"Foram precisos dias. Um, dois, três dias à procura de qualquer coisa que fosse. Nada. Cheguei a ver até cadernos de desporto, daqueles destacáveis, sem uma linha sequer. Os jornais americanos pareciam não saber que os Estados Unidos iam receber um Mundial de futebol. Ou não sabiam, ou não queriam saber.
O silêncio era ensurdecedor.
Até que, finalmente, o Mundial arrancou e, talvez empurrados pela força das ondas, entrou nas páginas dos jornais locais. E fê-lo, na verdade, com um rigor admirável.
Nancy Armour, colunista do USA Today, rasgou o véu da ilusão. Num texto de uma lucidez desarmante, escreveu aquilo que muitos pensam, mas poucos o dizem: os Estados Unidos já perderam este Campeonato do Mundo.
«A seleção norte-americana até pode ter uma participação histórica, o Mundial pode encher-se de grandes golos e jogos super competitivos. Mas nada disso vai mudar o facto de termos mostrado sermos uma nação odiosa e gananciosa, onde os líderes só estão dispostos a acolher o mundo como eles querem vê-lo, e não como ele é.»
Genial, minha cara Nancy. Genial.
A colunista acusa os Estados Unidos de apenas querem explorar o amor do mundo pelo futebol para imporem a própria forma de ser. O Mundial que, lembra Armour, costuma ser uma celebração mágica e diferente de tudo o que os americanos estão habituados a ver, está a tornar-se num espetáculo de autoridade e tirania.
A festa dos brasileiros, as danças dos africanos, o mar de laranja dos neerlandeses, a paixão dos argentinos, enfim, os ingredientes estão todos cá, andam por aí a caminhar pelas ruas, mas em vez de celebrar o amor, a América optou por outro caminho.
«Escolhemos ser americanos detestáveis», escreve.
Fecho o jornal com uma estranha satisfação interior. Afinal de contas, eles podem não perceber nada de soccer, mas há pelo menos quem perceba exatamente o que estão a fazer com ele."

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