Últimas indefectivações

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Fernando Gomes, num tratado de bom senso e lucidez

"A exposição de Fernando Gomes na comissão parlamentar foi um tratado de bom senso. Mas não só: bom senso, sensibilidade e lucidez.
Em três palavras, concordo com tudo.
Não é nada de novo, quem segue este espaço sabe que já várias vezes escrevi sobre o assunto. Já aqui defendi, por exemplo, que é necessário penalizar as declarações incendiárias. Já aqui defendi também que é necessário tratar as claques como elas devem ser tratadas: como o embrião de uma agressividade que transforma o futebol num espaço violento, ameaçador e hostil.
Por isso não podia seguramente concordar mais com Fernando Gomes, quando ele diz que é necessário criar regulamentos mais duros que inibam as pessoas do futebol de destruir o sector.
Nesta altura, aliás, lembro-me de uma entrevista que fiz a Sir Dave Richards: o homem que liderou a Premier League entre 1999 e 2013, nos anos de maior transformação do jogo em Inglaterra.
«Em Inglaterra não é permitido falar de árbitros nem antes nem depois dos jogos», disse-me na altura. «Porquê? Porque é totalmente errado. É uma pressão inaceitável e não pode acontecer.»
Em Portugal as poucas tentativas que se fizeram de penalizar as declarações que lançam o ódio e a suspeição sobre os árbitros, e sobre o futebol em geral, morreram à nascença. Os dirigentes, em sede de Liga, chumbaram-nas com o argumento que atentavam contra a liberdade de expressão. 
«Liberdade de expressão? Tudo bem, se querem liberdade de expressão podem tê-la. Falem do jogo. Mas não critiquem o árbitro em público e não critiquem o espectáculo. Não é permitido, ponto final. Se o fizerem, vão ser punidos. Acima de tudo tem que haver respeito pelo jogo.»
Não deixa de ser curioso, de resto, que os mesmos dirigentes que acham que a restrição a declarações sobre árbitros é um atentado à liberdade de expressão sejam os primeiros a impor nos contratos dos jogadores cláusulas que os proíbem de falar sem autorização do clube.
Mas em frente. Até porque há mais.
Por exemplo: mais uma vez está coberto de razão Fernando Gomes quando diz não ser possível que em Inglaterra haja 2150 interdições de entrada em estádios num ano e em Portugal haja, no mesmo ano, apenas 88. É necessário haver mais fiscalização: aplicar melhor as leis. 
Mais uma vez lembrei-me de Sir Dave Richards, e do bom exemplo inglês. «O hooliganismo parou através de uma ação concertada entre a liga inglesa, a federação e o governo. Criámos uma força de stewards especialmente treinada para lidar com os hooligans. Identificámos os hooligans e foram banidos do futebol. Foi um trabalho muito demorado e custoso, mas hoje o fenómeno do hooliganismo está controlado», referiu.
«As claques continuam a existir, mas se querem violência, que o façam em casa. Hoje esses adeptos estão segregados: separados no estádio para não estarem juntos. E o ambiente é completamente pacífico. Qualquer pai pode levar o filho ao futebol tranquilo.»
Tão simples, não é?
O antigo dirigente garantiu até que se um adepto diz um palavrão nas bancadas hoje em dia, logo é chamado à atenção por outros adeptos que o alertam para a presença de crianças na bancada.
E não foi por isso que o ambiente nas bancadas ficou mais pobre: o futebol inglês não é conhecido, aliás, por ser triste, melancólico e silencioso.
«Não há segredos para criar uma liga fantástica, com jogadores fantásticos e estádios fantásticos. Tem tudo a ver com criar condições para o desenvolvimento dos clubes, e do próprio futebol.»
No fundo parece-me que foi esse alerta que Fernando Gomes foi lançar à Assembleia da República: precisa que o Governo o ajude a criar as condições para desenvolver o futebol.
Numa altura em que Portugal é campeão da Europa e em que a selecção está no topo do mundo, não faz sentido a liga continuar coberta de negro: suspeição, ódio, medo, desconfiança, hostilidade.
Não faz sentido. Ponto.
O futebol de clubes vive mergulhado num ambiente de guerrilha: um ambiente pesado, cinzento, depressivo. É urgente trazê-lo de volta ao lugar dele: ao pedestal de jogo mais bonito do mundo.
Até porque não é só o futebol que estamos a prejudicar: estamos também a lesar a educação dos nossos filhos, que vão crescer neste ambiente bélico. Que cidadãos vão ser?
Por isso, lá está, o Governo só tem de ouvir bem o que foi dito por Fernando Gomes. Um tratado de sensibilidade, bom senso e lucidez, no fundo."

Medidas inevitáveis

"Os campeonatos avançam, os interesses em jogo são conhecidos e, para os atingir há quem não olhe a meios para atingir os seus fins.

Se se deseja melhorar o clima que actualmente está instalado no futebol português há que tomar medidas duras e urgentes.
Fernando Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, esteve ontem na Assembleia da República onde foi ouvido pela Comissão que ali trata das questões desportivas. Ali traçou o quadro que caracteriza por esta altura a relação entre os vários agentes ligados ao futebol, fazendo acusações e avançando propostas. Entre estas, a da criação de uma autoridade administrativa virada para a segurança e combate à violência.
Citou, a este propósito, o tom bélico de alguns comentadores de futebol em programas televisivos, reclamando intervenção da ERC – Entidade Reguladora da Comunicação.
Não deixando de reconhecer a razão que neste aspecto assiste a Fernando Gomes, não é menos certo que lhe faltou uma palavra de condenação para com aqueles que neste momento são, entre outros, grandes fautores de causas de perturbação no futebol, os directores de comunicação dos três grandes. 
Outro aspecto apontado pelo presidente da FPF aponta para a necessidade de fazer aplicar rápida e rigorosamente a legislação já existente, no sentido interditar os estádios de futebol a adeptos marginais.
Em Portugal, esse número de interditos não atinge as nove centenas, enquanto na Inglaterra, por exemplo, com leis muitos semelhantes, esse número quase chega a quinhentos adeptos sob castigo.
A manter-se a situação e perante a passividade que está à vista em todos os domínios, a situação tenderá inevitavelmente a deteriorar-se.
Os campeonatos avançam, os interesses em jogo são conhecidos e, para os atingir há quem não olhe a meios para atingir os seus fins.
Este é o tempo de prevenir, para evitar que mais tarde seja necessário remediar."

Aves parecia o Bayern

"Qualquer adversário cria cinco ou seis ocasiões de golo contra o Benfica. Os adeptos acabam os jogos tão cansados como os jogadores.

Ganhámos na Vila das Aves, vitória por dois golos, relativamente tranquila, e a berraria continua. Num jogo onde o lance mais discutível foi um penalty não assinalado a favor do Benfica, o lance mais discutido foi uma falta a meio campo não assinalada a favor do Aves. Assim não há arbitragem que resista. Se mesmo quando somos prejudicados temos que ouvir dislates, então chamem os homens das batas brancas, com os coletes de força.
Dito isto, o Benfica pode e deve jogar melhor. Nesta fase, ganhar será o mais decisivo, mas para aspirar a conquistas precisamos de melhorar rumo aos títulos. Sem tirar mérito ao Desportivo dos Aves, durante o jogo de domingo dei comigo a pensar que estávamos a jogar com o Bayern Munique pela sétima vez. Qualquer adversário cria cinco ou seis oportunidades de golo num desafio contra o Benfica. Assim, o risco do resultado será sempre elevado. É este aspecto colectivo que mais me preocupa no Benfica, e não tanto a qualidade individual, por muito que se possa sempre querer mais e melhor. Como desabafa um amigo benfiquista, este ano os adeptos acabam os jogos tão cansados como jogadores. Ganhámos, somámos três pontos e isso foi bom.vencei com inteiro
Hoje teremos que voltar a ganhar para ainda ser melhor. O caminho do triunfo faz-se contra um adversário de valor, bem orientado e sem nenhum receio de jogar bem. O Sporting venceu o Feirense sete minutos depois da hora com golo de penalty. Numa semana onde o FC Porto igualou o seu melhor resultado dos últimos 24 meses na Taça da Liga, ficámos a saber que os adversários estão todos em grande forma. Temos que vencer logo pelas 19 horas, e que não falte apoio incondicional nem estádio que festeja o seu aniversário, e onde todos queremos continuar a viver momentos únicos de alegria e benfiquismo. Este ano entramos em cinco provas, vencemos a única que já terminou, faltam as outras.
Cristiano Ronaldo venceu com inteiro merecimento o prémio da FIFA para melhor jogador do mundo, numa gala que consagrou muito em função do êxito colectivo dos clubes onde os jogadores têm desempenho. O futebol é um desporto colectivo e assim é entendimento pela FIFA."

Sílvio Cervan, in A Bola

Boa vitória

"E por falar em cartilhas... Bastou o Benfica ganhar um jogo para que os videoparvos saltassem a terreiro com as suas verdades alternativas. É caso para dizer que entre insolventes e papagaios não há quaisquer falhas de comunicação. Se eu pudesse provar que estão coordenados, recomendá-los-ia para gestores do SIRESP. Espero que continuem, é sinal de que consideram o Benfica um adversário temível.
Enfim, ganhámos indiscutivelmente na deslocação à Vila das Aves, numa partida em que Rui Vitória manteve a aposta em Svilar, Rúben Dias e Diogo Gonçalves (porque são bons jogadores e não pela sua tenra idade), além de ter tido a coragem de decidir de acordo com as suas convicções, ao remeter para o banco o indiscutível Pizzi. Pouco me interessa agora se foi uma boa ou má decisão, mas valorizo ter sido aquela que, naquele jogo em particular, o nosso treinador achou ser a melhor. Parece-me fundamental que não se olhe aos nomes nas camisolas - o importante é o emblema. E o Pizzi, que tanta qualidade tem acrescentado à equipa desde que chegou ao clube, e não obstante ter começado o jogo no banco, entrou com a atitude do campeão que é o desempenhou um papel importante na nossa vitória.
E por falar em nomes nas camisolas, há um que nos remete imediatamente para conceitos futebolísticos como classe e faro de baliza: Jonas. Com o bis alcançado no passado fim-de-semana, o brasileiro, com 97 golos, passou a ser o 20.º melhor marcador da história do Benfica em competições oficiais (e o 16.º no Campeonato Nacional). É o segundo melhor estrangeiro de sempre, ainda distante dos 172 de Cardozo, mas marca mais dois golos a cada dez jogos em média do que o paraguaio. Notável!"

João Tomaz, in O Benfica

Viva a (in)coerência

"Na quinta jornada, após ter derrubado André Almeida ilegalmente, Nakajima apoderou-se da bola, serviu Fabrício, e o brasileiro conseguiu um golo que permitiu ao Portimonense ganhar vantagem frente ao Benfica. A imprensa pouco ou nada badalou o lance. Os supermagaespecialistas das redes sociais fecharam os olhos. Possivelmente, a falta terá passado despercebida por estar na origem da jogada, mas não ter influência directa no desfecho da mesma, pensei eu.
No passado fim de semana, após ter derrubado Nildo, ilegalmente, Jonas apoderou-se da bola, serviu Pizzi, e o transmontano, sofreu um penalty que permitiu ao Benfica dilatar a vantagem frente ao Desp. Aves. A imprensa pouca ou nada baldará o lance. Os supermegaespecialistas das redes sociais vão fechar os olhos. Provavelmente, a falta terá passado despercebida por estar na origem da jogada, mas não ter influência directa no desfecho da mesma, pensei eu.
Estava redondamente enganado. Imagine o leitor,  movimento faltoso do Jonas não só foi discutido em todos os espaços de análise como se transformou na principal causa da vitória do Benfica na Vila das Aves.
O (pouco) espaço de destaque que restava serviu para sublinhar a cinzenta exibição do Benfica - como bem ilustram, aliás, os escassos 12 remates à baliza de Quim.
Nos últimos anos tenho suspirado pela paz no futebol português. Enfim, o sossego parecia ter chegado... até que o Benfica voltou às vitórias. Fica a impressão, certamente - de que isto apenas anda calmo quando o Benfica marca passo.
Sendo assim, agora suspiro por algo diferente: que a peixarada, a choradeira e o mau perder voltem rapidamente a reinar."

Pedro Soares, in O Benfica

Sangue novo

"Quando Luís Filipe Vieira afirmou, há uns anos, que o Benfica poderia um dia vir a ter uma equipa predominantemente formada no Seixal, confesso que torci o meu nariz.
Não me parecia possível criar jogadores em quantidade e qualidade suficiente para tal. E, assim, pensava que uma aposta demasiado voltada para esse caminho poderia significar tempo perdido. Passados alguns anos, e quando olho para Ederson, Nélson Semedo, Lindelof, João Cancelo, Renato Sanches, Bernardo Silva, André Gomes ou Gonçalo Guedes, para citar apenas os casos mais relevantes (e só estes oito nomes representam já mais de 200 milhões de euros em transferências), percebo que a ideia era tudo menos disparatada. Na verdade, não estivesse o Benfica brigado a vender jogadores anualmente para, com isso, manter as contas equilibradas, e já poderíamos ter uma grande equipa, quase toda ela made in Seixal.
O que falta então para o sonho se concretizar no futuro? Essencialmente diminuir o nível de endividamento, de modo a permitir à SAD a robustez financeira suficiente para resistir ao assédio das grandes potências internacionais. Daí a redução do passivo ser, hoje, uma das grandes prioridades do Benfica.
Entretanto, Rúben Dias e Diogo Gonçalves afirmam-se a cada dia que passa como apostas ganhas. João Carvalho também terá, seguramente, as suas oportunidades. E outros estão na calha. O investimento no Seixal mostra-se, portanto, um dos pilares do Benfica para as próximas décadas. Modelo que, diga-se, está prestes a ser replicado também noutras modalidades, com o Centro de Alto Rendimento de Oeiras já em marcha."

Luís Fialho, in O Benfica

A nova Luz

"Comemoramos o 14.º aniversário da nossa Catedral. Recordo 14 monumentos.
25/10/03 - inauguração da Luz com a inesquecível ode de José Fialho Gouveia.
17/03/04 - Sokota e Tiago marcam frente ao Belenenses e carimbam o passaporte para a final da Taça de Portugal, que acabaríamos por vencer frente ao FC Porto (2-1).
14/05/05 - Luisão bate Ricardo nas alturas e faz o golo que nos abriu a porta do 31.º título.
04/05/09 - Aimar marca o 2.º golo frente ao V. Guimarães (2-1) e estamos na final da Taça da Liga, onde batemos o Sporting.
03/01/10 - Saviola marca o golo da vitória frente ao Nacional, dando início à carreira vitoriosa rumo à conquista da 2.ª Taça da Liga.
09/05/10 - Conquista do 32.º Campeonato com a vitória frente ao Rio Ave (2-1).
02/03/11 - Cardozo e Javi Garcia marcam na vitória frente ao Sporting (2-1). Sò parámos na final da Taça da Liga em Coimbra, onde batemos o Paços de Ferreira (2-1).
20/03/12 - Maxi, Nolito e Cardozo marcam na vitória frente ao FC Porto (3-2). Em Comibra, voltámos a conquistar a Taça da Liga - vitória por 2-1 frente ao Gil Vicente.
15/01/14 - Djuricic e Ivan Cavaleiro marcam na vitória frente ao Leixões (2-0) que nos levou à conquista do 6.ª Taça da Liga.
20/04/14 - Lima marca dois golos ao Olhanense e dá-nos o 33.ª Campeonato.
11/02/15 - Talisca, Pizzi e Jonas qualificam-nos para a final da Taça da Liga, na qual vencemos o Marítimo (6-2).
23/05/15 - Lima e Jonas levam-nos ao rubro na festa do 34.º Campeonato.
15/05/16 - Gaitán, Jonas e Pizzi marcam na vitória frente ao Nacional que nos deu o 35.º título.
13/05/17 - Cervi, Raúl, Pizzi e Jonas brilham na conquista do Tetracampeonato."

Pedro Guerra, in O Benfica

O que uma Águia vê quando voa...

"Esta semana estamos a cumprir o décimo quarto aniversário sobre a gloriosa noite de 25 de Outubro de 2003.
´Mais de quinze milhões de espectadores depois dessa data, o Estádio do Sport Lisboa e Benfica é o autêntico palácio da Família Benfiquista, onde conjuntamente vivemos as nossas glórias e tristezas, celebramos a nossa fé e damos livre curso à paixão que nos une, na inigualável diversidade de todas as nossas diferenças.
Após quase 50 anos vividos à cadência constante de imparáveis índices de crescimento e expansão que nenhuma outra instituição da sociedade portuguesa conhece, tivemos tempo e fortuna suficientes para sedimentar e fortalecer na 'velha Catedral' a poderosa unida que nos caracteriza como adeptos. E agora, já nos aprestamos a completar o terceiro lustre da vida desta nova estrutura monumental que tanto orgulha e enobrece o Benfiquismo.
Bem nos devemos lembrar, hoje e sempre, de quando terá sido difícil e arriscado o empreendimento da construção da 'Nova Luz': na miséria em que nos encontrávamos, as condições de base para tomar a decisão de avançar e construir eram absolutamente inexistentes, depois de um ladrão que esteve entre nós nos haver espoliado de quase todos os recursos materiais.
Só a determinação, a generosidade pessoal e a persistência de um mitigado grupo de Benfiquistas visionários concebeu então o que a muitos (como eu...) parecia impossível. E a obra nasceu e ergueu-se. O nosso Estádio da Luz, como o povo lhe chama, o Estádio do nosso Sport Lisboa e Benfica, perdurará como símbolo maior do que nos caracteriza como Clube maior e inigualável: nenhuns outros jamais conseguirão alcançar o que já atingimos e o que havemos de conquistar, se nos mantivermos sempre todos juntos, a imaginar o que uma Águia vê quando voa..."

José Nuno Martins, in O Benfica

Benfiquismo (DCXXXIX)

Mais uma...

Aquecimento... Antevisão...

(In)consciência !!!

Conversas à Benfica 24

Conversas à Benfica 23

Conversas à Benfica 22

A regulação no futebol português

"Como estava previsto, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes, foi ouvido na Comissão da Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto da Assembleia da República para poder expor, em pormenor, as razões fundamentais que nortearam a publicação de um artigo que causou grande impacto sobre as suas legítimas preocupações no que respeita no actual estado crítico do futebol português.
Percebe-se, em primeiro lugar, que o timing não é melhor. O futebol já tem fama de ser suficientemente marginal à sociedade para não lhe merecer, em qualquer altura, a importância do esforço de qualquer intervenção estrutural, quando mais agora que o país vive tempos justificadamente ocupados pela urgência de responder, aos mais diversos níveis, à calamidade pública causada pelos incêndios que flagelaram e destruíram parte significativa da floresta, ceifando mais de uma centena de vidas e arrasando o património de centenas de portuguesas.
Mas não é pelo facto de Portugal ter, neste momento, as suas maiores atenções viradas para o rescaldo de uma tragédia brutal que todos os outros problemas reais da sociedade portuguesa deixam de ser problemas. E, entre estes problemas, está, de facto, o estado de profunda crise moral, cívica e desportiva do futebol profissional.
O que Fernando Gomes foi dizer ao Parlamento é que o futebol já não governa, nem se governa. Que é urgente criar um regulação autónoma, com capacidade de decisão e de penalização. Que aos políticos cabe agir, legislar e mudar esta grave situação. Não foi pouco. Será muito, se os políticos assumirem, agora, o seu dever."

Vítor Serpa, in A Bola

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Guarda-redes, bem tão precioso

"Surpresas José Sá e Svilar... diferentes. Numa há 'mistério' (até Janeiro?). A outra é consequência (feliz?) do desnorte pós-Ederson.

São tão importantes, os guarda-redes, que está na berra discutir porquê joga este e não aquele. Idêntico ênfase não se coloca sobre quem deve ser o defesa-direito, o médio mais ofensivo, o ponta-esquerdo, ou mesmo o ponta de lança.
Guarda-redes potenciam problema extra para o treinador. Desde logo, porque, no onze, só um pode estar (em todas as outras funções, adaptar é possível para alguém não sair da equipa: mais à esquerda ou à direita, mais à frente ou atrás). E também porque guarda-redes, quando erra, cai-lhe o mundo em cima (não fica assim terrivelmente marcado o defesa que faz autogolo, nem o avançado que, baliza escancarada, 2 ou 3 vezes no mesmo dia nela não consegue acertar). Sim, tenho especial respeito/admiração pelos guarda-redes, ora heróis, orá réus condenadíssimos. E é pura verdade: só esporadicamente pode haver equipa campeã sem estupendo guarda-redes - esse preciso bem que os treinadores tanto procuram porque... dão pontos. Por isso, muitíssimo estranho que, na cotação internacional - quer para máximos prémios, quer na bolsa do mercado de transferências -, eles sejam, por regra, desvalorizados face a médios e defesas.
De súbito, grandes surpresas no nosso futebol: o treinador do líder e o treinador de campeão decidiram mudar titularidade na baliza, entregando-a, num caso, a um jovem (24 anos) e, noutro, a um imberbe (18, recém-completados). Curiosamente, decisões simultâneas.

José Sá: surgir no lugar do prestigiadíssimo Casillas dá enorme brado, havendo carência de evidente explicação. Casillas vinha jogando normalmente bem e a sua queda para suplente nem sequer foi imediata ao jogo com o Besiktas... Bem depois, que terá ocorrido nas semanas sem campeonato? Estrear José Sá em casa do vice-campeão da Alemanha foi acto de coragem. E titular se tem mantido, inclusive na Taça da Liga, quando Sérgio Conceição optou por quase todos os habituais suplentes - daí se pode ler que José Sá é mesmo aposta nada ocasional (objectivo: dar-lhe rodagem), para além que atirar Casillas para esse jogo com o Leixões poderia soar a pouco menos do que desconsideração...
SAD e treinador não contavam que Casillas, altíssimo salário, accionasse cláusula de renovação. Janeiro é já ali; então veremos se Casillas decide partir...

Svilar, caso muitíssimo diferente. Sim, tem pinta! Mas a sua estreia na Champions, e perante Manchester United, aos 18 aninhos - antes do Benfica, nem um jogo fizera por equipa sénior! -, é, sobretudo, consequência do desnorte em busca do pós-Ederson. Tornou-se rábula até ao fecho do mercado. Bruno Varela, recuperado ao V. Setúbal, nunca terá sido visto como o tal. Num ápice titular, porque as lombalgias de Júlio César somaram e seguiram. Fez 8 jogos, mas, ao 8.º, por um frango, logo foi condenado, aos 22 anos (cruel!). Voltou Júlio César - na catástrofe dos 5-0 em Basileia, sem frango, foi, quando a mim, muito lento em 2 ou 3 golos. E eis que Svilar - tão miúdo, deveria ser-lhe dada prudente progressão - tem mesmo de saltar para titularidade (e bem firme: «jogará já de seguida», perentória garantia do treinador após o frango na Champions).
Svilar parece possuir potencial de características para excelente, quiça brilhante, futuro. Outro Oblak (aos 18 anos, rodava no Rio Ave), outro Ederson? Para já, foi o desnorte benfiquista que o colocou em inusitado altíssimo risco.

Greve dos árbitros anunciada para... final de Novembro. Não entendo, pois o clima contra eles não está pior do que estava há um mês, quiça pelo contrário. Subentendo: escolha da Taça da Liga visa primeiro aviso no claro confronto com a Liga, nomeadamente com o presidente Pedro Proença, um bocado esquecido de ser ex-árbitro...
VAR: como era previsível, desgraçadamente, nem esta importantíssima inovação escapa à desconfiança e, mais, a ser arma de arremesso. Claro que clamorosa persistência de Rui Costa no erro, em Alvalade, ajudou. Clamoroso também foi o erro de Nuno Almeida (e do árbitro auxiliar) no início da jogada rumo ao 2.º penalty do Aves - Benfica (aí sem VAR). Mas querer que o Conselho de Disciplina aja sobre falha, de tecnologia, que silenciou o VAR... passa das marcas! Vale tudo na surda guerra à FPF."

Santos Neves, in A Bola

Feche os olhos

"Faça um exercício: feche os olhos e diga o nome do primeiro jogador do Moreirense que lhe vem à cabeça. Difícil? Então venha para sul e pense em alguém do V. Setúbal, Estoril, algum? E que tal o Belenenses? E do Tondela? Do Paços de Ferreira? Do Chaves? Do Aves? Se tem dificuldade em seleccionar um nome ou só se lembrar do fulano que marcou ou fez aquela finta engraçada contra a sua equipa (parto de pressuposto de um que torce por Benfica, Sporting ou FC Porto) não fique chateado: faz parte da maioria. Daqueles que seguem o futebol de uma forma interessada mas sem ler todas as notícias, sem se interessar muito por tudo o que não diga respeito às cores dominantes. Que sabe o onze do Chelsea mas não o do lateral-direito do quinto ou sexto classificado da Liga. Ou sequer do guarda-redes.
O futebol português está, infelizmente, como o país. Um Portugal que hoje chora o longo eucaliptal. Porque seca como sempre e arde como nunca. Os três grandes cada vez mais concentram as atenções e tudo à volta também definha. Há sempre um SC Braga, um V. Guimarães, um Marítimo e um Rio Ave a lutar por algo mais, mas as desigualdades são cada vez maiores. A desertificação do nosso interior podia ser transportada para o campeonato. Oito dos 18 clubes não gastaram dinheiro no verão em contratações e outros quatro nem chegaram a um milhão de euros de investimento. É verdade que os nossos treinadores são muito bons, mas sem dinheiro não há qualidade. E sem qualidade o campeonato torna-se numa prova incapaz de se vender para fora. Muita táctica mas pouco virtuosismo individual. A descentralização de direitos televisivos explica a clivagem, mas pedia-se mais criatividade de quem gere a prova. Nem uma promo, um media open day obrigatório, um rasgo qualquer. Na última jornada europeia as cinco equipas portuguesas perderam. E no regresso ao campeonato quatro delas ganharam e outra empatou. Não é por acaso."

Fernando Urbano, in A Bola

Svilar vai construir um império

"A juventude é a fase embrionária de um talento. Nesse tempo de sonhos e ilusões define-se o rumo dos homens, primeiro por instinto e às vezes atrevimento inconsciente, depois pela disponibilidade em acumular informação, crescer e fortalecer a aprendizagem; antes como sinal precoce de uma vocação genética, depois como consolidação de armas que permitem resistir à tragédia e à glória efémera. No futebol, o talento juvenil é visto, em muitas ocasiões, como elemento volátil, de confirmação duvidosa. Tão depressa é uma fonte de inspiração que antecipa a expressão de génios como serve para lançar a dúvida e crucificar exageros; tende a alimentar a esperança mas, não raras vezes, funciona como anúncio do apocalipse. O guarda-redes sofre mais do que os outros porque a sua construção depende de elementos técnicos, tácticos, físicos e psicológicos indissociáveis da evolução humana. O tempo é um velho amigo, porque traz ferramentas fundamentais ausentes nos primeiros passos.
A expressão total da grandeza do guardião do templo costuma ser feita aos poucos, até atingir a fronteira imaginária, entre os 25 e os 30 anos, quando completa os argumentos de uma tarefa interdita a menores. O passar dos anos acrescenta os valores adultos e imprescindíveis de maturidade, serenidade, liderança, estatuto e intimidação - e só então o puzzle se conclui, desde que não sejam danificadas as virtudes mais relevantes logo detectadas no ADN (instinto, ilusão, magia, coragem, compromisso…). Svilar é um fenómeno porque, aos 18 anos, já equilibra qualidades do adolescente que ainda é com as de um veterano; consegue ser expansionista sem ser extravagante; é candidato a protagonista mas não se diminui assumindo o papel de actor secundário; tem confiança insolente para se entregar a aventuras contínuas e exibicionistas mas reconhece as vantagens de se manter calmo ao fim de longos períodos como espectador.
O belga tem quase tudo do que é feito um mago das balizas: físico, elegância, carisma, coragem, concentração, técnica, inteligência, confiança, agilidade e reflexos... Raros foram os que assimilaram, em tão tenra idade, tantos princípios inerentes ao papel que lhes cabe numa potência. Svilar orienta-se pela eficácia em detrimento do adorno e da espectacularidade. É um adolescente precoce, com perfil de adulto, que vai atingir o auge mais cedo do que os outros. Longe de ser um projecto concluído, já possui qualidades que o levaram precocemente ao estatuto de enorme guarda-redes. Amadeo Carrizo (n. 1926), o argentino que revolucionou a função nos anos 50, pelo River Plate, disse com desassombro: "Um guarda-redes só se faz verdadeiramente depois de sofrer mil golos." Mesmo considerando o exagero, servem as palavras do velho general para percebermos que Svilar tem ainda muita estrada para andar.
Para o Benfica, o ideal seria repetir com o belga o que foi feito com Oblak (aos 18 anos estava no Olhanense) e Ederson (defendia o Ribeirão): emprestá-lo para rodar e cometer todos os erros de crescimento longe da Luz. Rui Vitória correu o risco e lançou um jovem com disco rígido incompleto. Face ao erro com o Man. United, anunciou desde logo que jogaria nas Aves, ao contrário do que fez com Bruno Varela, depois do falhanço no Bessa. A incoerência está à vista mas o treinador está obrigado, também, a decidir segundo as suas convicções - para Vitória há diferenças entre um bom guarda-redes, que desempenhou missão específica, e outro que, cometendo erro clamoroso, tem o perfil dos melhores do Mundo. José Mourinho deu uma achega: "Este miúdo é uma fera. O Benfica tem um guarda-redes top." Svilar passeia com a palavra 'classe' escrita em cada gesto e movimento. Devia esperar um pouco, é verdade, mas as circunstâncias anteciparam o processo: tem de começar já a construir o império como senhor das balizas encarnadas.

Empate de CR7 na luta com Messi
Para Valdano, de cada vez que Messi se constipa, CR7 é o melhor do Mundo
Cristiano acaba de cometer uma proeza extraordinária: igualar Messi na conquista dos prémios individuais mais importantes do futebol. O parcial de 5-5 em dez anos consecutivos não tem paralelo na história do futebol. O argentino andou sempre à frente e chegou a ter vantagem de 4-1, num cenário global, agora mais esbatido, ser o melhor de sempre. Um exagero que CR7 sublinha com este empate inacreditável.

Guarda-redes no ponto certo
Benfica e FC Porto mudaram de guarda-redes praticamente ao mesmo tempo
Svilar encerra riscos por tenra idade e ausência de experiência, José Sá remete para a eventualidade de um problema onde havia solução (Casillas). Aos 24 anos, está no ponto para assumir a baliza portista, desde que seja essa (e é) a convicção do treinador. Sérgio Conceição optou com base em argumentos invisíveis do exterior. Nem por isso deixa de ser uma decisão menos legítima. Se é correta, o tempo dirá.

Dupla grosseria de Rui Costa
Em Alvalade aconteceu um momento de arbitragem de todo lamentável
Rui Costa sentiu-se enganado por Gelson e transformou penálti claro em simulação do sportinguista, reagindo à imaginária ofensa com um cartão amarelo vergonhoso. O erro, apesar de grosseiro, é desculpável. Miserável foi manter a decisão vistas as imagens do VAR. Entre abdicar do quero, posso e mando e ser humilde, preferiu ser simplesmente ridículo. Não há tecnologia que valha à incompetência."


PS: Uma das interessantes curiosidades desta semana, em todas as colunas de opinião que destacaram o duplo erro de Rui Costa no Sporting-Chaves, é o facto de terem completamente ignorado o erro de Rui Costa e do VAR ao validar o 1.º golo do Sporting, e de também terem ignorado o erro que Rui Costa e o VAR cometeram quando a 10 minutos do final da partida, não assinalaram um claro penalty contra o Sporting, cometido por Rui Patrício!!!
A propaganda tem este tipo de efeitos...!!!

Ronaldo

"Ronaldo voltou a não marcar em La Liga. O Ronaldo da Liga dos Campeões não é o mesmo para consumo interno. Só marcou um golo nas cinco partidas que jogou. As primeiras quatro partidas não jogou por sanção, depois de ter empurrado um árbitro. Na Liga dos Campeões, cinco golos em três jogos é muito bom.
Por outro lado, está sempre a gesticular com os colegas e zangado com o jogo por não marcar golos. Talvez tenha de vir atrás buscar jogo e iniciar as jogadas, em vez de ficar sempre à espera de finalizar. Ronaldo tem que mudar de atitude nos jogos da liga espanhola.
Ronaldo pode jogar bem, sem marcar golos. A sua constante ansiedade quando não marca prejudica o seu desempenho e da própria equipa. Ronaldo não tem que marcar sempre.
Esta segunda-feira foi eleito o melhor jogador do Mundo e conquistou este troféu pela quinta vez. Ronaldo é um orgulho nacional. Espero que seja uma motivação para melhorar.

Neymar viveu um inferno no jogo com o Marselha. Sempre que marcava um canto arremessavam paus, latas de coca-cola, sumo de laranja. Todavia, em vez de manter a calma e controlar-se, respondeu às provocações. Poderia ter optado por não marcar os cantos, evitando estar junto aos adeptos do Marselha. Ficou alterado, fora de si, perdeu a sua tranquilidade, paciência e acabou expulso quando o Paris Saint-Germain estava a perder 2-1. A salvação foi o seu aparente inimigo Cavani, que marcou o golo do empate no período de descontos.
Neymar é um grande jogador e sofre muitas faltas dos adversários para ser parado, mas tem que ter outro tipo de comportamento se quer chegar a melhor do Mundo. Tem que estar preparado para este tipo de provocações. Todavia pelo seu custo - 222 milhões -, sabe que tem toda a gente com os olhos postos em si.

José Sá, que esteve hesitante no jogo contra o RB Leipzig, teve de novo a confiança de Sérgio Conceição. Vamos voltar a ter na baliza do Porto um guarda-redes português na senda de Vítor Baía. Casillas terá que se sentar no banco e evitar fazer cenas como fez no Real Madrid com Mourinho e começar a pensar mudar de ares, talvez para os EUA. O seu enorme salário (5 milhões brutos) não ajuda a cumprir o fair play financeiro e a fazer face às debilidades financeiras do Porto.

Miguel Oliveira venceu a corrida de Moto2 na Austrália com uma autoridade impressionante. Arrancou em primeiro e assim se manteve nas 25 voltas da corrida. Ainda vamos vê-lo na MotoGP, que é a categoria rainha.

Valentino Rossi fez uma recuperação soberba, protagonizou uma corrida fantástica, com muita emoção e alterações constantes na classificação, grandes ultrapassagens, toques entre pilotos, felizmente sem consequências. Valentino Rossi foi segundo e Marc Márquez venceu, mas a luta foi espectacular.

Ivo Oliveira é vice-campeão europeu de perseguição, conquistando a medalha de prata na prova de perseguição individual do Campeonato da Europa de Pista.

Rui Oliveira, irmão gémeo de Ivo, conseguiu a primeira medalha portuguesa de sempre em competições de pista na categoria de elite, alcançando o terceiro lugar em eliminação."

Rúben Dias