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quarta-feira, 25 de março de 2020

TSDT ou a arte de brilhar atrás da cortina: uma homenagem a um leque de homens e mulheres de excepção que não têm o reconhecimento devido

"TSDT ou a arte de brilhar atrás da cortina.
Hoje não vou escrever sobre futebol nem contar-vos histórias mirabolantes dos meus tempos de árbitro. Tudo isso tem importância, mas cabe dentro das coisas menos importantes. 
Hoje quero falar-vos sobre um assunto relacionado com o vírus que tanto nos perturba. O mesmo que, por estes dias, mudou o nosso quotidiano e posicionamento perante a vida.
Quero apresentar-vos um leque de homens e mulheres de excepção. Um conjunto alargado de profissionais valiosos, que não têm o reconhecimento que deviam e mereciam.
Refiro-me aos Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica.
Os TSDT, como agora são conhecidos, fazem parte de uma carreira que agrega dezessete profissões relacionadas com a nossa saúde, com a área médica.
Mas já lá vamos.
Como sabem, por estes dias, vivemos uma nova realidade. Uma realidade que desconhecíamos e que, garantidamente, não prevíamos. Uma que nos deixa abatidos, receosos e vulneráveis.
A sensação que dá é que nos perdemos no tempo e no espaço. Assim, do nada. De repente.
Fomos surpreendidos por uma variável que não controlamos, por uma força maior que nos obriga a pensar fora da caixa, que nos obriga a priorizar. A priorizar o que é mais estruturante e impactante nas nossas vidas: a vida em si.
No meio deste turbilhão de emoções, mora uma verdade absoluta: a de que cada um de nós valoriza agora e mais do que nunca, o esforço, compromisso e dedicação de todos os "profissionais de saúde". 
Quando pensamos neles - nesses novos super-heróis da actualidade - vêm-nos à cabeça médicos(as) e enfermeiros(as).
Fazemo-lo, quase instintivamente, por sabermos que são esses que estão na linha da frente deste combate injusto. Fazemo-lo quase convencidos que começa e termina neles todo o apoio e ajuda que precisamos para salvar o mais precioso dos bens: o da vida.
Essa presunção, justíssima e merecida, é verdadeira mas não totalmente verdadeira.
Não há a mínima dúvida que a nossa dívida de gratidão para com eles jamais será paga, mas a verdade é que - para além, atrás ou ao lado de cada um deles -, há outros profissionais de coração enorme que, de forma directa ou indirecta, têm idêntico valor. Também se sacrificam, também se expõem e também correm riscos para o mesmíssimo fim.
Estou a falar dos tais TSDT, nomeadamente dos Técnicos de Análises Clínicas e de Saúde Pública e dos Técnicos de Anatomia Patológica, Citológica e Tanatológica, que se expõem agora a esta pandemia, realizando, a toda a hora, rastreios e diagnósticos laboratoriais; estou a falar dos Técnicos de Radiologia, responsáveis pela realização de milhares de exames (RX e CT, entre outros) que contribuem para o diagnóstico e avaliação da extensão da doença; estou a falar dos Técnicos de Saúde Ambiental, que actuam ao nível epidemiológico, sendo responsáveis pela elaboração de planos de limpeza, desinfeção e descontaminação dos espaços utilizados; estou também a falar dos "Fisioterapeutas", em particular daqueles que, nesta fase, estão adstritos aos Cuidados Intensivos, onde têm a responsabilidade de optimizar a oxigenação e ventilação de doentes com Covid-19.
Estas são funções fundamentais no nosso sistema de saúde e essenciais no ataque cerrado a este novo coronavírus.
Funções ocupadas por pessoas credenciadas e de alma pura, que trabalham horas a fio para garantir a melhor resposta a quem esteja (potencialmente) infectado.
Convém recordar que, para além desses, há outros TSDTs, profissionais de mão cheia, que continuam a trabalhar, a assegurar o tratamento de pacientes com patologias distintas, que precisam de exames, tratamentos e cuidados médicos. É o caso dos Técnicos de Medicina Nuclear e dos de Neurofisiologia de Farmácia e também dos de Prótese Dentária, de Cardiopneumologia e de Radioterapia. É ainda o caso dos Ortoptistas, Terapeutas da Fala, Terapeutas Ocupacionais e Audiologistas, entre outros.
Aos olhos de grande parte da imprensa, esses não são os "Bravos do Pelotão", mas acreditem... também o são.
Não há piloto que vença sem um mecânico de topo na retaguarda. Não há médico que brilhe sem uma equipa fantástica que lhe proporcione, com a mesma entrega e riscos, tudo o que ele precisa para fazer bem o seu trabalho.
Uma vida é sempre salva por muitas vidas.
Da minha parte, é muito simples: um abraço enorme a esses grandes profissionais, que tão bem trabalham na sombra para que a luz chegue a cada um de nós.
Chapeau."

Entre a pandemia e o pandemónio

"Não há coisa que me tire mais do sério do que a falta de civismo. Essa espécie de egoísmo misturado com inimputabilidade que em Portugal dá frequentemente à costa em modo de chico-espertismo. 
Numa crise que testa a nossa resiliência enquanto comunidade, o pior inimigo é aquele que não tem sequer vaga ideia do que é cuidar do bem comum.
Tanto quanto do vírus, temos de nos salvar dos irresponsáveis, dos ignorantes. Enfim, da estupidez humana, que pode ser infinita mesmo numa imensa minoria.
Para uma consciencialização em massa, talvez não fosse má ideia no próximo domingo de sol colocar ecrãs gigantes nas praias a passar uma reportagem da Sky News em que se mostra o caos que se vive numa unidade de cuidados intensivos do Hospital de Bérgamo – que com quase 6 500 casos confirmados é a província mais afectada de Itália.
Talvez assim ficasse evidente por cá quão «má onda» é passear pateta-alegremente na marginal ou ir à praia quando há um país inteiro de quarentena e um concelho isolado com um cordão sanitário.
O alerta está dado e difunde-se a cada dia que passa. Nas notícias das mais diversas áreas também. Seja pela morte do antigo presidente do Real Madrid ou pelo contágio de desportistas tão mediáticos como Paulo Dybala ou Kevin Durant.
Se tal não chegar, atentem nos alertas que os futebolistas brasileiros Dalbert e Jonathas de Jesus, a viverem de perto a pandemia em Itália e Espanha, respectivamente, fazem aos seus compatriotas, esbracejando do lado de cá do oceano como quem avisa de um acidente prestes a acontecer perante a irresponsabilidade criminosa de Bolsonaro.
Se tal ainda assim não chegar, leiam com atenção as palavras de Massimo Cellino, o presidente do Brescia, que está no olho do furacão, na segunda província mais afetada de toda a Itália – Brescia tem cerca de 6 000 casos e situa-se no coração de uma região, a Lombardia, que em escassas semanas conta mais de 27 mil infectados e perto de 3 500 mortos.
Homem de negócios controverso, com condenações por corrupção, fraude e falsificação de documentos, Cellino parecia visivelmente em pânico por estes dias quando falava ao Corriere dello Sport sobre a pandemia.
«A época acabou, este vírus é pior do que a peste. A vida está em primeiro lugar! Sempre! A vida, f***-se! Há adeptos que levam oxigénio aos hospitais e há outros ainda que choram mortos, gente entubada... Só penso nos que vão morrer, não em quem vai perder o campeonato», alertava.
Pelo meio, fazia um relato dramático da sua própria vulnerabilidade: «Estou em casa com febre há três dias e em quarentena há onze. Encontro-me fechado, estou sozinho, a minha mulher está presa em Cagliari. Tenho um filho em Milão, os outros lá fora de Itália e eu já vi e ouvi coisas que você nem imagina. Recebo todos os dias notícias de Brescia e todas são de loucos [...] Tenho até medo de sair de casa, estou a entrar em depressão…»
O relato impressiona.
Por ignorância ou comodismo, quem passeia descuidadamente lá fora não terá noção do tsunami que aí pode surgir. Nem terá o desígnio maior de se sacrificar por pouco que seja para evitar um possível colapso do Serviço Nacional de Saúde.
Se não forem lá pelo respeito consciente, que vão pelo medo mais primário. Ou, em último recurso, pela repressão, que é para isso que o estado de emergência há de servir.
Situações de excepção como aquela que vivemos servem para sobrelevar o que de melhor há em nós. A solidariedade, o humanismo, a responsabilidade cívica. Por outro lado, acabam por desvendar, numa minoria, o pior: do açambarcamento de artigos de primeira necessidade ao desprezo pelo esforço dos outros.
Livrai-nos da inconsciência, da irresponsabilidade, do «Deus por todos, mas cada um por si».
Mais do que a pandemia, temo o pandemónio."

A ameaça e o desafio

"Assistimos a uma Europa sem alma, sem comando, cheia de tiques de correcção política, palavrosa e convertida em euros. Deixámos de ter estadistas que viam longe, para dar lugar à política que não enxerga para além do curtíssimo prazo.

1. Vivemos numa época de êxtase científica, onde o infinito parece ser o limite. Temos, ao nosso dispor, uma imparável parafernália tecnológica. Universalizaram-se poderosos meios virtuais de comunicação, com o que de maravilhoso e danoso nos trazem. Glorificámos o homo economicus e transformámos a economia de mercado em sociedade de mercado. Endeusámos a globalização económica e informacional e ignoramos os seus perigos morais. Valoriza-se mais o crescimento económico do que o desenvolvimento humano. Estimula-se a apologia e o elogio do sucesso, enquanto se desdenha da compaixão por quem fracassa. Fomenta-se, sem rodeios, o monopólio do ter, que tantas vezes esmaga a dignidade do ser. Desprezámos a aldeia para aumentar o urbanismo descontrolado e o asfalto. Vivemos prenhes da nova ideologia do actualismo, que secundariza o tempo que está para além do dia seguinte. Erguemos o utilitarismo como a ética da conveniência e o egoísmo como a ética intergeracional. Convivemos com uma insidiosa métrica do valor da vida, através da qual ser velho é um problema e nascer é uma inconveniência. Continuamos, apesar das declarações proclamatórias, a ver a natureza como uma mera coisa instrumental a usar, abusar e saquear. Exaltamos a exclusividade dos direitos e fragmentamos os correspondentes deveres. Esquecemos que a noção de direitos humanos é ilusória quando se separa o direito do dever. Enganamo-nos quando, entre o bem e o mal, criamos uma falsa e perigosa categoria ética, a da indiferença. Desbaratamos energias no domínio dos cuidados de saúde para nos envolvermos em maniqueísmos que nada resolvem e tudo enquistam. Esbanjamos investigação e dinheiro em meios de guerra nucleares, urânio enriquecido, armamento sofisticado, armas químicas, mas não temos sido capazes de erradicar a malária que mata em África, e outras doenças, só porque escolhem os pobres para seu alvo. Desmerecemos o direito natural universal que decorre da natureza humana e dos seus fins para tudo concentrar no direito positivo contingente, que, não raro, contraria o direito natural. Adulteramos o bem comum, enquanto expressão ética e dimensão social e comunitária de fazer o bem e enquanto razão de ser da autoridade política. Desvalorizamos a família e o lar (palavra ora em desuso) como epicentros da educação, da solidariedade e de transmissão da vida, em troca do individualismo, da efemeridade e do hedonismo. Trocamos valores sólidos pelo subjectivismo e relativismo de meras opiniões que nada valem por tudo quererem valer. Dividimos a força da verdade e multiplicamos a mentira, o rumor, a fantasia, a calúnia e o boato. Promovemos a primazia do número e o sufoco da estatística, como formas traiçoeiras de ditar políticas e de iludir as muitas formas de exclusão e de pobreza. Satisfazemo-nos com a supremacia das circunstâncias sobre nós próprios. Reduzimos os agrupamentos humanos a arquétipos formatados em visões abstractas e objecto de decisões frias e distantes. Assistimos a uma Europa sem alma, sem comando, cheia de tiques de correcção política, palavrosa e convertida em euros. Deixámos de ter estadistas que viam longe, para dar lugar à política que não enxerga para além do curtíssimo prazo e alimenta (e se alimenta) de epifenómenos populares, populistas ou seja lá o que for.
Somos de um tempo em que uns acusam outros de culpas, não raro por nada de importante e por tudo de insignificante. Tão concentrados estamos nas verdadeiras ou inventadas culpas, que esquecemos as soluções ou os caminhos a trilhar. Trocámos a segurança das soluções pela pressa das impressões. Para isso, menosprezamos a memória, alimentados por uma insidiosa cultura do presentismo e do descarte. Hoje, em muitos domínios, o que importa não é tanto fazer ou não fazer, é mais o dizer, o anunciar, o prometer. A erosão memorial é mais gratificante para quem anuncia do que para quem age. Sacrificamos o essencial, seduzidos que estamos pela obsessão da quantidade, da futilidade, senão mesmo da inutilidade. Como ilustrativamente, nos diz um provérbio, creio que chileno, «à procura de água, encontrámos petróleo e morremos à sede».
Propositadamente estou a escrever na primeira pessoa do plural, e não num anónimo sujeito nulo. Mas – perguntará o leitor – porquê nós, se eu não tive nada a ver com isso? Fi-lo, desde logo pensando em mim, tendo presente um texto do filósofo e eticista Emmanuel Levinas, em Ética e infinito, por sua vez baseado no que Dostoiévski, escreve em Os irmãos Karamazov: «Somos todos culpados de tudo e de todos perante todos, eu mais do que os outros. Não devido a esta ou àquela culpabilidade efectivamente minha por causa de faltas que tivesse cometido, mas porque sou responsável de uma responsabilidade total».

2. Enfim, vivemos (vivíamos) numa roda aparente, enganadora e solipsista, que muitos julgavam inexpugnável. E, de repente, um vírus do tamanho de nada consegue, planetariamente, pôr em causa este estado de coisas. Um quase invisível inimigo de cerca de 500 nanómetros, isto é de 0,0000005 milímetros, ataca-nos na nossa mais sagrada e vulnerável expressão, a da vida. Perante este combate, tudo o resto se esvanece. O que ontem era importante, hoje passou a ser dispensável. O que ontem era urgente, diluiu-se na sua quase sempre falsa pressa. Ninguém sabe como esta situação vai evoluir, mas o despertar das consciências deve ser encarado como uma boa lição a tirar para o futuro. Este é um ponto que nos deve tornar mais avisados em relação ao servilismo do dinheiro, à tirania da ambição desmedida, à pobreza espiritual e ao pendor excessivamente materialista em que muitas vidas se deixaram aprisionar. Esta guerra silenciosa que o mundo enfrenta abre-nos e alerta-nos para as verdadeiras e profundas prioridades de governantes e governados.
Por aqui me fico nesta tentativa, reconheço que pessimista, de observar o mundo agora confrontado com o brutal ataque de um traiçoeiro microorganismo. Mas, também, no optimismo esperançoso da lição que saibamos tirar desta ameaça. E se só o nosso comportamento pode erradicar este pesadelo, que ele sirva também para prevenirmos o nosso futuro. Mais humanidade, precisa-se!"

Um medo branco

"Velhotas curvadas tecem preces fervorosas à Nossa Senhora do Silêncio, essa padroeira da voz suave e monocórdica das mentiras: “Ficaremos todos bem”. Os pássaros pararam sobre Alcácer. Deve ter sido Deus que os parou assim, plácidos e repousados, sem pios.

O Sado está parado sem saber para onde ir porque, neste tempo do medo, nem ele confia na foz. Os carros da polícia passam com altifalantes gritando: “Isto é um conselho. Fiquem em casa!” Estranho que ao abrir o microfone não se ouça primeiro um sonho roufenho a berrar “Achtung!”, tal como estranho não ter guardas de camisas pretas nas ruas com pastores alemães pela trela. Queria escrever-te uma carta falando-te das crianças que abandonaram as praças e levaram consigo bolas e bicicletas, e de como a cidade está a morrer a pouco e pouco, tão branca, tão leve que o medo nela só pode ser também branco e branca será a morte da qual estamos à espera pelas frinchas das janelas.
Dizem que é sempre a sul que fica a tristeza. Também deve ser a sul que fica o medo. E esta saudade das tuas íris negras, primeiro nos olhos, antes de chegarem a esse céu de Verlaine, tão azul e tão calmo. Escrevo-te cartas.
Velhotas curvadas tecem preces fervorosas à Nossa Senhora do Silêncio, essa padroeira da voz suave e monocórdica das mentiras: “Ficaremos todos bem”. Os pássaros pararam sobre Alcácer. Deve ter sido Deus que os parou assim, plácidos e repousados, sem pios; deve ter sido Deus que parou o desacerto do seu voo, mas não sei se foi, não acredito nele, em Deus. Não tenho outro remédio senão acreditar nos pássaros parados, em silêncio, prometendo mais medos, todos em branco.
“Estás na minha frente eu estou sozinho
E o Mundo roda na suprema translação
De um medo que cresce devagarinho
Como se o céu fosse demasiado azul.
A noite chegou.
E tu também
Talvez ela tenha afinal o teu rosto
E a tua completa dimensão do infinito
Talvez tenha a imensidão que o Tempo tem
Um sabor de chuva de sol de Agosto
E talvez sejam uma só – a noite e tu!”
Consegues ver as estrelas que aparecem uma a uma? Voltou a ser, para nós, tempo de contá-las... Uma... duas, três, o brilho mais acentuado de Vénus... Anda. Não tenhas medo do medo branco. Quatro... cinco... Eu já comecei a contar..."

Um nó na garganta


"Como dizer um coração fora do peito?” Ninguém nos libertará desta distância se não houver poetas que saquem do coldre as armas da brandura e disparem flores sobre as quais caminharemos, sobre os nossos sonhos. Acredita e não desistas: este beijo tão carregado de amor.

Não sei se é a morte da ternura ou apenas um intervalo. Quem resolveu ter o direito de nos roubar os abraços? Porque não posso beijar a testa do meu pai com toda aquela meiguice que ele me ensinou, por completo, do princípio ao fim, toda por inteiro? E como encosto, agora, os meus filhos junto ao peito para que eles possam ouvir um coração que, por causa deles, teima em transbordar, e eu tão perdido? Quem ordena este assassinato do carinho? Respondam-me que não sei. Não te posso dar a mão e passear contigo pela rua como se o mundo fosse absolutamente infinito: tiraram-nos a rua, tiraram-nos as mãos umas das outras, por mais que as minhas chorem pelas tuas. Da janela pela qual olho, o Sado corre para parte nenhuma.
Pessoa ensinou-nos: “Há barcos para todos os portos menos para a vida não doer”. E eu aprendi com o Manuel Alegre que gostar de ti é um poema que não digo, nesta vida diferente que quer matar a poesia. Bem sei, bem sei, o coração transborda e eu sem navio. Mãe! Com ponto de exclamação. O tempo passou por ti, por mim, por nós todos. O teu tempo contado em anos: 80. Hoje mesmo, 24 de março. Um abraço que fica por dar. Mais um abraço que fica por te dar. É isso que nos mata de verdade, entendes? Este mal sem nome que os sábios não percebem, mas se transformou no vírus da maldade. Um beijo que fica por dar; mais um beijo que fica por dar. Quem nos devolve todo este carinho que nos roubam, hora a hora, sem fim à vista? Há vozes ao longe que prometem: é amanhã… tudo voltará ao seu lugar... Amanhã pode ser tão longe mas é já amanhã. Mãe! A profundeza de um nome. Onde está a tua ternura, aqui onde até já os pássaros desistiram de cantar? Penso em ti, no teu olhar claro, verde, de um verde transparente como tu. “
Como dizer um coração fora do peito?” Ninguém nos libertará desta distância se não houver poetas que saquem do coldre as armas da brandura e disparem flores sobre as quais."


Ser treinador desportivo nas artes marciais e desportos de combate

"Pelo Decreto-Lei n.º 105/72, de 30 de Março, foi criada, em 1972, Comissão Directiva das Artes Marciais (CDAM). Este organismo, dependente do então Departamento Defesa Nacional, tinha por missão atender às questões de segurança interna. As atribuições consistiam na superintendência e controle do ensino, aprendizagem ou prática das artes marciais. Este Decreto-Lei previa o sancionamento (prisão e multa) da prática não autorizada das artes marciais. Depois de várias mudanças organizacionais e de ministérios, a CDAM viria a ser extinta pelo Decreto-Lei 69/87, de 9 de Fevereiro. Em 2007, fruto da minha investigação e da consulta dos arquivos, escrevi um longo artigo científico sobre esta Comissão (Rosa, 2007). A minha tese de doutoramento é, hoje, referenciada no Arquivo da Defesa Nacional (cf. https://arquivo-adn.defesa.gov.pt/details?id=36035). Se debitamos à CDAM alguns problemas criados no seio das artes marciais e desportos de combate em Portugal, ponhamos-lhe crédito, em contrapartida, os benefícios que dela se recebeu em termos de formação dos instrutores e/ou mestres. Fazendo uma retrospectiva sobre a credenciação dos instrutores das artes marciais, especialmente as práticas de judo, karaté, aikido e taekwondo, verifica-se que a década de 1980 representa um marco significativo de transformação no tocante à formação e qualificação contínua dos instrutores destas modalidades em Portugal.
Com a colaboração dos então Institutos Superiores de Educação Física (ISEF), Lisboa e Porto, e inspirados no trabalho desenvolvido neste domínio em países como o Reino Unido, a França, a Espanha, a Itália, etc., a CDAM conseguiu promover durante alguns anos uma prática de formação, adaptando-se à grande heterogeneidade da população-alvo, mas também à grande diversidade de lugares e tempos de formação. Os objectivos definidos para essa formação eram os seguintes:
i) dotar os recursos humanos de competências técnicas, sociais, culturais, éticas e pedagógicas;
ii) demarcar o campo político e ético, ou seja, na expressão em desuso “separar o trigo do joio”.
Dito de outro modo, destrinçar quem de facto estava interessado em ensinar as artes marciais de forma correta e profissional e quem era charlatão. Por outro lado, é o reconhecimento que apenas o conhecimento técnico específico de uma determinada arte marcial não era suficiente para capacitar o praticante para a função de educador.
Podemos dizer que o principal contributo das acções de formação foi o dos treinadores terem a certeza de serem “profissionais” não só aos seus próprios olhos, como também aos daqueles que os viam do exterior. Para além de ser, evidentemente, um factor de valorização e de confiança em si próprios, e de trabalho continuado de reflexividade profissional, a formação constituiu um lugar de encontro e de intercâmbio, pois os participantes encontraram aí uma ocasião de se conhecerem, de confrontarem as suas experiências, até mesmo de vencerem o isolamento próprio das suas condições de trabalho e de vida. A realidade formativa hoje é outra. Com uma validade de cinco anos, o “Título Profissional de Treinador/a de Desporto” (TPTD) passou a ser o documento oficial que habilita e regula o exercício das funções de treinador(a) em Portugal. A emissão do TPTD é da responsabilidade do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). A PORDATA disponibiliza alguns dados sobre o número de treinadores de algumas modalidades desportivas em Portugal."

O futuro é agora

"A situação actual é difícil, dura e dramática. Repentinamente tudo mudou. O teletrabalho, a suspensão das escolas, o ficar em casa, o lavar as mãos a todo o momento, o tirar os sapatos ao entrarmos em casa, o distanciamento social, (…).
Se alguém nos dissesse que tudo isto ia acontecer, há 1 ano, será que responderíamos “nem pensar”? Contudo, está a acontecer.
Para quem estuda a mudança e tem várias publicações sobre o que complica, condiciona e compromete ou “mata” a mudança (ver Quem “Matou” a mudança em Espaço Universidade da edição de “A Bola” online), afinal parece que há casos ou circunstâncias que aceleram a mudança. Será? Antes de “degustar” a resposta a essa questão, irei abordar duas questões.
Primeira: realçar o “convite” das circunstâncias actuais, para activarmos o modo de sobrevivência. Compreendemos a activação do sistema sobrevivência como uma absoluta necessidade e consequentemente todos os cuidados para contermos a propagação do vírus e toda a concentração de meios humanos e materiais nos sistemas de saúde, segurança e serviços essenciais. Por isso, agradecemos a todas as pessoas que se arriscam e sacrificam, como médicos, enfermeiros, polícias, bombeiros, (…), em prol do bem dos outros.
Segunda: as circunstâncias deste momento também oferecem condições singulares de desenvolvimento e transformação e que curiosamente até podem apoiar o sistema sobrevivência. Isto é, ao concentrarmos alguma da nossa energia no desenvolvimento, podemos ajudar a sobrevivência de todos. Como?
Não sei se já se “tropeçou” com uma frase como esta: “all the great changes are preceded by chaos”. 
Uma exploração superficial do caos, mais concretamente da teoria do caos, poderá recordar-nos duas coisas: que o comportamento futuro também é determinado pelas condições iniciais; e que, ao longo do processo, há factores de instabilidade que “abrem uma janela” para os recomeços.
Neste enquadramento, do mesmo modo que um bater de asas de uma borboleta na Argentina pode provocar um furacão no Texas (conhecido por efeito borboleta) e compreendendo que o futuro não depende só das condições iniciais, estas podem ter um enorme impacto no futuro.
Por outro lado, percebemos que a instabilidade pode ser planeada e desejada ou “ocasional” e, por vezes, indesejada (caso actual), mas em ambos os casos, a instabilidade cria condições para os recomeços.
Por último, também nos é perceptível que o balanço, o repensar o que fizemos ou a reflexão sobre o passado podem alavancar as mudanças, caso contrário arriscámo-nos a ingloriamente esperar resultados diferentes com soluções semelhantes.
Assim, quer as situações iniciais, quer os factores de instabilidade de processo, quer a reflexão e aprendizagem sobre o passado podem ter um enorme impacto no futuro.
No caso da sociedade em geral, mas também do Desporto, podemos “olhar” para a situação actual através da “janela da sobrevivência” e, consequentemente, vê-la apenas como um problema, como quem olha para um copo com água até meio e diz “está meio vazio”, ignorando a metade cheia (“pessimistas”), como uma oportunidade, dizendo que o mesmo copo “está meio cheio” e ignorando a metade vazia (“optimistas”) ou como uma situação exigente mas que é possível ser superada com planeamento, ambição e convicção de a superar, muita concentração, esforço e disciplina individual, melhor trabalho colectivo, uma resiliência de ferro e com o apoio dos outros (“realistas”).
Trate-se de um conjunto de países, uma nação, uma empresa, um clube, uma família, (…), ou uma modalidade – por exemplo o Basquetebol, Rugby, Ciclismo, Atletismo – a “janela” que se escolher para “ver” o que se passa, a do “pessimista”, a do “optimista” ou a do “realista” poderá influenciar a forma como cada um não só irá “ver” a situação presente, mas também como poderá vir a ser o futuro.
Por outro lado, também é possível “olhar” para a situação actual através da “janela do desenvolvimento e transformação”. A instabilidade actual provocará uma inevitável mudança e, nestes casos, a questão não é se as coisas vão mudar, mas porquê, o quê e o como vão mudar.
Deixar o sistema sobrevivência “conduzir” a mudança poderá resultar no mesmo que ter uma pessoa embriagada a conduzir um automóvel. Contudo, se for o sistema desenvolvimento e transformação “conduzir” a mudança, esta poderá resultar no mesmo que ter um condutor sóbrio a conduzir. A “viagem” e as suas consequências serão as mesmas para os condutores, para os acompanhantes, para as pessoas dos outros veículos ou para os peões, nestes dois casos?
Regressando à questão inicial, Será Que Há Casos ou Circunstâncias Que Aceleram a Mudança? Imagine-se duas situações. Uma, com um copo de água gelada, alguém a colocar um cubo de gelo nesse copo e depois arrumar esse copo no congelador. A segunda, com um copo de água a ferver e alguém a colocar um cubo de gelo nesse copo.
Na primeira situação, o cubo de gelo muda, ao fim de umas horas? Para mudar o estado do cubo de gelo, neste caso do gelo, porque a água do copo também congelou, necessitámos de descongelar. Nestas circunstâncias, a mudança é complicada, condicionada e comprometida ou as circunstâncias “matam” a mudança do cubo de gelo para água. Isto é o que normalmente se passa, com as organizações, com as equipas, com as pessoas, (…), e por isso, nessas circunstâncias, sem descongelar primeiro “não há” mudança.
No segundo caso, a água do cubo de gelo muda o seu estado sólido para líquido, em minutos. Porquê? Por que o cubo de gelo foi colocado em circunstâncias que aceleram a mudança. A instabilidade actual também proporciona circunstâncias que podem acelerar a mudança, que é tão difícil noutras circunstâncias.
Não compreender esta diferença e desperdiçar este momento é o mesmo que um ferreiro ter o ferro quente, deixá-lo arrefecer e só então tentar moldar o ferro. Ou seja, este pode ser um momento de “malhar no ferro enquanto está quente” e conseguir a mudança desejada mais fácil e rapidamente. 
Concluindo, poderíamos resumir que a instabilidade actual para além de activar e bem o sistema sobrevivência e que por isso, muita da nossa energia deve ser para aí canalizada, também oferece uma oportunidade única ao Desporto – Basquetebol, Andebol, Voleibol, Natação, Atletismo, Futebol, (…) – mas também à sociedade, a de aproveitar o estado de “descongelamento” e mudar para melhor, reflectindo e aprendendo com o passado e de recomeçando com novas condições iniciais, se quisermos aproveitar que o “ferro está quente”.
A propósito, por condições iniciais, podemos considerar quatro dimensões, concretamente a estratégia, a estrutura, a equipa e a ética. Se assim for, colocam-se quatro questões essenciais ao Desporto e à Sociedade:
1. Qual é o futuro desejado e que plano estratégico o apoia (o novo, do recomeço)?
2. Que sistemas e processos (estrutura) são coerentes com o plano estratégico?
3. Que interacção (equipa) pode despoletar a eficácia?
4. Que princípios e valores (ética) alavancam a grandeza?
Tal como ajuda pensar antes de agir, estar concentrado enquanto agirmos e ensaiar ou treinar entre as acções (como fazem os atletas entre as competições), aproveitar este momento de paragem, para reflectir e aprender com o passado e planear novas condições iniciais para construirmos o futuro desejado, pode fazer toda a diferença.
Por isso, o Futuro é Agora, a Mudança é Agora, a questão não é saber se as coisas vão mudar, mas saber que sistema vai “conduzir” a mudança."

Em nome da vida - da palavra à notícia!

"É urgente nos dias de hoje reflectir numa renovação profunda da humanidade em que se possa estabelecer modos limiares de comportamento e relacionamento, de forma a atingir a observância de padrões de existência, revestidos por uma conduta civilizada, de generosidade, de respeito e também de glorificação por quem transporta valores, em prole do bem comum e a quem apetece aplaudir de forma continuada.
Refiro-me, claro está aos exemplos dos nossos heróis deste temp(l)o sagrado da existência, que advém de equipas pluridisciplinares, onde encontro médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, fisioterapeutas, empresários, bombeiros, autarcas, forças policiais e demais voluntários … gente de Deus, guerreiros do tempo por entre a comunidade entre soluços e anseios, quer na despedida de alguém que parte sem direito a um simples abraço e nem tão pouco tem a oportunidade de juntar uma lágrima em flor de saudade, quer também entre outros caminheiros, revestidos entre sinais duma renovada esperança, para a conquista do futuro.
Uma tomada de atenção à proliferação de palavras colocadas em notícias, feitas em imagens escritas ou transmitidas de forma bem audível e que nos entra pela casa dentro, felizmente mais acentuadas no mundo externo. Por vezes residem nelas próprias e em quem as propaga uma tentativa de marcar a exclusividade, a fantasia, o sensacionalismo, e assim os promovidos a arautos da verdade vão fazendo fretes de circunstância, tecendo-as à promoção de interesses quantas vezes expostos nos placards de encomenda empresarial, política, institucional e a falsidade agiganta-se e o carácter das pessoas de bem tem de se proteger, refugiando-se nas sombras da distância.
Sabemos que nada melhor do que para atrair a atenção do universo social, do que lhes atiçar a condição do medo. E no jogo da vida quando o medo de perder supera a vontade de ganhar, perde-se muitas mais vezes e no imediato esvai-se a necessidade de lutar para a conquista dos sonhos que trazem à saúde emoção, reforçam as forças aos ansiosos, animam os deprimidos e ajudam a reconstruir a própria história.
Por isso o apelo aos dotes da comunicação séria e descomprometida, cujas mensagens não devem ter duplo significado, destacando os aspectos fundamentais das mesmas, separando o real técnico e científico e providas de fácil compreensão, das opiniões simplesmente pessoais.
Apelo que nas mensagens se procure reforçar o entusiasmo (o entusiasmo reforça a confiança e a apatia faz surgir a incerteza), e a formulação da conquista de objectivos, devendo ser estes positivos porque ajudam a concentrar-se no que se pretende atingir e esquecer o que se deve evitar e ainda ser específicos e realistas porque produzem melhor capacidade para serem conquistados.
Por isso é que se costuma dizer que a palavra escrita talvez seja aquela que mais fala, porque traduz o que peito grita, sempre que a boca se cala.
Mas há palavras e palavras. Umas iluminam os caminhos do futuro; outras emocionam, fazem rir, corar e porventura verter algumas lágrimas; outras escondem, encobrem, disfarçam pela falta de bom senso como são proferidas. Procuremos pois fazer das palavras notícias … notícias de paz, de generosidade e duma inatacável honestidade de processos para que sirvam suporte na conquista do futuro.
E como muitas vezes evoco Vítor Hugo (1802-1885): “o futuro tem três nomes - para os fracos é inatingível…mas os medíocres, desconhecido … para os valentes a oportunidade”. Vamos Todos Reconquistar o Futuro!"

Benfiquismo (MCDLXXXII)

Não entrou...!!!

Comunicado da Benfica SAD à CMVM

"Revogação da oferta
A Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD (“Benfica SAD”) informa, nos termos e para os efeitos previstos no artigo 17.º, n.º 1, do Regulamento (UE) n.º 596/2014, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 16 de Abril de 2014, e no artigo 248.º-A do Código dos Valores Mobiliários, que recebeu hoje da Sport Lisboa e Benfica, SGPS, S.A. (“Benfica SGPS”) um comunicado informando que a Benfica SGPS apresentou à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários um requerimento de autorização desta autoridade para revogação da oferta pública de aquisição de acções representativas do capital social da Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD preliminarmente anunciada pela Benfica SGPS em 18 de novembro de 2019 (“Oferta”). A revogação da Oferta já vinha sendo discutida com a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários desde que se tornou do conhecimento público, no dia 12 de Março de 2020, a suspensão do campeonato nacional de futebol – Liga NOS.
Este requerimento foi formulado ao abrigo ao artigo 128.º do Código dos Valores Mobiliários (por remissão do artigo 130.º, n.º 1 do mesmo Código), tendo por conta a alteração das circunstâncias determinadas pela pandemia associada ao novo Coronavírus – COVID19 e os impactos da mesma, directos e indirectos.
Não obstante a entrega desse requerimento, a Benfica SGPS confirmou no referido comunicado que se pronunciará em sede de audiência prévia acerca do projeto de indeferimento do pedido de registo de Oferta que lhe foi ontem comunicado pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, uma vez que reitera a plena conformidade da Oferta com todas as disposições legais aplicáveis. 

Esclarecimentos adicionais
Adicionalmente, a Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD recebeu ontem da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários um pedido de prestação de informação ao mercado após terem surgido rumores na comunicação social sobre o desfecho do procedimento de registo da Oferta e acerca da eventual utilização alternativa dos fundos mobilizados para efeitos da sua liquidação para contratar reforços para a equipa de futebol.
A este respeito, a Benfica SAD esclarece o seguinte:
- Conforme oportunamente comunicado, a Benfica SAD alienou à Benfica SGPS as acções representativas do capital social da Benfica Estádio – Construção e Gestão de Estádios, S.A. (“Benfica Estádio”), com efeitos a 1 de Julho de 2019 (comunicado divulgado em 15 de Março de 2019).
- Após vários meses de negociações, a Benfica SAD celebrou com a Benfica Estádio, no dia 10 de Outubro de 2019, um contrato de cessão de exploração do Estádio do Sport Lisboa e Benfica, no qual revogou o anterior contrato de utilização do Estádio do Sport Lisboa e Benfica, celebrado em 2003.
- A celebração deste acordo permitiu, designadamente, a adaptação da estrutura contratual à actual relação entre a Benfica SAD e a Benfica Estádio (sociedades indirectamente participadas pelo Sport Lisboa e Benfica e sem relação entre si) e a actualização dos montantes a pagar, cujo valor mínimo anual não sofria alterações desde há cerca de 15 anos.
- O referido contrato manteve a mesma duração do acordo anterior, ou seja, vigora até 30 de Junho de 2041, e prevê uma prestação anual composta por um valor mínimo anual de €4.500.000, acrescido de um valor variável que, tendo em consideração o modelo de negócio, será sempre apurado no final do exercício – refira-se que, no último exercício, o custo suportado pela Benfica SAD superou os mencionados €4.500.000.
- Mais se refere que, no referido contrato, as partes convencionaram também que o valor nominal total de €94.500.000, correspondendo ao somatório dos valores mínimos anuais para a totalidade do período contratual compreendido entre 1 de Julho de 2020 e 30 de Junho de 2041, seria pago antecipadamente, por um valor de €61.905.254, o que corresponde a um desconto de €32.594.746 (o valor nominal total foi descontado a uma taxa anual de 4%, correspondendo à taxa de risco para um activo desta especificidade) – ou seja, este montante traduz um desconto de 34,5% face ao valor total. 
- Relativamente a este valor de €61.905.254, as partes acordaram que:
(i) €32.905.254 desse montante fosse objecto de compensação da dívida existente da Benfica Estádio perante a Benfica SAD, não dando assim lugar a um fluxo financeiro;
(ii) o remanescente, concretamente o valor de €29.000.000, fosse pago pela Benfica SAD para a Benfica Estádio.
- De referir que à data da negociação e celebração deste contrato, a realidade da Benfica SAD era a seguinte:
(i) pretendia rever o contrato de utilização do Estádio do Sport Lisboa e Benfica à luz da nova realidade societária do Grupo Benfica;
(ii) tinha uma elevada disponibilidade financeira, não tendo rentabilidade com esse excedente de tesouraria e, simultaneamente, não tendo possibilidade de, a curto prazo, reduzir dívida remunerada; 
(iii) tal como preconizado na IFRS 16, registou um activo pelo direito de uso de Estádio do Sport Lisboa e Benfica nas suas demonstrações financeiras, o qual como contrapartida gerou um passivo de €66.628.877.
- Por conseguinte, a antecipação imediata do referido valor nominal de €94.500.000, que implicou um pagamento de €29.000.000 à Benfica Estádio, teve como imediatas contrapartidas para a Benfica SAD, por um lado, a rentabilização do seu excedente de tesouraria, pelo facto de efectivamente ter obtido um desconto de 34,5% no valor que teria a pagar à Benfica Estádio e, por outro, uma redução do seu passivo de €61.905.254, pela liquidação destes montantes. Nenhum destes efeitos, positivos na esfera da Benfica SAD e, indirectamente, nos seus stakeholders, teria sido possível sem a celebração daquele contrato.
- Naturalmente, em 10 de Outubro de 2019, desconhecia-se por completo as circunstâncias que, no actual contexto, condicionam a utilização do Estádio do Sport Lisboa e Benfica – saliente-se, em geral dos estádios de futebol na Europa. Não era sequer previsível naquela data antecipar que o campeonato nacional de futebol – Liga NOS seria suspenso e que o Euro 2020 seria adiado.
- A Benfica SAD está a avaliar os impactos que a pandemia decorrente do novo coronavírus tem na sua actividade, face à grande incerteza e imprevisibilidade da situação.
- A Benfica SAD confirma ainda que quaisquer fundos que se encontrem na titularidade da Sport Lisboa e Benfica, SGPS, S.A. (tenham ou não qualquer relação indirecta com o referido contrato) não lhe pertencem, pelo que, naturalmente, não poderá a Benfica SAD utilizar tais fundos, ao contrário do que foi incorrectamente mencionado por alguns meios de comunicação social.

Considerações finais
Neste contexto de enorme adversidade, a Benfica SAD tomou e continuará a tomar, tendo em conta a informação fiável que estiver disponível a cada momento, as medidas que reputar necessárias para preservar a sua actividade, sendo previsível a redução de custos e despesas não indispensáveis ao desenvolvimento dessa actividade e a ponderação acrescidamente cuidada de todos os investimentos que estavam projectados. Assim sendo, as transacções de atletas serão analisadas muito cuidadosamente, tendo em vista promover e preservar na maior medida possível os activos essenciais da Benfica SAD e assegurar a sua sustentabilidade, atendendo aos interesses de longo prazo dos seus accionistas e ponderando os interesses dos seus trabalhadores e demais stakeholders.
A Benfica SAD manifesta a sua inteira solidariedade com todos os seus trabalhadores, sócios, adeptos e simpatizantes benfiquistas, parceiros e colaboradores nos tempos extraordinários que vivemos. E tudo fará para continuar a assegurar o sucesso a longo prazo do seu projecto desportivo, honrando assim os 116 anos de gloriosa história do Sport Lisboa e Benfica."

Não, não foi um jogo para meninos

"Foi, na altura, a maior receita de um espectáculo de beneficência até aí realizado no Reino Unido. O Benfica foi a Glasgow bater-se com o Celtic num jogo magnífico que valeu todos os elogios da imprensa britânica.

Curioso número: o três. Pelo menos no que diz respeito a jogos entre Benfica e Celtic. Ora, reparem: Taça dos Campeões, 1969-70 - Celtic 3-0 Benfica; Benfica 3 - 0 Celtic (depois passaram os escoceses graças àquele embirrento sistema da moeda ao ar); Liga dos Campeões 2006-07  Celtic 3 - 0 Benfica; Benfica 3 - 0 Celtic... Verdade que já se encontraram depois disso, e o resultado abracadabrante não se repetiu. Ainda assim: curioso número. Mas o assunto não se fica por aqui.
No dia 12 de Dezembro de 1974, em Glasgow, a UNICEF concluiu uma gala de recolha de fundos para crianças desvalidas com um espectáculo que prometia: Celtic-Benfica.
Prometia e cumpriu.
Estava um troféu em disputa: a Children's Cup, oferecida por um fidalgo escocês. Uma taça de categoria que, diga-se já aqui, o Benfica trouxe para Lisboa.
Uma desilusão, no entanto percorria Celtic Park: Eusébio, a contas com mais um dos seus problemas joelhos, não viajou para a Escócia. Aos 32 anos ainda o povo suspirava por ele... Infelizmente, muitos adversários inimputáveis arruinaram-lhe o resto da carreira.
Faz frio em Glasgow, em Dezembro no ano inteiro. Sei-o bem, já lá estive várias vezes.
Fazia frio em Dezembro de 1974, mas os adeptos não viraram as costas ao jogo. Mais de 30 mil pessoas arrostaram a noite gelada.
Fizeram bem. Assistiram a um desafio electrizante.
À velocidade da luz
O início do Benfica desenrolou-se, para aí, a uns trezentos mil quilómetros por segundo, que é, como sabem, a velocidade da luz.
'The Mighty Benfica!', anunciara a imprensa britânica, orgulhosa da presença encarnada.
Cruyff tinha sido convidado para reforçar o Celtic. Aceitaria, bem como o Ajax, seu clube. Uma lesão de última hora tirou-o da festa. Tal como aconteceu com Pelé, que fora uma das hipóteses em cima da mesa. Tentativas frustradas de colmatar a ausência de Eusébio.
Aos 10 minutos, o Benfica já estava a ganhar por 2-0.
As bancadas vibravam, plenas de olhos esbugalhados.
Móia era o homem do momento. Com o apoio de Simões, Nené e Ibraim, surgira por duas vezes na cara de Hunter e não falhara. O primeiro golo foi logo na jogada inicial da partida.
Os escoceses rebelaram-se. Caíram sobre a defesa lusitana, atarraxaram os parafusos a Humberto Coelho e Messias, obrigaram Vítor Martins a recuar cada vez mais até que este, aos 37 minutos, cometeu falta sobre Wilson, que tinha recebido um passe soberbo de um jovem claramente em ascensão. O seu nome? Kenny Dalglish! Com ponto de exclamação.
Penálti! McCluskey enganou José Henrique: 1-2.
Seria o resultado do primeiro tempo.
Com o recomeço, a correlação de forças alterou-se: o Celtic tornou-se ameaçador. Forçou o ritmo, o público levou a equipa ao colo até ao golo do empate, apontado aos 49 minutos por Johnstone, que se escapou a Artur e rematou rasteiro, venenoso. Pouco depois, surgiu o 3-2. Glavin, aos 67.
Nené chateou-se. No minuto seguinte, arrancou logo à entrada do meio-campo escocês e foi por ali fora, correndo como um garoto em busca de papoilas num campo de gipsófila, vergando adversários como vimes com o poder da sua rapidez, chutando para um canto inacessível aos esforços de Hunter.
Valera a pena o dinheiro pago pelo bilhete.
Nunca no Reino Unido um espectáculo de beneficência obtivera bilheteira tão valente: mais de 20 mil libras esterlinas.
De um lado e do outro, os movimentos finais foram agressivos. Ambas as equipas quiseram ganhar, todos os jogadores fizeram por isso. Mas o empate não se desfez.
Tal como tinha sido antecipadamente estabelecido, o troféu ficaria agora nas mãos de quem soubesse ter a arte de triunfar nas grandes penalidades.
Irrepreensíveis, os jogadores encarnados: Vítor Baptista, Nené, Vítor Martins, Humberto Coelho...
Respondiam os do Celtic: McCluskey, McDomald, Wilson, Johnstone...
Depois, McNeill viu Zé Gato desviar a bola só com um olhar felino.
E Toni resolveu o assunto.
'No child's play!', escreveu Hugh Taylor no Herald do dia seguinte. Um trocadilho com pilhéria. E acertado, apesar da UNICEF, não foi um jogo para meninos. 'Benfica, those portugueses nem of war, may had been frozen to the marrow in more northern latitudes, but they went on to win, honourably and entertainingly!'
Uma vénia para os que souberam vencer com honra, encantando espectadores exigentes.
Glasgow é cidade onde se respeita o futebol de categoria."

Afonso de Melo, in O Benfica

terça-feira, 24 de março de 2020

David Monge da Silva, pioneiro da Metodologia do Treino

"O caminho da proximidade dos adeptos ao trabalho da equipa de futebol consolidou-se com a decisão da Direcção do clube

Decorria a época 1979/80 quando, no dia 21 de Janeiro de 1980, a direcção do Sport Lisboa e Benfica contratou o professor David Monge da Silva como o primeiro preparador físico da equipa sénior de futebol. A necessidade constante do desenvolvimento das capacidades físicas e psicológicas de cada atleta e de potenciar o rendimento da equipa motivou esta mudança.
Na altura da contratação, Monge da Silva já tinha dado provas da sua competência no meio desportivo. Leccionara Teoria do Treino e Metodologia do Treinador, no Instituto Superior de Educação Física, e desempenhara até ao momento o cargo do coordenador do Gabinete de Metodologia do Instituto Nacional de Desporto.
Depressa foi considerado o braço direito do treinador Lajos Baroti, conquistando um papel fulcral no planeamento dos treinos, e acompanhou de perto vários momentos importantes no futebol 'encarnado', como a reentrada de Fernando Chalana na equipa, após lesão prolongada.
Na edição de 19 de Fevereiro de 1980 do jornal O Benfica, em contexto de entrevista, falou abertamente sobre a preparação física inerente aos trabalhos da equipa, que constituiu uma revolução no futebol, tendo em conta a especulação sobre este tema em épocas anteriores, em que não existia informação concreta sobre o assunto.
Monge da Silva abordou questões como a importância do número de sessões de treino e sua intensidade, dando especial atenção à implementação e desenvolvimento da corrida que, na sua opinião, ainda não era considerado relevante no futebol português: 'a falta de velocidade e de resistência é um problema genético a todas as equipas portuguesas, e deve-se (...) ao facto, de em Portugal, os jogadores não serem sujeitos, numa fase de iniciação, ao treino da técnica mais utilizada no futebol que é a corrida'. Sublinhou também que os treinos 'têm que ser adequados às características dos jogadores' e que cada atleta tem um conjunto de características que podem ser melhoradas mas nunca modificadas totalmente: 'existem jogadores que são combativos, batalhadores, enquanto outros têm características mais tecnicistas e numa equipa de futebol tem que haver forçosamente um equilíbrio'.
David Monge da Silva contribuiu para que os adeptos tivessem uma maior compreensão do trabalho realizado e suas sinergias, o que só é possível através de uma grande planificação, análise e rigor, características transversais ao trabalho do Professor.
Na área 25 - Mestres da Bola, no Museu Benfica - Cosme Damião, poderá saber mais sobre as mais respeitadas personalidades relacionadas com o treino."

Cláudia Monteiro, in O Benfica

Presença, ausência e paixão

"«Só o futebol permite que você sinta aos 60 anos exactamente o que sentia aos 6. Todas as outras paixões infantis ou ficam sérias ou desaparecem»

1. Nesta fase de quarentena, passo grande parte do meu tempo lendo o que outros escreveram e escrevendo ou escrevinhando, mesmo que os outros não leiam. Afinal, e por ironia, eis quase uma síntese de três meios que me têm acompanhado ao longo da minha vida: a caneta, o livro e o relógio.
A caneta - agora substituída pelo teclado - continua a ter em mim o fascínio de me entregar directamente ao domicílio as letras, as palavras e os números que depois componho e descomponho. Costumo divertir-me com as canetas de tinta permanente, dando-lhes a tinta preta, azul escuro, azul vivo, sépia, roxo ou uma outra fascinante matiz, num acordo implícito entre o meu estado de espírito e o deleite do bico que a embede. Nunca deixando de me interrogar sobre o paradoxo de se chamarem canetas de tinta permanente, quando, afinal, deveria ser o tinteiro e não a caneta que deveria ter como aposto nominal a permanência da tinta.
O livro, na companhia que me faz, ou melhor, os livros na junção que constituo em cada dia na adequação ao meu almómetro. O livro (não o virtual, mas o físico), que se tacteia como quem lhe pode namoro, com cheiro de novo, meia-idade ou velho, com espaço para sublinhar e perguntar ou referenciar, com memória para revisitar, e com tanto espaço para deixar a minha impressão digital. O livro, que me revela a supremacia da inspiração dos autores sobre a mera materialidade e que, se tivesse aparecido depois do computador, teria sido uma notável invenção. E porquê? Porque é permanentemente renovável dentro de nós, não consome energia polidora, e tem um larguíssimo e facilmente atingível campo de visualização, que só de num depende.
O relógio, que me impõe o tempo cronológico e me orienta no caos. O relógio, que me encurta o futuro e me enriquece o passado. Porque sem ele, a minha memória não tinha as referências de que preciso para associar o que fez ou não fiz ao que ainda farei ou já não conseguirei fazer. Curiosamente, o relógio não nos mede o passado, e muito menos o futuro, porque apenas nos dá o presente que logo o deixa de ser ao átimo em que o foi. Por tudo isto, sempre gostei, com espírito coleccionista, dos relógios de areia ou ampulhetas, que me oferecem essa magia do presente que é o grão de pó que passa entre a âmbula superior - o futuro - e a âmbula inferior - o passado. A ampulheta e a clepsidra (esta de água ou líquido) trabalham quando queremos e repousam quando as deixamos. Ao contrário do relógio, somos nós que lhes concedemos o tempo para elas nos darem o tempo.

2. Certamente o leitor perguntará (se, entretanto, ainda não tiver desistido) se estas palavras de adequam a uma crónica num jornal que é - mas não apenas - de carácter desportivo. Cada qual terá a sua resposta, mas, pela minha parte, acho que sim, sobretudo num período em que estão em jogo valores fundamentais da nossa essencialidade e não apenas aspectos de circunstância ou contingentes. Provavelmente, este período difícil irá aproximar a vida no alto futebol à realidade mais terrena das pessoas comuns e demonstrar que o realismo consistente não se compadece com um fosso entre o mundo de milhões e um mundo de tostões. O próximo mercado de transferências será o primeiro e claro sinal disso.
O próprio jornal A Bola, nestes dias, tem sabido espelhar, com mestria e sensibilidade, esta ideia de que o desporto não é um mundo à parte e que, pelo contrário, se insere na sociedade em todas as vertentes que possamos considerar, sejam éticas, sociais, sanitárias, económicas, comportamentais, culturais. Basta atenuar a impressivos títulos de algumas das últimas edições: Contas à vida ou O jogo das nossas vidas.
Sim, das nossas vidas num jogo traiçoeiro e difícil. Sem regras e regulamentos prévios. Com um calendário opaco. Mas com novos campeões nos escalões da deontologia, da ética, da prevenção, da solidariedade, do respeito pelo outro.
Tudo o resto virá depois. De um modo diferente. Com a lição registada e aprendida, espero.

3. Tenho lido, aqui e acolá, previsões, profecias, desejos mal dissimulados, manobras de pressão e de antecipação e torno da bola de cristal dos meses que se seguem à suspensão das provas desportivas. Percebo o vazio nas emoções que a ausência inédita de jogos desportivos provoca. Não há arbitragens como matéria-prima de análises, divergências e discussões. Não há VAR que nos valha para ficarmos intrigados com centímetros em versão somítica.
E, nos meses que virão, das duas, uma: ou haverá condições para se terminarem os campeonatos em tempo útil sem provocar danos na normalidade da próxima época, ou não haverá de todo. Se houver, devemos todos felicitarmo-nos. Primeiro, porque, no que mais nos interessa, é sinal de que haverá condições sanitárias para tal. Depois, porque, desportivamente, estarão garantidas as condições para classificações finais regulamentares e completas. Se não houver, não vale a pena forçar soluções mais ou menos (i)lógicas, enviesadas ou com mais ou menos clubite implícita. Como nada está previsto e regulado, qualquer saída é não só fabricada pós-acontecimentos, como aplicada com efeitos retroactivos, e sabemos, de antemão, que nenhuma terá um denominador comum de satisfação dos naturais interesses e posições dos clubes. Por exemplo, designar campeão um clube que está na frente quando há 30 pontos por disputar (29,4% do máximo teórico de 102 e 50% dos até agora 60 pontos conquistados pelo 1.º classificado), a que acresce a mínima diferença entre os dois da frente (1 ponto) não tem consistência desportiva de nenhuma espécie. Tal como considerar a classificação ao fim da primeira volta, pese embora esta ser a única medida disponível em que todos jogaram contra todos. Ou, até na versão mais patética, qual seja a de considerar os dois jogos já disputados entre os rivais, como todos ou outros clubes fossem verbos de encher.
Isto quanto a ser campeão da primeira divisão. E então quanto aos que descem? E aos que sobem? E os que caem no Campeonato de Portugal (3.º escalão)? E aos que estão em melhores condições para passar para a 2.ª divisão? E os que desceriam aos distritais? E os que nestes se consideram próximos de ascender a uma competição nacional? E na segunda divisão dos distritais (aqui, lembro-me do Clube de Futebol Os Belenenses que está em condições de subir mais um degrau da longa escadaria que ainda tem pela frente)?
Mais complicado é o acesso à Europa, caso não haja mais competições domésticas em 2019/2020. A primeira palavra é a da própria UEFA, que pode impor uma regra única e universal em tempo de excepção. Ou encontrar uma forma de formatar o próximo ano das competições europeias, de modo a abarcar mais clubes, em termos de razoabilidade no seu acesso (por exemplo, em Portugal, considerar o SLB e o FCP na Champions). Se não houver regras de fora, este é o único ponto que terá de ser definido mesmo com uma época sem classificação final. Qualquer expediente administrativo desenhado à força é bem pior do que a decisão em jogos a efectuar para este fim. Por exemplo, os dois jogos entre Benfica e Porto (para atribuir o lugar de acesso imediato), até poderiam ser a final da Taça e a Supertaça que será obrigatoriamente entre os mesmos clubes. Uma boa oportunidade, também, para testar jogos com árbitros estrangeiros. Já quanto à Liga Europa, talvez uma poule entre os cinco putativos candidatos a um lugar nesta competição.
Em resumo, muita água vai correr por debaixo da ponte. Aguardemos, na esperança - essa sim, determinante - de conseguirmos vencer o vírus, afinal o inimigo invisível e traiçoeiro de todos os benfiquistas, portistas, sportinguistas, bracarenses, vimaranentes e de todos os clubes.

4. Como, por agora, tenho mais tempo mental para remexer em textos perdidos no tempo, quero partilhar com os leitores um saboroso excerto de um livro do romancista, humorista e cronista brasileiros Luís Veríssimo, agora com 83 anos (filho do grande escritor Érico Veríssimo), em que me revejo na minha inalienável condição de benfiquista: «Só o futebol permite que você sinta aos 60 anos exactamente o que sentia aos 6. Todas as outras paixões infantis ou ficam sérias ou desaparecem, mas não há uma maneira adulta de ser apaixonado por futebol. Adulto seria largar a paixão e deixar para trás essas criancices: a devoção a um clube e ás suas cores como se fosse a nossa outra nação, o desconsolo ou a fúria assassina quando se perde, a exultação guerreira com a vitória. Você pode racionalizar a paixão, fazer teses sobre a bola, observações sociológicas sobre a massa ou poesia sobre o passe, mais é sempre fingimento. É só camuflagem. Dentro do mais teórico e distante analista e do mais engravatado cartola aproveitador existe uma criança pulando na arquibancada».
Já septuagenário, confirmo gostosamente e sem pestanejar: «Carrega Benfica do meu coração!»."

Bagão Félix, in A Bola

Lage amigo, Félix está contigo

"Um clube grande deve agir em função de políticas delineadas nos gabinetes e não de impulsos provocados pelo ruído das bancadas

Em Outubro de 2018, Domingos Soares de Oliveira, em conferência realizada em Londres, que o Benfica tinha identificado os princípios e os fundamentos para um plano a dez anos, com consequências nas mais diversas áreas, nomeadamente ao nível do futebol profissional e do que dele se pretende, quer no estilo de jogo, na identidade da equipa ou no perfil de jogadores. A estratégia está em marcha e já em Janeiro deste ano, na apresentação do projecto Benfica Play, o administrador executivo da SAD informou que o emblema exige hoje uma «capacidade financeira diferente» que lhe permite atacar o mercado também de «maneira diferente».
No discurso da abertura da gala do 116.º aniversário do clube, Luís Filipe Vieira destacou a firmeza de «uma rota estratégica de afirmação de instituição em Portugal e no Mundo» e realçou a estabilidade financeira como base essencial para o salto qualitativo que a sua administração pretende dar e que lhe permitirá encarar o futuro com confiança e ambição, por ser o Benfica a maior marca portuguesa.
Ainda neste mês de Março, foram divulgados os resultados financeiros do segundo semestre de 2019/2020 (entre Julho e Dezembro do ano passado) e que apresentam um resultado líquido superior e cem milhões de euros (104.2 milhões). Já em período de emergência nacional, Luís Filipe Vieira comunicou a doação de um milhão de euros para aquisição de equipamento diverso em benefício do Serviço Nacional de Saúde, numa acção conjunta com a Câmara Municipal de Lisboa e a Universidade de Lisboa. «O nosso clube sempre foi popular, do povo e muito difícil», sublinhou, em declarações à televisão do clube.

sólidos motivos, portanto, para considerar que o Benfica é demasiado grande para Portugal, como fez Domingos Soares de Oliveira em entrevista à agência espanhola EFE, ou proclamar que está muito avançado em relação à comunidade em que está inserido, como não se cansa de repetir Luís Filipe Vieira.
Do meu ponto de vista ambos têm razão: o Benfica é proprietário de um património fantástico que inclui uma academia com centro de treinos sem comparação, ao nível do que de melhor se observa n mundo. Adquiriu riqueza e estabilidade. Estabeleceu um plano de longo prazo e definiu uma estratégia. Além de tudo isto, é o emblema que soma mais Campeonatos e mais Taças de Portugal e, ainda, o que mais prestígio internacional detém em todos os continentes.
O que lhe falta, então? Recuperar a hegemonia, temporariamente perdida para o FC Porto, que se aproveitou, e bem, da sucessão de gestões irresponsáveis que empurraram o Benfica para a ruína. Não me ocorre outro termo para classificar a situação quando Manuel Vilarinho despachou Vale e Azevedo e Luís Filipe Vieira aceitou a empreitada de devolver a dignidade a uma águia sem forças para resistir a tantos vilipêndios.
Já muito se fez nesse sentido. Nos últimos dez anos o Benfica conquistou seis Campeonatos e o FC Porto quatro e nos últimos seis anos passou de seis títulos para a águia a um para o dragão. A recuperação avança, depressa, mas não à velocidade que os associados desejariam, o que é normal, embora insignificante para colocar em causa o que quer que seja.

Com o título por decidir, apesar da desvantagem de um ponto, compreendo mal a fragilidade da posição a que Bruno Lage tem sido exposto, estranhamente sem uma reacção ou esclarecimento de quem deveria ter essa incumbência. Prescindir de um treinador com um ano de trabalho e que apresenta 86% de vitórias no Campeonato, em comparação com os 69% do fabuloso Klopp na Premier League, como li em A Bola, devido a um mês mau, não me parece de acordo com o estatuto de um clube grande que deve agir em função de políticas delineadas nos gabinetes e não de impulsos provocados pelo ruído das bancadas.
Escreve o jornalista Paulo Alves que em 14 meses como treinador principal, em 43 jogos, Lage regista 37 vitórias, três empates e três derrotas. Em 129 pontos possíveis amealhou 114 e a equipa marcou 124 golos (m´dia de 2,88 por jogo). Números são números e estes não enganam, assim como não deve enganar a opinião do geniozinho João Félix: «O Benfica tem um treinador competente, um treinador sempre atento a todos os detalhes, tem uma estrutura humana e condições de trabalho como poucos clubes do mundo e tem ainda um plantel recheado de bons jogadores. A soma de tudo isto resulta numa fórmula vencedora».
É simpático e amigo o «miúdo», como lhe chamou Lage. Ele e Jonas, quando as dores das constas lho permitiram, apenas em meia época, valeram ao Benfica, no Campeonato, 26 golos. Eis a diferença. Ainda não tinham reparado?...
À parte esse significativo pormenor, é deixar de inventar em jogadores fora de prazo (Taarabt) ou de duvidosa classe (Chiquinho) e recomendar a Bruno Lage que se concentre no ensinamento de Sven-Goran Eriksson: «(o Benfica) é um clube tão grande, em Portugal e na Europa, que não ganhar é um falhanço. Um segundo lugar não é nada»."

Fernando Guerra, in A Bola

Fazer tudo para salvar os campeonatos

"O senso comum sugere que as crises são 'oportunidades' e que correspondem a 'tempos interessantes'. Dois pressupostos equívocos as crises trazem empobrecimento e a história ensina-nos que quando empobrecemos não empobrecemos todos da mesma forma. Quem à partida já tinha dificuldades, sofrerá muito mais do quem tinha algum conforto. Não há nada de interessante neste processo e o mundo do futebol não é excepção: será afectado de forma desigual, consoante o contexto de partida.
Num primeiro momento da crise do coronavírus, a questão suscitada era como apurar o campeão nacional. Um tema marginal hoje e que até se pode resolver, mas que passa ao lado do essencial. Se ficar resolvida a excelsa questão do apuramento de campeões nacionais, persistirão problemas bem mais sérios para a sustentabilidade das competições domésticas, em particular de ligas semiperiféricas com a portuguesa. Caso a crise dure alguns meses, mesmo que se resolvam os campeonatos, os danos económicos e financeiros serão difíceis de reparar.
E este deveria ser o cenário no centro das preocupações de todos os agentes do sector: com ou sem campeões em 2019/20, procurar garantir condições mínimas para termos campeonatos financeiramente viáveis e competitivos na próxima temporada. Se passarem alguns meses nas actuais circunstâncias, o fosso entre clubes grandes e financeiramente robustos e os restantes acentuar-se-á, com um resultado agregado que será danoso para todos. Para os clubes portugueses, o tema é particularmente agudo.
Há hoje um paradoxo no futebol europeu. O enraizamento social dos clubes e da massa adepta é nacional (somos do Benfica, do Porto ou do Sporting em importante medida por força da rivalidade com outros clubes portugueses e não propriamente por gostarmos de eliminar clubes turcos, alemães ou ingleses), mas parte importante das receitas financeiras é europeia. Ao mesmo tempo, as dificuldades financeiras dos clubes coexistem com uma estrutura da UEFA cada vez mais próspera. A crise só acentuará este dualismo.
É por isso fundamental que neste momento, uma estrutura capitalizada como a UEFA faça tudo ao seu alcance para salvar o futebol europeu. Isso implica distribuir dinheiro não apenas pelos clubes que se qualificam para a Champions mas por todos os outros clubes que competem com estes. Se isso não acontecer, o nível de desequilíbrio interno das Ligas nacionais (entre clubes que sobreviveram porque estão nas competições da UEFA e os restantes, amarados a Ligas nacionais em recessão) será de tal ordem, que a crise será de facto uma oportunidade. Mas uma oportunidade para aqueles que há muito desejam criar uma superliga europeia, apenas com os clubes mais ricos dos campeonatos mais poderosos. Se a UEFA não contribuir para resgatar financeiramente os clubes das competições profissionais nacionais, os campeonatos nacionais serão derrotados e a superliga tornar-se-á uma inevitabilidade."

Cadomblé do Vata (Imerecido...)



"Taça dos Clubes Vencedores das Taças 93/94 - Meias Finais - 29/03/1994 - Estádio da Luz 
SL Benfica 2-1 Parma FC
1. Os pais do Rui Costa são mineiros?... é que o puto vale ouro.
2. Quando quiserem prolongar as linhas do metro de Lisboa, falem com o Rui Costa... viram como abriu aquela cratera na defesa parmegiana no lance do primeiro golo?
3. Isaías isolado e na cara do golo, podia ter apenas desviado de Bucci mas preferiu atirar um míssil para o fundo da rede... se numa luta vocês tiverem uma bazuca na mão, de certeza que não vão tentar ferir o inimigo com um capa grilos.
4. Tino Asprilla cometeu o penalty que podia ter dado o 3-1 a favor do SL Benfica... Desatino Heynemann não lhe mostrou o óbvio segundo amarelo que podia ter dado superioridade numérica ao Glorioso.
5. Luca Bucci juntou-se a Navarro Montoya e Jorge Campo no clube dos "Guarda Redes Com Camisolas Patetas"... parece que estivemos 90 minutos a rematar contra um pacote de leite.
Publiquei sem ver o video. É a segunda parte e a repetição da segunda parte.Olhem... paciência..."

#BenficaEmCasa

Mensagem da directora do Benfica Olímpico, Ana Oliveira

"Liderança, disciplina... Vacina!
O mundo mudou em alguns meses. Este é o tempo para sermos ainda mais racionais e menos emocionais. Juntos, seguimos o caminho certo!
Numa Missão Portuguesa que possivelmente previa uma participação olímpica entre 70 a 90 atletas nacionais, o Sport Lisboa e Benfica integrou no seu projecto 36 atletas (18 do atletismo, um do taekwondo, três da natação, cinco do judo, cinco da canoagem e quatro do triatlo). Até meados de Março, perto de metade do "Benfica Olímpico" estava em posição de apuramento.
Os restantes atletas, de acordo com os respectivos critérios, continuavam empenhados em chegar a Tóquio, percurso que, entretanto, foi interrompido pela pandemia e coerente cancelamento das competições nacionais e internacionais. Mas falta cancelar a mais importante: os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, calendarizados para o período entre 24 de Julho e 9 de Agosto.
A pressão dos diferentes comités nacionais sobre o Comité Olímpico Internacional (COI) tem sido evidente, já com alguns países a informarem que não participarão e outros, como o nosso, o Comité Olímpico de Portugal, a tomar posição e a solicitar ao COI o urgente adiamento do evento, porque esta indecisão tem motivado uma acentuada instabilidade e pressão sobre os atletas e as equipas em todo o mundo.
Resultado de uma direcção e liderança "à Benfica", multidisciplinar, informada, esclarecida e preocupada que nos informa, orienta e protege, todos continuamos em casa e de quarentena, desde o dia 12. Estamos gratos por isso! Mais unidos e solidários que nunca, os atletas, também os residentes em centros de estágio ou residentes no estrangeiro, regressaram para junto das suas famílias e desde então, através de um contacto permanente com a Direcção dos Recursos Humanos (DRH) e a Human Performance Department (HPD) do Benfica, têm recebido um apoio incondicional das nossas equipas multidisciplinares.
E não apenas através de aconselhamentos e indicações clínicas e sociais recomendadas e a cumprir, como também dos treinadores e fisioterapeutas, ao receberem planos de treino e de recuperação adaptados, o aconselhamento da área da nutrição e ainda, sempre que necessário, o respectivo aconselhamento individual psicológico.
Na sequência, todos também temos recebido as indicações do IPDJ e das federações das diversas modalidades.
As instalações desportivas estatais, municipais e privadas estão encerradas por tempo indeterminado e nas suas residências ou na proximidade das mesmas, “explorando” geograficamente a natureza, mas sempre individualmente e em segurança, alguns atletas têm procurado manter de alguma forma os mínimos de uma condição física, que será sempre desajustada às suas necessidades.
Por outro lado, nem todos os atletas desfrutam da mesma oportunidade neste aspecto, não apenas pelas características da zona onde habitam como também pelas necessidades e características específicas da sua modalidade.
O IPDJ em conjunto com as respectivas federações trabalham e planeiam soluções que possam abranger os atletas de alta competição em Portugal. Mas quando, como e para quem especificamente?
Há países e federações, como por exemplo a China, que estão a revelar a capacidade de manter as suas equipas Olímpicas e atletas de alta competição em actividade e próximo da normalidade, mas definitivamente em condições muito especiais, com equipas multidisciplinares que actuam em circunstâncias de isolamento e segurança total.
Para já, o mais importante é continuarmos todos seguros e protegidos, e para isso é determinante mantermo-nos unidos e bem informados, assim como “comandados” através de uma liderança democraticamente eleita, para que juntos possamos fortificar a nossa disciplina e aguardar pela tal vacina para a COVID-19, que nos poderá libertar de novo para um mundo que, para o bem ou para o mal, dificilmente voltará a ser igual.

Ana Oliveira"