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sábado, 28 de novembro de 2020

“Sim, paguei meses de salários em atraso a funcionários do Vitória, que estavam no clube quando passei por lá. Agora, ajudei-os”


"A ligação ao irmão [José Fonte], seis anos mais velho, é tão forte que Rui Fonte revela que a primeira vez que jogaram juntos, no Crystal Palace, em Inglaterra, nenhum dos dois desfrutou do momento tal era a preocupação um com o outro. Aos 30 anos e depois de passar por clubes como Sporting, Benfica, Belenenses, Arsenal, Espanyol, Fulham e Lille confessa-se feliz em Braga. Confirma ainda que recentemente pagou salários em atraso a dois funcionários de um clube, algo que já terá feito no passado

Nasceu em Penafiel. Apresente-nos a família.
O meu pai foi profissional de futebol e a minha mãe como era relativamente nova e já tinha dois filhos, eu e o meu irmão [José Fonte], estava em casa a cuidar de nós, só mais tarde é que concluiu os estudos e tornou-se professora. O meu pai jogava no Penafiel quando nasci.

Ficou em Penafiel até que idade?
Até aos dois anos. O meu pai já estava numa fase mais descendente da carreira e decidiu regressar a Lisboa. Ele ainda chegou a jogar no Malveira, mas pouco tempo depois deixou definitivamente. 

Quando era pequeno torcia por que clube?
O meu irmão jogava no Sporting, ele é mais velho seis anos, e o meu avô também era seguidor do Sporting. Eu comecei a jogar no Sporting aos seis anos, por isso também ganhei algum carinho e apreço pelo clube. Lá em casa toda a gente gostava do Sporting.

Quem eram os seus ídolos?
Eu e o meu irmão gostávamos muito do Figo, do Rui Costa, daquela geração da seleção que foi até 2004, 2005. Também gostava do Fernando Couto, que até tinha aquela imagem de marca do cabelo, do Vítor Baía, que por essa altura andava no Barcelona. Mas se tiver de eleger só um, seria o Figo.

Estava a contar que começou a jogar com seis anos…
Aliás, foi aos cinco. Mas o Sporting ainda não tinha equipa para tão pequeninos e tive de ir para o Sacavenense. No ano seguinte é que fui para o Sporting. Mas foi uma coisa natural, nós assistíamos aos jogos do meu irmão e eu tinha sempre a minha bola, andava sempre com ela atrás.

Notou muita diferença quando passou do Sacavenense para o Sporting?
Não… Quer dizer, os meninos do Sporting tinham um bocadinho mais de qualidade mas também eram todos dois anos mais velhos do que eu. Tive de aprender logo desde pequenino que não seria fácil. 

Nessa altura vivia em que zona de Lisboa?
Em Camarate.

Como é que ia para os treinos?
Como eu e o meu irmão tínhamos de ir ao mesmo tempo, os meus pais levavam-nos.

Gostava da escola?
Sim, durante a minha escolaridade só tive duas negativas no final de um período. A minha mãe também criou essa condição para mim e para o meu irmão, de que para poder andar no futebol não podíamos ter negativas. Não nos exigia notas muito altas, mas que tivéssemos em atenção a escola. O meu irmão ainda concluiu o 12.º ano, eu fiquei-me pelo 10.º, mas foi porque aos 16 anos tive de ir para Inglaterra e tive de deixar a escola.

Como é que isso aconteceu? Acaba por ir para fora primeiro do que o seu irmão, certo?
Exato, mas foi daquelas circunstâncias normais do futebol e de clubes que tentam recrutar jogadores o mais jovens possível. O Arsenal fez isso: foi observar os torneios que eu tinha com a seleção, entretanto falaram como o meu empresário, o Artur Fernandes, que na altura era o mesmo do meu irmão, embora eles não soubessem. Depois convidaram-me para ir conhecer o centro de estágio do Arsenal e houve o avançar das negociações, entre o Sporting, o Arsenal e comigo. Comigo não foi difícil, porque só ter a oportunidade de jogar no Arsenal já era suficiente para mim.

Tinha 16 anos?
Sim. Na altura das negociações ainda tinha 15, entretanto em abril fiz 16, porque isto começou logo em janeiro, fevereiro. No final do verão fui assinar a Inglaterra e fui direto para um torneio da seleção de Sub-17, nos EUA.

Quando vai para o Arsenal vai viver sozinho, como é que foi?
Sim, fui sozinho mas fui viver com uma família inglesa porque a política deles era essa. Não era ficar num centro de estágio como nós temos aqui. Eles tinham a ideia de que era melhor para os jogadores estrangeiros e alguns ingleses, que sejam de cidades mais longínquas de Londres, ficarem com famílias porque ajuda mais à integração dos jogadores. Eu não dominava o inglês, pouco sabia da cidade e também tive sorte com a família com que calhei e com que estive.

Quem era essa família?
Tinham um filho mais novo dois anos e uma menina que tinha acabado de nascer quando cheguei. Foi bom. A família ajudou-me bastante, o rapaz mesmo sendo mais novo também me integrou bem, chegámos a estar quatro jogadores na mesma casa, porque era uma casa grande, em que era possível coabitar todos. Nós estávamos no andar de cima, tínhamos um espaço só para nós, mas a família foi realmente muito boa para mim e tendo um rapaz quase da mesma idade para jogar PlayStation, para ver filmes, para fazer seja o que for, foi bom. Foi muito importante essa experiência para a minha integração.

Notou muita diferença ao nível de futebol, do Sporting para o Arsenal?
Sim, um bocadinho diferente a nível físico. Mas em Portugal já se estava a começar, o Sporting também já tinha muito essa ideia de desenvolver jogadores a nível do ginásio. Eu como só me desenvolvi fisicamente um bocadinho mais tarde, senti muita diferença especialmente nas primeiras semanas. Treinava, chegava a casa e ia direto para a cama dormir umas horinhas. Chegava completamente morto a casa [risos]. Mas a partir do momento em que se começa a entrar na rotina, já se sabe o que esperar e aguentar desse trabalho.

Começa a ganhar dinheiro com o futebol nessa altura?
Sim, já tinha assinado um contrato de formação com o Sporting.

Qual o valor do seu primeiro ordenado?
200 euros.

Lembra-se do que fez a esse dinheiro?
Lembro-me perfeitamente porque digo a toda a gente. Na altura os meus pais não podiam dar-me botas verdadeiras e a primeira coisa que eu fiz quando recebi o meu primeiro ordenado foi comprar umas. Não foi um bom investimento, mas senti que aquele era o meu dinheiro e era aquilo que eu queria e não tive dúvida alguma em fazê-lo, fui comprar umas botas verdadeiras, umas Mercurial brancas com uns traços amarelos atrás, que custaram €198.

Foi todo para as botas.
E fiquei feliz com isso. Eu já vivia antes com o que os meus pais me davam para o dia-a-dia, para a semana, por isso...

Quanto tempo é que ficou em casa da família inglesa?
Lá existe um processo em que, quando um jogador se torna profissional, ao fim de dois anos ou sai da casa ou pode continuar, mas tem de suportar os custos que o clube tinha. No primeiro ano em que estive no Arsenal, não podia assinar contrato profissional, então durante o primeiro ano recebi um salário como se fosse de formação aqui em Portugal e depois, como o meu irmão também já tinha ido para Inglaterra, optei por ir uns dias para casa do meu irmão. Ficava lá nos primeiros dias da semana e, como já conduzia, fazia a viagem nos dias que antecediam o jogo e ficava em casa da família para poder descansar e estar preparado para o jogo. A partir dos 17 como era profissional fazia isso. Lá a carta de condução tira-se aos 16 anos.

Lembra-se da sua estreia na equipa principal?
Sim, foi contra o Wigan Athletic para a taça da liga. Vinha de um início de época bom e acho que foi por alturas de dezembro, novembro. Eram aqueles primeiros jogos da Taça da Liga em Inglaterra e entrei para substituir o Carlos Vela. Tinha o meu irmão na bancada, mais uns amigos que estavam lá na altura e foi realmente bom. Foi o concretizar, não do objetivo total que seria ficar, mas de estrear-me profissionalmente e jogar na equipa principal do Arsenal. Felizmente consegui esse pequeno objetivo mínimo que era poder estrear-me no Arsenal.

O treinador era o Arsène Wenger.
Exatamente.

Com que impressão ficou dele?
Fiz duas pré épocas com ele até certa altura e ele é uma pessoa que dá as indicações, mas delega muito as funções do treino aos seus adjuntos. Era uma pessoa bastante tranquila.

Depois é emprestado ao Crystal Palace. Muito diferente do Arsenal?
Diferente acima de tudo porque já era futebol sénior, no Championship, um campeonato extremamente competitivo, tinha a ajuda do meu irmão que estava na mesma equipa, mas muito diferente das reservas onde eu estava no Arsenal.

Nessa altura já estava a viver com o seu irmão?
Exatamente, a partir daí, como ia ficar até a final da época, mudei definitivamente para casa dele. Fui viver com ele e com a nossa avó que nos últimos meses tinha ido para lá, gostava de nos acompanhar, fazia questão disso.

Lembra-se do primeiro jogo com o seu irmão?
Lembro-me mas a equipa ao certo, não sei, acho que era a Blackpool se não estou em erro.

Foi uma sensação e um gozo diferentes?
Acho que desfrutei muito mais desta vez em que estivemos juntos no Lille porque já estávamos em fases diferentes da nossa carreira, mais maduros. Naquela altura eu ainda tinha 18 anos, o meu irmão preocupava-se realmente comigo e eu como miúdo a ver o meu irmão a jogar ficava sempre muito nervoso. Porque era o meu irmão, temos uma ligação muito forte e então quando às vezes estava em campo, estava a pensar no meu irmão e ele a pensar em mim, por isso acho que quando estivemos juntos no Lille desfrutamos realmente mais do que nessa altura. Mas, claro, foi bom partilhar o balneário e a casa com o meu irmão, foi juntar os dois melhores mundos.

Entretanto, o Rui não fica em Inglaterra, regressa a Portugal e vem para o Vitória de Setúbal. Porquê? 
Porque eu tinha dois anos de contrato. O acordo feito era que o Arsenal pagava uma compensação ao Sporting por três anos de contrato, que seriam três anos de empréstimo neste caso e no final haveria a opção de comprar. Como essa opção não foi exercida e como eu tinha mais dois anos de contrato com o Sporting no caso de eles não acionarem a cláusula, fazia todo o sentido ser emprestado.

Ficou muito sentido ou desiludido por eles não terem acionado a cláusula?
Não, a partir de certa altura já adivinhava isso e se calhar para eles não faria sentido o investimento que era e também para a minha carreira não sei se seria o melhor. Porque ficaria ligado ao Arsenal, mas se calhar não teria tido as experiências que tive depois nas épocas seguintes.

Mas não lhe custou sair de perto do seu irmão?
Pelo lado afetivo custa sempre, mas também estava a voltar a casa. Quando voltei fiquei à mesma em casa dos meus pais. Também foi um regressar a casa, aonde sempre vivi, tinha a minha namorada que é hoje a minha esposa.

Como é que se chama e quando é que a conheceu?
Inês Fonte e conhecia-a na escola, andámos juntos na mesma escola aos 14 anos.

Começaram a namorar logo nessa altura?
Exatamente, mas na altura era aquela coisa: começamos, depois acabámos, depois começámos uma segunda vez, até que à terceira realmente foi de vez. Nesse dezembro, janeiro que antecedeu o meu regresso a Portugal é que nós começámos em definitivo, até hoje. O que é que a Inês faz ou fazia profissionalmente? Ela terminou o curso e exerceu medicina veterinária.

Vai para Setúbal. A que é que lhe custou mais a adaptar no regresso?
As expectativas que temos enquanto jovens em que pensamos que será tudo fácil, queremos chegar lá e jogar… Fui para uma realidade bastante diferente com o clube a descer de divisão, que tem algumas dificuldades. Quando cheguei o mister era o Carlos Azenha. Depois, o mister foi embora e tivemos o treinador interino Quim, e depois ficou o Manuel Fernandes até ao final da época.

Dos três com qual se entendeu melhor?
Não posso dizer que me entendi melhor com algum, porque joguei pouco. Foi realmente um ano que considero... Não digo perdido, porque foi de muita aprendizagem para ver realmente o que era futebol. Foi uma boa introdução porque tive bons colegas com quem partilhei diariamente o balneário, tinha excelentes capitães que foram tentando passar bons valores e boas ideias devido à sua experiência. Não fui aprendendo no campo, mas fui aprendendo nos treinos e fora deles.

As primeiras saídas à noite começam aí, ou já tinham começado em Inglaterra?
Nunca fui muito de sair à noite. Ainda cheguei a sair umas vezes em Inglaterra porque os horários são um bocadinho diferentes dos que se praticam em Portugal que é tudo mais tarde. Em Inglaterra começa e acaba tudo mais cedo e agradavam-me mais esses horários. Aqui em Portugal realmente nunca saí, muito porque nunca gostei muito dos horários e da própria maneira de se viver esse momento.

Não fica em Setúbal porquê? Porque é que vai parar ao Espanyol?
Porque acabou esse ano de empréstimo e esse último ano que tinha de contrato com o Sporting fui emprestado novamente, assinando no contrato que, se tudo corresse bem, eu ficaria lá e foi isso que aconteceu, felizmente. Inicialmente ia para a equipa B do Espanyol com perspetiva de subir à equipa A, nunca foi nada garantido, mas desde o início que tive a sorte de encontrar um treinador [Pochettino] que realmente gostou muito de mim. Quando abriu o mercado de transferências, em janeiro de 2011, subi à equipa principal e fiquei até ao meu regresso.

Vai sozinho para Espanha?
Sim, a Inês estava a concluir o curso de medicina veterinária.

Custou-lhe voltar a sair e sozinho?
Por um lado é sempre aquele bichinho da aventura, de ir conhecer, mas no fundo custa sempre, principalmente nos momentos que não estão a ir tão bem, sente-se a falta das pessoas. Mesmo com os telemóveis é sempre melhor quando há a presença física das pessoas.

Tinha algum jogador português no Espanyol?
Não. Chegou depois o Simão Sabrosa já no fim, na época em que vim para Portugal, mas foi só o Simão.

Está duas épocas e meia no Espanyol. O que mais o marcou?
Foi mesmo o treinador, o Pochettino. Também gostei bastante da cidade, mas o acreditar dele em mim, o querer fazer-me acreditar em mim mesmo, que eu era realmente bom jogador, isso marcou-me até hoje. Às vezes em jeito de brincadeira, como ele chegou a um nível tão alto, brinco com o que ele me dizia, que se eu acreditasse em mim como ele acreditava, eu podia ser um grande jogador. Isso foi realmente o que me marcou. Também tive um diretor desportivo que tratou sempre muito bem de mim, por isso posso dizer que tive um treinador e um diretor desportivo que tiveram sempre em atenção a minha pessoa enquanto jogador e ser humano, proporcionaram-me tudo dentro do que podiam, tentaram sempre ajudar-me.

Entretanto acaba contrato com o Sporting e assina pelo Espanyol.
Sim, por mais dois anos.

Mas não os completou.
Não, na última época vim para o Benfica.

Como é que isso acontece?
Entretanto, o Pochettino tinha saído e eu estava a jogar numa posição que não gosto, a extremo, as coisas não me corriam bem, estava fora da minha posição. Gosto de jogar como ponta de lança, a segundo avançado. Depois, os meus pais também se estavam a separar e então estava numa situação difícil, estar tão longe a lidar com tantos problemas... Felizmente, surgiu a oportunidade de vir para o Benfica e vim de olhos fechados.

Mas veio para a equipa B.
Exato.

Não o incomodou?
Não, porque entendia que teria de passar novamente por esse processo, de provar às pessoas a minha qualidade. Nunca tive esses problemas de ir para uma equipa B e ter de provar novamente. A minha carreira foi feita assim, a tentar e a provar às pessoas que merecia as oportunidades que tive. Infelizmente quando cheguei à equipa B do Benfica lesionei-me no primeiro jogo.

Onde?
Rompi os ligamentos cruzados do joelho direito em fevereiro e depois, a recuperar dessa lesão, fiz uma segunda em setembro e fiquei 15 meses parado ao todo. Mas como estava a dizer, nunca tive problemas em provar às pessoas o meu valor.

Quando vem para o Benfica volta a casa dos seus pais ou já vai para uma casa sua?
Os meus pais entretanto tinham-se separado e eu fiquei em casa do meu pai; a minha mãe tinha voltado para Penafiel, de onde é, e eu fiquei em casa do meu pai porque cinco dias depois de ter chegado, lesionei-me . Não fazia sentido estar a viver sozinho e assim tive a ajuda do meu pai. A minha mãe um bocadinho mais longe, mas sempre dando o apoio de mãe e fazendo as suas visitas. Mas no meu pai, como é um prédio de família, tinha as minhas tias e na altura a minha avó. A minha tia vive no andar debaixo do do meu pai, sempre foi um forte apoio porque tratava das refeições e de tudo o que eu precisasse.

Voltou a jogar com que treinador, em que época?
Quando voltei já era o Hélder Cristóvão que treinava a equipa B. Ainda faço quatro jogos da época 2013/ 2014, fui entrando aos poucos até que fiz o último jogo a titular nessa época, já estava tudo resolvido e realmente havia espaço e era oportuno para mim poder acumular alguns minutos com vista a preparação da próxima época. Iniciei a época seguinte também na equipa B, mas aí já completamente recuperado, e em janeiro subi à equipa principal e depois já no fim do mercado fui emprestado ao Belenenses. Foi o iniciar de uma nova carreira na minha opinião.

Chegou a fazer algum jogo na equipa principal do Benfica?
Ainda joguei com o Arouca para a Taça da Liga.

Era Jorge Jesus o treinador.
Exato.

Como é que se deu com ele?
Bem, ele foi sempre correto comigo. Claro que fazia sempre as suas retificações, especialmente aos mais novos, mas foi sempre muito correto comigo. Aliás. como toda a estrutura do Benfica foi e eu só tenho a agradecer porque tão novo e passar por aquelas lesões, só com o apoio de gente muito boa, já nem falo dos profissionais que são, mas das pessoas, dos seres humanos que são e que me ajudaram a poder recuperar destas duas lesões da melhor maneira. Na altura em que saí, fui falar diretamente com o mister e ele entendeu, era o que fazia sentido, tanto que fui emprestado ao Belenenses.

Gostou da experiência no Belenenses?
Foi espetacular porque no passado recente o clube tinha subido de divisão, no ano anterior tinha-se safado na último jornada e nessa época conseguimos ir à Liga Europa. Eu cheguei em fevereiro, contribui com algo mas foram os meus colegas que o fizeram, por isso foi o culminar de uma boa época para mim.

Foi com o Lito Vidigal ou com o Jorge Simão?
Quando eu chego ainda estava o mister Lito Vidigal e depois acabei com o mister Jorge Simão.

Muito diferentes um do outro?
Sim, como são todos os treinadores, porque cada um tem a sua ideia, a sua maneira de trabalhar, a sua maneira de estar com os jogadores, mas concluindo foi um ano muito bom porque conseguimos essa qualificação para a Liga Europa que foi um feito histórico para o clube no que tinha sido as suas épocas anteriores.

Teve pena de não continuar em Belém?
Não porque no ano a seguir venho para Braga. Tendo a oportunidade de vir para o Sporting de Braga não podia dizer que não.

E vai para Braga também sozinho ou nessa altura já tinha casado?
Eu casei nesse verão de 2015. Fiz a pré época com o Benfica, uma pré época que correu bem, ma tendo em conta as opções que o Benfica tinha, o que fez sentido foi poder aproveitar a oportunidade de representar um clube como o Braga ao mais alto nível e foi isso, foi sem pensar, já estava casado, viemos os dois para Braga e foi o iniciar de uma história que ainda está por concluir, mas que está a ser muito bonita.

Chega a Braga com Paulo Fonseca no comando, certo?
Exato.

Gostou dele?
Bastante, não só pela relação que criámos, mas pela sua maneira de ser como treinador, pelas suas ideias, pela maneira como vê o jogo. Aprendi realmente muita coisa com ele. Ele considerava-me um jogador inteligente mas ele abriu-me outras ideias, mostrou-me outras coisas que fazem realmente faziam sentido.

Consegue dar um exemplo prático?
Dentro da maneira dele jogar, os avançados têm de correr em direção à baliza, estar sempre virados para a baliza, não estar nunca de costas. Ele criou a ideia dentro da equipa de que os avançados tinham de correr para a frente, que era para criar o espaço para os alas. O envolver de todos os jogadores num processo que terminasse no golo, na vitória e os avançados tinham que ter essa ideia presente que era ir para a frente, não se preocuparem muito em vir buscar a bola e estar sempre de frente para a baliza porque o avançado faz golos é de frente para a baliza. É essa a principal ideia que ele me passou. Isto dito assim muito rapidamente, é uma das suas ideias. O mister Jesus numa maneira diferente, porque aprendemos com todos, mas com o Paulo Fonseca foi o abrir de um leque de ideias que eu não conhecia até ali.

Regressa ao Benfica ou já não?
Não, eu faço essa época em Braga e depois assinei com o SC Braga.

Não chega a fazer uma pré época com o Benfica, com o Rui Vitória?
Na época seguinte regresso ao Benfica, exatamente. No primeiro ano vim emprestado para o Braga pelo Benfica e no final dessa época até ao meu regresso a Braga, fiz a pré-época no Benfica com o Rui Vitória, exatamente.

Muito diferente do que tinha vivido?
Sim, também era uma equipa diferente, ideias diferentes, uma pré-época que me correu bem, mas infelizmente num jogo em Lyon lesionei-me. Depois, deu-se o iniciar da temporada, da Supertaça e eu estava lesionado, mas estava tudo alinhavado para regressar a Braga.

Era o que o Rui queria, regressar a Braga, ou preferia ter ficado no Benfica?
Como disse anteriormente, dadas as opções do Benfica na altura e tendo a oportunidade de assinar em Braga, um sítio onde tinha sido muito feliz, tanto eu como a minha esposa, gostamos da cidade, gostamos muito do clube, tínhamos ganho a Taça de Portugal nesse ano anterior, então só fazia sentido estar em Braga.

Regressa com Peseiro à frente da equipa e depois vem Jorge Simão.
O mister Abel ainda fez um jogo na transição do mister Peseiro para o Jorge Simão, mas foi o mister Jorge Simão que fez a maior parte dos jogos da segunda volta.

E do Peseiro com que impressão é que ficou?
Muito boa pessoa, um treinador afetivo que gosta de falar com os seus jogadores, de perceber como é que estão, de saber o que é que lhes vai na cabeça, acima de tudo tem uma relação muito próxima com os jogadores, e depois tem sempre a ideia de fazer muitos golos, um futebol atrativo que possa traduzir num futebol extremamente ofensivo, essa é a principal ideia.

Muito diferente do Jorge Simão?
Acho que o mister Jorge Simão tinha uma ideia diferente mas que bem explicada e bem entendida pelos jogadores pode ser uma boa ideia, tanto que ele fez bons trabalhos aqui em Portugal, tanto no Chaves, no Paços de Ferreira, no próprio Boavista que estava numa fase difícil e ele conseguiu estabilizar o clube. Foi pena que a sua passagem aqui pelo SC Braga.

Na época seguinte ainda inicia no Braga com o Abel Ferreira não é?
Exatamente.

E que tal?
O mister Abel Ferreira tinha feito os últimos quatro jogos dessa época, quando o mister Jorge Simão saiu, e inicia a seguinte. Acho que foi um continuar diferente, um continuar das ideias do Paulo Fonseca porque eles trabalharam juntos. O mister Abel com algumas nuances diferentes, mas a sensação que tenho do mister Abel é a mesma da do Paulo Fonseca, um treinador que tem uma ideia muito vincada, que consegue realmente explicar aos jogadores o que quer, e isso também transmite confiança ao jogador porque sabemos sempre o que temos de fazer ou o que esperar do próprio jogo. Gostei bastante do mister Abel.

Mas o Rui não fica em Braga vai para o Fulham. Como isso acontece?
Foi-me falado umas semanas antes sobre esse interesse mas nem liguei muito. Mais tarde quando a gente vai à Luz jogar com o Benfica, nessa altura eles ligam a dizer que tinham ficado realmente agradados. Na semana seguinte jogamos aqui em casa com o Portimonense e foi quando realmente me fizeram a proposta e eu tive de decidir se realmente queria ir para o Fulham. Como era bom tanto para mim, como para o clube, foi sempre esse o meu foco, que fosse bom para todos, aconteceu. O Fulham fez a proposta, o Braga negociou...

Apetecia-lhe sair outra vez?
Não posso ser hipócrita, a proposta financeiramente era muito vantajosa para mim, o clube também recebia um bom valor pela minha transferência e não podia dizer que não a essa oportunidade. Era um campeonato que já conhecia bem, o Championship, com ambição de subir à Premier League, não estava simplesmente a mudar. Realmente a parte financeira era muito boa, mas também havia um projeto para o próprio clube, não foi só "vou atrás do dinheiro". Era um clube de Londres, o meu irmão na altura também estava em Inglaterra, e estava relativamente perto de mim. O Fulham era um clube histórico. Por outro lado sentia-me muito bem em Braga, tinha sido nomeado capitão pelos meus colegas, pela própria equipa técnica, sentia-me bem. Infelizmente a época anterior não nos tinha corrido como pretendíamos, mas tínhamos ambições renovadas para esse ano. O ano anterior tinha sido bom para mim pessoalmente e queria dar continuidade a isso, mas ponderei tudo e decidi voltar a Inglaterra e felizmente também correu bem.

Foi com a sua mulher ou ela ficou cá?
Fomos os dois.

Não tinham filhos?
Ainda não.

A sua mulher adaptou-se bem a Inglaterra?
Ela continuou sempre a trabalhar, só deixou quando nasceu o nosso pequenito, mas foi sempre trabalhando, fazia duas, três semanas lá e vinha a Lisboa, mas gostou. Londres é uma cidade que é boa para se viver alguns anos, eu pessoalmente acho muito grande, muito longe para se chegar a todo o lado, mas realmente tem tudo o que nós quisermos. Uma peça de teatro, jogos da NBA, concertos, restaurantes de todos os sítios do mundo, tem realmente essa oferta e é bom de se experienciar e vivenciar isso tudo. Mas eu, como sou um bocado mais recatado, gostei de estar lá, mas não me via a viver lá para sempre.

O treinador que apanha no Fulham é o Jokanovic. Ficou com boa impressão dele?
Pessoalmente, não. Tanto pela parte tática, técnica e pessoal porque era uma pessoa fria que não falava muito com os jogadores. Felizmente correu bem para nós, conseguimos subir à Premier League nesse ano, mas a opinião que tenho dele não é a mais positiva. Claro que aprendi certas coisas com ele, mesmo que não sejam positivas no momento, mais tarde vê-se que podemos aprender com isso e foi isso que eu fiz.

A que se refere em concreto?
Foi a parte pessoal de certas coisas, que neste caso não disse ou não fez, mas pronto também não vale a pena entrar muito em detalhe porque foi uma experiência passada, felizmente acabou bem para todos porque conseguimos a ambição do clube, por isso, medindo tudo, acabou por ser um bom ano porque tinha arriscado em ir para lá.

Não fica porquê?
Porque iniciamos a época na Premier League, ele também inicia e eu já sabia de antemão que dificilmente ele quereria que eu ficasse lá, então...

Tiveram algum problema, algum desentendimento?
Não, porque como eu disse simplesmente nunca foi pessoa de falar comigo e se ele não queria falar comigo também não seria eu a dar esse passo porque eu queria seguir em frente, não queria alimentar esse problema que neste caso nunca houve, mas que era um problema tanto para mim, como para ele. Mas nunca houve essa questão de se chegar a falar sobre isso e era sempre uma questão de tempo até arranjar a solução que fosse realmente boa para mim naquele momento.

A solução foi ir emprestado para o Lille. Foi o seu empresário que conseguiu? Teve a ajuda do seu irmão?
O mister Luís Campos, que era o diretor geral e o conselheiro do presidente, já tinha perguntado ao meu irmão, que tinha assinado e iniciado a pré-época, qual era a minha situação e o meu irmão disse-lhe que eu realmente não estava contente. O Lille também atravessava alguns problemas porque precisava de tratar da situação de alguns jogadores para poderem entrar outros e por isso é que se fez no último dia de mercado. Mas foi assim, o mister depois ligou-me a perguntar se eu via com bons olhos essa ida para o Lille eu disse claro que sim. Já tinha falado com o meu irmão como é óbvio, ele estava em pré-época e eu ia-lhe perguntando coisas do clube, como é normal. Mas depois o mister disse-me o que é que pretendia de mim, o que é que esperavam do clube para essa época e foi isso que me fez seguir para lá. Seguiu-se o Belenenses.

Reencontra o seu irmão e como disse no início da entrevista desfrutaram ambos mais dessa experiência. 
Sim muito mais, até pela maneira como iniciámos o campeonato, joguei logo nos primeiros jogos. Depois, devido ao tempo que estive, não por lesão mas sem jogar consistentemente no Fulham, fiz três jogos seguidos e lesionei-me. Mas foi uma época realmente muito boa porque estava a viver com o meu irmão, a família do meu irmão não o acompanhou, porque um dos filhos já estava na escola, e porque Londres é relativamente perto de comboio, fica a uma hora. Então, ficámos os três na mesma casa e foi realmente agradável porque podemos desfrutar de tudo isto. Depois nasceu o meu filho, o Gabriel, em dezembro de 2018.

Nasceu lá ou cá?
Nasceu cá, era para ter nascido lá, mas decidiu nascer mais cedo e nasceu aqui em Portugal. Teve de cá ficar aquele tempo normal e mais tarde acompanhou-nos até lá e foi muito bom, o meu irmão pode estar com o sobrinho. Foi boa essa época tanto a nível pessoal, como a nível futebolístico, porque também culminou na qualificação para a Liga dos Campeões, em 2º lugar. O que para um clube que se tinha safado a duas jornadas do fim na época anterior, conseguir a qualificação para a Liga dos Campeões nessa época foi realmente um feito muito bom para o clube que felizmente tem dado continuidade a esse sucesso.

Entretanto regressa a Inglaterra.
Sim, fiz lá a pré-época e depois regresso a Braga.

Foi o Rui que forçou? Não queria continuar em Inglaterra?
Depois de uma conversa com o treinador, o Scott Parker, chegámos a um entendimento. Ele apreciava as minhas qualidades, mas foi sincero comigo e disse que fazia mais sentido para a fase da minha carreira jogar do que ficar ali como segunda opção e eu entendi que sim, que devia seguir em frente. Já tinha o interesse do SC Braga, mas seria sempre mais difícil ser eu a ir comunicar a eles essa situação, mas calhou bem neste caso porque eles vieram falar comigo e pôde-se fazer dessa maneira.

Recorde-nos lá a dança de treinadores da época passada.
Era o mister Abel, eu ainda não tinha chegado, depois entrou o mister Sá Pinto e depois o mister Rúben Amorim, a seguir o mister Custódio e o mister Artur Jorge.

Não deve ser fácil para os jogadores estar sempre a adaptar-se a maneiras de pensar diferentes.
Eu acho que a época passada também foi o mostrar às pessoas como o grupo era coeso, de bons jogadores e de grandes seres humanos. Aguentar a época que culminou com a conquista da Taça da Liga, o 3º lugar, isso mostra que o clube tem uma estrutura muito forte. E mostrou também que este grupo de jogadores esteve sempre junto e tentou ultrapassar todas as situações da melhor maneira. O mister Abel teve uma proposta muito boa do PAOK e seguiu esse caminho; o mister Sá Pinto estava a realizar uma boa Liga Europa, no campeonato não estávamos tão bem e o clube decidiu mudar para o mister Rúben Amorim, que foi o que foi, com o sucesso que nós tivemos na Taça da Liga, de ganharmos nove jogos em dez no campeonato, de começar a subir na classificação, até que se dá a transferência dele para o Sporting; e depois o mister Custódio apanha uma fase difícil que é da pandemia, faz um jogo e isto para. Não pode ter o contacto com os jogadores e nós recomeçamos numa altura em que havia uma grande incerteza sobre a pandemia e o que é que se podia fazer; e o mister Artur Jorge conseguiu realizar um excelente trabalho a acabar que culminou com essa vitória na última jornada, foi um feito muito bom para o clube, uma Taça da Liga e o 3º lugar. O mister Artur Jorge realmente conseguiu dar seguimento ao que tinha sido feito antes.

Ainda não se estreou com o novo treinador, Carlos Carvalhal, uma vez que se lesionou em julho num jogo com o Tondela. Tem ideia de quando vai regressar?
Já tenho a paciência e a maturidade suficientes para encarar esta fase em que estou da melhor maneira possível, sabendo que não posso apressar nenhum processo. É difícil dar um prazo, porque depende muito da maneira como evoluir a minha recuperação. Espero que seja o mais breve possível mas estar a dar um prazo para depois não se concretizar, acho que não faz bem a ninguém, nem a mim próprio ao criar expectativas. Pelo que estou a vivenciar neste momento, está a correr muito bem e está tudo dentro do que era expectável aquando da operação e do plano de recuperação.

Como foi o seu percurso nas seleções?
Fiz os escalões todos da seleção até aos sub-21 e depois fui duas vezes convocado para a seleção A, não me cheguei a estrear. Para já não passa de um sonho, primeiro tenho que trabalhar para o conseguir. 

Mas é um objetivo ainda?
Sim. Até achar que é um objetivo possível de alcançar será sempre porque acho que isso faz parte do objectivo de qualquer jogador, ser internacional.

Onde ganhou mais dinheiro?
No Fulham.

Foi investindo em quê?
Em imobiliário e também tenho uma pessoa que me acompanha a esse nível, não só no imobiliário mas na gestão bancária, que me vai sempre aconselhando da melhor maneira. Mas maioritariamente no imobiliário.

Qual foi a maior extravagância que fez porque podia?
O meu carro atual. Foi no momento da minha lesão em que achei que era merecido, tendo em conta o que eu já tinha passado.

Que carro é?
Um Porsche Targa.

Tem algum hóbi?
Além dos meus momentos familiares, gosto realmente de estar com a minha esposa e com o meu filho, dá-me realmente muito prazer, ir buscá-lo à escola, gosto de jogar PlayStation, “Call of Duty”. É o único jogo que gosto de jogar e que tenho tempo para.

É crente?
Sim. Não sou seguidor ou praticante, mas tenho as minhas crenças. Sei que há algo, mas não sigo regras seja de que religião for, mas sim praticar o bem no nosso dia a dia.

Tem alguma superstição?
Entro sempre com o pé direito no campo, só. Mas não é nada que precise de fazer, mas que faço já mais por hábito do que superstição.

Tatuagens?
Tenho. Só fiz uma e foi ao mesmo tempo que o meu irmão, que diz El Niño. Porque na altura gostava do Fernando Torres que era o El Niño e o meu irmão deu essa ideia de fazermos os dois e fizemos os dois ao mesmo tempo no braço.

Qual foi a maior alegria e a maior frustração na carreira até hoje?
Alegria na carreira foram os troféus com o SC Braga porque é um sítio onde eu e a minha família nos sentimos bem e onde realmente me dá prazer conquistar coisas, é um sítio e um clube que ficou meu, que é o meu clube. A maior frustração foram as minhas lesões, as três que já tive nos joelhos, as outras foram relativamente fáceis de ultrapassar, mas essas três lesões já me tiraram o suficiente.

Se não fosse jogador de futebol o que acha que teria sido?
Não sei mas acho que teria algo a ver com carros. O meu pai trabalhou com carros, trabalhava no comércio automóvel, o meu irmão também ganhou esse gosto pelos carros e eu, como mais novo, fui sempre crescendo com isso. Por isso acho que teria de ter a ver algo com os carros, não sei. Eu e o meu irmão gostamos muito de corridas, de pilotar, não sei se seria por aí, mas é algo que realmente gosto. 

Costuma seguir a F1?
Sim.

Tem algum piloto favorito?
Nesta altura há uma boa geração, mas o culminar dos sete títulos do Lewis Hamilton é um bom exemplo para todos nós. Ele é um bom exemplo do que se pode conquistar no que acreditamos.

Algum clube de sonho onde gostava de jogar ou de ter jogado?
Tinha dois, o Manchester United por toda a sua história e o Real Madrid que eu considero o top dos tops dos clubes. A seguir ao Real Madrid acho que não há realmente mais nada.

Qual foi o melhor e maior conselho que o seu irmão lhe deu?
Foi sempre acreditar em mim e trabalhar mais do que os outros.

O Tondela fez-lhe uma homenagem recentemente, porque a sua lesão ocorreu num jogo com eles. Estava à espera?
À espera não estava, mas o diretor de comunicação já me tinha avisado de que eles iriam fazer isso e foi realmente um gesto muito bonito que eu agradeci e espero que sirva de exemplo para um ambiente saudável entre todos os clubes. Foi um momento infeliz para mim, mas que está a ser ultrapassado e já agora aproveito para agradecer ao Tondela pelo gesto.

É verdade que se ofereceu para pagar três meses de salário de dois funcionários do Vitória de Setúbal este ano?
Sim.

Foi a primeira vez que o fez ou já tinha tido este tipo de gesto antes?
Não acho que adiante falar dos casos anteriores, mas este, como foi tornado público... realmente foram duas pessoas que estiveram comigo aquando da minha passagem lá e eu senti a necessidade de os ajudar naquele momento difícil; assim como eu e os meus colegas aqui no clube temos ajudado várias situações que nos vão aparecendo. É isso que tento passar também aos meus colegas, que é um momento difícil para todos nós e felizmente todos têm ajudado dentro das suas possibilidades e das diferentes maneiras com que podemos ajudar. Nós, como plantel, não só em casos individuais, mas como plantel temos tentado ajudar.

Não tem nenhuma história que possa partilhar?
Tenho uma que de certeza que a maior parte dos meus colegas que teve nesse jogo se vai lembrar. Na época 2017/18, que o mister Abel começou, eu tinha ficado capitão e o primeiro jogo da temporada era a pré-eliminatória da Liga Europa, que foi na Suécia se não estou em erro, com o AIK. Viajámos, houve a conferência de imprensa e antes do jogo, nós temos um grito, que é o grito do Braga que já está enraizado no clube e eu em vez de dizer "somos guerreiros" que era o normal; nos anos anteriores o Alan tinha-o dito e eu tinha-o ouvido centenas de vezes, eu estou na roda, é a minha primeira vez, faço o meu discurso, digo o que tenho a dizer e quando vou para dizer "somos guerreiros" digo "o que é que nós queremos?" [risos]. Aquilo saiu-me e os meus colegas disseram o que tinham a dizer na mesma. Depois já estava no túnel e eles a rir questionaram-me sobre o que é que se tinha passado e eu nem tinha dado conta do que é que tinha dito porque estava tão focado em dizer as coisas que me saiu tudo ao contrário. Eu não devo ter dormido uns três ou quatro dias, só a pensar naquilo... “o que é que nós queremos” [risos]. Eu notei que alguns se estavam a rir na altura, mas eu saí para o túnel concentrado."

Fever Pitch - João & Patrick... França!

Empate amargo... com a inclinação do costume!

Sporting 3 - 3 Benfica

Mais um derby, mais um roubo épico, mais uma vitória que nos fugiu nos últimos segundos... numa partida onde jogámos muito bem!
Algumas falhas individuais defensivas acabaram por ser fatais... num duelo, onde não existe margem de erro, porque as 'regras' nunca são iguais para estas duas equipas!!!
Bem os reforços, naquela que foi a sua introdução ao Futsal Tuga no seu esplendor!!!

Escócia


"Por razões familiares, em tempo de pandemia, teletrabalho, semiconfinamentos, quarentenas e afins, é na Escócia que tenho passado a maior parte do tempo desde finais de Agosto. Festejei o sorteio que juntou Rangers e Benfica perante a possibilidade de poder ver ao vivo o Benfica neste país, embora cedo tenha percebido que se afigurava bastante improvável. Faltam 48 horas para o início do jogo, e ainda não desisti.
Para quem não conhece, descrevo a Escócia numa única palavra: Imperdível. Quem já cá veio sabe que não exagero. E aos bem-aventurados futuros viajantes, confiantes nos seus conhecimentos do idioma local, recomendo que se preparem mentalmente para a segunda realidade: se é inglês que os escoceses falam, não foi inglês que vos ensinaram na escola. Eventualmente o ouvido é treinado, garanto-vos, porém, demora anos. Vale que, apesar do ar abrutalhado deste gente, predomina a simpatia para com os estrangeiros - não sendo estes ingleses, claro está -, o que facilita a comunicação. E acrescento um detalhe relevante O Verão, aqui é um mito. Ao contrário do vento, que se faz sentir forte e quase constantemente.
Retomando o que verdadeiramente interessa, e perante a hipótese, ainda que remota, de poder ir ao Ibrox ver o Benfica, um amigo desabafou que, com tantas ausências, no meu lugar não iria. Não poderia discordar mais deste estado de alma. O meu amor ao Benfica é incondicional. Num certo sentido, as circunstâncias são irrelevantes na minha vivência do benfiquismo, influindo só no estado de espírito, nunca nos traços identitários. E convenhamos que, perspectivando o onze provável a dois dias do jogo, recheado de internacionais, fica demonstrada a qualidade do nosso plantel. Acredito num bom resultado."

João Tomaz, in O Benfica

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Uma equipa brilhante


"A equipa feminina de hóquei em patins do Sport Lisboa e Benfica perdeu um jogo para o campeonato nacional. Decorem bem esta frase, porque há mais de sete anos que não era escrita ou dita por ninguém. O projecto feminino desta modalidade iniciou-se na época 2012-13 e, desde então, o plantel liderado pelo mítico Paulo Almeida sagrou-se sempre campeão de Portugal. São sete títulos consecutivos, seis Taças de Portugal, sete Supertaças e uma Taça Europeia Feminina.
Ao longo destes anos, não são apenas os títulos a merecer destaque, é também a entrega. E o profissionalismo. Sem esquecer o talento. Do nada, o SL Benfica criou uma das equipas mais fortes do mundo. Golos são às centenas, e não faltam horas e mais horas de espectáculo no currículo. Graças ao trabalho deste plantel, ficámos cada vez mais familiarizados com os grandes nomes desta modalidade, como Maca Ramos, Maria Sofia Silva ou Marlene Sousa, entre muitas outras mulheres que vestiram - e vestem - a nossa camisola. Assistimos, ao vivo e pela BTV, a momentos históricos do desporto português, como a conquista europeia de 2014-15, a primeira vez que uma equipa não-espanhola ganhou a competição. Vimos também o avolumar de um recorde praticamente sem paralelo a nível mundial, mas, como sabemos, todos os recordes nasceram para ser quebrados. E aconteceu, na partida da semana passada, frente ao Sporting Clube de Portugal. É feito digno de registo por parte das nossas adversárias, tal como já tinha sido alcançado em Junho de 2013, quando o SLB perdeu com o GDR 'Os Lobinhos', a última derrota antes desta.
É legítima a satisfação de quem nos conseguiu ganhar um jogo, mas é ainda mais legítimo o orgulho que um benfiquista sente quando olha para o Museu Benfica - Cosme Damião e vê a colecção de taças conquistadas pela brilhante equipa feminina de hóquei em patins do patins do Sport Lisboa e Benfica. Uns contentam-se com um percalço, com o quebrar de uma série épica de vitórias. Já nós ficamos com os títulos. É a ordem natural das coisas no Glorioso.
Bravo, meninas!"

Ricardo Santos, in O Benfica

Adel Taarabt, classe pura


"O leitor viu a classe de Adel Taarabt na entrevista que concedeu ao jornal Record? Parecia que estava a falar com a bola nos pés. O jogador marroquino falou abertamente da forma como ao longo dos anos alterou a sua visão daquilo que é o futebol, do prazer em jogar, à honra em vestir a camisola do Benfica. Do treinador, dos colegas, dos objectivos. Parece-me que apenas não abordou a questão das bolas de Berlim que cortou do menu diário do lanche, o que demonstra alguma falta de preparação do jornalismo que conduziu a entrevista, que se esqueceu completamente deste tema incontornável. O Taarabt desperdiçou alguns anos da carreira por culpa própria e nas últimas épocas relançou-a por mérito dele.
No meio de tanta categoria em cada explicação - pode ler e ouvir a entrevista completa no site do Benfica - fiquei perplexo com uma declaração completamente absurda sobre a Liga Europa: 'Temos mentalidade para ganhar, mas se te disser que vamos ganhar... não sou um mágico, não o posso dizer'. Em relação às probabilidades de sucesso na competição não tenha nada a apontar, pois bem sabemos por experiência própria que é altamente imprevisível. Porém, o Taarabt afirmar que não é mágico quando brinda os adeptos com diversos truques de magia em quase todos os jogos não consigo compreender. As linhas de passe podem estar trancadas a sete chaves, mas o homem é sempre capaz de sacar uma carta da manga e encontrar uma nesga de espaço. E ainda por cima joga de manga curta, pode lá ele achar que alguém acredita que foi formado no Lens. Todos sabemos que a formação do Taarabt foi na Universidade Luís de Matos."

Pedro Soares, in O Benfica

Orgulho


"Num ano particularmente difícil para Portugal e para o mundo, quando escasseiam as boas notícias e precisamos de algum alento, há que dizer que o desporto português tem feito a sua parte.
Depois de uma empolgante Volta a Itália, onde os ciclistas lusos João Almeida e Rúben Guerreiro brilharam a grande altura, agora foi a vez de Miguel Oliveira nos encher de orgulho no Moto GP.
É verdade que o motard de Almada já antes tinha alcançado uma vitória, no Grande Prémio da Estíria (a primeira de sempre para o nosso país na categoria-rainha do motociclismo). Mas nessa ocasião obtivera o triunfo sobre a linha de meta, num emocionante final de corrida em que a sorte acabou por pender para o seu lado. Agora, no Autódromo Internacional do Algarve, não só alcançou a primeira pole position da carreira como também largou disparado, aumentado progressivamente a vantagem volta após volta, deixando que os adversários o voltassem a ver apenas quando subiu ao lugar mais alto do pódio para ouvir o hino nacional. Se a primeira vitória até podia ser atribuída ao acaso, esta não deixou dúvidas de estarmos perante um potencial campeão do mundo.
A estas conquistas podíamos juntar os triunfos de Fernando Pimenta na canoagem, as medalhas conquistadas por portugueses nos Europeus de ciclismo de pista e de judo, ou o apuramento da selecção nacional de andebol para a fase final do Mundial.
O ano de 2020 não deixará saudades quanto aos aspectos mais importantes das nossas vidas. Mas os atletas portugueses, em diferentes planos, estão a fazer por mitigar esse sofrimento, trazendo pontualmente os sorrisos de que o país tanto carece."

Luís Fialho, in O Benfica

Telma e Rochele


"A participação dos nossos cinco judocas no Campeonato da Europa de Judo, na República Checa, foi bastante positiva. Foram duas medalhas conquistadas. Telma Monteiro e Rochele Nunes brilharam nas suas categorias e provaram que são duas das maiores judocas mundiais. Bárbara Timo, regressada de uma lesão, Rodrigo Lopes e Anti Egutidze perderam os seus combates, mas mostraram estar em forma. E se Rochele Nunes já nos habituou a grandes feitos, em Praga conquistou uma medalha de bronze, a primeira numa grande competição internacional. Desde Janeiro de 2019 até este mês de Novembro, conquistou oito medalhas. Mas é sobre Telma que os holofotes da sua 14.ª medalha em Europeus, falhando o ouro por detalhes. Telma vai fazer 35 anos no próximo dia 27 de Dezembro e está cada vez melhor. Ninguém sabe até que idade irá competir a melhor judoca portuguesa de todos os tempos. 'Pensas sempre que atingiste o teu limite, ate que te superas uma e outra vez'. Esta é uma das suas máximas. O seu palmarés é impressionante - 5 medalhas em Mundiais, 14 em Europeus, 3 em Jogos Europeus, 4 em Masters, 10 em Grand Slam, 9 em Continental Championships, 7 em Grand Prix, 6 em Continental Opens, 3 em World Cups e uma em Jogos Olímpicos. Contas feitas, são 62 as medalhas conquistadas. O seu próximo grande desafio são os Jogos Olímpicos, onde participará pela quinta vez. Em Tóquio teremos a Telma de sempre - 'Sê a tua própria concorrência, compete contra ti mesmo'. Para o nosso futuro Centro de Alto Rendimento, seria justo afixar nas paredes algumas das suas máximas: 'Quando tudo parecer perdido, olha para dentro de ti - é aí que encontrarás força para continuar', 'Não desistas antes de a luta acabar; até a batalha terminar, tudo pode acontecer' e 'Não te assustes com as dificuldades, sê forte nos momentos de fraqueza e humilde nas vitórias'."

Pedro Guerra, in O Benfica

Agir, sempre!


"Decorreu há pouco a Semana da Responsabilidade Social promovida pela Associação Portuguesa de Ética Empresarial.
Exclusão, capital humano e sustentabilidade foi o tema, ou, a teia complexa de atilhos que se enrolam no nosso tecido social, perpetuam a pobreza e a injustiça e, consequentemente, atrasam o desenvolvimento do país e comprometem o nosso futuro colectivo.
É assunto sério e da abordagem complicada porque, à primeira vista, se revela simples, uma vez que estamos ao nível dos sintomas e da superfície deste problema social. Mas um olhar mais atento e profundo, atento aos aspectos estruturais da pobreza e exclusão na nossa sociedade e economia, logo se desdobra em múltiplas, dimensões e revela essa teia complexa a que muitos chamam 'círculo vicioso de exclusão'. Para adensar a dificuldade em compreender a questão, porque sem entender o mal não se cria remédio, a globalização, o avanço tecnológico, a sociedade de informação e outras tantas benesses do progresso parecem cavar o fosso da exclusão, aumentar a concentração de riqueza e propagar a pobreza como um vírus incurável, verdadeiramente pandémico, capaz de singrar tanto em ditaduras como em democracias como a nossa, que tanto nos custou colectivamente alcançar.
Pobreza energética, infoexclusão e exclusão digital vieram juntar-se aos já velhinhos problemas que apoquentavam o séc. XX, como o baixo rendimento familiar, o baixo nível médio de qualificação, o abandono e o absentismo escolares, a exclusão dos diferentes e tantos outros. No fundo, pelo meio de toda esta novidade, conclui-se sempre o mesmo: quanto mais pobre se é, mais pobre se tende a ficar, assim como o oposto, que também é válido. Portanto, desengane-se quem está bem e não sente directamente estes problemas, porque eles lhe escavam o terreno debaixo dos pés sem dar conta e, como diz o povo, sempre sábio, ninguém está bem quando tudo está mal à sua volta, por bem que lhe pareça. Mas, sobretudo, como se ouve há muito nas planícies alentejanas, 'terra que dá cardos não dá pão!'.
Por isso, temos todos de acordar e assumir que estas coisas existem e não se podem disfarçar com conclusões fáceis e ditoches engraçado-xenófobos. Pelo contrário, essas são um problema de todos e de cada um de nós, que não se pode delegar pura e simplesmente nos sistemas de governança, que a todos convoca na construção de um Portugal sustentável e reclama sobretudo acção. Porque a solidariedade, ou responsabilidade social, não é apenas uma causa humanitária, mas um desígnio nacional.
O Benfica sabe bem disso e Age!"

Jorge Miranda, in O Benfica

78.º, o ano que nunca tínhamos vivido


"1. A edição que o leitor tem nas mãos (ou no seu ecrã) celebra o 78.º aniversário do órgão de informação que, em publicação praticamente continua desde 28 de Novembro de 1942*, o Sport Lisboa e Benfica se orgulha de preservar como um ícone da Imprensa desportiva em Portugal e na Europa, absolutamente singular pelo seu espírito e pela natureza dos seus conteúdos.
2. O tempo traz e leva todas as águas que vão passando sob as pontes, mas, de facto, este foi um ano muito difícil para o país e o mundo. E, procurando o nosso Jornal ser um espelho do Benfica, da mesma forma que o próprio Glorioso reflecte Portugal, ao longo deste período o leitor veio naturalmente encontrado no conjunto destas páginas esses sinais de surpresa e perplexidade, de aflição e esperança que nos têm tocado a todos e, de modo tão especial, aos nossos heróis nos campos, nas quadras, nas piscinas, nos tapetes e nas pistas, que tanto estranharam a nossa falta à sua volta.
3. A rara imagem, agora desesperadamente tornada constante, de estádios e pavilhões assim despidos e mudos, tal como a ausência da partilha das emoções de jogo ao vivo com a nossa família e os nossos amigos a que nos vemos constrangidos sem remissão, constitui a mais triste síntese da deslocação e da estranheza em que hoje se disputa a competição.
4. Um jornalista, todos os nossos jornalistas - como todos os restantes colaboradores -, sendo jovens, estão a viver este período em circunstâncias inteiramente inéditas para eles, como para nós, os mais velhos, que também jamais tínhamos experimentado conjuntura tão estranha para cumprir a missão que o Sport Lisboa e Benfica nos definiu.
5. Mas nada, absolutamente nada, alguma vez deixou alterar o mesmo espírito com que, em cada semana, sempre se inscreve cada linha e cada espaço, nas páginas de que se compõe o corpo de edição deste órgão de informação.
6. Essa essência do jornalismo permanece aqui. Há setenta e oito anos cumpridos, neste mesmo Jornal que o director fundador José de Magalhães Godinho e o editor Júlio Ribeiro da Costa sonharam e semanalmente preparavam na Redacção da mítica 'Secretaria'' na Rua Jardim do Regedor, para (curiosamente) ser impresso no n.º 1 1-C da velha Rua da Luta, à Vítor Cordon (actual R. dos Duques de Bragança), na Tipografia da revista 'Renascença'.
7. A verdade e o rigor dos registos sempre se mantiveram como património herdado e cumprido conforme o espírito e a letra do nosso Estatuto Editorial e as imutáveis regras da deontologia e da ética. Essa constitui a matéria de melhor honrarmos o Sport Lisboa e Benfica, na qual os adjectivos se dispensam para se privilegiarem os factos e os protagonistas, de modo a que a celebração das vitórias, como a tristeza das derrotas, sempre fosse genuinamente entregue à sabedoria dos leitores.
8. Perante o nosso desígnio e com esta determinação - não esquecendo ter sido este o ano especial em que pudemos dar testemunho das mais concorridas Eleições de sempre no Clube e em qualquer instituto associativo em Portugal - para nós nunca haverá anos 'bons', nem anos 'maus'. Mas a verdade é que 'este' nosso tão exógeno septuagésimo oitavo ficará para sempre, e pelo menos, como 'aquele' que, de facto, nunca tínhamos vivido..."

José Nuno Martins, in O Benfica 

Capacidade de recuperação


"A nossa equipa alcançou, ontem, um empate a duas bolas no Estádio Ibrox, o reduto do Rangers, depois de se ver em desvantagem por 2-0. A resiliência e a vontade férrea de ultrapassar as adversidades são já uma imagem de marca do nosso plantel, nunca desistindo de procurar o melhor resultado possível em cada jogo.
Eram bem conhecidas as dificuldades que o Rangers poderia colocar à nossa equipa, já de si significativamente desfalcada para o encontro na Escócia.
Todos nos recordávamos do jogo na Luz, realizado há três semanas, assim como tivemos oportunidade de ver a equipa escocesa em ação, na temporada passada também na Liga Europa, frente a Porto e Braga, saindo vitoriosa em três desses encontros e empatando outro. Acrescia a invencibilidade na presente temporada, sendo que, no seu estádio, obtivera o pleno de triunfos e sofrera apenas um golo nas dez partidas realizadas.
A vantagem madrugadora do nosso adversário não perturbou a nossa equipa, que logo reagiu procurando dominar o encontro. O resultado não sofreu alterações até ao intervalo, sendo que o empate seria o mais justo face às exibições de ambas as equipas. No segundo tempo o Benfica reentrou focado em alterar o rumo dos acontecimentos, mas foi o Rangers a ser mais feliz, chegando a 2-0.
A forte reação da nossa equipa ao segundo golo escocês, acreditando sempre que poderia trazer um resultado positivo da Escócia e na sequência das alterações promovidas por Jorge Jesus, deu frutos, chegando ao 2-2 que se manteve até ao apito final.
Em causa estava o eventual apuramento, à quarta jornada, para a fase seguinte da Liga Europa. Com o empate conseguido em Glasgow, Benfica e Rangers continuam a partilhar a liderança, agora com cinco pontos de vantagem sobre Lech Poznan e Standard Liège, com duas partidas por disputar.
O regresso à Liga Europa está agendado para a próxima semana, dia 3 de dezembro, na Luz, frente ao Lech Poznan. O objetivo será vencer, sendo que um empate poderá garantir o apuramento para os 16 avos de final da prova.
Mas agora o principal foco está já no regresso do Campeonato com a sempre difícil deslocação à Madeira para defrontar o Marítimo a contar para a oitava jornada da Liga NOS (próxima segunda-feira, dia 30, às 19 horas) com a confiança e ambição de sempre!"

Julian Weigl é alemão para “mal aproveitado”


"Foram 20 os milhões despendidos pelo SL Benfica para contratar Julian Weigl ao BVB Dortmund, no mercado de inverno de 2020. Foram 21 as presenças de Weigl em partidas pelos encarnados na meia temporada de estreia. Por outras palavras: chegou para ser opção. No entanto, a opção pela utilização de Weigl nunca foi totalmente pacífica – nem diga-se totalmente correspondida.
O médio alemão aterrou em Lisboa atravessavam as águias áureos tempos – mais ou menos, vá -, com o miolo do terreno geralmente entregue a Gabriel e Taarabt. A coisa dava-se. E dava-se bem. Mas chegou Weigl. E chegou por 20 milhões de euros. E chegou da Bundesliga. E chegou do Dortmund. E isso parece ter pesado. Não devia.
Para bem da equipa e do jogador. O entrosamento com os colegas era nulo, o conhecimento do treinador e das suas ideias era inexistente e a integração na nova realidade era embrionária quando Weigl agarrou uma titularidade que – então – não merecia e à qual não podia corresponder. Foi fácil pegar na máquina de fazer rótulos – sempre tão à mão – e aplicar o de “flop” ao internacional alemão. 
Não o é. Weigl é um jogador de imensa classe e que equilibra com facilidade uma equipa. Não vai fazer crescer uma equipa que está de rastos – nenhum jogador o faz sozinho; mas quando a equipa está bem, estará sempre melhor com Weigl. Então, ´bora aproveitá-lo, né?
Depende. De Jesus. Depende do que o atual treinador do Benfica, que não foi quem ratificou a contratação do alemão, pretende para o seu meio-campo – se ele mesmo o já souber.
Não obstante a muita qualidade posicional e com bola de Weigl, o porte menos possante que comporta e a pouca capacidade de choque e recuperação da posse da bola que apresenta são passíveis de fazer JJ instigar com insistência a administração encarnada a avançar para a contratação de um médio mais “à medida” – e com as medidas – do treinador português.
Naturalmente, perante a parca utilização do médio, circulam já rumores de que a sua saída em definitivo pode ser o desfecho da relação que estabeleceu há menos de um ano com o clube da Luz. O preço estipulado, dizem, é de 25 milhões de euros. O preço estipulado, digo eu, é curto. A eventual saída, continuo, é um erro.
Weigl ainda pode dar muito ao SL Benfica. Mesmo com JJ. Mesmo com concorrência. Pode convergir em campo com vários jogadores do plantel – Florentino, se e quando regressado, seria talvez o parceiro ideal para formar uma dupla de muita, muita classe, tanto na destruição como na construção.
Embora partilhe a opinião vastamente disseminada de que é premente reforçar o meio-campo encarnado, discordo por completo da ideia de que uma remodelação do miolo tenha de envolver a saída de Julian Weigl."

Só três marcaram mais que Luís Miguel na Liga Europa. Eu sei, eu sei, vocês não querem adorá-lo, mas ele recusa-se a desistir de vocês


"Helton
A sua receção no lance do primeiro golo terá impressionado Marcel Matz, o treinador da equipa de voleibol. Depois de Paredes e Glasgow, segue-se uma viagem aos Açores para defrontar a Fonte do Bastardo. Os fact-checkers dirão que o Benfica jogou com a Fonte do Bastardo a 16 de Novembro, mas vivemos num mundo de pós-verdade por isso desamparem-me a loja.

Gilberto
Gerrard disse aos jornalistas que o Benfica devia estar na Champions League e não na Liga Europa, acrescentando que é uma injustiça para o futebol que jogadores como Gilberto se vejam afastados dos maiores palcos do futebol mundial. Podem procurar as declarações dele.

Jardel
Os rumores de uma goleada no Ibrox foram manifestamente exagerados e isso deveu-se principalmente ao nosso jogador em melhores condições etárias de vir a receber a vacina.

Verthongen
uns dias, enquanto o resto do plantel celebrava a chegada da nova PlayStation, Verthongen publicou uma fotografia nas suas redes sociais com dois manuais de português. Não sou só ganhou o respeito de muitos adeptos como já aprendeu umas coisas. As suas expressões favoritas são “ACORDA GABRIEL”, “***-SE GABRIEL, MEXE-TE ******O” e “geriatria”.

Grimaldo
Foi o melhor do quarteto defensivo, essencialmente pelo que fez para lá do meio campo. A combinação com Everton aos 13 minutos fez o colega brasileiro parecer melhor do que tem sido. Agradeçamos-lhe o esforço.

Gabriel
Não é preciso ser especialista em expressão corporal para analisar o comportamento do Gabriel no lance do primeiro golo. Basta ser do Benfica. É uma vida inteira de aprendizagem. No mínimo pegava numa das três PlayStation que recebeu da Sony e sorteava pelos fãs do Instagram. Talvez estes lhes perdoem.

Everton
Complicado. Parto para cada jogo com a expectativa de ver aquele corpo dançar ao ritmo que seria natural nele, mas em vez de samba no pé aparece-me um Camané com um moicano a cantar sobre as agruras da vida. Vou ligar para a ticketline e pedir o dinheiro de volta.

Chiquinho
Vejo mais convicção em algumas stories de Instagram do Chiquinho do que no seu futebol.

Rafa
Inconformado. Ele bem procurou a baliza, mas a menina do GPS conduziu-o repetidamente até uma cabine telefónica cheia de escoceses. Não é sítio onde alguém queira estar muito tempo, mas o Rafa foi insistindo até entrar alguém que sabia o caminho.

Waldschmidt
Faltou-lhe o irmão uruguaio que ele não sabia que tinha. Tentou enturmar com o primo afastado da Suíça, mas têm gostos muito diferentes.

Seferovic
Como sei que na próxima segunda-feira ele vai marcar o 1-2 nos Barreiros, vou dizer uma daquelas menções honrosas do estilo “trabalhou muito para desgastar a defesa adversária”.

Diogo Gonçalves
Muito bem a ocupar a sua posição natural no terreno de jogo, a de gajo-com-vontade-de-ganhar-isto. 

Pizzi
Trabalhou para deixar o Rangers mais desgastado e apático q.b. por forma a parecer-se com uma equipa da segunda metade da tabela da Liga NOS. A partir daí abriu o livro. Só 3 jogadores marcaram mais golos do que ele nesta Liga Europa, todos pontas de lança. Eu sei que vocês não querem adorá-lo mas ele recusa-se a desistir de vocês.

Gonçalo Ramos
Foi mais ou menos tudo o que os outros não conseguiram ser. As suas últimas exibições fizeram o Paredes do sábado passado parecer o Glasgow Rangers e o Glasgow Rangers parecer um Paredes qualquer.

Ferro
Entrou para segurar o pontinho, não fosse o Gonçalo Ramos fazer mais alguma coisa que decidisse o jogo a nosso favor."

Rescaldo...

O adormecimento encarnado e a possível exploração do corredor oposto


"No pós jogo no Futebol Total do Canal 11, o Pedro Bouças levou para análise o primeiro golo da partida e acrescentou ainda o porquê de ter acontecido o lance mais perigoso dos encarnados na Escócia ao longo do primeiro período num ataque que poderia ter sido mais vezes reproduzido."

Recuperação à Benfica


"Nova recuperação difícil e quase milagrosa contra o Rangers, mas que premeia uma equipa que apesar de todos os erros manteve-se crente e enérgica e consegue resgatar novamente um ponto num jogo que estava perdido.
Mais uma exibição curtissima deste Benfica. Apesar de ter controlado o adversário grande parte do jogo por raramente ter deixado o Rangers transitar com perigo – pela forma como prepara a perda e como defende o contra-ataque -, nunca conseguiu criar situações de criação e consequente finalização. 
Quantidade absurda de perdas de bola, mesmo em situações onde o portador ou o recetor não está pressionado. Nenhuma equipa sobrevive a tanto erro, a posse perde fluidez, não permite chegar de forma recorrente a zonas de criação, obriga a equipa a transitar constantemente e o jogo perde organização e controlo.
Rangers em 433 com 3 linhas bastante rigidas. Benfica mudou a construção, Gabriel deixou de baixar para uma construção a 3 ficando a dar linha de passe à frente dos dois centrais, Chiquinho com mais liberdade e os laterais estiveram hoje mais baixos e mais dentro que o habitual. Linha de passe exterior no extremo sempre aberta.

Laterais dentro, extremos fora. Vantagem clara nos CLs que não foi devidamente aproveitada pelo Benfica.
Posicionamentos interessantes face à organização da equipa escocesa, no entanto algumas incongruências. Linha de passe do extremo fora era clara, mas este deveria ter estado mais alto, mais perto da linha defensiva de forma a ganhar vantagem apenas com o seu posicionamento. Com a equipa do Rangers muito curta em largura, e apenas 3 elementos na linha média, exigia-se mais vezes chamar a equipa contrária a um corredor e utilizar uma cobertura (que não eram bloqueadas) para variar longo para lado contrário e aí sim explorar vantagem que ia ser criada.
Novamente erros individuais que demonstra a fragilidade individual gritante. Duelos defensivos perdidos, más abordagens e falhas de posicionamento são já uma constante esta época.

Grimaldo novamente a perder duelos defensivos que comprometem toda a organização."

Rangers FC 2-2 SL Benfica: Deixou-se o alarme tocar


"A Crónica: Empate Frente Aos Escoceses Volta A Surgir Nos Minutos Finais
Assombrado, o SL Benfica entrava na partida com o Rangers FC com um historial horrendo nas visitas a Glasgow, e talvez se tenha notado isso na exibição de certos elementos.
Não que Gabriel ou Chiquinho estivessem conscientes desse facto – é provável que não -, mas o desempenho do meio-campo titular encarnado foi desse nível. Aliás, a equipa só acordou quando Pizzi deu o abanão técnico necessário a um onze cabisbaixo e sem a classe necessária para jogos deste calibre.
No último quarto de hora, a orquestra funcionou como nunca tinha funcionado esta época, houve aparição superlativa de Gonçalo Ramos e Diogo Gonçalves a cavalgar numa ala direita que se sente demasiado vazia quando lá mora Gilberto.
Comecemos pelo golo de Arfield aos sete minutos e em como esse momento marca todo o encontro: o golo fortuito dos escoceces vai, nessa altura, contra a corrente de um encontro dominado pelo Benfica, que tinha entrado determinado em ter bola e a controlar as operações.
Com 1-0, Gerrard ainda mais convicto ficou de que estava correcto na abordagem e manteve a equipa no seu próprio meio-campo, à espreita de oportunidades para exagerar no contra-golpe.
E fez bem, já que a teia tática impediu o Benfica de grandes aventuras ou travessuras, já que não havia meio-campo para suportar a criatividade dos da frente – Everton, por exemplo, teve na bipolaridade do seu jogo a definitiva prova do seu complicado processo de adaptação à Europa.
Conjugou decisões amadoras com as duas grandes oportunidades da equipa na primeira metade: foi dos seus pés que saiu a combinação com Grimaldo que resultou em remate por cima (12’) e, já perto do intervalo, descobriu Rafa entre as torres escocesas, mas o português hesitou e possibilitou corte in extremis.
Na segunda metade, a mesma toada e o mesmíssimo jogo. Waldschmidt, muito activo nas movimentações, mas inconsequente, ainda ameaçou McGregor aos 47’, mas esse falhanço deverá ter sido a gota de água para Jorge Jesus. Aos 55’ troca-o por Pizzi, tirando também Chiquinho para fazer entrar Diogo Gonçalves – e estavam lançadas as sementes para o grande final de jogo a que se ia assistir.
Porém, a equipa precisou do 2-0, marcado por Roofe após remate indefensável, para acordar. A partir dos 75’, como que por magia, Pizzi arregaçou as mangas e levou a equipa para a frente, com a grande ajuda do miúdo Gonçalo Ramos, que, ao fazer o 2-1 (com a ajuda de Tavernier), galvanizou ainda mais os restantes colegas.
Este balanceamento aliou-se ao défice físico do Rangers, o 2-2 aconteceu naturalmente e estavam reunidos os ingredientes certos para possibilitar a completa reviravolta dos encarnados, possibilitando a primeira vitória de sempre na Escócia.
Mas, estranhamente, e talvez seguindo a fórmula Trapattoni – Não percas um jogo que não podes ganhar – o Benfica desacelarou, pareceu satisfeito com o empate e a entrada de Ferro em troca de Seferovic, perto dos 90’, confirmou a ideia de que era o objectivo principal.
Se era possível ir em busca do terceiro? Sem dúvida.

A Figura
Pizzi Entrou para revolucionar a sala de máquinas encarnada – demorou, mas quando finalmente tomou posse dos comandos, a equipa nunca mais foi a mesma. O golo é prémio merecido para um jogador que não se tem apresentado na plenitude das suas capacidades.

O Fora de Jogo
GabrielA inadmissível passividade nos golos sofridos é um excelente resumo da exibição de Gabriel, que parece cada vez menos confortável na posição mais recuada da linha média. Teve pormenores interessantes, poucos, que se tornam insignificantes quando se observa o número de passes falhados e perdas de bola. Por agora, a titularidade parece excessiva.

Análise Tática – Rangers FC
Gerrard nada mudou da abordagem habitual. Em 4-3-3, Kamara esteve sempre mais preocupado com as missões defensivas, com Roofe e Kent a compensarem o posicionamento com a procura do espaço interior. Morelos foi presa fácil para Verthongen e Jardel, desacompanhado como esteve. Tavernier alugou a ala direita, em incrível demonstração de poderio físico. 

Onze Inicial e Pontuações
McGregor (5)
Tavernier (6)
Goldson (4)
Balogun (4)
Barisic (5)
Kamara (7)
Davis (5)
Arfield (6)
Roofe (6)
Kent (7)
Morelos (5)

Análise Tática – SL Benfica
O facto de Chiquinho e Gabriel se terem estreado enquanto dupla talvez justifique o fraco desempenho dos dois. A equipa, apesar de ter bola, ressentiu-se dessa falta de pulso naquela zona – Everton, Rafa e Waldschmidt tiveram que cobrir o dobro do terreno, desgastando-se para a produção ofensiva. 
Grimaldo surgiu muito bem, próximo do seu melhor nível. Seferovic esforçou-se, tentou procurar uma profundidade que não existia, e cedo se percebeu que o jogo pedia outro tipo de avançado, como se provou na entrada de Gonçalo Ramos – o miúdo procurou entre linhas as associações que não tinha conseguido executar contra o USC Paredes, encontrando-as e possibilitando à equipa manter a bola mais tempo em zonas adiantadas.

Onze Inicial e Pontuações
Helton Leite (4)
Gilberto (4)
Jardel (6)
Verthongen (6)
Grimaldo (6)
Gabriel (4)
Chiquinho (4)
Rafa (6)
Waldschmidt (5)
Everton (5)
Seferovic (3)
Suplentes Utilizados
Pizzi (7)
Diogo Gonçalves (6)
Gonçalo Ramos (6)
Ferro (-)"

Nenhum morrerá tão grande


"Quero lá saber se o homem era imperfeito, interessam-me tanto os excessos do Maradona como as namoradas do Neymar, os impostos do Messi, a família do Cristiano, os quilos do Fenómeno ou os passaportes do Dinho Gaúcho (e assim acho que juntei todos os maiores génios que se seguiram numa frase apenas, que me desculpe o Zidane, certinho na vida como na silhueta, com o maior pecado público cometido ainda em campo, na cabeçada a Materrazzi). Ou seja, o que Don Diego pensava de política, por exemplo, conta para mim tanto como o que o senhor do mini-mercado sugere para o combate à pandemia. Como alguém disse: para quê discutir o que fez com a vida dele, se fez tantos pelas nossas?
Há muito que deixei, aliás, de ver nos jogadores entidades aparentadas ao divino, referências para lá dos jogos, porque nem os maiores génios do relvado são garantia de pensamento elaborado fora dele. Arrumei os meus ídolos no sítio certo: em posters onde surgem de calções e chuteiras. Ou nas memórias em vídeo, com obras de arte desenhadas ao pontapé. E aí são sagrados, intocáveis. Não junte o homem o que deus desuniu, quando permite a poucos eleitos o altar das emoções.
No dia em que morreu Maradona – e tenho de o repetir, porque me custa aceitar: o Maradona morreu – vejo gente que gasta minutos longos para falar de dependência de drogas e de comportamentos errantes de um cidadão? Exemplos desses há tantos milhões, infelizmente. Não faz mais sentido celebrar um talento como não houve outro? Um argentino anónimo diz que quando faltava até a comida na mesa, Maradona foi a alegria dos mais pobres. Valdano, companheiro de ataque na subida ao Olimpo em 86, e que pensa ainda melhor fora dos relvados do que executava dentro dele, não duvida nem por um segundo que privou com o melhor de todos e viu, ali ao lado e a olho nu, um génio em laboração. E despede-se do “grande capitão”, porque Maradona também foi isso - além da intuição pura, para pensar e executar, que o tornou incomparável -, o líder solidário, se necessário rebelde perante os poderes, sempre comprometido com o grupo que ia guiar e fazer acreditar, contraste profundo com um futebol progressivamente mais egoísta e repleto de talentos com umbigo dilatado.
Recuso também a análise feita em manga de alpaca, sempre agarrada a números, golos, títulos ou prémios, que denunciam a ausência de uma paixão verdadeira. Não se pode medir Maradona, porque não há números para preencher a escala de encantamento e emoção que nos deu. A estatística pode dizer que ele só ganhou dois campeonatos e uma prova europeia? Fê-lo num clube, o Nápoles, que nunca tinha vencido algo do género e não voltou a fazê-lo, 30 anos passados desde que deixou o San Paolo. Agora o estádio dele vai passar a ter o nome dele. Nada mais justo. Também só ergueu uma Taça do Rei pelo Barcelona? Vale a pena ver, ver mesmo, que há imagens disso, como Diego foi blaugrana no tempo em que driblar com qualidade era tão relevante como fugir às agressões dos muitos Goicoecheas que encontrou. Uma das duas épocas na Catalunha perdeu-a, em grande parte, a recuperar dessa fratura da tíbia. Mas já antes, entre os 16 e os 21 anos, tinha cinco épocas de registos incríveis, no Argentinos e no Boca. Já era o génio capaz de ganhar jogos sozinho e fê-lo até ao ponto mais alto, num Mundial, como sonhava desde criança.
Jogou quatro mundiais mas deveria ter jogado cinco, que em 1978 já era o maior talento na Argentina, só que Menotti, desconfiado da juventude, como tantos em todos os tempos, não lhe antecipou o trono planetário. Jogou quatro mundiais mas na prática só jogou dois, com saídas prematuras em 82, expulso (bem) por um árbitro, e em 94, expulso (continuo convencido que mal) pela FIFA. Nos dois que jogou mesmo foi sempre até ao fim, festejou uma vez, chorou na outra, mas guiou até ao último momento grupos de rapazes que sem ele seriam coletivos banais. É também por isso que Diego Armando Maradona é incomparável e irrepetível, sinónimo de futebol enquanto espaço de talento, superação e paixão. Ninguém viveu o jogo como ele. Nenhum futebolista morrerá tão grande como ele."

O dia em que conheci Diego Armando Maradona


"No dia 2 de junho de 1986 mudei de religião. Passei de católico praticante por obrigação parental a fiel maradoniano por devoção paranormal. Dia de Campeonato do Mundo, Argentina-Coreia do Sul, eu entregue à ingenuidade dos meus oito anos e Ele a domar a bola com a facilidade de quem acaricia um gatinho.
Próximo passo, colar um poster Dele na parede do meu quarto. Aquela camisola maravilhosa, as faixas verticais, azul claro e branco celeste, calções negros e meias brancas. E as chuteiras pretas, pois então. 
A minha rua conheceu Diego Armando Maradona no dia em que eu O conheci. A rapaziada veio cá para fora, de pernas mal amanhadas e uma bola que saltava mais do que rolava. Quisemos todos ser D10S, O rapaz de peito para fora e coxas grossas, capaz de parar e arrancar com o poder e a agilidade de um Fórmula Um.
Naqueles dias, ver um jogo de Diego em direto era uma bênção. O mês em que todos os dias são domingo, como escreveu Jorge Valdano, demorava quatro anos a chegar e as cadernetas de cromos teimavam em não ganhar a vida que o futebol do nosso astro merecia.
Valdano. Por falar em Valdano, rogo-vos que leiam a crónica em que o antigo avançado e agora poeta/escritor se despede de Maradona. É dura, é maravilhosa e podem lê-la AQUI. As palavras de Valdano tornam irrelevantes todas as restantes crónicas e opiniões, incluindo esta.
Encarem, assim, este artigo como a minha necessária despedida pública do meu ídolo de infância, um ato catártico, quiçá egoísta. A pensar mais em mim do que nos nosso leitores, uma vez sem exemplo. 
Maradona morreu. Desapareceu o melhor futebolista de todos os tempos – desculpa, Messi – e a personagem mais complexa, fascinante e atormentada que algum dia vi. Predestinado e decadente, glorioso e depressivo, génio e louco. Louco, Don Diego.
Quem era Maradona? O homem capaz de alimentar a sorrisos os esfomeados argentinos. O homem capaz de fintar uma equipa inteira e voltar com a bola para trás. O homem que foi demasiado grande para ser apenas humano. Tornou-se impossível ser Maradona e Diego foi esmagado por essa brutal viagem ao lado mais negro da alma.
É-me impossível imaginar um mundo de futebol sem Maradona. É-me impossível ver uma bola a saltar e não pensar que o seu dono se chama El Pibe, Pelusa, Barrilete Cósmico. É-me impossível ver a Argentina em campo e não ter Maradona a gritar como um doido na bancada. É-me impossível ver um 10 no relvado e não ver o meu Diego, o nosso Diego.
Escrever sobre Diego Armando Maradona é uma responsabilidade insustentável. Sinto-me diminuído e aquém do momento, a cada sílaba, a cada palavra. Permitam-me recorrer mais uma vez a Jorge Valdano e à analogia que hoje me fez chorar. A saudade é um golpe traiçoeiro, Diego.
«Hoje até a bola, o brinquedo mais comunitário que existe, se sentirá mais sozinha e chorará de forma desconsolada pelo seu dono. Todos os que amamos o futebol autêntico choramos com ela por Maradona.»"

Maradona e a morte do indivíduo


"Mas há uma coisa que não me parece subjectiva: o futebol do tempo do Maradona era mais lento, mais belo e mais livre do que este futebol do Ronaldo. Perdemos liberdade (e não só no relvado).

É impossível não relacionar Maradona com Ayrton Senna, dois dos grandes heróis da minha geração. Maradona e Senna carregam a mesma temperatura emocional, balizam uma época vai desde o México 86 de Maradona até ao desastre que matou Senna em 94. Se quiserem, é o tempo que vai do esplendor da infância até ao início da adolescência.
Maradona desenhava no relvado aquilo que Senna sulcava no asfalto: o impossível, o ilógico, a loucura criativa de um génio deixado à solta. Ora, fala-se muito desta genialidade de ambos, mas fala-se pouco de outra questão que me parece mais importante: eles tiveram liberdade para serem génios, tiveram licença para soltar a imprevisibilidade. Hoje em dia, os jogadores e os pilotos têm muito menos liberdade para serem loucos. Se na F1 a máquina computorizada tomou o lugar do piloto audaz à Ayrton Senna, no futebol a potência muscular tomou o lugar da génio livre à Maradona.
No futebol mecanizado desde século, Maradona teria sido o Maradona? Neste futebol ultra científico e objetivo marcado por treinados ditadores que impõem aos jogadores um padrão de jogo mecânico, Maradona, Garrincha, Hagi, Futre ou Chalana teriam atingido o estrelato? Quando me cruzo nos corredores da Renascença com as vozes familiares da Bola Branca, costumo fazer este desabafo: gosto cada vez menos de ver futebol, porque vejo cada vez menos o indivíduo, vejo cada vez menos o improviso e a liberdade. Ou seja, o nosso futebol, o soccer, está cada vez mais parecido com o futebol americano: padronizado, previsível; os jogadores não usam a sua liberdade numa sistemática adaptação criativa ao jogo; ao invés, repetem em campo um conjunto de jogadas que o treinador impõe. O jogo perdeu beleza, encanto, aquele bruaá do imprevisto. É um paradoxo: o futebol está mais rápido, mas também está mais bocejante.
Não sei se Ronaldo ou Messi são melhores do que Maradona. Nem quero entrar nesse debate, até porque não há debate possível. Para mim, Maradona será sempre o melhor jogador porque é a estrela da minha infância e do ‘meu’ Mundial, México 86. Mas há uma coisa que não me parece subjetiva: o futebol do tempo do Maradona era mais lento, mais belo e mais livre do que este futebol do Ronaldo. Perdemos liberdade (e não só no relvado)."