Últimas indefectivações

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A culpa é do Varela

"Ver talento desperdiçado é algo que custa muito. Principalmente quando o talento se explana em áreas de grande valor financeiro, com forte potencial para multiplicação da riqueza para quem tem tal dom, e elevados benefícios para todos os que com ele interagem profissionalmente. Estas linhas chegam a propósito da situação de Bruno Varela. O jovem guarda-redes do Benfica está numa esquina da sua ainda curta carreira. E não parece já possível que seja na Luz o palco para demonstração da sua grande valia.
A vida é feita muitas vezes de acasos. Se, como muito bem eternizam os nossos Comandos, a sorte protege os audazes, por vezes audácia e valor não chegam para se ter sorte.
Vejamos as diferenças entre o lançamento de Ederson e de Varela: Ederson teve a sua oportunidade quando a equipa estava sólida, saudável, com vontade de vencer. Ederson é um excelente guarda-redes e, naquela conjuntura favorável, foi-lhe fácil agarrar o lugar, depois brilhar muito, dar o seu natural franguito, tudo até protagonizar uma transferência milionária.
Varela entrou para a baliza numa equipa sem polos positivos. Um onze sem explosão, sem soluções fluídas pelas alas, incapaz de ser mandão no jogo, ganhar ressaltos e bolas de ninguém. Em vários jogos, Varela fez excelentes defesas, segurou pontos. Depois, deu um frango e logo foi retirado da baliza. O melhor que Luís Filipe Vieira terá a decidir será emprestar Varela em Janeiro, de preferência colocando-o no mercado internacional. Para futura venda.
Só fora da Luz poderá continuar a evoluir como merece um atleta que tem potencial para ser um dos melhores guarda-redes portugueses da próxima década. Mas a forma como foram geridas as últimas semanas deste felino, seguro e corajoso guardião, estão longe de recomendar a célebre estrutura do Benfica, como valorizadora de activos relevantes. Rui Vitória continua a apostar em jogadores que parecem tomados pela fadiga de ganhar, não há laterais que defendam e ataquem bem, foi vendido o único ponta-de-lança com presença na área. Pois bem, os resultados não surgem, queima-se o Varela na fogueira da opinião clubística e siga a crise. Como se tem visto nos jogos posteriores à decisão de queimar este jovem talento, o problema não estava no guarda-redes. Lamentável. Parece óbvio que Varela deu um grande trambolhão na sua carreira. Que não perca a fé, pois tem imensa qualidade!

P.S.- Em Alvalade estoirou a guerra de palavras entre as gentes do atual presidente e um ex-vice-presidente. Os mísseis entre Bruno de Carvalho e o ex-dirigente podem estilhaçar a actual estrutura. Pereira Cristóvão parece estar na posse de vasta informação sobre factos relevantes e tem muito pouco a perder. Aguardamos com expectativa os próximos capítulos das denúncias do ex-inspector da Judiciária."

Festa da Taça? Onde?

"Quando a FPF alterou o regulamento da competição Taça de Portugal (em 2015/16), colocando as equipas da 1.ª Liga a competir na 3.ª eliminatória frente a formações de escalão inferior, na condição de visitantes, fê-lo com o propósito de garantir o que durante décadas ficou conhecido como ‘a festa da Taça’. Uma boa ideia que na prática ainda não está a atingir o objectivo proposto. Porque a ‘boa vontade’ federativa esbarra de frente com a realidade: há inúmeros campos no país sem condições mínimas para receber jogos de adversários como Benfica, FC Porto ou Sporting.
A segurança de jogadores e adeptos tem de estar sempre em primeiro lugar, factor que excluí logo uma série de campos de equipas dos distritais e do 3.º escalão. Depois, há ‘pequenos’ que olham mais para a receita e menos para a ‘festa’, deslocalizando o palco do espectáculo, hipotecando as poucas possibilidades de êxito desportivo (há um ano, o Real defrontou o Arouca em Massamá e ganhou; depois ‘recebeu’ o Benfica no Restelo e perdeu 0-3).
Este ano as coisas não serão diferentes. Évora não terá a ‘festa da Taça’ frente ao FC Porto porque o campo do Lusitano foi chumbado (irá realizar-se no Restelo); Oleiros saberá amanhã se pode ou não viver a ‘noite de gala’ na próxima quinta-feira frente ao Sporting. Como há um ano o 1.º de Dezembro não deu a Sintra uma noite diferente, porque jogou com o Benfica no Estoril; nem Gafanha teve honras de ver o FC Porto no seu campo, porque defrontou os dragões no Municipal de Aveiro. A Taça de Portugal ainda não consegue garantir a festa prometida. E é pena."

Lanças... dar a volta!

Benfiquismo (DCXVII)

Vítor Silva

Redirectas L - Omeletes Sem Ovos

Caros indefectíveis, faça-se um teste: O cozinheiro mais conceituado perante o desafio de fazer uma simples omelete. Pode escolher quaisquer 11 ingredientes de uma lista extensa onde se incluem todos os vegetais, frutas, legumes, laticínios bem como gorduras, óleos e produtos ricos em proteínas como carnes, peixes ou crustáceos. Contudo para surpresa geral, da lista não constam ovos. 

Qual o resultado da empreitada? Que omelete apresentará o chefe cozinheiro à mesa do repasto proveniente da genialidade de toda a sua criatividade e mestria?

Por certo, se compreenderá que existem desafios que são em si mesmo difíceis provas a empreender.

Sim, caros companheiros, um treinador de futebol pode ser comparado a um cozinheiro que tem como principal missão preparar uma omelete a partir de um número de ingredientes distintos. Para isso escolhe jogadores de determinadas características consoante a sua ideia de jogo (receita). Os jogadores podem assim ser equiparados aos ingredientes. De todos os ingredientes os ovos são o ingrediente mais importante.

A consistência da omelete depende do número de ovos a utilizar. Ao serem retirados ovos dificilmente se consegue manter a mesma qualidade de omelete em termos de forma, textura e sabor.

A SAD do futebol do Sport Lisboa e Benfica quando tem como base da sua estratégia do modelo de negócio a venda de bens alimentícios tem de compreender que se vender os ovos sem ter outros para repor o stock deixa de conseguir produzir  as omeletes que são o seu ganha pão e sustento vital.

Ovos são assim jogadores raros de perfil único essenciais a uma equipa de futebol que se deseja campeã. Para o Benfica são jogadores como Jonas, Ederson, Renato Sanches, Nelson Semedo. Não se vendem porque: "tivemos que os deixar ir". Vendem-se quando outros ovos surgem caso contrário deixam de existir omeletes. Trocar carne por peixe não vem mal ao mundo. Salsa por coentros é quase indiferente. Agora, Ovos são ovos. Não se troca. Não tem como. 

Certo Sr. Presidente? Certo companheiros?

Querem fazer omeletes sem ovos?

Pelo Benfica Sempre!

Redheart

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Invictos !!!

Belenenses 23 - 37 Benfica
(13-20)

Mais um jogo avassalador... contra uma equipa que está a fazer um excelente campeonato.
Defesa intratável... com o Figueira em grande; contra-ataques demolidores e excelente eficácia...; ataques diversificados com combinações 'fáceis'; com todos a contribuírem...
E até a arbitragem absolutamente inacreditável (no inicio), teve que se render às evidências, e quando o resultado ficou 'decidido', 'desistiram' de inclinar o pavilhão!!!

O Terzic voltou a ter alguns minutos... e o Cavalcanti também... Destaco a confiança dos jogadores no momento do remate: uma diferença da noite para o dia, comparando com épocas recentes!!!

Na próxima jornada, recebemos os Lagartos, será uma boa oportunidade para observar o que é que esta equipa pode fazer com os 'milionários' do BESA!!!

O meu Benfica

"Importa que sejamos capazes de não anular o passado numas semanas de uma exageradamente chamada crise

Caminho da pedras
Têm sido, de facto, penosas as últimas semanas do futebol apresentado pelo Benfica. Não há como negá-lo. Ainda que com uma defesa enfraquecida face à temporada passada, custa a compreender a constante falta de controlo de jogo no meio-campo e o distanciamento incompreensível entre linhas. Agora não há lesionados, mas parece haver cansados. Mistérios que são difíceis de decifrar. No jogo em Basileia, a copiosa derrota até poderia ser uma daquelas noites em que tudo corre absolutamente mal e que, afinal, todas as equipas têm, mesmo as maiores. No ano passado, o Barcelona perdeu por 4-0 em Paris e o PSG retribuiu com um impensável desaire por 6-1. Nesta mesma jornada de agora, o Bayern só não apanhou mais de 3 golos por muita sorte. Porém receio que a noite negra na Suíça não tenha sido um mero acaso em que o futebol é pródigo. Neste campeonato, está a ser custoso ver o meu clube desperdiçar pontos com exibições muito vulgares, senão mesmo muito deficitárias. Há um pormenor do jogo da Champions que vale a pena ser retido. A equipa só fez 5 faltas (segundo o quadro da transmissão televisiva, embora 8 segunda A Bola)! Qualquer destes algarismos parece evidenciar uma equipa de insustentável leveza. Não me lembro de alguma vez o Benfica ter feito tão poucas faltas. E, neste domínio, é caso para dizer nem 8 nem 80, ou seja, nem poucas faltas, nem excesso de faltas. Um outro aspecto que me entristeceu foi o de observar a frustração imerecida de tantos portugueses que lá estiveram e que, imagino, no dia seguinte de trabalho se sentiram vexados.
Contra o Marítimo - equipa bem organizada - um batatal travestido de relvado pseudo composto nas vésperas do jogo, o Benfica, uma vez mais, foi incapaz de segurar um resultado positivo depois de um golaço de Jonas. E já lá vão quatro (CSKA, Boavista, Braga e Marítimo). Um jogo em que poderíamos ter vencido, mas que também poderíamos ter perdido. Houve vontade, empenho, mas tal não foi suficiente. Houve excessivas perdas de bola no epicentro do campo. Há um aspecto que eu - treinador de redpass - não compreendo de todo e que foi bem visível no jogo do Funchal. Onde está o ponta-de-lança? Mitroglou já cá não está, ele que, mais tosco ou mais habilidoso, fixava estabelecimento na grande área e por ali andava para marcar uns golinhos. Jonas tem sido (e bem) um jogador que ocupa e cria espaços para fora da área. Jiménez é muito esforçado e trabalhador, mas joga quase a extremo, numa posição para mim incompreensível! Houve uma série de jogadas em que os alas olhavam para a área e não morava lá ninguém!
Fazendo-se, porém, a comparação com o que aconteceu, no ano passado, com as equipas que o Benfica já defrontou, nesta temporada o resultado não é muito diferente: menos dois pontos. Mas a jogar muito menos.
Este fim-de-semana, afinal tudo na mesma na classificação, o que é uma má notícia.

Ser do Benfica
Nos momentos difíceis é necessário que a emoção descontrolada não tolde a razão. O que se passou na Assembleia-geral do Benfica da passada semana é, a todos os títulos, deplorável. Sem perdermos a capacidade crítica e o dever de escrutinar as decisões dos órgãos eleitos (e estes perceberem que os nossos estados de alma devem ser tomados me conta), importa que sejamos capazes de não anular o passado numas semanas de uma exageradamente chamada crise.
Ser benfiquista só quando se ganha é fácil, mas é uma ligação interesseira, conjuntural que não resiste à mínima brisa perdedora. Ao longo da minha vida, já passei por momentos gloriosos e por acontecimentos desoladores. É assim o desporto. Não se ganha sempre e não se perde sempre. No fim, o que para mim sempre contou, conta e contará são três palavras mágicas unidas no nome do meu clube - Sport Lisboa e Benfica - essa identidade trinitária consagrada no lema E pluribus unum. O seu espírito fundacional, a sua história, os seus sucessos são a imagem indelével de um clube tão português e ecléctico quanto saboroso.
Às vezes me pergunto porque sou do Benfica. Sou e chega. Sou amante, até ao tutano da minha alma. E, como bom amante clubista, em regime de monogamia absoluta. Cega, mesmo. Porque nenhum outro me interessa, para além do Benfica.
Um desaire do meu Benfica perfura-me o ânimo, sem cuidar da anestesia. Uma vitória do meu Benfica alimenta-me mais do que o mais calórico dos alimentos e anima-me mais do que uma mão cheia de antidepressivos. Na vitória, o amor ao clube é partilhado, mas na derrota a solidão dá-lhe uma expressão infinita e incondicional. Como acontece com a pessoa amada, o verdadeiro teste do afecto concretiza-se nos momentos difíceis.
O Benfica é, para mim, afecto e privilégio, coração e razão, vitamina e analgésico, fermento e adocicante, saudade e desafio, cumplicidade e aconchego.
O Benfica acontece em mim. E nesse acontecer, funde-se a minha personalidade, com o sentimento de pertença. De paixão. Onde tudo o resto do clube se apaga, excepto isso mesmo: a ideia de ser Benfica. Sem personagens, sem fronteiras, sem referências. Apenas a imanência de o Benfica estar dentro de mim e eu dentro do Benfica. Ganhando ou perdendo. Com papoilas saltitantes. E sonhos dentro do sonho.

Eusébio Cup
aqui falei da inoportunidade de o Benfica ter acordado o desafio correspondente à Eusébio Cup no início de Outubro, no Canadá. Fiquei, pois, satisfeito com o seu cancelamento, independentemente das razões que possam ser invocadas.
No entanto, entristece-me a desvalorização a que vem sendo submetido este troféu criado para homenagear eternamente o grande Eusébio da Silva Ferreira. Começou por ser um jogo com grandes clubes (Inter, Milan, Arsenal e Real Madrid), passou depois para clubes medianos (Tottenham, São Paulo, Ajax) e, nos últimos anos, desembocou em partidas pouco apelativas como, por exemplo, contra o Monterrey (no México!) e o Torino. Aparentemente, deixou de ser o verdadeiro jogo de apresentação da equipa no Estádio da Luz. Este ano, depois da tentativa falhada com o Chapecoense (aqui até se percebe o efeito emocional depois do trágico acidente que vitimou a equipa brasileira), ajustou-se o jogo com o novo Glasgow Rangers (não confundir com o consagrado e velho Glasgow Rangers...), agora anulado. Ainda haverá a 10.º edição. da Eusébio Cup? Tenho pena, embora compreenda quão difícil é encontrar datas e equipas que valorizem o troféu.

Contraluz
- Número I: 1601
Os dias desde o último de campeão (tricampeão) do FC Porto (18 de Maio de 2013).
- Número II: 5624
Os dias desde o último título de campeão do Sporting (12 de Maio de 2002).
-Número III: 136
Os dias desde o último título de campeão (tetracampeão) do Benfica (20 de Maio de 2017)
- Palavra: Crise
Deriva do grego Krisis que significa decisão. Já para os chineses, crise=perigo+oportunidade. A palavra que na vida, na política, na economia, no futebol mais se ouve e repete. A nossa idossincrasia ciclotímica mais parece um registo de um sismógrafo. Da euforia à crise num ápice e, de regresso, da crise ao seu esquecimento à distância de um nada. Agora, que já não temos cá a troika, é a vez do Benfica alimentar convulsivamente o diário nacional das crises... até parecendo que não ganhou 12 dos 16 títulos nacionais das últimas 4 temporadas!
- Pensamento:
«A verdadeira crise, é a crise da incompetência. Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo»
(Albert Einstein, 1879-1955)"

Bagão Félix, in A Bola

O futebol visto por Albert Camus

"Benfica, Sporting, FC Porto, Belenenses e V. Guimarães foram multados em 765 euros pelo CD da FPF pelo facto dos seus adeptos terem desrespeitado o minuto de silêncio em memória do antigo árbitro José Pratas. Há alguns aferidores do estado civilizacional dos povos e o respeito perante a morte é um deles. E obviamente, por estes exemplos. Portugal fica mal colocado no ranking.
Nos três estádios onde os cinco clubes multados, jogaram, estiveram 58.086 espectadores e não andarei muito longe da verdade se disser que os energúmenos que assobiaram o minuto de silêncio não terão sido mais do que um por cento. Poucos, é certo, mas em número suficiente para dar do futebol e de quem vai ao futebol uma imagem, perdoem-me o termo, rasca.
Infelizmente, não dei conta de que algum dos clubes agora multados tenha lamentado o comportamento daqueles adeptos e dele se tenha demarcado. Lembrei-me das palavras de Fernando Gomes e da necessidade de batalhar contra a cultura de ódio instalada e contras as agressões verbais que são prática corrente entre as franjas mais radicais, fazendo pedagogia e ensinando, a quem não recebeu, nem em casa nem na escola, os princípios básicos da civilização, o exemplo de Albert Camus, que disse que tudo o que sabia de moralidade e dever era graças de moralidade e dever era graças ao futebol. Aos 99 por cento de espectadores respeitadores e civilizados que estiveram em Alvalade, nos Barreiros e no Restelo, lanço um repto, que já não perco tempo a fazer aos dirigentes: mostrem aos hooligans dos vossos próprios clubes que não são bem-vindos aos estádios. Não sei deixem nivelar por baixo..."

José Manuel Delgado, in A Bola

Conversa entre BdC e PC

"O impensável aconteceu. Bruno de Carvalho e Pinto da Costa lado a lado na tribuna de Alvalade. Num mero exercício de bem-disposta imaginação, mas baseado em factos reais (ou, neste caso, bocas reais), o diálogo poderá ter sido mais ou menos assim - depois de um longo período de silêncio, e já com o jogo a decorrer há algum tempo, foi Bruno de Carvalho, o anfitrião, a quebrar o gelo.
BdC - Jorge, desculpa ter dito que estás senil e és um rufia e um labrego, que nem a idade te dá vergonha...
PC - Ok, Bruno. Desculpa também ter dito que não sabia quem eras e ter-te chamado adjunto do Jorge Jesus. E aquilo da venda do Moutinho para o Mónaco...
BdC - O que lá vai lá vai, interessa agora é o presente. Temos de estar unidos. É como aquele clássico dos Starship, não sei se conheces, Nothing's Gonna Stop Us Now... Se o Sporting não ganhar o campeonato, que seja o FC Porto. Mas Jorge, já imaginaste se o título for decidido entre nós?
PC - Bruno, com o banho de bola que estás a levar, em principio não precisas de te preocupar com isso... Quando ao resto, vamos viver um dia de cada vez, espero que a nossa amizade dure ate fazermos uma daquelas trocas em que eu acabo com o Bas Dost e o Gelson e tu com o Vaná e o Reyes...
BdC - És um brincalhão, Jorge! Olha, vou fazer um churrasco lá em casa para a semana e estava a pensar...
PC - Vamos com calma, Bruno. É tudo muito recente. O importante é que continuem a voar cadeiras do outro lado da Segunda Circular.
BdC - Bom, o jogo acabou, gostei muito deste bocadinho, Jorge.
PC - Obrigado pelo convite, Bruno. Se eu soubesse como ia ser o jogo, o Casillas tinha-se sentado aqui connosco.
BdC - Lá estás tu na galhofa, Jorge!
(Já com Pinto da Costa a abandonar a tribuna, Bruno de Carvalho chama-o de longe e grita?
- Jorge, tens Facebook? Adiciona-me!"

Gonçalo Guimarães, in A Bola

​Évora? Oleiros? Que horror…

"O futebol maior do nosso país raramente sai da zona litoral, a sua zona da conforto, e, quando o faz, é por via da Taça de Portugal.

Primeiro fazem-se as regras. Na primeira oportunidade, contrariam-se essas regras. Esclarecendo: em tempos, foi decidido que na primeira eliminatória da Taça de Portugal em que entrem as equipas grandes, leia-se Liga NOS, é obrigatório que os jogos que sejam encontrados no sorteio se realizem sempre no terreno dos tidos por mais pequenos.
Por força desse sorteio realizado recentemente, ao Sporting coube a deslocação a Oleiros, ao Futebol Clube do Porto uma saída até Évora, tendo o Benfica como adversário o Olhanense na cidade do sotavento algarvio.
De imediato, surgiram as primeiras reacções negativas: tanto em Oleiros como na cidade museu não há condições satisfatórias para que os jogos sorteados ali se disputem.
No caso do Lusitano foram até adiantadas alternativas, no caso Campo Maior, Setúbal e até, imagine-se, o Estádio do Restelo.
O Lusitano de Évora foi um clube dos mais prestigiados nos anos 50, com equipas que fizeram a delícia dos adeptos do futebol e conquistaram posições de grande relevo.
Oleiros tem uma história muito mais recente, mas merece louvor o esforço que tem vindo a ser desenvolvido numa vila da zona do pinhal interior, recentemente devastada por incêndios inclementes, que ainda povoam as nossas memórias.
O futebol maior do nosso país raramente sai da zona litoral, a sua zona da conforto, e, quando o faz, é por via da Taça de Portugal. E quando tal acontece a festa ultrapassa os limites dos resultados do jogo, e fica a constituir um marco na história das pequenas colectividades.
Exige-se, pois, que seja feito um esforço por parte de todas as entidades abrangidas por esta situação, com a Federação Portuguesa de Futebol à cabeça, para que a festa da Taça não sofra um rombo incalculavelmente pesado.
A história de Évora merece esse esforço, e o entusiasmo de Oleiros também.
Portanto, não os desiludam."

A 'ciência' do sucesso

"Os factores associados à determinação do sucesso encontram, desde há muito tempo, grande receptividade nas mais diferentes áreas que estudam o comportamento humano.
De facto, uma rápida consulta às livrarias nacionais (online) revela uma montra de quase 1000 títulos - e, internacionalmente, acima de 200.000 - sobre o tema.
A atracção pelo sucesso que o ser humano aparenta ter, torna este assunto alvo de contínuas investigações e um êxito (quase) garantido de um top 3, num qualquer ranking de vendas.
Não considerando a bibliografia de inspiração quase "mágica", onde a aparente "mentalização do sucesso" se apresenta como uma ferramenta para o alcançar, vendida quase sempre como algo materializável a "curto prazo", de facto, observa-se uma tendência claríssima na constatação de que o sucesso resulta de uma construção sistematizada, maioritariamente, a médio-longo (às vezes, longuíssimo) prazo.
Senão, vejamos (a título de exemplo):
No livro Outliers, de Malcolm Gladwell, o autor discute, fundamentando, como a prática continuada e sistematizada de uma qualquer competência (ex: violino), pode conduzir à manifestação de talento acima da média. A partir deste exemplo, brinda-nos com um conjunto de outros exemplos, onde este tipo de fenómeno pode ser observado (como foi o caso dos Beatles, que tocavam ininterruptamente, anos a fio sem sequer fazerem pausas...).
Na realidade, este autor defende que o principal indicador de excelência, não é aquilo que é comummente reconhecido como talento inato mas antes, o que resulta de esforço continuado (no caso, o autor refere 10.000h de prática, como exemplo).
Corroborando esta tendência, o próprio Einstein defendeu que a Genialidade derivaria de 1% de talento e 99% de trabalho árduo.
Angela Duckworth, no seu livro GRIT (best seller), defende a mesmíssima ideia de que a Determinação (activada através da paixão e resiliência) seria a principal "culpada" pelo sucesso consolidado que pode ser observado em determinados indivíduos, independentemente do seu contexto de performance.
Para esta última autora, o SUCESSO (estudado pela sua equipa de investigação em variadíssimos cenários de top-performance) resultaria de uma fortíssima autodisciplina, combinada com a paixão dirigida a um propósito específico a longo termo, independentemente dos reveses que tenham que ser ultrapassados.
Por esta razão, seja pelo relato (ou exemplo) directo de grandes performers ou pelo resultado da investigação científica dirigida para este âmbito, o Sucesso, enquanto resultado consistente e consolidado, aparenta derivar de um esforço continuado, durante um período consideravelmente alargado e independentemente dos contratempos que possam surgir.
A superação das lesões e o retorno à top performance por parte do Nelson Évora ou da Telma Monteiro, são um bom espelho deste tipo de fenómeno.
Curiosamente, e apesar de toda a evidência científica, continuamos a lidar muito mal com a percepção de insucesso, invariavelmente enquadrada num time-line de curto prazo, inevitavelmente contaminado pelas emoções associadas à frustração resultante de um qualquer resultado pontual - frequentemente experenciado como um produto definitivo do nosso esforço.
Demasiadas vezes, é vivido como fonte de humilhação e de incompetência e, por essa razão, também demasiadas vezes se observa a adopção de um comportamento de evitamento (do "risco")... e assim, se "treina" a Motivação para Evitar o Fracasso e não o que se deveria de facto "treinar" - a Motivação para o Sucesso.
A gestão (emocional) do insucesso e do erro, emerge assim, estejamos a falar de contexto desportivo, empresarial ou académico, como um ponto fulcral que deve ser trabalhado... quando pretendemos, mesmo... ser bem-sucedidos(as).
Efectivamente, a única possibilidade de nos mantermos focados e motivados, face aos diferentes e inúmeros contratempos que irão surgir, resulta da integração do erro/insucesso como fonte de informação e aprendizagem, num percurso que se pretende de superação e especialização a longo-termo.
Por esta razão, o erro e o fracasso, se devidamente enquadrados, não são apenas um "mal-necessário", como um claro "laboratório" que alavanca o sucesso desejado.
Urge, assim, uma mudança de perspectiva, enquadrando o sucesso como o produto de uma "Maratona" e não de um "Sprint de 100m".
Urge "treinar" desafio (continuado) e não Medo."

Segurança rodoviária e desporto

"Em relação aos condutores era preciso que a disciplina de Actividade Gímnica e Desportiva funcionasse

Max Cunha dizia que, quando jovem, “afirmava coisas sem lógica, era repreendido pelos pais e professores; mais tarde, quando passou a dizer coisas com lógica, era ‘agredido’ pela sociedade”...
1 – Vem isto a propósito da segurança rodoviária, ou melhor, da falta dela, já que há da parte de certas “autoridades”, ligadas ao assunto, uma enorme hipocrisia, uma grande falta de lógica e também algum cinismo, mas acima de tudo uma enorme desonestidade intelectual que está na base de tudo isto.
Ora vejamos: há “autoridades” (só de nome) que entendem que se deve desprezar a tecnologia e que os carros, independentemente do ano de fabrico, devem poder andar todos à mesma velocidade.
Será que a tecnologia automóvel não evoluiu nada em 50 anos?
É aqui nesta “apreciação”, em que o legislador demonstra a sua profunda arrogância e ignorância, já que as condições de segurança são completamente diferentes do que eram há 50 anos, que das duas uma: ou um Fiat 500 não poderá ultrapassar os 60 km/h numa autoestrada, ou então um Mercedes poderá andar, na mesma autoestrada, a 150 km/h. A não ser assim, não há lógica, e quando isso é reconhecido pelos condutores, eles próprios corrigem esse lapso.
Mas há muito mais: é que o próprio Estado usa de má-fé e dá-se ao “luxo” de mandar cobrar altas taxas para os carros de alta potência, que dão velocidades superiores a 200 km/h, e depois manda multá-los porque ultrapassaram os 120 km/h!
Pensamos que o Estado, então, não deveria autorizar a venda de carros que possam atingir mais de 120 km/h. Isto é que seria lógico, sério e decente – só que o Estado perderia milhões de euros em impostos e em multas!
Mas, meus amigos, se querem um raciocínio lógico e querem dar um exemplo de seriedade, têm de mudar de práxis, ou então ficam com o odioso da falta de honestidade, como no AIMI para casados em comunhão de bens!
2 – Mas falemos de segurança rodoviária. Há três vetores a considerar: as estradas, as viaturas e os condutores.
a) As estradas, por vezes, não são cuidadas com rigor, e inclusive não são eliminados pontos negros onde se verificam repetidos acidentes, com mortos e feridos, sem que nada mude.
b) Em relação às viaturas, não há uma política séria de análise de viaturas que, como já foi dito, não tem qualquer lógica, ou seja, deixam um carro com 50 anos de idade e de pequena cilindrada circular a 120 km/h numa autoestrada, enquanto impõem a mesma velocidade (120 km/h) a um Mercedes, a um Audi, ou um Jaguar, etc., etc., novos, com uma tecnologia moderna e com sistemas avançados de segurança.
É que, de facto, não tem lógica e não é sério!
c) Em relação aos condutores era preciso que a disciplina de Atividade Gímnica e Desportiva, nas escolas, funcionasse de modo eficaz, o que não acontece, já que a maioria dos condutores não sabe o que é o estereótipo motor-dinâmico, não tem coordenação óculo-manual nem espácio-temporal, não sabe gerir uma sinergia muscular e também não faz ideia para que lado deve virar o volante quando, com chuva, o carro derrapa para a direita ou esquerda.
O A.C.P. e a Faculdade de Motricidade Humana, da ex-Universidade Técnica de Lisboa, poderiam ter um protocolo, permanente, para estudar e propor às autoridades responsáveis como fazer para evitar esta mortandade nas estradas. Mas será que alguém estará mesmo preocupado com o assunto? Então porque continua tudo na mesma?"

Benfiquismo (DCXVI)

Samua !!!

105x68... rescaldo

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Para onde vais Benfica?

"1.O Benfica encontra-se num daqueles ciclos viciosos em que uma equipa de futebol vai acumulando maus resultados (e piores exibições), em parte, por vir de maus resultados. Esta espiral depressiva está a afectar o comportamento colectivo, levando a que os mesmos jogadores que ergueram vários troféus aparentem ser, agora, banais. Mas está bem longe de explicar tudo.
Temos assistido à revelação de problemas larvares, presentes no jogar do Benfica há demasiado tempo. Neste sentido, permanece um mistério perceber a razão porque contra equipas mais fortes (ou até face a equipas assim-assim – que é o que são Basileia e Marítimo), o Benfica teima num 4-4-2 com Jonas a nove e meio. Este sistema, que funciona quando a equipa está bem e quando tem o jogador da posição oito em forma, revela-se curto em partidas mais exigentes e, ainda mais, quando é preciso gerir vantagens no marcador.
Continua a ser difícil compreender a razão para o Benfica insistir, apenas e só, num sistema que está condenado a não funcionar demasiadas vezes, que exige muito dos jogadores, enquanto coloca o meio-campo frequentemente em inferioridade numérica e sem rasgo na organização ofensiva.
É manifesto que o Benfica perdeu demasiados jogadores de grande qualidade na defesa e não encontrou substitutos. Como já aqui escrevi repetidamente, esta lacuna tem mais consequências na participação dos defesas no ataque do que na forma como a equipa defende. Mas o que dizer da pizzidependência do Benfica? Não só não existe um substituto claro para o bragantino (é Chrien? é Krovinovic?), como, pior, não se vislumbra um sistema alternativo que permita encaixar outros jogadores e até proteger as baixas de forma de Pizzi.
Para além de questões conjunturais, o problema do Benfica é, ao mesmo tempo, falta de arrojo táctico e ausência de flexibilidade estratégica na forma como aborda os jogos. É isso que se quer nos maus momentos, em lugar de se insistir na mesma tecla. Se nada fizer, Rui Vitória será vítima das suas próprias hesitações.
2. Em Basileia, e, sintomaticamente, também na Madeira, o Benfica entrou em campo de pijama. Não no sentido figurado, como se a explicação para os maus resultados fosse a atitude competitiva. A equipa jogou de pijama porque utilizou um equipamento inenarrável, de um cinzento que nada tem a ver com as cores do Glorioso. A uma das noites europeias mais negras da história do Benfica fica, por isso, associada uma imagem carregada de simbolismo negativo. Pior mesmo só o símbolo do clube estampado a preto e branco. A menos que os regulamentos tenham sido alterados, o Benfica está obrigado a ostentar um símbolo com cores, que "corresponde ao respeito e à dignidade do próprio Clube". A nossa História deveria levar a que, entre as necessidades comerciais da ADIDAS e a fidelidade à identidade do Benfica, não se hesitasse por um momento na defesa do Clube."

E a bola pedia-me: 'Chutem-me, por favor!'

"Albert Stubbins: muita gente nunca terá ouvido falar de Albert Stubbins..
Gosto de nomes. Os nomes desenham personalidades. Vamos lá ver: Eusébio não seria Eusébio se se chamasse Ernesto. E Pelé? Seria o quê se não lhe tivessem dado essa alcunha mágica que se confunde com futebol?
Não são perguntas fáceis de responder.
Eu não sei responder a elas.
Mas sei que não há ninguém mais napoleónico do que Napoleão ou mais garboso do que Greta Garbo.
Ou mais salazarento do que Salazar.
Há nomes que se adjectivam. Albert Stubbins não é um deles.
Bob Spitz escreveu um livro extraordinário sobre os Beatles: verdadeira enciclopédia.
Refere, a determinada altura, que John Lennon era, basicamente, desligado do desporto. E do futebol em particular.
Talvez não fosse bem assim.
Albert Stubbins foi um avançado-centro do Newcastle United e do Liverpool dos anos-40 e 50. John Lennon usou-o para aporrinhar Paul McCartney e, de facto, eles eram especialistas em aporrinharem-se mutuamente.
A brincadeira surgiu durante a escolha de personagens históricas que haveriam de compor aquela capa inesquecivelmente psicadélica de Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band Hearts Club Band.
O facto é este e já o contei por mais de uma vez: no meio de Fred Astaire, Groucho Marx, Alistair Crowley, Aldous Houxley e outros quejandos, Paul decidiu incluir um rapaz que cometera a proeza de marcar 60 golos num campeonato com a camisola do Everton. John não quis ficar atrás: Gandhi, Nietzsche, H.G. Wells, o Marquês de Sade e Albert Stubbins figuravam na sua lista.
Bem, mas eu quero é falar de George Robledo: Jorge Robledo Oliver, nascido no dia 14 de Abril de 1926, em Iquique, no Chile, filho de pai chileno e mãe inglesa.
Aos 5 anos já estava na Europa. Em Inglaterra, pois claro! Em Brampton, que não é dos lugares mais cosmopolitas da Grã-Bretanha mas que tem minas de carvão nas quais o jovem Robledo começou cedo a escarafunchar.
Nos intervalos da fuligem, jogava como avançado no Huddersfield. Em 1946 assinou um contrato profissional com o Barnsley e mandou às malvas o chapéu com a lanterninha na pala.
Dir-me-ão: a que propósito aparece aqui este tal de Robledo, vindo de parte nenhuma com o Che?
E eu respondo: por causa de John Lennon.
Em 1951, Jorge Robledo tornou-se no primeiro sul americano a disputar a final da Taça de Inglaterra. Ah! A Taça de Inglaterra!!! Quem não gostaria de jogar uma final da Taça de Inglaterra?
Robledo jogou duas. E venceu ambas. Com a camisola do Newcastle United, derrotou o Blackpool na primeira e o Arsenal na segunda, logo no ano seguinte. E aí ficou para a história.
Minuto 84: uma bola vem lá de um lado qualquer pedindo - «chutem-me! Chutem-me por favor!». 
Jorge Robledo era um cavalheiro. Não ficava imune aos desejos de uma dama, sobretudo quando essa dama era a mágica senhora das paixões: a bola.
Por isso não pediu licença nem fez uma vénia: simplesmente chutou.
Foi golo.
E Jorge, que nessa altura já era George, ficou congelado numa fotografia no momento do remate, preso ao golo indefensável e irretocável.
Em 1974, John Lennon editou Walls and Bridges. Vivia uma fase conturbada da relação com Yoko Ono e aproveitou para se escapulir para a Califórnia com a assistente pessoal de Yoko, May Pang. Talvez tenha sido uma certa influência oriental a conduzi-lo para um disco com muito de saudosismo. Nobody Loves You /When You-re Down and Out, Scared ou Old Dirty Road, revelam um Lennon muito entregue aos seus próprios fantasmas.
Talvez por isso tenha decidido ilustrar o álbum com desenhos seus de infância. Entre eles há um que fica particularmente bem emoldurado na parede branca de uma crónica: é de John Winston Lennon com apenas 11 anos; representa o golo de Jorge Robledo ao Arsenal na final da Taça de Inglaterra. 
Difícil seria, apesar do que dizem os compêndios, que um rapazinho de Liverpool não gostasse de futebol.
Um fascínio como o que sentia por uns olhos verdes. E cantava: The green eyed goddamn straight from your heart.
Isso! Direito ao coração. Como o golo de Robledo."

Alvorada... do Guerra

Como se o mar se lembrasse do nome dos seus afogados

"Os Benfica-Sporting ou Sporting-Benfica são sempre motivo infalível para uma crónica. Ou, então, falar de muitos deles. Tenho tantos e tantos na memória, que seria impossível recordá-los a todos. Mas relembro o ritmo do romance do dérbi.

Não tenhamos dúvidas. Eu, pelo menos, não tenho. O Benfica-Sporting ou Sporting-Benfica é, em Portugal, o jogo-de-todos-os-jogos.
Tantos e tantos Benfica-Sporting-Benfica tenho na minha memória, que recordá-los seria como se o mar soubesse de cor o nome de todos os seus afogados.
Mais de 100 anos de nomes e de números, de lugares e acontecimentos.
Mais de 100 anos de páginas de jornais plenas de paixão.
Mais de 100 anos de fintas que mereceriam sonetos. De defesas que mereceriam sonatas. De golos que mereceriam bibliotecas ou óperas inteiras.
'Houve uma vez...'
Haverá sempre 'Houve uma vez...'
Houve uma vez, em 14 de Julho de 1919, no Campo de Benfica, na finalíssima do Campeonato de Lisboa, que o Sporting entrou em campo apenas com dez jogadores, porque não tinha mais para disputar o encontro.
Diria alguém, com requintes de ironia: 'O Sporting estava em inferioridade numérica, mas o Benfica estava em inferioridade psicológica'.
Nada seria mais verdadeiro.
O Sporting venceu por 1-0, golo de Perdigão.
Venceu igualmente a segunda mão da finalíssima, por 2-1. E foi campeão de Lisboa.
Em ambos os jogos houve violência e luta corpo a corpo por entre o público.
E aí ninguém sabe onde acabou a inferioridade psicológica e começou a superioridade numérica.

Quando os benfiquistas faziam barulho a mais
Houve na véspera daquele Benfica-Sporting, nas Amoreiras, de 3 de Março de 1940, que Peyroteo conta no seu livro de memória. Manuel Marques gostava de irritar o treinador Szabo, que falava um português atrapalhado. E interrompia-lhe a prelecção, dizendo: 'Isto está tudo muito bem, mas o senhor não está a contar com os adeptos deles que fazem muito barulho e influem no resultado'.
Szabo zangava-se: 'Sinhor! Carágo! Dar uma cabêçada para si. Não brincar e não rir que não ter graça nênhum!'
E Manuel Marques insistia: 'Eles fazem muito barulho. A gente não vê a bola, não vê nada. Só houve gritar Benfica, Benfica, Benfica. É horrível!'
E Szabo, então, dava táctica definitiva: 'Passar bola bons condições e Fernando fazer calar tudos, gajos não piar mais...'
E Fernando Peyroteo faz calar todos. Com golos: um, dois e três. 'Caréga Maria!'
Houve aquele outro jogo de 17 de Outubro de 1965, no Estádio da Luz, com Lourenço, que viera de Académica e a quem, por piçarra, chamavam a 'Vaca', a fazer quatro golos, dois deles de chapéu a Melo.
'Não foi uma questão de o guarda-redes ser pequeno, foi uma questão de ter ângulo para marcar os golos assim', diria Lourenço, mais tarde, defendendo-se da troça dos que diziam que tinha marcado quatro golos a um guarda-redes anão. E Melo sofrendo o 'síndroma de Persónio' e nunca mais jogando outro derby.
O imarcescível Nelson Rodrigues costumava escrever: 'Tudo é Fla-Flu e o resto é paisagem'.
Pois era mesmo isso que me apetecia escrever.
Mais de 100 anos de nomes. A dimensão dos grandes nomes.
As imensas madrugadas das vitórias as longas noites das derrotas.
'Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...'
Poemas de noventa minutos.
Domingos transformados em catástrofes.
Alfama e Madragoa; a ponte e o Cristo-Rei; e leão do Marquês.
O Chiado e o Rossio. A Estrela e Campolide.
As noites inquietas do Bairro Alto.
As ruínas do Carmo e o sino da Igreja da Trindade.
Da Travessa do Guarda-Jóias ao elevador da Bica.
Da Penha de França à Pampulha.
Do Largo do Conde Barão à Rua do Sol ao Rato.
Tudo isso é também Benfica e Sporting.
Equipas inteiras lidas ao ritmo dos poemas.
Azevedo, Cardoso e Marques; Barrosa, Canário e Veríssimo; Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travaços e Albano.
Costa Pereira, Mário João e Ângelo; Cavém, Germano e Cruz; José Augusto, Eusébio, Torres, Coluna e Simões.
Carvalho, Pedro Gomes e Hilário; Fernando Mendes, Alexandre Baptista e José Carlos; Figueiredo, Osvaldo Silva, Mascarenas, Geo e Morais.
José Henrique; Artur, Humberto Coelho, Messias e Adolfo; Toni e Jaime Graça; Eusébio, Artur Jorge, Nené e Jordão.
'Tirem-me daqui a metafísica!'
Fados canalhas; homens bêbados; montras de leituras; lençóis dependurados nas janelas.
O rio ao fundo.
'Macio Tejo, ancestral e mudo'.
O transistor pousado sobre o balcão de mármore da taberna: 'Goooolooooooo!'
O grito fugindo ao longo das ruelas estreitas.
Fitas coloridas de plástico nas portas dos talhos.
Miúdos dependurados nas boleias dos eléctricos.
Prazeres e Gomes Freire.
'Houve uma vez': poderia continuar assim e nunca mais acabar.
O romance dos Benfica-Sporting é um poema interminável.
Com Lisboa e Tejo e tudo.
Não me digam que já não têm saudades de um Benfica-Sporting, porque eu não acredito..."

Afonso de Melo, in O Benfica

O golo adversário que a Luz aplaudiu

"De regresso ao Estádio da Luz, Rui Costa, após ter marcado ao Benfica, não conseguiu conter as lágrimas.

Para o jogo de apresentação da época 199/97 do Benfica, o adversário escolhido foi a Fiorentina. A expectativa era imensa, tanto pela oportunidade de ver os novos jogadores, como pelas vitórias na digressão por Itália e Inglaterra. Assim, a 13 de Agosto de 1996, o Estádio da Luz lotou.
Havia ainda uma outra atracção que mexia com o público, o regresso de Rui Costa. O menino que se estreou, de 'águia ao peito', nos infantis na época 1980/81, voltava a um recinto que bem conhecia, no qual conquistou o Mundial em 1991, com as cores de Portugal. Porém, desta vez - pela primeira vez - como adversário do Benfica. Os muitos anos no Clube tinham criado um elo, que se foi tornando cada vez mais forte. O sentimento era partilhado pelos adeptos, neste reencontro 'emocionaram-se (...) os benfiquistas com a recepção a Rui Costa. A saudade que os estrangeiros não sabem traduzir, bateu no coração encarnado'.
O encontro começou de feição para os benfiquistas, que marcaram logo nos primeiros minutos, por intermédio de Valdo, 'na transformação de um livre (superiormente executado)'. A Fiorentina tentava procurar o empate através de uma pressão alta e rápidas transições, e o sector que mais se evidenciava era precisamente o meio-campo, com 'Rui Costa em grande, pois claro, oferecendo lances de eleição a Batistuta'. Os futebolistas profissionais têm, entre outras qualidades, a de se conseguirem abstrair do ambiente à sua volta e suportar as suas emoções durante os 90 minutos, traçar as jogadas na cabeça e executarem-nas com os pés, como se se tratasse de algo puramente mecânico.
Contudo, a um minuto do fim partida, o 'maestro' não se conseguiu conter. 'Após passe de Batistuta, entrou na área e rematou com toda a sua técnica, para belíssimo golo'. De imediato, 'deitou as mãos à cara, como menino que, subitamente deseja esconder as lágrimas de uma multidão que o ovaciona e que, revelando grande sensibilidade, grita o seu nome em coro'. Nem o árbitro da partida, Vítor Pereira, ficou indiferente à situação e 'foi o primeiro a ir ao seu encontro'.
Pode ficar a saber mais sobre este sensacional jogador na área 23 - Inesquecíveis do Museu Benfica - Cosme Damião."

António Pinto, in O Benfica

Benfiquismo (DCXV)

Minervino voando no Brasil !!!

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Chama Imensa... Situações iguais, decisões diferentes !!!

Lixívia 8

Tabela Anti-Lixívia
Corruptos...... 22 (0) = 22
Benfica ........ 17 (-2) = 19
Sporting ..... 20 (+3) = 17


Demorou 8 jornadas para o Benfica ser claramente prejudicado pontualmente pela arbitragem, mesmo com a 'ajuda' do VAR!!!
Coincidência ou não, tivemos o Jorge Sousa - que já nos tinha prejudicado em Chaves, mas o golo do Seferovic no último minuto 'abafou' a polémica -, e como VAR tivemos o Luís Godinho que ainda a semana passada 'ofereceu' o empate aos Lagartos em Moreira de Cónegos... Coincidência, seguramente!!!
O lance mais emblemático, foi a Mão na Bola do defesa do Marítimo... como o Benfica chamou a atenção exactamente igual a um lance ocorrido no Feirense-Paços de Ferreira, decidido pela VAR. Na altura apesar dos protestos do Paços, os 'expert's' concordaram com a decisão, e curiosamente agora já 'mudaram' de opinião!!!
O jogador do Marítimo não tem o braço encostado ao corpo, e acaba por aumentar a volumetria... Aliás, comparando com a jogada de Vila da Feira, onde o corte é feito com o ombro e o aumento da volumetria é muito mais discutível...
Recordo também que o jogador que faz o corte com o Braço, é o mesmo que teve uma entrada assassina, sobre o André Almeida, que levou Amarelo mas podia ter levado Vermelho, e nesta jogada com o Salvio, teria no mínimo que levar o 2.º Amarelo!!!
Aliás o critério disciplinar, foi mais uma vez vergonhoso... No lance do Cervi (não acho que tenha sido penalty), no inicio da jogada existe um atropelamento do Jonas, a lei da vantagem foi bem dada, mas o cartão tinha que sair quando o jogo parou...!!!
(Curiosamente o jogo parou, com a marcação de uma falta ridícula do Fejsa exactamente igual à falta que o Cervi 'pediu' dentro da área)!!!
Recordo aquilo que disse na crónica do jogo: Jorge Sousa depois do castigo, regressou no Rio Ave - Corruptos, onde teve um critério disciplinar completamente diferente, beneficiando claramente os Corruptos... Coincidência, seguramente!!!

No 'particular' de Alvalixo, o Xistra não teve problemas... Os Corruptos, nem sequer se preocuparam no pré-jogo, com o facto do árbitro e o VAR serem dois fanáticos Lagartos!!!
Tudo entre amigos!!!

Repare-se bem na classificação: mesmo a jogar mal, o Benfica devia estar em 2.º lugar!!!
Enquanto o Benfica neste momento está em 'depressão', os Lagartos que não vencem à 4 jogos, sendo que só marcaram 1 golo (um auto-golo, após um canto irregular...) nestes 4 jogos, continuam em 'euforia'!!!
Aquilo que está a acontecer neste momento é claramente fruto da Coacção anti-Benfica que tem sido massificada pela descomunicação social!!! Posso estar enganado, mas não acredito que as práticas do Apito Dourado se mantenham... Aquilo que está a acontecer é que os árbitros estão com medo de tomarem decisões que possam ser favoráveis ao Benfica... Até agora os VAR's ainda não tomaram uma decisão pró-Benfica... mesmo em jogadas claríssimas, como o penalty com o Jardel, mesmo com os penalty's em Chaves... etc...!!!
Coacção, pura e dura...

Anexos:
Benfica
1.ª-Braga(c), V(3-1), Xistra (Verissímo), Prejudicados, (4-1), Sem influência no resultado
2.ª-Chaves(f), V(0-1), Sousa (Tiago Martins), Prejudicados, (0-3), Sem influência no resultado
3.ª-Belenenses(c), V(5-0), Rui Costa (Vasco Santos), Beneficiados, Sem influência no resultado
4.ª-Rio Ave(f), E(1-1), Hugo Miguel (Veríssimo), Prejudicados, Impossível contabilizar
5.ª-Portimonense(c), V(2-1), Gonçalo Martins (Veríssimo), Prejudicados, (4-0), Sem influência no resultado
6.ª-Boavista(f), D(2-1), Soares Dias (Esteves), Beneficiado, Prejudicados, Impossível contabilizar
7.ª-Paços de Ferreira(c), V(2-0), Xistra (Hugo Miguel), Nada a assinalar
8.ª-Marítimo(f), E(1-1), Sousa (Godinho), Prejudicados, (1-2), (-2 pontos)

Sporting
1.ª-Aves(f), V(0-2), Tiago Martins (Pinheiro), Nada a assinalar
2.ª-Setúbal(c), V(1-0), Paixão (Hugo Miguel), Beneficiados, (0-0), (+2 pontos)
3.ª-Guimarães(f), V(0-5), Hugo Miguel (Sousa), Nada a assinalar
4.ª-Estoril(c), V(2-1), Godinho (Tiago Martins), Beneficiados, Impossível contabilizar
5.ª-Feirense(f), V(2-3), Soares Dias (Tiago Martins), Nada a assinalar
6.ª-Tondela(c), V(2-0), Manuel Oliveira (Tiago Martins), Nada a assinalar
7.ª-Moreirense(f), E(1-1), Godinho (Pinheiro), Beneficiados, (2-0), (+1 ponto)
8.ª-Corruptos(c), E(0-0), Xistra (Hugo Miguel), Nada a assinalar

Corruptos
1.ª-Estoril(c), V(4-0), Hugo Miguel (Luís Ferreira), Nada a assinalar
2.ª-Tondela(f), V(0-1), Veríssimo (Malheiro), Beneficiados, Impossível contabilizar
3.ª-Moreirense(c), V(3-0), Manuel Oliveira (Tiago Martins), Prejudicados, Beneficiados, Sem influência no resultado
4.ª-Braga(f), V(0-1), Xistra (Esteves), Beneficiados, Impossível contabilizar
5.ª-Chaves(c), V(3-0), Rui Oliveira (Hugo Miguel), Nada a assinalar
6.ª-Rio Ave(f), V(1-2), Sousa (Godinho), Nada a assinalar
7.ª-Portimonense(c), V(5-2), Luís Ferreira (Sousa), Nada a assinalar
8.ª-Sporting(f), E(0-0), Xistra (Hugo Miguel), Nada a assinalar

Jornadas anteriores:
Épocas anteriores:
2016-2017
2015-2016

Quando marcar cedo não chega

"O Benfica entrou bem, mas após o empate do Marítimo pedia-se mais. Faltou plano B.

Entrada personalizada
1. Com a responsabilidade do seu lado, mas só pelo mau momento que atravessa, mas também pelo facto de poder recuperar pontos a FC Porto e Sporting, face ao empate no clássico, o Benfica entrou no jogo da Madeira pressionante e muito agressivo, ganhando duelos, encostando desde cedo o Marítimo à sua área e conseguindo um golo madrugador e de belo efeito por Jonas. O jogo tornou-se então viril, com uma intensidade bastante elevada nos duelos, o que cedo acabaria por limitar as acções de Pablo, do lado do Marítimo, e Fejsa, do lado das águias, face aos cartões amarelos vistos na sequência de entradas além dos limites.

Uma questão de dinâmicas
2. O Benfica insistia numa constante construção a três, mas o meio-campo não funcionava, em grande parte devido à superioridade numérica do Marítimo neste sector. Acresce que os encarnados insistiam em jogar nos homens da frente, com movimentos de profundidade que se tornavam previsíveis. Desta forma, o Marítimo anulava as primeiras bolas e conquistava as segundas. A equipa da casa jogava de forma mais apoiada e conseguia desenhar jogadas com melhor critério até ao último terço, onde aí, através de muitos cruzamentos efectuados, o Benfica ganhava nas alturas os duelos individuais e raramente deixava criar perigo para as redes de Júlio César. Até ao golo.

O minuto 66 depois do aviso
3. O Marítimo avisou primeiro, por Rodrigo Pinho, numa jogada fora do normal do jogo maritimista (minuto 57), mas a insistência mantinha-se nos cruzamentos, o que viria a dar os seus frutos ao minuto 66, golo da autoria de Ricardo Valente. A partir daí, quando se pedia um Benfica dominador e com uma resposta do banco, face a um resultado penalizador para os objectivos da equipa e para a necessidade de redenção por tudo o que tem acontecido, a verdade é que nada mudou. Nem no sistema, nem nas dinâmicas... Faltou o plano B.

Identidade baralhada
4. O colectivo do Benfica teve dificuldades em ligar os seus sectores. O jogo de corredores viveu das individualidades, onde os laterais não criaram desequilíbrios, e o seu meio-campo foi facilmente anulado. O jogo encarnado torna-se previsível, uma vez que Pizzi fica sozinho nas mestria da organização ofensiva, com a única solução a passar pelo jogo directo para os corredores, neste particular com muitos passes falhados dos centrais. O meio-campo do Benfica simplesmente não existiu."

Ricardo Chéu, in A Bola

Nada de clássico, só dá Benfica

"Quem viu Ederson fazer de libero em Stamford Bridge, compensando uma ou outra falha dos companheiros, melhor compreende aquilo que de certa maneira já sabíamos e que Basileia e Funchal confirmaram: no verão, o Benfica perdeu não um grande guarda-redes, mas dois. A última época, constituindo o tempo de afirmação do actual dono incontestado da baliza do City, foi igualmente a da despedida de Júlio César do elevado nível exibicional que o consagrou e o trouxe um dia para a Lisboa.
O golo de ontem do Marítimo está gravado na memória dos benfiquistas: centro a sobrevoar uma defesa de "espectadores" e remate de cabeça de Ricardo Valente, já na pequena área. Júlio César hesitou, não saiu de imediato debaixo dos postes – a trajectória da bola, a "fugir" do guarda-redes, tornava difícil uma intercepção com êxito, mas é nesses lances que se faz a diferença – e ficou irremediavelmente batido. E se formos recapitular os golos sofridos pelo Benfica na Suíça, encontraremos também uma enervante lentidão do brasileiro a sair da baliza. O tempo não perdoa e a verdade é dura. Júlio César, com pesar o escrevo, deixou de ser guarda-redes para o Benfica.
Claro que os encarnados não têm apenas um problema na defesa e a oportunidade perdida para se reaproximar dos seus rivais vai exigir um esforço sério para ultrapassar o problema. Mas não é a crise do futebol da Luz que pode justificar o que se passou na assembleia-geral. E não valorizo sequer as agressões ou cadeiras pelo ar, que já nada me admira na triste noção de convivência e de civismo que distingue as franjas de excluídos e de energúmenos que um pouco por todo o lado – e usando diversos emblemas – nos envergonham. O que me surpreende é a falta de memória de alguns benfiquistas, que não só desvalorizam a gestão da era Vieira – hoje voltada igualmente, e bem, para a redução do passivo – como se esquecem de tudo o que a antecedeu e se permitem, assim, insultar o presidente. Nunca dependi de Luís Filipe Vieira – nem sequer na década em que dirigi este jornal – mas admiro cada vez mais o seu mérito na recuperação da grandeza do monstro adormecido e a infinita paciência com que atura a ingratidão e a estupidez.
O último parágrafo vai desta feita para o despedimento de Carlo Ancelotti do Bayern de Munique, uma situação que só não é normal na vida de um treinador porque Carletto foi empurrado por um quinteto de jogadores, entre os quais Ribéry e Robben, um com 34 anos e outro que para lá caminha, ambos longe do rendimento que justifique os 8 ou 9 milhões de euros que ganham por ano. Não entendo uma empresa que trabalha assim e espero que em breve a dupla de imprestáveis milionários receba a resposta. Ainda ontem, vimos como um ex-condenado esmagou nas urnas uma criatura que ele tinha inventado e que o abandonou. Como Roma, que não paga aos traidores, as pessoas não esquecem, nem perdoam."

Como interpretar o discurso de Rui Vitória?

"“É uma fase”, “vamos trabalhar”, “não vamos enterrar a cabeça na areia”, “desistir não entra no nosso dicionário” - estas são algumas das expressões que Rui Vitória tem repetido nos últimos tempos, justificando os maus resultados da equipa (...)

quem considere que mesmo face a estatísticas objectivas, há sempre duas formas – pelo menos – de analisar o que os números nos oferecem. Mas no caso do momento actual do Benfica já é difícil não afirmar que a equipa está com um rendimento baixo e inferior ao esperado.
Perante isto, os adeptos e os interessados pelo fenómeno começaram também a analisar o discurso e as intervenções do treinador do Benfica face à incapacidade que a equipa vai demonstrando para superar os adversários e manter as muitas vantagens que foi conseguindo em vários jogos, mas que acabam por ser desfeitas.
E o que nos oferece a análise à comunicação interpessoal do Rui Vitória e da que nos é possível analisar?
Em primeiro lugar, há que fazer um ponto prévio e muito importante: Rui Vitória tem sido muito coerente relativamente aos seus discursos no Benfica. Desde da sua primeira semana de trabalho no clube que Vitória apresenta um discurso muito optimista, apaziguador face a situações complexas e às lesões, e com um enfoque quase que exclusivo na atitude dos atletas e raramente em questões naquilo a que os experts denominam do jogo em si.
Se analisarem a comunicação do treinador nos jogos, há também uma enorme coerência, dado que os gestos, e do que é possível analisar nas palavras de Rui Vitória, a sua intervenção é o que se costuma denominar: feedback na atitude e compromisso e muito raramente feedback na tarefa.
E o que é isso? Quando intervimos com o atleta, podemos fazê-lo acima de tudo de duas formas: “Passa para a esquerda, tens de defender naquela linha, fecha o espaço por fora, tens de aparecer naquela zona ali, são dois toques e não três, temos de defender naquele espaço, naquela linha, etc.” (isto é feedback direccionado para a tarefa); ou, “mantém o foco, muito bem, não perde a concentração, para a próxima sai melhor, é manter essa atitude, etc.” (feedback na atitude e compromisso). Enquanto atleta, está comprovado que existem uns que gostam de intervenções mais de uma forma e outros atletas de outra forma. Consoante a idade e o contexto competitivo. Enquanto treinador, todos temos um perfil. A ideia é equilibrar, mas percebe-se bem qual o de Vitória.
Reforço que a grande diferença do discurso de Rui entre as épocas anteriores para esta é a ansiedade ser mais notória, o que é normal, pois são os piores números apresentados desde a sua chegada. Sem nunca ser agressivo, o treinador português tem acusado a ansiedade e a incapacidade de lutar contra uma angústia que antecede momentos-chave como o jogo na Madeira.
E agora?
Considero – baseado nas teorias e trabalhos sobre a liderança de um treinador e em que não há perfis de liderança melhores que outros, mas sim perfis que casam melhor com determinados contextos - que Rui Vitória é um treinador com uma liderança mais situacional e flexível do que autêntica, ou seja, mais em prol do contexto que tem do que manter sempre o mesmo comportamento. Mais visionário e de inspiração do que intervenção na instrução na tarefa ou impor uma autoridade.
E que tem resultado – porque na verdade, goste-se ou não, no final lembramo-nos dos treinadores que vencem.
E agora?
Podemos especular por que resultou e agora parece não estar a resultar. A repetição regular de determinadas expressões que apelam à atitude e ao compromisso dos jogadores e da equipa não resulta quando as mesmas se tornam rotineiras e vazias de resultados. Perdem o cariz pontual e de alertar as tropas. E se nem tudo estava bem quando ganhava nem tudo estará mal quando não se ganha.
O próprio termo de ‘revolta’ usado três ou mais vezes na conferência de imprensa apela à reacção, mas à perda de direcção entre aquilo que é prioritário para nós e não responder aos outros face ao que dizem ou fazem. E o que se notou domingo à noite foi uma entrada com muita vontade, mas que se foi reduzindo à incapacidade de contrapor a direcção e foco do Marítimo.
Ninguém duvida que todos os atletas que entram em campo querem vencer. Que sabem que têm de trabalhar. Dizer que vamos jogar para vencer é um pressuposto. É um cliché que em determinadas alturas surte efeito. Mas que tem de ser contrabalançado outras quantas vezes com a instrução do ‘como’.
Alguns leitores podem questionar que Rui Vitória não tem de publicamente afirmar como se vai vencer ou o que vai dizer aos atletas. É certo, toda a razão. Mas já todos nós compreendemos que as conferências de imprensa, os momentos antes e pós-jogo fazem parte do jogo, da preparação mental, da ajuda que o treinador pode também dar ao atleta para orientá-lo. E Rui Vitória iria alterar o discurso só porque os resultados não têm aparecido? Mas antigamente surgiram, por isso, este ano também vão aparecer, não é?
Não, não é. Contextos distintos, intervenções distintas. Há uma parte que tem a ver com a identidade do treinador, outra parte tem a ver com o contexto. E ninguém duvida que o contexto este ano é diferente, nem que seja pela saída de quatro titulares do ano passado, que foram substituídos por jogadores que já lá estavam.
E assumo que estou surpreendido. Face ao perfil de liderança diagnosticado, esperava que Rui Vitória percebesse mais cedo que teria de alterar o discurso para algo de diferente. Mais incisivo e directivo. Mais instrutivo e menos relacional. Porque seria essa diferença a poder trazer alguma novidade e pelo menos, chamar à atenção do atleta para algo novo. O próximo passo é perceber como dizer de modo diferente o que pretendo passar na mensagem, mesmo que o conteúdo da mensagem seja similar."