de "empréstimo" de um amigo à época, o pedagogo e frade dominicano Henri Didon. O lema que encontramos nas paredes de muitos estádios um pouco por todo o mundo. Como o existente no pitoresco bairro de Amsterdam Oud-Zuid. Ou no Sul Velho de Amesterdão (aqui em tradução livre).
Este estádio, uma obra interessante da Escola de Arquitectura de Amesterdão (há quem chame a este estilo Brick Expressionism ou Expressionismo de Tijolo, novamente numa tradução livre), foi projectado por Jan Wils e construído a 1927 para a Olimpíada de Amesterdão em 1928. Esta edição dos Jogos Olímpicos, ficaria conhecida, entre muitas coisas, por ter sido a primeira a ter uma chama olímpica a arder na imponente Torre da Maratona que ladeia o estádio (durante muitos anos chamada de "cinzeiro dos pilotos da KLM", pelos habitantes locais). Uma edição olímpica que consagrou, no futebol, o Uruguai como bicampeão olímpico.
Anos mais tarde, já com um segundo anel construído (demolido recentemente), uma chama imensa arderia novamente e uma outra equipa vinda do Sul seria consagrada bicampeã. Neste caso da (na altura recente) Taça dos Clubes Campeões Europeus.
2 de maio de 1962 Há precisamente 58 anos atrás, o Sport Lisboa e Benfica confirmaria que a vitória em Berna, frente ao FC Barcelona na edição anterior, não tinha sido fruto do acaso.
Pela frente um novo adversário espanhol, o grande Real Madrid, vencedor das cinco primeiras edições do torneio, uma equipa onde militava jogadores com a craveira de Di Stefano, Puskas, Gento, entre muitos outros. Pese vencedor na edição anterior, o Benfica partia para esta edição novamente com o estatuto de "underdog". Como que tendo que seguir à letra o lema olímpico para provar a sua grande valia. E o jogo não começou bem.
Aos 23 minutos, o temível Puskas já tinha marcado dois (aos 17' e 23'), vantagem que seria anulada com boa resposta Benfica através dos tentos de José Águas (25') e Cavém (33'). O Major Galopante faria novamente das suas e colocaria o Real em vantagem, completando um hat-trick aos 38'.
Ao intervalo, e segundo relatos recentes de António Simões (que se tornaria após essa partida no mais jovem campeão europeu sempre, algo que ainda acontece no momento que escrevo estas linhas), Béla Guttmann, fazendo uso das suas capacidades motivacionais, talvez inspirado no lema olímpico cravado nas paredes do estádio, assegurou que os seus jogadores eram mais rápidos, altos e fortes que uma equipa do Real que já mostrava sinais de cansaço.
E assim foi.
Mário Coluna (aos 53') repôs a igualdade a 3. E mais tarde, haveria uma verdadeira passagem de testemunho e um jovem Eusébio mostraria toda a sua mais valia, marcando um bis (aos 64' e aos 69') selando um 5-3 final que consagraria o Sport Lisboa e Benfica como bicampeão europeu e asseguraria o seu lugar no panteão dos maiores a nível europeu.
Em termos artísticos, seria de outro estádio com paredes de tijolo, e de outra final icónica, que apareceria a imagem usada para celebrar os bicampeões europeus em to.colante (ou um dos vários stickers que produzi sobre o tema, acima retratado).
18 de maio de 1960
Hampden Park, Glasgow.
Real Madrid, após derrotar nas meias finais o eterno rival FC Barcelona, chegava aqui à sua quinta final consecutiva em cinco edições deste recente torneio. Desta vez a oposição provinha da ex-RFA (Alemanha Ocidental), que pese ainda não tivesse um campeonato nacional (a Bundesliga só seria formada em 1963), colocava aqui pela primeira vez uma equipa na final da principal competição da UEFA. Fruto da vitória na edição de 1959 do então campeonato alemão (baseado num sistema de ligas regionais), o Eintracht Frankfurt (que derrotou na final os rivais Kickers Offenbach do nosso amigo Markus Horn), ganha o direito a disputar a Taça dos Clubes Campeões Europeus e chega à final após uma impressionante semi-final contra o Glasgow Rangers (12-4 no cômputo geral). 
Hampden Park, inaugurado em 1923 (na altura o maior estádio do mundo em termos de capacidade - Maracanã veio destronar isso), era a Meca do futebol escocês. A casa dos amadores do Queens Park (só agora em 2020 é que abandonarão o estádio), em 1937, registava a lotação máxima de 149.415 espectadores num encontro entre Escócia e Inglaterra. Relatos da época indicam que mais 20.000 pessoas entraram sem pagar, não estando contabilizados nestes números.
Nesta final de 1960, estima-se que uma lotação de 130.000 almas assistiram ao encontro. Nas bancadas nomes como um jovem Alex Ferguson, relataram anos mais tarde, que ficaram maravilhados com a fantástica prestação da equipa do Real Madrid, que venceu por 7-3 (poker de Puskas e hat-trick de Di Stefano) e conquista a quinta taça consecutiva. Para além do troféu, Real conquista algo mais. Sendo a primeira final europeia com transmissão televisiva continental, 70 milhões de pessoas assistem à consagração daquela super equipa (e pensar que a BBC comprou os direitos de transmissão a uma ainda amadora UEFA por umas míseras 8000£). Este jogo passaria ao estatuto de jogo icónico sendo retransmitido anos mais tarde vezes sem conta (em especial em Inglaterra), cimentando o Real como um dos maiores clubes europeus.
A imagem usada (no meu sticker) corresponde ao programa de jogo deste último encontro. De facto a SFA (federação escocesa) tinha na altura uma linha, que hoje designamos de retro, muito interessante com este tipo de ilustração para colorir os seus programas de jogo.
Em termos de feitura de composição de imagem( afinal de contas, estou a fazer a "dissecação" de um sticker), socorri-me de um "header" da revista Benfica Ilustrado (uma publicação da época) e de uma imagem antiga do emblema. Pesquisei a fonte usada no lettering e alterei a frase que ilustrava o programa, de forma a homenagear os nossos bicampeões (com duas e não uma taça).
A impressão foi feita em (etiqueta) vinil num tamanho 8 x 5 cm, tendo sido feitas 500 cópias, impressas em Agosto de 2018.
Regresso ao lema que Coubertin tomou de empréstimo de Didon.
Depois de outras oito finais finais europeias perdidas, talvez esteja na hora de começarmos a pensar em repetir o feito de 61 e 62.
Pelo menos tentar ir o mais longe de forma a honrar os ases que muito nos honraram no passado.
Não é necessário ter mais dinheiro ou mais condições (embora ajude).
Basta ser "mais rápido, mais alto, mais forte".
E se hoje em dia, esse sonho existe, deve-se muito ao que foi conseguido naquela tarde de 2 de maio de 1962."

A Bola de Sábado...

A Quinta da Bola...

Benfiquismo (MDXV)

Penalty desgraçado!!!

sábado, 2 de maio de 2020

Tempos conturbados por falta de assunto

"E lá temos visto desfilar o Jankauskas, o Quaresma, o Kelvin, o Álvaro Pereira e um que se chama Paulo Machado, todos a malhar no Glorioso. É cultural. A profilaxia neste caso é idêntica às profilaxias correntes, distância social, distância social, distância social.

O campeonato d.C. volta no fim do mês e vai entrar pelo Verão dentro, ocupando o espaço que era, normalmente, pertença do defeso a.C.. Como terão depreendido, logo à primeira, d.C. quer dizer depois do Coronavírus e a.C. significa antes do Coronavírus. E com esta nova datação d.C. que teremos todos de conviver no que ao futebol diz respeito e ao resto também. Por causa do vírus que não é o único vírus. Não terá sido absurdamente virulenta aquela excursão do presidente da FPF à residência oficial do primeiro-ministro com o seu pequeno séquito de presidentes? Tratar os demais clubes e os respectivos presidentes como meros figurantes da grande competição nacional não foi bonito, não. Ou iam todos ou não ia ninguém. E, assim, seria emprestada a categoria devida à presença do presidente da Liga que, ao que se diz, se fez convidado.
Os presidentes dos três maiores clubes portugueses entraram mudos e saíram calados de São Bento - não houve declarações à imprensa - e não há muito a acrescentar às suas presenças tutelares. O presidente do Sporting distinguiu-se pelo novo corte de cabelo, um corte militarizado, o presidente do Benfica fez inveja pelo bronzeado e o presidente do FC Porto foi o primeiro a transpor a soleira da porta, o que se aceita como norma de boa educação visto que é o mais velho. Para além se ter adivinhado que o campeonato ia regressar não se registaram declarações presidenciais de qualquer tipo, capazes de incendiar as plateias da rivalidade e de entreter multidões. Nestes tempos conturbados pela falta de assunto, muita falta faz à indústria do espectáculo futebolístico o ex-presidente do Sporting a quem agora ninguém passa cartão.
E é pena porque Bruno de Carvalho segue em alta nas redes sociais e agora com um pendor classicista e bíblico, comparando-se quer a Júlio César, o herói de Roma assassinado em 44 a.C., quer a Jesus Cristo, o filho de Deus, também ele assassinado em 33 a.C., e reconhecendo, um a um, nos traidores destas duas figuras de há 2 mil anos os mesmos que o traíram vai fazer agora 2 anos. E isto, sim, poderia ser um extraordinário entretenimento para as massas de Carvalho ainda tivesse relevância social, o que já não é o caso.
Sem futebol e sem dinheiro - há lá coisas mais tristes? - neste período de unidade nacional contra uma doença, o gabinete de comunicação do FC Porto tem apostado tudo em promover entrevistas a antigos atletas obedecendo a um primado civilizacional que lhe é muito caro que é o do ódio ao Benfica. e por lá temos visto desfilar o Jankauskas, o Quaresma, o Kelvin, o Álvaro Pereira e um que se chama Paulo Machado, todos a malhar no Glorioso por imperativo da relevância folclórica de grupo. É cultural. A profilaxia neste caso é idêntica às profilaxias correntes. Distância social, distância social, distância social."

«Passo dos pés para as mãos sem pôr os pés pelas mãos»

"O futebol não se vive só dentro de campo.... Habituei-me a vivê-lo de dentro, mas já o vivi de muitos lugares e formas diferentes. Do banco de suplentes, da bancada, no sofá, na rádio...
Hoje estamos todos de quarentena. Não há futebol para ninguém! Mas há...
A cada música que passa nas colunas de cá de casa parece que revivo momentos e jogos marcantes da minha vida e carreira.
Toca Let Me Entertain You de Robbie Williams e não páro de pensar naquela equipa de miúdos do Mónaco que se divertia a jogar com um futebol sem medos e de ataque que conquistou quase tudo e todos.
A cada peça que se ouve de Beethoven, vem-me à cabeça o Man. City 6 - Chelsea 0 em que tudo saiu perfeito. Vinte e cinco minutos de tempo de jogo e já ganhávamos por 4-0.
No outro dia começou a tocar A Kind Of Magic dos Queen... Não é difícil adivinhar esta... Onze Eusébios vestidos de vermelho e branco a entrar no relvado do Estádio da Luz em honra à nossa Pantera Negra num jogo que o Benfica ganha 2-0 ao Porto. Que energia! Que jogo mágico!
Às vezes depois do jantar bebe-se um copo de vinho ao mesmo tempo que se ouve um fado triste da nossa Amália. Como não pensar naquele Man. City 4 - Tottenham 3 que nos elimina da Champions? 
Há coisas que não se controlam e por isso deixo-vos uma última música que sempre que toca me faz recordar o carinho e apoio que todos os portugueses nos dão sempre que entramos em campo com a camisola da nossa Selecção: Can You Feel The Love Tonight de Elton John.
Tanto o futebol como a vida são feitos de memórias e momentos marcantes. Momentos esses que podem sempre ser revividos desde que o sentimento vivido tenha sido suficientemente forte para o conseguires encontrar noutros sítios.
A música tem-me dado a liberdade que só no relvado sentia. Transporta-me de volta para onde sou verdadeiramente feliz. Fechando os olhos a música faz-me regressar aos grandes palcos. É a minha forma de sentir o futebol durante esta quarentena.
Mas em breve a bola voltará a rolar e os adeptos a saltar e a celebrar.
Um grande abraço a todos."

Chorões Andrades !!!

"Os jogadores de andebol do #PortoaoColo estão indignados por não lhes ter sido dado o Campeonato da modalidade, quando tinham 1 ponto de vantagem sobre o Sporting e 10 jogos por disputar. Sim, é verdade o que estão a ler.
No futebol, caso não se jogasse, a “lenga lenga” seria a mesma, até porque como já explicámos é impossível atribuir um Campeonato assim face aos regulamentos em vigor em Portugal.
Importam é os factos. Nesse mesmo dia, foram anulados os Campeonatos de hóquei, voleibol e basquetebol masculinos. O Benfica era líder em 2. O Sporting era líder em 1. Indignação? Nenhuma. Houve respeito pelo momento que vivemos e pelos regulamentos, coisa que na casa do #PortoaoColo não fazem ideia do que é.
Anteriormente, já tinham sido tomadas decisões pela própria FPF, onde o Benfica era líder no futebol feminino e nos juniores de futebol masculino e o Sporting no futsal. Indignação? Pois, nenhuma.
A título de curiosidade, gostaríamos de recordar aos indagados do andebol do #PortoaoColo que na época passada, nesta mesma altura (com as 10 jornadas da fase final por disputar) estavam em 2º lugar!!! Hipocrisia acima de tudo.
Deixamos um quadro resumo com Campeonato, os líderes, as decisões e as reacções das principais provas canceladas. Todos os clubes respeitam as decisões, todos os clubes percebem momento, menos 1 (andebol masculino e voleibol feminino, no papel de patrocinador da equipa). Tudo o que é Porto tenta aldrabar, ludibriar, esconder e mentir. A começar pela data de fundação."

Plágio !!!

Chakall Vermelho #4

23 novos 'Quinas'

"Vivemos uma altura muito difícil enquanto sociedade e a nível desportivo são muitas as questões que se levantam, o futuro do desporto que tanto nos faz vibrar é ainda incerto, no entanto temos de ir pensando em soluções para que o amanhã seja risonho.
A nossa selecção nacional de futebol não vai poder defender em 2020 o seu título de campeã europeia, adiando essa tarefa para um futuro próximo (esperamos que em 2021), mas a preparação para esse evento deve começar logo que as decisões dos campeonatos de cada país estejam concluídas.
Com toda esta indefinição, também os atletas, ao estarem sem treinar (apenas o fazem em suas casas), podem não vir a apresentar os mesmos índices, principalmente físicos, nos próximos tempos e isso poderá levar a que sejam dadas oportunidades a outros companheiros. Isto pode acontecer nos clubes, mas também na selecção nacional, com o Eng.º Fernando Santos a poder ter de inovar e surpreender nas suas escolhas.
Deixo aqui uma pequena “ajuda” ao seleccionador para que nas próximas convocatórias nos possa espantar, os critérios que escolhi são apenas, terem mais de 21 anos (ou seja, não contarem para os sub-21 e outras selecções jovens) e no máximo uma internacionalização por Portugal AA.

Guarda-redes:
Cláudio Ramos (Tondela) – Tem estado em grande nível na baliza dos “beirões”, merece outros voos a nível clubístico e também a 2ª internacionalização.
Rui Silva (Granada) – Vem sendo destaque por terras espanholas e pode muito bem estar à porta da selecção.
José Sá (Olympiacos) – O guardião de 27 anos é internacional sub-21 e Fernando Santos parece claramente contar com ele para o futuro.

Defesas:
Ricardo Esgaio (S.C. Braga) – Não fosse a abundância de jogadores de qualidade para esta posição e muito provavelmente já seria internacional AA.
Wilson Manafá (F.C. Porto) – Polivalente, rápido e com muita “chegada” ao ataque. É claramente uma opção a ter em conta.
Pedro Rebocho (Besiktas) – Depois de se ter destacado no Guingamp, surgiu a mudança para um dos “grandes” da Turquia, onde tem mostrado o seu valor de forma algo intermitente.
Sequeira (S.C. Braga) – Um jogador que, perto de completar 30 anos, parece, claramente, ter passado ao lado de uma carreira maior que a que a que tem feito.
Pedro Mendes (Montpellier) – Já cumpriu o sonho de vestir a “pele” de Portugal, mas pode almejar num futuro próximo voltar a fazê-lo. Será o novo Fonte?
Domingos Duarte (Granada) – A boa época no Granada já lhe valeu uma chamada aos treinos da equipa das “quinas”, o futuro com certeza trará os primeiros minutos de jogo.
Rúben Semedo (Olympiacos) – Mais um que já mereceu a confiança do seleccionador português e parece ser um dos candidatos à sucessão de Pepe.
Ferro (Benfica) – Tem realizado uma época com altos e baixos, no entanto o bom entendimento com Rúben Dias pode fazer com que também trabalhe com o colega de sector na “Cidade do Futebol”. 

Médios:
Alfa Semedo (Nott. Forest) – Apesar de também ter nacionalidade guineense, sempre afirmou que queria jogar por Portugal. É jovem, pode jogar a “6” ou a central e tem muito ainda para evoluir. 
Palhinha (S.C. Braga) – O que tem feito ao serviço dos bracarenses demonstra que, para além de ter potencial para representar a selecção, teria feito falta ao Sporting nesta época.
Pêpê (V. Guimarães) – O “Busquets português”, como já foi apelidado, tem sido um dos melhores médios da Liga NOS e vai por isso merecendo atenção sobre si.
Gabriel (Benfica) – A sua descendência portuguesa faz com que seja seleccionável e com certeza a sua qualidade traria uma mais-valia ao já muito bem preenchido meio-campo de Portugal.
Otávio (F.C. Porto) – A viver no nosso país desde os 20 anos de idade, já demonstrou a intenção de ser chamado por Fernando Santos, agora a “bola” está do lado do engenheiro.
Chiquinho (Benfica) – Jogador de qualidade, que pode actuar em várias posições do terreno. Bruno Lage é um admirador das suas características e isso tem feito com que tenho tido muitos minutos de águia ao peito.

Avançados:
Daniel Podence (Wolves) – Mais um que já treinou na “Cidade do Futebol”, mas que ainda não cumpriu o sonho de jogar com Cristiano Ronaldo e companhia. Fez uma primeira metade de época muito interessante no Olympiacos.
Matheus Pereira (West Bromwich) – Veio para Portugal muito novo, onde ingressou nas escolas do Sporting com 14 anos e é neste momento, aos 23 anos, o “rei” das assistências na exigente segunda liga inglesa. Vamos deixar “fugir” este talento?
Ricardo Horta (S.C. Braga) – Mais um que pertence ao “clube da uma internacionalização” e que tem tido a pouca sorte de jogar numa posição onde Portugal tem jogadores de qualidade muito elevada. 
Fábio Martins (Famalicão) – O jogador formado no F.C. Porto é uma das “estrelas” do surpreendente Famalicão e vai tendo motivos para ter outras aspirações.
Paulinho (S.C. Braga) – De há 4 anos para cá que o seu nome tem surgido como hipótese para ser opção no ataque dos campeões europeus, mas essa chamada ainda nunca surgiu. Estará para breve? 
Tomané (Estrela Vermelha) – Despontou em Guimarães, mas foi ao serviço do Tondela, em 2018/2019, que teve a sua época mais goleadora. A jogar neste momento num histórico clube sérvio, pode sonhar com a presença numa futura convocatória.

Curiosidades desta “convocatória”:
- O S.C. Braga é o clube mais representado, com 5 jogadores;
- O jogador mais velho é Sequeira com 29 anos e o mais jovem Alfa com 22;
- Cinco jogadores nasceram fora de Portugal (1 na Suíça, 1 na Guiné-Bissau e 3 no Brasil);
- Desde que haja um motivo válido, sou completamente a favor de naturalizações;
- Matheus Magalhães, Tiago Ilori, Gil Dias, Xeka, André Horta, Diogo Gonçalves e Rui Fonte também foram equacionados.
Nem a equipa campeã da Europa em 2016 foi consensual, por isso esta, obviamente, não o vai ser também. Quais seriam as vossas listas de convocados, de acordo com estes critérios?"

O outro Ronaldo


""Criatividade, Qualidade Técnica, Agressividade Defensiva e uma inteligência aquando da posse absolutamente invulgar. Franzino mas capaz de se bater com quem tem outros argumentos físicos pela forma como coloca o corpo, mas mais ainda pela velocidade de pensamento que lhe permite antecipar tudo, Ronaldo torna melhores os seus colegas, porque cada bola que solta leva ideias. Nada acontece por acaso. Dá fluidez ofensiva ao jogo e ainda trabalha defensivamente."

Nomeado por nós como uma das grandes figuras da formação do Benfica, Ronaldo Camará tem o critério e gesto técnico em posse, e a agressividade sem bola que diferencia os jogadores de topo."

Tal Pai, tal Filho: Rafael Lisboa #2


"Pai e filho, treinador e jogador, ambos na mesma equipa…
Rafael Lisboa nasceu a 27 de Novembro de 1999 e é filho de uma das maiores lendas do basquetebol português. Perto de atingir a NBA aos 26 anos, Carlos Lisboa (pai de Rafael) tornou-se uma figura incontornável no basquetebol nacional atingindo números individuais e colectivos sensacionais. Seguindo as pisadas do pai, Rafael Lisboa estreou-se pela equipa sénior do SL Benfica com apenas 18 anos, já representou a selecção nacional por duas vezes e conquistou prémios individuais e colectivos que ficarão na história do basquetebol nacional.

Percurso de Lisboa
O base português, como mencionado anteriormente, realizou a estreia pela equipa sénior do SL Benfica com apenas 18 anos de idade, sendo que tem estado a representar o clube lisboeta durante toda a sua vida. A transição para sénior/profissional não se demonstrou tarefa fácil para o jovem, especialmente tendo em conta a exigência do clube, porém a existência do SL Benfica B permitiu-lhe crescer gradualmente, entrando aos poucos na disputa por um lugar na equipa A.
Para além de ter realizado toda a sua formação no SL Benfica, o jovem português teve a oportunidade de representar a selecção de Lisboa na Festa do Basquetebol Juvenil e ainda a selecção nacional sub-20, em dois europeus da divisão B (2018/2019).
Mais recentemente, estreou-se pela selecção nacional na pré-qualificação do Mundial 2023 de basquetebol, numa temporada que tem sido de maior afirmação para o basquetebolista português. Esta afirmação tem sido, no entanto, um pouco comprometida pela competitividade que existe no plantel, tendo jogadores de elevada experiência à sua frente na mesma posição. Apesar disto, não foi dado impeditivo de realizar jogos fantásticos e números excepcionais. Como partidas de maior referência desta época, temos a partida diante o Terceira Basket onde realizou 17 assistências, e o jogo diante o CAB Madeira onde efectuou 15 assistências. Lisboa, inclusive, é o base com maior volume de assistências na liga (114).

Europeu de Sonho
Depois de uma época maioritariamente na equipa secundária do SL Benfica (2018/2019), Rafael Lisboa foi umas das principais estrelas do Europeu de sub-20 divisão B, que se realizou em solo português e que Portugal viria a conquistar. O jovem base português foi considerado o melhor jogador do torneio (MVP) e executou médias fantásticas (17.4 pontos, 3.1 ressaltos e 4.9 assistências por jogo).
 Apesar da maioria das atenções estarem centradas em Neemias Queta (vinha de um NBA Combine), foi o base que agarrou os holofotes, com exibições muito bem conseguidas e numa final épica (mesmo sem Neemias) onde Lisboa demonstrou ter a capacidade de agarrar na equipa quando ela mais urgiu. De resto, a sua influência no lado ofensivo do jogo faz-se sentir assim que pisa o campo de basquetebol, aconteceu com a selecção sub-20, no verão de 2019 e aconteceu nesta época com o SL Benfica.

Como Se Define Enquanto Jogador?
Enquanto jogador, Rafael até demonstra semelhanças ao pai, como base/extremo lançador com excelente visão de jogo, todavia o jovem português seja bem mais «apegado» à bola que a lenda alguma vez foi. Apesar das semelhanças com o pai, físicas e técnicas, Carlos sempre se demonstrou mais perigoso sem bola e no «recebe e lança» (através essencialmente de staggers) e o filho, paradoxalmente, com bola, criando através do drible ou criando o seu próprio lançamento.
O jovem base português, demonstra um lançamento muito rápido e de elevada eficácia, sempre procurando o lançamento exterior como primazia na sua selecção de lançamentos, ao passo que para além do tiro exterior, Lisboa é exímio a realizar «floaters» e a procurar finalizar perto do cesto (mesmo com a presença de jogadores com elevada estatura por perto).
Apesar disto, não é no lançamento onde Rafael parece superiorizar relativamente à concorrência. A sua capacidade incrível de assistir os colegas, de tomar quase sempre a decisão acertada e de ler o jogo como poucos, são atributos que fazem do jovem português um dos melhores bases a actuar em Portugal. A juntar a isso, Lisboa segue de forma exemplar o sistema de jogo em que está inserido, adicionando naturalmente o seu requinte técnico nas suas acções.
Em termos atléticos, Rafael não é de estatura elevada (1.82 metros), podendo comprometer várias vezes defensivamente, contudo não seja este o revés que lhe impeça de singrar.
Mentalmente, Rafael não transmite a mesma personalidade extrovertida e impositiva que o pai antes demonstrava, nem é o líder dentro de campo que se pede por vezes, contudo, denota-se, pela entrega que tem ao jogo, a presença de um «animal de competição» destemido, sem medo de enfrentar os desafios.
Por fim, Rafael Lisboa é um vencedor desde pequeno e conjugando isso com a influência que acarreta na equipa, o jovem de 20 anos tem tudo para trilhar um caminho épico (que já iniciou) na sua carreira e superar alguns números que o pai já efectuou um dia."

Gostos e não gostos desportivos

"Uma certa sociologia do desporto inscreve-se na perspectiva de descrição e análise da distribuição dos gostos (e dos não gostos) desportivos, segundo as classes sociais e o género, e a compreender as funções das práticas desportivas, que se tornam os elementos constitutivos e altamente significativos dos estilos e modos de vida dos cidadãos. Esta “estilização” das condutas corporais é trabalhada, articulando com os problemas de identificação (de integração) num grupo, com a partilha de gestos e de cultura (pela assimilação dos signos, da linguagem, dos hábitos, etc.), e pelo desejo de distinção social, marcada pelas distâncias culturais aos outros grupos (se traduz pela depreciação dos gostos dos outros e pela desqualificação dos seus signos). Em Portugal, não é possível verificar isto, mas em França é possível visualizar esta distribuição social dos comportamentos desportivos, num determinado momento da sua história, através da construção do espaço ou dos sistemas dos desportos (Christian Pociello, Sports et sciences sociales, Paris, Vigot, 1981). O desporto é um sistema de competições organizadas num tempo autónomo (calendários) e num espaço estruturado (estádios, piscinas, ginásios, etc.), permitindo àqueles que se comprometem e especialmente preparados, de realizar uma proeza ou de procurar uma performance individual, na comparação (e/ou de confrontação) com os outros; são as produções “atléticas”, os “resultados” e os “recordes” realizados em condições bem definidas (normalizadas, estandardizadas), aos quais os adeptos do desporto reconhecem o valor e aos quais o grande público encontra um sentido. Pela sua mediatização, o desporto beneficia duma visibilidade social e duma lisibilidade imediatas. No entanto, essa acessibilidade não lhe confere inteligibilidade. Entre a leitura social, a significação política e a análise sociológica, as distâncias simbólicas e culturais crescem. Enquanto fato social total, o desporto pode criar uma ilusão de um espaço pacífico, apolítico, onde reina a igualdade entre os sexos. Ele carrega potencialmente as contradições da sociedade, que atravessa todos os campos da vida social, económica, religiosa, política. O desporto exacerba e organiza as rivalidades entre os indivíduos, grupos, nações, continentes e, ao mesmo tempo, permite criar relações entre eles(as) e estabelecer laços sociais a todos os níveis onde se exercem essas rivalidades."

Benfiquismo (MDXIV)

Anti-distância-social !!!

A boa gestão sofreu forte penalização

"A decisão tomada no futebol não visa salvar a época dos clubes, mas sim salvar os clubes para as próximas épocas

As autoridades decidiram o regresso do futebol para o primeiro dia de Junho. Dia Internacional da Criança parece apropriado para quem acha tratar-se de uma brincadeira de meninos. Sejamos rigorosos, haveria sempre quem concordasse e quem discordasse qualquer que fosse a decisão tomada pelas autoridades políticas e desportivas. Já aqui escrevi que por mim a época estaria acabada e não haveria outros dilemas associados àquela que seria a minha preferência. Respeito quem discorda da minha posição e não haverá verdades absolutas nesta matéria.
As decisões relativas ao hóquei, andebol, basquetebol e voleibol parecem-me correctas e sensatas. Embora desportivamente custe muito, pois acreditava que o Benfica venceria três (basquetebol, voleibol e hóquei em patins) destas quatro competições, deixando o andebol para o FC Porto. Percepção falível de adepto. Nesta conjuntura as decisões tomadas nas modalidades têm a minha concorrência e simpatia.
A decisão tomada no futebol abriu a caixa de pandora de polémicas e não visa salvar a época dos clubes, mas sim salvar os clubes para as próximas épocas. Sabemos quem adia as devoluções em assembleias obrigacionistas e sabemos quem paga capital e juros na integra. Sabemos quem paga tudo e quem paga muito pouco. Pior é que sabemos que uns e outros, lutarão pelos pontinhos como se a concorrência fosse igual, justa e com as mesmas regras. Há penáltis mal assinalados e erros de arbitragem grosseiros que distorcem menos a verdade competitiva que esta realidade económica. Uma gestão mais competente sofreu aqui uma forte penalização, o aventureirismo recebeu recebeu agora algum perdão. Veremos se perene ou momentâneo. Esta é a situação existente, estas são as regras impostas, podemos sublinhar o facto, mas isso não invalida que a competência desportiva não esteja lá toda. Ambição total, atitude à Benfica e vontade dentro de campo para vencer sempre, mesmo sabendo que fora dele, não reina nem a justiça, nem a verdade.
Veremos quais são os estádios,quais são os critérios, quais são as novas realidades que nos vão fazer crer serem as mais sensatas. Para a generalidade dos adeptos vai ser o futebol de sofá e copo na mão. Também está bem que isto precisava de hidratação e de gelo. Voto vencido mas com humildade democrática."

Sílvio Cervan, in A Bola

PS: Se o campeonato voltar a 1 de Junho a verdade desportiva 'relativa' estará sempre em causa: basta um jogador acusar positivo num dos testes, para supostamente toda a equipa ter que ficar de quarentena alguns dias, podendo mesmo acabar o clube por ter uma falta de comparência...!!! Já para não falar de se poder 'contaminar' adversários...
E ainda teremos as 'Malas' que neste contexto de lay-off  e/ou ordenados em atraso, será um factor ainda mais importante!!!
A partir do momento que me apercebi da dimensão da pandemia, defendo que o campeonato devia ser cancelado. Com o apuramento para a UEFA determinado pelo anterior campeonato 'terminado', como fizeram na Holanda. Compreendo que em França e na Inglaterra 'entreguem' o titulo ao PSG e ao Liverpool pois as vantagens que estes Clubes tinham eram enormes, mas em Ligas com equipas a lutarem verdadeiramente pelo título, não deve haver Campeão...
Jogos à porta fechada, com algumas equipas a não poderem jogar nos seus Estádios, com testes antes dos jogos, que podem alterar o 11 das equipas, podendo no limite desfalcar uma equipa de todos os jogadores disponíveis... é absurdo!!!

Quarentena VI

"Na semana passada fomos brindados pelo New York Times com um artigo sobre a justiça e o futebol português. Lá como cá, usou-se o Benfica para garantir leitores, quer no título, quer a abrir o texto. Isso é perceptível através da leitura da peça, o que exige saber inglês e não ser preguiçoso ou mal-intencionado.
Assim que foi publicado, os propagandistas da meia-tigela portistas logo se apressaram, quase acotovelando-se, a destacar o tal artigo, ambicionando figurarem no pódio do servilismo, voluntarista e acrítico ao Papa. Alguma comunicação social portuguesa aproveitou a deixa - concertadamente ou por mera vocação ou incompetência (selectiva?) - e replicou os dislates dos outros miseráveis sem dar igual destaque ao conteúdo do artigo por inteiro. E, claro, alguns tontos do Lumiar aproveitarem para darem uma prova de vida.
O artigo parte da escusa pedida pelo juiz nomeado no caso de Rui Pinto para especular sobre a influência social do Benfica e... dos outros dois 'grandes'. O jornalista omite que o Benfica nada tem que ver com o caso, e surgem declarações especulativas, nos primeiros parágrafos, de 'algumas pessoas' e da Madre Ana Gomes do Rato. Porém, a peça continua, o que, tudo espremido, sobra a única acusação concreta, convenientemente ignorada, que passo a transcrever: 'Pinto da Costa foi ilibado do envolvimento num escândalo de corrupção após as provas de escutas telefónicas que indiciavam a sua ligação a um esquema de suborno a árbitro terem sido consideradas inadmissíveis por um juiz'.

Obrigado, portanto, aos propagandistas de algibeira andrades, recomendado-lhes que leiam integralmente os artigos que publicitam alegremente..."


João Tomaz, in O Benfica

Trabalho, muito trabalho

"Hoje é Dia do Trabalhador, e esta foi a semana de regresso do futebol profissional masculino do Sport Lisboa e Benfica. Na segunda-feira, Bruno Lage, restante equipa técnica e o departamento de futebol foram submetidos ao teste diagnóstico de covid-19 no centro de treinos do Seixal. No dia seguinte, foi a vez de jogadores e familiares passarem pelo mesmo processo, ao domicilio, nestes casos. Partindo do princípio de que deram todos negativo - na esperança disso, uma vez que vos escrevo nos primeiros dias da semana -, cada um dos atletas terá sido avaliado pelo Departamento Médico. E já para o fim de semana de 2 e 3 de Maio (apontado como fim do estado de emergência) está marcada uma sessão de testes físicos.
Será então na segunda-feira, 4 de Maio,que regressarão os treinos individuais. Serão criados quatro grupos de jogadores, sendo que dois destes irão trabalhar de manhã, e os outros dois, à tarde. O distanciamento físico vai continuar a ser o necessário, seja nos campos, seja no ginásio, não faltando equipamentos de protecção e todas as condições para que desempenhem as suas funções no Benfica Campus.
Isto é o que temos pela frente para os próximos tempos. Há um plano, há hipóteses em aberto, há testes, e a equipa depender sempre dos resultados médicos, tal como cada um de nós nas suas vidas. É nestes momentos que se vê o profissionalismo, a capacidade de resposta e planeamento de um projecto saudável. E aqui a saúde de que vos falo é também financeira. Há dívidas para pagar, pagam-se. Não se inventam desculpas, não se chora por perdões fiscais como o fazem os nossos adversários. Soube-mos reinventar-nos desde a década de 90 como poucos no mundo conseguiram. E agora temos outros bichos para derrotar: além do vírus, a concorrência desleal e, preparem-se, ainda mais jogos sujos de bastidores."

Ricardo Santos, in O Benfica

Jogar a final da Taça, mas em segurança

"Durante a semana foi avançada a possibilidade de a final da Taça de Portugal desta época ser jogada apenas no decorrer da próxima. Parece-me uma opção muito sensata, uma vez que este jogo só pode ser disputado quando a DGS assegurar que existem as condições, mínimas para que tal aconteça. Quando falo em condições mínimas estou a referir-me ao ajuntamento de pessoas em redor de um porco no espeto. Cancelar o almoço de Domingo de Páscoa? Por mim tudo bem, foi da maneira que não veio cá a cada aquele meu tio que come meio cabrito sozinho - normalmente eu dou conta de outra metade, assim ainda me pude satisfazer com mais dois ou três pedaços. Realizar a final da Taça de Portugal sem comer um bom porco no espeto, temperado com sal, pimenta e uma pitada de pós da mata do Jamor? Recuso tamanho absurdo. A final tem de ser jogada - não pensem que o meu coração andou aqui a ser colocado à prova pelo Lucas Piazón e pelo Taremi para nada -, mas tem de ser jogada em segurança.

No desespero em que me encontro já nem sequer me importo de que as últimas 10 jornadas sejam à porta fechada. Por um lado, neste contexto, o Benfica é o clube mais prejudicado - está provado cientificamente que os benfiquistas são a maior factor-chave para a conquista dos três pontos. Por outro lado, o Benfica é também o emblema mais beneficiado. Muitos dos nossos jogadores são também eles benfiquistas fervorosos, portanto essa força, apesar de representada em menor escala, continua presente. Sugiro a Bruno Lage que, antes do regresso da Liga, dedique dois ou três treinos para ensaiar as músicas com o plantel. Assim, quem ficar de fora pode ir apoiando desde o banco de suplentes."


Pedro Soares, in O Benfica

O que eles querem

"Se um qualquer comerciante aceitar e revender mercadoria roubada, está a cometer um crime grave. Porém, se se tratar de um assalto por via informática, se a mercadoria roubada, se terceiros, e se a revenda for feita através da comunicação social, não se passa nada.
Ora, no caso Rui Pinto há um gatuno (ele próprio, que será julgado), há uma mercadoria (correspondência privada), mas há também revendedores que ninguém parece preocupado em responsabilizar. Desde logo o canal televisivo (e o clube que o suporta) que a divulgou, mas também os restantes órgãos de comunicação social a quem o pirata cedeu o produto dos seus confessados crimes, e o utilizaram para garantir audiências - nomeadamente o consórcio europeu do qual fazem parte, entre outros, Der Spiegel e Expresso.
Ninguém tem dúvidas de que as costas de Rui Pinto estão bastante quentes. Todo este lobby que o protege, e lhe disponibiliza advogados de luxo, consegue até plantar artigos em jornais do outro lado do Atlântico. Mas cá cai quem quer.
Não se percebe em que medida o alegado benfiquismo de um juiz pode reduzir o rigor da sentença, pois não é o Benfica que está no bando dos réus. Ou seja, o que o lobby em torno de Rui Pinto pretende agora é condicionar o processo no sentido de obter um julgamento 'dócil', que possa de algum modo relativizar os crimes cometidos.
Neste século XXI, o cibercrime é já uma das maiores ameaças à nossa segurança enquanto sociedade.
Do exemplo que vier a ser dado no caso Rui Pinto se perceberá até que ponto o nosso sistema de Justiça entende ou não essa ameaça."

Luís Fialho, in O Benfica

Suspeição

"Era expectável acontecer o que estamos a assistir após o Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa ordenar o julgamento de Rui Pinto e do seu advogado - o condicionamento da justiça. Tem valido tudo porque há gente que vive da suspeição doentia. Respeitando a presunção da inocência devida a todos os arguidos, já percebemos que a campanha contra os juízes que foram sorteados para o julgamento da dupla Pinto vai ser permanente. Agora foi a vez de atingir a honorabilidade e o brio profissional do juiz Paulo Registo. Ontem foram atacados a juíza de Instrução, Ana Peres, e o juiz-desembargador, Rui Teixeira, que ousaram arquivar a absurda acusação contra a SAD no E-Toupeira. Para esta gente, idóneos são apenas os juízes que arquivaram as acusações contra Pinto da Costa no Apito Dourado.
Estamos esclarecidos acerca das campanhas vis em curso e da publicação de novos artigos difamatórios contra o Benfica, em jornais estrangeiros. Um dia de descobrirá quem pagou tudo!
Vamos ao essencial. Lucidez, serenidade e determinação são três requisitos nestes tempos. Os nossos dirigentes têm revelado isso mesmo. Quem leu a carta do presidente aos benfiquistas e a entrevista do vice-presidente Alcino António a A Bola fica com a certeza de que temos um rumo e de que o projecto traçado será para cumprir. Quem viu a entrevista d director executivo do Benfica, Domingos Soares de Oliveira, à BTV concluiu que somos uma instituição credível, que honra os seus compromissos com os sócios, adeptos, parceiros e investidores. Luís Filipe Vieira, Alcino António e Domingos Soares de Oliveira são três bons exemplos de gestores que nos fazem acreditar na superação desta crise."

Pedro Guerra, in O Benfica

Os meus dois países

"Foi assim que Rui Costa sintetizou o que sente quando pensa em Itália e Portugal. Não é para menos, vindo de quem orgulhou a Luz e o Benfica por ser o 'Maestro', assim baptizado nos campos de Itália pelas multidões de adeptos deslumbrados e assim celebrado nas terras lusas a quem deu tantas alegrias e conquistas.
Mas Rui Costa dá provas de que a inteligência demonstrada no jogo ia muito além do relvado e alcançava o coração dos adeptos também muito para lá dos golos. Uma profunda humildade e um sentido humano de serviço aos outros e à sociedade fizerem desde sempre deste ídolo futebolístico um exemplo e um modelo que a muitos inspirou e continua a inspirar.
É assim em Portugal, hoje como ontem, e foi assim também em Itália, onde arrastou as paixões latinas de futebol visceral com as cores do AC Milan e da Fiorentina. Ali jogou, encantou e apaixonou, dando alma à mítica dupla Rui Costa - Gabriel Batistuta e permanecendo bem vivo nas memórias e no coração dos adeptos. E tem boas razões para isso, porque antes em Itália, agora em Portugal, e hoje com o covid-19, no Benfica e na Fundação, com a sua acção solidária, mostra bem que no coração de um jogador, mais do que dois países, cabe um mundo solidário!"

Jorge Miranda, in O Benfica

Dentro das quatro linhas

"A reunião de terça-feira abriu alguma esperança aos adeptos e em especial aos Benfiquistas, que, numa circunstância como a presente, mais conscientes estão quanto a que os resultados, as classificações e os torneios de Futebol se devam decidir, sempre e exclusivamente, dentro das quatro linhas.
Todos nós temos assistido meio indignados, mas também meio divertidos... como quem observa os palhaços na arena do circo, à generalizada campanha de descarado condicionamento da opinião pública através dos órgãos de comunicação, no sentido de criar clima para que o Futebol profissional acabasse à pressa com jogos e campeonatos.
Claro que o que está por detrás disso, numa extensão comunicacional daquele célebre 'acordo do Atlis' - agora alargado a 'jornalistas' e a comentadores avençados com pudor e pousados nas mais diversas plataformas de informação, é, objectivamente, e pio desígnio de levar ao colo duas entidades.
Seria a grande e miraculosa oportunidade para que se salvassem já de maiores infernos - tanto a 'saúdinha' financeira e, até, a pele do caudilho e seus acólitos num clube do norte do país, como as poucas-vergonhas dos calotes que, definitivamente, também parecem ter passado a ser o registo comportamental normal de um outro clube, aqui, do norte de Lisboa...
Foi vê-los a perorar e a arengar teorias sobre as valências de 'um pontinho de avanço' sem jogar nada, ou, nos do outro lado, acerca dos 'benefícios da Covid' para sacar treinadores ao concorrente mais directo sem pagar coisa nenhuma...
É consabido que os pequenos criminosos (e os maiores...) sempre costumam aproveitar as ocasiões em que os seus alvos estão mais distraídos com outros fenómenos, para 'dar o golpe'. E sob essa perspectiva, acreditavam eles que a ocasião parecia mesmo tão boa aos mandatos, como mandantes deles - de um cajada conjunta, matavam-se vários coelhos.
Mas, na verdade, as coisas afinal não são assim tão simples: nem os palhaços mandam no circo, nem o Futebol se pode ganhar, sem 'lecas' e fora do próprio jogo, sobre a relva.
Quando o Futebol voltar, apesar deles, expedientes destes e outros ainda mais grosseiros, não irão faltar à comandita, certamente e estejam eles amancebados onde lhes derem guarida - nas TV, nas Rádios, nos Jornais, ou nas sarjetas da Web.
A eles e aos seus propósitos, parece que nunca lhes falta nada. Nem vergonha.
Mas, já agora, que não lhes falte mas é a saúde, para poderem continuar a lutar pela vida e a parecerem que são gente séria..."

José Nuno Martins, in O Benfica