Últimas indefectivações

domingo, 3 de janeiro de 2021

Boas entradas !!!

Benfica B 4 - 0 Oliveirense


Estreia de Veríssimo como treinador principal com uma goleada...
A primeira diferença importante esteve na 'atitude' nas substituições, muito mais pró-activo!

Golos no 2.º tempo...

Benfica 3 - 0 CF Benfica


Com algumas jogadoras a passar as mini-férias nos seus países, começamos com várias titulares no banco, que com o decorrer do jogo foram entrando, contribuindo assim para a melhoria da equipa...

Empate em Braga...

Braga 4 - 4 Benfica

Parece que as mini-férias não fizeram bem à nossa equipa de Futsal! Depois do 0-2, ficámos um pouco 'anémicos', e a nossa habitual consistência defensiva esteve ausente... Espero que tenha sido somente um mau jogo... mas pode ter sido decisivo para a 'ordem' da época regular!
O 5x4 ofensivo no final, acabou por dar um golo mas soube a pouco...!!!

Derrota no Barreiro...

Galitos 78 - 74 Benfica
(17-14, 28-21, 20-21, 13-18)

Com os reforços recém-chegados ainda em fase de adaptação, já estava à espera de alguns maus resultados.
A equipa não estava a 'convencer', mas pelo menos tínhamos compromisso defensivo nos jogos mais importantes, vamos ter que esperar para ver se com esta mini-revolução, estamos melhor ou pior...
Como é habitual nas equipas do nosso treinador, quando os Triplos não caem, tudo fica mais complicado, hoje, com 5/29 na linha de três era quase impossível ganhar!!!

A prática desportiva enquanto característica humana


"Numa preleção no âmbito de um Congresso Internacional da Associação Internacional de História do Desporto (HISPA), apresentado no INSEP (Paris), em março de 1978, o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) fazia “figura de amador entre profissionais” e solicitou aos presentes que tivessem “espírito desportivo” para as palavras que iria proferir. Não sendo um especialista na análise histórica do desporto, conferia-lhe o estatuto de colocar questões que muitos já tinham deixado de colocar ou pensavam estar completamente resolvidas.
Ele tinha um olhar externo, mas encontrava nos seus objetos de estudo as práticas e os consumos desportivos. Questionava-se, então, sobre a relação entre determinadas variáveis (o nível de instrução, a idade, o sexo, a profissão). Na sua perspetiva, as práticas desportivas (futebol, natação, atletismo, etc.) são uma oferta destinada a encontrar uma procura social. Sendo um produto, como chega aos agentes sociais o gosto pelo desporto e de uma determinada prática? Que condições sociais e históricas tornaram este fenómeno social aceitável? Como foi possível a criação de instituições ligadas quer direta, quer indiretamente às práticas desportivas? Quem são esses agentes sociais que têm por função defender os interesses do desporto? Como funciona este campo de concorrência, em que cada um defende os seus interesses específicos?
Nestes questionamentos, Pierre Bourdieu referiu que “a história do desporto é uma história relativamente autónoma que, ainda quando é escandida pelos grandes acontecimentos da história económica e política, tem o seu próprio ritmo, as suas próprias leis de evolução, as suas próprias crises, em suma a sua cronologia específica”. Não interessa datar o desporto, mas a de saber quando se pode falar dele, ou seja, a partir de quando se constituiu esse campo de concorrência. Pouco interessa a procura das “origens”. O que é importante é analisar as especificidades das práticas desportivas e, mais especificamente, como determinados exercícios físicos preexistentes receberam uma significação social diferente, como fez o sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990), na sua perspetiva evolucionista. Muitos são os historiadores e sociólogos que referem que a passagem do simples jogo ao desporto terá sido efetuada nas escolas inglesas reservadas às elites no século XIX. Os filhos das famílias da aristocracia ou da grande burguesia retomaram um certo número de jogos populares, transformando-os. Uma das chaves da divulgação do desporto e da criação de várias organizações desportivas, no final do século XIX, foi porque as “public schools” assumiam a tarefa de educar os jovens a tempo inteiro.
A prática dos desportos foi um meio de “ocupar” (a baixo custo, saliente-se) os adolescentes. Eles entregavam-se a uma atividade física “sã” e descarregavam a sua violência nos seus camaradas de escola em vez de descarregarem nos seus professores. Com os bons resultados, foram recebendo o reconhecimento e o auxílio dos poderes públicos. De notar também que a passagem do desporto das escolas de elite para as associações desportivas de massa (populares) é acompanhada de mudanças e de transformações por parte dos desportistas e dos dirigentes. “A escola, lugar da scholé, do ócio, é o local onde práticas dotadas de funções sociais e integradas no calendário coletivo, se convertem em exercícios corporais, atividades que são o seu próprio fim, espécie de arte pela arte corporal, submetidas a regras específicas, cada vez mais irredutíveis a qualquer necessidade funcional, e inseridas num calendário específico”, refere Bourdieu.
Associado ao nome de Pierre de Coubertin (1863-1937), pai do olimpismo moderno, a definição de desporto integra um ideal ético e moralista, reclamando regras e compromissos e valores de convivência e de cidadania. No campo das práticas desportivas, existem lutas, lutas essas que procuram impor a definição legítima: amadorismo versus profissionalismo, desporto-prática versus desporto-espetáculo, desporto de elite versus desporto de massas, desportos chiques versus desportos vulgares, etc. Existe, de facto, uma distribuição das práticas desportivas segundo as classes sociais. Nos seus estilos de vida, cada um privilegia o que mais lhe interessa (musculatura, elegância, bem-estar psíquico, etc.).
Existe, igualmente, uma atenção desigual relativamente aos ganhos intrínsecos. Ainda na perspetiva de Bourdieu, “tudo permite, portanto, supor que a probabilidade de praticar os diferentes desportos depende, em graus diferentes para cada desporto, do capital económico e secundariamente do capital cultural e também do tempo livre”. Nas sociedades modernas, e na “busca da excitação”, o desporto tornou-se um espaço compensatório das rotinas do quotidiano."

sábado, 2 de janeiro de 2021

Antevisão...

Uma noite que parecia dia


"240 projectores orientados na direcção do relvado iluminaram uma festa gigantesca que terminou com um jogo entre Benfica e Flamengo (1-1). No meio de tanta alegria encarnada, os brasileiros saíram irritados por terem sofrido um golo fora-de-jogo a 2 minutos do fim

Sabem aqueles que têm a infinita paciência de ler estas minhas páginas há mais de dez anos que gosto particularmente de ir em busca de jogos já fugidos da memória que envolveram a equipa do Benfica ao longo dos tempos. Desta vez entretive-me na pesquisa de uma visita do Flamengo a Lisboa em Junho de 1958. Vinham os cariocas para uma festa. Uma festa de luz na Luz, já que se inaugurava o sistema de iluminação do estádio. Razão mais do que suficiente para que o orgulho encarnado inflasse como inflou.
Esperava-se uma enchente extraordinária.
Recordava-se que os encarnados nunca tinham conseguido bater os rubro-negros do Rio de Janeiro. Seria agora?
Vindos de França, onde tinham realizado o último encontro particular de uma digressão que os levara à Hungria e a Inglaterra, totalmente imbatíveis nos seis jogos realizados, os brasileiros chegaram ao aeroporto da Portela envoltos na habitual alegria que faz parte da sua idossincrasia. Tinham nomes sonantes para a altura, como Joubert, Décio, Carlinhos, Dequinha, Alfredinho e Luís Carlos, e um treinador pachola, de discurso simpático e correcto, Jaime de Almeida: 'Jogar contra o Benfica só pode ser, para nós, um autêntico prazer. Ainda por cima, porque nos sentimos em Lisboa como se estivéssemos em casa'. A imprensa portuguesa levou a bem estas palavras. Nada com um elogio para trazer ainda mais vida ao jogo do dia seguinte. Ou, melhor, da noite seguinte. Sob a luz mágica dos novos holofotes.

240 projectores e um offside
Ainda não seria desta vez que o Benfica haveria de bater o Flamengo. Aliás, a festa de amizade há tanto tempo programada acabou de forma feia, com os brasileiros a discutirem bravamente com o árbitro o golo que permitiu ao Benfica atingir o empate (1-1) a 2 minutos do fim.
Facto indesmentível e intocável: a exibição dos encarnados não foi das tais coisas. Talvez por causa da ansiedade de vencer um adversário até aí imbatido, talvez porquê faltasse ao conjunto o toque colectivo que se exige para que seja isso mesmo: um conjunto. É preciso acrescentar que o Flamengo estava desfalcado no seu onze titular: Joel, Dido, Zagallo e Moacyr estavam na Suécia, integrados na selecção brasileira que não tardaria a conquistar o seu primeiro título de campeã do mundo. Ainda assim, a linha defensiva carioca foi de uma ligeireza e de uma elasticidade notáveis, ao ponto de baralhar por completo a movimentação dos atacantes portugueses, sobretudo José Águas, que ficou perdido entre as torres adversárias.
Alegres e matreiros, os flamenguistas trataram de ensaboar a cabeça a Serra e a Coluna, os melhores do Benfica, que andavam por ali, campo fora, atrás deles com os bofes de fora, tamanho o descaramento das tabelinhas rápidas e precisas que iam sendo desenhadas a meio-campo.
O público, que era muito, ficou naturalmente desiludido.
A esperança de bater finalmente o Flamengo desvanecia-se, e mais ainda quando Henrique, um avançado poderoso, à europeia, marcou o golo que dava vantagem aos visitantes.
Com o passar do tempo, não se viam jeitos de alterar o resultado.
Verdade que, também como é seu costume, os brasileiros se preocupavam mais em divertir-se com a bola, em passes e repasses, do que propriamente em chutá-la à baliza de Costa Pereira, ainda assim protagonista de algumas defesas notáveis. Otto Glória, o brasileiro que estava sentado no banco dos portugueses, parecia ter sido apanhado desprevenido pela forma de actuar do opositor, com a infelicidade acrescida de não poder contar com dois dos seus mais lutadores elementos, Ângelo e Pegado, cuja ausência lhe esburacou o meio-campo.
Andavam as coisas por este caminho com o final do encontro cada vez mais próximo, quando Águas recebeu uma bola isolado frente ao keeper Fernando e repôs o empate. Festa nas bancadas, pois calro, mas confusão no relvado. Os brasileiros reclamaram fora-de-jogo, e as testemunhas presentes confirmaram, na sua maioria, a ilegalidade do golo benfiquista. Empurrão para cá e empurrão para lá, mas nada a fazer, a decisão estava tomada, o Benfica safava-se de uma derrota aborrecida em dia que deveria ser de festa. E foi. Porque, para lá do jogo, houve todo um espectáculo de luz e cor.
Procuro nos canhentos e encontro: Em tudo, foi uma festa 'à Benfica'! Multicolor, alegre, imponente, espectaular e rica de beleza. Tal como a luminosidade que brota de 240 projectores orientados para a tapete verde. O clube caprichou em delinear um programa variado, repleto de sugestão desportiva e que se documentou pela estafeta Chama do Benfica, cujos corredores passaram pelos locais onde existiram campos da colectividade, demonstrações de ginástica, todas impressionantes na harmonia e no ritmo, exposição campista e fecho com o jogo frente ao Flamengo'.
Foguetes estralejaram no ar.
Os brasileiros saíram irritados. Com razão, muito provavelmente. Mas, se calhar, naquele coite que parecia dia, o resultado do jogo nem era o mais importante..."

Afonso de Melo, in O Benfica

Benfica feminino?


"Com o futebol feminino a dar os primeiros passos, um grupo de jogadoras encontrou uma maneira de chamar a atenção.

Nas primeiras décadas do século XX, acreditava-se que 'o futebol era um desporto, varonil. Exigindo um fundo atlético de grande relevância, a sua prática era aconselhável a indivíduos de forte capacidade física e de grande resistência ao esforço' e, como tal, 'não parecia reunir grandes motivos de atracção do elemento feminino. Por boas e muitas razões se tem entendido que o futebol é um desporto... para homens'. Em meados do século, essa ideia começou a dissipar-se com o aumento de praticantes femininos dessa modalidade, especialmente no Brasil e em Inglaterra.
O público comparecia em massa para esse tipo de eventos, ainda para mais quando as partidas era frente a equipas estrangeiras. Assim, em Dezembro de 1959, quando o treinador da formação feminina do Darlston viu 'o papel timbrado com a palavra Benfica, supôs que se tratava de um grupo estrangeiro' e aceitou de imediato o convite.
O entusiasmo estendeu-se por toda a cidade, fazendo com que os habitantes de 'dirigissem em grande número ao campo de futebol'. A informação oficiosa de que seriam italianas fez com que António Morgillo, emigrado há vários anos e residente na cidade vizinha de Wolverhampton, quisesse assistir ao encontro por forma a contactar com as suas conterrâneas.
A expectativa era imensa, contudo, ainda na primeira parte, alguns 'espectadores começaram a ficar intrigados ao ouvir as «italianas» exclamarem frases em inglês corrente'. Morgillo aproveitou o intervalo para ir cumprimentar as jogadoras e saber novidades da sua terra natal, o que gerou um enorme silêncio, quebrado com o anúncio da guarda-redes: 'eh, nós não somos de Itália, somos de Lancashire'.
A situação foi desmitificada pela treinadora das 'benfiquistas'. Na verdade, eram todas inglesas, que tinham estado em Portugal e visitando as instalações do Benfica. As atletas ficaram tão fascinadas, que, ao regressarem a Inglaterra, quiseram formar um clube com o nome dos 'encarnados'. Ainda assim, no final do encontro 'a maior parte dos adeptos continuava sem compreender que não tinham estado a presenciar' um jogo de uma equipa feminina do Benfica, mas sim uma magnífica demonstração de puro fascínio pela mística e pela história dos 'encarnados'.
A equipa feminina do Benfica levou mais algumas décadas a ser uma realidade, mas finalmente aconteceu na época 2018/19. Conheçam algumas das suas conquistas na área 1 - Ontem e Hoje do Museu Benfica - Cosme Damião."

António Pinto, in O Benfica

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Há muito por ganhar


"Diz-se que, no desporto, 'o que conta são os resultados'. A análise é condicionada por eles, incluindo a de dirigentes, devendo estes, no entanto, e recorrendo ainda a um aforismo, ter a capacidade de olhar para a floresta como um todo e não para as árvores que os rodeiam. Temos um exemplo paradigmático e de sucesso relativamente recente no Clube, quando, em 2013, na sequência de tudo perdido, Luís Filipe Vieira percebeu, contra a opinião da maioria, que deveria renovar o contrato de Jorge Jesus, dando assim um passo vital para o inédito tetra que se seguiu.
Perder uma Supertaça, mesmo sendo apenas um troféu, é péssimo, seja com um dos adversários que fazem do ódio ao Benfica uma das suas forças motrizes, o FC Porto e o Sporting, seja com outro qualquer. E não o é somente por se tratar de uma derrota, das quais ninguém gosta. É-o porque o etos benfiquista tolera a possibilidade de derrota. Já dizia a canção, concisa e acertadamente, 'o nosso destino é o de vencer'.
O repúdio à possibilidade da derrota não significa, no entanto, que neguemos a sua ocorrência ou que, acontecendo, devamos proceder a purgas desprovidas de sentido para acalmar as hostes.
Tivemos períodos de maior e menor fulgor desportivo, não me constando que, desde a consolidação da presença do Clube na sociedade portuguesa, o activo mais sólido do Benfica, o benfiquismo, tenha sido afectado por aí além por essas oscilações. E, presentemente, sabendo que só com a devida distância poderemos, de facto, estabelecer os limites de um período, creio que perdura um caracterizado por sucesso desportivo (diferentes de ganhar sempre) e as bases do sucesso permanecem sólidas. Espero ter razão, acredito que terei."

João Tomaz, in O Benfica

Foi-se 2020, finalmente!


"Hoje não vos vou falar de desporto, mas também se aplica. Este ano de 2020 foi tão invulgar e triste, que o campo desportivo foi apenas mais uma das áreas em que, enquanto sociedade, nos tiraram o tapete.
De Março para cá, as nossas vidas mudaram. Os afectos públicos deixaram de fazer parte das rotinas - há quanto tempo não abraçamos o beijamos, como merecem, os nossos pais e avós? As nossas liberdades enquanto cidadãos foram afectadas - ajuntamentos públicos e privados, acesso à cultura e ao ensino, tudo restringido. Em dados momentos, como o que vivemos nesta semana, até a possibilidade de nos movimentarmos pelo país foi proibida.
Centenas de milhares de portugueses e residentes em Portugal perderam os seus empregos ou viram reduzidos os seus empregos ou viram reduzidos salários, horários e transformada e organização do seu trabalho. No espaço noticioso fomos inundados pela covid-19, 24 sobre 24 horas. Tudo passou para terceiro plano. Em primeiro a pandemia, em segundo os cuidados a ter para evitá-la. No momento em que vos escrevo, os dados oficiais de mortes por covid-19 em Portugal estão à beira das 6700 pessoas, para um número total de casos que já ronda os 400 mil. Todos temos alguém, mais ou menos próximo, que já passou pelo quadro diário de números da Direcção-Geral da Saúde. A pandemia veio afectar-nos, como sociedade e individualmente, muito mais do que passaríamos. Provavelmente, mais do que alguém poderia prognosticar, mas estarmos cá.
Estamos prontos para enfrentar mais um ano com a palavra da moda: resiliência. A física diz-nos que resiliência é a 'capacidade de um corpo recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação'. Tenho dúvidas de que voltemos à 'forma original', mas com coragem, ambição e capacidade de superação, com ganas, foco e querer, podemos até melhorar enquanto seres humanos. Que 2021 nos traga, pelo menos, isso.
E saúde."

Ricardo Santos, in O Benfica

Feliz 2021, Benfica!


"Então o senhor covid decidiu invadir o balneário dos nossos jogadores? Não seremos o primeiro nem o último clube no mundo a levar com uma visitinha do vírus, mas fiquei muito frustrado com este timing. Tenho pena de que o bicho não tenha aparecido uma semaninha mais cedo, a tempo de poupar os jogadores e os adeptos daquela exibição tão pouco conseguida na Supertaça. Paciência, pelo menos alguém na estrutura que encomende já uma remessa de vacinas para protegermos o quanto antes os elementos mais importantes: o Taarabt e o Luisão.
2020 já lá vai, o que significa que abandonámos finalmente um dos anos mais difíceis de enfrentar em toda a nossa vida. Fomos obrigados a ficar trancados em casa, a usar máscara e a assistir de longe à perda da confortável liderança que tínhamos em Janeiro. Qualquer um deseja entrar em 2021 com o pé direito, no entanto espero que o Grimaldo, o Vertonghen, o Nuno Tavares, o Gabriel, o Cervi, o Pedrinho, o Waldschmidt e o Seferovic entrem com o pé esquerdo.
Este primeiro mês de 2021 será decisivo, o que significa que não há espaço para erros. E e todos os benfiquistas continuamos à espera de um Benfica à altura das exigências. Garantiram-me que esta equipa ia jogar o triplo, e é dessa raça, crer e ambição que eu gosto. Mas é uma promessa que tem de ser convertida em realidade. Merecemos um 2021 muito mais generoso que o antecessor, onde fomos privados de tudo e mais alguma coisa. Que este novo ano recomponha o mundo de saúde, harmonia e, sobretudo, que volte a encher as bancadas da Luz com 65 mil apaixonados carregados de saudades de sentir a pele arrepiada enquanto toca o hino."

Pedro Soares, in O Benfica

Apagar 2020


"Ano para esquecer, ano maldito, ano terrível, todas as palavras seriam poucas para definir aquele que seguramente foi, para a humanidade, o pior ano do século.
Uma pandemia irritante e inesperada destroçou vidas, famílias, empresas e empregos. Obrigou hábitos até há pouco impensáveis. Confinou e violentou populações. E o pior é que, mesmo rasgando as folhas do calendário, este passado e presente de ansiedade ainda não se pode extinguir na totalidade.
Também no desporto, e em particular no futebol, tudo foi diferente, para pior. Campeonatos interrompidos, bancadas vazias, competições burocráticas, sem chama, sem luz, nem cor.
Desde Março que não vou à Luz. Um infeliz recorde mesmo forçado a viver o Benfica à distância, nem assim houve motivos para comemorar: perdeu-se um campeonato que à entrada de 2020 parecia cantado, perdeu-se uma final da Taça a jogar contra dez, e nem a Supertaça se salvou.
Também nas modalidades pouca coisa há para reter. O vírus retirou-nos campeonatos de voleibol, hóquei, talvez futsal, talvez até basquetebol, várias competições femininas. Quando o mundo parou, também os nossos juniores caminhavam para o título. E além do título de atletismo, da nova Taça 1947 de hóquei, da Supertaça de voleibol, e agora da Taça de futsal feminino, não me recordo de mais nada de relevante para mencionar nestes doze meses.
Que 2021 seja bem melhor é o desejo de todos. E para o Benfica, em particular, queremos vitórias e troféus, sobretudo naquele que é o principal barómetro para os grandes clubes portugueses: o campeonato de futebol. Jorge Jesus e os seus jogadores têm a palavra."

Luís Fialho, in O Benfica

2020, um ano inesquecível


"Chegou hora do balanço. Não fora o maldito vírus, esta seria uma época de muitas conquistas. Iniciámos o ano com a brilhante vitória da nossa equipa masculina de atletismo, no Campeonato Nacional de Estrada. Foi um 11 de Janeiro à Benfica, em Oeiras, com um quarteto de luxo - Samuel Barata, Rui Pinto, Samuel freire e Alexandre Figueiredo. Quase um mês depois, na Figueira da Foz, Samuel Barata, Duarte Gomes, Alexandre Figueiredo e Samuel Freire voltaram a brilhar no Campeonato Nacional de Corta-Mato Curto. A 22 de Fevereiro, em Braga, mais uma conquista - o Campeonato Nacional de Clubes em Pista Coberta. A 7 de Março, em Vagos, António Vital e Silva (martelo), Leandro Ramos (dardo), e Emanuel Sousa (disco) arrasaram no Campeonato Nacional de Lançamentos Longos. No dia seguinte, em Braga, a nossa equipa de sub-23 bateu toda a concorrência no Campeonato Nacional de Esperanças.
Após a primeira vaga da pandemia, no Estádio Universitário de Lisboa, foi escrita uma das mais brilhantes páginas do atletismo, com a conquista do décimo Campeonato Nacional de Clubes em Pista, em masculinos. Este ciclo vitorioso do atletismo terminou, no passado dia 18 de Dezembro, na Maia, onde o fantástico Samuel Barata se sagrou campeão de Portugal de 10000 metros.
Fechámos o ano com três brilhantes e categóricos triunfos - a Supertaça masculina de voleibol, em Gondomar, a Taça 1947 masculina de hóquei em patins, no Luso, e a Taça de Portugal feminina de futsal, em Matosinhos. Oeiras, Figueira da Foz, Braga, Vagos, Maia, Gondomar, Luso e Matosinhos, oito concelhos mágicos pintados de vermelho e branco.
Votos de um 2021 retumbante!"

Pedro Guerra, in O Benfica

De todos, um!


"Que 2021 seja o ano do regresso à normalidade. Deverá ser este o desejo de milhares de milhões de seres humanos no cair das doze badaladas e na despedida do ano áspero que acabamos de atravessar. Que não será exactamente assim, por milagre de calendário, que a Covid-19 passará aos manuais de história, também o sabemos todos. Mas a chegada do novo ano com notícias de vacinas a encherem os telejornais de todos os povos é um banho de esperança que há muito almejávamos. A ciência e o engenho humano, alinhados em cooperação e num grande objectivo comum, talvez o primeiro de que temos memória à escala planetária, mostram à sociedade que a humanidade não perdeu o futuro. Pelo contrário, sabe e quer superar-se a cada nova contrariedade, mostrando que não nos resumimos globalmente a uma sociedade supostamente sem valores e centrada apenas na economia e na competição. Pelo contrário, quando somos postos à prova, sabemos ir ao fundo do conhecimento, invocar a ciência e cooperar como nunca, até entre nações menos relacionadas entre si, para alcançar o bom comum.
Mas, se lições há que este ano de covid nos trouxe, a recentragem de valores, a importância da família nuclear e da solidariedade vicinal, as virtualidades indiscutíveis do Estado Social e a cidadania enquanto espaço de liberdade e responsabilidade individual de que depende o bem-estar coletivo são algumas dessas lições. Também aprendemos que todos somos poucos, e que ninguém se pode demitir dos problemas, mas antes assumir como suas as dores de todos e fazer parte das soluções, mesmo que isso pareça menos óbvio. E, neste particular, o Benfica, o clube secular que toca a vida dos portugueses muito além das alegrias do relvado, continua a mostrar-se exemplar. Não para exibir o que faz, mas porque os benfiquistas lhe exigem que faça  que há a fazer em prol da sociedade. E foi assim, uma vez mais em 2020, com o Benfica a mobilizar-se e a oferecer luta musculada e sem quartel à pandemia, apoiando vultuosamente o SNS e levando ajuda aos mais vulneráveis no terreno. Será assim, sem dúvida, no próximo e em todos os anos vindouros, mostrando que é muito mais que um clube e que é, isso mesmo, 'de todos, um'.
E pluribus unum. Venha de lá 2021!"

Jorge Miranda, in O Benfica

Núm3ros d4 Sem4n4


"5
Nossos jogadores (Gonçalo Ramos, Jardel, João Ferreira, Pizzi e Seferovic) impedidos de defrontar o Portimonense devido ao teste positivo à covid-19, relembrando-nos a facilidade com que o vírus se propaga, a importância da testagem e a urgência da vacinação em grande escala;
6
Taças de Portugal, em 7 edições conquistadas pela nossa equipa feminina de futsal. A senda vitoriosa das tricampeãs nacionais perdura, para honra e glória do Benfica, hegemónico neste particular do panorama desportivo português (vencemos todas as competições desde 2016/17 inclusive);
14
Rafa, o homem do jogo frente ao Portimonense, com um golo e uma assistência, chegou à 14.ª posição do ranking de golos e assistências neste Estádio da Luz. Soma agora 19 golos e 13 assistências, totalizando 32 combinações os dois itens, igualando o registo conseguido por Mitroglou e Rodrigo. Em competições oficiais pelo Benfica, chegou aos 42 golos e é o 54.º neste ranking (a par de Iaúca (52.º) e Filipovic (53.º), mas utilizado em mais jogos);
16
Anos que Renato Paiva serviu o clube no futebol e formação. Por ele passaram alguns dos jogadores que mais se destacam no futebol nacional e mundial na actualidade. Ficará na memória a dedicação, a competência, a correcção e o benfiquismo de um treinador que tem agora a oportunidade de singrar num clube equatoriano que, em 2019, venceu a Americana e, em 2016, foi finalista da Libertadores.
1829
Ao fim de 22 jogos em competições oficiais, Vertonghen é o mais utilizado, com 1829 minutos em campo (incluindo tempos adicionais). Na peugada do belga estão Everton (1685), Vlachodimos (1543) e Darwin (1517). Vertonghen participou em 19 partidas e tem uma média ligeiramente superior a 96'15'' por jogo."

João Tomaz, in O Benfica

O melhor 11 de 2020 | SL Benfica


"2020 foi um ano extremamente difícil pelas razões que todos conhecemos. No entanto, foi ainda mais difícil para quem é adepto do SL Benfica.
Aliado ao aparecimento de uma pandemia, que veio condicionar as nossas vidas, o descalabro desportivo encarnado contribui, de certeza, para um agravamento (ainda maior) do estado de espírito de milhões de portugueses.
Com o ano a aproximar-se do fim, esta semana decidimos eleger o melhor XI encarnado de 2020, composto pelos melhores jogadores que estão (e estiveram) ao serviço do Glorioso ao longo deste ano. 

Guarda redes
Odysseas Vlachodimos O dono da baliza continua a ser o grego, que demonstrou, ao longo deste ano, ter evoluído consideravelmente o seu jogo. Imperial dentro dos postes, Vlachodimos melhorou o controlo da profundidade, ajustando o seu posicionamento fora dos postes de modo a dobrar os seus colegas de setor.
De resto, o grego, se quiser elevar-se a outro nível, terá de melhorar o seu timing no que toca a intercetar cruzamentos, assim como deverá treinar mais o seu jogo de pés.

Lateral direito
André AlmeidaOs anos passam, pandemias surgem, mas há uma coisa que teima em não mudar: André Almeida continua a ser, face às alternativas que são utilizadas, a opção mais fiável para a lateral direita encarnada.
Face à sua lesão, temo-nos deparado com uma súbita saudade do português – muito por culpa das exibições de Gilberto -, que, apesar de não encantar, ia cumprindo o seu dever, marcando, ocasionalmente, golos dignos de prémio Puskas.

Defesa central
Rúben DiasO dia que todos nós, benfiquistas, temíamos finalmente chegou. Rúben Dias, por força do falhanço da qualificação para a fase de grupos da Champions, rumou aos ingleses do Manchester City FC, deixando o clube do seu coração após dez anos ao serviço das “águias”.
Um líder nato, com uma leitura de jogo e uma capacidade de passe e desarme assinaláveis, Rúben foi um dos alicerces da defesa benfiquista e é, atualmente, um dos melhores defesas do futebol europeu. 

Defesa central
Jan Vertonghen Uma contratação inesperada, mas que veio engrandecer o Sport Lisboa e Benfica. Perspetivava-se uma dupla de ferro composta pelo belga e Rúben Dias, mas, pelas razões descritas anteriormente, a parceria foi sol de pouca dura, sendo que Vertonghen é, atualmente, um bombeiro que tenta apagar (muitas vezes sozinho) os incêndios que assolam a defensiva encarnada.
Um grande defesa, cujas capacidades técnico-táticas estão furos acima dos restantes companheiros de setor, mas que precisa de maior apoio por parte da equipa (e do treinador).

Lateral esquerdo
Álex Grimaldo Um desequilibrador nato, que, se melhorar o aspeto defensivo, tem tudo para sonhar com a titularidade da lateral esquerda da La Roja e, possivelmente, de dar o salto para palcos maiores. 
Grimaldo continua a ser um jogador fulcral para o futebol do Benfica, sendo que a sua vasta amplitude de recursos técnicos o tornam no melhor lateral dos encarnados.

Médio direito
RafaApesar de ter sido um ano marcado por lesões e alguma irregularidade exibicional, Rafa cimentou o seu lugar no onze encarnado, através das suas arrancadas a rasgar as defesas encarnadas e dos golos que somou ao longo da temporada.
Além disso, o português melhorou o jogo em espaços mais curtos, tornando-se, também, uma alternativa viável para jogar em espaços mais interiores.

Médio centro
Adel TaarabtUm jogador imponente, com uma fome de bola insaciável e uma capacidade técnico-tática acima da média, o marroquino foi, muitas vezes, uma peça importante para desbloquear os jogos para os encarnados.
No entanto, a sua (in)capacidade defensiva expõe demasiado a equipa, que, num sistema tático com apenas dois médios centro, vê-se constantemente desequilibrada devido à fraca transição defensiva de Taarabt.

Médio centro
Pizzi Apesar de ter demonstrado alguma irregularidade exibicional ao longo do ano, é indiscutível que Pizzi continua a ser um jogador importante na manobra ofensiva encarnada, sendo prova disso os 31 golos marcados na época passada.
Com uma visão de jogo e uma capacidade de definição no último terço do terreno acima da média, o transmontano tem-se afirmado como um dos grandes jogadores do século XXI encarnado.

Médio esquerdo
Everton Cebolinha Vindo do Grémio por 20 milhões de euros, Everton tomou a ala esquerda de assalto, afirmando-se como titular indiscutível nesta segunda passagem de Jorge Jesus pelo Benfica. 
Rápido, com uma boa capacidade técnica e de definição, o brasileiro, que é o reforço com mais minutos de competição (1553’) soma já quatro golos na sua primeira época na Europa, deixando bons indicadores para o futuro.

Ponta de lança
Carlos Vinícius O artilheiro da época passada, Carlos Vinicius abandonou a Luz após uma época, onde marcou 24 golos e somou 13 assistências em 47 jogos, sendo que em grande parte deles partiu do banco.
Aliás, é de realçar que o brasileiro fez um golo ou assistência a cada 77 minutos em campo, o que é o melhor rácio de minutos por participação num golo entre todos os jogadores com mais de 300 minutos na Primeira Liga em 2019/2020.

Ponta de lança
Darwin NúñezUm avançado caro que se pode vir a tornar barato. Darwin, que chegou este ano vindo do UD Almeria por uns impressionantes 24 milhões de euros, já se afirmou como titular indiscutível no XI encarnado. Um avançado possante, raçudo, cuja velocidade e capacidade de explorar as costas das defensivas adversárias o tornam numa ameaça constante.
Com seis golos e quatro assistências em 17 jogos, espera-se que o jovem uruguaio se afirme como mais um dos grandes goleadores a passar pela Luz e que, após de conquistar muitos troféus, permita um bom encaixe financeiro aos cofres encarnados."

Sobre as crenças...



"“Explicar uma coisa, é retroceder facilmente aos seus antecedentes;
conhecer uma coisa, é prever facilmente as suas consequências.”
(William James, 1842-1910)

A criança é irrequieta: vai para o judo. O jovem não colabora com os colegas: vai para o basquete. O miúdo é hiperactivo: vai para o karate. A criança tem uma má postura: vai para a natação. O petiz é indisciplinado: vai para o aikido. O jovem é obeso: vai para o futebol. Não se mexe: vai para o atletismo. É desatento: mais um para o karate. Afinal o desporto acaba por ser uma clínica… devido a acreditar-se em generalidades.
Vem isto a propósito daquilo em que se acredita sobre o desporto, estando sempre à espera de benefícios por parte deste sem nos interrogarmos se o desporto é neutro ou se o desporto é inócuo.
E se a maioria das pessoas ainda possuem crenças positivas e fundamentadas em relação ao desporto durante a fase de formação de jovens desportistas (mas atenção à deformação!), essas mesmas pessoas e talvez muitas mais possuem crenças erradas em relação ao desporto profissional qualquer que seja a modalidade, dado o actual estado de mercantilização do mesmo.
– Mister, acredita que ainda vai a tempo de ganhar o campeonato? - pergunta o jornalista ao treinador.
– Claro que sim, temos de acreditar sempre que estamos sempre a tempo - responde o treinador.
– Com esta sua vinda, acredita que a prestação da equipa vai melhorar?
– questiona o comentador desportivo à recente aquisição. – Sim, eu vim para ajudar o clube e prometo trabalhar, trabalhar muito para ajudar o clube a ser campeão. E acredito que vamos ser campeões!
Mais uma vez, a propósito de crenças de jornalistas, de treinadores, de comentadores e de desportistas… 
Vivemos desde os primórdios da nossa espécie sujeitos a crenças. A nível social em termos de superstições, de rituais e de opinião pública, a nível individual em termos de convicções. Nos tempos actuais essas crenças são ainda mais instiladas na nossa consciência pelos ‘mass media’.
As crenças são opiniões formadas, interiorizadas, provenientes da nossa educação, das nossas vivências, da nossa formação… ou são o impulso para tendências que seguimos devido aos nossos modelos, aos líderes em que depositamos confiança, ou graças à acção da publicidade, do marketing ou da propaganda… Está nos manuais.
As crenças influenciam os nossos valores, que por sua vez se reflectem nas nossas atitudes e que se demonstram nos nossos comportamentos. Também vem nos manuais.
Somos influenciáveis e manipuláveis, e mesmo que estejamos a isso atentos as pressões podem ser tantas que delas não conseguimos escapar. E sem darmos conta vamos construindo as nossas crenças, quer sejam baseadas em factos fundamentados quer nos sejam inculcadas pela repetição da apresentação de arquétipos quer de estereótipos.
Em tempos idos havia os que acreditavam na Santa Inquisição, hoje em dia há os que acreditam que a Terra é plana. Havia antigamente os que acreditavam no poder absoluto e agora há os que não acreditam na ciência. Havia os que acreditavam nos ideais da Revolução Francesa agora há os que acreditam nos ‘reality shows’. E ainda há aqueles que acreditam que o desporto é o remédio para todos os males.
Segundo Maria Luísa Soares (1), “submetemo-nos às crenças – como seguimos as regras –, sobretudo a essas crenças práticas sobre as quais se funda toda uma forma de vida e de conduta. E aqui dá-se a submissão: à regra, ao hábito, à nossa ‘imagem do mundo’, que não é uma teoria construída por nós, mas que nos é conatural, de certa forma herdada, pertence-nos e possui-nos, dominando-nos inconscientemente.” Há neste pequeno conteúdo três noções fundamentais: a) a nossa submissão àquilo em que acreditamos (porque só vemos aquilo que queremos ver), b) a noção de fazermos nosso aquilo que nos foi inculcado por outros (a nossa disponibilidade para sermos enganados sempre que haja alguém com disponibilidade para nos enganar); c) a noção daquilo que nos domina inconscientemente por não estarmos (nem sermos) preparados a equacionar a realidade dos factos e das suas interpretações por não termos (não nos ter sido) desenvolvido um espírito crítico.
O desporto, submetido às leis do comércio, apresenta-se apenas como espectáculo mas os seus fins últimos são económicos ou políticos. Basta um olhar atento sobre o mesmo e analisarmos criticamente quais os seus efeitos na sociedade e nos indivíduos. Basta não nos esquecermos das elevadas quantidades monetárias que movimenta e pensarmos nos interesses imobiliários dos clubes, no ‘namimg’ dos estádios, na publicidade ostentada pelos competidores, na presente nos painéis publicitários e nas conferências de imprensa dos treinadores de futebol, nos direitos de imagem e nos direitos televisivos. Basta interrogarmo-nos sobre o que produz um jogador de futebol por exemplo! 
Como nos diz Manuel Sérgio (2), é necessário reorganizar os fundamentos do Desporto (e repare-se no “D” maiúsculo) através de uma séria crítica epistemológica, lógica e axiológica. E ética e moral, acrescentaríamos nós. De salientar que, segundo o mesmo, na mesma obra, “o Desporto só pode concorrer à transformação do mundo se, primeiro, se transformar a si mesmo.” Para isso não pode ser só um promotor da quantificação do sucesso, da exaltação exacerbada dos mais aptos ou mais capazes, ou do desportista-mercadoria, ou da simples hierarquização meritocrática. Nem da subserviência ao vil metal onde só o lucro interessa. Ainda estaremos a tempo?
No dealbar de um novo ano, que todos nós esperamos que seja melhor que aquele que termina dadas todas as vicissitudes por que ainda estamos a passar, nada melhor do que nos determos um pouco nas palavras de Augusto Curry (3): “quem não critica aquilo em que crê não lapidará as suas crenças, quem não lapida as suas crenças será servo das suas verdades. E, se as suas verdades forem doentias, certamente será uma pessoa doente.” Com a implícita consequência de poder fazer outros doentes…"

Fever Pitch - João & David... Inglaterra!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Bom Ano... - diga-se que dificilmente será pior...!!!

 


Os homens brutos da Floresta de Sherwood


"1973, Junho. O Benfica conquistou o Troféu Vinho do Porto à custa de vitórias sobre o Nottingham Forest (3-0 na Luz) e Boavista (1-4 no Bessa. Eusébio marcou, no fim da festa, um dos golos mais excepcionais da sua carreira excepcional.

O Nottingham Forest é, para mim, um dos mais fascinantes clubes do mundo. A começar por aquele pormenor adorável de ter mais Taças dos Campeões (duas) nas suas vitrinas do que taça de campeão de Inglaterra (apenas uma). Fundado em 2 de Setembro de 1865 na cidade de Robin dos Bosques, tem um campo pequeno mas terrível, o City Ground, à beira do rio Trent, de onde se vê, a pouco mais de um quilómetro de distância, na outra margem, o estádio do grande rival, o Notts County.
Em 1995 e 1996, na altura a trabalhar para o jornal A Bola, viajei por toda a Inglaterra, tanto para fazer reportagens sobre os lugares onde a selecção nacional iria jogar como para cobrir o Mundialito de 1995 e, em seguida, o Euro 96. Fiquei com um carinho especial por Nottingham, uma daquelas cidades que nos recebem bem e nos fazem sentir em casa.
Ontem lembrei-me de Nottingham. E lembrei-me, igualmente, de que o Benfica tinha defrontado o Forest nos anos 70. Mais precisamente em 1973, dia 20 de Junho. Estava em jogo o Troféu Vinho do Porto, e Boavista e FC Porto também estavam na liça. Uma espécie de meia-final, portanto, o Benfica - Nottingham do Estádio da Luz, à hora tardia das 21h45. Sempre cavalheiros, os ingleses resolveram fazer uma pequena festa na embaixada para agradarem tanto aos encarnados de Lisboa como aos encarnados de Nottinghamshire. A bola rolaria depois... Ou pelo menos era ssim que deveria ter sido.

A dureza dos ingleses
Nessa noite da Luz, o Benfica desfez o Nottingham por 3-0, mas os moços da floresta de Sherwood jogaram com a brutalidade de um João Pequeno. O facto foi indesmentível e entrou pelos olhos adentro: estavam mais interessados em acertar nas pernas de Jordão, Eusébio, Nené e Jaime Graça do que propriamente na bola. Azar o deles, podemos dizer. Os encarnados levaram a coisa a peito e não estiveram para aturar aquela agressividade excessiva, mesmo à escala britânica que vê no jogo qualquer coisa de bruto. A forma como os médios e os avançados, sobretudo Jaime Graça e António Simões, resolveram embrulhar a violência contrária foi notável. Os passes curtos, bem medidos, de uma rapidez estonteante, enervaram os ingleses ao ponto de os deixarem como baratas ziguezagueantes: quando chegavam ao portador da bola, para fazerem a pressão individual, já a bola ela tinha mudado de pés, e assim por diante.
É preciso acrescentar que, nessa altura, o Nottingham Forest estava na II Divisão inglesa. Depois, com a chegada de um treinador formidando, Brian Clough, explodiu por entre as estrelas: em dois anos consecutivos foi campeão da II Divisão e da I Divisão. Depois conquistou a Taça dos Campeões. Mas ainda iriam ter de esperar mais oito anos até lá.
Nelinho, Eusébio e Jordão marcaram os golos do Benfica. A vitória foi tão categórica, que, no final, os jogadores do Nottingham acabariam por pedir desculpa por alguns exageros. Que tinham sido muitos, mas não aleijaram nenhum dos artistas lisboetas. Distribuíram-se handshakes, soaram umas palmadas nas costas, e prometeu-se um reencontro que nunca veio a acontecer.
Na outra meia-final, se assim lhe quisermos chamar, o Boavista bateu o FC Porto por 1-0. O golo de um tal Rufino, que tinha vindo da Guiné-Bissau à experiência, e não deixou marca por aí além.
Belíssimo Boavista esse, com Rogério, Salvador e Moinhos na frente. Sendo o nome do troféu Vinho do Porto, entende-se que a final tenha sido marcada para o Porto. Neste caso, para o Bessa. E aí se encontraram, frente a frente, Boavista e Benfica.
Enquanto o FC Porto batia o Nottingham Forest no desempate por grandes penalidades e atirava os ingleses para o último lugar da classificação do torneio, Eusébio voltava a ter uma das suas tardes plenas de magia. Os joelhos massacrados podiam fazê-lo sofrer de uma forma que pude testemunhar muitas vezes, seu amigo que fui. Mas, de repente, soltava-se dele o duende do Lorca, e ninguém era capaz de pará-lo.
O resultado da partida foi de 4-1 para o Benfica, golos de Eusébio, Jordão(2) e Vítor Martins contra um de Salvador.
Diz quem viu que  golo de Eusébio foi de dar arrepios na espinha. À beira do final, arrancou com a bola colada ao pé direito e começou a deixar adversários pregados ao chão. A cada passada, a sua velocidade aumentava como se se tratasse de uma locomotiva ganhando poder à medida que o carvão derrete nas caldeiras. Quando se encontrou com o guarda-redes pela frente e com o espaço cortado ao mínimo, decidiu picar a bola, assim com a parte de dentro do pé, num corte perfeito que levou a bola a bater na trave antes de entrar. Aimoré Moreira, o treinador do Boavista, figura ímpar no mundo do futebol, seleccionador campeão do mundo com o Brasil em 1962, não esconderia no final: 'O golo de Eusébio é das coisas mais extraordinárias que jamais vi num campo de futebol!' Falava quem sabia. E muito!"

Afonso de Melo, in O Benfica