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quarta-feira, 17 de junho de 2026

É só futebol, mas pode significar para as crianças de Cabo Verde a possibilidade de um futuro melhor


"Cabo Verde tem qualidade individual como nunca, e já não é uma seleção de jogadores amadores. Aqui, hoje em dia, as crianças querem ser como o Vozinha, Stopira, Jovane, ou como o “Pico” (Roberto Lopes). Já não estão apenas ligadas ao futebol pelo sucesso dos mais conceituados astros internacionais porque sentem, pelo apuramento para o Mundial, que também para eles é possível ter sucesso. Essas referências criam esperança e esta é um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento da seleção no futuro

Estou em Cabo Verde, ilha de Santiago, na marcante cidade do Tarrafal, utilizada como sede de uma das mais terríveis prisões políticas por parte do Governo colonialista de Salazar - o Campo de Concentração do Tarrafal. Na segunda-feira assistirei à estreia da seleção de Cabo Verde no Mundial 2026, no dificílimo jogo com a congénere espanhola, junto dos habitantes da cidade de Tarrafal.
É só futebol, não é assim tão importante.
Cabo Verde tem qualidade individual como nunca, e já não é uma seleção de jogadores amadores. Aqui, hoje em dia, as crianças querem ser como o Vozinha, Stopira, Jovane, ou como o “Pico” (Roberto Lopes). Já não estão apenas ligadas ao futebol pelo sucesso dos mais conceituados astros internacionais porque sentem, pelo apuramento para o Campeonato do Mundo, que também para eles é possível ter sucesso. Que o sucesso é palpável e está mesmo ali ao lado. Essas referências criam esperança e esta é um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento da seleção no futuro.
Com a primeira presença no Mundial de futebol, e vários jogadores a entrar em campo em bons campeonatos da Europa, não se joga só o presente. A febre não vai terminar com a retirada das bandeiras dos carros que aqui fazem furor (como Portugal em 2004 com as bandeiras nas janelas). Quase todos os carros carregam bandeiras como adereço (uma ou duas) e a união à volta da equipa está vincada neste pequeno simbolismo, mas sobretudo na comunicação constante de todos sobre o feito dos Tubarões Azuis - estão todos ansiosos com a estreia.
Independentemente dos resultados, esta geração de jogadores vai e já está a deixar lastro. Há uma crença generalizada nos miúdos e graúdos que ser jogador de futebol profissional é uma realidade também para os cabo-verdianos, e esta é a melhor mensagem de hoje para hoje e também para amanhã.
Quando se diz que “é só futebol, não é assim tão importante”, eu concordo. Estou de acordo com o ser só futebol. Discordo que a possibilidade de se transformar num motor social para milhares, neste caso, e milhões (pensando no passado da modalidade em todo o mundo) não seja importante.
Acalentar e concretizar o sonho de uma vida melhor, por meio do futebol, que pode ter impacto em várias das gerações seguintes; com isso também ajudar a melhorar as condições do país para que no futuro todos tenham mais qualquer coisa no que diz respeito a ter uma vida melhor; aceito que seja só futebol, talvez tenha, porém, a sua importância."

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