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sábado, 27 de fevereiro de 2021

“Uns chavalos drogados gritaram 'oh palhaço'. Eu, burro, respondi, levei e dei socos, fugi e fiz uma rutura. Porque não fiquei calado?”


"Porque "nunca tive muita paciência", diz às tantas João Peixe, formado no Benfica e uma das maiores promessas do futebol português que não atingiu o ponto de rebuçado talvez por causa da impaciência. Como daquela vez em que meteu na cabeça que tinha de ir para Inglaterra e deixou o Estrela da Amadora para trás mudando provavelmente o curso da carreira. A alcunha dele era Traimão: um peixe que dá choque.

Nasceu na Nazaré. Fale-nos um pouco da sua família, quem eram os seus pais, o que faziam profissionalmente, tem irmãos?
Sou filho único. O meu pai foi durante muitos anos pescador, agora está reformado. Foi pescador na Nazaré e no estrangeiro, embarcado em navios, e a minha mãe foi durante muitos anos, peixeira, vendia peixe de porta em porta. Uma família típica daquela zona.

Lembra-se de ir com a sua mãe vender peixe?
Sim, lembro-me de ir com ela à lota principalmente, quando o meu pai estava no mar com o meu avô e com o meu tio. Eles tinham uma traineira e quando estavam a chegar ao porto de abrigo para descarregar comunicavam por aqueles rádios de onda curta, salvo erro, e as mulheres eram chamadas. Eu estava lá com a minha mãe também, também ia à noite para a lota.

Era um puto reguila?
Era reguila sim [risos]. Era reguila ao ponto de me chamarem coisa ruim, como se costuma dizer [risos].

Qual foi a primeira asneira daquelas que mereceu um castigo mais duro?
Lembro-me de duas. Uma vez peguei num pau e dei na cabeça da minha avó e uma vez o meu pai passou-se comigo porque atirei uma pedra a um carro. Acabei por não fazer qualquer estrago no carro, foi ao lado, mas o meu pai passou-se comigo e deu-me uma coça.

Gostava da escola?
Gostava, gostava da escola e fui sempre muito bom aluno até ir para Lisboa, para o Benfica. Depois naquele último ano antes de ir, foi uma desgraça, a minha cabeça já não estava lá.

Faltava às aulas para ir jogar à bola?
Não, faltar às aulas não, mas nos intervalos das aulas, aqueles 15 minutos, meia hora de intervalo, já no ciclo, na preparatória, tínhamos um campo de futebol dentro das instalações do externato Dom Fuas Roupinho e passávamos os intervalos a jogar à bola.

Sempre disse que queria ser jogador de futebol?
Sempre.

Torcia por que clube?
Sempre fui benfiquista. O meu pai era benfiquista e eu comecei a gostar de futebol e a ver os jogos na televisão com o meu pai.

Quem eram os seus ídolos?
Os meus ídolos naquele tempo, eram o Nené, Filipovic, mais tarde, quando começo a ter outra noção e já estou em Lisboa, eram o Rui Águas, Magnusson.

Com que idade e como vai parar aos Nazarenos?
Aos nove anos, era infantil. Houve captações, foram cerca de 70 miúdos e eu também fui lá fazer os testes, aquilo era pegar na bola e tentar fintar todos para impressionar [risos], Fiquei e de forma natural comecei a fazer parte da equipa de infantis. Tenho uma história engraçada nos Nazarenos.

Conte.
Eu sou expulso num jogo contra o Sporting Clube da Estrada, que era uma equipa ali perto, de Peniche. Era como se fosse um Nazarenos-Peniche que eram dérbis de cortar à faca em qualquer escalão. E houve um jogador deles que me deu uma grande porrada junto à bancada, era a chamada zona dos índios, onde estava aquele pessoal que fazia mais barulho. Ele deu-me uma grande porrada, numa jogada por trás e eu instintivamente desatei ao soco com ele e fui expulso. Foi a minha única expulsão, serviu-me de exemplo para toda a vida. A sensação de ser expulso...Senti-me muito mal e apanhei dois jogos de castigo. Cumpri um jogo que ainda faltava no Bombarral nessa fase e depois íamos jogar a meia final do campeonato distrital de infantis com o Marinhense, mas eu não podia ir jogar. Só que eles lembraram-se de meter-me a jogar com o cartão de outro jogador [risos].

Não foi apanhado?
[risos]. A única coisa que me disseram que eu tinha de saber, era o nome que estava no cartão com que ia jogar. Nunca mais me esqueci do nome: Marco António de Sousa Lopes, era o nome do meu colega que era conhecido pelo Bolachas. Mas deviam-me ter dito também para eu decorar o nome da mãe e do meu pai, caso eu fosse chamado à cabine do árbitro no final do jogo. Jogamos, ganhamos 1-0 e fiz o golo. Eu já era conhecido ali na zona e o treinador da equipa do Marinhense fez queixa de mim. Fui chamado à cabine do árbitro que me perguntou como é que eu me chamava, eu respondi: Marco António de Sousa Lopes, perguntou-me o nome da minha mãe e do meu pai e eu fiquei atrapalhado e inventei "Olhe o meu pai chama-se Manuel de Sousa Lopes e a minha mãe, chama-se Maria" [risos]. Não fui bem treinado e apanhei seis meses de suspensão.

Ficou zangado, não?
Claro, eu tinha 11 anos. Aquilo foi muito mal feito porque bastava dizer-me para decorar o nome dos pais ou então acabava jogo e alguém pegava em mim e levava-me logo embora. O que aconteceu é que o treinador da equipa adversária era um ex-colega do meu treinador, senhor António Maranhão, e tinha andado uma época inteira a jogar com um jogador mais velho com um cartão de outro. Então o senhor Maranhão achava que ele nunca na vida ia fazer queixa, mas fez [risos]. Eram amigos mas ele ficou chateado.

Como surge o Benfica?
No ano seguinte não há o escalão de infantis por falta de verbas e ficamos parados sem jogar e então organizaram torneios, uns de futebol de sete e outros de futebol de onze. A malta dos Nazarenos fez uma equipa e limpámos os torneios da Páscoa e de verão e no final, o dona da equipa, disse que tinha um conhecimento juntamente com o António Carlos Midões, no Benfica, e que quem quisesse ir fazer testes que dissesse que eles levavam a treinar. Na altura fomos três da Nazaré. Fui eu, um primo meu e outro colega.

Os seus pais nunca se opuseram?
Não. O meu primo era bom jogador mas não ficou. Era do escalão acima, era mais velho do que nós um ano e isso também teve influência.

Esse seu primo é o Emílio Peixe?
Não, é outro meu primo, o Nuno. Eu e o Emílio não somos primos direitos, mas os nossos pais ainda são primos.

Entretanto ficou no Benfica.
Sim, o treinador era o António Bastos Lopes, convidaram-me para fazer contrato com o Benfica, a representar a equipa de iniciados do Benfica.

Foi viver para Lisboa, naturalmente.
Sim, fui sozinho, com 13 anos, para o centro de estágio debaixo das bancadas, junto à loja do Benfica. 

Como é que foi quando se viu sem os seus pais?
Para mim foi tudo bom. O meu pai na altura estava embarcado, eu era filho único e passei a viver num sítio onde tinha muitos "irmãos" e claro, ia muito motivado, muito contente.

Nunca chorou com saudades de casa?
Quando cheguei lá era tudo novo, estar a vestir a camisola do Benfica, viver no estádio, ir ver os treinos dos seniores, ver os meus ídolos de perto, ir aos torneios, na pré-época deu para vir a casa na folga porque ainda não havia escola, era verão, e foi tudo muito bonito. Passados uns meses, começa a vir o inverno, os dias a ficar mais curtos, começa a escola, já não vamos tantas vezes a casa na folga, começa a competição do campeonato a sério, há um jogo ou outro que pode não correr bem e...Cheguei a chorar. Lembro-me de estar a chorar no quarto e apareceu um colega, o Rui Ferreira, que jogou no Vitória de Guimarães mais tarde, "Então pá, o que é que se passa, estás a chorar?!". Eu, com vergonha, não ia dizer porque é que estava a chorar e inventei uma desculpa que tinha morrido alguém. Mas não, estava triste porque a minha mãe tinha lá estado comigo a ver o jogo e no final fui deixá-la no Saldanha para ela apanhar o autocarro para a Nazaré. Cheguei ao quarto e fui chorar.

Foi fazendo a formação toda no Benfica e entretanto é chamado pela primeira vez à seleção. Quando? 
Fui chamado à seleção de Lisboa, era titular e vencemos o torneio inter associações, isto em Sub-15. Depois fizemos um torneio de Sub-15 mas que era já a futura equipa de Sub-16, eram os Jogos Olímpicos da Juventude Europeia, em Bruxelas, na Bélgica. Foi essa a primeira experiência na seleção, a minha primeira internacionalização. Penso que começa aí a nascer, se não a melhor, uma das melhores gerações que o futebol português teve, com Nuno Gomes, Bruno Caires, Quim, Jorge Silva… E vencemos esse torneio.

Dos tempos no centro de estágio não faziam partidas uns aos outros?
Não, até portávamo-nos bem, a única coisa que fazíamos era pôr a música muito alta e o senhor Domingos, que tomava conta do centro de estágio, não gostava muito e desligava a luz no quadro e o pessoal ficava furioso também. Mas lembro-me de uma coisa engraçada que o mister António Bastos Lopes fazia quando fui para a equipa de iniciados dos Benfica.

Conte.
Quando íamos àqueles primeiros torneios internacionais, em que tínhamos de viajar, o mister na tanga com a malta que não estava habituada a andar de avião, começava uma ou duas semanas antes, com um caderninho onde tinha os nomes apontados, a perguntar quem é que se queria inscrever para o torneio de snooker na viagem de avião para Itália. Os que já sabiam alinhavam os que não sabiam como eu e outros, ficávamos naquela “snooker no avião?”; “Sim, não é quando o avião vai a subir ou a descer, é quando está lá em cima direito, no ar” [risos]. E claro havia malta que caia.

Adaptou-se bem à escola em Lisboa?
Não, andei dois anos e desisti no 8º ano, mais tarde é que acabei o 12º ano, já em adulto.

Quando começam os primeiros namoros e as saídas à noite?
Muito sinceramente, nunca fui de sair à noite. Saía à noite nas férias, na Nazaré. Nas folgas só saí à noite quando já era sénior. Agora, no verão, quando ia passar férias à Nazaré ia para para a discoteca curtir como os outros faziam. Mas sempre fui muito disciplinado nesse aspeto. A minha primeira namorada foi uma rapariga da Nazaré, mas foi coisa de pouco tempo.

Entretanto, tem o seu momento de glória no Europeu de Sub-18 em 1994, em Espanha, onde é campeão.
Sim. Estava a acabar o escalão de juniores. Antes dessa conquista, as duas primeiras conquistas foram de bicampeão nacional de juvenis.

Quanto dinheiro recebia do Benfica nessa altura?
Quando assinei a primeira vez, recebia 12 contos (60€).

Lembra-se do que fez ao primeiro dinheiro?
Penso que fui ao centro comercial Fonte Nova comprar umas calças de ganga vermelhas [risos]. Naquela altura estavam na moda. Comprei as calças e uma camisa numa loja fixe que havia lá. Mas isso não era o ordenado, era o subsídio para o passe.

Então qual o valor do primeiro ordenado?
O primeiro ordenado é quando começo a ir à seleção, a ser internacional e na altura houve interesse do FC Porto e eu aproveitei; não que eu quisesse sair do Benfica, mas aproveitei para fazer o meu primeiro contrato que foi no meu segundo ano de juvenil, com 16 anos e eram 85 contos (425€). E comprei uma televisão e um vídeo.
Ainda estava a viver no centro de estágio?
Sim, estive a viver no centro de estágio dos iniciados até ao último ano de júnior.

Recorda-se da primeira vez que foi chamado à equipa sénior?
Foi no meu 1.º ano de júnior. Foi pelo mister Toni. Se a equipa sénior tinha falta de jogadores ou porque estavam na seleção ou porque estavam lesionados, e precisava de três ou quatro jogadores para poder fazer uns treinos, solicitava ao coordenador da formação, que era o mister Nené. E o Nené é que escolhia quem achava que merecia a oportunidade de viver essa experiência. Foi no meu 1º ano de júnior que tive a minha primeira experiência.

Que memórias é que tem?
Tenho memória de que eu era muito forte no jogo aéreo, ganhava praticamente as bolas todas de cabeça. Quando começavam as peladas, o treinador atirava a bola ao ar, eu ia sempre disputar e normalmente ganhava. Mas ali nos seniores havia o Mozer [risos]. Ele ganhava sempre a bola de cabeça e os outros jogadores, na brincadeira começavam a rir e a provocá-lo para ver se me afiambrava, se me dava um encosto e eu caía . Ele olhava para mim e via que eu era um miúdo e nunca fez isso, mas achava piada. No 2.º ano de júnior, já treinava com os seniores todos os dias.

Como é que foi entrar no balneário sénior?
Quando há a apresentação, eu e o Bruno Caires íamos fazer parte do plantel na época 94/95 com o mister Artur Jorge e chegámos mais tarde porque estávamos no Europeu. Só me lembro que me equipava entre o Michel Preud ́homme e o Isaías.

Muito diferentes o Toni e o Artur Jorge?
Completamente. O Artur Jorge era uma pessoa que falava pouco. Era mais distante. Cumprimentava toda a gente do balneário, um a um, mas depois era parco em palavras, era distante. O Toni é aquilo que nós sabemos, uma pessoa mais terra a terra, nesse aspecto eram completamente distintos.

Percebeu logo que não ia ficar na equipa?
Eu fiquei até dezembro e possivelmente iria ficar lá a época toda, só que aquilo que era novidade para mim, de lá estar e de treinar com os seniores e essa coisa toda... quando chegamos a dezembro, já não é novidade. No princípio era motivante treinar com os seniores, achamos sempre que podemos ter alguma hipótese mas depois cheguei à conclusão de que era completamente impossível. Nesse ano tinha como concorrência o Caniggia, o Mario Stanic, o César Brito. Entretanto em novembro, dezembro já estou farto de estar ali, sinto que já não me contentava com os treinos junto dos meus ídolos. O Rui Águas já tinha ido para o Estrela da Amadora e saiu de lá para Itália, para a Reggiana, e eu vou para o Estrela: acabei por ser o substituto do Rui Águas no Estrela da Amadora.

Foi o Benfica que o mandou para lá ou pediu para sair?
Eu é que pedi para sair porque antes de começarmos o Europeu que vencemos em Espanha, fizemos estágio em Castelo de Vide, onde o Estrela da Amadora estagiava sempre. E fomos fazer um jogo de treino contra o Estrela da Amadora, ganhámos 3-0, fiz dois golos e fiquei a saber que o presidente do Estrela, o senhor Jaime Salvado tinha ficado impressionado comigo. Quando eu soube que o Rui Águas ia sair e que o Estrela andava à procura de ponta de lança para o substituir, eu próprio fui ter com o senhor Gaspar Ramos: “O Estrela da Amadora precisa de um ponta de lança e eu sei que o presidente Jaime Salvado aprecia as minhas qualidades, veja lá se não é possível emprestarem-me ao Estrela da Amadora". Eles falaram e realmente confirmou-se.

Está meia época como sénior no Benfica e vai para o Estrela onde estava Fernando Santos, certo? 
Exato. Era o mister era carrancudo, já se sabe, aquele feitio dele, de manhã...Havia as quartas-feiras que eram as chamadas “quartas-feiras europeias”, em que saíamos do balneário, nem aquecíamos, saíamos naquela rampa e era logo uma grande coça. Ele já falou sobre isso, aquilo tinha a ver, penso eu, com o Jimmy Hagan. O mister foi treinado por ele, aquilo era escola do Jimmy Hagan, claro que agora os tempos são outros e isso já não existe, mas naquele tempo era bem conhecidas as chamadas “quartas-feiras europeias” do mister Fernando Santos.

Nessa altura estava a viver onde?
Ora bem, quando subi a sénior tive que sair do centro de estágio e acertei com o Benfica um valor a pagar para eu poder arrendar uma casa; no entanto, comprei uma casa ali na Quinta da Luz, ainda não existia o Colombo. A minha mãe foi viver comigo, para me apoiar naquele primeiro ano de sénior.

Não havia ainda nenhum namoro sério?
Eu comecei a namorar com aquela que ainda é hoje é a minha esposa, naquela transição entre Benfica e Estrela da Amadora, foi quando conheci a Lara.

Conheceu-a como, o que é que ela fazia?
A Lara estudava na Universidade Nova, Literatura Portuguesa, e vivia na Quinta da Luz na casa dos tios. Cruzámo-nos ali. Passado uns meses a Lara começou a apresentar o “Top +”. Houve uma fase em que o Top Mais era apresentado por três raparigas desconhecidas, uma loira, uma morena e uma ruiva e a Lara era a morena. Ela ainda apresentou o “Top +” durante três anos.

Como correu essa época no Estrela da Amadora?
Ia ser uma época difícil porque íamos participar no Mundial de Sub20 no Qatar e passávamos a maior parte da semana na seleção, estávamos na seleção de segunda a quinta, portanto ia ser difícil afirmar-me na equipa, mas mesmo assim correu bem. Não fui um titular absoluto, mas fiz dois ou três jogos a titular e quando não era titular entrava sempre. Acabei por fazer três golos, dois contra o Belenenses e um deles, foi um dos golos muito importantes para a manutenção, foi na vitória contra o União da Madeira. Acabou por ser positivo, tanto que no ano seguinte o mister Fernando Santos queria que eu continuasse.

Não continuou porquê?
Porque fui parvo. Tinha o sonho de jogar em Inglaterra e houve um empresário, o Ângelo Martins, que tinha levado o José Dominguez para o Birmingham e o Rui Esteves para a Escócia, salvo erro para o Dundee United, e eu como tinha a característica de ser muito forte no jogo aéreo, ele fez-me ver que eu ia encaixar muito bem no futebol inglês ou no futebol escocês. Fui iludido por isso e também porque o mister Fernando Santos vai buscar jogadores ao Estoril - vem o Nova - e esse agente começou a encher-me a cabeça “Não vais jogar, não vais jogar" e não sei quê, começou-me a pôr coisas na cabeça. E eu fui burro, não quis ficar no Estrela da Amadora. Mas já tinha dado a minha palavra ao Estrela, já me tinha apresentado e já estava com uma semana de treinos no Estrela.

Teve problemas em sair? Não teve de pagar nada?
Não, porque ainda não tinha assinado, porque foi naquela primeira semana em que estamos ali e somos chamados para ir assinar e eu ainda não tinha assinado. Ainda era jogador do Benfica, tinha três anos de contrato com o Benfica.

Chega a ir para Inglaterra?
Fui. Esse empresário tinha um empresário intermediário que era uma figura do futebol inglês que tinha jogado no Liverpool, o Dave Watson, era treinador e agente ao mesmo tempo. A ideia era ir treinar à equipa onde esse empresário era treinador, o Darlington, para ele ver se eu era bom jogador e depois levar-me a treinar ao Dundee United, na Escócia, ou a alguns clubes importantes do futebol inglês. Eu fui. Troquei o certo pelo incerto, porque estava no Benfica, emprestado ao Estrela da Amadora, ao pé de casa, com um treinador que me conhecia, na I divisão. Porque é que fui inventar de ir para Inglaterra, com aquela ilusão de querer jogar no futebol inglês? Quando eu lá estava, o Benfica que tinha dito que me deixava ir resolveu chamar-me.

Porquê?
Eu acho que teve a ver com a situação do José Dominguez vir para o Sporting, porque o José Dominguez fez camadas jovens no Benfica. O Benfica não o aproveitou, ele foi para Inglaterra e depois voltou para o Sporting. E isso em termos de imprensa... Alguém deve ter dito ao senhor Gaspar Ramos: “Eh pá deixaste o miúdo ir para Inglaterra, olha o que é que está a acontecer ao José Dominguez, isto vai dar uma polémica do caraças…”. Eu já lá estava porque a autorização dele foi verbal, perguntei-lhe se podia ir e ele disse que sim. Mas entretanto o Benfica mandou uma carta para minha casa e a minha namorada, a Lara, telefonou-me a dizer: "Tens aqui uma carta do Benfica a dizer que sabem que estás em Inglaterra e que não podes, tens de vir para cá porque és jogador do clube, senão corres o risco de processo disciplinar". Vim embora. Só que quando cheguei a Portugal já estavam os plantéis quase todos cheios, ainda houve ali uma abordagem do João Bartolomeu, do União de Leiria, mas a coisa não se consumou, parece que o treinador queria um jogador mais experiente e então fui para a Académica, para a II liga.

Não foi para o Alverca?
Primeiro fui emprestado à Académica. Os meus colegas, o José Soares, o Akwa e outros, foram para o Alverca, que ia ser o clube satélite do Benfica, mas eu não quis, preferi ir para a Académica. Porque o Alverca em princípio iria lutar para não descer de divisão e a Académica era um clube histórico que lutava para subir à I divisão. Só que as coisas não correram bem e em dezembro vim para o Alverca. 

Porque é que as coisas não correram bem na Académica?
Antes disso, há uma situação muito importante que me estava aqui a escapar. Naquela fase final do Estrela da Amadora, eu não fui ao Mundial do Qatar porque tive uma lesão na última semana de treinos na seleção e é uma lesão que foi envolta em polémica.

Já lá íamos à seleção, mas sendo assim relate já o que aconteceu.
Num jogo-treino contra a seleção de Esperanças, que era tipo ensaio geral, era o último jogo-treino, o Quim bateu uma bola comprida, eu ia dar um pico a correr, mas senti o meu joelho a estalar e cai estatelado no chão. Foi uma lesão ligamentar que eu tinha tido no início da época pelos juniores do Benfica e que não ficou curada a 100%. Acabei por me ressentir disso mais tarde e já não fui ao Mundial do Qatar.

Há polémica porque há opiniões médicas diferentes, certo?
Sim. Há opiniões diferentes dos médicos da Federação e do médico do Estrela da Amadora. Os da Seleção diziam que eu não podia participar e o médico do Estrela dizia que sim, que era recuperável. No meio disto tudo eu queria ir, claro. Depois há uma situação. Os meus colegas vão passar o fim de semana a casa, antes da partida para o Qatar, e como eu era um jogador importante, o mister Nelo Vingada disse: "Não vamos dizer já que não vais. Vais ficar aqui a fazer tratamentos até ao final da semana, depois fazemos uma avaliação e vemos se realmente vais ou não", porque eu estava a recuperar muito bem. Entretanto, supostamente ia fazer um teste no domingo, ao Estádio Nacional, onde iam estar o doutor Camacho Vieira, chefe das equipas médicas da federação e o doutor Bargão dos Santos. Só que chamaram-me para ir no sábado e eu achei aquilo esquisito. Cheguei lá a pensar que ia fazer o tal teste, estava todo confiante, a sentir-me bem, já conseguia saltar e quando chego não fiz teste nenhum. Chamaram-me para uma sala juntamente com os treinadores, toda a equipa médica e a equipa técnica e disseram que lamentavam mas que eu não podia participar.

Explicaram-lhe porquê?
Sim, explicaram, mas eu estava desesperado, queria tanto participar. Só me lembro de eles estarem todos sentados na marquesa e eu dizer que me sentia bem, levantei-me, comecei a saltar e a sprintar no próprio sítio e o doutor Camacho: "Tem calma, tem calma que podes aleijar-te"; "Ó doutor eu sinto-me bem". Estava desesperado. Mas eles disseram que não, e eu fiquei agastado. Juntando isto ao facto de ter a opinião do médico do Estrela da Amadora... Eu devia ter ficado calado, punha a viola no saco, aceitava. Só que não fiquei conformado e dei umas entrevistas. Não quer dizer que os tivesse atacado, mas dei entrevistas e devia ter ficado caladinho.

O que disse nessas entrevistas, que tinha outras opiniões médicas?
Sim. Não disse diretamente que me tinham feito uma tramoia, mas de certa forma fiquei um bocado desconfiado porque tenho um médico a dizer que sim, eu sinto-me bem, queriam que eu fizesse o teste e afinal já não vou fazer teste nenhum, quer dizer aquilo soou-me um bocado...

E acha mesmo que houve tramoia?
Não. Agora à distância vejo que não houve até porque eu neste momento sou massagista e auxiliar técnico de fisioterapia e se eu estivesse no lugar deles fazia o mesmo. Era uma lesão ligamentar. Aliás, foi por conta dessa minha lesão que nasceu o meu bichinho pela recuperação física.

As entrevistas que deu não caíram bem na FPF.
Não devem ter caído porque eu tinha 39 internacionalizações e nunca mais pus um pé num treino da seleção, nunca mais fui chamado à seleção. Pode ter sido coincidência porque eu no ano a seguir acontece essa época má, a tal em que vou para a Académica.

Afinal porque é que as coisas não resultam em Coimbra?
Vou para Coimbra com um treinador, o mister Vieira Nunes, e ele é despedido à 4ª jornada. Vai para lá o Eurico Gomes, que quando chegou começou a dispensar uma carrada de jogadores para lá meter jogadores da confiança dele, que eram jogadores do empresário dele, o Manuel Barbosa. Aquilo que eu senti é que dispensou vários jogadores e a mim não teve coragem de dispensar por eu ser jogador do Benfica. Só que não me tratava bem e punha-me a treinar atrás da baliza. Enquanto andavam lá os jogadores à experiência que ele queria ir buscar, a mim punha-me a treinar atrás da baliza e depois, ao fim de semana, como esses jogadores que estavam à experiência não podiam jogar, e ele precisava de mim, eu ia para o banco e quando estava à rasca, metia-me. Senti que não tinha mais condições para continuar ali.

Falou com quem?
Fui falar com o treinador para lhe dizer que queria ir embora e liguei para o senhor Gaspar Ramos a dizer que queria ir para o Alverca.

Qual foi a reação do Eurico Gomes quando disse que queria ir embora?
Disse-me que lamentava que as coisas não estivessem a correr bem comigo, porque lembrava-se de ter visto um jogo nas Antas contra os juniores e tinha ficado com muita boa impressão minha, mas que depois as coisas não correram bem e por isso não se opunha. Entretanto eu sabia que o Akwa, que estava a fazer uma boa época no Alverca, ia sair em dezembro para ir participar no CAN, por Angola, e achei que devia ir para o Alverca, que era para onde eu devia ter ido no início da época, para junto dos meus colegas. Voltei e fiz uma boa segunda volta. Faço golos que ajudaram à manutenção do Alverca e no ano a seguir continuo no Alverca a pensar que ia fazer uma época melhor. Era o meu 3º e último ano de contrato com o Benfica. Mas essa época não correu bem.

O que aconteceu?
Não houve aposta da equipa técnica, liderada pelo prof. Arnaldo Cunha, na minha pessoa. Eu tinha sido bicampeão de juvenis com ele, mas ele não apostou em mim. Não jogava. E é quando o Benfica também começa a apostar naqueles primeiros brasileiros do Corinthians Alagoano, já era o Toni o diretor desportivo. Vinham através de empresários daqueles clubes do Brasil. E vem uma primeira fornada, uns três ou quatro, nessa altura o Arnaldo Cunha também é substituído e vem o José Augusto. O José Augusto chamou-me e ao Pisco, também emprestado pelo Benfica, e disse-nos: "Oh pá, vêm aí uns brasileiros, vocês vão começar a ser menos utilizados. Não sei se eles são bons ou não, mas vou ter de os pôr a jogar. Por isso, se vocês puderem tratar da vossa vida, tratem da vossa vida". Eu ia acabar o contrato com o Benfica e então fui para o Desportivo das Aves.

Através de algum empresário ou do próprio Benfica?
Eu apesar de não jogar a titular, entrava, e quando entrava, entrava sempre bem e no jogo contra o Aves, apesar de termos perdido 3-,0 em Alverca, fiz pela vida, deixei uma boa imagem. Depois quem me ligou foi o meu ex-colega de seleção, Jorge Madureira, que jogava no Aves, a perguntar se não queria ir para lá, que o mister Luís Campos estava interessado em mim. Falei com o Benfica e fui.

Foi sozinho ou já foi com a sua namorada?
Fui sozinho, ela continuava em Lisboa a estudar.
Como correu no Aves?
O Aves estava em 4º ou 5º lugar, estava a fazer uma boa época, tinha muitos jogadores jovens que tinham jogado nas seleções nacionais, alguns deles tinham sido meus colegas, casos do Madureira, Alfredo Bóia, Delfim, e a ideia era jogar. Só que antes de virem buscar-me tiveram uma fase em que estavam sem ponta de lança e houve um jogador, que costumava jogar a extremo, que começou a jogar a ponta de lança, o Noverça. Começou a fazer muitos golos, e claro, continuou a jogar como ponta de lança; não quer dizer que não pudéssemos jogar os dois, mas o que é certo é que passei uma época inteira no Desportivo das Aves em que o Luís Campos todas as semanas dizia “é esta semana, é este semana”, chegava o jogo e chamava-me: "Afinal não vai ser esta semana, estive a pensar bem" e tal. Ou seja, no resto da época toda não fiz um único jogo a titular. Era sempre convocado, jogava sempre, mas nunca era titular. Senti-me enganado por ele. Andava-me sempre a iludir. Eu tinha 20/21 anos e pensei: tenho de ir para um clube onde jogue.

Tinha empresário?
Não. Naquela altura em que fui para Inglaterra através do Angelo Martins eu tinha empresário, era o José Veiga. Só que rescindi com o Veiga para assinar com o Angelo Martins e ele ficou furioso comigo. 

O que acontece no final dessa época nas Aves?
Claro que não iam ficar comigo. Eu não joguei. A gente apercebe-se. Eu queria ir para um clube onde ia ter a certeza de que jogava e fui para o Desportivo de Beja. Desci uma divisão, para a IIB, agora o atual Campeonato de Portugal.

Também sozinho ou a Lara já foi consigo?
Sempre sozinho. A Lara só quando me radiquei aqui na Maia, que é de onde ela é natural, uns bons anos mais tarde, é que passamos a viver juntos em pleno. Nós já vivíamos juntos antes, mas nas folgas, porque eu estava longe. Só quando começou a chegar o fim da carreira e comecei a ficar por aqui é que passámos a viver diariamente.

Quando vai para Beja, tinha assinado por quanto tempo?
Sempre por uma época. O Desportivo de Beja foi bom, porque tínhamos uma super equipa para a II Divisão B. Tínhamos o Resende, campeão do mundo, o Vado que tinha jogado muitos anos na I divisão, Nuno Amaro, Sérgio Gameiro, Pisco, Xavier...Eu jogava à frente com aqueles que tinham sido os meus dois extremos no Benfica, o Xavier e o Pisco. Fizemos uma grande época e não foi melhor porque também não pagavam os ordenados e aquilo descambou um bocado. Mas para mim foi positivo porque fui titular praticante a época toda e fiz 16 golos.

Não fica porquê?
Não queria lá ficar, queria ir pelo menos para a II Liga e porque também não pagavam. Tive hipótese de ir para a II Liga, para o Felgueiras. O Engenheiro Jorge Vacas, que era o responsável pelas instalações e relva do Benfica, que era muito amigo do Diamantino Miranda que ia treinar o Felgueiras, um dia encontrou-me no Benfica, disse-me que eu tinha feito uma boa época em Beja, eu disse que gostava de ir para a II liga e ele "tem calma que vou falar com o mister Diamantino". Falou, disse-me que ele estava interessado em mim mas que tinha de esperar porque havia problemas financeiros no Felgueiras que tinham de ser resolvidos para o mister Diamantino avançar. Só que eu nunca tive muita paciência para esperar. E tive um convite a ganhar bem, do Oriental, do mister José Peseiro, e assinei. Passado um dia ou dois, estava eu na Nazaré, tocou o telefone e eram os responsáveis do Felgueiras a perguntar se eu queria ir para lá e eu disse que já tinha assinado há dois dias pelo Oriental. Já não havia nada a fazer. 

No Oriental, com o Peseiro, correu bem?
Não, tive uma lesão e a forma como a equipa estava feita, não estava talhada para mim. Eu era um jogador de área, era um finalizador, tinha de ter bons extremos, jogadores com aquelas características de tentar alimentar o ponta de lança. Eu não podia jogar em equipas que jogavam com as linhas baixas e em contra ataque. E o Oriental era assim que jogava. Não dava. Não conseguia fazer golos. Era uma equipa que no ano anterior tinha lutado para subir e praticamente a mesma equipa estava a lutar para não descer. Ele quis jogar em ataque continuado e não tinha extremos com essas características para alimentar e nem eu fazia golos, nem a equipa ganhava. Ele mudou a estratégia e começou a jogar com as linhas recuadas e esse tipo de futebol para mim não dava. E eu pedi para sair. E em boa hora.

É quando aparece o Sporting da Covilhã.
Exato. Vou para uma equipa que jogava em ataque continuado, que queria subir de divisão.

E encontra um treinador com o qual acabou por jogar noutros clubes: o António Jesus.
Foi o treinador que tirou mais proveito das minhas características. Subimos à II liga e fiz 12 golos. Estive lá duas meias épocas. No segundo ano fiquei só até dezembro.

Porquê?
É a tal história. O Covilhã ia ser uma equipa da II liga que ia lutar para não descer. E ao lutar para não descer, não joga em ataque continuado, as bolas não chegam e só fiz uns três ou quatro golos. Quando isso acontece as coisas acabam por não correr bem e lá vou eu para o FC Marco e subo de divisão. Depois vou para a AD Sanjoanense com o mister João Cavaleiro, que era um treinador de quem eu gostava muito e que jogava em ataque continuado. Fiz 17 golos. A seguir tenho novamente uma oportunidade na I liga, mas na Grécia, é quando vou para o Ionikos.

Como foi quando chegou à Grécia?
O primeiro impacto foi horrível porque fiz escala em Milão, Itália, para ir para Atenas e um sacana de um italiano embirrou comigo. Foi uma viagem super atribulada, quando cheguei ao aeroporto de Milão, que parece ser o aeroporto da Europa onde passa mais droga, e eu ia com aquela pinta de jogador da bola [risos] e desconfiaram de mim.

O que fizeram?
Vieram com os cães, chamaram-me para uma inspeção numa sala, perguntaram-me para onde é que eu ia. Eu tenho aquele ar meio cigano e no verão ainda fico mais moreno, naquela altura usavam-se os casacos de cabedal amarelo torrado, e eu ia com um desses casacos, barba por fazer, pronto, vieram logo com os cães. Revistaram-me. Mas tudo bem. Não tinha nada. Perguntaram-me o que ia fazer, disse que era jogador de futebol e que tinha contrato com Ionikos. "E o contrato? onde está o contrato?"; "O contrato não tenho aqui, vou fazer quando chegar lá" [risos]. Deixaram-me ir. Mas é sempre chato. Só que não ficou por aqui.

Então?
Eu levava uma mala às costas comigo e outra na mão e em Itália eram super exigentes. Metiam a mala dentro de um suporte de papelão e se a mala não coubesse, não podia passar. Eu já estava um bocado em cima da hora e o gajo "não, não". Mas a tratar-me mal. Não gosto nada de italianos por causa disso. São muito arrogantes. Já quando íamos aos campeonatos da Europa eles eram muito vaidosos, sempre de nariz empinado, nunca tive grande simpatia pelos italianos [risos]. E o gajo embirrou comigo. Estava a mandar-me fazer o check in da mala para o porão. Disse-lhe que não ia ter tempo que ia perder o avião. E perdi mesmo o avião. Tive de dormir uma noite no aeroporto, num banco. Só tinha voo no outro dia, às sete da tarde. Cheguei atrasado, não apareci na apresentação do clube, perdi a oportunidade de assistir ao ritual de ver o padre ortodoxo a benzer ou abençoar a época e o balneário. Foi uma noite horrível, não conseguia dormir e para passar o tempo andava lá às voltas. Foi um treino [risos]. Já quando tinha ido à Grécia um mês antes, para negociar contrato, tinha tido um azar.

Que azar?
Tive a infeliz ideia de meter 150€ na mala para despachar e lá se foram os souvenirs. Roubaram o dinheiro que ia naquela bolsa lateral da mala. Também me pus a jeito, não é? [risos].

E na Grécia, como foi a adaptação?
A Lara esteve lá comigo e a experiência durou sete meses. Adaptei-me bem ao futebol, que não era muito diferente do português. Havia dois tradutores, um traduzia em inglês e outro em castelhano. Eu era o portuga que tinha de me desenrascar com o castelhano [risos]. Tínhamos um jogador sírio, outro norueguês, dois uruguaios, três espanhóis, e dois argentinos.

Como era o dia a dia?
Depois dos treinos ficava em casa. Vivia na melhor zona de Atenas, a zona de Glyfada, onde os jogadores da bola viviam todos. Estava bem instalado.

Do que gostou mais da Grécia e dos gregos?
O país é maravilhoso, muito bonito, a temperatura espetacular, a comida muito boa. Achei que os gregos são uma mistura de portugueses com árabes. Eles são um povo europeu mais parecido connosco, vê-se que são latinos, só que depois estão no limite da Europa, eles e os turcos, estão ali num cantinho que mais um bocadinho era como se fossem árabes, mesmo na mentalidade.

Houve algum hábito que tenha adquirido?
Eles têm um prato que chamam pita, que é tipo kebab, embora não seja este kebab árabe que comemos aqui. Chama-se pita, é de frango, tem um molho deles. Também adoramos o queijo feta e o frappé, aquele café frio deles. Ainda tenho um misturador que trouxe de lá para fazer esse café.

Só lá esteve sete meses porquê?
Eu vou para lá e o treinador era uma figura, o Oleg Blokhin, ucraniano, foi bola de ouro em 1975. Só que já começava aquela fase em que o treinador só treina, ou seja, as contratações eram feitas pelo presidente. Eu e a maior parte dos jogadores éramos contratados pelo presidente. Claro que o treinador também devia ver uns vídeos e dar um aval, mas não era aquela contratação do treinador conhecer e querer ir buscar. Ou seja, à partida já ia fragilizado. Eu era quase sempre convocado e entrava, mas raramente fui titular. Depois aquilo ali na Grécia, chega-se a dezembro e se as coisas não estiverem a correr bem, vão seis, sete embora e vêm seis, sete novos. E foi o que aconteceu. Mas se eles não me quisessem dispensar eu próprio também já queria ir embora porque eles não pagavam.

O que fez depois?
Tentei vir para Portugal para um clube da II liga. Mas o que tinha algum interesse, a Ovarense, estava muito mal e também não pagava. Acabei por ir para o FC Pedras Rubras, ainda na mesma época. É o clube da terra da minha mulher, era Francisco Chaló o treinador, tinha lá um ex-colega do Covilhã, o Romeu, que falou de mim. É o primeiro ano da história do Pedras Rubras na II divisão nacional, também estavam a lutar para não descer e queriam um ponta de lança que lhes desse garantias. As coisas correram bem. Fiz seis golos em cinco jogos seguidos, o que foi um recorde pessoal. No futebol sénior não é normal em qualquer equipa fazer cinco jogos seguidos a marcar.

Mas não ficou lá.
Não quis ficar porque o clube pagava-me um ordenado chorudo para aqueles quatro cinco meses, mas não podia continuar a pagar isso uma época inteira. E eu também queria jogar num clube da IIB que tivesse ambições para subir de divisão. É quando vou para o Sp. Pombal. Só que em Pombal fiz apenas um jogo.

Porquê?
Fiz uma rutura muscular no último jogo do Pedras Rubras, já na parte final do jogo. Entrei de férias, como era uma rutura pequena não fiz ecografia, pensava que com o descanso ia passar. Hoje sei bem que as ruturas têm de ser sempre tratadas senão aparecem fibroses, o que cria problemas porque o músculo fica sem flexibilidade. Mas na altura achava que passava. Vou para o Sporting de Pombal e ressenti-me da lesão logo na segunda semana e aquilo foi uma grande confusão para o presidente. Eles queriam muito subir de divisão, o ponta de lança para eles é sempre aquela coisa, é sempre o jogador que recebe mais... Eu também carregava muito esse fardo que era ir para esses clubes com cartel, com nome e era sempre bem pago, mas quando corria mal sobrava sempre também para mim. São aquelas posições cruciais, é preciso ter um bom ponta de lança e um bom guarda redes. Dos guarda redes não sei, mas os ponta de lança normalmente eram os que recebiam mais e depois era um pau de dois bicos. Se correr bem somos uns heróis, se não correr bem somos os primeiros a ser sacrificados.

O que fez o presidente?
Assim que me lesiono quis mandar-me embora. O treinador era o João Carlos Pereira, que tinha tido uma situação parecida na época anterior e não quis atravessar-se por mim. Fui-me embora.
Para o União Micaelense. Gostou de ter estado nos Açores?
Gostei muito. Também gostei muito do mister Isidro Beato, que apostou em mim. O mais engraçado é que nessa época voltei a Pombal para a Taça de Portugal. Julgo que à 4ª eliminatória calha um Sporting Pombal-União Micaelense, ganhamos 4-2 ou 4-3 e fiz o golo. E quando fiz o golo fui lá à bancada chamar uns nomes a quem me dispensou [risos]. Estava a correr muito bem no U. Micaelense, tinha feito já nove golos, seis para o campeonato e três para a Taça e vou ver um jogo a um café, um Sporting-FC Porto em que o FC Porto ganhou 1-0 com golo de Costinha. Acaba o jogo e venho a pé para ir jantar, vou a passar naquelas ruas estreitinhas dos Açores e aparecem-me dois “chavalos” que vinham completamente drogados ou bêbados e eu para não me atravessar por eles, passei para o outro lado da rua e eles começaram "Ouve lá palhaço, estás a mudar de lado, palhaço". E eu burro respondi. Houve um deles que me deu um soco, eu dei-lhes uns socos também mas como eles eram dois eu dei um pique para fugir e fiz uma ruptura muscular [risos]. E foi uma desgraça, praticamente não joguei mais até ao final da época. Uma coisa estúpida, porque é que eu não fiquei calado.

Ainda passa por imensos clubes até pendurar as botas. O que mais o marcou nesses anos seguintes? 
Depois o Académico de Viseu, o clube também não me pagava. Não era titular e no jogo em que ganhei a titularidade fiz um golo, mas arrebentei o acromioclavicular, fui operado, acabou praticamente a época para mim. Tirando isso, tenho um regresso ao Pedras Rubras que não correu bem, ao contrário da primeira vez. Volto a estar com o António Jesus quando vou para o Benfica de Castelo Branco e aí fiz uma grande época, fomos campeões da III divisão, subimos, e fiz 19 golos. Eu não queria ficar em Castelo Branco no ano a seguir, porque já tinha aquela experiência de jogar em equipas para ser campeão ou de jogar para não descer em que não fazes golos e perdes a moral. Não quis ficar na IIB, apesar de me pedirem por tudo para ficar.

E foi para onde?
Para o Tondela. Eu tinha tirado o curso de massagista em Castelo Branco nessa época e agora queria tirar o curso de técnico auxiliar de fisioterapia, mas em Castelo Branco não havia. Então juntei o útil ao agradável, ir para uma equipa da III divisão que lutasse para subir e onde pudesse tirar o curso. Vou para o Tondela, não gostei da forma como as coisas estavam a correr na pré-época e voltei a tempo de fazer o primeiro jogo na IIB pelo Castelo Branco. Eu não queria lá ficar, mas como não estava a gostar de estar em Tondela, voltei. E acabou por acontecer o mesmo que noutras ocasiões, equipa a lutar para não descer, as bolas não chegavam, não fazia golo, a equipa começa a jogar em contra ataque e vamos para o banco. Fui para o União da Serra, fiz alguns golos e subi de divisão outra vez. Depois vou para Rio Maior, o treinador era o Paulo Torres, mas não pagavam, e pedi para sair e vou para Tondela, mas já com o António Jesus, e subo outra vez de divisão com ele. Dali vou para o Torreense com o Paulo Torres novamente.

Nessa altura já exercia como massagista?
Não. Depois do Torreense, vou para Penamacor, fiz uns golos, mas descemos de divisão porque aquilo era um clube muito amador. Depois pensei: "Agora vou para perto de casa para começar a fazer a transição". Porque já estava com 34/35 anos, e a minha ideia era continuar a jogar mas ao mesmo tempo começar a exercer na área da fisioterapia, da massagem e recuperação.

Tem filhos?
Tenho uma filha com sete anos, a Natacha, que nasceu em 2013. Eu deixei de jogar em 2012, mas ela sabe que o pai jogou futebol.

Custou-lhe muito pendurar as chuteiras?
Não. Depois desta maratona toda já estava um bocado cansado. Ainda venho para perto de casa, na zona da Maia, e ainda subo mais uma vez de divisão. Jogo nos Custóias FC e no Perafita, e no último ano, no Vilanovense e no Valonguense.

O que fez a sua mulher profissionalmente depois de apresentar o “Top +”?
A Lara durante nove anos foi professora de português e desde há alguns anos que é comercial de dispositivos médicos. Eu tenho um gabinete de massagens e recuperação física, trabalho por conta própria. Mas durante três anos fui agente de jogadores.

Fez algumas transferências de jogadores?
O jogador mais conhecido que transferi foi o Hugo Seco, que joga no Farense. Ele na altura estava a jogar em Malta e eu é que o transferi de Malta para o Benfica de Castelo Branco. Mas depois comecei a gostar mais da área de fisioterapia e vi que não tinha feitio para o mundo das transações.

Porquê?
Fiquei desiludido. Qual foi a ideia? Como eu tinha sido um globetrotter como jogador, tinha muitos conhecimentos. Eram 27 clubes, um deles no estrangeiro. Achei que era uma pena não aproveitar essa experiência e contactos, só que, é um mundo muito complicado. Se estamos à espera que os amigos e as pessoas que jogaram connosco nos ajudem, é para esquecer, são as que menos nos ajudam. Depois, os jogadores quando precisam andam atrás e sempre a pedir, mas quando é a altura de pagar as comissões alguns também não se portam bem. Não são todos. Os próprios clubes também para pagar as comissões... . Também tirei o nível I e II do curso de treinador, mas nunca exerci. A única coisa que serviram foi para "emprestar" a um colega que não tinha curso para poder treinar na IIB. Pediu-me para eu fazer como se faz agora na I Liga quando eles não têm o curso de IV nível [risos]. Mas não vale a pena estar a dizer quem foi o colega ou o clube.

Onde ganhou mais dinheiro?
No Benfica.

Além do gabinete de massagens e recuperação física, onde investiu mais?
Em imobiliário.
Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Nunca fui de extravagâncias. Tive sempre carros simples e baratos. A maior extravagância que eu fazia era com o dinheiro que ganhava das diárias na seleção, pegava nesse dinheiro e na Quinta da Luz ia à loja da Strauss e comprava uma carrada de CD's. Era maluco por música.

O que gostava mais de ouvir?
U2, Bon Jovi, Pink Floyd, anos 80. Esses CD's ainda os tenho todos, são para aí uns 500/600. Agora quase nem toco neles, por causa das novas tecnologias, mas pronto.

Tem ou teve algum hóbi?
Gosto de bricolage e obras.

É um homem de fé?
Sim, mas não sou praticante.

E superstições?
Tinha muitas quando jogava futebol mas perdia-as todas. A que fazia mais era benzer-me duas, três vezes antes de entrar em campo.

Tatuagens?
Não. Nem gosto.

Qual foi o adversário mais difícil que teve pela frente?
Aquilo que me ficou na memória, foi na seleção de sub-20, em que fizemos um jogo-treino com uma equipa japonesa, o central dessa equipa era o Buchwald, um alemão que marcou o Maradona, no mundial de 1990. Nesse jogo ele marcou-me, eu nem toquei na bola. Os dois melhores centrais que defrontei foi o Buchwald, nesse jogo-treino, e o Gamarra, quando estava no Ionikos.

E o seu maior rival, quem foi?
O jogador mais chatinho e que por acaso hoje é um grande amigo, mas que nas camadas jovens era muito chatinho, é o Nuno Abreu. Chegou a jogar no Benfica.

Segue ou pratica outro desporto além do futebol?
Eu cheguei a jogar andebol nos infantis. Neste momento o único desporto que sigo é o futebol e sigo cada vez menos porque este ambiente à volta do futebol, as polémicas, estes programas todos os dias...Deixei de ver. O futebol está muito estragado, muitos campeonatos paralelos. E depois os jogos perderam muito interesse por não haver público. Cada vez vejo menos futebol.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Em Portugal joguei no clube que queria e gostava. No mundo, o AC Milan, era fã. Aliás, o meu maior ídolo a nível mundial era o van Basten.

Qual foi o momento mais feliz e o mais triste da carreira?
O mais feliz foi quando me sagrei campeão da Europa de juniores, de sub-18. O mais infeliz foi quando me lesionei e não pude estar presente no mundial do Qatar.

O seu maior arrependimento?
Não ter ficado no Estrela da Amadora.

Os treinadores que mais o marcaram?
Pela positiva António Jesus, João Cavaleiro e Fernando Santos. Pela negativa, Eurico Gomes e Manuel Pinheiro. Mas o marcar pela negativa às vezes não quer dizer que não seja bons treinadores, às vezes falham como pessoas e isso marca-nos mais.

Tem ou teve alcunhas?
Era o "Treco" e "Pescadinha", na Nazaré. Na Nazaré havia um rapaz, na minha infância, que me dava uns calduços, ele tinha um irmão mais novo do que eu, e quando me dava os calduços eu dizia-lhe "ai é? Quando eu apanhar o teu irmão, tu vais ver" ele respondia: "Traimão dá choque". Traimão é um peixe que dá choque e depois os meus colegas da minha idade começaram a chamar-me Traimão, Traimão, e por abreviatura começaram a chamar-me Treco. “Pescadinha” foi na Covilhã, o treinador adjunto, o mister Virgílio, chamava-me pescadinha de rabo na boca, mas não sei porquê. E também, claro, Borda D'Água, que é o meu sobrenome.

Se não fosse jogador de futebol o que teria sido?
Não sei, não faço ideia. Uma coisa é certa, pescador não ia ser.

Quais as maiores amizades que fez no futebol?
O Xavier, José Soares, Nuno Abreu, Fernando Souto, Pedro Henriques, entre outros.

Para terminar, tem mais alguma história para partilhar?
Posso contar que quando fui para o Covilhã quem fizesse os golos recebia um queijo da serra oferecido por uma loja do Fundão, que era patrocinador. Quando cheguei comecei a fazer alguns golos e a primeira vez ganhei o queijo mas tive de lá ir ao Fundão buscar o queijo. Fiz mais dois golos na jornada seguinte e fui lá buscar os queijos todo contente. Só que, quando cheguei, percebi que os queijos não eram sempre para quem marcasse os golos, mas para dar a outros elementos da equipa, o que é justo porque não marcamos golos sozinhos. Só que como era eu que estava sempre a fazer golos, às tantas tive de dizer que não podia ser sempre eu a ir ao Fundão buscar o queijo se não não ganhava para a gasolina [risos]. Mas a propósito de patrocínios tenho outra.

Para acabar, força.
Também havia um patrocinador que oferecia a quem fizesse um hat-trick um jogo de quatro pneus, mas eu não sabia. E num jogo contra o Fanhões, estávamos a ganhar 2-0 e eu tinha feito dois golos. Na última jogada falhei um golo, não digo que era de baliza aberta, mas era daqueles para marcar. Acabou o jogo e eu estava contente porque tinha marcado e tínhamos ganho, mas quando entro no balneário começam todos “Perdeste os pneus, perdeste os pneus”. Eu sem perceber. “Mas como? O meu carro está lá fora” [risos]. Depois lá me explicaram."

Fever Pitch - João & Patrick... França!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Confiança no futuro


"Depois do empate a uma bola em "casa", a nossa equipa abordou a segunda mão da eliminatória com o Arsenal focada na passagem à ronda seguinte. Esteve perto de o alcançar, numa partida em que cedo se viu em desvantagem, mas conseguiu a reviravolta no marcador. O golo tardio dos gunners deitou tudo a perder.
O objetivo de passagem, apesar de se conhecer a valia do Arsenal, com um plantel construído para lutar pelos lugares cimeiros do campeonato inglês e vencer a Liga Europa, foi claramente assumido, pelo que importa reconhecer, antes de mais, que não foi atingido.
Mas seria manifestamente injusto não salientar o equilíbrio verificado na eliminatória, tanto que só nos minutos finais foi resolvida.
Jorge Jesus considerou que a equipa fez um grande jogo, porém, como o nosso técnico salientou, "no Benfica não há vitórias morais". Convém, no entanto, salientar o desempenho da equipa, que, ultrapassadas as questões já conhecidas e imensamente debatidas, vai mostrando sinais de melhoria nos seus índices competitivos, importando agora que os resultados positivos os acompanhem.
O autor do primeiro golo da nossa equipa, Diogo Gonçalves, considerou, após a partida, que "esta exibição vai dar-nos força para o que aí vem", e reforçou a ideia de que há ainda muito por disputar na temporada, pois "temos a Taça de Portugal e ainda uma palavra no Campeonato".
É, de facto, nessas provas que nos resta focar, o que não é de somenos. Lutarmos pelo triunfo da Taça de Portugal e pela melhor prestação possível na Liga NOS, sem nunca perdermos de vista, caso se proporcione, a luta pelo título, é a obrigação de todos os que têm a honra, o privilégio e a responsabilidade de representar o Sport Lisboa e Benfica.
Confiamos plenamente na capacidade da nossa equipa e estamos convictos de que saberá reencontrar-se com os resultados positivos. Os sinais dados têm sido nesse sentido, pelo que importa agora confirmá-los com vitórias.
O próximo desafio está agendado para segunda-feira, dia 1 de março, às 19 horas no Estádio da Luz. O adversário será o Rio Ave, numa partida englobada na 21.ª jornada da Liga NOS.
Viva o Benfica!"

Rescaldo...

Descoberto(s)


"Muito do que gira à nossa volta resume-se a uma, e só uma coisa. Todos os desfechos que auguramos, todos os resultados que almejamos, todas as expectativas que perseguimos, se resumem à produção de um sentimento. Assim, em futebol como na vida, uma vitória produz um sentimento de felicidade. E a razão porque grandes massas de adeptos seguem um clube que lhes dá chances de vitória, não se iludam, é mesmo essa: a possibilidade de criar esse sentimento, que o adepto em si mesmo não consegue (ou acha que não consegue) criar por si mesmo. Quer isto dizer que a necessidade da sua equipa obter certo resultado para a produção desse sentimento se torna obrigatória. Ora, isso criará a necessidade da narrativa dos líderes desse clube se tornar, pelo menos, parecida às expectativas de quem faz (ainda que não se dê conta, muitas vezes) com que o clube se mantenha vivo. Daí a necessidade da narrativa deste Benfica da 2.ª Vinda ter sido a de prometer sentimentos. Sentimentos de orgulho, sentimentos de grandeza, sentimentos de que os adeptos se podem sentir especiais, porque seguem o clube mais especial, and so on, and so on.
A história já é velha. Os adeptos, ou o povo, quer(em), os líderes prometem. Mas olhando para a história deste Benfica, algo não bate certo. Ou é a expectativa dos adeptos (que os seus líderes incentivaram de maneira desmesurada) que não bate certo, ou é o modus operandi e o modelo escolhido pelos líderes que não bate certo. Alguma coisa não baterá certo porque o Benfica, nestes 16avos da Europa League, acabou de perder uma oportunidade única para beber um pouco desse orgulho, para criar (ainda que artificialmente) esse tal sentimento que os seus adeptos perseguem. E mesmo com dois jogos com alguma maturidade e pouco erro nos momentos com bola, o Benfica voltou a ser demasiado curto para travar um Arsenal bem longe do que os adeptos gunners almejam para a produção de sentimentos de felicidade.

Movimento gunner que atrasou a bola da ala para o meio criou dúvida na linha defensiva do Benfica. Quando o pé do médio abre para endossar a bola, Aubameyang aproveita para ser mais rápido que Veríssimo

Um pouco como o Benfica também o Arsenal surge a anos-luz das suas expectativas. Tal como os encarnados, a equipa de Arteta faz algumas coisas bem mas cede a momentos de auto-destruição. E a sorte para os do Norte de Londres é que o Benfica se mantém em rota semelhante, não conseguindo capitalizar o relativo controle do jogo, e da eliminatória, que chegou a ter, como não conseguiu tirar partido de três golos criados do nada e que ainda assim não chegaram para satisfazer quem se queixa de que a falta de golo tem sido nuclear. E foi assim mesmo, o Benfica tentou recriar os seus melhores momentos da 1.ª mão e partindo do mesmo sistema (532) tentou retirar espaço entrelinhas e profundidade ao Arsenal. Esses, avisados, não caíram na tentação de despejar bolas sem critério nas costas da defesa e tinham agora um plano mais consciente de como o fazer.
Com o movimento de atrasar a bola a partir da ala, e a movimentação de fora para dentro do jogador que a carregava, a linha defensiva do Benfica acabou por ser batida e ficar a descoberto. E do raio-x ao lance inúmeras teorias podem emergir: que só Veríssimo estava bem (o que não é verdade), que os outros estavam todos mal, que Otamendi deveria ter entrado no lance de outra forma, que ninguém se entendeu, e que esse movimento (que de alguma forma também surge no golo decisivo da eliminatória lá mais para a frente) acabaria por deixar a nu as deficiências numa linha sem treinos aquisitivos. O que é certo é que, vendo o lance, Lucas Veríssimo lê a jogada uma fração de segundo depois de Aubameyang. O ganês parte, e o brasileiro vai atrás. Ora, num Mundo ideal seria o brasileiro que teria de partir primeiro para chegar àquela bola. Isso ou um movimento à Sporting de Rúben Amorim onde o movimento de todos é inverso ao que foi o de Lucas. Whatever works, portanto.




Nos golos do Arsenal é notória a percepção mais rápida dos gunners em relação às movimentações. Willian com espaço, teve tempo para se aperceber de Xhaka antes de Everton. Depois o brasileiro não contém e é ultrapassado facilmente pelo suíço

Algo que minutos depois, em jogada tirada a papel químico, acabou por ter o desfecho esperado para as águias, que é o mesmo que dizer que Aubameyang foi apanhado pela bandeirola do liner – tal como várias vezes o Arsenal havia sido apanhado na 1.ª mão. Mas enfim, um golo sofrido não tiraria o Benfica da eliminatória, sendo que o objectivo seguinte dos de JJ continuava a ser o mesmo: pensar golo a golo, marcar o seguinte, pois o 1-1 mantinha as águias vivas. Mas como é que esse golo haveria de chegar para uma equipa que viu o seu treinador a queixar-se de não ter aquele golo fácil que se via há uns anos com Rodrigos, Limas, Jonas, Jiménez, Mitroglous e até João Félix? E na senda dos Ferreyras, Castillos, RdTs que se foram seguindo, Seferovic (que desta vez viu Darwin sentar-se no banco) não parecia servir de muito lá na frente, sendo que Rafa, que o acompanhou, não tirava grande partido do imenso espaço que o Arsenal lhe deixava.
Com surpresa, ou sem ela (dependendo do ponto de vista e de como se contar a história), os golos que o Benfica almejava teriam de surgir de uma maneira não antes vista ou, pelo menos, pouco prevista. Sendo que ninguém apostaria num livre irrepreensível de Diogo Gonçalves (gentilmente cedido pelo homem menos do jogo, Ceballos) para igualar as contas e ir para o intervalo a pensar em como se marcar o segundo.


Mais uma vez a antecipação a ser fulcral. Saka, com espaço, num movimento atrasado que Auba aproveita para (de novo) se antecipar a Veríssimo.

E por vários minutos, após o reatamento, o Benfica circulou e deixou o Arsenal na dúvida. Mas, lá está, a circulação e momentos sem grande erro de posse (que costumam acontecer nestes jogos às equipas portuguesas) não chegavam para se ser incisivo, para se ser criador e contundente. E assim sendo, de onde poderia vir o segundo golo para uma equipa que não tem grande afinidade com os cordames? Pois bem, em segundo na lista para os improváveis de quinta-feira, segue-se uma reposição aérea de Helton Leite (vulgo chuto para o ar), um mau atraso de Ceballos (em jogo para esquecer) e um rapaz que não sabe a história de 1991 mas que também acabaria por marcar ao Arsenal numa espécie de jogo fora. Quem o critica não poderá dizer o mesmo, mas segundo a narrativa das expectativas desmesuradas poderá sempre dizer que o Benfica não soube controlar a vantagem e que cedeu nos momentos decisivos – mesmo que não saiba explicar porquê, juntando-lhe as palavras querer, garra, ambição e mística. Mas a verdade é que o Arsenal, mesmo passando minutos alheado do jogo, mesmo parecendo que já deitou a toalha para depois a voltar a encontrar, conseguiu criar soluções para virar o jogo a seu favor. Aconteceu depois do 1-0 em Roma, e aconteceu depois do 1-2 em Atenas. E aqui será de sublinhar que passividade do Benfica com bola (que lhe serviu em grande parte da eliminatória) e a pouca coordenação de uma linha defensiva arranjada à pressa para estes dois confrontos ficam bastante mal na fotografia. Que isso sirva a narrativas de revolução não retira alguma razão a Jorge Jesus – que no meio de todo o seu habitual nonsense, não tem treinos aquisitivos para aprimorar detalhes que toda a gente lhe reconhece, os quais muita gente hoje repara por causa… dele próprio."

Não chegou o pragmatismo – curtas do Arsenal vs. Benfica


"Primeiro defender, para depois atacar – esta foi a estratégia do Benfica para jogo no Georgios Karaiskakis, frente ao Arsenal. O Benfica adotou uma postura pragmática, que procurava anular o Arsenal – até quando era o próprio Benfica que tinha bola – mas sem nunca recusar uma eventual oportunidade para sair rapidamente para o contra-ataque.
- Benfica a atacar em 3-4-3, com Pizzi e Rafa a pisarem terrenos interiores, nas costas de Seferovic. Jorge Jesus procurou colmatar a dificuldade do suíço em ligar jogo ao colocar os dois internacionais portugueses por dentro.
- No momento defensivo, o Benfica apresentou-se quase sempre em 3-5-2, com Weigl, Taarabt e Pizzi no setor intermédio e Rafa lado a lado com Seferovic na frente. No entanto, quando o Arsenal atacava pelo lado direito, Rafa baixava no terreno. Seria para bloquear as saídas de bola de David Luiz? Fica a questão acerca desta preocupação estratégica dos encarnados.
- Arsenal em 4-2-3-1, com o duplo pivô Xhaka e Ceballos atrás de Saka, Odegaard e Smith-Rowe, que apoiavam a estrela Aubameyang.
- Arsenal com mais posse de bola, mas muitas dificuldades em penetrar por dentro do bloco do Benfica. Nas poucas vezes que conseguiram criar perigo, um denominador comum: os movimentos de rutura de Aubameyang a rasgarem por completo a linha defensiva do Benfica, tendo dois deles culminado em golo.
- Por sua vez, o Benfica também teve dificuldades em chegar à frente. Não só mérito do Arsenal neste capítulo, mas também algum demérito das águias, com falta de ruturas de segunda linha. Por isso, pouca gente na zona de finalização e pouco tempo com a bola no último terço.
- O Benfica chegaria aos golos através de uma bola parada e de um erro defensivo. Já o Arsenal, aproveitaria três situações de jogo corrido: dois movimentos de rutura de Aubameyang e um lance em que a displicência de Everton fica por demais evidente.

Destaques individuais
Diogo Gonçalves – atacou quando pôde e defendeu com consistência. Coroou a sua exibição como um golaço de livre. Como já foi referido anteriormente, é dos poucos que procurar acelerar jogo quando tem conduções para.
Vertonghen – um verdadeiro relógio, com e sem bola. Nunca compromete, e isso é ouro hoje em dia, especialmente no contexto encarnado.
Rafa – o mesmo do costume: tem erros? Tem. Mas é o único que faz os adversários tremer quando tem a bola. Marcou e apresentou disponibilidade para tapar o lado esquerdo.
Saka – um diamante em bruto. Não é muito exuberante, mas quem acompanha este Arsenal sabe que Saka é um raio de luz a rasgar um céu coberto de nuvens. Procura combinações, mas também sabe desequilibrar no um para um. Cruza muito bem e é forte no último passe, sendo através dessas formas que assistiu Aubameyang.
Aubameyang – os grandes jogadores são assim: não falham quando são chamados. Duas oportunidades, dois golos, fora o que foi anulado por fora-de-jogo. Aubameyang é velocidade, é rutura, e isso é exatamente o antídoto certo para quebrar uma já minimamente articulada defesa do Benfica."

Arsenal FC 3-2 SL Benfica: Faltaram pernas à repetição da história


"A Crónica: Encarnados Sem Ritmo Para Garantir Passagem
Foi com os olhos postos no confronto de há 30 anos que o SL Benfica entrou no Karaiskakis para virar a eliminatória a seu favor. O 1-1 da primeira mão acentuava as coincidências frente ao Arsenal FC, num paralelismo onde só faltava quem imitasse Isaías e decidisse a eliminatória a favor dos encarnados (que jogaram de negro). Jorge Jesus repetia quase todo o onze, deixando a surpresa para a frente – saía a parelha de Roma, Darwin e Luca, e entravam Seferovic e Rafa. O português, atuando entrelinhas e tentando ligar o jogo ofensivo, teve papel importante nas principais oportunidades dos encarnados, ainda que a equipa nunca se tenha sentido confortável no papel ativo de busca pela vitória.
O Arsenal FC teve imediato ascendente após o apito inicial e só acalmou ânimos quando conseguiu ultrapassar Helton Leite, aos 20’, quando Aubameyang finalizou exemplarmente uma assistência não menos espectacular de Bukayo Saka. Com o 1-0, os ingleses passaram a gerir mais com bola e foram-se desligando do jogo, lentamente, permitindo ao SL Benfica ter mais bola e ocupar por mais tempo o seu meio-campo. David Luiz e Gabriel iam cuidando das poucas jogadas que se aproximavam verdadeiramente da grande área, quando não eram perdidas antes pela falta de jeito dos portugueses, que pecaram exageradamente no capítulo do último passe.
Ao último terço chegavam sempre poucos e mal coordenados: numa das únicas vezes que aconteceu o contrário, Julian Weigl é rasteirado à entrada da grande área. Surpreendentemente, Diogo Gonçalves assumiu a marcação do livre direito, à medida de um pé direito – serviu o seu (que remate!), levando a bola a percorrer um arco por cima da barreira e a acabar nas redes de Leno.
A segunda metade começa praticamente com um golo anulado a Aubameyang, – ele que joga sempre no limite do fora-de-jogo e que tinha tido noite para esquecer nesse aspeto há uma semana – o que não atemorizou o Benfica, que entrou com boa atitude, a disputar o jogo olhos nos olhos. Aos 60’, Helton Leite agarra a bola após canto e decide lançar rápido na frente. Ceballos, a querer atrasar, não se apercebe que Rafa lhe adivinhou as intenções e meteu-se a meio caminho. 1-2 para os encarnados, que estavam na frente e obrigavam os ingleses a dois golos para passar à proxima fase.
E não demorou muito a construção dessa vitória, já que, como em Roma, ao Arsenal FC bastou acelerar e imprimir o ritmo inglês para chegar ao golo. Tierney e Willian combinam na ala esquerda, Everton aborda mal dentro da área e abre espaço à canhota do escocês, que mete na gaveta. Arteta fazia entrar Lacazette aos 75’, emparelhando-o com Aubameyang na frente, mas a equipa continuava partida e, em muitos momentos, impotente perante a segurança encarnada, que conseguia conservar a posse do esférico por largos períodos de tempo.
Jorge Jesus mexera bem. A entrada de Gabriel foi fundamental para emprestar músculo a Weigl e aumentar a capacidade de antecipação – um exemplo claro foi a bola que recupera mais à frente, ficando em boa posição para isolar Rafa, mas faltou pragmatismo ao brasileiro, que ensaiou bola picada que chegou, sem nexo, às mãos de Leno.
Foi sem grande aviso que surgiu o 3-2, que chegou como o primeiro golo. Saka saca um coelho da cartola e descobre Aubameyang, agora de cabeça. Natural a arte do golo, inventada num ápice, sem qualquer necessidade de cerco demorado à baliza de Helton Leite nem duma pressão claustrofóbica à área encarnada, mas antes resultado do talento imenso das peças inglesas – e, aos portugueses, faltou novamente mais ambição e mais capacidade de concentração, além de uma disponibilidade física que só existe até à hora de jogo para a maioria dos jogadores.
Depois do episódio de Isaías, prometia-se nova noite memorável à passagem do minuto 60, mas não houve arcaboiço para manietar os mais flagrantes perigos contrários. Saka teve noite de craque, decidindo mesmo quando não estava a ser um dos destaques.

A Figura
Aubameyang (Arsenal FC) – Dois golos, um anulado. Seria o hattrick redentor depois da noite paupérrima de há uma semana, onde a armadilha de fora-de-jogo dos encarnados funcionou na perfeição e a baliza lhe fez confusão. O gabonês decidiu, apareceu no sítio certo e foi sempre figura preponderante no ataque Gunner, assumindo os confrontos físicos e possibilitando aos que o apoiavam a eficácia de movimentos que só um jogo posicional de grande nível pode proporcionar.

O Fora de Jogo
Bjorn KuipersEntra aqui o seu nome por uma razão completamente alheia ao propósito da escolha. O SL Benfica nunca ganhou um jogo apitado por ele. Um deles é a final de Amesterdão, na época 2012/2013. Hoje parecia tudo encaminhado para ser o batismo, enquanto o atrevimento do destino demorou 86 minutos a ser ignorado mas, novamente, o árbitro holandês tornou-se carrasco dos encarnados. A arbitragem procedeu sem qualquer nota de erros, diga-se.

Análise Tática – Arsenal FC
O Arsenal FC apresentou-se num 4-2-3-1, com Tierney a partir da esquerda em vez da capacidade de jogo interior de Cédric. O escocês, com o pulmão imenso que o caracteriza, foi muitas vezes tarefa demasiado árdua para Diogo Gonçalves, que teve dificuldade em lidar com a sua capacidade física. Quando se lhe juntou Willian, após o segundo golo dos benfiquistas, a equipa melhorou. O brasileiro compreendeu-o como Smith Rowe nunca tinha conseguido, proporcionando-se o empate passado cinco minutos. Odegaard teve imensa liberdade para se associar com Saka do lado direito, onde se juntava muitas vezes Bellerín – o que obrigou Rafa a redobrados esforços na missão defensiva.

Onze Inicial e Pontuações
Leno (4)
Bellerín (5)
David Luiz (5)
Gabriel (5)
Tierney (7)
Xhaka (5)
Ceballos (5)
Odegaard (6)
Saka (6)
Smith Rowe (4)
Aubameyang (8)
Subs Utilizados
Chambers (5)
Elneny (3)
Lacazette (5)
Partey (3)
Willian (6)

Análise Tática – SL Benfica
O 3-5-2 provável confirmou-se, com outra dupla de ataque. Rafa foi um dos mais inconformados e Seferovic teve noite para esquecer, sempre desapoiado e isolado no meio do bloco inglês. Diogo Gonçalves e Grimaldo exploraram os corredores, Taarabt aproximou-se de Weigl e Pizzi tinha mais disponibilidade para apoiar os da frente – daí que muitas vezes a equipa se aproximasse do 3-4-3 em linha, que se confirmou a partir da tripla substituição aos 57’. Everton substituiu o capitão e ocupou a direita, apoiando Diogo, e Gabriel completou o duplo-pivot. A outra adição, Darwin, ofereceu muito à equipa dadas as suas características. Foi a partir daí que o SL Benfica começou a segurar mais a bola no meio-campo contrário e a explorar melhor a profundidade, só ficando a faltar outra qualidade na definição das jogadas.

Onze Inicial e Pontuações
Helton Leite (8)
Diogo Gonçalves (7)
Lucas Veríssimo (5)O
tamendi (5)
Vertonghen (5)
Grimaldo (4)
Weigl (6)
Taarabt (5)
Pizzi (5)
Rafa (8)
Seferovic (4)
Subs Utilizados
Gabriel (5)
Everton (5)
Darwin (5)
Nuno Tavares (3)
Waldschmidt (3)"

Na Grécia não há carinho e o Benfica foi lá morrer duas vezes



"Jorge Jesus retornou aos três centrais, o Benfica jogou bem durante uma hora, marcou duas vezes ao Arsenal, mas acabaria por perder (3-2) com um golo aos 87' - e com erros cometidos. Foi eliminado da Liga Europa no mesmo país onde fora afastado da Liga dos Campeões e, porque os erros sempre ficam a cargo de alguém, há sempre quem seja responsável

Ouvida a sacudidela de capote de há um dia, fôssemos nós analisá-la com os óculos da literalidade e o tim-tim por tim-tim como unidade de medida, e o exercício, mais do que simples, era com certeza simplista - fidelizando-nos pelas palavras de Jorge Jesus, as responsabilidades sobre tudo o que de mau aconteceu no campo, em dois meses, não lhe diz respeito “porque não treinava os jogadores do Benfica”; portanto, as coisas boas também não lhe poderiam ser imputadas.
Não seria só simplista, olhar assim seria simplório, como o é dizer num dia que “vamos ter todos de assumir a nossa responsabilidade” para, 14 dias volvidos, esse dito pelo treinador vira não dito quando resolveu dizer “tivemos algumas culpas, mas chega de me responsabilizarem”. A responsabilizar alguém neste Arsenal-Benfica que se seguiu, então, que seja Rafa.
O pequeno e barbudo foi o homem mais procurado pela equipa, montada, novamente, com os três centrais possíveis com Lucas Veríssimo e a usá-los, com calma e critério, nas saídas da área, que mais limpas foram do que na semana anterior por esses três homens serem pacientes a atraírem os adversários e, depois, os alas e Weigl precisarem de poucos toques para encontrarem o homem livre. Saídos de trás, depois havia Rafa.
Deambulando a todo o terreno disponível entre os médios e as costas de Seferovic - preso na frente para prender um central do Arsenal -, o falso avançado irrequetizava-se nesta falsidade, fugia da última linha inglesa e aguardava nos lugares certos para receber passes. Colheu muitos, mas, ao virar-se, via como os meios do Benfica invariavelmente se esgotavam aí, nesses momentos, nessas receções.
As conduções e tentativas de Rafa só tinham Seferovic quieto e marcado à sua frente. Tinha de esperar pelos alas, nunca muito projetados pela participação que lhes era pedida na saída de bola, ou esperar por dois dos três médios que, pela sua natureza, tardavam em dar-lhe soluções de cara para a baliza: Pizzi não rompia para atacar espaços; Taarabt menos ainda, o marroquino é apologista de bola no pé; e o jogo ordeiro de Weigl tem residência uns metros atrás.
Apanhado nestas curvas, Rafa também hesitava ou precipitava-se em decidir como atacar dali o adversário. E todo o tempo que Rafa, o jogador mais desequilibrador, tinha de esperar, deixou o Arsenal recuperar posições e juntar as linhas de todas as vezes em que foi ultrapassado pela construção com bola do Benfica.
E, sem a ter, o 5-3-2 ou 5-4-1 no qual se organizava, dependendo da disponibilidade do mencionado pequeno e barbudo em se juntar à linha de médios, até manteve os ingleses ao largo da área durante várias fases da primeira parte.
Os problemas surgiam quando Ceballos desencantava arranques com a bola quando lhe era permitido virar-se ao primeiro toque, embora, quase sempre, esses laivos no meio-campo inglês. E, já na metade do Benfica, quando o Arsenal concentrava a posse de um lado e o Benfica não impedia que atacasse a ala contrária com um passe longo - por norma, para a esquerda, em Tierney ou Aubameyang.
Ou, também, quando Saka se afastou da área para receber uma bola, teve espaço para se virar, a passividade reincidente do Benfica já em vários jogos se repetiu, Vertonghen saiu tarde ao adversário e Aubameyang, desmarcando-se nas barbas de Lucas e nas costas de Otamendi, correu para o espaço vagado pelo central belga e o passe entrou para picar a bola (21’) por cima do corpo de Helton Leite. 
Mas o jogo continuou tal e qual, imutado, o Benfica a ser muito capaz de existir explorar os espaços em 70 metros de campo, uma das muitas jogadas em que se evadiu da pressão do Arsenal acabou em Weigl a sofrer falta e a bola a ser parada. Diogo Gonçalves bateu-a com a curvatura tensa (43’) e ela entrou baliza dentro, por onde Bernd Leno teria de pertencer a outra espécie para a alcançar.
O empate empatava-se de novo e os primeiros 10 minutos do Arsenal após o intervalo encostaram o Benfica à área. David Luz e Gabriel corriam mais com a bola desde trás, seduziam Seferovic ou Rafa a pressioná-los e, depois, a equipa manipulava as jogadas só com três médios pela frente da última linha. 
 Ao fim dessa dezena de minutos, Jorge Jesus responsabilizou-se para garantir que, daí em diante, seriam quatro médios à frente da defesa, substituiu Seferovic, Pizzi e Taarabt por Darwin, Gabriel e Everton e, entre as mexidas, Rafa era para se estacionar à esquerda nos momentos defensivos. Não por isso, pelo acerto de posicionamentos, nem pelas trocas, mas, logo a seguir, Helton Leite agarrou a bola num canto e bateu-a rápido para a frente.
O singular tipo que lá estava era Rafa, partido ao sprint atrás do meteorito em queda ao qual Ceballos chegou primeiro. Só que julgou, sem olhar, que o acerto era cabeceá-lo para trás, onde a junção do seu erro com a corrida do português deram ao nascido em 1993 a oportunidade de fintar o guarda-redes e marcar (61’). O bom que o Benfica jogava no pé de quem mais se responsabiliza em tentar fazer mal ao Arsenal.
Era adquirido que os ingleses iam carregar, forçar e arriscar, quem corre atrás correrá para sempre na urgência e, para o lado esquerdo da investida, Mikel Arteta fez entrar Willian. A simplicidade técnica do brasileiro incomodou à bruta Diogo Gonçalves, fixava-o a cada bola que recebia e arrastava-o para a linha, provocando o espaço onde Tierney recebeu um passe, na área. Everton julgou que o escocês iria sair para o pé que pouco usa, foi driblado e o lateral empatou (67’) outra vez o jogo.
Empatando assim o Benfica passaria, havia que segurar o resultado, a bola e o ímpeto do Arsenal, que se projetou ainda mais para a frente e encostou jogadores à linha defensiva, empurrando-a contra a área. Parecia querer explorar a lentidão de reação de Lucas Veríssimo quando ao brasileiro competia compensar as costas do ala, mas, até ao fim, os ingleses apenas veriam a baliza uma vez.
Antes, ainda Darwin recebeu e segurou uma bola com gentileza pedestre pouco vista, rodou sobre ele próprio e rematou à entrada da área. A bola pouco se afastou do poste. Gabriel, igualmente rodopiando sobre o seu eixo, rematou a meia altura uma bola bloqueada por um corpo que estava entre ele e a baliza. Essa bola foi cruzada já por Nuno Tavares.
O lateral posto em campo na vez de Grimaldo, ainda a tempo de dar mais de um metro a Bukayo Saka, o canhoto com bola à beira da área, quase convidando-o a sair da finta para o pé que mais usa, o que usou para curvar um cruzamento com mira nas costas de Lucas, por onde o brasileiro tinha o braço a vigiar Aubameyang mas deixou-o esgueirar-se, e com ele a cabeça do gabonês, que desviou o 3-2. Faltavam três minutos para os 90’, o pouco tempo que havia era quase nada.
O Benfica perdeu, foi eliminado da Liga Europa (1-1 e 3-2) e destes jogos lembrar-se-á Rafa um dia, saberá o que se passou e recordará a não-glória da eliminatória, ao contrário da parelha de jogos de 1991. Agora, os mesmos jogadores e o mesmo treinador foram eliminados de uma competição europeia pela segunda vez na mesma época, e no mesmo país.
Em outro estádio vazio da Grécia, onde nem uma apitadela de carinho se ouviu. Ali nunca haveria um buzinão do que fosse.
Quanto a responsabilidades, é simples, se o futebol fosse imune a erros não haveria tanta gente a gostar de o ver e praticar no mesmo planeta redondo. É natural e inevitável, todo o humano erra e o reação tardia de Vertonghen no 1-0, o julgamento precipitado de Everton no 2-2 e a letargia de Nuno Tavares e Lucas no 3-2 foram três erros entre os incontáveis que os jogadores do Benfica e do Arsenal foram cometendo.
E quem comete erros será sempre responsável por os cometer. Sejam quem for."

Malheiro...

Passageiro do lado!!!


"Perdemos todas as palavras para descrever a farsa que está o futebol Português. Isto não vai ter consequências nenhumas, pois não? É que já é tudo feito às claras e ninguém diz nada. É o assumir público da total coação e intimidação. Vale tudo!"

Acompanhante de luxo !!!



"Um livre-trânsito para pressionar e intimidar as equipas de arbitragem.
E ninguém quer saber. Vale tudo!"


«Somos todos iguais, mas alguns são mais iguais que outros.»


"Portugal encontra-se a combater uma nova vaga da pandemia de Covid-19. Para conter a propagação do vírus, os portugueses, na sua maioria, fecharam-se em casa, cumprindo escrupulosamente as restrições decretadas. As escolas fecharam e os alunos têm aulas à distância, suspendeu-se o comércio não essencial e os negócios reinventaram-se e adaptaram-se a esta nova realidade. O futebol não tem sido exceção. Os clubes encontram-se privados de receitas de bilheteira e, não menos importante, do apoio dos seus adeptos. Nesse capítulo, o SL Benfica tem sido o mais prejudicado, consequência da sua indefetível e incomparável massa adepta. Porém, nem todos os clubes e cidadãos portugueses se veem obrigados a cumprir as medidas impostas no âmbito da crise sanitária – e humanitária – que vivemos: o FC Porto, assim como alguns membros da sua claque oficial, os Super Dragões, vive num “regime de exceção”.
Na passada segunda-feira, o FC Porto defrontou o Marítimo no estádio dos Barreiros. Fernando Madureira e outros elementos da claque portista, em claro apoio à sua equipa, também viajaram para o Funchal. Tal privilégio, per se, já seria de estranhar, tendo em conta as regras atuais de confinamento obrigatório, contudo, outro dado ainda se reveste de maior escândalo: viajaram no mesmo avião que a equipa de arbitragem, chefiada por Vítor Ferreira. Consta, segundo nos foi dado a saber, que o regabofe foi grande, todos em amena cavaqueira. O motivo, bem sabemos, é o mesmo de sempre, condicionar.
Questionamos: quem permitiu que esta situação, absolutamente inconcebível e terceiro-mundista, acontecesse? A Liga Portugal continua a ser cúmplice da vergonha com que se veste o futebol português, cuja verdade é sistematicamente desvirtuada. A comunicação social, tão célere em propagandear minudências sobre o SL Benfica, também é omissa e conivente com as práticas caducas e criminosas de um passado de má memória, mas que continua bem presente, perpetradas pelos mesmos de sempre.
«Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que outros», assim decretaram os porcos de George Orwell."

Quando a única certeza é a incerteza


"Factos:
1) A ansiedade é uma resposta natural (e, “por defeito”, no ser humano) à perceção de incerteza;
2) Esta resposta por “defeito” encontra-se inibida enquanto a perceção de segurança for mantida;
3) A experiência de ansiedade ou stress crónicos resultam mais de uma perceção generalizada de ameaça do que de uma ameaça concreta;
4) A intolerância à incerteza é uma característica natural, aliviada quando a perceção de segurança aumenta;
5) Somos naturalmente ávidos por segurança, por “certezas” e controlo, pelo que, quando imaginamos nada poder fazer para aumentar a perceção de segurança, a possibilidade de amplificação de fenómenos de natureza ansiogénica eleva-se, favorecendo, entre outras, a perturbação e labilidade do humor, a dispersão cognitiva (ou a incapacidade em manter sustentadamente a atenção), o isolamento e a perda de vitalidade (física e psicológica).
Um exercício simples de multiplicar a informação apresentada (que agrega um denominador comum em termos de conclusões por parte de uma enormidade de estudos científicos) por uma grande prevalência de indivíduos na nossa sociedade leva-nos a compreender facilmente a perda de vitalidade, a sensação de “desesperança” e a tão falada “fadiga pandémica”, que se instala naturalmente pelo arrastamento temporal desta experiência (que se encontra a ser globalmente documentada, nas mais diferentes disciplinas científicas e nos diferentes setores das sociedades).
Se fizéssemos um corte transversal nas diferentes Organizações, podemos se calhar entender que a ausência de Literacia Emocional (com forte expressão na nossa capacidade de regulação emocional e de nos mantermos “focados e firmes” em contextos de adversidade), na realidade pré-existente à condição de pandemia, mas agora amplificada e notoriamente visível porque se faz notar na qualidade (ou falta dela) das decisões tomadas, transformou-se agora, também ela numa espécie de “vírus” que não nos permite mobilizar as ações e a vontade (determinação), no sentido de uma resolução eficiente deste episódio que tem tanto de “crítico” como de oportuno para de uma vez por todas darmos relevância ao que, de facto, podemos controlar com um nível de eficiência (nem sempre fácil), maior: o nosso comportamento.

Desporto: A Caminho de Tóquio (Que Aprendizagens Para a Sociedade Em Geral?)
A pouco menos de 150 dias deste grande evento desportivo, o quotidiano de qualquer atleta permanece inalterável, na imprevisibilidade que agora o caracteriza:
- Treinar ao mais alto nível, gerir lesões, cansaço, energia – estar pronto, ou seja, “fazer figas” para que, de entre tantas provas de qualificação que vão sendo canceladas, uma não o seja e possam, enfim, colocar em prática um trabalho desenvolvido em condições inimagináveis para muitos de nós – desenvolver esforço, sacrifício, tolerar a dor, a incerteza e a ansiedade que também se instalam (são humanos, é verdade), enquanto aguardam “a oportunidade” que muitas vezes teima em não surgir. 
 Importa entender que, tal como a restante sociedade, a carreira dos atletas acabou por ser naturalmente impactada nas mais diversas esferas: na alteração abrupta da sua rotina diária de trabalho (não, não o podem fazer em teletrabalho...), na perceção de risco de doença/vida (sua ou de familiares), na alteração disruptiva das suas dinâmicas familiares (sim, é verdade... muitos têm filhos e famílias às quais repentinamente tiveram que dar muito mais suporte), na perceção de poderem assegurar a sua sobrevivência económica (uma vez que muitos complementam o seu retorno financeiro com os prémios que alcançam nas competições que agora não existem) e no luto efetivo de familiares que não tenham sobrevivido à doença durante a pandemia ou em virtude da mesma (por padecer de outras patologias que viram o seu apoio diminuído).

O que nos diferencia dos “Top Performers”?
A exposição precoce a um contexto de aprendizagem planeada, onde o esforço desenvolvido num longo processo de treino de resistência à frustração (porque os resultados não surgem de um dia para o outro...) culmina na aquisição de uma dada competência desejada (“temperada” pela adrenalina libertada no momento em que percebemos que alcançamos o que desejamos), vai modulando algumas características pessoais, mas também possibilitando o treino de um conjunto de competências que, invariavelmente, dotam estas pessoas com as ferramentas necessárias para o sucesso (no Desporto, na Vida e/ou Empresas), como sejam, a título de exemplo:
- Maior controlo sobre as fontes de stress e ansiedade;
- Maior capacidade de foco e de bloqueio de distrações;
- Maior capacidade em desenvolver esforço sem perceção de retorno a curto prazo;
- Maior capacidade em definir objetivos e concretizá-los;
- E, por isto tudo, maior propensão em relacionar-se com a adversidade em “modo de desafio”, que é o que muitos atletas estão a fazer neste momento.

Em resumo:
Vivendo o mesmo contexto que os cidadãos “comuns”, tendo passado pela mesma onda de respostas emocionais que toda a sociedade passou (e passa), na realidade souberam adaptar-se com mais eficácia e eficiência, refocando no desejo e vontade de representar Portugal e, por isso, retornando mais rapidamente a indicadores elevados de performance.

Como?
Em boa verdade e, depois do “choque” inicial:
1) Avaliaram a situação (os recursos, as possibilidades, aquilo que de facto poderiam controlar), definiram um plano e agiram (estabeleceram rotinas claras de otimização);
2) Identificaram as fontes de adversidade, reforçaram competências pessoais e alicerces de grupo/tribo, pilares fundamentais de uma capacidade aumentada de adaptação e resiliência;
3) Aumentaram a perceção de “competitividade” em treino, permitindo ao seu cérebro experienciar múltiplas situações onde foi/é possível ensaiar o controlo voluntário do hemisfério direito (sob o qual se executam performances de excelência);
4) Reforçaram as experiências de intensidade e entusiasmo resultante das pequenas conquistas no treino (=trabalho) do quotidiano, potenciando também a sua ativação em contextos de competição e elevada pressão;
5) Aproveitaram a falta de estímulo competitivo (a “cereja” que muitas vezes nos dispersa), para intensificar as aprendizagens do quotidiano, reforçar o conhecimento sobre as suas emoções, a sua regulação e uma ainda maior capacidade de mobilizar a sua vontade;
6) E, ainda mais exemplarmente, envolveram-se com a Comunidade, partilhando com os seus seguidores nas redes sociais as formas que encontraram para se superar!
É mesmo “isto” que, na realidade, os diferencia de todos os outros: Estabelecem objetivos, saem da sua zona de conforto e desdobram as suas ações em comportamentos com significado e direção.
E se, nos diferentes segmentos da Sociedade, tivéssemos sido capazes de fazer o mesmo? Como podemos, ainda, reagir? Transformar, tal como os atletas, a adversidade numa oportunidade?
Redobra, desde já, a preocupação com o atual panorama (da inexistência) do desporto de formação, fazendo antecipar que, da parte de quem decide, existe um desconhecimento profundo acerca das implicações que uma paragem de quase duas épocas desportivas, com a natural redução drástica de praticantes, vai ter não só no tecido desportivo (e na representação da “marca” Portugal no estrangeiro, com todas as implicações económicas que daí advém) mas também na nossa sociedade, quando as gerações agora afetadas assumirem o seu papel na mesma – só aí poderemos avaliar que competências trazem e que impacto terá no nosso futuro, sendo que, desde já, se adivinha um “prognóstico bastante reservado” – até porque, quando os indivíduos adoecem, as Sociedades também o fazem."

Fever Pitch - João & David... Inglaterra!