Últimas indefectivações

quinta-feira, 3 de junho de 2021

O vulcão das bancadas


"Na sequência da final da Champions League, aliás uma comovente gentileza das nossas reverenciais autoridades para com a UEFA, eis que desabou toda uma torrente de críticas: que é inaceitável a implícita “capitis diminutio “ objectivamente atribuída aos adeptos portugueses, quando comparados com os adeptos ingleses, flagrante e infeliz exemplo de desordeiros da bola; que os desacatos nas ruas da Invicta podiam e deviam ter sido prevenidos e evitados, confinando os excitados súbditos de Sua Majestade a uma bolha sanitária; que Portugal é, lá fora, motivo de galhofa por conta da mão firme com os submissos portugueses e mãos largas em relação aos fregueses britânicos de que espera sempre a revitalização do sector turístico...e muitas críticas mais - a ponto de haver inclusive um responsável máximo de um clube e com históricas culpas no cartório da violência no futebol que exige a imediata assunção das consequências políticas, com a expressa sugestão de demissão do próprio Primeiro-Ministro.
Sem deixar de concordar, até à última vírgula, com o coro de vozes indignadas com o comportamento farisaico dos nossos políticos - solícito e servil em relação aos ingleses e desdenhoso e prepotente em relação aos cidadãos portugueses - , um ponto há que me faz conceder uma pitada de tolerância e até de compreensão às autoridades sanitárias portuguesas quando persistem no notório medo de autorizar o público nas bancadas dos estádios.
É que se, por um lado, não há qualquer dúvida de que a matriz genética do futebol é essencialmente multitudinária e, nesse sentido, persistir na ausência de público é lavrar irremediavelmente a sentença de morte deste electrizante espectáculo, por outro lado, ninguém, à luz do critério mínimo e elementar da sensatez, pode deixar de reconhecer a singularidade da tipologia psico-emocional do adepto do futebol: na bancada, que é o território favorável à “unidade mental “ (Gustave Le Bon), ele passa por sucessivos e paradoxais picos de frenética emotividade, como se de um processo de transfiguração se tratasse - com um pormenor decisivo: não é algo que aconteça a um ou outro e mui excepcionalmente. Não: acontece a todos e sempre.
Um cavalheiro que, à tarde vai ao futebol e à noite ao cinema, sendo, no plano protocolar, a mesma pessoa, a verdade é que exibe um comportamento completamente diferente numa e noutra situação.
Na bancada, ele vai-se transfigurando ao ritmo da colectiva ventania, enquanto na sala de cinema se contenta com o formalismo contido de uma mundana frivolidade de circunstância.
E eis-nos chegados ao que poderíamos designar como a aporia moderna do futebol:
Se é verdade que a reiterada ausência de público nega a natureza mesma deste jogo e que é, como vimos, de índole multitudinária, não é menos verdade que considerando o clima passional em que o espectáculo decorre, as reticências das autoridades sanitárias parecem encontrar aí o limiar mínimo de aceitabilidade.
O problema está em que não logramos superar e muito menos ignorar o grito de socorro que o mundo do futebol não se cansa de lançar aos responsáveis políticos.
Só uma miraculosa convergência de sensatez (de todos) e de coragem (sobretudo dos decisores políticos) poderá adiar o”requiem “ que, silenciosamente, se entoa nos nossos estádios.
Porque o espectáculo faz-se para o público, mas é com o público que ele sobretudo se faz."

Karaté: ainda ontem...


"Um praticante e instrutor avançado de karaté (5.º dan) sentiu a necessidade de escrever uma longa carta (21 folhas) em 09 de fevereiro de 1987, remetendo-a para diversas entidades, pedindo a interferência de quem de direito. Na opinião desse praticante “o funcionamento do Karate, da forma como se vai processando na presente situação, nem sempre estará correcto”. Lamenta-se que “(…) dei o meu contributo para que as coisas estivessem assim (…)”. “Penso que o Karate, tendo como forma institucional as inúmeras associações (de âmbito nacional e não regional) existentes, com as respectivas divergências de ideais, servindo os seus interesses através de democráticas votações, (…), em nada ajuda o Karate Português, pois são mais as divergências do que as coincidências”.
O que estava em causa? Eram as atitudes de alguns dos dirigentes da Federação Portuguesa de Karaté e Disciplinas Associadas (FPKDA) (1986-1992). Vejamos algumas: 1) a sede da FPKDA estava domiciliada na sede da Associação Shotokan Karaté de Portugal (ASKP); 2) o presidente de direção da FPKDA era presidente de direção da ASKP; 3) o presidente do Conselho Técnico da FPKDA tinha funções semelhantes na AKP; 4) outros cargos desempenhados na FPKDA eram desempenhados por elementos da ASKP. Se não bastasse, as reuniões eram marcadas sem a devida antecedência, impossibilitando a comparência dos instrutores e praticantes. A história é velha e repete-se!
Nesta carta foram alvitradas sete propostas, por forma a alterar um conjunto de situações, que este instrutor considerava importante. De facto, “(…) entre nós, associações, clubes e praticantes de Karate, acossando-se e tentando cada um ser o melhor da paróquia, sem tantas vezes olhar a meios”, salienta o instrutor autor da carta. Acusava ainda a Comissão Diretiva de Artes Marciais (CDAM), criada em 1972 (Decreto-Lei n.º 105/72 de 30 de março) e extinta em 1987 (DR I Série n.º 33, de 9 de fevereiro de 1987, com o n.º 69/87), de querer sobreviver, servindo de “pêndulo nestas ‘guerras’, aplicando e modificando as leis conforme as necessidades e possibilidades”. As receitas financeiras da FPKDA eram escassas. Eram os praticantes de karaté que pagavam a sua formação, deslocações e estadias. De lá para casa, esta questão não se alterou muito. O autor da carta interrogava-se para onde teriam ido as receitas do 1.º Curso Nacional de Arbitragem? “As receitas desapareceram… As despesas não foram pagas”, arrematava.
Em 1987, a FPKDA realizou o primeiro torneio interassociações, em Miraflores. Contou com a participação da arbitragem do 1.º curso nacional de árbitros (que teve lugar em 14, 15, 21 e 22 de junho de 1986, onde foram qualificados 6 juízes 3 árbitros associativos). Incluiu provas de kumité (combate entre dois praticantes) e katas individuais e por equipas, femininas e masculinas. O segundo torneio teve lugar no Porto, contando com a participação de 99 praticantes. Esta prova serviu para o exame final de 23 novos árbitros que terminavam o 2.º curso nacional de arbitragem.
A história da FPKDA é cheia de peripécias, que mereciam um estudo aprofundado. Num estado de alma, o autor da missiva refere “quando um dia formos velhos, e soar a hora de nos juntarmos a tantos outros que já estão no outro mundo, não sei para que terá servido tanta luta pelo PODER e por uma RAZÃO que tantas vezes não é nossa”.
As lutas entre a Federação Portuguesa de Karaté (1985-1992) e FPKDA (1986-1992) viram depois a fundir-se na Federação Nacional de Karaté – Portugal (FNK-P). Passou a haver uma unificação federativa a partir de 1992."

Leonor...

quarta-feira, 2 de junho de 2021

105x68...

Derrota...

Belenenses 33 - 29 Benfica
(16-16)

Depois da vitória na jornada anterior com o Sporting, nova derrota, com uma equipa mais 'fácil'... Desta vez, sabendo da Final Four da Taça de Portugal, disputada no próximo fim-de-semana, este resultado acaba por não surpreender...!!!
Sábado, novamente contra o Sporting, é para ganhar!

Parceria estratégica


"Foi ontem anunciada a ligação entre o Sport Lisboa e Benfica e o WiZink, líder de mercado no segmento dos cartões de crédito, que terá uma duração de cinco anos.
Este acordo, além de prever um encaixe financeiro significativo para o Clube, insere-se na política de valorização da condição associativa dos benfiquistas, implementada através do programa Mais Vantagens, o qual se traduz numa vasta oferta de descontos proporcionada aos sócios do Sport Lisboa e Benfica em produtos e serviços de um conjunto alargado de empresas parceiras.
Acresce que esta área de negócio não estava presentemente coberta no âmbito do programa Mais Vantagens pelos mais de 650 parceiros. Assim, a escolha do WiZink, pelo seu conhecimento na área de meios de pagamento, particularmente em parcerias na área de cartões de crédito, acrescentará valor à oferta disponibilizada aos sócios do Clube.
A breve trecho será anunciado um novo cartão de fidelização, que unirá a experiência e o know-how do WiZink em parcerias de co-branding com a ambição do Clube em oferecer o melhor programa de fidelização, com vantagens e benefícios exclusivos para os associados e adeptos benfiquistas.
Para Domingos Soares Oliveira, CEO do Sport Lisboa e Benfica, "este acordo insere-se na política de parcerias dos últimos anos, no sentido de trabalhar com as empresas líderes de mercado, mas também empresas que se destacam pela componente inovadora e na aposta cada vez mais real em tudo o que é digital". "Respeita o plano estratégico do Benfica de apostar cada vez mais nos melhores e nos mais inovadores. O facto de podermos proporcionar cada vez mais vantagens, mais valor acrescentado e mais benefícios aos nossos adeptos e Sócios é muito significativo", disse, revelando ainda que está prevista, ao longo deste mês, a celebração de 12 parcerias, entre novas e renovadas.
Por seu turno, Miguel Ángel Rodríguez Sola, CEO do WiZink, destacou a partilha de "valores comuns como o compromisso, a paixão pela inovação e o desejo de atingir novas metas" na base deste acordo, complementando com a ideia de que, para o banco que lidera, se trata de "um símbolo do compromisso com o mercado português onde quer continuar a crescer".
À margem deste anúncio, Domingos Soares Oliveira informou que está prevista a emissão de um empréstimo obrigacionista pela Benfica, SAD na primeira quinzena de julho."

Duas vitórias, uma causa humanitária


"Uma onda de solidariedade a favor das vítimas do terramoto de Messina, a que o Benfica não foi alheio

A 28 de Dezembro de 1908, Itália sofreu um dos mais mortíferos terramotos de sempre. Portugal não ficou indiferente, tendo-se realizado, um pouco por todo o país, várias actividades de angariação de fundos e donativos a favor dos sobreviventes da catástrofe. Entre as que despertaram maior entusiasmo do público estavam os eventos desportivos, demonstrando o seu papel relevante na participação da comunidade. O Benfica, com o traço solidário que o caracteriza, participou em diferentes provas, alcançando dois títulos históricos.
O desafio de futebol entre os grupos mistos de jogadores ingleses e portugueses, compostos pelos 'melhores «players», actualmente em Lisboa', era considerado o 'maior acontecimento desportivo dos últimos tempos'. Adiado várias vezes devido ao mau tempo, era 'esperado com verdadeira anciedade' pelos adeptos, cujos bilhetes foram muito disputados. Finalmente, a 2 de Fevereiro de 1909, no Campo do Lumiar, os dois conjuntos entraram sob calorosas salvas de palmas da numerosa assistência. O grupo português era composto maioritariamente por jogadores do Benfica, nomeadamente Persónio, Mocho, Cosme Damião, Artur José Pereira, António Costa, Luís Vieira, António Meireles e Carlos França.
O jogo 'foi brilhante, notando-se logo de princípio no grupo portuguez uma união e energia que inutilizaram os melhores esforços do grupo inglez', tendo terminado com a vitória dos portugueses, por 4-1, em que um dos tentos foi marcado por António da Costa. Foi uma vitória importante do grupo português, 'tanto mais lisonjeiro por ser raro', mas principalmente para a causa humanitária, calculando-se que a receita tenha excedido a soma de 200 mil réis.
Cindo dias depois, no Velódrome da Palhavã, realizou-se um concurso de jogos atléticos mas, infelizmente, a assistência 'não passou de regular', devido a dois adiamentos e a um 'dia um pouco desagradável'. Todavia, a 'festa, sportivamente, foi um triumpho'. Numa prova duramente disputada o benfiquista Alfredo Camecelha venceu na especialidade de lançamento do peso, lançando a 'bala de ferro de 7.25 kilos a 9m30, o que é muito bom', destacando-se 'a maneira elegante como lança o peso'. Um marco incontornável, pois esta vitória individual foi a primeira em atletismo da história do Clube.
Saiba mais sobre acontecimentos da história do Clube e da capital portuguesa no área 14 - Lisboa e Benfica do Museu Benfica - Cosme Damião."

Lídia Jorge, in O Benfica

Mão pesada!!!!!!


"Ali, fortissíma a manápula pesadonga da lei. Quase andam à trolhada num espetáculo desportivo, transmitido em directo para todo o país, pumbas, 10 dias de férias sem sair do quarto para um e 3 dias a lavar a loiça para outro. Com o CD (e o Record) ninguém brinca catano.
PS - por mais 2 ou 3 dias, tinham deixado voar uns sopapos para a malta rir um bocadinho."

Modalidades #49 - Semanada...

Bola na mão? No braço? Golo? Há novas regras para 2021/22 (e um novo fora de jogo em estudo)


"Já aqui vos falei sobre algumas das alterações às regras aprovadas para a próxima temporada (a partir de 1 de julho).
Porque o saber não ocupa espaço, recorde aqui as mais relevantes:
I - Golo Marcado Após Toque Com a Mão/Braço do Atacante
A partir da próxima época, o golo só será anulado se:
1 - For marcado diretamente com a mão/braço do atacante (ainda que involuntariamente);
2 - Se for marcado após a bola tocar acidentalmente na mão/braço do atacante e este obtiver golo logo de seguida (com o pé ou cabeça, por exemplo).
Quer isto dizer que, ao contrário do que acontecia até aqui, passará a ser legal o golo marcado por outro jogador, ainda que imediatamente antes a bola tenha ressaltado na mão/braço de um colega.
Além disso, será igualmente legal a bola inesperada/casual que toque na mão/braço do atacante antes deste sofrer falta passível de pontapé-livre ou pontapé de penálti.
Só para que não restem dúvidas:
- A partir da 2021/22, mãos e braços involuntários dos avançados só serão punidos se o próprio jogador marcar diretamente ou imediatamente a seguir.
II - Bola Na Mão/Braço Dos Jogadores (Em Todos os Outros Casos)
De forma a tentar dar mais justiça e coerência às decisões (de punir ou não punir determinados lances), os árbitros devem passar a avaliar:
1 - Se há ou não gesto deliberado de um jogador em levar as mãos/braços na direção da bola. Se houver, em princípio é para punir. Se a bola for ao encontro das mãos/braços do atleta, em princípio não é;
2 - Se determinado toque na bola resulta do facto do jogador fazer crescer o seu corpo de forma "não natural", ou seja, sem justificação aparente. Se isso acontecer, é para sancionar.
Se a posição pouco natural das mãos/braços de um jogador for interpretada como normal/expetável para a sua ação, para o seu movimentos naquele contexto, não deve haver punição.
A análise continuará a ser muito subjetiva (o movimento justificado para uns poderá não ser para outros), mas define um critério mais justo, que seguramente levará à existência de menos infrações.
III - A Proposta de Arséne Wenger Para os Foras de Jogo
Está muito bem lançada para aprovação futura (baseada em testes de campo a realizar) a proposta do ex-técnico francês para a avaliação dos foras de jogo.
O agora diretor para o Desenvolvimento do Futebol Mundial (FIFA) defende que um jogador não deve ser punido por fora de jogo se qualquer parte do seu corpo (com a qual um golo pode ser marcado) estiver alinhada com o penúltimo defensor.
Ou seja, se apenas a ponta do pé do atacante que está adiantado coincidir com qualquer parte do corpo do defesa, não deve haver sanção.
Na prática um atacante só seria punido se, no momento do passe, o enquadramento de todo o seu corpo estivesse totalmente à frente do corpo do penúltimo adversário.
A alteração teria forte impacto tático nas equipas e levaria a uma redução substancial das punições. O futebol de ataque seria beneficiado, o que corresponde na íntegra ao que sempre esteve consagrado no espírito da lei 11.
Vamos esperar para ver."

Um copo em honra de Giuseppe Meazza


"No intervalo das críticas que escrevia sobre vinhos, Luigi Veronelli contava jogadas de Meazza que nem o próprio vira

Peguemos num italiano médio, sem grandes peneiras, se isso for possível, mas também sem pena de si próprio como uma personagem de Ettore Scola. Se lhe estabelecermos uma lista de prioridades no que a gostos respeita, começará muito provavelmente pela mãezinha. Não há italiano médio ou de outra classe qualquer que não ponha a mãezinha no topo das preferências. Na sua maioria confundem a mãezinha gorda com as mãos enfarinhadas de fazer gnochi com a Madonna e isso já obriga o mamífero a dar voltas ao bestunto para perceber ao certo o que se pretende com o suposto inquérito.
Tenho diversos amigos italianos, uns mais típicos do que outros – no Porto diriam mais castiços – e no geral as suas listas de preferências começam com a mãezinha e com a Madonna, tanto faz, e prosseguem com carros, mulheres, spaghetti al dente, limoncello, mais carros e mais mulheres, nem sempre por esta ordem e geralmente carros vermelhos e mulheres ruivas – ou de olhos como piscinas de águas negras como os da Claudia Cardinalle –, sem faltar o calcio, ou uma visão muito especial que têm do futebol, nem sempre simples de entender.
Não são de falsas modéstias, Deus lhes perdoe. O futebol italiano é, sem dúvida, o melhor, mais belo e mais bem jogado do mundo, além de exibir uma superioridade tática sobre todos os outros como consequência de longos estudos sobre a matéria. Houve tempos em que, por pilhéria, consideravam o futebol francês como o futebol mais bem escrito do universo: tinham as prosas mágicas de Jacques Ferran, Gérard Ernaud, Gabriel Hannot, ou do meu querido amigo Jean-Philippe Retacker, puseram em marcha a Taça dos Campeões e a Taça das Nações, que se transformou em Campeonato da Europa de Futebol, mas as suas equipas a sua seleção ganhavam zero.
Vai daí, os franceses, sempre preocupados historiadores de tudo o que rodeia os fenómenos desportivos, responderam com uma dureza excessiva. Isto é, nada o que se publicava no Tuttosport, na Gazzetta dello Sport ou no Corriere dello Sport era para levar a sério, pelo menos de imediato. Até certo ponto tinham razão. Além de grandes especialistas em mãezinhas, os italianos são os príncipes florentinos dos exageros floreados.
Uma das boas tranquibérnias abertas pelo exagero de um autor italiano, teve como protagonista vários pesos pesados. Primeiro o próprio autor da prosa, Luigi Veronelli, intelectual, crítico de gastronomia e de vinhos, ensaísta político, um daqueles homens para os quais nada havia no mundo que se comparasse a um produto italiano. Nesse caso, o produto foi Giuseppe Meazza, o grande jogador do Inter que deu nome ao Estádio de San Siro e ainda passou duas épocas pelo Milan.
Da pena de Veronelli saiu esta pérola digna dos pescadores em apneia do Ceilão: «Eu vi jogar Pelé. Estava muito longe do elegante estilo de Meazza. Certa vez, mesmo à minha frente, vi Pepe Meazza fazer algo que nenhum outro jogador do mundo seria capaz de repetir. Parou a bola no ar com um pontapé de bicicleta no qual, em vez de a chutar, se limitou dominá-la. Ergueu-se a cerca de dois metros de altura.
Depois regressou à terra com a bola colada ao pé direito, fintou um defesa completamente estupefacto, e marcou um golo ao seu jeito, num daqueles remates perfeitos e sardónicos». Sabendo-se da atração que Veronelli tinha por uns bons copos de Valpollicela Amarone, de Barollo e de Nobile de Momtepulciano, pode muito bem desconfiar-se, assim à primeira, deste relato de um gesto único que mais ninguém parece ter testemunhado.
Luigi tinha um feitio complicado e era melhor não correr o risco de o contrariar, sobretudo após as libações. Vendo bem, sob a latada fresca da sua casa em Isola, nos arredores de Milão, estava no direito de dizer o que lhe desse na real gana enquanto os seus convidados despejavam garrafas de tinto acompanhadas de prosciuto crudo e borratina, sem que faltasse o pão e, de tempos a tempos, um grito claro. «Ma, per la Madonna, que Santa Lucia mi rube la luce degli occhi si questo qui raconto non è la pura realtá!». E, em seguida, mentiam até à protérvia.
Luigi Veronelli passou a vida a escrever sobre comida, vinho, política e Giuseppe Meazza. Conseguia contar proezas de Il Balila, o Garotito, como lhe chamavam os colegas por ser tão frágil fisicamente, que nem a sua própria mãezinha, como toda a boa vontade de concordar com o que dissesse il figlio não engoliria de maneira nenhuma. Diz-se que foi Luigi que inventou o golo à Meazza, basicamente um lance em que Giuseppe ia passando por todos os adversários que lhe iam surgindo pela frente até deixar a bola dentro da baliza.
Também terá sido ele e a sua florescente imaginação que lançou a imagem do penálti à Meazza: Pepe corria devagarinho para a bola, dava a sensação que chutaria para um lado, tombava o guarda-redes e dava-lhe um toque ligeiro para o lado contrário. Depois, e copo de vinho na mão, assombrava os amigos: «Esta disse-me o próprio Meazza – não há nada mais frustrante do que ver um penálti ser defendido por um guarda-redes tão burro que nem percebia o meu truque»."

terça-feira, 1 de junho de 2021

Ação redobrada: Crianças sempre!


"Sabemos que são difíceis os tempos que correm. Isso não é novidade, mas a nossa resiliência também não! Para mais, o pior poderá já ter passado no que à saúde diz respeito, todos o queremos e todos acreditamos nisso, mas as ondas de choque da terrível pandemia começam a fazer-se sentir na vida das famílias e assim continuarão a desafiar-nos, impacto após impacto, por algum tempo.
Aprender-se-á nos manuais de História que uma vez mais o jogo cruel da seleção natural pôs à prova a resistência e o engenho humanos. O Benfica soube pensar além de si próprio e superar-se na sua ação humanista, atuando de forma pronta e musculada.
O Benfica agiu, como sempre. Porque o Benfica tem uma coisa dentro de si, a que os benfiquistas gostam de chamar Mística, e que o obriga a superar-se a cada obstáculo do caminho e a acreditar nas pessoas e dar-lhes tudo de si para que se realizem plenamente e protagonizem na vida de cada um a divisa de excelência que a todos nos impele: "De Muitos Um!", cada um de nós!
Por isso, para isso, o Sport Lisboa e Benfica instituiu a Fundação Benfica há 12 anos, tendo já envolvido em projetos de apoio e desenvolvimento social mais de 210 000 beneficiários em 10 países desde então, com um crescimento de atividade e escala, impactando diretamente mais de 34 000 pessoas em 2020, a maioria das quais em Portugal.
O foco dos projetos da Fundação são as crianças e jovens, combatendo todas as formas de exclusão e a pobreza infantil e promovendo a sua inclusão educativa como passaporte para o futuro. Em Portugal, a Fundação atua junto de diferentes públicos, do 1.º, 2.º, 3.º ciclos e ensino profissional, sendo já bem conhecidos dos benfiquistas projetos como:
- "Para ti Se não faltares!"
- "Community Champions League"
- "Hat-Trick: Treinar, Jogar e Vencer"
- "Benfica Faz Bem"
- "KidFun – Educação para Valores"
- "Show Racism the Red Card"
Mas o Benfica é enorme e olha para o país como um todo, por isso, não descurando a aposta central na educação, leva ainda a Fundação a acompanhar as dores do país, levando-lhes como bálsamo a solidariedade infinita dos benfiquistas e a vontade indómita de vencer, sem nunca desistir, que nos caracteriza. Por isso mantemos e intensificamos ainda a nossa ação em projetos de Desporto Inclusivo como:
- "Walking Football" – Seniores (+50)
- "Futebol Adaptado" – pessoas portadoras de deficiência
- "Futebol de Rua" – jovens apoiados por projetos sociais
- "Welcome through Football" – refugiados
Mas também e crescentemente no futuro, nas áreas da sustentabilidade e educação ambiental com projetos nascidos da nossa reação aos terríveis incêndios de 2017, que mantemos ainda hoje como prevenção porque a memória benfiquista não é curta, como não é fugaz ou apenas de circunstância a nossa ação. O projeto "Faz da tua Escola um viveiro!" é disso um exemplo vivo, como o é a ação contínua da Fundação Benfica ao longo de todo o ano ao nível da assistência humanitária e do projeto Benfica Contigo.
São estes os projetos que mantemos durante esta dura provação, depois de uma reação à pandemia que levou o Benfica a duplicar o investimento social e a superar-se num apoio efetivo de mais de 1 200 000 euros ao SNS em material indispensável ao salvamento de tantas e tantas vidas por entre a trágica pandemia que ceifou a vida a tantos dos nossos entes queridos.
Redobraremos a nossa ação porque da solidariedade ativa e da tenacidade das organizações e dos cidadãos depende o futuro de todos nós e porque já todos sabem, benfiquistas ou não, que o nosso Benfica é fiável, sabe fazer e faz. Mais, está sempre lá quando é preciso!"

Benfica FM #161 - Temporada...

Benfica

SL Benfica | O regresso de Tiago Dantas

"A temporada a nível de clubes está oficialmente terminada e recomeçam os rumores de mercado, bem como o regresso “a casa” dos jogadores emprestados. E ao que tudo indica, o FC Bayern Munique não exercerá a cláusula de compra por Tiago Dantas, pelo que o jogador português deverá regressar aos encarnados, podendo ser opção para Jorge Jesus.
Os bávaros teriam de desembolsar 7,5 milhões de euros para poder ficar com o passe de Tiago Dantas, o que não acontecerá. Segundo a imprensa alemã, o médio era uma aposta de Hansi Flick, que está de partida do comando técnico do clube bávaro e para o seu lugar chegará Julian Nagelsmann, treinador que orientou o RB Leipzig durante duas temporadas.
Pois bem, com a saída de Flick, Tiago Dantas perde o pouco espaço que tinha no plantel dos campeões alemães e, por essa razão, regressará a Lisboa para saber o seu destino. Ainda assim, Dantas sai da Alemanha como campeão nacional e campeão mundial de clubes. Contudo, pouco ou nada acrescentou ao FC Bayern Munique, equipa que representou por apenas duas vezes.
De resto, jogou pela equipa secundária do clube por sete vezes não tendo registado nenhum golo ou assistência. De volta a Lisboa, Tiago Dantas terá de conquistar um lugar no plantel principal dos encarnados, onde terá imensa concorrência. Ainda assim, o português tem a qualidade necessária para ser opção para Jorge Jesus. Não sendo um titular indiscutível, julgo que poderia ser uma opção “barata” para mexer com o jogo quando assim necessário.
Com apenas 20 anos, o médio português procura iniciar-se e afirmar-se ao nível do seu talento e no Sport Lisboa e Benfica não vejo isso a acontecer, pelo menos não imediatamente e não regularmente. Neste idade os jogadores precisam de minutos, precisam de se desenvolver e, infelizmente, o clube da Luz não parece ser o lugar ideal para Tiago Dantas.
A equipa secundária dos encarnados, caso o jogador fique contratualmente ligado ao clube, parece ser a opção mais válida com chamadas pontuais à equipa principal, bem como realizar os treinos com a equipa A.
Também não está descartada a hipótese de uma transferência, quer seja a título definitivo ou de empréstimo, se bem que o empréstimo será a opção que agradará mais às águias. Dantas parece ter ganho novos admiradores na Alemanha e fala-se no interesse de clubes não só da Bundesliga, como do resto da Europa.
Tiago Dantas é um jogador elegante que destila qualidade cada vez que toca na bola. O seu físico franzino é o seu maior defeito, até porque num futebol que depende cada vez mais do físico, jogadores que são menos portentosos acabam por ser colocados de parte. No entanto, Dantas sempre conseguiu contornar essa sua debilidade com a sua técnica aprimorada.
Faz do seu passe e visão de jogo os seus pontos mais fortes e é capaz de pautar o jogo a seu belo prazer. Transborda qualidade pelos pés e é um dos jovens jogadores portugueses a acompanhar nos próximos tempos.
Após ter percorrido todos os escalões de formação do SL Benfica, clube onde está desde os seus quatro anos de idade, Dantas procura chegar ao plantel principal e jogar de forma regular."

É de família (literalmente) – Há outro Félix por aí à solta na formação


"“Com a idade dele, eu nem tinha o caparro que ele tem, nem fazia coisas que ele faz. Ele bate melhores livres do que eu e eu bato melhor penáltis, mas jogamos mais ou menos nas mesmas posições. No futebol, é preciso jogar simples, mas gostamos de fazer algo diferente, que anime o público e nisso temos algumas parecenças. Desde pequenos vimos um e outro a jogar e tentamos fazer igual.”
João Félix, sobre o irmão.

Devido a questões pandémicas e quase mais de um ano depois, regressaram as competições oficiais nos escalões de formação com a realização dos Torneios Nacionais (sub-15, sub-17 e sub-19), provas organizadas pela Federação Portuguesa de Futebol. Uma oportunidade para estes jovens voltarem a ter o estímulo competitivo em jogo (que por si só constitui também uma componente formativa) tendo em vista o seu desenvolvimento e também para voltarmos a ter um pequeno vislumbre daquilo que serão as gerações de futuro do futebol nacional. E é no Seixal que tem andado à solta um dos maiores talentos da geração de 2004: Hugo Félix. O irmão do jogador do Atlético de Madrid (quem não se lembra do terno abraço entre ambos na Luz) tem estado recentemente em destaque no escalão de Juvenis, mas já atuou pelos Juniores e inclusive já fez a sua estreia pelos sub-23 (com apenas 16 anos!) em Fevereiro, frente ao Cova da Piedade. Atuando normalmente como médio-interior de características mais ofensivas na estrutura de 1-4-3-3 padrão dos escalões de formação do SL Benfica, o jovem criativo apresenta já algumas características que o distinguem dos demais: a relação com bola, expoente máximo de uma coordenação motora que lhe confere um jogar muito elegante; a relação com o golo, seja pela espontaneidade de remate exterior ou pela capacidade de chegada à área partindo da posição de interior; a execução nos esquemas táticos, seja em ações de remate em distância ou cruzamento.
Convocado para o estágio de preparação tendo em vista o Europeu de Sub-17, é de esperar que Hugo Félix continue tranquilamente a sua evolução (de preferência como atualmente, em contextos de escalão acima que lhe causem mais e diversos tipos de problemas) e que possa ser mais um produto do Benfica Campus a bater à porta da equipa principal a médio prazo. Deixamos então alguns momentos do jovem médio nos Torneios Nacionais da presente época."

segunda-feira, 31 de maio de 2021

60 anos...

Estamos na luta


"A nossa equipa de futsal alcançou o apuramento para a final do Campeonato Nacional após vencer dois jogos frente ao Fundão. Depois de ter ganho, por 0-3, no reduto adversário, no sábado, na Luz, voltou a sair vencedor da contenda, por 3-2.
Neste último encontro ficou mais uma vez demonstrada a fibra dos comandados de Joel Rocha, que, num jogo caracterizado pela ineficácia frente à baliza contrária, se viram em desvantagem no marcador à entrada dos dois minutos finais. A reviravolta foi consumada quando só restavam 30 segundos por jogar, resultado que se manteve até final.
O Benfica irá assim medir forças com o Sporting, procurando revalidar o título de campeão nacional, numa final que se repete pela terceira temporada consecutiva.
No andebol, o triunfo, por 34-32, ante o Sporting na penúltima jornada do Campeonato mantém vivas as possibilidades de alcançarmos o segundo posto da classificação. Já a equipa feminina obteve dois triunfos, mantendo a distância de dois pontos para o líder Madeira SAD à entrada da penúltima jornada.
Por fim, no hóquei em patins, nova derrota na Luz obriga à realização do jogo derradeiro, no Porto (quinta-feira), para definir quem avançará para a final do Campeonato. Depois de dois triunfos obtidos em casa dos portistas, a nossa equipa não conseguiu vencer na Luz. Se no terceiro jogo houve justiça quanto ao vencedor, o mesmo já não se poderá afirmar relativamente ao jogo realizado ontem.
Rui Lança, diretor das modalidades de pavilhão do Sport Lisboa e Benfica, deu conta, após a partida, da disparidade de critérios aplicados pela equipa de arbitragem, nomeadamente na mostragem do cartão azul (que implica a utilização de menos um jogador no rinque durante um máximo de dois minutos ou até que o adversário concretize um golo).
A aplicação diferenciada de critérios já havia acontecido, em nosso prejuízo, nos jogos disputados no Dragão, nos quais, ainda assim, a nossa equipa conseguiu superiorizar-se ao adversário. Desta feita, porém, o FC Porto soube aproveitar os benefícios decorrentes das evidentes diferenças no ajuizamento do teor das faltas, pelo que importa apelar para que haja equidade no tratamento dado a ambas as equipas, sob pena de, mais uma vez, uma competição nacional desta modalidade ser decidida por quem deveria somente zelar pelo cumprimento das regras e tantas vezes não o tem feito.
Independentemente deste contexto, é com raça, querer e ambição de chegar à final que a nossa equipa se apresentará no rinque dos portistas. Que não haja dúvidas: sejam quais forem as dificuldades, iremos ao Porto para ganhar!
De Todos Um, o Benfica!"

Carlos Júnior: Os jovens não contam, mas contam os Júniores | SL Benfica


"Tem-se especulado e rumorado que o SL Benfica pode (tentar) avançar para a contratação de Carlos Júnior, brasileiro de 25 anos que pontifica no ataque do CD Santa Clara. Segundo consta, o nome de Beto há sido rasurado da lista encarnada e o do avançado dos açorianos adquiriu maior relevo por consequência.
A ser verdade, há dois pontos de maior saliência que se fazem notar: as águias vão estar atentas ao mercado nacional acima de qualquer outro e Jorge Jesus procura um homem da frente que seja potente e portentoso, visando fazer chegar ao seu plantel quem incuta agressividade à frente de ataque.
Olhando por esse prisma, a possível contratação de Carlos Júnior pode fazer sentido. Apesar de não apresentar uma fisionomia “por aí além” – 1,72m e 69Kg -, o mineiro é muito potente quando parte em velocidade (não necessariamente veloz, mas potente) e não se acanha nos duelos com os centrais adversários – duas características em falta no atual lote de avançados do SL Benfica.
À força e pujança de que é dotado, Carlos Júnior alia um jogo de cabeça um pouco mais agradável do que os de Darwin e Seferovic (os mais utilizados por JJ) e, não sendo um prodígio, cumpre os mínimos técnicos no que respeita aos movimentos e ações que devem fazer parte da miríade de recursos de um ponta-de-lança: sabe onde estar, sabe como lá chegar quando não está lá e sabe o que fazer com a bola quando com ela se encontra.
Acima de tudo, sabe como colocar a bola na baliza (que será sempre a missão primordial de um avançado, ainda que Carlos Júnior não seja o mais clássico ponta-de-lança). Na época há pouco findada, o brasileiro apontou 15 tentos: um em Aveiro, frente ao SC Beira-Mar, e 14 para a Primeira Liga. Este número fez dele o quinto melhor marcador do campeonato (à frente de Beto e Rodrigo Pinho, por exemplo), a um de Mario González e a dois de Taremi.
A segunda volta, em particular, foi pródiga em golos para o “13” do CD Santa Clara, que fez 13 dos 15 golos da sua temporada no ano civil de 2021 e que marcou cinco golos nos últimos cinco encontros da época (incluindo o seu único bis de 20/21, ante o B-SAD). Está, pois, mergulhado num estado de graça que poderá escamotear as eventuais deficiências do seu jogo e, acima de tudo, a sua inexperiência a alto nível.
O brasileiro de 25 anos já leva 82 jogos em Portugal (sete pelo Rio Ave FC, 75 pelo CD Santa Clara), mas não conhece a realidade de um clube que (em teoria) luta por todas as competições nacionais. Ainda assim, os 25 golos que já tem sob o seu nome em terras lusas (média de golos de 0,31) fazem da sua compra uma aquisição de baixo risco, se pelos valores especulados (três a quatro milhões de euros).
No entanto, parece-me uma contratação de baixo retorno também. Carlos Júnior não deverá ser mais do que um suplente fiável para competições nacionais no SL Benfica, caso ingresse no plantel do clube da Luz (e, claro, caso o clube da Luz arrepie caminho e construa um plantel à medida dos seus pergaminhos).
Caberá, então, aos responsáveis sem responsabilidade do clube decidir se faz ou não sentido avançar para a compra de um avançado suplente, sendo muitas as lacunas a suprir no atual plantel (conhecendo a estrutura encarnada, haverá sempre quem veja sentido neste negócio, mesmo que por si possa não fazer sentido algum)."

B's - 2020/21