Últimas indefectivações
terça-feira, 2 de junho de 2020
Onde andas tu?
"Ó futebol de rua, ó futebol mágico e sonhador, onde andas tu? O futebol pelo qual me apaixonei não era medido em cifrões. Não fazia distinções entre Campeonatos. Não contemplava o racismo. Nem muito menos existiam jogadores a vender a sua derrota. A aceitar dinheiro para que o mundo sombrio das apostas lhes destrua o sonho mais brilhante das suas vidas.
Pois é, actualmente, aquilo que foi dito no parágrafo inicial trata-se de uma triste realidade. Cabe aos verdadeiros apaixonados pelo desporto e pelo futebol vir a público colocar a sua posição bem vincada. De desagradado e desilusão.
A Primeira Liga Portuguesa vai regressar no início de Junho. Com todas as jornadas a serem disputadas. Excelente notícia. Em forma de contraste, na Segunda Liga, Nacional e Farense foram automaticamente promovidos. Uma varinha mágica limpou as restantes jornadas e, como por magia, já temos equipas promovidas. No Campeonato de Portugal, uma notícia ainda mais arrepiante. Arouca e Vizela sobem à Segunda Liga, uma vez que estavam em primeiro nas suas séries e tinham mais pontos do que Olhanense e Praiense, líderes das duas restantes séries. Dá para acreditar? O que dizer sobre isto? É elementar que existem séries mais competitivas do que outras. É uma falta de respeito pelo futebol passar um pano nas trajectórias fantásticas das formações de Olhão e dos Açores e, como por magia, deixá-los sem uma palavra a dizer. Nem a um justíssimo play-off de subida tiveram direito. Era assim tão complicado colocar os líderes das quatro séries num play-off que pudesse apurar, com justiça, as duas equipas promovidas? Será que o Campeonato que gera mais dinheiro tem outras regras da sensatez?
Por sua vez, existem mais casos suspeitos de jogadores a vender a sua derrota em Campeonatos com menos mediatismo. Já sabemos que os salários nessas divisões são inferiores. E que há gente que se aproveita dessa fragilidade para aliciar e conseguir milhares de euros. Mas pense em tudo o que fez para poder ser futebolista. Em todos os sacrifícios. Em tudo aquilo que os seus pais, avós e irmãos vibraram e se apaixonaram. Pense no futebol com que sonhou e se, de alguma forma, esse futebol contemplava golos na própria baliza ou expulsões encomendadas. Julga que um dinheiro extra, em forma de felicidade fictícia, poderá ser mais importante do que tudo isto? Na nossa magia do futebol, interessavam apenas duas coisas: divertimento imensurável e ganhar. Tão fácil assim. E, como Johan Cruyff dizia, o mais difícil é jogar futebol de forma simples.
As sombras até podem tentar estragar os sonhos mágicos que iluminam a vida. Mas a última palavra será sempre nossa."
A prática desportiva e a escola
"Será que o atraso que se verifica na prática desportiva em Portugal é da Escola? As opiniões valem o que valem. Alguns comentadores, dirigentes e políticos dizem que sim. Outros respondem que não. A verdade é que muitos ignoram a realidade da escola (pública e privada). A existência de alguma confusão sobre o que é o desporto e o que é a educação física também não abona em nada. Sabemos que a escola, enquanto espaço de aprendizagem, pode dar um contributo para a elevação da prática desportiva, mas não resolve todos os problemas existentes. Não lhe cabe a ela formar “campeões” e “atletas”. Todavia, a prática desportiva escolar pode dar um contributo, qualificando os jovens. O esforço tem que vir também dos clubes desportivos. Mas muitos não conseguem atrair a juventude, que organizam o seu tempo livre de outra forma. Os espaços de sociabilidade, os hábitos, os consumos e os gostos culturais são outros.
Determinados dirigentes de clubes precisam de compreender isso e deveriam se adaptar-se novas realidades. Neste mundo globalizado, há práticas desportivas que não têm interesse por parte dos jovens. Os estudos nacionais e internacionais, relativamente aos hábitos desportivos, demonstram que determinadas variáveis (idade, género, escolaridade, estatuto socioprofissional) são estruturantes da prática desportiva. Em termos tendenciais, podemos dizer que: 1) os homens praticam mais desporto do que as mulheres; 2) os jovens praticam mais desporto do que os mais velhos; 3) os que têm um nível de escolaridade mais elevado do que os que têm um nível de escolaridade mais baixo; 4) os que detêm um estatuto socioprofissional mais elevado do que os que detêm um estatuto socioprofissional inferior. O argumento da “falta de tempo” entre os não praticantes, como a principal razão para não praticarem uma modalidade desportiva, merece um estudo aprofundado em Portugal.
Os que dizem não gostar de desporto permite reforçar a ideia de que existe uma deficiente aculturação dos valores da cultura físico-desportiva. Quando olhamos para os dados do Eurobarómetro do Desporto e da Actividade Física (2017), verifica-se que participação desportiva portuguesa é baixa, quando comparada com outros países da União Europeia. Em 2009, a percentagem de portugueses que praticava exercício ou desporto regularmente era de 9%, diminuiu para 8% em 2013 e para 5% em 2017. O número dos que raramente ou nunca praticam estas actividades (nos tempos de lazer) subiu de 66%, em 2009, para 72%, em 2013, e para 74%, em 2017. Estudos recentes referem também que muitos adolescentes não praticam exercício físico suficiente. Portugal regista uma percentagem de 84,2% (em adolescentes, de ambos os sexos, com idades compreendidas entre 11 e 17 anos). Ocupa, assim, o 74.º lugar da tabela de classificação dos 146 países avaliados pela OMS (Organização Mundial de Saúde) entre 2001 e 2016. Dá que pensar…"
Futebol / Em nome do presente
"Faz hoje (1 de Junho), 9 anos que que cobrindo a quietude duma distância, numa manhã de sonho vi erguer uma das maiores conquistas académicas revertidas no mastro da minha existência pela prestação de provas do meu doutoramento.
Aos Professores Doutores Manuel Sérgio, José Antunes de Sousa e Pedro Guedes de Carvalho, pelos quais humildemente me curvarei todos os dias da minha vida, num ato de eterna gratidão que jamais esmorecerá… e nessa tão afectuosa viagem de suporte em supervisionar, aconselhar, orientar os caminhos rasgados pela investigação e desejo em olhar o Futebol de Corpo Inteiro, visto à luz da ciência da motricidade humana no reencontro com a vida.
Lhes dedico, neste dia de festa, este simples mas significativo texto no âmbito da reflexão do “Futebol – em nome do presente!”...
A adversidade desperta em nós capacidades que em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas. (Horácio, 65-8 a.C.)
Estamos quase a bater à porta duma nova retoma de competição, configurada com a existência de atípicas fórmulas de metodologia, que nos vai remeter sem dúvida para uma observação e qualificação de rendimento suportado ou não pelo resultado.
Assim, iremos ter em conta o facto a ser ou não confirmado, em que equipas que para além da concentração de jogos em tempo muito curto, conseguem ou não disponibilizar-se para a competição em tempo inteiro, enriquecidas pela valorosa identidade dos seus profissionais que, embora esculpidos no caminho das dificuldades, que uma preparação muito discutível de processos lhes facultou, possam ultrapassar a crise dum rendimento sem ser acometidas de lesões e perante o silêncio que o estádio despido de energia, que em condições normais se alimenta das bancadas, serão capazes de transportar na seiva as pegadas da sua experiência, e ir à luta, continuando a fazer do jogo de Futebol um espectáculo coberto de beleza e emoção.
Como tenho repetidamente referido, a consciência é a base de toda a existência, facto que implica o absoluto o primado dessa mesma consciência sobre os demais elementos na construção da forma desportiva, física, atlética, técnica, funcional. Isto é, um corpo fisicamente em forma, mas descrente nos objectivos de conquista, não é de modo algum suficiente para garantir o sucesso no seu desempenho (Goswami, 2008 cit. Sousa, A; 2014).
Não deixará de ser interessante reflectir e avaliar a capacidade de mestria do líder/treinador e pelas assessorias administrativas e médico desportivas expressas pelos seus mais qualificados intérpretes, nesta vergada curva do tempo que a vida condicionou de forma inapelavelmente castrante.
Sentiremos o compromisso dos jogadores, apelando para transformar o estado da crença num desejo, que fará renascer a convicção para a conquista do sucesso?!...
Creio que mais do que apelar para as condicionantes biológicas, fisiológicas, atléticas e funcionais, nesta fase de abrangência competitiva, e tendo presente situações de dificuldade, que por mim foram evidenciadas no artigo anterior, deveremos antes de mais controlar os pensamentos, que movidos por uma cultura de honestidade, autenticidade, ética, resiliência e altruísmo, podem verem-se aperfeiçoados os seus desempenhos.
Neste âmbito, uma equipa mentalmente forte, os seus jogadores batem-se, jogam e lutam com a bravura dum guerreiro e vão mais longe na luta da sua conquista. Deixam no ar a linguagem da palavra, do gesto ou do silêncio, que acaba por ser o oxigénio que sustenta a convicção do êxito conseguido, porque o estado de alma envolto num espírito de conquista, é capaz de produzir um estado de crença que também gera biologia como força motriz de intencionalidade energética, onde se opera e alimenta o sucesso.
Nos dias de hoje e de acordo com algumas estratégias já por mim evocadas, através duma dinâmica de intervenção ou planificação de treino é possível a reconstrução dum modelo operacional, que após a avaliação de várias competências dos jogadores, poderemos atestar comportamentos, ajustar desejos, invocar convicções e partir para a viagem de sonho onde habita o êxito.
Entramos num momento fundamental para uma nova aprendizagem, convocados pelos sinais dos tempos. Cá estaremos para no momento próprio validar a oportunidade de rumar ao conhecimento, que vai nascendo da dúvida e alimentando da incerteza e nos permitirá requalificar o futuro."
segunda-feira, 1 de junho de 2020
A importância de ser o mundo...
"Duas visitas do Benfica ao Municipal, no Redolho, em Águeda. Primeiro para o campeonato, para defrontar o Recreio, na maior enchente jamais vista naquele estádio, depois para jogar contra o Luso, da vizinha Mealhada, para a Taça de Portugal.
No tempo do meu bisavó Afonso dizia-se: Águeda é o mundo! E até certo ponto era verdade. Não sei se hoje em dia Águeda oferece muito ao País. Se calhar, não. Mas o País também não nos oferece muito ao País. Se calhar, não. Mas o País também não nos oferece grande coisa, e nós não deixamos, por isso, de gostar dele. Claro que também nós não acrescentamos muito ao País, mas aí já somos tratados em conformidade. E este nós é mesmo nós: ou seja, é a primeira pessoa do plural; não é majestático.
Conheço muita gente para quem Águeda continua a ser o mundo. Com ponto de exclamação, ou não, no final da frase, pouco importa. Diria mais... ou, melhor, vou pôr o Alberto Caeiro a dizer para mim: 'O mundo não se fez para pensarmos nele, mas para olharmos para ele e estarmos de acordo'.
Não há muita gente que saiba que o Vidal, da Aguada, levou leitões à rainha de Inglaterra. Já esteve em lugares da Terra onde as pessoas ficam em Aguadas, de Cima e de Baixo, quanto mais Oronhe ou Bolfiar, o Raivo ou Valdomingos. Já estive em lugares da Terra onde as pessoas não sabem ao certo o que é um leitão e não têm conhecimentos muito mais profundos sobre a própria rainha de Inglaterra.
Antigamente, em Águeda, o campo de futebol chamava-se Campo de S. Sebastião. Tinha a capela atrás de uma baliza e o campo de básquete atrás da outra. À volta tinha tapumes de madeira, e o Recreio disputou nele os jogos mais fantásticos da sua história, expecto um. Nestas coisas de jogos históricos, a memória tem uma importância fundamental: quanto menos a gente se lembra deles, mais históricos são. Não há jogos históricos sem imaginação e um ou outro pormenor impossível de confirmar que possam motivar discussões vitalicias. Não é segredo para ninguém: a memória é a maior inimiga da imaginação. Nenhum golo é tão bonito como aquele do qual não há quem se lembre, mas do qual toda a gente finge lembrar-se no momento em que alguém se decide descrevê-lo. A bola caindo na entrada da área, o Fanfas chutando de primeira, as redes da baliza do lado da capela abanando de alegria. E quando o discutem, tornar-no verdadeiro: isto é, mais histórico.
As visitas do Benfica
Na excepção dos jogos históricos do Campo de S. Sebastião, há o Recreio - Benfica já na beira-rio, no Redolho, junto às Lavadeiras e ao Fojo. Nessa tarde, foi tanta gente ao Municipal, que o público se esticou ás linhas laterais, e eram guardas-republicanos a cavalo que vigiavam os fiscais de linha. A malta gritava: 'Tira o cavalo da frente, que quero ver a bola'! E cavalo e cavaleiro num orgulho desmedido de bestas a fazerem de guardas fronteiriços sobre os traços de cal.
Dia 26 de Fevereiro de 1984. O Recreio tinha o Tibi na baliza e levou quatro golos. O público do Benfica lançava a velha pilhéria: 'Vai buscar, Tibi!' E o Tibi ia, que remédio. Nené marcou dois golos, o Diamantino, um, e o Paulo César que jogava na defesa aguedense, acertou com a bola na própria baliza. O golo do Recreio foi de César, um brasileiro elegante que seguiu para Setúbal.
Os meus amigos Jorginho e Nogueira estava em campo, defendendo a camisola cor de sangue seco dos Galos do Botaréu. Mas não chegava. Como não chegou para evitar a descida e terminar de vez com a presença de Águeda na I Divisão, que durou apenas essa época na qual o Benfica viria a ser campeão.
Estive lá e vi. O Benfica em Águeda.
Depois o Benfica voltou a Águeda, e eu vi outra vez. E outra vez em Fevereiro: dia 29. Desta vez para a Taça de Portugal, mas sem Recreio. O adversário foi o Luso. Não o Luso do Barreiro, que não faria sentido andarem tanto as duas equipas para disputar uma eliminatória. Um Luso bairrradino, o Clube Desportivo do Luso, ali vizinho da Mealhada, que, não tendo campo de jeito para receber adversário de tal tamanho, recorreu aos préstimos do Recreio. Nesse tempo, o Municipal já não era pelado, tinha uma relva bem arranjada, à medida da habilidade dos craques. Curiosamente, e talvez porque não havia público até às laterais, a ser empurrado para fora das quatro linhas por guarda-republicanos, a relva não deu ao jogo a qualidade do anterior. Diamantino fez um golo, aos 73 minutos, e a contagem ficou-se por aí. Faltou-lhe a alma, ao encontro, quero dizer. A alma das gentes de Águeda que continuam a acreditar que Águeda é o mundo..."
Afonso de Melo, in O Benfica
Benfica até debaixo de água
"Um adepto do Benfica preferiu ficar com a cabeça à chuva do que usar um barrete dos holandeses
Dias antes do Benfica defrontar o Feyenoord para a 1.ª mão dos quartos de final da Taça dos Clubes Campeões Europeus 1971/72, o treinador dos holandeses, Ernst Happel, teceu declarações acerca dos 'encarnados' que inflamaram o ambiente da partida, 'uma perfeita mistificação futebolística, que não passava de equipa medíocre, de onze cultivado tecnicamente e ao nível de uma escassa instrução primária'. As palavras do técnico criaram enorme mal-estar junto dos adeptos benfiquistas e foram um tónico para os jogadores, que entraram em campo motivados para provar o contrário.
Com um excelente início de jogo, 'o Benfica meteu num chinelo o Feyenoord', contudo, por falta de acerto dos atacantes 'encarnados', a partida terminou com a vitória dos holandeses por 1-0. A boa imagem deixada pelos portugueses fez com que, no final do encontro, o treinador adversário se retratasse: 'estou, sinceramente, arrependido daquilo que disse sobre o Benfica (...) é muito mais forte do que pensava'.
Porém, o orgulho dos benfiquistas estava ferido. Não havia nada a fazer! Na 2.ª mão, os adeptos prepararam uma recepção monstruosa: «o Estádio da Luz, que apresentava o aspecto ciclópico de uma das suas maiores enchentes, o 'velho Benfica'. O Benfica das noites de gala europeia». Se nas bancadas os 'encarnados' apresentaram a sua melhor versão, em campo também não foi diferente. A equipa entrou muito forte e precisou apenas de cinco minutos para inaugurar o marcador.
A chuva intensificou-se e, na bancada à frente das cabines da rádio, estava 'um garoto que assistia ao jogo, ao lado de um holandês que obviamente se 'despistara' do seu lugar'. Ao aperceber-se que o miúdo tinha a cabeça encharcada, o rival ofereceu-lhe o seu barrete. No entanto, o 'rapaz olha para a barrete, lê o dístico «Feyenoord» e esboça um sorriso amarelo e recusa'. O holandês insistiu e o garoto 'acabou por aceitar, mas continuou com a cabeça descoberta à chuva'. Há feridas que demoram a sarar!
Em campo, os 'encarnados' responderam com golos à provocação do técnico holandês, marcaram três golos em 'quinze minutos de ouro e de aço (o ouro da técnica e o aço da determinação) (que) perdurarão por muitos anos na memória de mais de setenta mil pessoas', triunfaram por 5-1 e apuraram-se para a fase seguinte.
Nessa época, o Benfica sagrou-se campeão nacional. Saiba mais na área 6 - Campeões Sempre no Museu Benfica - Cosme Damião."
António Pinto, in O Benfica
Assegurar o futuro
"A poucos dias do regresso às competições, a nossa equipa de futebol tem vindo a treinar afincadamente, encontrando-se em estágio, no Benfica Campus, desde a passada quinta-feira, com a conquista do bicampeonato e da Taça de Portugal no horizonte.
Serão dez jornadas, mais a final da Taça de Portugal, em que a filosofia, desde sempre advogada por Bruno Lage – jogo a jogo –, será para manter. Assim como a máxima “todos contam”, uma das características mais vincadas da liderança de Lage.
É, por isso, ainda mais significativa a integração de oito jovens da nossa formação nos trabalhos da equipa A desde o reinício dos treinos. São eles Gonçalo Ramos, João Ferreira, Morato, Leo Kokubo, Paulo Bernardo, Rafael Brito, Tiago Araújo e Tiago Dantas, juntando-se a vários outros da nossa formação que já integram o plantel, podendo assim conviver, treinar e ambicionar jogar junto de colegas experientes e titulados com o emblema do Benfica ao peito.
Estes oito “miúdos” foram entrevistados pela BTV no último fim de semana, dando a conhecer um pouco de cada um a nível pessoal e como são enquanto jogadores, as suas ambições profissionais no futebol e a forma como se têm integrado no plantel da equipa A.
Alguns dos aspectos que mais sobressaíram nestas entrevistas foram a forte ligação ao Benfica destes jovens atletas, a identificação deles com os valores do Clube, a enorme vontade de singrarem na equipa A e de contribuírem para títulos do Benfica, além da gratidão e do reconhecimento da importância do Clube por tudo lhes possibilitar, dadas as condições de excelência – humanas, infraestruturais e técnicas – existentes no Benfica Campus.
A aposta na formação, com enorme retorno desportivo e financeiro, é uma realidade já com vários anos no Clube e será para manter. Esta crise global sem precedentes motivou, inclusive, um consenso no mundo do futebol acerca da necessidade de se enveredar cada vez mais por uma política desportiva assente na formação, devendo-se canalizar parte do investimento para a qualidade das infraestruturas e meios técnicos, assim como para a essencial excelência dos recursos humanos.
Este é um caminho que o Sport Lisboa e Benfica tem vindo a trilhar há mais de uma década, tornando-se numa referência mundial e sendo apontado, por empresas especializadas no sector futebolístico, universidades, meios de comunicação social e clubes, como um dos melhores exemplos da implementação bem-sucedida de uma estratégia de aposta na formação.
P.S.: Hoje, às 21h00, na BTV, o Presidente Luís Filipe Vieira dará uma entrevista em que serão abordados diversos temas da atualidade benfiquista, em particular o que foi feito, em várias dimensões, para lidar com a pandemia e a forma como foi preparada a retoma das competições. A não perder!"
O menino David Luiz
"Uma vez estive frente a frente com Darren Anderton. Os mais novos não fazem ideia de quem foi este jogador e a verdade é que eu também não me lembro lá muito bem dele em campo. Mas já o tinha visto um número suficiente de vezes na televisão para o reconhecer quando ele atestou o depósito do Lotus, do Lamborghini ou do Vauxhall numa movimentada estação de serviço a caminho de Londres onde eu trabalhei como repositor de loja durante um mês e meio, nas férias de verão de 1996.
Anderton tinha feito parte da selecção inglesa que, naquele ano, em solo pátrio, cantou o regresso do futebol a casa só para ver os seus belos sonhos destruídos, como habitualmente, por um grupo de alemães insensíveis, passe o pleonasmo. Quando voltei a Portugal, além de umas histórias bizarras que envolviam imigrantes portugueses e revistas pornográficas, o relato de um encontro com o sr. Pedro, meu vizinho lá no bairro e com quem me cruzei por acaso enquanto ele picava melancolicamente o lixo à volta da estação de serviço, e um quase incêndio em casa da minha tia quando eu e a minha avó tentámos grelhar peixe para fazer um calulu, não me cansei de dizer aos meus amigos que tinha visto Darren Anderton em carne e osso.
Ninguém ficou impressionado. Vejam, se eu tivesse visto um Paul Gascoigne, um Alan Shearer ou um Steve McManaman isso ter-me-ia valido a glória eterna junto dos meus amigos. Mas eu tinha tido a sorte macaca de encontrar Darren Anderton, um bom jogador obscuro, tão obscuro quanto um bom jogador, internacional pelo seu país, pode ser. Um pouco acima na escala “andertoniana” de fama estava Gary Neville. A fama devia-se não tanto às suas brilhantes capacidades futebolísticas, mas ao facto de vir acoplado ao irmão, Phil Neville. Eram os irmãos Neville e isso tornava-os identificáveis e basicamente indistinguíveis um do outro, como os irmãos Metralha ou os sobrinhos do Pato Donald. É esse o problema dos irmãos célebres. O que ganham em fama conjunta, perdem em individualidade
Isto para dizer que se tivesse visto Gary Neville a encher o depósito talvez tivesse tido mais sorte. Hoje, por exemplo, poderia ter começado esta crónica assim: “Uma vez estive frente a frente com Gary Neville, o homem que definiu David Luiz da maneira mais exata possível.” Creio que o leitor, se conhece a frase, concordará comigo. Neville, após abandonar o futebol e antes de enveredar por uma estranhíssima carreira de treinador, passou pelo comentariado futebolístico-televisivo. Foi nessas funções que disse que David Luiz, na altura a jogar no Chelsea, jogava como um boneco de Playstation comandado por uma criança de dez anos.
Vejam bem. Eu não me lembro de nenhuma jogada de Gary Neville em campo, de nenhum golo ou assistência, de rigorosamente nada que ele tenha feito num jogo de futebol (calculo que, como qualquer inglês, a dada altura da carreira tenha falhado um penálti decisivo numa grande competição), mas aquela frase – reveladora, transparente, definitiva – diz tudo sobre a inteligência do homem. Ele viu a essência de David Luiz de chuteiras, caneleiras e cabeleira: um boneco comandado por uma criança de dez anos. E o mais incrível é que, ao fim de oito ou nove anos, a frase não perdeu nenhuma actualidade e pertinência. David Luiz continua o mesmo, embora neste momento represente um clube onde a sua presença faz mais sentido: o Arsenal também é gerido como se fosse um clube de fantasia nas mãos de uma criança de dez anos.
Dizia eu que David Luiz continua o mesmo, talvez ligeiramente mais lento, mas sem nenhuma da ponderação, da ratice, da sabedoria esquinada que tende a vir com a idade. Tão depressa dá uma de Beckenbauer, a subir imperialmente pelo campo com a bola dominada rumo à baliza adversária, como logo a seguir falha o mais simples dos cortes ou faz um passe de trinta metros para o vazio como se metade do cérebro se tivesse apagado no segundo em que a chuteira acerta na bola. Tão depressa varre a grande área com a elegância e pacifismo de um Carlos Gamarra como incorre numa daquelas faltas à Pepe que lhe poderia valer uma acusação de tentativa de homicídio se fosse feita na rua. Às vezes karateca, coragem de Bruce Lee, outras vezes personagem de slapstick, a tropeçar nos calções caídos até ao tornozelo, assim é David Luiz.
Segundo a imprensa especializada, David Luiz anda a piscar o olho ao Benfica. É preciso ter cuidado com namoros destes. Em Inglaterra, o central brasileiro ganha 140 mil euros por semana. Mesmo que viesse ganhar um bocadinho menos no Benfica, era capaz de ser mais do que o clube pode pagar neste momento a um jogador com a idade crística de 33 anos e um cadastro de Barrabás, não obstante a sua quota de milagres.
Atenção, não sou ingrato. Apesar de todos os erros, do descontrolo emocional típico do fiel que acabou de sair do culto pentecostal das quintas-feiras, adoro David Luiz. Deixo as contas para os contabilistas. Há nele uma verdade qualquer, qualquer coisa genuína, que nos faz perdoar-lhe os erros.
O Terceiro Anel tem os seus patinhos feios e tem os seus cisnes. David Luiz é um cisne. Pode borrar tudo, pode, em certos momentos, ser mais desajeitado e deselegante do que um pato coxo, mas, caramba, não há ali um grama de mentira, de dissimulação. Dizem que as crianças não mentem. David Luiz também não. É uma criança grande comandada por uma criança de dez anos. Deixem-no vir antes que cresça e vá dar palpites num estúdio de televisão."
A bola vai rolar
"Portimonense e Gil Vicente, no Algarve, reabrem as “hostilidades”, depois de em 8 de Março último Paços Ferreira e Vitória de Guimarães terem encerrado a jornada 24.
O apetite dos milhões de adeptos portugueses do futebol está prestes a ser satisfeito com o reatamento do campeonato da primeira Liga, marcado para a próxima quarta-feira.
Nesse dia Portimonense e Gil Vicente, no Algarve, reabrirão as “hostilidades”, depois de em 8 de Março último Paços Ferreira e Vitória de Guimarães terem encerrado a jornada 24.
E aí, quando o apito do juiz soou pela última vez, sancionando o triunfo dos vimaranenses por 2-1, estávamos todos muito longe de imaginar o que iria acontecer poucos dias depois.
A verdade é que só após três meses é possível voltar a ver em acção as nossas 18 equipas, e em circunstâncias nunca pensadas antes e com consequências ainda difíceis de prever.
No ar há perguntas para as quais não são conhecidas respostas, mas que continuam a justificar-se por inteiro. Por exemplo: e se houver necessidade de proceder a uma nova interrupção do campeonato, quais são os procedimentos a adoptar? E, nesse caso, que se deseja não venha a surgir, como será feito o escalonamento das equipas portuguesas com vista à sua participação nas competições europeias?
Este não é, aliás, um tema novo, porque muitas vozes se têm levantado fazendo perguntas e acrescentando-lhes recomendações segundo as quais tudo deverá estar muito claro antes do primeiro chuto na bola na próxima quarta-feira.
E não é somente por falta de bom senso, pois é, sobretudo, ausência de serenidade, que tem estado ausente nos últimos dias entre a família do futebol, para que estas questões importantes tivessem sido debatidas e merecessem decisões adequadas.
Claro que, face à actual situação sanitária, pode vir a repetir-se tudo aquilo que deu origem à paragem iniciada em 13 de Março.
Não se deseja, mas a verdade é que a organização deveria partir mais respaldada para esta nova fase."
O Leite fará bem às águias?
"Por não serem animais mamíferos, as águias não consomem leite. No entanto, as águias do SL Benfica parecem estar prestes a adquirir 1,96m de Leite. O guardião brasileiro do Boavista FC, Helton Leite, estará a caminho dos ainda campeões nacionais, confiando nas notícias veiculadas.
A confirmar-se a sua chegada aos encarnados, o futebolista de 29 anos será sombra de Vlachodimos, acreditando, mais uma vez, que todas as notícias desportivas nacionais são verdadeiras (um mau princípio). Desta forma, o guardião grego permanecerá no clube da Luz. Ficaria desta forma solucionada a problemática da alternativa ao titular da baliza encarnada e, quiçá, a problemática do seu sucessor.
Com a contratação de Helton, Varela e Zlobin deverão conhecer o fim dos seus vínculos ao SL Benfica. Já Svilar deverá ter a oportunidade de dar seguimento à sua evolução num outro clube português, por empréstimo dos encarnados. Kokubo será, acredito, o eleito para fazer a ponte entre a titularidade na equipa B e a posição de terceiro guarda-redes do plantel principal.
“Gosta muito da ideia de jogar no SL Benfica” (pai de Helton Leite sobre o filho, ao jornal O Jogo, dia 26 de maio de 2020)
Apesar da idade, não se pode asseverar que as águias adquirem um guarda-redes experiente. Pelo menos não no panorama internacional. As duas épocas que está prestes a completar no Bessa constituem a sua primeira experiência fora do Brasil. No seu país natal, Leite destacou-se no Botafogo de Futebol e Regatas, clube carioca ao qual os axadrezados adquiriram o seu passe.
Ainda assim, os dez anos de experiência sénior dar-lhe-ão, por certo, uma bagagem interessante. Todavia, mesmo sem a bagagem de guarda-redes que Júlio Cesar, que, não há muito tempo, se despediu dos encarnados, tem, Helton Leite aparenta ter qualidade, ou qualidades, que o tornam um bom activo para as águias rentabilizarem desportivamente (financeiramente, já não haverá grande proveito a usufruir).
Fazendo (bom) uso da sua envergadura e altura, o brasileiro tem demonstrado competência nas bolas aéreas e nos remates de meia altura para cima, bem como no encurtamento dos espaços, graças à larga passada, e na execução da “mancha”. Tem igualmente revelado ser destemido e inteligente nos duelos um para um com jogadores adversários, incluindo nas saídas aos seus pés.
Helton Leite revela alguma agilidade e rapidez e, sobretudo, capacidade técnica nos confrontos directos com adversários. A sua capacidade de encaixe a remates de meia e longa distância é para lá de razoável. Por outro lado, remates de curta distância – sobretudo se rentes à relva – provocam-lhe dificuldades, não sendo a sua agilidade por vezes suficiente para compensar as suas dimensões físicas (1,96m e 92Kg). Contudo, Helton Leite consegue, por inúmeras vezes, fazer uso da sua capacidade mental e do conhecimento alargado que tem das lides da sua posição para suprir as eventuais lacunas físicas que possa apresentar.
O seu jogo de pés, ainda que não muito conhecido, não pode ser considerado mau. Ainda assim, a equipa técnica encarnada terá que empenhar algum tempo no trabalho de pés do guardião brasileiro. Eu acredito que esse empenho terá frutos, visto que quem se há pronunciado sobre a forma de trabalho de Leite revelou sempre que o “90” dos boavisteiros é dotado de excelente carácter, motivação e vontade de trabalhar.
Após duas épocas sem uma alternativa credível a Vlachodimos, os encarnados preparam-se para – por fim! – contratar um digno concorrente à titularidade da baliza benfiquista. Ainda por cima, o “módico” pagamento é de cerca de dois milhões de euros. Na presunção de que Helton assina pelos encarnados e de que nenhuma lesão o impede de mostrar serviço e todo o seu talento (como há acontecido no Boavista FC, na corrente época), afigura-se-me seguro afirmar que Leite fará muito bem às águias."
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