Últimas indefectivações

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O ataque do Benfica

"Quando no final da temporada passada, em entrevista à BTV, Rui Vitória avisou que estava "a pensar nalgumas mudanças tácticas e na forma de jogar", houve quem especulasse que o Benfica estaria a ponderar um sistema alternativo ao predominante nos últimos oito anos. Se se atentasse nas restantes palavras do treinador, percebia-se que não era o caso. Vitória sublinhava: "Há espaço para evolução, mas ela está dependente de eventuais saídas de jogadores-chave. Uma coisa é ter um lateral que entra na área, outra é ter um que só faz jogo por fora. Uma coisa é ter o Jonas ou actuar sem ele." Estava dado o mote e a sugestão era que, mais do que uma mudança de sistema, o Benfica iniciaria 2017/18 com variações no mesmo sistema.
Em parte isto aconteceria por força da saída de jogadores. Sem Nélson e Grimaldo, o Benfica perde profundidade nas alas e as trocas entre alas e laterais (com estes a procurarem o jogo interior) deixam de ser tão frequentes. É por isso que a saída de Nélson e as lesões constantes de Grimaldo implicam menos com a organização defensiva do Benfica do que com a forma como a equipa ataca.
Ainda assim, como se tem visto, o fundamental são as alterações no ataque.
Recuemos até à época passada. Uma das fragilidades do futebol do Benfica era a organização ofensiva. Escrito assim, parece estranho. Afinal a equipa foi campeã e marcou 72 golos. Mas, como foi muitas vezes dito, o Benfica era Pizzidependente (e continua a ser) e, mais relevante, a equipa tinha poucas variações na forma como saía a atacar. Muito por força das características dos avançados (e pela ausência frequente de Jonas), Pizzi estava, quase sempre, obrigado às mesmas jogadas. O que permitia aos adversários anular, em muitos momentos, a equipa encarnada.
Quatro jogos oficiais esta temporada permitem, já, tirar algumas ilações: o Benfica é, hoje, uma equipa mais versátil a atacar e, à terceira época como treinador, nunca a equipa comandada por Rui Vitória jogou um futebol tão envolvente e com tantas variações. Os cépticos em relação à qualidade do futebol de Rui Vitória podem bem ter perdido as reservas e os (poucos) nostálgicos da dinâmica avassaladora de Jorge Jesus devem ter desaparecido.
Os números falam por si. Quatro jogos oficiais, quatro vitórias e 12 golos marcados. Mas os números não revelam tudo. O que faz a diferença é que, muito pela contribuição do avançado quatro em um que é Seferovic (fixa, dá profundidade, constrói e finaliza), o Benfica ganhou mobilidade no ataque e agressividade. Esta mudança permitiu a Jonas e a Pizzi disporem de mais soluções em organização ofensiva, tornando o futebol do Benfica mais ligado em zonas interiores mais adiantadas do campo. Já em transição, com um movimento característico do suíço – que encosta aos centrais para logo depois surgir a explorar a profundidade nas costas da defesa –, não apenas Pizzi pode explorar lançamentos verticais (o que tinha deixado de ser possível com a saída de Guedes), como as defesas adversárias serão obrigadas a jogar mais recuadas (por terem dificuldades a defender este movimento).
Talvez não seja prematuro dizer que, com uma pequena variação de sistema, o Benfica tornou-se mais forte e estará sempre mais perto das vitórias. Pelo caminho, a equipa entusiasma (ainda) mais."

Investimento vs. Competição

"Tendo abordado as "loucuras" cometidas no mercado de transferências e os perigos que o actual sistema comporta para o futuro da modalidade, destaco os investimentos no futebol e a repartição entre os seus intervenientes, geradora de lutas desiguais entre aqueles que competem por títulos e os que competem pela sobrevivência económica e desportiva.
É sabido que o desporto, enquanto sector de actividade, não pode subsistir sem equilíbrios traduzidos na imprevisibilidade nos resultados, pelo que os agentes desportivos têm uma responsabilidade acrescida na gestão que realizam. Em Portugal, o ambiente está longe de ser propício a uma reflexão sobre medidas que reforcem a igualdade entre os competidores.
Além disso, a indústria promove o jogador de futebol como um produto, prosperando o individualismo e agudizando as diferenças entre os rendimentos auferidos.
Remando contra a maré, no campo da responsabilidade social os jogadores com maior capacidade financeira têm revelado consciência da posição que ocupam e vontade de fazer a diferença. São inúmeros os casos de solidariedade de jogadores portugueses, que enobrecem a classe e o país, mas recentemente mereceu destaque a iniciativa do espanhol Juan Mata, que doará 1% do salário a causas sociais, seguida por Mats Hummels, com o intuito de mobilizar toda a classe.
A solidariedade e o apoio a causas sociais são um dos grandes benefícios trazidos pelo sucesso da modalidade, mas é preciso fazer mais na relação entre os pares. Mecanismos que garantam o cumprimento das condições contratuais, a protecção no desemprego e na doença ou sustentabilidade no pós-carreira, são desejáveis e possíveis através de um esforço conjunto. É preciso fazer muito mais nesta matéria.
Devemos pensar o futuro da modalidade e a sustentabilidade do jogo, como um dever de todos os agentes envolvidos no fenómeno."

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Ângelo-de-toda-a-parte!

"Há jogadores com nomes dourados. Há outros com nomes metafísicos. Este era o jogador do nome empírico, correndo continuadamente ao ritmo impassível do coração.

Comentava alguém, outro dia: «O Ângelo está doente...» Não sei. Mas desde logo não acreditei. O Ângelo nunca está doente. O Ângelo é o contrário de estar doente.
Vejam bem o Ângelo - cinco réis de gente, alma do tamanho do mundo! Assim mesmo, com ponto de exclamação.
A malta dizia: «Ah! O Ângelo!»
Ficava o som da expressão.
Era o Ângelo e não havia outro, acima e abaixo, dentes cerrados, uma vontade sem limites.
O Ângelo campeão da Europa do Benfica campeão da Europa.
Depois outros o conheceram, como treinador da miudagem, como detector de talentos.
Mas eu hoje, aqui, queria falar do Ângelo do corre-corre-corre-sem-nunca-parar. Parecia um boneco de pilha. Ou melhor: um cavalinho de carrossel.
Há jogadores com nomes dourados.
Há jogadores com nomes metafísicos.
O Ângelo tem um nome empírico.
Um dia contou ele, foi enganado por um dirigente do FC Porto e assinou um contrato com os azuis e brancos, ele que já tinha outro assinado com o Académico do Porto.
Irradiado! Não se fazia por menos.
O Benfica salvou-o. E ele foi o Ângelo do Benfica e à Benfica.

Nunca se negou!
Nos anos 50 ainda ecoava o som dos Cinco Violinos do Sporting.
Era um som doce, que encantava as almas.
Depois veio o Benfica da Taça Latina, e um mundo de garra e ambição e luta continua e continuada, sempre de quebrar mas nunca torcer, e os nomes novos saltaram para as páginas dos jornais, para os comentários de rua, para as conversas de café: havia o Águas, o Rogério Pipi, o Félix, o Corona, o Arsénio.
Depois começou também a haver o Ângelo.
Era o Ângelo na direita, à frente. Depois recuado. Depois à esquerda.
Ângelo-de-toda-a-parte!
Ângelo Gaspar Martins, nascido no Porto em Abril de 1930.
Ele atravessou a década, sempre no seu estilo único, no seu jeito incontrolável, na sua tocante dignidade modesta.
Era uma imagem de cada minuto durar noventa minutos. Noventa minutos vezes noventa minutos. Os jogos podiam parecer impossíveis, infinitos, irrecuperáveis. Mas essa era a teoria que a prática desmentia.
Havia sempre o encarnado suado da camisola. O peso do emblema sobre o coração. E aí o Ângelo era grande, muito mais alto do que o seu metro e setenta e cinco deixava desconfiar.
Ah! E por dentro?
Naquele lugar em que a alma se mistura com os pulmões e a batida cardíaca se eleva ao ritmo inigualável da paixão.
Não. O Ângelo não cai. O Ângelo não se verga.
Continua para toda a eternidade com o seu nome empírico de herói de pedra. Uma estátua que se move à velocidade de uma inquieta exaltação. Sem intervalos o esforço.
O Ângelo nunca se nega!"

Afonso de Melo, in O Benfica

Fábio Neto

Alvorada... com o Pedrito!

As redes sociais matam o futebol

"Mas perante tanto incitamento implícito à violência, pergunto a mim próprio o que faz o Ministério Público? Assobia para o lado, fingindo que não vê – só pode! Tanta gente conhecida a despejar verborreia nas redes sociais sempre de forma impune, talvez a coberto das regras de que no futebol tudo vale, sinceramente impressiona.

Ainda se disputaram apenas três jornadas deste campeonato e, nas redes sociais, o barulho já é ensurdecedor. O videoárbitro é elogiado ou criticado até à exaustão consoante as decisões, sempre com insultos soezes à mistura, consoante favorece ou não favorece os nossos ou os adversários. Muitos destes perfis são falsos e a coberto do anonimato truncam-se nomes, insultam-se adversários, comparam-se decisões com casos passados. Mas, a mim, o que mais me impressiona é ver antigos dirigentes, e que penso almejarem voltar ao dirigismo, copiar nos seus perfis pessoais do Facebook essas boçalidades, julgando assim defender o seu clube contra os inimigos (nunca apenas rivais), sobretudo nunca percebendo a baixeza moral dos seus comportamentos.
Sei que não vou mudar o mundo, muito menos o pretendo. Mas perante tanto incitamento implícito à violência, pergunto a mim próprio o que faz o Ministério Público? Assobia para o lado, fingindo que não vê – só pode! Tanta gente conhecida a despejar verborreia nas redes sociais sempre de forma impune, talvez a coberto das regras de que no futebol tudo vale, sinceramente impressiona. Se um destes dias agredirem árbitros ou familiares, eu pergunto se ninguém terá coragem para ir ao cerne da questão: perceber e imputar criminalmente quem contribuiu, por acção, para estes desfechos. 
Recordam-se do caso do adepto italiano da Fiorentina e do Sporting morto há meses junto ao Estádio da Luz? É ou não verdade que houve convocações nas redes sociais para os confrontos nessa noite, como foi referido até à exaustão? Se sim, que fez o Ministério Público? Ou condena-se apenas o condutor, esquecendo todos os outros que gratuitamente contribuíram para o ambiente de violência ali registado? Em Inglaterra, os hooligans foram combatidos. Em Portugal, afinal, que esperamos?"

O ardina olímpico que ganhou a lotaria e fundou o Record

"Manuel Dias chegou a estar em 2.º lugar na maratona de Berlim, mas os sapatos de ginástica trocaram-lhe as voltas.

'Rapaz simples', 'franzino' e 'bem-disposto', era assim que Manuel Dias era conhecido nas pistas onde corria e nas ruelas da cidade. De manhã, bem cedo, era comum vê-lo subir os degraus das Escadinhas do Duque, dois a dois, com o saco de jornais pendurado no ombro. O ardina tinha no atletismo a sua grande paixão.
Começou a correr aos 14 anos, em 1918, e ingressou no Benfica em 1932, onde se notabilizou como um dos mais extraordinários fundistas mundiais. Perseguiu sempre o sonho de se tornar atleta olímpico e em 1936, finalmente, concretizou-o. Venceu a Maratona Nacional e qualificou-se para os polémicos Jogos Olímpicos de Berlim, os primeiros a serem transmitidos na televisão.
O tiro de partida foi dado a 9 de Agosto sob o olhar atento de Adolf Hitler, que usou os Jogos para fazer propaganda do império que estava a desenvolver, e das 100 mil pessoas que preenchiam as bancadas do Estádio de Berlim. À frente do pelotão de 56 atletas seguia o argentino Zabala, vencedor daquela prova em 1932, e logo atrás Manuel Dias. Assim foi até aos 24 Km, altura em que o português começou a ceder, vítima do seu entusiasmo inicial e... dos sapatos.
Manuel fez a primeira parte da prova com umas sapatilhas de que tinha 'uns sapatos pesadíssimo, de sola de ferro' que, curiosamente, lhe deram asas: 'Ultrapassei muitos, talvez uns cem'. Continuou com um andamento inigualável e, mesmo com os pés em bolha, terminou num honroso 17.ª lugar, à frente de famosos campeões americanos, dinamarqueses, belgas e alemães.
Anos mais tarde, já reformado das pistas e dedicado ao negócio da venda de jornais, tentou a sorte na Lotaria Nacional e viu-se contemplado com um prémio de 40 contos! Com o dinheiro juntou as suas grandes paixões, o desporto e os jornais, e fundou um jornal desportivo. Nascia, assim, o jornal Record.
Pode saber mais sobre o percurso deste maratonista na área 3 - Orgulho ecléctico, no Museu Benfica - Cosme Damião."

Marisa Furtado, in O Benfica

Benfiquismo (DLXIII)

O mago do drible,
com alguma dificuldade na barba!!!

Época... festa do golo!

As Regras dos Jogos... Túneis, TAD & SAD vs. Clube de Belém...

Lixívia 3

Tabela Anti-Lixívia
Benfica.......... 9 (0) = 9
Corruptos..... 9 (0) = 9
Sporting........ 9 (+2) = 7


Jornada relativamente calma... com alguns erros mas sem influências nos resultados!

Começo pela 'entrada' do Eliseu: não foi tão maldosa como alguns quiseram 'pintar', mas era para Vermelho (com 3-0 para o Benfica... e com pouco mais de 30 minutos para jogar). O Eliseu quis fazer uma 'parede' com as pernas, o adversário em vez de esticar-se, entrou de carrinho, e o Eliseu 'caiu' em cima dele... Importante, mesmo sem ilibar o 'vermelho' foi o facto do Eliseu ao sentir o contacto, ter 'retirado' os pés, não 'ferrou' os pitõns, como alguns fazem...!
Esta é uma daquelas jogadas, onde o VAR pode actuar... mas como nós já percebemos o VAR em Portugal só vai 'agir' em situações super-flagrantes... em questões de intensidade e intenção, o VAR vai ficar 'mudo'!!!
O facto do Eliseu 'merecer' Vermelho, não 'desculpa' o facto de mais uma vez um 'suposto' beneficio ao Benfica ter sido explorado pela 'cartilha' da Santa Aliança, quando uma situações idêntica, como a expulsão perdoada ao Filipe a semana passada, foi praticamente 'esquecida', por todos...
O resto do jogo, não teve muitos potenciais 'casos', só destaco mais uma vez, o facto de só ter sido mostrado 1 Amarelo!!! O critério nos jogos do Benfica tem sido 'minimalista', em três jogos, os nossos adversários um total de 5 Amarelos, sendo que 3 foram no jogo com o Braga...! Com este critério, o recorde dos jogos em jogar em superioridade numérica vai continuar a crescer...!!!

Em Guimarães, os Lagartos encontraram um adversário dizimado com castigos (o do Josué injusto), lesões... e uma Direcção que está à espera dos 'dispensados' dos grandes, para compor o plantel!
Houve dois lances na área do Sporting, que com o critério do Paixão até poderiam ser penalty contra os Lagartos... mas de facto não foram!

O sócio dos Corruptos, anti-benfiquismo primário Manuel Oliveira, teve uma tarde tranquila apitando a sua equipa!!!
O penalty sobre o Corona existiu... o toque na perna é visível na repetição, mas no meio daquela 'molhada' nem o Manel teve coragem de marcar... e ainda por cima os Corruptos já ganhavam por 2-0...
O VAR aqui, deveria ter actuado...
Tal como devia ter actuado, após a cotovelada do Mini... Mais um Vermelho directo perdoado a um jogador Corrupto, mais ou menos no mesmo minuto do lance do Eliseu, mas só estava 2-0...
Recordo que o Filipe devia ter sido expulso em Tondela, e assim deveria ter faltado este jogo.

Uma nota sobre o 'caso' do Setúbal-Chaves: boa decisão do Manuel Mota, com a ajuda do VAR... o parvo do Paciência fez mesmo uma falta ofensiva, completamente desnecessária, antes daquilo que seria um penalty descaradíssimo a favor do Setúbal... Vamos ver se o critério se mantém!

Anexos:
Benfica
1.ª-Braga(c), V(3-1), Xistra (Verissímo), Prejudicados, (4-1), Sem influência no resultado
2.ª-Chaves(f), V(0-1), Sousa (Tiago Martins), Prejudicados, (0-3), Sem influência no resultado
3.ª-Belenenses(c), V(5-0), Rui Costa (Vasco Santos), Beneficiados, Sem influência no resultado

Sporting
1.ª-Aves(f), V(0-2), Tiago Martins (Pinheiro), Nada a assinalar
2.ª-Setúbal(c), V(1-0), Paixão (Hugo Miguel), Beneficiados, (0-0), (+2 pontos)
3.ª-Guimarães(f), V(0-5), Hugo Miguel (Sousa), Nada a assinalar

Corruptos
1.ª-Estoril(c), V(4-0), Hugo Miguel (Luís Ferreira), Nada a assinalar
2.ª-Tondela(f), V(0-1), Veríssimo (Malheiro), Beneficiados, Impossível contabilizar
3.ª-Moreirense(c), V(3-0), Oliveira (Tiago Martins), Prejudicados, Beneficiados, Sem influência no resultado

Jornadas anteriores:
Épocas anteriores:
2016-2017
2015-2016

Benfica, FC Porto e Sporting colados, e a dar bons sinais

"Os verdadeiros testes estão para chegar, até para a classe média do futebol português.

Os três grandes não venciam em simultâneo nas três primeiras jornadas da Liga desde 1994-95. A primeira conclusão, e talvez a mais simplista, a retirar é que Benfica, FC Porto e Sporting começaram focados e dispostos a lutar até à exaustão por cada ponto em disputa, esperando um campeonato muito equilibrado até final. Acredito que em parte seja isso.
Há que acrescentar que Benfica e FC Porto disputaram dois dos três encontros em casa. O Sporting, pelo contrário, saiu por duas vezes de Alvalade. O saldo é amplamente positivo também nos golos, todos com uma diferença de oito (9-1 nos encarnados; 8-0 em dragões e leões). Nunca é de mais, no entanto, lembrar que ainda estamos em Agosto, e os verdadeiros testes ainda estarão para chegar.
É verdade que o Sporting já passou, e com nota alta, em Guimarães, mas até pelo momento que a equipa de Pedro Martins atravessa é necessário ter algumas cautelas nas análises. O mesmo se pode dizer do Benfica, quando olhada a falta de consolidação ainda do Sp. Braga quando visitou a Luz. Há, contudo, bons sinais em cada um dos candidatos e haverá jogos mais complicados, talvez até já na próxima jornada, e convém não esquecer que os jogos europeus poderão tornar-se parte importante da equação. A resposta aos momentos menos bons será, como sempre, uma das chaves do sucesso, e para já é tudo ainda muito cor de rosa.
Veja-se o calendário do FC Porto, por exemplo, que para já respira uma enorme confiança. Braga, Vila do Conde, Alvalade e Bessa são as próximas deslocações de um grupo que se apresenta a meio de uma dieta rigorosa (talvez até em excesso). O mesmo se pode dizer do Benfica – que também anda em tempo de poupança, apesar do número também excessivo de jogadores que apresenta no plantel – e vai ter pela frente Vila do Conde, onde mora um Rio Ave bem interessante – Bessa, Barreiros, Vila das Aves e Guimarães. O Sporting, mais definido em termos de equipa, embora sujeito ao mercado, enfrentará uma aparente fase de acalmia até ao clássico com os dragões, apesar da recepção a um Estoril moralizado e das viagens até à Feira e Moreira de Cónegos.
Os bons sinais são vários. Primeiro uma mudança de energia e dinâmica no Dragão, trazida por Sérgio Conceição, que tem conseguido vencer os jogos com relativa facilidade e reunir os adeptos à volta da equipa. Se o processo de transição defensiva ainda não é perfeito, sobretudo quando ultrapassada a primeira zona de pressão, bem alta e agressiva, mas ainda um pouco sôfrega, a verdade é que Casillas não sofreu golos e há muito tempo para melhorar. Registe-se ainda a inteligência acrescentada com a aposta definitiva em Óliver Torres, e um Aboubakar a reencontrar-se com os seus melhores momentos, a fazer lembrar os primeiros tempos no Dragão. Nem foi preciso recorrer a muito de Brahimi na última partida, mas o argelino também andou com problemas físicos durante a semana.
Em Alvalade, começam a vislumbrar-se melhorias na estabilidade defensiva, e sobretudo no processo de construção, com algumas ideias para combater a falta de jogo interior. Bruno Fernandes assume-se cada vez mais como claro candidato ao onze, seja na posição 8 ou na de segundo avançado, aqui sobretudo em encontros em que se espera maiores dificuldades, fora de casa ou mesmo na Liga dos Campeões. O médio é claramente um jogador acima da média. Inteligente no toque e no posicionamento, muito maduro e explosivo no remate, é candidato sério a ser uma das figuras do campeonato. Boa resposta às dúvidas sobre a condição física deu também Fábio Coentrão, com um belo jogo na Cidade-berço. E há ainda Dost, Gelson, Acuña, Adrien a poder ainda melhorar, o que faz com o que o Sporting pareça ter muito por onde crescer. 
Na Luz, sublinha-se o tridente Pizzi-Jonas-Seferovic, a começar a época a todo o gás. Os encarnados mostram, para já, o processo mais evoluído de construção, o que não significa necessariamente que acabe por ser, no fim, o mais eficaz. Para já, os nove golos marcados dão-lhe razão, mas o que desperdiçou em Chaves, e face ao natural decréscimo do número de oportunidades de golo criadas em jogos fora de casa, obrigam a revisão. Também a defesa continuará a merecer cuidados, sobretudo quando continuam a verificar-se tantas alterações de jogo para jogo – a época volta a começar com um grande número de jogadores lesionados.
Sinais positivos óbvios também para o Rio Ave, não afectado para já pela mudança de treinador, mantendo uma filosofia de posse de bola e jogo coletivo e criativo, e que promete complicar já a seguir a vida do campeão. Também o Sp. Braga parece finalmente dar sinais de crescimento, apesar de outra ou outra perda de mercado, precisamente antes da visita do FC Porto. Testes para os candidatos ao título, mas também para a atual classe média do futebol português.
Há um Marítimo a continuar forte nos Barreiros e um Estoril a entrar na época com um rendimento semelhante àquele com que terminou a última. Sinais da qualidade dos trabalhos de Daniel Ramos e Pedro Emanuel, nos últimos dois casos. Aos canarinhos também chega visita delicada, a Alvalade. 

P.S. Uma mensagem de parabéns atrasados para Inês Henriques pelo título mundial nos 50km marcha, e por mais uma medalha de Nélson Évora no triplo salto. O atletismo português continua a mostrar superação e sinais de saúde."

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

As maçãs podres

"Se o braço-de-ferro de Bruno de Carvalho com os clubes interessados em William e Adrien inviabilizar as transferências, o Sporting vai ter um grave problema a resolver

No sábado de manhã, Jorge Jesus estava sob uma pressão brutal. A imprensa dizia que o seu lugar estava em risco se não ganhasse nesse dia em Guimarães e depois em Bucareste. E não eram tarefas fáceis.
Ora, o primeiro jogo já foi ganho – e brilhantemente –, esperando-se agora pelo segundo.
A equipa do Sporting emite sinais contraditórios. Tanto se vê em tremendas dificuldades para marcar um golo ao Vitória de Setúbal em Alvalade como marca cinco com a maior facilidade em Guimarães. Tanto parece jogar em esforço, atabalhoadamente, como pratica um futebol com “nota artística”.
Para este “carrossel” também concorrerão responsabilidades próprias. O principal inimigo do Sporting mora em… Alvalade. O presidente Bruno de Carvalho dá mostras de uma gritante imaturidade e a sua conduta errática transmite-se à equipa. O Sporting tem um bom treinador, tem bons jogadores, faltando-lhe apenas a estabilidade emocional que só o presidente pode dar. E não tem dado.
Isso revela-se em todas as áreas. Neste momento, o clube já devia ter resolvido os casos de William Carvalho e Adrien Silva. O primeiro já não joga (e parece que nem treina) e a sua presença em Alvalade só prejudica o ambiente. E o segundo, que gostaria de ter saído há um ano, ainda treina e ainda joga, mas vê-se que tem metade da cabeça no estrangeiro.
Se o braço-de-ferro de Bruno de Carvalho com os clubes interessados em William e Adrien inviabilizar as transferências, o Sporting vai ter um grave problema a resolver. Não encaixará os 55 milhões que eles poderão valer em conjunto e terá no balneário duas maçãs podres.
Não está em causa o valor dos jogadores nem o seu profissionalismo. Mas já se viu que eles querem experimentar outros voos – e, se ficarem, ficam contrariados. Ora, um jogador contrariado, por mais que se empenhe, não rende.
Julgo, aliás, que ambos deviam ter sido vendidos no rescaldo do Europeu – altura em que estavam mais valorizados. A sua continuidade em Alvalade não adiantou nada, como se viu pelo 3.o lugar do Sporting no campeonato. Contrariamente à maioria dos comentadores, penso mesmo que a presença de William e Adrien na equipa da época passada até a prejudicou. Em minha opinião, o grande problema do Sporting não esteve na defesa nem no ataque – esteve no meio-campo. E o meio-campo era formado por William Carvalho e Adrien Silva…
É urgente que o Sporting resolva esta questão, que tende a constituir--se num abcesso infectado. Quanto ao resto, se o clube passar à fase de grupos da Champions, dará um importante passo para fazer uma grande época. Mas para isso acontecer é indispensável que Bruno de Carvalho se torne um factor de estabilidade e não de perturbação. Talvez o castigo de que foi alvo – e que o afastará da equipa – acabe por ser benéfico."


PS: A importância desta crónica, está no facto do autor ser um Jesuíta convicto, amigo intimo... e normalmente ser uma das vias que o treinador Lagarto usa, para falar, sem abrir a boca!!!

'Grandes' que são gigantes em Lilliput

"Lembrar o 'enorme' José Neves de Sousa através de uma imagem que costumava usar e nos remetia para Swift, Gulliver e Lilliput.

As vitórias fáceis de Benfica, Sporting e FC Porto na terceira jornada da Liga tiveram o condão de acentuar bastante a ideia de que o fosso, em Portugal, entre os grandes e os outros, está cada vez mais fundo e mais largo.
Há alguns anos ainda pairou a hipótese de uma aproximação de clubes como o SC Braga e o V. Guimarães aos tradicionais candidatos ao título, mas essa possibilidade tem vindo a esfumar-se. Houve uma janela de oportunidade, em 2014, quando, a páginas tantas, houve uma (nesga) aberta, mas logo se fechou a sete chaves. Falo da possibilidade gorada de um entendimento que visasse encontrar uma fórmula de centralização dos direitos televisivos, a única chance real de serem colocados meios aceitáveis à disposição dos mais modestos, criando assim condições para um maior equilíbrio. Porém essa revolução nunca passou das intenções e cedo se percebeu que continuaria a ser cada um por si, mantendo-se o regime de castas que permite que uns disponham de orçamentos vinte e cinco vezes maiores que os outros. E é pena. Os espectáculos seriam melhores, a intensidade das competições aumentaria e os treinadores teriam de preocupar-se, quando defrontam os grandes, não só com os trinta metros mais perto da sua baliza, mas também com o caminho até ao guarda-redes contrário.
É fácil criticar treinadores que, na prática, quando vão à Luz, a Alvalade ou ao Dragão, apostam no autocarro. Mas que alternativa lhes resta? Chegam lá e em nome do interesse do espectáculo jogam olhos nos olhos? Disparate! Olhem o que seria de Portugal se o Mestre de Avis tivesse jogado de igual para igual com os castelhanos em Aljubarrota! A táctica do quadrado - o autocarro do século XIV- salvou-nos a independência nacional. Bom, dito tudo isto vamos esperar por um campeonato jogado, sem surpresa, a três velocidades: no Moto 3 dez ou onze equipas, que não visa nada mais que a manutenção; no Mot 2, quatro ou cinco, que entram a cheirar a Europa; e no Moto GP os inevitáveis três grandes, confortáveis neste microcosmos lusitano em que são senhores, emprestando jogadores a eito aos restantes, que assumem papéis de vassalos. Mas, infelizmente, não vêem que não passam, na expressão do saudoso Neves de Sousa, de gigantes em Lilliput.


ÁS
Jonas

Três golos ao Belenenses (e o outro, de meio-campo, que não quis entrar...) e uma exibição muito consistente, revelam um Jonas ao melhor nível, longe dos solavancos e das lesões da época passada. Não será exagero, por certo, dizer que Jonas está a somar créditos para ter lugar no olímpo dos avançados da história do Benfica
(...)

O disco mais ouvido no mercado de verão
«Estou a reflectir se devo sair ou não. O clube e os adeptos são incríveis, mas se quero crescer tenho que sair...»
Pierre-Emerick Aubameyang, jogador do Borussia Dortmund
Este mercado de verão fica marcado por um número significativo de jogadores que, apesar de terem vínculos contratuais activos, forçam a barra para poderem mudar de ares. Além de Aubameyang nomes como Diego Costa, Dembelé, Coutinho ou Alexis Sanches têm andado nas bocas do mundo. Não resolverá tudo, mas oxalá o mercado em 2018 encerre a 31 de Julho...

Barcelona
Ontem, em Camp Nou, no jogo com o Bétis, as camisolas dos 'culés' não ostentaram os nomes dos jogadores. Apenas uma palavra, Barcelona, servia de mensagem contra a barbárie, uma fórmula simples mas eficaz que o futebol encontrou para marcar posição. E mais uma vez se viu como, perante causas civilizacionais, as pequenas querelas da rivalidade ficaram para trás, juntando-se todos os emblemas no propósito comum de combater o terrorismo. Momento de dor, mas também de união, propício a uma reflexão sem fronteiras sobre prioridades.

All Blacks de luto, morreu um gigante
Sir Colin Meads jogou pelos All Blacks entre 1954 e 1971 e foi eleito melhor jogador neozelandês de râguebi do século XX. Faleceu no último sábado, aos 81 anos, e foi manchete em todos os jornais. No site dos All Blacks escreveram assim: «Colin Meads está para nós como Babe Ruth para os americanos»."

José Manuel Delgado, in A Bola

PS: Esta sucessão de colunas de opinião, sobre este tema das assimetrias orçamentais no Tugão, tem uma única razão: o Benfica ser Tetracampeão!!!
As diferenças orçamentais no Tugão sempre existiram, sempre... Hoje, todos são profissionais, as condições de treino são boas em praticamente todas as equipas...! Cabazadas sempre existiram e vão continuar a existir... em Portugal, e em todas as outras Ligas europeias... Inclusive na Premier League, onde apesar da centralização dos Direitos Televisivos, os 'grandes' são sempre os mesmos...!!! Já para não falar de outras Ligas com 'fossos' ainda maiores, como em Espanha, em França, na Alemanha ou em Itália... Todas, repito todas, com grandes assimetrias orçamentais...

O facto de na 3.ª jornada do Tugão, os 3 grandes não terem perdido pontos, deve-se essencialmente ao sorteio 'cozinhado' que beneficiou Lagartos e Corruptos: que nestas primeiras quatro jornadas, tiveram 3 brindes descarados... sendo que os Lagartos com os Vitós beneficiaram de uma razia de castigos, lesões e indefinições de plantel; e os Corruptos, no próximo fim-de-semana em Braga vão defrontar um adversário que 72 horas antes terá jogo decisivo de qualificação para a Liga Europa!

Se o Machadês e outros estão preocupados com a competitividade do Tugão, se calhar o principal problema é a competência de alguns treinadores e alguns dirigentes: será que o Tondela que vendeu cara a derrota com os Corruptos tem um orçamento grande?!! Será que o Setúbal, que só perdeu no Alvalixo com muita 'paixão', tem um orçamento parecido com os Lagartos?!! Será que o Chaves, que esteve a segundos de empatar com o Benfica, tem um orçamento igual ao do Benfica?!!!

A centralização dos Direitos Televisivos em Portugal, é uma falsa questão. Portugal não tem dimensão para ter uma Liga competitiva, ponto final. O Benfica, através do seu Presidente já demonstrou abertura para discutir o assunto... Mas alguém acredita que os nossos 'inimigos' (são mesmo inimigos) vão aceitar o facto, provado, que o Benfica vale mais de metade do mercado do Futebol em Portugal?!!!
Isto quando, os Benfiquistas, são impedidos de entrar nos Estádios, com adereços do Benfica, depois de terem comprado bilhetes de forma legítima, que estavam disponíveis para o público em geral?!!!

A solução, a verdadeira solução, em Portugal e nas restantes Ligas, é a 'falada' Liga Europeia, ao estilo americano!!! Mas isso não interessa a alguns...
Já o disse várias vezes, o Benfica, tal como o Ajax, o Olympiakos, os grandes Turcos, entre outros, deveriam estar a fazer lobby activo para a criação desta Super-Liga... só assim, seria possível 'equilibrar' algumas coisas, criando regras claras para a competição (salários e transferências)... e onde os Clubes em competição, teriam todos uma 'base' de adeptos grande (similares entre si), com um potencial de receitas elevadíssimo...

Danos colaterais

"A pressão sobre os grandes está a fazer vítimas. Em 84 anos, é a quarta vez que Benfica, FC Porto e Sporting estão imaculados à terceira jornada

Os grandes entraram na época a fazer jus ao estatuto que os suporta e foi com toda a naturalidade que o FC Porto conseguiu ontem uma vitória robusta e tranquila, dando a resposta esperada às goleadas de Benfica e Sporting, conseguidas na véspera. A superioridade exibida por este trio deixou Manuel Machado a clamar contra as assimetrias do futebol português, esta época ainda mais evidentes no arranque da temporada.
O problema do desequilíbrio de forças havia sido aflorado por Abel Ferreira logo à primeira jornada, após a derrota do Braga na Luz (3-1). Defendeu-se com a diferença de orçamentos, referindo a desproporção de 15 milhões contra 150. A situação deste ano não é diferente das anteriores, existe é sobre os grandes uma pressão incomum.
O Benfica procura um penta inédito, o FC Porto nunca antes esteve quatro épocas seguidas sem ganhar na era Pinto da Costa, o Sporting está em jejum há uma década e meia e o investimento feito por Bruno de Carvalho num projecto comandado por Jorge Jesus, após dois anos a passar ao lado, está no limite da validade. A pressão sobre os grandes é perceptível, audível, quase palpável. E as primeiras respostas estão a ser positivas como poucas vezes o foram. Apesar das assimetrias de sempre, atente-se na estatística: em 84 anos de I Divisão/I Liga esta é apenas a quarta (!) ocasião em que o percurso dos três grandes é imaculado à terceira jornada. É inevitável uma luta tão aguerrida provocar danos colaterais, mas os dos outros campeonatos não têm de se sentir dispensáveis. Bater o pé, fintar o destino é um caminho percorrido há mais de oito décadas."

A falência do negócio-futebol, e o círculo vicioso português

"Clubes portugueses continuam sem olhar, em conjunto, para o produto.

Abel Ferreira atirou para a mesa a diferença de orçamentos quando perdeu na Luz; Manuel Machado previu, depois da derrota no Dragão que, a continuar assim, «o negócio-futebol vai acabar». Há diferenças evidentes (e não começaram agora) nos valores que envolvem os grandes e os outros, que aumentam de forma exponencial quando num dos pratos da balança estão equipas que lutam apenas para não descer, como é o caso da de Moreira de Cónegos.
Os treinadores sentiram-se impotentes perante os dois candidatos ao título, e apontaram para a falta de competitividade que atravessa a Liga. Prefiro ir pela discussão da falta de qualidade na grande maioria das equipas, e da falta de respeito pelo produto.
O discurso é, no entanto, válido e tem antecedentes: a falha de uma negociação colectiva dos direitos televisivos em Portugal, o termo de comparação de uma rica Premier League, capaz de entregar muitos milhões a equipas do fundo da tabela, e a constatação de que os grandes, mesmo com FC Porto e Benfica em fase de contenção, parecem ainda mais longe.
O modelo inglês assenta em cinco parcelas, três comuns a todos os clubes do primeiro escalão: 50% por cento dos direitos TV, transmissões internacionais e base comercial de patrocínios da competição, todas divididas em partes iguais. As outras duas, as de pagamentos de mérito e as de transmissões nacionais (facilities fees), são divididas respectivamente de acordo com a classificação e o número de jogos transmitidos em território britânico. Ou seja, se a base é comum, há factores de diferenciação importantes, que continuam a privilegiar os mais fortes: os resultados e o interesse que os respectivos emblemas suscitam entre a população. Por exemplo, na última época o campeão Chelsea recebeu 164,7 milhões de euros, enquanto o Watford, o último dos que conseguiram a manutenção garantiu 112,2, menos 52,5 milhões.
O sucesso contínuo de uns e menor sucesso de outros levará a que essa diferença eventualmente se mantenha, pouco servindo para a competitividade interna. Claro que poderá sempre aparecer um Leicester de peito-feito, mas não me parece que seja este o modelo que mais potencie campeões-surpresa, ou que os «Foxes» tenham nascido candidatos a partir desta distribuição mais equitativa de receitas.
Os valores dos direitos televisivos dão sim uma força extraordinária aos clubes ingleses mas em comparação com os dos outros países. A competitividade aumenta, mas sobretudo externamente. Entre portas, há sim mais qualidade, e com mais qualidade de intervenientes há um melhor produto. 
A preocupação dos ingleses com o seu produto é evidente. A Premier League nasceu porque os clubes se uniram para criar um melhor modelo que os beneficiasse a todos, e é o que realmente tem acontecido. Não se trata unicamente de um ponto de vista comercial, mas sim cultural. Discute-se o jogo em si, castiga-se quem não o respeita e no imediato, sem grandes demoras. Agora, já se pensa até em limitar o mercado até ao inicio da liga. Sempre o produto em primeiro, porque é este que depois alimenta os clubes.
Por cá, a qualidade parece cada vez menor, a classe média corre o risco de desaparecer a curto prazo. Em três jornadas, as boas notícias trazidas pelo Rio Ave e pelo Estoril e Marítimo a espaços contrastam com a instabilidade vivida em Guimarães e até em Braga, cuja retoma ainda necessita de confirmação.
Os clubes pequenos esperam que Agosto se aproxime do fim para fechar plantéis com os emprestados dos grandes, e deles parecem cada vez mais dependentes. A culpa também é parte deles próprios. No passado, quantos maus negócios fizeram com Benfica, FC Porto e Sporting, a troco de quase nada? Também está nessa subserviência alguma quota-parte do problema. Sem dinheiro agora, não é fácil construir grupos para fazer gracinhas, lutar mais do que a permanência, arriscar um ou outro ponto com os mais fortes. O estrangeiro de escasso talento, a precisar de tempo de adaptação, abunda. Falta, mais uma vez, e primeiro que tudo, qualidade.
O círculo é, como sempre, vicioso. Baixa qualidade gera menos competitividade sim, mas sobretudo um mau produto e menos dinheiro, que não chega para comprar qualidade. Por aí fora.
Enquanto por cá se continua a achar que é o vídeo-árbitro o grande sinal de modernidade e se debate o conceito mais oco que existe, o de verdade desportiva – que nunca será real por muitos penáltis se marquem ou golos se anulem –, outros países deram há muitos anos passos seguros nesse sentido, assumindo a liderança planetária. Alguém duvida de que hoje em dia a Premier seja o campeonato dos campeonatos?
Claro que dificilmente teremos, mesmo quando haja uma verdadeira cultura desportiva e nunca antes, um melhor produto ou um tão rentável quanto o inglês, mas parece evidente que os clubes portugueses precisam de unir-se e trabalhar em conjunto para um bem-maior, um bem comum, que depois os beneficie a todos.
Em Portugal já houve tempo mais que suficiente para se aprender a não pensar tão pequeno.
Porque nos faz pequenos. A todos."

A lição de Inês Henriques que devia chegar a Cristiano Ronaldo

"Nos festejos, [CR7] não resistiu à pulsão narcísica de tirar a camisola e oferecer às câmaras a pose de Action-Man

Faz hoje uma semana que recebemos a notícia duma medalha de ouro nos campeonatos do mundo de atletismo (há dez anos, desde Nelson Évora, que não víamos uma), na marcha, aquela modalidade com qualquer coisa de antinatural pelo modo desarticulado com que os atletas se locomovem. Foi uma prova mista, que abriu a marcha às mulheres na distância de cinquenta quilómetros - até aí só permitida a homens - e exigiu um tempo mínimo comum para participação. Sete mulheres conseguiram-no e marcharam, mas só quatro chegaram ao fim. Inês Henriques cortou a meta à frente dessas quatro e, além da medalha, arrebatou o primeiro recorde mundial. No fim, mostrou a felicidade de quem comete um feito histórico. Mas a sua felicidade primava pela contenção (que não deve ser confundida com modéstia ou humildade) e passava aos jornalistas um discurso grato, onde destacava o seu treinador, um homem que, aos 69 anos, aparecia associado a um grande momento, depois de a ter ajudado a educar o corpo e o espírito para a resistência e para o estoicismo. Por isso, aos 37 anos de idade, Inês Henriques encarava a medalha como uma recompensa do esforço de 25 anos de trabalho, e relativizava o seu feito nas entrevistas: quatro horas a marchar não era nada que se comparasse ao que a mãe fazia todos os dias ao lado do pai, trabalhando mano a mano na venda de carvão e lenha, em Rio Maior.
Horas depois, em Camp Nou, durante o Barcelona-Real Madrid para a supertaça de Espanha, o mais famoso desportista português de todos os tempos marcava um dos muitos fabulosos golos que ornam a sua longa e emérita carreira. Nos festejos, não resistiu à pulsão narcísica de tirar a camisola e oferecer às câmaras a pose de Action-Man. Viu o cartão amarelo, como reza a lei. Dois minutos depois, caiu na área e reclamou um penálti que o arbitro não validou. Em vez disso, mostrou-lhe o segundo amarelo e expulsou-o. Por instantes, o astro perdeu a cabeça e ensaiou um infesto ao juiz de campo, que lhe valeu cinco jogos de suspensão. Ronaldo foi vítima da esparrela mais idiota do futebol: queimar um amarelo a festejar um golo seguido do segundo por pedir um penálti. Num jogador inexperiente, seria só uma burrice. Numa estrela, o estatuto agrava a burrice, até porque, logo a seguir, o sub-21 Asensio marcou também um golo fantástico sem mostrar os abdominais. Ronaldo sente-se permanentemente julgado, injustiçado, como se não consiga ultrapassar o facto de ter ascendido à custa de muito trabalho e abnegação. Para ele, cada golo é uma bofetada em quem o assobia e quem o inveja. Messi, pelo contrário, parece ter nascido no caldeirão dos predestinados. A sua movimentação encarna a realeza genial que dispensa o exibicionismo. Vai ser curioso assistir ao fim da carreira de Ronaldo. A nossa veia provinciana não o tem ajudado. Não é fácil ter o nome num aeroporto. Torço para que a sua saída de cena ainda demore e não lhe ensombre a grandeza. Talvez uma passagem de olhos pelas palavras de Inês Henriques forneça algumas pistas."

Alvorada... com o Manteigas

Benfiquismo (DLXVII)

Zé's Snow !!!

Benfica foi avassalador

"Raúl Jiménez entrou muito bem e com dois passes fantásticos esteve nos dois últimos golos.

Entrada muito forte
1. Que entrada forte a do Benfica! Jonas marcou logo aos dois minutos e com isso a equipa da casa serenou e embalou para uma exibição magnífica. Mas não avencemos tão rápido: o Belenenses até conseguiu reagir bem ao primeiro golo de Jonas e teve 15/20 minutos em que deu a sensação de que poderia equilibrar a partida. Mas há momentos que tudo mudam e num lance em que a equipa do Restelo não conseguiu afastar a bola da sua área apareceu Salvio no jogo, tendo marcado o segundo golo, que acabou por ser a chave. Já que acabou aí o equilíbrio que Domingos procurou com o meio-campo tão povoado.

Fragilidades sem perdão
2. Após esse segundo golo do Benfica acentuou-se ainda mais o domínio dos encarnados, que conseguiram sempre colocar a bola nos seus atacantes, que foram tão fortes que se mostraram imparáveis. De um lado viam-se bons movimentos individuais e colectivos, um futebol de vertigem ofensiva, como a equipa de Rui Vitória tanto gosta. E não conseguia responder o Belenenses, que teve muitas falhas e foi na Luz equipa muito frágil em termos defensivos e principalmente sem força para reagir a um Benfica demolidor, que ainda antes do intervalo conseguiu chegar ao terceiro golo.

Mais desnivelado
3. Em vez de melhorar, o cenário ficou ainda mais negro para o Belenenses no segundo tempo, já que não conseguiu chegar à área do Benfica e não só sofreu ainda mais dois ou três golos porque as bolas ficaram nos postes. Se na primeira parte, com Chaby solto na frente, os visitantes não conseguiram chegar à área, esperava-se que isso acontecesse no segundo tempo com Maurides em campo, homem de área, com mais poder de choque. Mas não foi o que se viu... a bola nunca chegou lá à frente e em vez disso viu-se um Benfica ainda mais avassalador.

Jiménez entrou muito bem
4. O que estava desequilibrado, mais desequilibrado ficou com a entrada em campo de Raúl Jiménez, que esteve nos dois últimos tentos com passes fantásticos. E com tudo isto, houve goleada na Luz e uma superioridade que foi evidente dos encarnados, que poderiam até ter construído resultado ainda mais desnivelado. Aquela entrada forte e o segundo golo foram golpes demasiado profundos no Belenenses, que a partir daí ficou perdido, desconcentrado, desorganizado. Enfim, foi tudo demasiado fácil..."

Bruno Ribeiro, in A Bola

Da segurança de Varela à arte de Jonas

"A veia goleadora de Jonas explica a goleada?
Seria uma visão muito redutora da exibição do Benfica, mas é verdade é que foi Jonas quem deu corpo à goleada. O brasileiro leva 10 golos marcados ao Belenenses desde que chegou à Luz e jogando e fazendo jogar ainda teve tempo para o hat trick. Genial. O entendimento que mostra com Seferovic é de equipa grande.

Fez sentido o Belenenses jogar com três centrais?
No papel talvez o esquema tivesse nexo, mas ao levar o golo tão cedo a estratégia caiu por terra. Para além disso o entendimento nunca foi o melhor, continuando a haver muito espaço para o ataque encarnado. O equívoco teve custos graves e o sistema precisa de muito trabalho por parte de Domingos Paciência.

Foi desta que Filipe Augusto agarrou o lugar?
Fez um jogo muito positivo mas é cedo para confirmar essa tendência. O adversário pouco incomodou o médio encarnado, tal a complacência demonstrada pelo miolo belenense. Há muitos momentos o brasileiro parece ainda meio peixe fora de água. Mas aproveitou a oportunidade de ontem.

Varela não provou que pode ser titular do Benfica?
O jovem guarda-redes tenta prová-lo semana a semana. Mas continua a falar-se de mercado. Rui Patrício está hoje onde está porque Paulo Bento teve coragem. Varela precisa de sorte, talento, confiança... e de Rui Vitória. Ontem fez mais um bom jogo."

Não temos medo

"Vamos todos a Barcelona. Iremos às Ramblas. Com o meu neto Alexandre Maria com a camisola do Benfica.

1. (...)

2. (...)

3. Para a semana é a semana de muitas decisões no futebol europeu. E o arranque das derradeiras contratações com números que impressionam a cada dia que passa. Números do outro mundo. Ficam decididos, em definitivo, os clubes - em rigor as marcas! - que marcarão presença na fase de grupos da Liga dos Campeões e da Liga Europa. A primeira bem determinante financeiramente e bem motivante sob o ponto de vista da exposição desportiva. A segunda conquistando em razão dos relevantes emblemas que lá chegam uma bem interessante atractividade. Mas só a primeira dá milhões. A segunda proporciona receitas tão só que estimulantes. Como Sporting, Braga e Marítimo bem sabem. A Liga dos Campeões é a ambicionada e desejada. A Liga Europa é procurada pelos médios clubes da Europa e considerada como mal menor por referências europeias. O meio termo é, em certas situações, a conformação desportiva ou, em outro prisma, o estímulo interno. Com a consciência que nesta época desportiva ser primeiro em Portugal é bem importante em razão da futura participação nas competições europeias. Já que, de verdade, se inicia um novo ciclo na nossa participação europeia! Ou seja o refúgio interno pode ser, nesta época, uma justificação que gera uma acrescida e diferente motivação. É que no final desta época só o nosso primeiro tem acesso directo à Liga dos Campeões! Com o VAR bem explicado a alguns...

4. Vi o Benfica ontem na companhia do Rodrigo. Um jovem benfiquista que vive, com paixão, o seu clube do coração. Joga nas escolas do Benfica. Admira o Pizzi. Envergava, aliás, uma camisola deste maestro deste Benfica. Acredito que o nosso Pizzi lhe irá assinar uma camisola. Bem merece. É também este compromisso entre um jogador de referência - e de excelência - e um jovem adepto que ajuda a fortificar o ADN deste Benfica. O colinho dos adeptos de todas as idades e de todas as origens. E ele, o Rodrigo, dirá com o sorriso maroto que evidenciou quando o Jonas fez aquele extraordinário chapéu, que já está! E, assim, assim mesmo, recordo, com um prazer imenso, aqueles momentos deliciosos do relato da Antena 1 na final de Paris. Já está mesmo! Com a vitoria de ontem na Luz são três jogos e três vitórias. Tal como Sporting e Rio Ave. E, agora, é a deslocação a Vila do Conde. Com a certeza que, à hora desse jogo, o nosso Rodrigo envergará uma vez mais a camisola do seu ídolo. Espero eu com uma já assinada e com uma dedicatória bem especial.

5. Não temos medo! Não temos mesmo medo!"

Fernando Seara, in A Bola

domingo, 20 de agosto de 2017

Coincidências que dão jeito

"Pode ter sido problema técnico, mas o facto de só uma câmara ter gravado o som no 'Caso do Túnel' fez enorme favor a Bruno de Carvalho.

Não se pode considerar uma surpresa aquilo que o acórdão do Conselho de Disciplina considerou ter ficado provado no chamado Caso do Túnel. Quem viu, logo no dia seguinte, as imagens captadas pelas câmaras de vigilância instaladas em Alvalade percebeu de imediato que nada de edificante por ali se tinha passado. Pelo contrário. O que se soube agora foi, apenas, a confirmação de que a grande maioria dos que dirigem os clubes portugueses - e repara-se, não estamos a falar de emblemas dos distritais, trata-se de presidentes de clubes de Liga, onde os padrões têm (ou deviam ter) de ser muito mais altos - não estão sequer perto de se saberem comportar da forma que o cargo que exercem exige. Podem ser homens de sucesso nos negócios, podem ter muito dinheiro. Mas há coisas que o dinheiro não compra: educação e urbanidade são só duas dessas coisas.
Do acórdão anteontem revelado por A Bola destaca-se também o facto de apenas uma das muitas câmaras instaladas no local ter captado o som daquilo que foi dito durante aqueles minutos. Curiosamente - em especial se tivermos em conta que foi o Sporting que as cedeu, 12 dias depois dos acontecimentos e quatro depois de ter sido notificado para o efeito - aquela que estava virada para o lado do balneário do Arouca. Ou seja, tudo (ou vamos acreditar que quase tudo) aquilo que Carlos Pinho disse consta do processo, mas nada do que disse Bruno de Carvalho pôde ser provado, pelo que ficou de fora. Vamos acreditar que se tratou de uma avaria técnica, que custou à SAD do Sporting uma pesada multa de 460 euros por não ter todas as câmaras a funcionar como deviam. Mas não posso, neste momento, deixar de referir que foi de enorme beneficio para o presidente do Sporting, apenas castigado pelo fumo/vapor de água que soprou para a cara do presidente do Arouca, que por seu lado apanhou pela medida grande (e justamente) porque tudo o que fez foi visível e tudo o que disse foi audível para os juízes. Há, de facto, coincidências que dão algum jeito.

Claro que a decisão do Conselho de Disciplina em castigar Bruno de Carvalho com seis meses de suspensão foi recebida em Alvalade com indignação. O presidente do Sporting voltou a recorrer ao Facebook (alguém acreditou que iria conseguir manter-se mesmo longe?) para atacar José Manuel Meirim, queixando-se de perseguição - teoria que, já se percebeu, pegou junto de todos aqueles que o apoiam. Bruno de Carvalho tem, é evidente, o direito de reclamar. Tem até o direito de recorrer para o Tribunal Arbitral do Desporto para fazer valer o seu ponto de vista. Nada a dizer quanto a isso - só chocam mesmo os termos utilizados, mas com isso Bruno de Carvalho parece conviver bem...
Outra coisa - e só para terminar - que não parece bater certo no discurso do presidente do Sporting é esta imagem de eternamente e injustamente perseguido por quem tem a função de aplicar as leis. Desde a sua chegada ao futebol português Bruno de Carvalho assumiu de forma aberta uma posição de rebeldia. Citando Jorge Palma, na música Jeremias o fora da lei, 'não estando disposto a esperar' que o futebol 'venha alguma vez a ser melhor', Bruno 'escolheu o seu lugar do lado de fora'. Será até, na ausência de títulos dignos de registo no futebol, essa atitude que mais consenso gera entre os sportinguistas - desde miúdos que somos moldados a nutrir especial simpatia pelos fora da lei - orgulhosos (pelo menos cerca de 86 por cento deles) por terem como presidente um homem sem medo de combater aquilo que consideram ser o poder instalado. Mas esta imagem que Bruno tão bem soube criar não cabe a forma como se apresenta sempre que o castigam por ir contra as regras. Não. Os verdadeiros foras da lei assumem sê-lo mesmo sabendo das consequências que daí podem advir. E nunca, mas nunca, se fazem de coitadinhos."

Ricardo Quaresma, in A Bola

Passava lá um rio...

"Baptista Pereira, dono dos mouchões do Tejo, vencedor da Mancha e do terrível Crocodilo do Nilo...

O rio pode ser uma iniciação.Seja onde for, qualquer rio.
Em Alhandra ou em Águeda.
«Por quem um rio troca mil cidades», escrevia Adolfo Portela, o poeta de Águeda-a-Linda.
Ou Manuel Alegre:
«Rio Águeda que vais
Banhando a verde fragância
Das margens do Nunca Mais
Onde fica a minha infância».
Um rio pode ser uma iniciação. E uma iniciação precisa sempre de quem a escreva.
E precisa de heróis como capitães de areia.
Sentei-me para escrever sobre Baptista Pereira, o homem que dominava o Tejo e que, um dia, resolveu enfrentar o nevoeiro da Mancha que deixa o Continente isolado.
O Quim soberano dos mouchões.
A sua braçada larga, o peito enfunado, vela de galeão de uma vontade de água e liberdade.
Gineto de Soeiro Pereira Gomes, também ele Joaquim, nas letras resolutas de Esteiros.
Em Águeda, o rio era o lugar onde morava a cumplicidade. E havia também esse homem do rio: o velho Bério que andava para cá e para lá sobre o degrau de cimento que ficava mesmo por cima da Pista 1 a gritar com a sua voz de tenor de cana-rachada, meia-dúzia de rapazolas que se esforçava ingloriamente num «crawl» sem Olimpíadas, as braçadas corrigidas de minuto a minuto.
No tempo da água…
E da insuportável excomunhão da água.
Eu gostava mesmo era de escrever um rio.
Contaria o tempo em que a Lola vigiava furiosamente os atrevimentos adolescentes daqueles que não resistiam ao instinto de espreitar para os balneários das raparigas: a esperança secreta de vislumbrar algo mais do que braços e pernas e cabeças, que era exactamente aquilo que se podia vislumbrar da Pista 3 em diante, o lugar onde toda a gente tinha pé.
Sentei-me para escrever sobre Baptista Pereira, o Homem-Que-Nunca-Foi-Menino.
O Baptista Pereira de Gibraltar: cinco hora e quatro minutos no dia vinte e cinco de Outubro de mil novecentos e cinquenta e três.
O Baptista Pereira do punho cerrado no Portugal-Espanha ditatorial de mil novecentos e quarenta e seis.
O Baptista Pereira vencedor do egípcio Hammad, o Crocodilo-do-Nilo.
Sentei-me para escrever sobre Carlos Miranda, que fez o favor de tanto me ensinar. «Há dez horas de prova. Parece que a vitória, não vai fugir ao alhandrense. Mas entretanto o campeão do Nilo, começa a aproximar-se a aproximar-se...Num ápice, estala o alarme. O egípcio, com uma extraordinária ponta final, está já só a 400 metros...O nevoeiro está implantado sobre a costa inglesa. O barco português não está provido dos meios de orientação. Por erro, em vez de encaminhar Baptista Pereira para Dover, para as rochas brancas de Dover, desvia-o em direcção a Santa Margarida. É mesmo Baptista Pereira que se apercebe do erro, quando vê o barco do egípcio dois quilómetros para lá, a tomar outro rumo...dentro de água, preocupado, nervoso com a corrida...Baptista Pereira, dá instruções para que o rumo seja corrigido...As dificuldades ainda não estão acabadas...surge outra forte corrente, e Baptista é obrigado a um esforço enorme, durante mais uma hora... Hammad não é capaz de vencer o obstáculo, e atrasa-se; novamente mais de duas milhas separam os dois nadadores...Ainda faltam cerca de oito quilómetros...Os últimos momentos são verdadeiramente emocionantes. Alguns amigos de Baptista Pereira, que se tinham deslocado propositadamente de Alhandra, fretam um «gasolina», e vão ao encontro do grande nadador...e caem de espanto quando vêem dois nadadores bem juntos. Seria possível que Hammad...Num desespero rompem todos a incitar o conterrâneo - Força, Baptista! Força, Baptista!...»
Que maravilha! Não concordam?
Queria escrever assim, mas não sou capaz na minha prosa medíocre.
Queria escrever assim sobre o rio; sobre o sol que escaldava nas costas e nos braços; sobre nós deitados debaixo das latadas de uva morangueira.
Um cheiro penetrante impossível descrever; o zumbido das abelhas e das vespas em redor da fruta esbeiçada no chão; um silêncio profundo de sono e de cansaço. 
Um aroma grosso a água do rio.
Badaladas, pesadas do sol a pino.
A hora do regresso a casa.
A indolência entornando-se pelo início da tarde.
O pio estridente do melro numa excitação de insectos. Queria escrever como quem ecoa na quietude melancólica do rio para lá do Fojo e do Sardão e do lugar onde os ciganos se juntavam à sombra dos choupos largos dedilhando sons melancólicos a todo o comprimento das cordas das guitarras. 
Escrever sobre os domingos compridos como nunca mais voltaram a ser."

Das sanções disciplinares

"Esta semana debruçamo-nos sobre uma decisão de um tribunal de segunda instância francês que confirmou sentença que anulou uma sanção disciplinar aplicada por uma federação, por entender que a mesma era desproporcional face ao ilícito cometido pelo agente.
Esta decisão foi recentemente anotada por um conselheiro francês que, analisando o acórdão e de forma muito clara, vem dizer que as sanções disciplinares aplicadas por uma federação desportiva, apesar de serem sanções administrativas, têm uma enorme especialidade: é que enquanto as sanções administrativas gerais, como as fiscais ou as rodoviárias, são aplicáveis a todos, as sanções disciplinares apenas se aplicam a um determinado grupo de pessoas que escolheram aderir a um grupo social organizado (ou mesmo de alguns que não tiveram hipótese de escolher entrar ou não em tal grupo) e que, em consequência, têm a obrigação de se conformar com as regras deontológicas de tal organização ou grupo. Assim, a sanção disciplinar tem por finalidade reprimir as violações de tais regras bem como a de assegurar o regular funcionamento da instituição.
Como sabemos, em Portugal, o poder disciplinar das federações decorre não só da Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto, bem como do Regime Jurídico das Federações Desportivas e, em concreto, do Estatuto de Utilidade Pública Desportiva atribuído a cada federação e tem natureza pública.
No entanto, é preciso notar que tal poder disciplinar apenas abrange aqueles que a ele se sujeitam, isto é, aos que aceitam - mesmo que tacitamente - jogar pelas regras do jogo da federação em que se inserem."

Marta Vieira da Cruz, in A Bola

Cadomblé do Vata

"1. Da próxima vez que um adepto rival te disser que o SLB controla o futebol português, sussurra-lhe ao ouvido... controlamos tanto isto, que tivemos que esperar até à última jornada para ganharmos um campeonato a uma equipa treinada pelo Domingos.
2. Se aquela bomba do Jonas do meio campo tem entrado, ganhava o Prémio Puskas... como foi ao poste vai-lhe ser atribuído o Prémio Puskas que o Pariu.
3. Domingos tem razão, existem lances que sozinhos desmontam toda uma estratégia táctica... um exemplo é o Raúl Jimenez fazer uma assistência para golo.
4. Neste momento temos 9 golos marcados e 9 jogadores lesionados... é melhor não arriscar nisto das coincidências e passarmos a ganhar todos os jogos por 1-0, senão antes da 10.ª jornada andamos a jogar só com jogadores da equipa B.
5. Parece que finalmente está de volta o velho e bom Sálvio que todos nós conhecemos... o prego a fundo, as fintas estonteantes, os golos maravilhosos e a lesão sempre na pior altura."

A Mão de Vata, in Facebook

Vá, tudo a dar as mãos para Filipe Augusto se tornar senhor do Universo centro-campista

"Bruno Varela
Os adeptos entusiasmam-se e gabam-lhe a confiança, mas os primeiros jogos não permitiram tirar grandes conclusões, e talvez seja melhor assim. Nunca ninguém elogiou o novo contabilista da empresa por, no seu primeiro dia, ter reparado a impressora ou substituído o garrafão de água. A não ser que seja um daqueles estágios não remunerados para explorar um gajo até ao tutano enquanto não há dinheiro para contratar alguém a sério. Nesse caso, é um excelente começo.

André Almeida
O tempo passa e André Almeida vai conquistando o seu espaço. É uma disputa feroz que tem mantido com a sua sombra, Aurélio Buta e, muito em breve, o empresário de Pedro Pereira. O seu nível exibicional ainda não permite dizer coisas como "este não sabe jogar mal", nem é provável que venha a acontecer. Depois de André Horta como jogador-adepto, precisávamos de alguém como André Almeida, que nos faça crer, durante aqueles breves 90 minutos, que qualquer um de nós poderia ter sido futebolista profissional.

Luisão
Exibição segura. Joga de olhos fechados com os seus colegas. Afinal de contas, são oito anos a trabalhar com os mesmos.

Jardel
Nada como bater em mortos para regressar à vida. Veremos se as qualidades observadas hoje se mantêm frente a jogadores com melhor coordenação motora.

Eliseu
Mais uma exibição útil à equipa, mas especialmente útil ao futebol português. Testou os limites do vídeo-arbitro num lance que podia ter valido a sua expulsão. A Liga agradece os seus préstimos. É fundamental que continue a trazer ao de cima as lacunas do vídeo-árbitro e não as virtudes.

Filipe Augusto
Vamos todos acreditar que Filipe Augusto iniciou hoje uma espécie de metamorfose semelhante à que ocorreu com Casemiro. Se bem se lembram, era um sarrafeiro com dois tijolos nos pés e a visão de jogo de um míope que jogou no Porto e regressou ao Real Madrid para se tornar campeão espanhol, europeu e senhor do Universo centro-campista. Vá, tudo a dar as mãos.

Pizzi
É como se Isco, Modric e Kroos tivessem unido esforços num só corpo, mas melhor.

Salvio
Um grande golo a coroar mais uma exibição confiante e a plenos pulmões. Não há piada nenhuma para fazer. O homem já sofreu que chegue.

Franco Cervi
Deixem-nos recuperar o fôlego e já dizemos qualquer coisa. JONAS Segundo o seu presidente, o Manchester City prepara-se para anunciar a maior transferência da história do futebol. Espero sinceramente que não nos levem Jonas. Não há dinheiro que pague um jogador destes. O brasileiro ultrapassou hoje Magnusson e é agora o segundo melhor marcador estrangeiro da história do Benfica. Esse Magnusson que, como se sabe, foi visto pela última vez no relvado da Luz a rebolar na direcção de uma das balizas. Esse lance só não deu em golo porque ainda não estava lá Jonas para receber com o peito, ajeitar com um pé e rematar com o outro.

Haris Seferovic
Pela primeira vez na sua carreira Seferovic marcou 4 golos nos primeiros 4 jogos oficiais. É certo que provoca algumas lesões, mas o Benfica faz bem às pessoas. Não, não é o sol nem o peixe nem a praia. O Doumbia também já comeu sardinhas e deu um mergulho em Paço de Arcos, mas a verdade é que ainda não cheirou. Permitam-me que lance um repto aos dirigentes benfiquistas: exijo saber quem é o responsável pela melhor contratação do Benfica nos últimos anos. Pela minha saúde que lhe ofereço um jantar no Solar dos Presuntos.

Martin Crhien
Tornou-se hoje o primeiro eslovaco a vestir a camisola do Benfica em jogos oficiais. Por enquanto tem tudo para se tornar o primeiro eslovaco a vestir a camisola do Benfica em dois jogos oficiais, neste caso ao serviço da equipa B.

Raúl Jiménez
não joga mais porque Jonas e Seferovic. O seu estatuto de suplente é muito provavelmente a maior injustiça neste plantel do Benfica, mas teremos todos de aprender a viver com isso. Um dia de cada vez, Raúl.

Lisandro López
Entrou a 10 minutos do fim para ser testado a lateral-direito. Soube manter-se no perímetro do relvado."