Últimas indefectivações

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Desporto e imaginação sociológica


"De pleno direito, as “questões desportivas” integraram-se nas “questões da sociedade”, com a irrupção da dopagem, da violência, da corrupção, etc.; fenómenos negativos, mas que, na verdade, não têm nada de específico. São provas da “secularização” do campo desportivo. São sinais de uma sociedade em crise (sempre em crise!) e de um ambiente agitado. Ou, se quisermos, são formas primitivas das mentalidades nas sociedades modernas. O desporto exprime uma esperança positiva de integração social, de unidade, de ligação comunitária entre as pessoas. Mas também coloca em evidência os fantasmas, os medos, as angústias, os ódios, os conflitos, as repulsas. O desporto é uma forma de representação da sociedade, que não deixa de estar em processo de “estruturação” (o conceito de estrutura social é importante para a Sociologia. Os contextos sociais das nossas vidas estão estruturados ou, se quisermos, padronizados, de diferentes formas).
O investimento físico e o deslumbramento perante as proezas desportivas são objeto de inúmeros comentários. Mas o sentido da prática desportiva raramente é objeto de uma atenção aprofundada. O sucesso de desporto parece natural e nada parece incomodar as consciências. As observações atestam, no entanto, que o desporto continua a ocupar, em Portugal, um baixo nível na hierarquia dos objetos (temas) consagrados na pesquisa universitária. Se os padres não são os mais bem colocados para fazer a sociologia da religião, cremos que os professores de educação física, não são os profissionais mais adaptados para fazer a sociologia do desporto. A sociologia*, ou melhor a “física social”, tal como sublinhava o autor francês Auguste Comte (1798-1857), é a mais complexa das ciências. Na análise do desporto, reclama-se, muitas vezes, a necessidade de se empreender uma interdisciplinaridade, mas isso é um índice da constituição de um campo de concorrência científica. Cada um vê o fenómeno desportivo a partir de quadros teóricos e de paradigmas caldeados na sua própria disciplina. Nesta guerra de conquista de territórios, os melhores armados são os mais legítimos e os mais poderosos. O saber, estreitamente submetido às leis da difusão cultural, tende a ser gerado por aqueles que controlam os suportes e os canais.
Uma das primeiras caraterísticas do desporto é que o podemos ver, tal como Janus, sob duas faces: arcaísmo e modernismo. E numa dialética permanente: oferta e procura. As práticas desportivas, ajustam-se entre três tipos de lógicas: uma lógica sociocultural (idade, sexo, habilitações literárias, rendimentos…), uma lógica técnica (modalidades, variantes da prática), que se associa aos “usos sociais” de uma atividade (locais de prática, modos de organização, tipos de preparação, drogas ou estimulantes, dietética…) e uma lógica simbólica (imagens, representações, valores, modelos, símbolos…). Se um campo desportivo agrupa múltiplos produtores (públicos e privados), assegurando funções sociais ou económicas diferentes: educação, saúde, lazer, espetáculo, medias, produção industrial, distribuição comercial, etc., também manifesta uma dinâmica concorrencial. Os mitos unificadores do desporto podem servir uma sociedade, na procura de unidade e de identidade. Numa sociedade onde todas as outras formas de integração entram em crise (lutas sociais, trabalho, cultura) e onde as funções de integração escolar sucumbem sob a evidência da exclusão (ou de grandes desigualdades sociais), cremos que o poder público (local e nacional) deveria apoiar mais o desporto. Isto porque num mundo onde os pontos de referência parecem difíceis de encontrar, e numa racionalidade que não produz a “libertação do ser humano”, o desporto pode ser uma porta de entrada.

Nota: *A Sociologia não é, como muitos julgam, apenas um campo intelectual abstrato. Ela pode ter implicações práticas importantes na vida dos indivíduos. Só temos de ter imaginação – Charles Wright Mills, autor americano, denominou “imaginação sociológica” – e relacionar ideias (e conclusões) com situações da vida. Basta estarmos conscientes da existência de contextos culturais diferentes dos nossos."

Vermelhão: Segundas impressões...

Benfica 2 - 1 Almería


Mais um treino competitivo, com dois factos importantes: o regresso do Veríssimo... estamos com poucos Centrais 'titulares' disponíveis, é importantíssimo ganhar ritmo e rotinas rapidamente para o jogo da Champions; segundo facto: parece que vamos começar a época em 442... com o Otamendi de 'fora' e com poucas opções para a zona central, será mesmo em 442 que vamos atacar a qualificação para a Champions!
Hoje começamos com um 11 muito parecido com o do ano passado, só a dupla da frente foi diferente... notou-se a tentativa de pressão alta, algo que o ano passado também fizemos razoavelmente bem na pré-época, mas que depois se 'perdeu'!!!

PS: Com o Digi e do Almeidinhos a recuperar de lesões, não temos realmente mais nenhum defesa-direito, mas isto até dá para brincar: se te chamas Bernardo, só jogas a Lateral!!!


domingo, 18 de julho de 2021

Directo: Benfica - Almeria...

Campeões!!!


Em vésperas dos Jogos Olímpicos, três campeões nacionais de Canoagem de velocidade:
Fernando Pimenta, no K1 1000m; João Ribeiro em K1 500m; e Messias Baptista em K1 200m.

Willian Arão | De patinho feio a herói, com final na Luz?


"O SL Benfica continua à procura de um número “6” que possa concorrer com Julian Weigl pela titularidade, e esse jogador pode ser Willian Arão. Depois de ter assegurado o “8” que Jesus pretendia – João Mário – e das negociações por Al Musrati se terem hipotecado nos valores pedidos pelos bracarenses, o nome de brasileiro volta a ser apontado à Luz. Florentino, à espreita mas ainda sem total confiança do técnico, também não parece, para já, solução real no planeamento do treinador.
É neste contexto que surge o nome de Willian Arão, paulista nascido em março de 1992. Noticiado pelo O Jogo, o interesse no internacional brasileiro (uma ocasião, em 2017) vem da época passada, relacionada com o regresso de Jorge Jesus a Lisboa: foi com o jogador brasileiro a estancar o meio-campo que o CR Flamengo alcançou a conquista da Libertadores em 2019, além do Brasileirão, um ano de inevitáveis sucessos que culminaram na chegada à final do Mundial de Clubes, frente ao Liverpool FC (derrota por 1-0).
Nessa época, Willian foi uma das figuras da equipa com 49 jogos realizados, nos quais apontou dois golos e sete assistências. O jogador volta ao radar da Luz, com o empresário (e pai) Flávio Arão a reagir de forma acessível aos rumores: “Não vejo qualquer empecilho se for bom para ele, bom para todas as partes”.
Arão, sem Jesus, continuou a consolidar a sua importância no onze do Mengão, ainda que noutras vertentes – se Doménec Torrent, o técnico espanhol que substituiu o português, tivesse continuado a apostar nele para trinco, Rogério Ceni fez questão de o recuar uns metros no relvado e lançá-lo como central, ao lado de Rodrigo Caio ou Gustavo Henrique.
Foi nessa posição que cumpriu a última fase do ex-guarda-redes ao comando do clube (foi despedido em junho, substituído por Renato Gaúcho), cimentando rotinas numa posição que lhe é estranha mas que, no entender do técnico, lhe permitiria aproveitar a sua saída de bola da melhor forma. Se a equipa melhorou, pelos índices expostos adiante, é também verdade que a ausência de um verdadeiro tampão a meio-campo (onde jogavam Gerson-Diego, principalmente) se revelou como um desequilíbrio a longo prazo.
Conseguiu entusiasmar na nova posição e alavancar o rendimento do conjunto, o que só provocou ainda mais as comparações com a sua fase Jesus e a inevitável constatação: por muito que desse conta do recado, o seu rendimento anterior, como primeiro volante, era inigualável. Natural, então, que se tenham originado, aqui e ali, rumores de um possível reencontro entre jogador e técnico.
Arão começou como centrocampista puro, cumprindo etapas formativas no Juventude, Portuguesa e Grêmio Barueri antes de chegar a um gigante do seu estado, o São Paulo. Da mesma geração de Lucas Moura e Casemiro, chamou à atenção numa Copa de Futebol Júnior.
Mino Raiola, o mesmo empresário de Ibrahimovic e Pogba, foi ágil na aproximação: falou com o seu pai e facilitou-lhe a chegada à Europa, nomeadamente ao RCD Espanyol, onde exercia funções de treinador principal um tal de Mauricio Pocchetino. Contratação feita, integrou-o no seu plantel, tendo Willian desenvolvido capacidades sob alçada do atual técnico do PSG. Nunca se estreou oficialmente, acumulando apenas minutos com a equipa B – uma aventura que o marcou pelas evidentes diferenças de ritmo:
“Aprendi muito sobre o estilo de jogo, a disciplina tática e o toque de bola rápido. São coisas que até hoje tento implementar no meu jogo. Além disso, aprendi a falar espanhol”
Sete meses apenas, duraria essa aprendizagem. O fim abrupto devido a problemas burocráticos provocariam o seu regresso precoce ao Brasil. O SC Corinthians acolheu-o de braços abertos, tornando o então jovem de 19 anos como elemento da equipa principal a tempo inteiro.
Estreou-se em 2011, pertencendo à equipa que venceu a Libertadores e o Mundial de Clubes daquele ano. Ralf e Paulinho foram obstáculos à sua afirmação, sendo então emprestado sucessivamente a Portuguesa, Chapecoense e Atlético Goianense. Em 2015, o Botafogo iria aproveitar o término do seu contrato para o agarrar, tornando-o elemento preponderante do seu plantel. Na Série B de 2015 foi a estrela dos alvinegros e da competição, com grande contribuição para o título.
Atento, o CR Flamengo recrutou-o em 2016, despoletando batalha judicial – os responsáveis do Botafogo alegaram o pagamento (400 mil reais), em dois momentos distintos, de uma cláusula que prolongaria automaticamente o contrato por mais um ano, acusando no processo o Flamengo de ‘assediar’ o ativo.
Porém, foi o próprio jogador a devolver o dinheiro dessa cláusula, por entender que a sua carreira merecia esse salto competitivo. O caso chegou à FIFA e dura até hoje, mesmo que Arão já tenha sido condenado a pagar 5 milhões de reais ao seu ex-clube, transação que demora a ser feita.
No CR Flamengo seria patinho feio até à chegada de Jorge Jesus, em 2019, numa fase marcada por altos e baixos e que culminou na dispensa dos trabalhos do plantel principal em 2017, sendo remetido à equipa de reservas. Uma transferência falhada para o Olympiakos, em 2018, seria o recomeço do seu sucesso com a camisola do Mengão, evoluindo a partir daí para um bom leque de exibições que o consolidaram definitivamente no plantel principal.
Quando Jesus chegou, as suas qualidades de tackle e aprofundada compreensão do processo defensivo (além da sua capacidade física, atestada por apenas uma única lesão em cinco anos de rubro negro) fizeram-no ser olhado como principal objeto de estudo para a posição de primeiro volante – num vídeo intemporal do primeiro jogo de preparação, frente ao Madureira, são audíveis e tornaram-se virais as correções de Jesus: “Tá mal, Arão!”, algo que, atendendo aos preciosismos do técnico português, se poderia perfeitamente repetir caso fosse consumada a sua transferência para o SL Benfica.
Por agora, jogador e empresário esperam contactos vindos de Lisboa. Depois de ter estado ausente dos compromissos continentais – jogo para a Libertadores, frente ao Defensa y Justicia – o jogador volta esta noite à ação, frente ao Bahia, em jogo a contar para a 12ª jornada do Brasileirão."

Benfica After 90 - Pre-Season...

Uma Semana do Melhor...

Sagrado Balneário - Valdo...

sábado, 17 de julho de 2021

Campo cheio de João Mário e lateral para o 10 Paulo Bernardo


"O Benfica voltou com o 4x4x2 tradicional de Jorge Jesus, juntando no corredor central a agressividade e capacidade de desarme de Florentino à leveza e critério de João Mário, e mesmo que o oponente esteja muito longe de constituir um verdadeiro teste, a qualidade do ataque posicional encarnado subiu vários níveis.

4x4x2 em Organização Defensiva

O ritmo da partida foi lento – Não é apenas o factor pré-época e fadiga, a forma como os laterais encarnados (Gilberto principalmente, mas também Gil Dias) bloqueiam a velocidade do jogo com as suas acções técnico-táticas, foi factor primordial.
O Benfica assumiu a configuração habitual na sua saída para o ataque contra oponentes em 4x4x2: Florentino baixa para dar superioridade – 3 (com Morato e Ferro) contra 2, garantindo saída, mas também superioridade para encaixe em caso de perda; e João Mário de frente para os dois médios centro, para poder sair rápido a qualquer um – Porque em Organização Defensiva, estão juntos – e travar transição.

Posicionamento Estratégico dos médios na Construção contra 2 Avançados

A primeira parte não teve lances de grande nível colectivo, ficando na retina a tremenda recepção entre linhas de Rafa à qual se seguiu um passe de ruptura que isolou Vinícius que depois de contornar o guarda redes não fez golo. Foi capaz de definir com mais assertividade que o normal, e foi o avançado brasileiro, que embora não seja um jogador veloz tem excelentes timings de entrada – e disso beneficiou para se isolar – que desperdiçou um lance pouco habitual em si.
Valeu pelo recital de João Mário a primeira parte. Simplicidade de processos, ligação de todos os corredores, sempre levezinho nas mudanças de direcção resgatou por completo o jogo para o lado encarnado com a qualidade que colocou no processo ofensivo. Baixou, recebeu, invadiu zonas de criação, tabelou, sempre sem perder a posse, não expondo a equipa a correrias. Foi o elemento que fez o jogo fluir no primeiro tempo.
Se o primeiro tempo valeu pelo que João Mário colocou o Benfica a jogar, para o segundo tempo a troca com Taarabt acabou com o jogo. O Benfica passou a somar perdas de bola, viu-se obrigado a correr para trás para defender, passou a sofrer transições constantes e nunca ligou com calma o seu jogo em ataque posicional.
Luca e Chiquinho também não foram capazes de acalmar o jogo – aparentando pouca confiança que foi levando sistematicamente a erros técnicos que nem lhes são habituais, e na direita Gedson com excelente capacidade pressionante, mas sempre sem recorte técnico para jogar em zonas de criação foram condenando os encarnados a um jogo preso de pouquíssima qualidade, agravado pela incapacidade de antecipação de cenário de Samaris, que na posição de central, de frente para o jogo não foi capaz de acompanhar ruptura de Zidane, no lance que valeria o empate ao Casa Pia.
Num jogo de fraquíssimo nível, teria de ser um auto golo a garantir a vitória de um Benfica que preocupa – Apenas o reforço ex rival demonstrou ter qualidade extra ao longo de toda a partida.
Nota para a entrada de Paulo Bernardo – Seguramente justificada para que Gilberto pudesse não somar os noventa minutos e nunca pensando na possibilidade do número 10 encarnado poder ser lateral. Tem tudo o que precisa um jogador de corredor central – Eficiência e Eficácia no Gesto Técnico, Inteligência e Criatividade, e nada do que precisa um jogador no corredor lateral – Resistência, Velocidade e Vigor Físico."

Vitória e memória


"Ganhou bem a Itália, feita de inteligência tática e competência em todos os momentos do jogo, ofensivos, defensivos, até na bola parada que lhe valeu uns quantos golos. Roberto Mancini, outrora um defensivista na linha tradicional transalpina, agarrou-se a uma ideia positiva e soube ser convicto, por exemplo quando insistiu em Verrati após o bom arranque de Locatelli, lúcido, ao perceber que tinha de aproveitar o momento de Chiesa, sagaz também, ao alterar dinâmicas quando privado dos laterais titulares, primeiro Florenzi e depois o muito influente Spinazzola. E o mundo rendeu-se a Bonucci, finalmente!, um dos melhores centrais da história, mesmo se é mais fácil valorizar os cortes de carrinho e cada esgar guerreiro de Chiellini. Também foi na alma que esta Itália ganhou, sobretudo quando precisou de sofrer diante da Espanha, e aí os velhos centrais, os Dupond e Dupont mais diferentes de que me lembro, se agarraram a memórias de outras batalhas. Determinante mesmo foi, todavia, a qualidade de jogo. Desta vez foi pelo que jogou, muito mais do que pelo que não deixou jogar, que a Itália triunfou e há nisso uma indiscutível beleza, poética e histórica.
Só diante da Espanha é que a nova campeã vacilou, quando do outro lado esteve outra identidade forte, também servida por talentos novos e não construída sobre ideias gastas. A nova e bela Itália renegou a herança arcaica do catenaccio do mesmo modo que as melhores seleções do país vizinho - esta que nasce incluída, com Pedri e Dani Olmo a trilharem o caminho de Iniesta e Xavi - colocaram a “fúria espanhola” no baú das inutilidades do final de século. Um exemplo flagrante está nos meios-campo e na posição charneira, a do 6, na qual facilmente se percebe ao que vem cada equipa. A Itália trouxe Jorginho, mais que um médio invisível, quase um médio infalível, que sabe sempre onde encontrar a bola, seja para a intercetar com eficácia ou entregar com esmero. A Espanha construiu-se em redor de Busquets, que antecipa as soluções de corte e passe como alguém que parece já ter vivido tudo aquilo, como se cada jogo fosse para ele um déja vu. Jorginho vai ao encontro da jogada, Busquets antecipa-lhe o destino. Mas são dois grandes, dos maiores que o Euro viu, e nenhum é o monstro físico, o destruidor de lances rápidos ou modelo para fotos de ginásio em tronco nu, que tantos insistem como ideal da posição. Só que não, como agora se diz.
Ganharam as equipas, as que foram coletivos de facto, guiados por uma ideia, organizados sem bola mas sempre com intenção de a reivindicar e utilizar bem, além da Itália e da Espanha, também a Dinamarca, a Suíça, a Áustria, mais algumas intenções elogiáveis na Ucrânia e na República Checa. Além das desilusões óbvias, França, Portugal, também a Bélgica, mesmo a finalista Inglaterra foi, em certo sentido, um desencanto. Não desvalorizo o percurso, mesmo se construído em 5 jogos caseiros e só com um adversário de topo até à final, a Alemanha, mas não me verão louvar o processo. Gareth Southgate, o selecionador inglês, foi banal, apenas mais um a desvalorizar o talento e a acreditar na receita simples para torneios curtos: mais gente pensada para defender que para atacar - 4 ou 5 defesas, em função do adversário, e sempre 2 médios robustos que equilibram (embora também joguem, sobretudo Phillips) – e a espera paciente por um erro rival, que, no caso, seria aproveitado numa correria de Sterling, numa bola parada com Maguire ou numa inspiração de Kane. Podia ter funcionado, naturalmente, com mais felicidade nos penaltis da final estaria até a celebrar um êxito inédito, que no futebol há várias maneiras de ganhar. O que também há é diferentes maneiras de perder e a discussão certa tem de começar pelo reconhecimento que o caminho escolhido para se chegar à vitória há-de ser sempre o mesmo do convívio com a derrota, excepto num caso, que é o do vencedor final. Trata-se, como bem escreveu Valdano, de sair a ganhar ser melhor que sair a não perder. Por acreditar no talento, a Espanha ganhou perdendo, ganhou pelo menos uma equipa para o futuro. A Inglaterra sai como entrou, apenas com a certeza de ter um grupo raro de jogadores talentosos - Grealish, Foden, Sancho, Rashford – que desta vez desperdiçou. Podia ter perdido de igual modo com eles? Obviamente, mas nunca saberemos o que teria conseguido com eles mais vezes em campo. Não podem jogar tantos criativos em simultâneo? Talvez não, mas também nunca saberemos se os não virmos juntos, no mínimo alguns deles e ao menos por uma vez. Sem eles já sabemos que não ganhou, mesmo tendo reunidas condições raras para o conseguir. E sem que tenha havido vitória, desta equipa não haverá também memória. E sem uma coisa nem outra, para que serve o futebol?

PS: Ao mesmo tempo e quase que sem dessem por isso os europeus, agarrados ao seu próprio torneio, jogou-se a Copa América, que teve um Argentina-Brasil na final, que foi a de Messi, finalmente ganhador da prova, melhor jogador e marcador, e que nos deixa a imagem daquele abraço, raro e sincero de Messi e Neymar, génios que se conhecem e reconhecem. Aquilo sim, é o melhor do jogo. E protagonizado pelos melhores que ele tem."

Nos Jogos Olímpicos, comer também é um prazer


"Durante os Jogos Olímpicos são servidas na Aldeia Olímpica cerca de 60.000 refeições por dia. Não há serviço de refeições nas diversas instalações onde os atletas ficam alojados, na Aldeia Olímpica apenas existe uma única zona de restauração.
A maioria das refeições servidas são referidas habitualmente como “internacionais”, mas o número de refeições vegetarianas e sem glúten (com espaços próprios de oferta no espaço da restauração) tem vindo a aumentar nas últimas edições dos Jogos Olímpicos.
Na Aldeia Olímpica existe o Food Hall, o local de restauração para refeições quentes, onde os atletas se podem sentar para comer, e o Grab & Go, um espaço de refeições prontas para levar.
A alimentação nos Jogos Olímpicos envolve uma logística de apresentação e confeção de alimentos que é uma operação muito complexa, uma vez que tem por missão oferecer alimentos provenientes de todo o mundo, de forma a satisfazer as diferentes necessidades dos atletas oriundos dos vários continentes, e fornecer uma resposta adequada à necessária disponibilização de alimentos que fazem parte da dieta alimentar com a qual os atletas estão familiarizados.
É através deste ecletismo dos hábitos alimentares de cada um dos eleitos que ganharam a pulso o seu lugar de direito nos mais importantes Jogos da Humanidade que a organização consegue nutrir o seu entusiasmo para participarem nos Jogos com os quais sonharam, e para os quais se prepararam durante quatro ou mais anos, tentando reduzir o natural nervosismo por representarem o seu país na(s) prova(s) para que foram apurados, ou pelo treino anterior à competição e durante a competição propriamente dita.
Cada atleta dispõe de um plano energético individual adequado à sua modalidade, e a cada um dos momentos em causa e, por isso, a alimentação pode ser tão diferente, principalmente nas modalidades com categorias de peso. A alimentação tem um impacto tremendo nos sensores do prazer (visualização, aroma, sabor, textura…), no humor e boa disposição (produção de neurotransmissores), na qualidade do sono (latência de sono e quantidade do mesmo), e na segurança das rotinas alimentares, que proporcionam o rendimento máximo, e que mantém os atletas no pico da forma desejada.
Todavia, a Aldeia Olímpica é também um espaço de descontração, convívio e socialização como devem ser todos os momentos inerentes à alimentação, ao estar à mesa… A concentração/o treino mental fazem-se no quarto e no local da prova em momentos intimistas, em que não existe nada mais, exceto o momento da competição.
Por questões óbvias, estes Jogos serão muito diferentes no que se refere ao convívio e às deslocações, que decorrerão com regras de segurança muito estritas. Mas no espaço da restauração, as refeições nunca deixarão de ser um momento de convívio entre os atletas, de descontração para os que se encontrem em simultâneo nesta área, pois a alimentação é e sempre será um ato social e de prazer.
E é este prazer do convívio à mesa, este hedonismo da alimentação, que nos leva ao sábio Confúcio: 
 “todos os homens se nutrem, mas poucos sabem distinguir os sabores”"

Vermelhão: primeiras imagens...

Benfica 2 - 1 Casa Pia
Ramos, Kelechi(a.g.)


Primeiro jogo-treino em 'sinal aberto', com uma vitória sobre os casapianos, em partida disputada com muito calor, com os jogadores a fazerem treino pesado pela matina, ainda com várias ausências devido a lesões ou selecções e com algumas 'estreias' esta época de jogadores com muitos poucos dias de treino: Rafa, Vertonghen e Haris...
O ponto mais preocupante neste momento, a pouco mais de duas semanas do primeiro jogo da Champions, é a 'ausência' ou o 'atraso' na preparação dos nossos defesas titulares, principalmente na zona central...
As notas positivas da partida, para mim, foram a exibição do Gonçalo Ramos na 1.ª parte e do Gedson no 2.º tempo... ambos muito activos, na procurar da bola...
Aliás, sem grandes movimentações de mercado, as grandes 'contratações' do Benfica podem ser o Vinícius, o Gonçalo, o Tino e o Gedson!!!

Entre lesionados e recentemente recuperados de lesões que ainda não tiveram minutos nesta pré-época temos o: André Almeida, o Veríssimo, o Diogo Gonçalves e o Darwin...
A estes temos ainda os 'atrasados' sul-americanos: Otamendi e Everton!

PS: Não é complicado, grande camisola principal e finalmente um lettering adequado!

Directo: Benfica - Casa Pia...

SL Benfica | Os 3 jovens que devem integrar o plantel


"Todos os anos, na pré-época, os treinadores chamam jovens da formação para integrarem a comitiva e é nessa altura que decidem quem está preparado para fazer parte do plantel principal da equipa. O SL Benfica não é exceção.
Jorge Jesus convocou muitos jovens para os treinos e jogos da pré-época. É caso para dizer que os “meninos da formação” estão em peso na preparação da próxima temporada.
Cabe agora ao treinador decidir quem pode ser uma mais-valia para a equipa, tendo em conta as prestações dos atletas. Posto isto, decidi eleger o top 3 de jogadores “made in Seixal” que deviam integrar o plantel principal em definitivo.

1. Paulo BernardoPaulo Bernardo é considerado por muitos uma das grandes promessas da formação. A lesão que sofreu na segunda metade da época passada não fez esquecer as exibições do médio português na equipa B. Como tal, Jorge Jesus decidiu chamar o “menino da formação” para a pré-época que está a decorrer.
Há muito que os adeptos pedem um “8” com capacidades avassaladoras e a resposta pode estar em Paulo Bernardo, uma vez que o jogador tem características admiráveis, como por exemplo: a eficácia técnica, a excelente visão de jogo e movimentação, assim como uma notável eficácia na saída de zonas de maior pressão, ou até mesmo a velocidade.
É impossível ver um jogo do médio e não ficar surpreendido com tanta qualidade. Resta agora saber se o treinador vai apostar neste jovem promissor que recentemente ganhou concorrência à altura – João Mário.

2. Gedson FernandesGedson fez toda a sua formação no SL Benfica e, apesar de nas últimas épocas não ter sido aposta dos treinadores, acho que chegou a altura de o ser. Nos treinos desta pré-temporada, o internacional português tem surpreendido Jorge Jesus.
Embora nas últimas épocas tenha jogado a médio, o jogador, nesta fase de preparação, tem sido responsável pela lateral direita (posição que assumiu durante grande parte da sua formação) e tem dado sinais de que pode ser uma boa aposta para o treinador. Terá chegado a vez de provar o seu valor?

3. Tomás Araújo O jovem defesa central chegou ao SL Benfica em 2016. Foi campeão pelos iniciados e pelos juvenis e, na época passada, afirmou-se na equipa B, tendo realizado 27 jogos e marcado um golo. Nesta pré-época foi chamado por Jorge Jesus para integrar os treinos da equipa principal e, ao que parece, o treinador das águias está bastante satisfeito com o desempenho do português.
A sua capacidade de desarme, a boa leitura de jogo e a segurança que oferece são aspetos positivos que quem viu os jogos da equipa B pode destacar e que são fundamentais para uma defesa compacta e sólida.
Apesar de ter sofrido uma lesão muscular, espera-se que Tomás Araújo tenha uma recuperação seja rápida, para assim se juntar a Otamendi, Vertonghen, Lucas Veríssimo e Morato, os outros centrais que estão à disposição de Jorge Jesus."

As obrigações de um campeão europeu


"Ainda mal restabelecido do enorme feito alcançado, a José Águas já eram cobradas promessas

A carreira de futebolista, apesar de todos os seus encantos, tem também várias contrariedades: por ser curta, por não controlarem a totalidade das acções, podendo ser surpreendidos por uma lesão que condicione uma época ou mesmo a carreira, e por, a cada fim de semana, terem de provar que merecem estar em campo, por forma a manter o seu estatuto no clube e a ambição de representar a sua selecção.
Com uma situação tão volátil, é aconselhada cautela nos gastos. Cientes disso, José Águas tendia a poupar o máximo que conseguisse, despendendo apenas o estritamente necessário. Amigo de Barroca, guarda-redes do Benfica, foi sem surpresas que, em 1961, lhe chegou o convite para ser padrinho de casamento da sua noiva. O avançado aceitou de imediato, mas preveniu que não iria comprar as alianças. Os guarda-redes são conhecidos pela sua teimosia, e Barroca não era diferente: não desistiu e sempre que possível voltava ao tema das alianças. Agastado com o assunto, José Águas acabou por retorquir: 'Não me fales mais nisso, porque não pago as alianças, mas prometo-te uma coisa, se formos campeões europeus, dou-te 1 conto de réis. Combinado?' Seria por ser um marco difícil de alcançar ou pela certeza de que a alegria do feito compensaria o desgosto de ver a soma partir?
O Benfica acabaria mesmo por conquistar o título europeu, com grande contributo de Águas, que se sagrou o melhor marcador da competição. O sensacional feito motivou enormes festejos. Mas Barroca não se esqueceu, e, assim que os ânimos se acalmaram, no regresso do banquete de Berna, o guarda-redes cobrou a promessa feita. A vida de campeão europeu é de muitas alegrias, porém, também de muitas cobranças. Sem escapatória, José Águas pagou o valor acordado.
Em 9 de Julho, Barroca casou-se com Ana Maria Caetano, e o novo casal contou com 1 conto de réis suplementar para fazer face às despesas.
Saiba mais sobre a carreira destes dois jogadores na área 22 - De Águia ao Peito - do Museu Benfica - Cosme Damião."

António Pinto, in O Benfica

Em choque


"Como os terramotos, a detenção do presidente Luís Filipe Vieira pode ser medida sob duas perspectivas. Assim, por muita elevada que seja a magnitude (Richter), enorme e sem precedentes, importa sobretudo minimizar, tanto quanto possível, as consequências do abalo (Mercalli modificada).
A avaliação da culpabilidade de Luís Filipe Vieira competirá à justiça. Conhecemos, para já, os ecos de uma acusação, o pedido de suspensão do mandato, medidas de coacção e a substituição, no cargo, por Rui Costa. E temos o contexto em que estamos inseridos.
Com a temporada em fase de preparação e ultimação das muitas equipas do clube, acrescendo a emissão em curso de um empréstimo obrigacionista pela Benfica SAD, torna-se essencial que 'a máquina' não emperre, pois, independentemente das várias sensibilidades entre os associados benfiquistas, deve haver o denominador comum do desejo de que o Benfica consiga preservar a estabilidade institucional, financeira e desportiva. Tudo deve ser devidamente ponderado em função dos superiores interesses do Sport Lisboa e Benfica.
Vencer sempre o maior número de títulos possível é uma aspiração imutável inerente ao benfiquismo, logo aplicável também à presente temporada, sendo que no curto prazo teremos igualmente o importante desafio, tanto desportiva como financeiramente, de assegurar a presença na fase de grupos da Liga dos Campeões.
É essencial dotar todas as nossas equipas das condições que lhes permitam vencer. Conforme escrevi na semana passada, tendo por base informação oficial e oficiosa, propalada pela comunicação social, tenho a convicção de que, de forma genérica, estão a dar dados passos nesse sentido. A frase-chave é 'o Benfica não pára'. Nunca nos esqueçamos disso."

João Tomaz, in O Benfica

Primeiro do que tudo, o Benfica


"Esta é uma das crónicas mais difíceis que escrevo neste nosso jornal. O momento que vivemos exige-o. Nas últimas duas semanas, o nome do Sport Lisboa e Benfica tem sido falado por toda a parte e não por boas razões. A detenção para interrogatório de Luís Filipe Vieira e a suspensão das duas funções enquanto presidente provocaram uma revolução nos nossos dias enquanto benfiquistas. A chegada de Rui Costa a presidente, também.´
Num dia temos como líder o homem que tirou o SLB das profundezas financeiras e desportivas em que vivia no fim do século XX. No dia seguinte, vejo chamar ao cargo mais alto do clube o Maestro, meu ídolo da juventude, símbolo do Glorioso. Seria uma transição perfeita se não tivesse acontecido desta forma.
Não sei o que vem aí, não tenho poderes de adivinhação, não sou advogado nem juíz, não tenho amigos em locais de decisão. Sou um adepto que, acima de tudo, quer o que for melhor para o Sport Lisboa e Benfica. A justiça seguirá o seu caminho, e aguardarei tranquilo pelo desenrolar deste mediático e polémico processo judicial.
Para já, o que desejo é estabilidade e confiança para estas semanas decisivas que temos pela frente. Seguindo a longa tradição democrática do clube, acredito que serão os sócios a decidir o que querem para o futuro. Espero que tomem essa decisão, quando for tempo para isso, com pragmatismo, convicção e verdadeiro amor ao nosso clube. Sem dedos apontados, sem a sobranceira de quem ganha nem a azia de quem perde. Sem vandalismo, sem se esconderem atrás de argumentos que podiam bem ser dos nossos rivais. O tempo é de pensar apenas naquilo que nos une: o Sport Lisboa e Benfica."

Ricardo Santos, in O Benfica

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Eu só sei que nada sei


"Os últimos dias têm sido de angústia. O mesmo pensamento invade-me a alma a todo o instante. É incontrolável, embaraçoso e faz-me até ter vergonha de sair à rua. Nem os meus pais se mantêm ao meu lado neste momento difícil de enfrentar. Eu bem vejo aquele desdém quando estou com eles, que me desencoraja por completo em partilhar com o mundo esta mágoa que guardo cá dentro. Mesmo o leitor, que por aqui me acompanha há 192 crónicas, irá certamente olhar-me de lado. Dê-me só um segundo para beber duas goladas de whisky que me ajudem a revelar. Ah, bolas! Já nem sequer há whisky cá em casa! De certeza que os meus pais beberam para esquecer que existo. Enfim, cá vai: eu, Pedro Soares, 26 anos, natural de Braga, sou o único cidadão português sem formação académica em Direito. Pronto, já disse! Até a minha irmã terminou esta semana a licenciatura em Direito na UC só para também me poder esfregar na cara esta minha limitação.
Agora, também ela se pode juntar à festa e mandar um ou outro bitaite acerca da detenção de LFV. Seja lá qual for a direção do bitaite. O importante é atirá-lo para o ar. Enquanto benfiquista apaixonado e, claro, cidadão interessado pela actualidade dos assuntos mais importantes do país - isto é, assuntos sobre o Benfica -, tenho tentado esclarecer as dúvidas naturais que o tema coloca. Perceber o que está em causa, as consequências possíveis, filtrando a informação relevante e torcendo para que no final haja justiça. Tenho tido alguma dificuldade, porque de repente já estou a misturar medidas de coação com frango frito. Não sabia que este tipo de referências tinha interesse para o caso, mas como dizia o outro... estudasses!"

Pedro Soares, in O Benfica

Benfiquismo à prova


"Com um empréstimo obrigacionista com fase de lançamento, com uma pré-temporada a decorrer, com um plantel ainda por definir, e tendo por diante, a muito breve prazo, duas difíceis e extremamente importantes pré-eliminatórias europeias, os acontecimentos da passada semana não podiam ter calhado em pior altura.
O Benfica existe, sempre existiu, e sempre existirá, para além deste ou daquele presidente, deste ou daquele treinador, deste ou daquele jogador. E no imediato, mais do que qualquer outra coisa, importa assegurar que a nossa equipa não veja comprometida uma temporada que se exige ganhadora. Para tal, há que preservar, tanto quanto possível, de todos, os focos de instabilidade internos, ou externos, não ignorando que muita gente aproveitará a situação para, de forma mais ou menos dissimulada, a tentar atacar e perturbar ao máximo.
Este não é, pois, o momento para exacerbar facções, e muito menos para vaidades pessoais, sedes de protagonismo ou ambições de poder. É momento para ponderação para união, e para colocar os interesses do Sport Lisboa e Benfica acima de tudo e de todos. Independentemente das diferenças de opinião - naturais num clube com tradições democráticas que vão para além das do próprio país - importa que todos estejamos focados nos desafios que estão pela frente, e perante os quais não podemos falhar.
Haverá tempo para pensar no futuro, e para uma necessária clarificação de poderes. Agora, é imperioso pensar no presente, e o presente é a preparação da nova época. Quem ama verdadeiramente o Benfica não poderá deixar de tomar essa como prioridade absoluta."

Luís Fialho, in O Benfica

Trio-maravilha


"Fixe bem estes nomes: Isaac Nader, Etson Barros e Leandro Ramos. São três grandes talentos do atletismo nacional e do Sport Lisboa e Benfica e que, na semana passada, em Taline, na Estónia, representaram Portugal, nos Campeonatos da Europa de sub-23. Numa delegação composta por 33 atletas, 12 deles do SL Benfica, Portugal classificou-se em 20.º lugar.  Conquistámos apenas três medalhas - duas de prata e uma de bronze. Com a particularidade de todas terem sido conquistadas pelo nosso trio-maravilha.
O primeiro a brilhar, no Kodriorg Stadium, foi Isaac Nader, treinado por Rui Silva, no passado sábado, numa grande prova de 1500m tendo conquistado a medalha de bronze. Para domingo ficaram dois triunfos - Etson Barros, treinado por Paulo Murta, que se classificou em 2.º lugar, nos 3000m obstáculos, batendo o seu recorde pessoal. Seguiu-se Leandro Ramos, a nova estrela do atletismo nacional, que no lançamento do dardo se bateu pelo ouro, acabando por conquistar a prata. A evolução do actual recordista nacional é um case study. Graças a uma fibra e dedicação exemplares e a um treinador competente, como é o caso de Carlos Tribuna, Leandro Ramos marcou presença, na Liga Diamante, nesta semana, em Londres, juntamente com Pedro Pablo Pichardo.
Destaque ainda para o 5.º lugar de Emanuel Sousa, no lançamento do disco, que ficou apenas a 30cm da medalha. Uma certeza temos com estes 12 atletas e com o nosso quarteto que nesta semana vai representar Portugal nos Europeus de sub-20 (Camila Gomes e Diogo Barrigana, ambos juniores e Leonor Ferreira e Sisínio Ambriz, ambos juvenis): temos futuro assegurado com 16 atletas que integram a Academia Olímpica a trabalhar já para os dois próximos ciclos de jogos - Paris (2024) e Los Angeles (2028)."

Pedro Guerra, in O Benfica

Vacina-te! Vai ficar tudo bem...


"Agora, que temos vacinas à disposição de todos a quem as administre com rapidez e competência, vêm-me à lembrança os dias de silêncio nas ruas das cidades, vilas e aldeias. Aqueles dias de ansiedade e insegurança coletiva com o álcool a desaparecer e o papel higiénico a faltar nas lojas. Lembro-me das vozes unidas em canções e homenagens aos trabalhadores da saúde e de uma profusão global de arco-íris com frases inspiradoras onde resultava um auspicioso e suplicante 'Vai ficar tudo bem!'.
Agora,, que tudo está mais próximo de ficar bem, que o SNS responde com meios suficientes, que a vacinação avança e baixa visivelmente o impacto letal do vírus, ainda há quem tudo renegue do alto do seu pedestal de confiança. Propala-se mesmo que de nada valem as medidas de contenção ou que as vacinas não deram ainda provas. No entanto, é já gigantesco o número de vacinados em todo o mundo, e tanto a ciência como as instituições indicam-nos que é segura, fundamental e urgente a vacinação global para vencer esta guerra sem quartel. Por isso, uma só palavra, por ti, por mim, por todos: Vacina-te! Vai ficar tudo bem..."

Jorge Miranda, in O Benfica

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"3
Os atletas benfiquistas continuam a dar cartas por Portugal. Desta vez foram Isaac Nader (1500m), Etson Barros (3000m obstáculos) e Leandro Ramos (lançamento do dardo) os medalhados, e o certame, o Campeonato da Europa de sub-23;

7
Taças de Portugal conquistadas pelo Benfica no hóquei em patins feminino. As octocampeãs nacionais selaram a dobradinha, a 7.ª consecutiva. A definição de hegemonia!

17,92
Pichardo estabelece nova melhor marca mundial do ano no triplo salto, ficando a apenas 3cm do (seu) recorde nacional. Na fase final da preparação para os Jogos Olímpicos, presumindo-se ainda aquém do auge da forma, ficou a 16cm da sua melhor marca e a 37cm do recorde mundial. São dados que robustecem as elevadas expectativas em torno do atleta do Benfica para a mais nobre competição do atletismo;

21,4
Montante que será pago, no próximo dia 16, a investidores em empréstimos obrigacionistas (EO) da Benfica, SAD, conforme anunciado em comunicado (20,4 M€ relativos ao que agora funda; 1 M€ relacionado com juros do EO 2020-23). Num momento periclitante do ponto de vista institucional em função da detenção do presidente Luís Filipe Vieira, este é um sinal muito importante que se dá ao mercado, demonstrando que a solidez financeira, a saúde da tesouraria e a credibilidade junto de investidores não estão afetadas, não se justificando, assim, qualquer quebra de confiança face ao EO recentemente lançado;

28
Custa a acreditar, tal a profusão de estrelas mundiais oriundas do país das pampas, que a Argentina tenha levado 28 anos a vencer de novo a Copa América, mas é a realidade. Otamendi foi titular na final, e o único golo foi marcado pelo 'nosso' Di Maria. Do outro lado esteve o Brasil, com Everton no onze inicial."

João Tomaz, in O Benfica

Editorial


 "1 - O tempo é de estabilidade capaz de garantir a adequada preparação do futuro. De unidade e coesão depois de uma das semanas mais críticas da gloriosa história do Sport Lisboa e Benfica. O Clube enfrenta desafios fulcrais nos próximos meses. Mais do que nunca, é altura de mostrar determinação e fibra, em conjunto e em união. Dividido, o Benfica estará sempre à mercê dos seus adversários.
2 - É imprescindível concluir com sucesso o empréstimo obrigacionista, fundamental para assegurar a liquidez desejada no ataque ao mercado. Logo a seguir há um mês de agosto decisivo para validar a aspiração de marcar presença na Liga dos Campeões, estratégica do ponto de vista do prestígio e do músculo orçamental. Por fim, um arranque de campeonato, tanto no futebol como nas modalidades, à altura dos pergaminhos do Clube, num tiro de partida que garanta no final da época a celebração de múltiplos títulos.
3 - João Mário é a mais recente contratação do Benfica. Chega com indiscutível selo de qualidade e superior experiência no campeonato português. A pouco e pouco, o plantel vai ficando arrumado, sobretudo em áreas tidas como mais vulneráveis na época passada. Já nesta sexta-feira acompanhamos na BTV aquilo que são as certezas para esta nova época, uma acima de todas as outras: ganhar!
4 - É sempre um fascínio desfiar as muitas e gloriosas memórias de José Augusto. Fica o orgulho de uma conversa singular neste jornal O Benfica, à mesa com um homem que respira momentos que a todos comovem e envaidecem e que durante toda a sua vida tem sabido elevar como poucos o ser benfiquista."

Pedro Pinto, in O Benfica

Comunicado


"1 A Direção do Sport Lisboa e Benfica reuniu esta manhã para formalizar, no âmbito dos estatutos, as alterações necessárias à sua composição em face da renúncia ao mandato de Luís Filipe Vieira. Jaime Antunes foi confirmado como Vice-Presidente efetivo.
2 No decurso desta reunião foi igualmente realizada uma reflexão sobre o atual momento do Clube, com particular destaque para as declarações públicas do Sr. John Textor e o anunciado interesse em adquirir parte da SAD do Sport Lisboa e Benfica.
3 A Direção do Sport Lisboa e Benfica desconhecia em absoluto a existência das negociações que conduziram à assinatura de um acordo para a compra de 25% do capital da Benfica SAD entre o acionista privado José António dos Santos e o investidor John Textor. Apenas tomou conhecimento da existência desse acordo, cujo conteúdo desconhece, quando o mesmo foi noticiado ao público.
4 Como detentor de ações de Categoria A no capital da Benfica SAD, o Sport Lisboa e Benfica pode, em determinadas circunstâncias definidas no art. 13.º dos estatutos daquela empresa, nomeadamente se estiver em causa a aquisição de uma participação qualificada por entidade concorrente, vetar essa aquisição. Esse direito foi objeto de formulação específica na revisão estatutária da Benfica SAD promovida por iniciativa do Clube durante o último mandato dos órgãos sociais.
5 Em face do exposto, e uma vez que o investidor John Textor invoca que a referida compra depende de aprovação prévia em Assembleia Geral da Benfica SAD com o voto favorável do Sport Lisboa e Benfica com base no referido art. 13.º dos estatutos da Benfica SAD, a Direção do Sport Lisboa e Benfica, na sua reunião de hoje, declara considerar inoportuna esta operação, pelo que à mesma se oporá, no exercício dos seus direitos e deveres, caso esta matéria venha a ser sujeita a deliberação em Assembleia Geral de Acionistas da Benfica SAD, tornando pública esta sua decisão de imediato por entender que a mesma contribui para esclarecer a posição do Sport Lisboa e Benfica a este respeito, evitando-se assim dúvidas e especulações.
6 Neste contexto, a Direção do Sport Lisboa e Benfica esclarece ainda que considera inoportuno receber, de maneira formal ou informal, o Sr. John Textor nesta altura."

Shorts - Félix Bermudes

Shorts - Cartão de adepto

O Brinco do Baptista #79 - Sérgio Delaunay de Oliveira

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Comunicado


"A Direção do Sport Lisboa e Benfica informa que recebeu do Presidente da Mesa da Assembleia Geral a carta de renúncia ao mandato enviada por Luís Filipe Vieira.
A Direção reunirá amanhã, sexta-feira, durante a manhã, para formalizar as necessárias alterações à sua composição, de acordo com os estatutos.
A Direção do Sport Lisboa e Benfica apela à união de todos os Benfiquistas em torno dos objetivos comuns e na salvaguarda dos superiores interesses do Clube."

Análise: Crise Directiva no Benfica

João Mário...

O quadrado imaginário de Volante


"Na frente dos centrais, o lugar era dele. Os treinadores começaram a ensinar: ‘Vê? Joga como o Volante!’ A gente cá chama-lhe trinco.

A maneira como fazia de conta que ia para lá e, de repente, saía pelo lado contrário era desconcertante. Mas não abusava. Na maior parte do tempo ficava sobriamente vigiando o adversário mais próximo e pronto para o deitar abaixo se preciso fosse. Volta e meia dava um berro, em italiano como o pai, Giuseppe Volante, ferreiro ferroviário, uma profissão que mete mais erres pelo meio do que o falar de um pescador de Setúbal. Giuseppe tinha sete filhos e a certeza de que o mais novo era o mais esperto de todos. Mas José Peppe Norberto Volante queria mesmo era jogar futebol na equipa do Lanús, clube que nascera num dos subúrbios de Buenos Aires e cujo dono fora um francês misturado de basco e grego, Anacarsis Lanús. O Clube Atlético Lanús nasceu aí mesmo, fruto da fusão do Lanús Athletic Club e do Lanús United. José jogou lá. Depois foi treinador. Finalmente presidente. Era mesmo um tipo esperto.
Já Carlos, o filho número quatro de Giuseppe, andava de um clube para o outro. Não era fixado no Lanús como o irmão. Só jogou lá um ano. Chegou para ficar para sempre como um dos mais importantes futebolistas que por lá passaram. É preciso dizer que os outros clubes de Lanús também tinham todos Lanús no nome, não eram só o Athletic e o United. Havia o Argentino de Lanús e o Lanús Central. Carlos andou por todos. Mas quando se tornou jogador a sério, profissional de papel carimbado e assinatura reconhecida, foi no Atlético ao qual os adeptos chamam carinhosamente de Granate por causa da cor grená das camisolas.
Inquieto, Carlos seguiu para o Adrogué. Recrutado para o serviço militar saiu da tropa e passou a ser galucho do San Martín. Ninguém dava muito por ele. Carlos Martín Volante, nascido no dia 11 de novembro de 1910, volta e meia dava aqueles gritos em italiano, recompondo os meios-campos em que jogava, mas era mais de ficar do que de ir e o povo gostava mesmo era aquele jeito de não ir e ir mesmo. Tornou-se um jogador fixo. Desenhava mentalmente um quadrado em frente dos centrais e esse quadrado era dele._Mas mesmo dele, como se lhe pertencesse. Quem entrasse no seu quadrado não ouvia apenas os urros em italiano. Às vezes tombava no chão como um pinheiro cortado pela raiz.
Em 1928, Carlos estava no Platense, sempre sem saber para onde iria a seguir. Quando calhou jogarem com o Lanús, combinou com o irmão, José, que estava no primeiro ano da carreira, que não jogaria. Não ficava bem irmão contra irmão. Então foi a vez de a mãe Volante dar um berro: «Jogam os dois!». E que dessem tudo pela vitória que era assim que os tinha ensinado. O jogo não correu bem a Carlos. Ficou lá no seu quadrado e viu José empurrar o Lanús para um triunfo por 5-2. O público, esse, gritava contra Carlos, acusando-o de traidor. O público dos dois clubes: do Lanús por ter saído de lá; do Platense por achar que estava a fazer um frete aos da sua terra. Encolheu os ombros. Uns dias depois era chamado à seleção argentina pela primeira vez.
Nesse mesmo verão, o Gimnasia de La Plata fez uma excursão pela Europa. Um sucesso. Ganhou ao Real Madrid e ao Barcelona e foi jogar a Nápoles onde o médio-centro José María Minella encheu o campo. Os italianos quiseram ficar com ele, mas de pouco valeu a insistência. Acabaram por perguntar-lhe que jogador argentino se parecia mais com ele no estilo._Minella não teve dúvidas e indicou Carlos Volante. O convite chegou e a gritaria também. A mãe tinha os filhos todos presos pelos fundilhos e proibiu Carlos de assinar contrato. Então ele propôs: «Vou pedir 150 mil Liras por dois anos e mais quatro mil por mês. Ninguém paga tanto. Mas se pagarem, vou». Pagaram. E viagem e casa para ele e para o pai. Continuou inquieto: Nápoles, Livorno, Torino... Casou com uma filha de família rica de Turim, Maria Luísa, mas, quando soube que Mussolini tinha dado ordens para que todos os estrangeiros naturalizados, os ‘oriundi’, fossem chamados para o serviço militar, decidiu que já tinha tido tropa que chegasse e passou a fronteira para França. Tomou conta do seu quadrado imaginário com a perseverança de sempre, no Rennes, no Lille e no CA Paris. Durante o Mundial de 1938, ofereceu-se para ser massagista da seleção brasileira. No regresso foi junto e assinou pelo Flamengo. Mas para jogar.
Em 1939, o Flamengo tinha uma equipa cheia de argentinos: Arturo Naón, Agustín Valido, Alfredo González, Raimundo Orsi (que foi campeão do mundo pela Itália) e Carlos Volante. Carlos finalmente aquietou: ficou no clube até 1943.
Manteve-se um defensor feroz do seu quadrado. Naquela zona do campo só havia lugar para ele. Depois, quando o adversário vinha ao seu encontro, ou lhe roubava a bola e saía naquela simples complexidade do vai não vai e vai mesmo, ou derrubava o mamífero logo ali, sem piedade. Os treinadores começaram a ensinar os seus jogadores: «Tá vendo o Volante? Joga como ele. Joga como Volante». O nome ficou. A gente por cá chama-lhe trinco._ Mas, no Brasil, quem está na frente dos centrais é sempre o Volante."

Treino...

Modalidades #55 - Semanada...

Leonor...

Lanças...

105x68...

Práticas corporais desportivas


"Pensar sociologicamente o desporto em Portugal não se afigura fácil. É estar exposto a um conjunto de saberes e de crenças que se impõem sub-repticiamente. O interesse socialmente reconhecido da prática desportiva leva a que fiquem num estado do não pensável. O sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) recorre a uma metáfora para explicar o bom uso que convém fazer da teoria sociológica geral e que pode ser transposta para uma sociologia do desporto, lembrando-nos que os indivíduos se vergam a regularidades nas suas práticas quotidianas sem ter consciência explícita de obedecer às regras. É importante conhecer as regras de um desporto para compreender o que se joga realmente. Isso não significa que os atletas/praticantes tenham consciência de “obedecer às regras” na sua ação. O domínio das regras é, antes de mais, algo que tem a ver com a competência prática antes de ser uma operação intelectual. A aquisição pela aprendizagem de uma prática consiste na incorporação de códigos sociais múltiplos.
Um exemplo ajuda a melhor compreender os atos em função dos códigos simbólicos do desporto. Em agosto de 2014, num campeonato europeu de atletismo, o francês Mahiedine Mekhissi retirou a sua camisola antes de chegar aos 3000 metros. Foi advertido pelo comité de controle das provas. O seu comportamento não era admissível, mas não foi colocado em causa o resultado da prova. No dia seguinte, veio a desqualificação, depois de uma reclamação da delegação espanhola, transformando o se ato em “falta desportiva total”. O atleta foi acusado pela sua atitude de não ter respeitado as regras técnicas.
Existe uma dupla codificação da prática desportiva, que releva das próprias regras e das relações com o espaço social. É preciso ter em atenção a forma de praticar, o contexto, a situação competitiva e o “label” institucional. Existe um etnocentrismo nacional, reforçado pelo eurocentrismo dos “guardiães” do espaço desportivo. É sobre a base do poder de inculcação moral ligado ao desporto que as principais instituições, encarregadas de assegurar as funções de programação mental, tais como Escola, as religiões e os Estados, que se ampararam desta prática tão particular, para colocar ao serviço as suas visões do mundo."

Sem redenção


"E o veredicto chegou sob a forma de um cruel sintagma – “elevada probabilidade de eventos coronários”. E ele, com a alma vestida da mais despida desilusão, fez passar em flashback o filme da sua vida onde o herói não tem as moças para salvar, mas unicamente o desejo de se salvar a si próprio. Como se salvou ele? Ouçamos esta versão muito resumida da sua estória. Tudo começou lá longe, no estreito corredor do quintal das traseiras de sua casa, onde os duros talos de couve substituíam eficazmente os sticks de hóquei que nunca teve. Ele num lado, o seu amigo de sempre do outro, e toca a despachar uma bola feitas de trapos no afã de viver em ilusão a saga dos heróis de hóquei em patins que nos tinham dado mais um título mundial.
A partilha das aventuras desportivas tinha um especial momento de emulação quando se embrenhavam, em luta um contra o outro, na nobre modalidade desportiva de alta competição que se denominava – o vira. Passo a explicar para os disfuncionais de todos os teclados eletrónicos. O vira, era uma modalidade de alto risco, em que através de um rápido movimento da mão em concha se tentava virar para cima as imagens dos jogadores da bola. Tal conseguindo ficava-se com a quantidade de jogadores virados. Alguns utilizavam “escupe” para facilitar o viranço o que entrava no campo dos procedimentos ilegais condenados pelo tribunal ad hoc construído no momento. Certo dia, daqueles dias em que saímos à rua e tudo nos sai bem, na pugna “virística” contra o amigo ganhou-lhe todos os jogadores. Ele ainda lhe perguntou: - Ouve lá, tu puseste “escupe” na mão? Logicamente negou. Foi jogo limpo. O seu adversário de ocasião quase chorava pois tinha perdido os jogadores do seu panteão particular, a saber, Pinho, Acúrcio, Jaburu, Pedroto, Hernâni, Monteiro da Costa, Virgílio e outros. Passaram-se os dias e o derrotado continuava fechado na sua vil tristeza até que o nosso herói lhe pediu para copiar as contas de multiplicar e dividir que eram trabalho de casa exigido pelo professor Vasconcelos da escola do Bomfim. Como já se disse noutro lado, em relação às contas de “sumir” e “substramir” o nosso herói lá se ia safando, mas os confusos algoritmos das contas de multiplicar e dividir ultrapassavam a sua capacidade de processamento e, no âmbito das contas, ia de mau em mau até ao péssimo terminal. Logicamente que o amigo recuperou todos os jogadores perdidos pois a aselhice e a iliteracia matemática têm um preço.
Nas suas pugnas desportivo-guerreiras mimoseavam-se com vocábulos tais como camurço (metade camelo, metade urso) e naburço (metade nabo, metade urso). Estes insultos inenarráveis eram condimentados à pedrada, cada um protegido pela sua árvore. Só que o homem-que-sabia-fazer-contas já tinha alguns conhecimentos rudimentares de balística e, em vez de arremessar a pedra em linha reta, projetou-a, um dia, através de uma parábola invertida. A pedra subiu no éter e aterrou no cocuruto do “inimigo” transformando a face risonha e irónica do autor destas letras numa imensa catarata de lágrimas que, como o poeta dizia, se acrescentaram em imenso e caudaloso rio. “Vou fazer queixa à tua mãe”. “Não, por favor, não vás”. Foi. E mal ele começou a alombar com a ira punitiva da mãe logo a dor lacrimosa terminou e se transmutou num riso de satisfação vingativa na face do ofendido.
Quando por volta dos 14 anos começou a praticar basquetebol e remo na Mocidade Portuguesa o nosso herói levava no alforge o capital de experiências motoras que a infância e os anos pré-pubertários lhe tinham propiciado. Algumas das proezas físicas envolveram enorme risco. Um dia, por volta dos seus doze anos, subiu a uma das tílias que cobriam o recinto das suas brincadeiras e com os braços a tremer do esforço começou a chorar até que os funcionários do tribunal da rua Formosa o ouviram e o foram acudir.
No meio de tanta pobreza material nunca ninguém foi mais rico que ele em vivências motoras. Não, não era brincar, era verdadeira paixão pela brincadeira e movimento que o transformaram num émulo de Sísifo. Cada dia recomeçava com o afã de levar o pedregulho até ao cimo do monte. Em cada dia renascia renovado preparado para a tarefa nunca conseguida de se satisfazer com o jogo. O jogo, o desporto, entrou-lhe na vida pela porta mais robusta e duradoura – a porta da emoção e nunca mais de lá saiu.
Acreditem por favor. Exame de Contabilidade. A coisa não lhe estava a correr muito bem. Através da janela vê o diretor da escola a pintar o campo de basquetebol. Sai do exame e vai ajudar o diretor na nobre tarefa de pintar o campo para o jogo que aconteceria de tarde. Só fez Contabilidade na segunda época.
Acabou o curso comercial e começou logo a trabalhar. Isto nos seus 16 anos. Era o funcionário com mais habilitações escolares no escritório, mas o que ganhava menos – 500 escudos. Dava todo o dinheiro à mãe e ela “semanava-o” com 50 escudos. Aproxima-se o verão e as provas de canoagem em Espanha. Diz ao patrão: - O meu pai não quer que eu trabalhe mais”. Diz ao pai: - O patrão mandou-me embora pois tinha de me meter no quadro”. Com estas mentiras repetidas, com variações ad hoc a cada ano, ficava com os meses de verão disponíveis para o remo e canoagem. O basquetebol começou mais organizado nos seus 17 anos nos juniores do Clube Fluvial Portuense.
Entretanto vem a tropa e o desporto ficou suspenso quatro anos, mas não a atividade física levada aos limites. Não desenrolando em vaidades avulsas a sua competência motora, eis uma só traduzida em realizações militares. Na recruta, nas Caldas da Rainha, bateu o recorde da pista de obstáculos que pertencia ao Rui Rodrigues, jogador da bola da Académica. Pronto, para gabarolice já chega.
Importa referir a sua saga desportiva na Guiné. Um dia, muito debilitado psicológica e emocionalmente pelas acontecências da guerra, veio a Bissau tirar um dente. Tratar o dente era ir e regressar no mesmo dia. Dente fora dava uma semana a coçar a micose em Bissau. Decidiu tirar o dente mesmo contra a vontade do médico que disse que tal não se justificava. Com medo após atitude intempestiva do nosso ranger, o dentista lá se decidiu pela extirpação que mais tarde foi revertida à base de 1500 euros cada implante. No fim de semana alguém se lembrou de fazer uma jogatana de basquetebol entre a malta guerreira no decrépito campo da escola secundária. Só para matar saudades, mas a coisa foi difícil e redundou em entorses e ruturas. Um jogo e regresso à mata. O correspondente do Norte Desportivo, militar de ar condicionado na capital da Guiné, amigo do nosso herói e que com ele tinha jogado basquetebol no Fluvial, enviou para a metrópole uma notícia que terminava com algo parecido com: “O craque do Académico continua a espalhar na Guiné a magia do seu basquetebol”. Para notícia forjada não esteve nada mal. É assim que se constroem famas indevidas.
Regressado a penates mergulhou nas profundezas de um Banco a que acedeu facilitado pelas habilidades basquetebolísticas tão bem expressas na Guiné através de um jogo entre gordos e ancilosados. Durou pouco (um ano) a sua punição “banquística”. Abandonou o banco e entrou de alma e coração no Olimpo, aquele lugar no éden Grego que tem o Desporto e da Educação Física como forma de realização existencial. Da sua folha de serviços tendo a prática desportiva como referência algumas se salientam: (i) férias da Páscoa de 1996. Descida em solitário do rio Douro. O rio ia bravo pelas chuvas de inverno. Uns 50 km abaixo de Almazán rio tapado por árvore caída. O canoísta aventureiro embrulha-se emergido nos ramos e não sabe como escapa do afogamento. O rio poupou-o, pois, ainda era cedo. A ele há de regressar um dia, definitivamente, reduzido à sua dimensão quântica. (ii) maio de 2005. Rio Tejo. Lá para cima onde o rio é reserva natural protegida. Pagaia todo o dia e a noite caiu sem povoado à vista. Toca a dormir na margem, no saco de dormir. Por volta da meia-noite, barulhos estranhos acordam-no. Noite cerrada e perscrutando silhuetas contra a luz das estrelas divisa uns cornos bem afiados. Veados, a quem tinha fechado o acesso à água. Levanta-se rápido e vai dormir fora do trilho dos animais. Foi por pouco. (iii) junho de 2008. Um companheiro de longa data pretende um parceiro para fazer uma prova em França – o Dordogne integral, 135 km seguidos em competição. Quem quer casar com a Carochinha? Quem? Ninguém. Alguém se lembrou do único João Ratão possível. Só há um que vai contigo de certeza. Quem? O seu nome foi a resposta. Bem, foi coisa dura pois foi sempre a dar-lhe sem parar. Mais de sete horas seguidas de esforço. Ficaram em segundo da geral, mas para sobreviver, além dos geles que iam colados a fita-cola no casco do K2, iam também colados três comprimidos de Voltaren rapid que atenuaram as dores musculares e da artrose da anca no decurso da prova.
Ficamos por aqui, mas muito mais haveria a acrescentar ao filme deste jovem que agora se depara com o veredicto da morbilidade coronária. Que fazer? Haverá redenção para os “crimes” desportivos que cometeu? Querem-no condenar agora à imobilidade. Não é justo. Os deuses têm que ter piedade e permitir-lhe que continue a saga maravilhosa que deu sentido à sua vida. Há sempre redenção para quem pecou por amor. Já diz o aforismo popular que de popular tem pouco – mais vale ser rei por um dia que vassalo toda a vida. O nosso herói tem sido rei neste curto lapso de tempo que é uma vida. Tem toda a eternidade para ser vassalo.
Uma prática desportiva totalmente absorvente e com viagens frequentes ao excesso não tem redenção. Há sempre um preço a pagar. O coração fraqueja? Sim. As articulações claudicam? Sim. Mas a alma viceja na fruição duma vida em que o desporto foi fautor de transcendência."

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Sporting CP revolta-se contra Sporting CP


"Hoje fomos brindados com um comunicado da Sporting CP Futebol, SAD a insurgir-se contra a transferência de João Mário do Internazionale Milano para o Sport Lisboa e Benfica.
Considera o Sporting que "foi usado um expediente para que o Inter e o jogador João Mário se procurassem eximir ao que contrataram com o Sporting em 2016" e então decidiu avançar para tribunal.
Certamente o mesmo Sporting CP se lembrará ter defendido em tribunal que não tinha de pagar qualquer valor à Sampdoria relativo aos 10% da mais-valia do negócio de Bruno Fernandes para o Manchester United, isto é, 4,6 milhões de euros, na sequência da transferência deste para o clube inglês.
A Sporting CP Futebol, SAD defendeu, na altura, que o facto de Bruno Fernandes ter rescindido o seu primeiro contrato com o Sporting CP e ter assinado um novo contrato com o mesmo Sporting CP tinha extinguido o direito da Sampdoria de auferir quaisquer valores da transferência do jogador.
Ou seja, aquele tipo de malabarismos e de contorno das regras que adoram aplicar para benefício próprio mas repudiam na praça pública quando não lhes é favorável nem conveniente. Talvez os comunicados que deixamos em anexo estimulem a fraca memória do clube leonino."

Benfica Podcast #411 - Just when you thought is was safe