Últimas indefectivações

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Ao Benfica é difícil ser Benfica

"O Benfica venceu 5 das últimas 6 Ligas e estamos insatisfeitos com Luís Filipe Vieira. O Benfica venceu 28 dos últimos 30 jogos para o campeonato e estamos insatisfeitos com Bruno Lage. O Benfica marcou 103 golos a época passada e nesta tem o melhor ataque e a melhor defesa e estamos insatisfeitos com os jogadores. A verdade é que o Benfica raramente é Benfica e por isso passamos boa parte do tempo insatisfeitos com o Benfica. Eu quase que aposto que a única vez que os benfiquistas estiveram verdadeiramente felizes com o clube foi em 2 de Maio de 1962 quando vencemos o Real Madrid por 5-3 e fomos bicampeões europeus. A partir daí foi sempre a descer.
É isto um mal dos adeptos da agremiação da Luz ou é extensível a todos os clubes? Sempre achei piada como o Nick Hornby no seu fabuloso livro "Fever Pitch" passa um capítulo a contar-nos o quão épico foi aquele golo do Michael Thomas em 1989 sobre o Liverpool no último minuto que lhe deu finalmente a conquista do campeonato que ele ambicionava há mais de 30 anos, a única coisa que perseguia desde criança, para no capítulo seguinte falar que "perdemos para o Benfica, fomos eliminados da Taça dos Campeões Europeus, e provavelmente nos próximos 30 anos não voltamos a viver nada disto". Isto é, ele passou 30 anos deprimido a querer o auge, teve o auge e rapidamente voltou à depressão. E que se engane quem glorifica esta estranha forma de viver: é isto a vida de um adepto fanático.
E é verdade. Eu estou insatisfeito com Luís Filipe Vieira. Porque não vejo nele o Benfiquismo e o esforço direccionado para a glória desportiva que queria de um Presidente. Duvido de algumas movimentações que me parecem pouco transparentes, como a recente OPA às acções da SAD em que vejo todos a saírem beneficiados, menos o clube, numa operação que poderá custar 32 milhões de euros. Estou insatisfeito com Bruno Lage porque a equipa joga pouco futebol como ainda agora se viu contra o Vizela e porque na Liga dos Campeões insistiu numa estratégia de rotação do plantel e de aposta em jovens jogadores claramente não preparados para o nível Champions. E que ainda no recente jogo contra o Leipzig, na elevada capacidade que tenho como treinador de bancada e de jogador de "Football Manager", me pareceu revelar uma ingenuidade tremenda ao não reforçar a defesa nos minutos finais em que os alemães atacavam Vlachodimos com todos os "panzers" em campo. E sim, estou insatisfeito com os jogadores que principalmente na Liga dos Campeões têm sido de uma ausência de atitude e crença notáveis, entrando em campo já derrotados e desmoralizados na competição que mais os devia excitar.
Significa isto que quero presidente, treinador e jogadores no olho da rua? Não, não quero. Para o primeiro é necessário que apareça oposição credível e isso passado 15 anos continua a não existir (até porque muitas vezes foi absorvida). E quanto aos outros há potencial para melhorar um cenário que não é tão negro assim. O Benfica vai muito provavelmente ser eliminado das competições europeias, mas a nível nacional há qualidade suficiente para o bicampeonato. E se o alcançarmos ficaremos felizes, pois manteremos o que conquistámos nos últimos anos. Então porquê o desapontamento? É que não demos passos em frente. Não elevamos o nível. Não estamos mais próximos do pico, do auge que muitas vezes um adepto de futebol só sente uma vez na vida. Como o Nick Hornby sentiu em 1989 ou os adeptos do Flamengo sentiram no passado fim-de-semana. O tal pico para um Benfiquista é a conquista de uma taça internacional e o Benfica está cada vez mais longe disso.
Mas a vida de um adepto é esta: no próximo fim-de-semana lá estaremos no estádio. E no próximo. E no próximo...meio irritados, meio deprimidos, meio entretidos, meio expectantes, meio entusiasmados...a acreditar que um dia, num glorioso dia, viveremos o pico. O auge. O dia em que por uns breves momentos tudo faz sentido. Em que o tempo pára. Em que avistamos o paraíso. E depois? Depois provavelmente passaremos 30 anos a resmungar que o pico já passou e não volta mais..."

Antevisão SL Benfica – CS Marítimo: um jogo que é uma gota de água num oceano de jogos

"Na ressaca da eliminação da Liga dos Campeões, o SL Benfica recebe o CS Marítimo, na ressaca do despedimento de Nuno Manta Santos e da contratação de José Gomes, ex-Rio Ave FC e ex-Reading FC. Na Luz, defrontam-se duas equipas a precisar de vencer, não apenas para recuperar da ressaca, mas também para fugir dos perseguidores – os da casa – e da linha de água – os forasteiros.
No regresso da pausa para selecções, a turma de Bruno Lage mostrou duas faces e conheceu dois resultados. Na visita a Vizela, a exibição encarnada foi deplorável, mas a vitória (suada) não escapou. Em Leipzig, as águias voaram alto, mas caíram com estrondo, vendo confirmada a eliminação da liga milionária em escassos minutos. No fecho de uma semana assim, só a soma de uma vitória com uma exibição portentosa pode ter como resultado o agrado dos sócios e adeptos.
Mais premente se torna a necessidade de vencer e convencer este jogo caseiro – no regresso a casa e na estreia do novo relvado – quando colocado em perspectiva com o ciclo de jogos que o sucede. A recepção aos madeirenses não é apenas o fecho de uma semana difícil – é o início de um ciclo de muitas e árduas batalhas, em várias frentes.
Até ao final de dezembro, as águias decidem o seu futuro na Taça da Liga, na Taça de Portugal e nas competições europeias, defendendo em simultâneo o título de campeão nacional em partidas, por exemplo, frente ao Boavista FC ou ao FC Famalicão. Perder pontos em casa seria – ainda mais – inaceitável, nesta conjuntura.
Além de vencer e convencer, será preciso gerir a equipa de forma inteligente, para que esta possa enfrentar com frescura o ciclo de jogos que encerra o ano civil. A poupança maior (a la Black Friday) será, por certo, na terça-feira, na visita à Covilhã para a Taça da Liga. Todavia, depois da exigente partida na Alemanha, é provável que Bruno Lage altere algumas peças, fazendo ingressar no onze Florentino e, quiçá, Raul de Tomás.
O setubalense terá que delinear bem a estratégia, mais do que a táctica, para a recepção ao Marítimo e para os jogos seguintes. Um trabalho complexo mas importante, que, se se revelar frutífero, poderá conduzir os encarnados a um ciclo vitorioso que pode ser um dos mais importantes passos rumo a uma época positiva. No entanto, se os planos saírem gorados, o ciclo de dezembro, mais do que invernal, pode revelar-se infernal. E se o for, as consequências que disso advierem serão muitas e gravosas, para o conjunto e para as individualidades."

Desafio decisivo


"Hoje estou a escrever directamente de uma conferência em Vilnius. Treinadores, ex-jogadores, analistas, pessoas ligadas ao futebol, apresentam trabalhos e opiniões provenientes das mais diversas regiões da Europa. Para mim, é particularmente feliz regressar, 11 anos depois, a uma casa em que trabalhei. os jogadores de ontem são os treinadores e dirigentes no momento. Têm um trabalho enorme nas mãos, pois o nível de jogo necessita de ser melhorado e a qualidade da competição interna também. Mas não é sobre o plano de desenvolvimento ou de qualquer estratégia que quero hoje escrever. O que me interessa é salientar as relações humanas, que são a base de construção de qualquer equipa de futebol, de um clube ou de uma federação. Quando se esquece, e principalmente não se respeita, todos os seus elementos, estamos a inviabilizar acções presentes, mas também futuras. O mundo está mais pequeno, no sentido em que está mais próximo, mais global, mas também com desafios e conflitos diferentes! Não é comum que um nosso capitão da Selecção Nacional seja presidente da Federação, que outro tenha sido seleccionador, vários nas Direcções dos clubes, e dessa forma que se tente partir para um projecto de recuperação, de uma modalidade que não é a de maior destaque interno, mas a que já consegue ter mais praticantes. As relações humanas estabelecidas na década passada são agora fundamentais para estabelecer um clima de confiança entre todos estes elementos, que são decisivos para o sucesso da reforma que pretendem implementar. Todos eles percebem que o caminho não se pode fazer de forma isolada, contudo ainda não conseguem garantir que o façam juntos. Este é um percurso decisivo, que obriga a decisões difíceis, por vezes sem a concordância de todos, mas que só atinge um nível interessante se for inclusivo. As relações estabelecidas entre eles são agora fundamentais para que um projecto nacional seja bem sucedido. Esta geração atingiu o maior sucesso dentro do campo, agora vamos ver se o consegue fora dele."


José Couceiro, in A Bola

Cadomblé do Vata (patins...)

"Os resultados do SL Benfica na presente Liga dos Campeões estão a ter efeitos devastadores no clube. Primeiro, porque já era altura de mitigarmos as eternas saudades que temos de uma presença condigna na competição; depois porque os desaires europeus estão a deixar os Benfiquistas com os nervos tão em franja que até a excelente série de resultados internos é por eles diminuída: por fim porque com os olhos apenas postos nos 7 minutos do Caio Lucas, ninguém repara que nos preparamos aceleradamente para abandonar o hóquei em patins, o que para mim é uma facada no coração.
Na minha juventude, o hóquei em patins era a minha segunda modalidade, uns bons degraus abaixo do futebol e dois ou três acima das noites europeias do basquetebol. Melhor do que ver Dominique Wilkins soçobrar aos triplos de Lisboa e ao atleticismo de Jean Jacques, só ver a patinagem artística do cinco Fernando Almeida; Paulo Almeida, Vitor Fortunato, Luis Ferreira e Rui Lopes, bem secundados pelo gordinho Godinho, pelo esguio descabelado Ramalho e por Ricardo Pereira quando Rui Lopes deu à sola para a Coruña, que sob o controlo do Dantas pim, ia dominando o panorama nacional contra o Barcelos dos Alves e discutindo a supremacia europeia contra os catalães de Igualada. Infelizmente, como todas as modalidades do clube, excepto o pólo aquático, também o hóquei sofreu na pele a passagem do vulcão Azevedo e perdeu o domínio caseiro para um super FC Porto, malgrado termos nas nossas fileiras um Maradona sobre rodas e o mano Batistuta Velasquéz.
Após longos 13 anos a penar, o Glorioso comandado por Luis Sénica e mais tarde Pedro Nunes, voltou a conquistar o ceptro nacional e agarrou duas Ligas Europeias, para depois fazermos um Seppuku extremamente bem conseguido, quando revoltados com uma arbitragem, entregamos uma Taça de Portugal ao FC Porto por falta de comparência, numa bizarra decisão cujos benefícios estão hoje à vista: zero títulos desde o desvario e tudo como dantes no quartel de Abrantes. Aparentemente, não contentes com este momento de rara beleza desportiva e de exemplar espírito Benfiquista, estamos a preparar, com o mais revoltante beneplácito da Nação Encarnada, o fecho da secção de hóquei masculino profissional, porque a Federação e os árbitros e os adversários e os adeptos e tudo e tudo e tudo são maus para nós.
Falando-se actualmente tanto em exigência, qualquer coisa que não seja reforçar o investimento na modalidade e ganhar tudo para esfregar nos dentes de quem achamos que nos ataca, é do mais pura anti benfiquismo possível. "Eles são mauzões e eu fujo com o rabinho entre as pernas" é de coninhas. É de gente que em 1991 tinha chorado no balneário empestado das Antas, entrado no autocarro e de regresso a Lisboa feito queixinhas à mamã, enquanto na Avenida dos Aliados se festejava mais um campeonato. Não vejo outra forma de colocar a questão: é para acabar com o hóquei? O caralho é que é! O hóquei é para ser campeão este ano, ganhar a Taça de Portugal e a Liga Europeia fodasse! E festejar forte e feio! Nem que seja preciso desviar dinheiro do orçamento do futebol para reforçar a equipa. É para cima deles!"

O Brasil tenta com todas as forças manter o estado das coisas

"Nunca estive no Brasil, mas imagino que deva ser um país encantador.
Que outra justificação pode haver para D. Pedro ter abdicado do trono cá em Portugal para ficar no Brasil? De onde só saiu, aliás, o tempo estritamente necessário para dar uma tareia no irmão, que andava com a mania das grandezas, e voltou logo a correr para casa.
Por ser assim, um país tão encantador, deve ser fácil aos brasileiros tornarem-se arrogantes.
Os brasileiros que conheço são pessoas simpáticas, mas quando penso nos brasileiros enquanto povo não consigo afastar esta ideia de que são altivos e presunçosos.
Por exemplo nas piadas sobre portugueses. Ou na ideia de que não há outra cidade no mundo como o Rio. Ou até naquela certeza absoluta que eles têm de que são os melhores no futebol.
Já foram, sim, mas hoje não: hoje há gente que lhe dá uma surra em noventa minutos.
O Brasil continua a ser a pátria de um talento sem igual: todos os dias nascem verdadeiros prodígios com a bola nos pés, craques de futebol, de arte e de criatividade.
Mas a verdade é que isso não se traduz na qualidade do futebol brasileiro, do campeonato brasileiro ou da selecção brasileira. O campeonato brasileiro é fraco, aliás, tem muita luta, pouco futebol e um número escasso de oportunidades de golo.
Faz lembrar o futebol europeu de há vinte anos.
A selecção, essa, é pentacampeã mundial, mas hoje vive apenas do passado: o último título foi há quase duas décadas. Desde então, só deu verdadeiramente nas vistas quando sofreu sete golos em casa da Alemanha. Tem bons jogadores, lá está, mas não tem qualidade colectiva.
Mas que razão pode haver para este distanciamento entre a qualidade dos jogadores e a qualidade do futebol brasileiro?
Basicamente a altivez que falei logo no início desta crónica.
O futebol brasileiro ficou parado no tempo: os treinadores vivem na viragem do século e estão totalmente ultrapassados. Apesar disso, não fazem nada para mudar este estado de coisas.
Pelo contrário.
Se houve coisa que Jorge Jesus mostrou, foi precisamente isso: os treinadores brasileiros estão ultrapassados e não querem adaptar-se aos novos tempos. Continuam a jogar um futebol físico, com dois médios defensivos sem capacidade criativa, não sabem posicionar-se correctamente para a transição ofensiva e defendem as bolas paradas com marcações individuais.
Apesar disso, e em vez de olharem para Jorge Jesus como um alerta, olham para ele como uma ameaça. O que os leva a menosprezar o trabalho do português: que tinha o melhor plantel, que tinha mais dinheiro do que os outros, que foi empurrado pelos adeptos.
O que me obriga a estabelecer um paralelo entre o Brasil... e a Inglaterra.
Há coisa de vinte e cinco anos, o futebol inglês era feio, porco e mau. Os clubes já tinham dinheiro, mas os jogos eram muito físicos, muito atléticas, pouco espectaculares.
Inglaterra teve, no entanto, a humildade de perceber que estava mal – e vale a pena lembrar que é o país que inventou o futebol –, quis aprender, quis modernizar-se, quis ser melhor.
Encheu o campeonato de jogadores e treinadores estrangeiros, que trouxeram mais nível técnico, ideias mais claras, uma abordagem mais moderna.
Hoje o campeonato inglês é o melhor do mundo e até a selecção volta a fazer sonhar os adeptos. 
Inglaterra teve a humildade de reconhecer que não estava bem, que tinha de aprender com os estrangeiros, que estava obrigada a mudar. O Brasil teve em Jesus a prova de que não está bem, de que não tem conceitos que acompanhem o talento, mas recusa-se a mudar.
Pelo contrário, luta com todas as forças para manter exactamente o estado das coisas."

Jorge Jesus | Bem-aventurados os varões que joguem bonito

"O ego é algo presente em qualquer colectivo. É sempre a partir de um que existe um grupo. É no aglomerado de singular que algo plural tem existência. Uma equipa, na índole desportiva (e não só), pressupõe uma ideologia, por muito passageira que seja. Um ego comum.
Jorge Jesus é um ego absoluto. Há relatos que sempre o foi. Um individuo fiel à essência que compõe a sua mente e forma de pensar. Há quem tenha a “panca” por motores, há quem tenha o interesse por electrónica, há quem tenha a paixão por desporto, etc.
Jesus é um sujeito genuíno. Posso muito bem ser infeliz em debruçar-me sobre uma personalidade que conheço através do virtual, e não do real, mesmo sabendo que o primeiro tem a intenção de reproduzir o segundo. Porém, sempre de forma, por muitas vezes que possa ser reproduzido, parcial. 
Numa era em que a carreira de treinador assume uma popularidade e adesão imensa, o “português que redescobriu o Brasil” vem dos primórdios da profissionalização desse cargo. Vem do mais raso possível. O que o fez ser técnico deu-se ainda quando era atleta. Foram-lhe reconhecidas qualidades de liderança. Conhecimentos profundos em relação a aspectos tácticos. Um talento em potenciar colectivo.
Inserido num meio futebolístico, completamente enraizado na cultura portuguesa, quer se queira, quer não, quer se goste, ou não. Foi habituado, obrigado a transformar recursos escassos em resultados imediatos. Afinal, a vida de treinador profissional obriga resultados efectivos.
Chega ao grande palco, ao mediatismo absoluto, com a chegada ao Benfica. Em 2009, chega a um clube com recursos respeitáveis, mas cujos resultados não directamente proporcionais a tal. Pega num emblema recheado de êxitos, de glórias vividas maioritariamente a preto e branco.
Como é sabido, a sua chegada foi impactante. O sucesso foi imediato, e muito mais admirável que isso: surpreendeu. Poucos se lembravam de ver o Benfica jogar à bola como o fez com JJ. Em 2005, foi alcançado o campeonato, é certo, mas o título de 2010 foi muito mais do que resultado. Deu-se uma transição bastante clara. Foi um marco de mudança, não apenas no restabelecimento do estatuto do clube, que se perdia no tempo, ou se readquiria, de forma pontual, mas de um aumento significativo nas ambições dos encarnados, tendo em conta a hegemonia de um FC Porto sólido e extremamente bem-sucedido. Reergueu um estilo de jogo característico de outros tempos, de tempos quase esquecidos. Mas muito criticado, mesmo assim.
Ainda mais mediática, foi a sua chegada ao Sporting. Daquelas bombas de mercado que agitam até o simples simpatizante. Então em Portugal, sendo um país em que matérias do quotidiano futebolístico prevalecem sobre muitos temas de inquestionável interesse público, ainda mais.
O Sporting também não ganhava há muito. É certo que isso não mudou, mesmo com Jesus. Contudo, a sua marca no universo leonino é inegável. Mesmo batendo o recorde de pontos alcançados pelos leões em campeonatos, não foi possível sobrepor-se aos adversários. “Jogaram como nunca, perderam como sempre”. Fora rivalidades, torna-se algo factual, e muito característico do espírito sportinguista recente.
Só sai de Portugal por motivos drásticos. A sua saída de Portugal foi uma consequência. Um único ego, da mesma forma que é capaz de contribuir, construir, orientar; também pode ter o efeito contrário. E os egos não se medem por igual, cada um tem um peso específico, evidentemente.
Penso que a sua ida para a Arábia tivesse carácter temporário. Sem mercado nos três grandes, os únicos com capacidade viável de acolher o mestre da táctica, fê-lo então procurar alternativas fora de portas. Workaholic como é, parar certamente não foi sequer ponderado.
Descobriu que em tempos de globalização, sair de um sítio que nunca imaginou abandonar não é o que pensava que seria. Ir para uma cultura completamente diferente, deixar o seu círculo próximo de amigos, deixar o seu habitat, a sua zona de conforto.
Alargou a sua perspectiva em relação a muitas coisas. Compreendeu, certamente, o mundo globalizado, que talvez não representava mentalmente de uma forma ampla e mais próxima da realidade.
Sustenta, na sua forma de estar, que juventude é mentalidade. As qualidades, fundamentalmente as de relação interpessoal, foram aprimoradas. Tornou-se mais terra a terra. Fiel à sua essência, implementa no futebol da sua equipa a sua energia, o seu know how metódico, jogador a jogador. Faz conhecer a função de cada um no onze.
Chegou ao Flamengo, com óbvias intenções. Conheceu o projecto, sugeriu soluções, que foram prontamente acedidas pela direcção.
Foi notório que a sua arrogância nunca a tinha sido. Foi sim, interpretada como tal. Essa arrogância é, afinal, uma segurança muito própria do que sabe, e quem pedia as suas respostas era como se falasse uma língua diferente. Essa dita arrogância vinha ao de cima, pois as perguntas feitas, pouco ou mesmo nada se dirigiam ao núcleo desportivo. Ao que interessava verdadeiramente. E isso deixava-o possesso.
No Brasil, vimos em Jesus um homem que não apenas redescobriu uma filosofia de jogo perdida, um continente em que a retranca abolia a ginga fluída característica dos sul americanos. Redescobriu-se a si mesmo. Agora que soube contornar as ratoeiras em forma de pergunta, e evitar os confrontos que as mesmas impunham. O reconhecimento é obtido em duplo sentido. Preferiu fazer-se ignorante a ripostar verbalmente. Foi assertivo à sua bela maneira. Falou com bola, menos com boca. Mas claro que não se conteve, e desabafou em certos momentos. Mas, desta feita, em momentos oportunos. Toda a pressão que impede o resultado pretendido irá sempre existir, a “comitiva” de imprensa é o tribunal do futebol. E um treinador sempre se irá sentar ora como testemunha, ora como suspeito, indiciado, arguido ou réu. Depende do cenário. Dos números.
Toda a sua competência é finalmente reconhecida em absoluto. Hoje está bem cotado para subir à elite máxima. Chegou tarde, mas também chegou ao mais alto nível há dez anos. Mas também há mérito nos níveis mais baixos. Também se trabalha e existe pressão nesses patamares. Não tanta, mas qualquer emprego depende de um desempenho, do serviço prestado.
Por ser Jesus de nome, os brasileiros, no geral, pensaram logo em crucifixo, fora trocadilhos por associação. Num contexto, numa cultura onde o futebol também pesa muito, as pressões são constantes. A competitividade é imensa. Há muitas equipas candidatas ao título. As expectativas são altas, gerais e os despedimentos constantes.
A forma como desprezaram os méritos de Jorge Jesus foi maldosa. A maneira precipitada como avaliaram a chegada de um técnico experiente, cheio de conhecimento, cheio de vivacidade, dono de uma forma ímpar de desempenhar a sua função foi clara. Revelou-se pobre e desleal. Afinal, era um mero “portuga” … Alguém sem renome internacional. Para eles…
Perante o sucesso que ia obtendo, justificavam com a estrutura do Flamengo. Com os nomes que compunham o “time”. Com os laterais que trouxe. Com as contratações que efectuou. Foi difícil atribuir mérito. E agora, o que justifica este fim de semana passado? Libertadores, 38 anos depois; Brasileirão, dez anos após. E ainda com jornadas por disputar, já suprimiu o recorde de pontos do campeonato. Ainda restam argumentos?
Um treinador com um staff qualificado ao seu lado, a simbiose (João de) Deus e Jesus. Por muitos erros crassos que cometeu ao longo do seu trajecto, quer a nível de aposta formativa, quer a nível de discurso público, quer a nível de insistência desmedida numa dada ideia, a verdade é que tudo se tratou de um processo, que o trouxe até ao Brasil. Mais do que merecido. Deixou para trás várias frustrações decisivas. Vingou-se dos acréscimos de compensação. Desta vez os minutos finais trouxeram justiça para a sua equipa. Foi trabalho, apesar da sua idade supor decadência para os mais leigos. A idade é realmente um posto.
O português é patriota por natureza. Qualquer um se orgulha da história da pátria, que em séculos medievais, era olhada pela civilização europeia como o fim da terra, e o início do mar. Um povo que não resistia à ideia de se aventurar no desconhecido. Parafraseando o professor José Hermano Saraiva, “Os portugueses não têm raça. São uma anti raça.” São integradores e hospitaleiros, orgulham-se disso. Orgulham-se sobretudo do compatriota que eleva bem alto o nome da nação. Do compatriota que partilha dos mesmos valores e princípios. Do conterrâneo que vence assentando neles.
O oceano era tido como território nacional. O horizonte vislumbrado parecia tão perto e com fim à vista. Além da “sardinha de cada dia”, havia conquista possível além mar. E ao haver meios, evitemos rodeios.
Jesus, no século XXI, mergulhou de olhos abertos, e nadou até à terra prometida sem sequer pestanejar. Superou o adamastor em forma de xenofobia alheia sem rodeios. Com um carácter de fé, cultivou o seu olhar sobre o jogo que mais o apaixona. Já não lidou com Renato Gaúcho como fez com Rui Vitória, Tim Sherwood ou Lopetegui. Resistiu ao irresistível, e preferiu propagar a fé. Não a fé de Cristo, como era o intuito dos navegadores, mas a fé do joga bonito de Ronaldinho."

Mourinho, o Special London

"E enfim, Mourinho volta a treinar em Londres.
Surpreendente, não é? Pois, se calhar não. Aliás, não admiraria nada que lá para 2035, enquanto programamos o jantar para as oito através do telemóvel, ainda fôssemos interrompidos com uma notificação do género:
«José Mourinho é o novo treinador do Leyton Orient, da quarta divisão inglesa. Depois de passagens pelo Chelsea, Tottenham, Arsenal, West Ham, Fulham, Brentford, Dulwich e Barnet, o técnico português de 72 anos vai orientar novamente uma equipa londrina.»
Vê-se que ele gosta verdadeiramente da cidade, há ali paixão. E tal como um miúdo que perdeu a namorada que adorava, a Chelsea, ele vai continuar a namorar com todas as miúdas da rua para não perder a magia. Londres é a rua de José Mourinho, o Tottenham a sua nova Chelsea.
O Tottenham é, de resto, um enorme desafio para o treinador português.
O clube inglês tem 137 anos - quase tantos quanto a rainha – mas no plantel não existe nenhum galáctico como Ronaldo ou Pogba, pelo que Mourinho vai ter imensas dificuldades em chatear-se com alguém. Do que se irá alimentar a imprensa? Pior, do que se irá alimentar Mourinho? Não vai ser fácil.
Obviamente e por se tratar de um português, desejo-lhe toda a sorte do mundo. Os ingleses podem ter inventado o futebol, mas o Zé reinventou como se ele joga. No que depender dele, os monárquicos bigodes ingleses irão amochar frente à farfalhuda bigodaça tuga.
O início está a correr bem. Vitória sobre o West Ham e reviravolta na Champions frente ao Olympiakos. No final dos jogos Mourinho disse estar feliz e elogiou as equipas adversárias - o que me deixou bastante desapontado. Onde está o mister que espuma da boca? Não esperava uma desfeita destas. Espero que sejam apenas mind games.
Um desafio interessante para Mourinho é saber se conseguirá ficar muito tempo num clube mitra como o Tottenham: um clube que gasta menos de 500 milhões de euros em reforços não pode ter outro nome.Eu seria incapaz, pois detesto gentalha com vistas pequenas e bolsos fechados. Todos sabem que um jogador que custe menos de 100 milhões não é bem um jogador, é um boneco de matraquilhos, e já gasto. Onde ele se foi meter, coitado.
Mas o maior de todos os desafios será a carreira do Tottenham na Champions. Na época passada o clube chegou à final, com um golo a 10 segundos do término da meia-final.
Mourinho, sendo o Special One e querendo sempre superar os outros, vai tentar vencer a Champions, com um golo a um segundo do fim, marcado pelo guarda-redes, num pontapé de baliza, com o seu pior pé. E no fim vai dizer que foi assim porque ele quis. «As finais não são para jogar, são para ganhar, quando e como eu quiser.» E provavelmente será verdade.
Estamos contigo, Zé!

PS 1: Jesus é Deus no Brasil. Mas para ele isso é peanners.

PS 2: Fernando Santos foi eleito o melhor seleccionador do mundo. Por momentos achei que o vi a sorrir, mas não, era só aquele trejeito que ele faz com a boca."

Do pouco provável à preparação

"Começando pela chegada do novo treinador, Rui Fernandes, e desde o 9.º lugar conquistado no Campeonato do Mundo de 2018 realizado em Montemor-o-Velho que a presença nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 começou a ser uma grande possibilidade.
Após a chegada do técnico nacional Rui Fernandes e da introdução da sua metodologia de treino, observei um K4 com um desenvolvimento que, para além de rápido, demonstrou ser constante. A vontade e crer do treinador, aliada à nossa vontade, fez com que a época desportiva 2018/2019 fosse um sucesso, a nível do desempenho do grupo, comparativamente à época anterior (2017), na qual ficámos muito aquém no Campeonato do Mundo, não obtendo melhor do que a 17.ª posição, lugar que nos deixava afastados do apuramento olímpico caso fosse esse o ano da qualificação.
O aparecimento de óptimas exibições nas Taças do Mundo, com um 3.º lugar na primeira e um 6.º lugar na segunda, bem como um 4.º lugar nos Jogos Europeus, fez com que todos nós (treinador mais elementos do K4) estivéssemos seguros das nossas capacidades e que o apuramento olímpico fosse uma possibilidade cada vez mais provável.
Tal segurança no trabalho realizado, o espírito de grupo e o querer fizeram com que acabássemos a final do Mundial em 6.º lugar, obtendo a tão desejada vaga olímpica e ficando a meros 0,16 centésimos de segundo de conseguir um lugar no pódio.
Desta forma, sendo eu um estreante na maior e mais importante competição multidesportiva do mundo que vai decorrer na capital nipónica, Tóquio, vejo-me na obrigação de levar a minha preparação com um maior cuidado e uma atenção especial.
Uma vez que os Jogos Olímpicos são o apogeu de qualquer atleta, tendo esta prova a importância que tem, e sendo a experiência uma grande vantagem, busco procurar nos meus colegas de K4, Emanuel Silva e João Ribeiro, em especial no Emanuel Silva (uma vez que este irá participar nos seus quintos Jogos Olímpicos) todas as suas vivências e experiências que possam contribuir para a minha preparação. Ao nível que os atletas se encontram, acredito que serão os detalhes a fazer a diferença em Tóquio.
Para além de toda a ajuda que os meus colegas me podem oferecer, procuro a nível físico estar no meu ápice, sendo que para tal não basta seguir o plano de treino com rigidez. Há que ter um rigor alimentar aliado ao plano de treino. Tendo sempre em atenção aquilo que devo ou não ingerir, as suas quantidades e em que alturas é que posso ou não ingerir certos alimentos, pois há que ter a “máquina” bem oleada daqui a 35 semanas.
Já ao nível do foro psicológico é na família e nos amigos que obtenho todo o apoio e toda a força que necessito para enfrentar os obstáculos que vão aparecendo dia-a-dia, sendo eles um apoio fundamental na minha preparação.
Espero desta forma conseguir atingir aquilo que desejo. Uma performance irrepreensível que me orgulhe tanto a mim como aos portugueses."

Antevisão...

Festas das Casas

"Será já amanhã, com o Marítimo às 18 horas, que a nossa equipa voltará a actuar no Estádio da Luz, 28 dias depois dos três pontos conquistados ante o Rio Ave, por 2-0.
Entretanto foram disputados quatro jogos fora de portas, com destaque para a vitória no campo do Santa Clara – a 14.ª consecutiva em deslocações a contar para o Campeonato Nacional, sendo o terceiro melhor registo de sempre do Benfica. Na passada quarta-feira foi a vez de Leipzig, onde, apesar do triunfo nos ter fugido nos últimos minutos, ficou bem demonstrada a qualidade da nossa equipa.
O jogo com o Marítimo será especial por ser dedicado às Casas do Benfica, no âmbito de uma homenagem anual, que já se tornou tradição, a quem se empenha diariamente no crescimento do Clube e na implantação do benfiquismo aquém e além-fronteiras.
Para esta partida, foram vendidos, até ontem ao final da tarde, 6264 bilhetes nas Casas do Benfica. Serão 2640, em 48 autocarros, os benfiquistas que chegarão ao Estádio através de transportes das Casas, das quais 132 estarão representadas no desfile que será feito no relvado durante o intervalo da partida.
Mas o dia será também de trabalho para as Casas do Benfica, o qual terá início às 14 horas com a recepção no auditório do Museu Benfica – Cosme Damião e uma reunião de trabalho, cuja duração prevista será de duas horas, com a presença do Presidente Luís Filipe Vieira e do vice-presidente Domingos Almeida Lima, na qual serão atribuídos prémios de performance e mérito às Casas relativos a 2018/19.
Uma nota ainda para a particularidade de o jogo com o Marítimo ser o 50.º de Bruno Lage à frente da equipa A do Benfica e, caso o nosso treinador opte pela utilização de Pizzi, este completar 250 jogos de águia ao peito em competições oficiais.
São muitas e boas as razões para vir ao Estádio da Luz, e recordamos aos detentores de Red Pass que, caso não possam marcar presença no Estádio, podem partilhar o seu lugar. O Estádio cheio e o apoio vibrante e incessante do início ao fim da partida serão certamente fundamentais para que a nossa equipa consiga ultrapassar mais um obstáculo na longa caminhada que se deseja rumo ao 38. #PeloBenfica

P.S.: A Federação de Patinagem de Portugal notificou a meio da semana a interdição do Pavilhão da Luz por dois jogos de forma a impedir qualquer recurso que fosse a tempo por parte do Sport Lisboa e Benfica. O sentido persecutório vem em linha com tudo o que se tem passado nestes últimos anos nesta modalidade. Convidamos todos a assistir às imagens de diversos lances – por exemplo dos dois últimos jogos – da nossa equipa de hóquei em patins para verificar as decisões incompreensíveis e escandalosas de arbitragem que envergonham qualquer um. Campeonatos falseados, total dualidade de critérios em arbitragens sucessivas leva a que a cada dia que passa ninguém leve a sério uma competição viciada na sua verdade desportiva e com uma Federação que faz gáudio da sua provocação ao SLB e reconhecida subserviência a outros."

Federação Gangster....!!!


Aquecimento... Valido, Bernardo & Matias

Fever Pitch #26 - Marítimo na Luz...

Benfiquismo (MCCCLXVII)

Por cima...

Um plano quase perfeito

"A estratégia foi muito bem interpretada e os golos alemães surgiram em decisões individuais

Muito inteligente
1. O Benfica, na minha opinião, foi perfeito na forma como conseguiu anular e condicionar os alemães, com toda a equipa muito comprometida, jogando com um bloco mais baixo e de trás para a frente, com Vinícius sempre como primeira referência em termos ofensivos. Um jogo muito inteligente, com o onze de Bruno Lage a demonstrar sempre preocuparão em estar equilibrado, até ao período em que surge o penálti e depois o segundo golo do Leipzig, que acaba por ser algo ingrato para aquilo que o Benfica fez, malgrado, num determinado período da segunda parte ter defendido com muitos jogadores na zona da entrada da área. Mas, no computo geral, o Benfica esteve muito bem na forma como abordou o jogo, com os jogadores a interpretarem quase na perfeição o plano elaborado por Bruno Lage para esta partida.

Primeiro bloco de cinco
2. O Leipzig apresentou-se no seu habitual esquema de 3x5x2, com o qual o Benfica não está muito habituado a lidar, uma vez que, em termos nacionais, são poucas as equipas que jogam neste sistema táctico. Porém, a estratégia de Bruno Lage de colocar uma primeira linha de bloco com cinco jogadores - Cervi, Chiquinho, Gabriel, Taarabt e Pizzi - conseguiu cortar as acções do Leipzig. A estratégia foi muito bem interpretada e os golos alemães acabam por surgir em tomadas de decisão individuais, com Rúben Dias a estar os dois lances - primeiro no penálti, num deslize que decorre de movimentos de arrastamento por parte dos avançados contrários, e depois pela falta de cobertura da zona onde normalmente entra um médio após cruzamento.

Lage e as substituições
3. Os alemães, por norma, são muito intensos, mas sentiram muitas dificuldades em desmontar o Benfica. Agora, depois do jogo ter terminado com este resultado (2-2), é fácil dizer que Bruno Lage poderia ter mexido na equipa mais cedo e ter colocado em campo, por exemplo, Florentino no meio-campo, mas nenhum treinador vai fazer substituições no pressuposto de que pode sofrer dois golos nos últimos minutos.

Destaques individuais
4. Em termos de destaques individuais palavras para Vlachodimos, Pizzi e Carlos Vinícius. O guarda-redes fez diversas intervenções de qualidade a negar golos alemães, enquanto o internacional português, além do golo, esteve sempre esclarecido e saiu com critério para o ataque. Quanto ao brasileiro, teve trabalho específico para ser ele a referência de saída para o ataque e ainda anotou um golo. Em suma, um plano que se não foi perfeito porque o jogo terminou, injustamente, empatado."

Domingos Paciência, in A Bola

'Pássaro' fugiu...

"O melhor Benfica não teve azar... ai o poder atlético! Jorge Jesus fazedor de campeões (friso o que mais lhe admiro). 'Estrelinha' pagou agora tanto que lhe devia...

Melhor Benfica deste 1.º terço da época esteve pertinho do muito difícil: vencer em casa do forte Leipzig, líder do grupo e 2.º na liga alemã. O melhor Benfica, com ganas, rigor táctico, estratégia. Teve o pássaro nas mãos: vantagem de 2-0 a escassos minutos do final! E deixou-o fugir! Não falem em azar; sim no mérito germânico, em poderosa cavalgada - mudando o seu modelo de ataque para consecutivos cruzamentos sobre a grande área -, e na habitual inferioridade benfiquista quando é preciso apelar a... poder atlético. Estatura, peso, músculo no choque - desde logo, e muito, o meio-campo, nas refregas por posse de bola, sem a qual quase sistematicamente se anda... para trás; e tanta constante alta pressão sobre a retaguarda estava mesmo a ver-se que iria dar naquilo: penálti indiscutível (outro, na 1.ª parte, cometido por Grimaldo, passara em claro) e rasgão no centro defensivo no cabeceamento para empate.
O melhor Benfica desta época, tendo roçado crucial triunfo, foi insuficiente.

Jorge Jesus. Que é grande treinador já todos sabíamos. Várias vezes lhe critiquei, e com firme dureza, despautérios de egocentrismo. Sempre separando essa nefasta característica dos rasgados elogios à extraordinária qualidade técnica/táctica. O que acaba de fazer no Flamengo, em fulgurante mão cheia de meses! - antes de conquistar a Champions sul-americana (!!!), virou atraso de 8 pontos, à sua chegada, em avanço de 13 (!) sobre o Palmeiras que, com Scolari, era campeão; Scolari teve de sair, face à brutal ultrapassagem... -, plenamente confirmou, no dificílimo ambiente do Brasil para um treinador estrangeiro, o que há muito vejo em Jorge Jesus: fazedor de campeões!
Agora, no Flamengo, histórico gigante, mas quase esquecido do seu último título, reergueu Rio de Janeiro, futebolisticamente há muito a pão e água, e deixou a léguas as habitualmente poderosas equipas de Porto Alegre - vide Grémio do rezingão Renato Gaucho, que levou uma sova de 5-0 numa meia-final! -, tal como todos os grandes rivais paulistas; do Palmeiras ao Corinthians, passando pelo Santos. Monumental banho! Épico, face ao ponto de partida! Sim, fazedor de campeões. Assim foi no Benfica, que somava anos de jejum e com ele venceu logo na 1.ª época (o mais esfusiante futebol que Portugal viu em largos anos); dos fracassos, até mais 2 títulos consecutivos, falarei a seguir. E assim quase foi no Sporting por ele vigorosamente ressuscitado para ambicioso futebol de ataque (na 1.ª temporada, vice-campeão, num renhidíssimo duelo que obrigou o Benfica de Rui Vitória a recorde de pontos!; depois, enorme turbulência sportinguista ter-se-á tornado insuperável...).
Friso o que mais admito em JJ e define um treinador: a sua capacidade para transformar jogadores medianos em excelentes. Exemplos não faltam. De Di Maria, bailarino para a bancada, fez craque a sério. A Fábio Coentrão salvou carreira: não passaria de pseudoartista como avançado (andava de empréstimo em empréstimo...) virou-o em forte defesa esquerdo (rumo ao Real Madrid!). Matic chegou à Luz como n.º 8; pela mão de JJ, a quem várias vezes agradeceu, tornou-se estupendo n.º 6 (e, de seguida, o preferido de... José Mourinho). Para mim, ainda mais espectacular: Enzo Perez, de banalíssimo extremo-direito para muito bom... médio central! (titular na Selecção argentina e, claro, no River Plate - tão bem se percebe porquê, na véspera da grande final, Enzo adjectivou JJ como monstro da táctica e, antes de começar o jogo, para ele correu num comovido abraço que disse tudo. E com que treinador teve Bas Dost o seu apogeu?... E Gabigol, puro fiasco no Milan e, em 6 meses, no Benfica?...

Minuto 90+2. Para conquistar o troféu que todo o futebol sul-americano mais deseja (Flamengo levava 38 anos sem o vislumbrar!...), Jorge Jesus teve a estrelinha que lhe virara costas no célebre final de época em que, de rajada, perdeu título nacional e Liga Europa... em ambos os casos ao minuto 90+2. No Dragão, naquele pontapé que Kelvin, vindo do banco, nunca arrancara - e a sua carreira por aí se ficou (escassos minutos antes, JJ falhara ao pôr em campo Roderick, réu no início do lance decisivo?; em tais circunstâncias, visando segurar título tão à vista, sensata decisão para qualquer treinador). De imediato: final com o Chelsea (excelente exibição de ataque, num Benfica de raiva), 1-2 quando cabeçada de Ivanovic, num canto, prosseguiu fatídica sina do minuto 90+2... E eis que, em Lima, aos 89 e... 90+2, a tal estrelinha pagou a JJ o muitíssimo que lhe devia!"

Santos Neves, in A Bola

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

A hora do Benfica

"A fortuna havia protegido o Benfica até ao minuto 75. O Leipzig criou mais, foi melhor equipa, mais rápido, mais pressionante e mais agressivo. O Benfica teve o mérito de ser sempre realista – Percebeu e aceitou a superioridade adversária e estrategicamente baixou, agrupou jogadores e esperou os momentos para poder ser feliz – Sempre partindo de uma segurança defensiva, sem a qual seria trucidado.
E se a fortuna protegeu os encarnados durante longo período da partida, no momento em que o jogo se abria e se exigia qualidade, os encarnados falharam rotundamente. O Leipzig perdeu organização e o Benfica por diversas vezes teve condições de sair para matar o jogo. Ou se não matar, para se instalar no meio campo ofensivo aproveitando a demora adversária na recuperação defensiva e com isso ganharia Tempo.
O nível Liga dos Campeões não se compadece com jogadores que mesmo tendo momentos de boa performance, não seja regulares na tal demonstração de qualidade. No nível Champions, saber Ver – Decidir e depois Executar é tudo.
Pode dar-se as voltas que se quiser para justificar as performances europeias dos encarnados – O que salta à vista é, no entanto, óbvio e não foge nunca de deficits de decisão / execução (técnica e veloz). Não terá sido por isso que do outro lado se falou de respeitar um “David” que jogaria com um “Golias”?"

O mal estava feito

"Em condições normais, o Benfica empatar o jogo em casa de uma das melhores equipas alemãs da actualidade seria um resultado muito positivo. Até porque, em jogos da Taça/Liga dos Campeões, somava 11 derrotas noutros tantos encontros. O mal foi feito antes – nos jogos em casa com os alemães, em São Petersburgo e em Lyon. Como se previa está a ser um grupo muito equilibrado, com todas as equipas a perderem muitos pontos – e o problema para o Benfica foi que perdeu demasiados, somando uma série de exibições muito abaixo do exigido a este nível. Acabou-se a Champions, ficou a lição.
Bruno Lage é o réu que está, há muito tempo, em julgamento pela má campanha do Benfica na Champions e teria sido de novo o saco de pancada em caso de derrota na Alemanha – lançar Taarabt no lugar de Florentino teria sido o rastilho que bastava. É verdade que teve opções bastante questionáveis – como deixar André Almeida, Pizzi ou Rafa no banco em vários jogos – mas o plantel dos encarnados (muito provavelmente o melhor em Portugal) está ainda bastante longe da ambição europeia anunciada por vários responsáveis do Benfica, ainda para mais quando não pode contar com o futebolista mais desequilibrador (Rafa) e o melhor marcador (Seferovic)."

Um jogo de futebol não é aspirar a casa

"Generalizou-se a crítica: não se pode gostar mais de um estilo de jogo que de outros, como se havendo muitas maneiras de cozinhar bacalhau tivéssemos de apreciar igualmente todas elas. Não, a ditadura não é a dos que apreciam particularmente o jogo de iniciativa, feito de passe e posse, no conceito de jogo posicional desenvolvido a partir de Cruijff e particularmente com Guardiola. Aliás, nem é isso nem o seu contrário, que seria, por exemplo, um jogo feito de ataque à profundidade com duelos físicos sucessivos ou então a aposta numa organização defensiva forte e em saídas para o contra-ataque. Não, o que é proposto como alternativa a um tipo de jogo, é apreciarmos, à vez, todos os tipos de jogo. Ora, não faz sentido que a antítese de uma coisa seja todas as outras coisas, falemos de futebol, de música, cinema ou a literatura. Apreciar as artes, e o futebol tem tanto disso, com enormes artistas, nunca pode ser o mesmo que descrever as qualidades de um berbequim ou aspirador, em que o que conta é só o efeito, se fura a parede ou limpa o pó. No futebol tem-se falado demais de eficácia e desprezado a beleza, e nunca uma arte se pode esgotar na dimensão utilitária. A essência é estética. Como bem disse Diego Latorre, craque dos relvados e brilhante hoje a comentar e a pensar fora deles - em mais uma das admiráveis entrevistas que a Tribuna do Expresso nos tem dado - “a maior perda do futebol foi afastarmo-nos do gosto pela beleza”. Ver futebol nunca pode ser como aspirar a casa.
Há um factor normalmente associado a esta normalização do jogar, em que bem ou mal não interessa, feio ou bonito é indiferente: a sobrevalorização do resultado. Jogue-se como se jogar, contam as que batem na rede. É visão de curto prazo, muitas vezes ditada pelo trauma do despedimento, mas não deixa de ser uma grande mentira. O resultado é um ponto de chegada, não de partida. O discurso do “primeiro quero ganhar” ou “só me interessa o resultado nesta altura” é oco, vazio, mas – reconheço, na linha de Ángel Cappa, duplo de Valdano durante anos – “fácil de digerir para pessoas que são fáceis de convencer”. O futebol enquanto jogo que me apaixonou aconteceu sempre num relvado e nunca na análise de tabelas classificativas. Ainda Cappa: “no xadrez também se ganha e se perde e, no entanto, não tem essa sedução e a capacidade para chamar gente”.
Estou como o meu amigo Rui Malheiro, que não se joga bem e feio ao mesmo tempo. Certo é que se exige sempre mais a uns treinadores que a outros. Vejo questionar tantas vezes se não há criativos a mais numa equipa ou se não valeria a pena um jogar mais pragmático, evitando, por exemplo, uma construção curta e de risco desde trás. Nunca vi questionar com a mesma ênfase a acumulação de jogadores que só acrescentam esforço ou a facilidade com que tantas equipas, mesmo não pressionadas, abusam dos lançamentos longos tornando horrível o jogo. Que me perdoem os que jogam feio, mas a beleza é fundamental. E também há justiça no futebol, poética até, que a nossa memória regista, por regra, mais lances que resultados, mais emoções que datas. Poucos sabem, sem recurso à net, em que ano foi aquele golo de Zidane ao Leverkusen numa final dos Campeões, e pode ser até difícil lembrar o placard final, mas o golo em si, misto de pirueta de bailado com lançamento de catapulta, está gravado para sempre. Até na estirada inútil de Butt, o guarda-redes. E alguém se lembra, agora mesmo, como ficou aquele Suécia-Inglaterra em que Ibrahimovic fez a mais incrível chilena que o vídeo regista? Tirar o romantismo ao jogo é mexer-lhe na alma. Negar-lhe a beleza é condená-lo.
Sim, o Flamengo bateu recorde de pontos no Brasileiro, ganhou a Libertadores sonhada vai para 40 anos, mas o que guardaremos sempre serão as emoções dos minutos finais de Lima, as correrias de Bruno Henrique e o “tem gol do Gabigol”, e, antes disso tudo, o génio de Jesus que fez mudar a história. E eu guardo Everton Ribeiro, que no meu mundo feliz do belo jogo ninguém de rubro-negro joga melhor do que ele. Vibrei pelo Flamengo porque gosto do seu jogar. Mais que os resultados, interessa-me o mérito com que os conseguiu, e muito mais que ter sido um português é ganhar, é ter sido um português que mereceu ganhar, porque antes de cantar encantou. Este ano é assim: sou Jorge Jesus no Brasil como sou Paulo Fonseca em Itália, Paulo Sousa em França e Luís Castro na Ucrânia e na admirável Champions que tem feito. Torço sempre mais por quem mais me emociona. E prefiro não ter de aspirar, que não há maneira bonita de o fazer.

Nota colectiva: Atlético de Madrid é uma equipa numa encruzilhada, porque tem um jogar consolidado, mas procura novos rumos que alimentem o talento à disposição. E assim não é hoje uma coisa nem outra, ou então é, à vez, uma coisa e outra, como em Turim. Na primeira parte vimos o “velho Atlético”, o tal em que não se negoceia o esforço, a correr atrás da bola, para acabar a correr também atrás do resultado. Depois, já com Félix, Correa e Lemar, um outro rosto, com Simeone a tentar ser menos Simeone. Foi melhor e mais dominador, também porque foi mais bonito. Perdeu na mesma, mas esteve bem mais perto de um final diferente.

Nota individual: Messi Lamentavelmente já não teremos a vida toda para ver Messi. O que ele continua a fazer a cada semana, a cada jogo, é impossível de traduzir em palavras. Relaciona-se com a bola como Maradona, com o jogo como Cruijff, com o golo como Cristiano Ronaldo. Talvez nenhuma outra vez os deuses do jogo tenham dotado alguém de tantos talentos em simultâneo. O jogo com o Borussia de Dortmund, ainda agora, foi mais uma dádiva. Quem não viu que não perca a gravação, que um dia vamos ter mesmo muitas saudades."

Uma prometedora frase de engate

"Aos 9 anos, John teve poliomielite. Curou-se a nadar. Continuou a nadar pela vida fora. Ganhou cinco medalhas de ouro olímpicas.

Quando surgiu num pequenino papel cinematográfico em Glorifying the American Girl, um filme de 1929 que servia de promoção às ‘follies’ de Ziegfiel, János era apenas um rapaz reduzido a uma folha de parra que lhe tapava as partes pudendas. Algo que me faz recordar a festa dos Óscares de 1974. A meio do discurso de agradecimento de Elizabeth Taylor, Robert Opel, um fotógrafo que possuía uma galeria de arte mas não desenvolvia a totalidade das sinapses, entrou bruscamente no palco todo nu fazendo o V com os dois dedos da mão direita. David Niven, apresentador nesse ano, sempre tão cavalheirescamente britânico, terá tido vontade de lhe fazer outro tipo de gesto com outros dedos, mas limitou-se a uma frase de requintado humor. «Obrigado por nos ter mostrado as suas insuficiências».
János estava mais do que habituado a mostrar, pelos menos, as suas suficiências, no caso de Niven se referir ao conjunto de órgãos que a parra de Adonis tapava. Não andou a vida toda nu, mas ganhou-a a andar seminu, isso é tão certo como ter nascido numa terra com um nome de provocar cãibras na língua: Szabadfalva, no velho Império Austro-Húngaro, perto de Timisoara. Actualmente chamam-lhe Freidorf, que é mais conveniente, e faz parte da Roménia. O apelido paterno Weissmüller revelava a família germânica do pai, Peter, um suábio que decidiu emigrar para Windber, uma localidade da Pensilvânia, e trabalhar com o cunhado Johann Ott nas minas de carvão. Herr Weissmüller lá saberia das suas prioridades, foçar com uma picareta na dureza do antracite não parece glamoroso, mas enfim, quem não teve por onde escolher foi János que, na altura, era mamífero com apenas sete meses de existência exterior.
Aos nove anos, foi atacado pela poliomielite e esteve à beira de se tornar num deficiente para o resto da vida não se desse o caso de possuir uma força de vontade assinalável para alguém tão jovem. Peter decidiu abandonar o minério para se dedicar à cerveja, e acho que fez muitíssimo bem. Empregou-se na Elston and Fullerton Brewery, em Chicago. O filho mais velho inscreveu-se no YMCA (Young Men’s Christian Association) tornando-se num nadador competitivo e teimoso.
Parece que Peter passou mais tempo de vida sem roupa do que o filho, tantos são os descendentes que lhe apontam, mas não é das infidelidades de Herr Weissmüller que aqui venho falar, e sim do último papel que terá assinado, a autorização para que János, cada vez mais tratado por John, de apenas 19 anos, viajasse para Paris e participasse nos Jogos Olímpicos de 1924. Nessa altura já tinha batido o recorde do havaiano Duke Kahanamoku nos 100 metros livres com a marca de 58,6 segundos. Era um moço trabalhador que servia como salva-vidas no Lago Michigan. Na final de Paris voltou a bater Kahanamoku e regressou a casa carregado de ouro: 100 e 400 livres e estafeta de 4 por 200, somando também uma de bronze no polo. Quatro anos mais tarde, em Amesterdão, mais ouro: nos 100 metros livres e nos 4 por 200.
Depois da parra de Adonis, John envergou orgulhosamente a tanga de Tarzan. De tal forma encaixou no boneco que o próprio Edgar Rice Burroughs, inventor da personagem, gostou dele. Os produtores da MGM quiseram mudar-lhe o nome: Weissmüller era pouco apaixonante para figurar nos cartazes. John terá ficado com vontade de lhe fazer um gesto com os dedos, mas limitou-se a perguntar-lhes se o nome de um campeão olímpico soava mal. Resolveram o assunto com uma foto dele a nadar por baixo do nome. 
János acumulou mulheres que se deixavam fascinar pela sua aura de Homem-Macaco. Dedicou-se ao golfe e estava por Cuba a jogá-lo quando foi apanhado por um bando de guerrilheiros em 1958. Viu-se atrapalhado mas desenrascou-se com pilhéria soltando o grito com que apavorava hipopótamos. Os cubanos gostaram: «¡Es Tarzán! ¡Es Tarzán de la Jungla!». Deixaram-no em paz e foram fazer a revolução.
A minha tia Manuela Sampaio e Paiva conheceu John muito depois de ele ter deixado de ser Tarzan e, até, de se ter vestido de caqui para fazer de Jungle Jim. Meados dos anos 70. Envelhecera com estilo. Ficara a saber que sofria de sérios problemas cardíacos desde criança. Vinha a Portugal negociar vinhos do Porto com os Ribeiro da Silva e tornara-se tão popular que não era fácil levá-lo a restaurantes. Toda a gente deveria estar à espera do momento em que soltaria o que Burroughs definiu: «The man, raising his face to the heavens, voiced a horrid cry – the victory cry of the bull ape!». Ou de que se agarrasse aos reposteiros e fizesse deles lianas em busca de alguma mulher bonita na sala à qual pudesse perguntar: «Me Tarzan, you Jane?». O que, convenhamos, é uma simples mas verdadeiramente prometedora frase de engate. Se não fizesse corar Maureen O’Hara deixaria Cheeta feliz."