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sábado, 13 de julho de 2019

“Antes do jogo com o FCP pus no Face: ‘ótimo dia para dois golos’. O mister fez-me apagar o post, eu fiz o bis. A minha confiança é anormal”

"Há quatro anos, Hugo Vieira viu o primeiro amor da sua vida, Edina Carvalho, perder a batalha contra o cancro e diz ter percebido que o importante é ajudar os outros e viver o presente. Andou por Espanha, Japão e agora Turquia mas foi na Sérvia que encontrou o amor por uma sérvia que lhe deu uma nova razão de viver: a filha Bianca. Confessa que era um miúdo traquina, muito convicto das suas ideias, que queria ser adulto depressa. O avançado de 31 anos que já tem uma agência de viagens e uma empresa no ramo imobiliário, revela pormenores da sua vida, afirma que sempre que diz que vai marcar golo, marca, e conclui que o futebol português está pior do que quando saiu para o estrangeiro

Nasceu em Barcelos. O que faziam profissionalmente os seus pais?
O meu pai era operário têxtil e a minha mãe trabalhava num armazém de revenda de decoração.

Tem irmãos?
Tenho duas irmãs mais novas, a Patrícia e a Letícia.

Cresceu onde?
Cresci numa casa, que é a casa dos meus pais, em Galegos de São Martinho.

Tinha alguém na família ligado ao futebol? Quando começa o amor pela bola?
Curiosamente, não. Bem, tenho tios que jogavam mas nunca foram profissionais. A minha mãe diz que eu comecei quando ainda estava na barriga dela, estava sempre a pontapear (risos). A minha avó diz que quando não tinha bolas chutava as pedras e rompia as sapatilhas todas. Sempre tive uma paixão muito especial pela bola.

Qual era o clube preferido lá de casa?
Benfica, a minha família sempre torceu pelo Benfica. Honestamente, eu abstraí-me um bocadinho se calhar por causa da profissão..

Quem eram os seus ídolos?
O Ronaldo o “Fenómeno” e o Ronaldinho Gaúcho. Estes dois eram os melhores de sempre para mim.

Gostava da escola?
Gostava da escola, não gostava das aulas (risos). Mas quando me aplicava tirava quatros e cincos.

Era um miúdo calmo ou fazia muita asneira?
Era muito traquina. Era eu que aprontava tudo na escola, que metia coisinhas nas portas para as portas não abrirem e não termos aula, metia lagartixas na sala para não ter aula ( risos).

Quando era pequeno o que é que dizia que queria ser quando crescesse?
Sempre jogador de futebol. Mas a minha mãe dizia que eu queria fazer casas. Não sei se era arquitecto, trolha, não sei (risos). Curiosamente hoje tenho uma empresa de construção e remodelação. Curiosidades do destino.

O seu primeiro clube é o Santa Maria. Como é que lá vai parar?
Eu tinha muito jeito para a bola desde pequenino. E um senhor viu-me a jogar na escola, no recreio e ficou impressionado. Foram falar com os meus pais, a pedir para eu ir para lá para o Santa Maria. Com seis anos já jogava com os miúdos de 10. Não havia escolinhas na altura. Não era como agora, se fosse agora, meu Deus, aos seis anos tinha ido para o Manchester ou para o Real Madrid (risos). Eu de facto tinha muito jeito quando era mais novo. Era mesmo um fora de série até aos meus 14, 15 anos.

Já como avançado?
Comecei à baliza, queria ser guarda-redes, mas os treinadores não me deixavam porque, primeiro era muito baixinho, e depois porque pegava na bola, fintava toda a gente e marcava golo.

Lembra-se qual foi o primeiro dinheiro que ganhou no futebol e com que idade?
Foi com 15 anos, quando comecei a jogar nos seniores. Tinha um salário de 75 euros.

Havia alguma coisa que quisesse muito comprar ou que tenha juntado dinheiro para comprar?
Não, com 75 euros não dá para juntar nada (risos). Esse salário geralmente gastava eu, porque era muito baixo. Mas eu trabalhava e jogava futebol.

Trabalhava? E continuava também na escola?
Eu fugi da escola aos 15 anos. Ia com a mochila todos os dias, a minha mãe pensava que eu ia para a escola, eu escondia a mochila e ia trabalhar.

Onde?
Numa estamparia. Os meus pais só descobriram uns três ou quatro meses depois. Ligaram da escola a dizer que eu tinha muitas faltas, que não ia às aulas.
O que é que aconteceu nessa altura?
Levei uma carga de porrada logo para começar (risos). Depois queriam meter-me outra vez na escola. Mas eu sempre fui um miúdo com ideias muito vincadas e disse que queria dinheiro para as minhas coisas, queria ser um adulto. Lá aceitaram, mas ficaram bastante decepcionados. Hoje, percebo que foi um erro gigantesco, tenho uma filha e ponho-me no lugar deles, foi muito mau da minha parte. Agora ganhei juízo, voltei a estudar, tirei o 12.º ano, estudei durante estes anos. Na altura fugi quando estava no 8.º ano.

Quando começa a jogar pelos seniores?
Estava no segundo ano de juvenil, tinha 15 anos. Estreei-me nos últimos jogos da época.

Estava muito nervoso?
Não, sempre fui muito relaxado. Sempre tive uma personalidade muito vincada, para mim nunca existiu, nem vai existir, pressão. Desde jovem que digo que pressão é tu teres que pôr comida na mesa para os teus filhos e não teres dinheiro. Pressão é estares numa cama de hospital e dependeres de um médico para sobreviveres, isso sim, é pressão. Agora jogar futebol é um privilégio, é para desfrutar, não é para nos deixar nervosos. Nunca fiquei nervoso antes de um jogo. Há jogos, sim, que dá um friozinho na barriga, que é normal, mas é mais a ansiedade, do querer que comece rápido para resolver as coisas, isso sim. Agora pressão, nunca tive pressão, nem nunca fiquei nervoso antes de um jogo, nada.

2005/06 é a sua primeira época no plantel sénior em definitivo?
Exactamente. No primeiro ano de júnior comecei já com a equipa de seniores, era o goleador da equipa. Tinha 16 anos a fazer 17.

Depois é emprestado ao Bordéus. Como é que isso acontece?
Tinha 17 anos, o treinador era o Ricardo Gomes e o falecido Manuel Barbosa era o meu empresário. Alguém lhe falou de mim quando era jogador no Santa Maria, que era júnior, mas já jogava nos seniores, ele veio ver um jogo e como fazia muitos golos, notava-se que estava um ou dois degraus acima dos outros e ainda tinha muito para evoluir. O Manuel Barbosa veio ver-me, falou comigo e ligou ao Ricardo Gomes, que trabalhava com ele já há muito tempo, e o Ricardo disse também gostava muito das minhas características, que era muito novo e que era bom negócio. Então, fui lá, treinei, eles gostaram de mim e fiquei lá.

Foi sozinho?
Fui, fui sozinho. Foi muito duro.

O que custou mais?
A distância, as saudades. Na altura, a minha irmã era muito pequenina, tinha cinco ou seis anos, ligava a chorar para eu voltar. Eu era muito ligado à minha irmã mais nova - às duas -, mas a mais nova, por ser mais pequenina, era eu quem a protegia, ainda hoje é assim. Eu também sou muito ligado à minha mãe, sempre fui o filhinho da mamã e foi muito complicado. Passados dois meses e meio, três meses pedi para vir embora porque não conseguia lá estar.

Ficou a viver onde em Bordéus?
No centro de estágio, dormia e comia lá, tinha lá tudo.

Como é que foi com a língua? Sabia francês?
Não, muito pouco e também foi uma grande dificuldade na altura, mas serviu-me para o futuro. Havia um ou outro jogador que falava espanhol. Eu era muito tímido na altura. Foi tudo muito complicado e por isso é que pedi para voltar.

O futebol era muito diferente do que estava habituado?
Era. Muito físico, os treinos eram muito duros. Eu estava habituado a treinar à noite e a trabalhar o dia todo, e passei a ter treinos bi-diários. Foi uma diferença relativamente grande.
Quando regressa, acabam por emprestá-lo ao Estoril. Foi para Lisboa também sozinho?
Sim. Mas aí já foi mais fácil. As saudades mantinham-se, mas já estava em Portugal, eles iam visitar-me de vez em quando, fiz algumas amizades que até hoje mantenho.

Como fazia com as refeições? Comia sempre fora?
Comecei a aprender a cozinhar, tive de me desenrascar (risos). Ligava à minha mãe, ela dizia-me passo a passo, eu fazia as coisas e gostava mais por a comida ser feita por mim.

Nos tempos livres o que fazia, jogava PlayStation?
Foi nessa altura que comprei a minha primeira PlayStation, quando estava no Estoril.

Quais foram os primeiros amigos que fez nessa altura?
O André Cunha, ainda jogamos juntos durante muitos anos. Nos tempos livres jogávamos PlayStation. O Eduardo, o Pedro Caravana, o Nelson Oliveira.

É nessa altura que começam as primeiras saídas à noite?
É (risos). Em Lisboa foi um bocadinho a descoberta.

Costumava ir para onde?
Para as Docas e para algumas discotecas que hoje já não existem.

Alguma vez teve problemas por causa das noitadas?
Nunca.Também nunca fui de sair muito. No Estoril era mais, mas também não joguei muito porque depois o treinador, o Tulipa, chateou-se com o empresário.

Que tal era o Tulipa como treinador?
Eu não joguei nem um minuto, foi complicado. Eu era um miúdo de 18 anos, ele não me pôs a jogar por causa do empresário, disse-me ele. Eu era um miúdo, não sabia nada, mas sempre treinei bem, tanto que faltavam cinco jornadas para acabar e ele em frente ao plantel todo disse: “Quero agradecer a um grande profissional, apesar de muito jovem, o Hugo, que sempre se treinou bem. Nós não podemos descer, nem subir, por isso vou dar-lhe a oportunidade que merece. Espero que compreendam”. Mas depois não me convocou nos quatro jogos seguintes e, no último jogo, convocou-me para jogar com o Fátima e deixou-me em a 19º, ou seja tive zero minutos. Pelo menos não dizia nada.

Voltou para o Santa Maria?
Sim. Tinha alguns clubes interessados, mas tinha um contrato profissional com o Santa Maria, tinha sido emprestado por eles ao Estoril. Porque o objetivo era eu ir para o Bordéus no ano seguinte, mas como não joguei, eles depois acharam que era melhor não ir e voltei para o Santa Maria. Foi ai que tudo começou. Fiz a época, ganhámos a Taça, subimos de divisão, marquei 48 golos. Ainda hoje é o recorde de golos daqui de todas as associações.

Quando volta ao Santa Maria, volta a casa dos seus pais ou já tem uma casa sua?
Nesse ano ainda voltei a casa dos meus pais, no ano seguinte é que fui viver sozinho.
Quando foi para o Gil Vicente.
Sim.

Foram eles que o contactaram?
Sim, porque não tinha como não se falar de mim aqui na cidade, porque de facto fiz algo incrível. O Santa Maria fez um campeonato incrível: havia um Famalicão muito forte, a investir muito dinheiro, e nós, com uma equipa de miúdos, a ganhar muito pouco, fomos campeões e ganhamos a Taça. Fizemos a dobradinha que não é fácil. O estádio estava sempre com muita gente para a divisão que era. E é claro que as pessoas de Barcelos falavam, vinham ver os jogos e não tinha como o Gil Vicente não me contratar.

Esteve lá três épocas.
Sim. Na altura tinha muitos clubes, alguns até da 1.ª Liga que vinham ver os meus jogos, alguns treinadores que me ligaram e tudo, só que o Santa Maria só me deixava ir para o Gil Vicente.

Quando vai para o Gil Vicente ,quem é o treinador?
O Rui Quinta. As coisas estavam a correr-me muito bem, estávamos nos lugares cimeiros, só que lesionei-me, fiz uma lombalgia. Começámos a não ganhar e o treinador foi mandado embora. Veio o Paulo Alves.

Com que opinião ficou dele?
Bom treinador. Subimos de divisão, no primeiro ano fomos à final da Taça, as coisas correrem muito bem tanto para mim, como para toda a equipa - e consequentemente para o treinador.

Entretanto é contratado pelo Benfica. Ainda tinha o Manuel Barbosa como empresário?
Não, não. No primeiro do Gil Vicente já foi o Carlos Gonçalves.

Trocou porquê?
Porque, curiosamente, no ano em que voltei para o Santa Maria, tinha 18 anos e o Manuel Barbosa queria que assinasse um protocolo irrevogável, como se fosse propriedade dele. E isso não é válido, como é óbvio, e consegui rescindir e prometi que nunca mais assinava por nenhum empresário.Não assinei com o Carlos, expliquei-lhe, e quem o conhece sabe que é como eu: a palavra vale muito mais do que um contrato assinado. Não é por acaso que já lá vão 13 anos a trabalhar com ele.

Então o Benfica mostrou interesse...
...Sim, o presidente Luís Filipe Vieira falou com o Carlos, mostrou o interesse que tinha por mim, assim como vários clubes o fizeram, e chegámos a um acordo.

Que outros clubes?
Isso são coisas que ficam connosco.

Algum dos outros grandes?
Sim.

A opção pelo Benfica foi por ser o clube do coração ou porque era o melhor contrato?
Foi uma escolha com o coração e não com a cabeça, porque qualquer das outras opções talvez fossem mais fáceis para mim. Mas na altura foi um sonho, um sonho da minha família que sempre foi benfiquista, por isso fui para lá.

Mas não chegou a jogar.
Oficialmente, não.

Chegou a ser recebido pelo Jorge Jesus?
Sim, ao início fui muito bem recebido por toda a gente: fomos para a Suíça, para a França e as pessoas gostavam muito de mim, vinham falar comigo. Mas também foi opção minha; pedi para ser emprestado, porque o treinador disse que queria que ficasse no plantel, mas que não ia ter muitas oportunidades de jogar. Se calhar, não reagi da melhor maneira e disse que se fosse para ser assim, não queria ficar, queria jogar, porque para evoluir tinha de jogar. Se calhar foi o meu erro, mas pedi para sair. Costumo dizer que nunca me arrependo de nada.
Quem escolhe o Sporting de Gijón?
Foi o Benfica, eu tinha outras propostas mas o Benfica disse que só me deixava sair se fosse para lá. 

Foi sozinho?
Fui com a minha ex-esposa, a Edina.

Já estava casado com ela? Quando é que a conhece?
Quase. Eu conheci-a no meu primeiro ano no Gil Vicente.

O que ela fazia quando a conheceu?
Era professora de educação física. Já nos conhecíamos de vista, vivíamos relativamente perto e às vezes a gente cruzava-se, mas conhecia-a quando fui dar autógrafos à escola onde ela era professora. 

Entre dar a sessão de autógrafos até viver juntos quanto tempo se passou?
Mais ou menos dois anos. Começámos a viver juntos quando eu fui para Lisboa, para o Benfica, ela veio comigo e concorreu para dar aulas em Lisboa.

Mas o Hugo esteve pouco tempo no Benfica.
Sim, dois meses. Depois fomos para Espanha e ela optou por abandonar e vir comigo para Espanha. Não sabíamos que iria ser tão pouco tempo.

Quanto tempo ficaram em Espanha?
Ela ficou duas, três semanas, porque foi-lhe diagnosticado um sarcoma. Ela estava com dores no peito e nas costas, desde Lisboa, mas pensávamos que era ansiedade, por não sabermos para onde é que eu ia jogar. Só que continuou e, não sei porquê, até hoje não consigo perceber porquê, mas agarrei no carro numa sexta-feira e vim de Gijón para cá. Não disse nada a ninguém e quando cheguei na sexta-feira à noite, ela foi fazer exames e no sábado de manhã tivemos o resultado.

Nessa altura tinham noção da gravidade?
Não, nada.

O que decidem fazer? O Hugo voltava e ela ficava cá?
Não, como deve compreender, fiquei sem chão, sem tecto, sem nada. Liguei ao meu empresário que ligou para o clube e explicou. O clube disse para eu ficar o tempo que fosse preciso, que essas eram as verdadeiras prioridades. Para ficar o tempo que precisasse para estar com ela e apoiá-la. Foi um gesto incrível da parte deles.

Ficou cá quanto tempo?
Setembro e Outubro. Voltei para lá em Novembro, mas era muito complicado. Tinha um dia livre e vinha cá. Eram cinco, seis horas a conduzir. Costumo dizer que se não morri num acidente de automóvel nessa fase, nunca mais vai acontecer porque vinha cansado e nem me lembro das viagens. Vinha o mais rápido possível, às vezes com neve na montanha as estradas ficam muito perigosas, e eu vinha sem correntes, no meio da neve, o carro vinha a deslizar muitas vezes. Foram dois meses em que eu queria ficar, só que ela não queria, não queria que eu parasse a minha vida por ela. Ela fazia anos a 19 de Outubro, nesse dia tive treino de manhã e depois vim cá. Ela estava internada no IPO, fui lá ter com ela, levar-lhe uma prenda e um ramo de rosas. e voltei. Fiz a viagem no mesmo dia porque tinha um jogo no fim de semana para a Taça do Rei e foi o meu melhor jogo no Gijón. 

Acabou por só fazer quatro jogos.
Sim. Porque eu fui em Novembro, entrei em dois ou três jogos, não estava bem fisicamente como é óbvio, sem treinar, dormir era o que calhasse. E era um jogador muito caro para o clube na altura, eles foram incríveis nisso, portaram-se muito bem comigo, ao contrário de outros clubes.
Quando acaba a época volta ao Benfica?
Depois disse que não conseguia mais estar lá e vim para o Gil Vicente, em Dezembro.

Vem para o Gil Vicente na época 2012/ 2013. Depois vai para o SC Braga.
No final dessa época. As coisas correram muito bem, apesar de não ter vida. Muitas vezes dormia no hospital, estava lá o dia todo, vinha dormir a casa e treinava de manhã, mas apesar disso as coisas correram incrivelmente bem. Marquei uns oito golos, qualquer coisa assim, e no ano seguinte fui para o Braga.

Foi o SC Braga que o procurou?
Sim. Era o Jesualdo Ferreira que lá estava.

O que achou dele?
É muito bom treinador, muito boa pessoa. É uma pena eu não ter vida para profissional nesse tempo. Ainda por cima cheguei muito tarde, porque o Benfica não me queria deixar sair, meteu alguns entraves e só chegaram a acordo no final de Agosto. Fui, estava sem treinar, comecei a treinar, fiz um jogo na equipa B e depois joguei sempre na equipa principal, só fui jogar na B para ganhar ritmo. Comecei a entrar aos poucos, só que não tinha vida, não dava.

A Edina esteve muito tempo internada?
Nessa fase estava três semanas em casa e ia uma para a quimioterapia. Na semana em que ficava lá, eu às vezes dormia lá, por isso não dava para ter vida de jogador de futebol profissional. Às vezes, jogava à quarta e ao domingo e eles queriam que nós fizéssemos banhos de gelo, só que eu não podia ficar doente - quem tem familiares nessa situação sabe muito bem disso, não podes ficar constipado porque as defesas deles ficam muito em baixo. Por isso eu tinha muito cuidado e banhos de gelo, por exemplo, não podia fazer, era muito complicado. As pessoas pensavam que eu fazia isso por mal, mas não era por mal, era para a proteger.

Entretanto é emprestado ao Gil Vicente.
Sim, expliquei que não podia fazer certas coisas e acabei por jogar com os juniores porque não tinham jogadores para a frente. Pedi para voltar para o Gil Vicente porque me entendiam melhor e estive seis meses no Gil Vicente.

Como é que surge o Torpedo de Moscovo, da Rússia, no meio disso?
Ligaram para o meu empresário. Nessa altura a Edina também estava bem e, por curiosidade, Moscovo era a cidade dos sonhos dela. Por isso a proposta era algo que nos agradava muito aos dois. 

Foram os dois para Moscovo?
Não. Eu fui no princípio de Setembro e estava previsto ela ir no final de Setembro porque ainda tinha umas consultas no IPO. Só que entretanto ela sentiu-se mal, foi fazer uns exames e o sarcoma tinha voltado.

Foi para a Rússia sozinho?
Sim, foi complicado.Tinha tradutor, mas só para algumas entrevistas. Eu cheguei numa quinta-feira, na sexta-feira treinei, no sábado tínhamos jogo, eu entrei 20 minutos e fiz golo, contra o Spartak, uma equipa grande de lá. As coisas começaram logo muito bem e claro que isso ajuda muito. As pessoas trataram-me muito bem, só tenho a dizer coisas boas da Rússia, da Sérvia e do Japão, pessoas incríveis.
Continuou com essa vida de andar cá e lá?
Sim, depois foi complicado porque em Dezembro o campeonato parou e eu fiquei cá no mês de dezembro. Fizemos os convites de casamento e oferecemos a toda a gente. Eu voltei a Moscovo no dia 13 de Janeiro e ninguém percebeu muito bem o que aconteceu porque ela estava relativamente bem, e de um dia para o outro, as coisas não ficaram tão bem.

Ela faleceu...
...No dia 25 de Janeiro. Foi muito rápido.

Ficou destroçado, como se pode ver pelo seu Instagram.
É muito complicado expressar por palavras.

A que se agarrou para seguir em frente?
Agarrei-me às coisas que ela gostava que eu fizesse. Foi mais ou menos nessa base e não acredito que seja só coincidência, foi a partir daí que comecei a ser o jogador. Em vez de ser mais um, comecei a ser o jogador em todo o lado por onde passei. As coisas correram-me de facto incrivelmente bem, comecei a marcar em média 20 ou mais golos por época.

Tinha 24 anos, levou alguém consigo para o ajudar no regresso à Rússia?
Não. Os meus amigos e a minha família foram incríveis comigo, sempre me ajudaram muito, mas a verdade é que eu tive que passar por isto sozinho. Fui sozinho, fiquei lá sozinho.

De Janeiro até ao final da época como é que conseguiu arranjar um ponto de equilíbrio?
Não consegui. Vivia o hoje, a partir daí comecei a viver o hoje, porque nós não valemos nada, a verdade é esta. Nós temos o “agora” para viver, amanhã não sei o que é e o que pode acontecer.

O que mudou na sua vida?
Não sou a melhor pessoa para falar disso, mas comecei a ajudar toda a gente que podia e a viver o hoje. Porque é a realidade, nós não valemos nada. Nós temos o agora para viver e mais nada, estamos bem, dá-nos uma diarreia daqui a 10 minutos e vamos para o caraças, essa é a realidade. As coisas que o dinheiro não compra na verdade são o que realmente importam. O amor pelo próximo, fazer o bem. Eu costumo fazer isso e dizer isso a toda a gente que me rodeia, vamos fazer o bem porque é a única coisa que fica. Nós nascemos sem nada e não vamos levar nada. O dinheiro é tão importante porquê? Para quê? Claro que é importante e dá-nos coisas muito boas, mas aquilo que realmente é bom e tem valor, são as coisas que o dinheiro não pode comprar.

Houve alguma coisa que o tenha chocado mais nos dias que passou no IPO do Porto?
Ao início foi muito complicado, porque eu via pessoas a morrer à minha frente todas as semanas. Não quero estar a exagerar, mas todas as semanas alguém morria ali ao nosso lado e eram essas coisas que nos faziam pensar. Porquê? O que é que andamos aqui a fazer?

Apesar disso tudo consegue um contrato para o Estrela Vermelha, da Sérvia, logo a seguir.
Comecei a ficar em forma, as coisas correram me bem nos últimos cinco, seis jogos, apesar de não me pagarem o salário porque estavam com dificuldades. Depois desceram três ou quatro divisões por causa disso. Entretanto, num jogo contra o Lokomotiv, fiz um jogo muito bom, o treinador deles viu-me, ligou e queria levar-me para o Estrela Vermelha porque ele foi para lá. Chegámos a acordo e fui para lá.

Muito diferente a Sérvia da Rússia?
Tem duas equipas muito fortes, o Estrela Vermelha e o Partizan. Mas o futebol tem muita qualidade e não é por acaso que todos os anos vêm 20, 30, 40 jogadores sérvios para as Ligas mais fortes.

Como foi a adaptação? Foi mais fácil?
Foi muito fácil. Belgrado é uma cidade incrível e depois assinei por um clube fantástico. Não tenho adjectivos para descrever aqueles adeptos e aquele clube. Porque foi realmente incrível jogar lá. 

Esteve lá duas épocas.
Sim, dois anos.
Tem alguma história engraçada de lá que possa contar?
Tenho algumas. Marcar um golo num dérbi lá é algo incrível e os amigos diziam: “se marcares um golo, as pessoas vão começar a idolatrar-te de uma forma que não vais perceber”. E eu: “Ah é? E se eu marcar dois, o que é que vai acontecer?” (risos). “Dois, és maluco, já estamos em segundo, se ganhamos e passamos para primeiro, nunca mais podes sair de casa. Marcar dois golos, tu não estás a perceber...”. E no dérbi eu marquei dois golos incríveis.

E?
Isto foi à quinta ou sexta jornada. E a verdade é que tinha montes de gente em minha casa à minha espera. Não sei como é que eles sabiam onde é que eu vivia, mas tive de andar com seguranças durante algum tempo, apesar de nunca ter tido nenhum problema. Até os adeptos do Partizan me respeitam de uma forma incrível. Têm videos no youtube em que os vemos a atirar petardos e objectos para os meus colegas e, quando sou eu a sair, alguns aplaudem e não atiram nada. Também fui o único jogador na história deles a pedir desculpa, no dérbi, ao adversário, porque no meu primeiro golo fui festejar para a bancada que normalmente era a nossa, mas naquele jogo era deles e eu não me apercebi. Começaram a chover cadeiras, a insultar-me, o que é normal, mas depois eu pedi desculpas e foi um respeito muito grande quer de uma parte, quer da outra. Foi bonito, são essas coisas que ficam do futebol.

O que fazia nos seus tempos livres?
O mesmo de sempre, ficava por casa, ia almoçar fora, jogava PlayStation, nada de especial. 


É lá que conhece a sua actual mulher e mãe da sua filha.
Exactamente.

Como é que se conheceram e o que ela faz ou fazia profissionalmente?
Ela estudava na universidade de direito e trabalhava lá. A família dela é toda de direito. A irmã é juíza, o pai é advogado e a mãe era directora do hospital da cidade dela . A prima dela é uma jornalista muito conhecida lá, com quem eu me dava muito bem. Eles lá chamam irmãos aos primos e primas e conhecia-a assim, através da prima jornalista. Num jogo levo uma pancada quando vou cabecear, fiquei meio tonto, não estava muito bem e essa amiga jornalista foi lá a casa levar-me fruta e a Nina estava no carro, não queria entrar. Então fui lá fora e convidei-a a entrar. Ela entrou um bocadinho e foi aí que nos conhecemos. Depois fomos falando. Isto foi em Junho do ano seguinte.

Já casaram?
Ainda não. Começámos a namorar, mas eu queria muito ter um filho e falei com ela sobre isso. Ela ao início não queria, chamou-me maluco, mas depois eu lá a convenci (risos) e as coisas andaram rápido e bem. Eu precisava de uma princesa, neste caso, para me dar outra vontade de viver, outros objectivos.

É nesse ano ainda que vai para o Japão?
Fui para o Japão no ano seguinte, em 2016/2017. Fiz seis meses e em Dezembro e fui para o Yokohama Marinos do Japão.

Como é que surge?
Ligaram para o clube a mostrar muito interesse por mim e compraram-me ao Estrela Vermelha, apesar de eles não me quererem vender. Só que eu só tinha contrato até Junho e não queria renovar. Não era não querer renovar, mas precisava ganhar dinheiro e era um contrato muito vantajoso tanto para mim como para eles. E eles venderam-me por um milhão e fui para o Japão.

Nessa altura a Nina já estava grávida?
Sim. Mas só começamos a viver juntos quando fomos para o Japão. A Bianca nasceu a 29 de Março. 

Como é que foi chegar a um país tão diferente, com uma língua completamente diferente?
Ao início não foi fácil porque o Japão, para quem não conhece, é muito complicado. A língua, os japoneses ao início são um bocado estranhos, são um bocadinho frios, tens de conquistar a confiança deles, tens de mostrar que és boa pessoa. Mas depois são incríveis e é o país que hoje elegemos como o melhor do mundo.

A sua filha nasceu lá?
Nasceu.

Assistiu ao parto?
Sim, foi a sorte da Nina, se não não sei como é que ia ser.

Porquê?
Porque custou-lhe muito. Para já eles têm muitas regras nessas coisas. Por exemplo: não dão epidural, não dão remédio nenhum para as dores, tem que ser mesmo ao natural, por causa da cultura deles. E foi muito complicado, ela esteve 30 horas em trabalho de parto.

Quando a Bianca nasceu o que sentiu e a quem ligou primeiro?
Ah, é a melhor sensação do mundo. É um misto de emoções. Liguei logo à minha mãe.

Para si era indiferente o sexo?
Gostava muito de ter um menino, mas eu quero é que venha com saúde que é a única coisa que importa. E estou muito feliz por ter sido uma menina. A Bianca é uma menina muito especial. Quem a conhece sabe muito bem disso, é uma princesa muito especial. Toda a gente que passa por ela na rua, fica apaixonado (risos). É loirinha, de olhos azuis, muito simpática para toda a gente, não estranha ninguém. Só conhecendo mesmo, é muito querida. Mas eu quero mais filhos.

A sua mulher, depois de 30 horas de parto, está disposta a isso? Há outra solução?
Se eu quero muito, acho que não há outra opção porque, como disse há pouco, sou uma pessoa de ideias muito vincadas (risos). Mas sim, vamos ter mais filhos com certeza, se Deus quiser.
Voltemos ao futebol. O que achou do futebol no Japão?
Muita gente confunde o Japão com a China. A diferença é grande e isso dá para ver nas selecções, tem um campeonato muito forte, com sete ou oito equipas a lutar pelo título, com orçamentos muito grandes.

O Hugo adaptou-se logo ao futebol deles?
Curiosamente sim, as coisas correram muito bem desde o início. Comecei no banco, mas entrei e fiz uma assistência no primeiro jogo, marquei no segundo. As coisas correram muito bem, não foi por acaso que há dois anos marquei mais de 40 golos.

Tornou-se num ídolo lá.
Sim. Aliás dá para ver nos vídeos da minha despedida. No jogo da despedida, uma hora e tal depois do jogo acabar, eles chamaram-me porque tinham adeptos que não se iam embora sem se despedirem de mim. Pensei: está bem vou lá e estão meia dúzia de pessoas. Mas quando saio e vejo mais de 20 mil pessoas a gritar o meu nome, a chorar e a pedir para não ir embora... foi sem dúvida uma das mais bonitas histórias que vivi no futebol e das mais emocionantes. Emocionei-me muito, eles também, até hoje ao falar disso me emociono porque estares tão longe da tua casa e sentires-te tão querido, com tantas bandeiras do teu país. Crianças, adultos, idosos a chorar e a pedir para eu ficar... Foi sem dúvida algo que me marcou muito.

Não tem nenhuma história de lá que possa partilhar?
Tive uma história muito curiosa em Bangkok, na Tailândia. Fomos para lá estagiar. Tínhamos um dia livre e fomos passear. Só que para os japoneses as regras são fundamentais. Nós tínhamos de estar às sete horas para jantar e se não estás, estás tramado. Fui com um colega para o centro de Bangkok, eram mais ou menos 25 a 30 minutos de carro e fomos tranquilos. Às cinco da tarde íamos voltar para o hotel, para podermos descansar um bocadinho antes do jantar. Entrámos no táxi e perguntámos quanto tempo é que demorávamos e ele disse-nos três horas por causa do trânsito. “Hã? Estamos desgraçados. O que é que vamos fazer à nossa vida”. Então alugámos um táxi mota e lá fomos, sem capacete, pelo meio do trânsito de loucos de Bangkok e demorámos só uma hora e cinquenta. Chegamos mesmo em cima da hora (risos).

A equipa não deu por nada?
Não, não. Só passados seis meses é que souberam. É que nós temos no contrato que não podemos andar de mota. Mas foi a única solução que tivemos para não chegar atrasados. Se não, meu Deus (risos).

Do que gostou mais e menos do Japão?
O que gostei mais foi da cultura deles, como tratar o próximo, como respeitar o próximo. Quem conhece o Japão sabe que é de longe o melhor país do mundo. O que menos gostei foi da distância, é de facto muito longe. Mas de certeza que vou lá voltar.

Houve alguma comida ou alguma coisa que tenha sido muito estranha para si? Ou alguma coisa de que tenha gostado mais?
Eu não sou a melhor pessoa a quem perguntar isso, porque como a minha mãe diz, eu tenho uma boca santa. Como tudo, não tenho qualquer tipo de problema com a alimentação, seja aqui, no Japão, na China, qualquer lado. Gosto de tudo.

Algum hábito deles que tenha achado mais complicado ou pelo contrário, houve algum que tivesse adoptado?
Eu apaixonei-me pelo Japão. Gosto muito da maneira deles serem, o que eles faziam, do agradecer por tudo, baixar a cabeça, dobrado, eu fazia isso tudo e adoro.

A sua mulher, a Nina, adaptou-se bem ou custou-lhe?
Ao início custou-lhe bastante, ainda por cima com a Bianca era complicado. Só que depois, quando somos pais, começamos a pensar mais nos nossos filhos do que em nós. Ela quer muito voltar para lá, apesar de termos saído de lá há pouco tempo. Também estou muito bem na Turquia, têm-me tratado muito bem, apesar de me ter lesionado.

Foi para a Turquia em Janeiro deste ano.
Sim. Assinei no dia 28.

Porque é que foi para a Turquia, era um contrato melhor?
Não, tinha contratos muito mais altos no Japão, só que a minha mãe teve um problema grave de saúde e eu optei por vir para mais perto. Graças a Deus está resolvido e ela está bem. Teve um cancro no estômago. Voltei ao IPO.

Como é que foi voltar ao IPO?
Só fiz isso por ela, por ser ela, porque foi um “deja vú”, foi muito difícil. Mas já passou.

Passar do Japão para a Turquia...
...É do 8 ao 80. São muito desorganizados, quando te dizem uma coisa se calhar não é bem assim. No Japão, o que eles dizem é como num contrato. São muito organizados. Quando dizem às três a entrevista, às duas e cinquenta e nove está tudo pronto e tens que estar já pronto e não começam antes, deixam o relógio bater as três e aí é que começa mesmo. Adoro isso.

Foram os três para a Turquia?
Elas infelizmente ainda não tiveram a oportunidade de ir porque eu fui, cheguei a acordo, assinei, fui treinar e lesionei-me. Fiz uma ruptura de ligamentos no joelho esquerdo. Ou seja, eu fui para a Turquia e elas foram para a Sérvia, para passar lá uma semana ou duas com a família da Nina, e depois vinham ter comigo à Turquia, mas nem deu tempo. Eu lesionei-me e voltamos todos a Portugal, fiquei cá a recuperar.

Vai continuar na Turquia?
Sim. Vou ficar mais uns tempos aqui, porque ainda estou com quatro meses de recuperação. Diziam que seriam nove meses de recuperação, mas eu vou voltar com quatro meses e meio, nada mau.

A Nina e a Bianca vão consigo?
Vão. Há pouco falou-nos dos seus negócios.

Como e quando surgem?
Temos de preparar o futuro e eu investi no ramo imobiliário, criei uma empresa de construção e remodelação, HV Building, e tenho também uma agência de viagens, a Best Trip.

Está a gostar de ser empresário?
Muito. É uma responsabilidade muito grande e anda aí muita gente a mentir em coisas tão sérias. Porque a maioria das pessoas só pode ter uma casa na vida e é uma grande responsabilidade dar a casa de sonhos ao cliente. Felizmente, as pessoas têm confiado muito em mim e eu tento retribuir da melhor forma. Já fizemos umas remodelações importantes, e neste momento estou a construir do zero 10 vivendas. Quatro em Barcelos e seis na Póvoa.
O futuro depois de pendurar as botas vai passar por aí, longe do futebol?
Não sei. Não penso muito nisso. Quero estar ligado ao futebol sempre, mas claro que vou ter os meus negócios, já tenho.

Vê-se como treinador, como empresário?
Mais como empresário ou como presidente de algum clube. Vamos ver.

Alguma vez foi chamado à Selecção?
À Selecção A, nunca.

Ainda tem esperança de lá ir?
Não tenho esperança, porque isso é algo que não posso controlar. Se dependesse de mim ou se não fosse como é, eu já tinha lá ido há muito. Só que eu apareci no futebol sozinho, sempre conquistei tudo sozinho e toda a gente sabe que eu já merecia ter ido há muito tempo.

Por que razão não foi, tem ideia?
Não sei. Ganhei tudo o que tinha para ganhar, prémios colectivos e individuais, especialmente no ano da Sérvia, quando se falava que tínhamos uma crise muito grande de avançados e não me chamaram. Mas, pronto. Sinceramente não estou preocupado com isso. Estou preocupado é com aquilo que posso controlar que é jogar bem e marcar mais de 20 golos este ano, como tem sido nos últimos cinco anos e é isso que vou fazer com toda a certeza.

É crente?
Sim, sou muito. Acredito muito que existe algo para lá desta vida.

Tem superstições?
Sim, às vezes. Não é bem superstição, é ajudar o próximo por exemplo. Acho que isso me trás sorte, pelo menos faz-me sentir muito bem, que é o que importa.

Com certeza que ficou com muitas recordações da Edina. Houve alguma coisa dela que fizesse questão de ficar para si?
Não. Fiquei com as memórias e com alguns objectos pessoais. Normalmente beijo a tatuagem que tenho no braço e que representa as nossas mãos e as alianças. Fiz depois dela falecer.

De todos, qual foi o melhor treinador que teve e o pior?
O melhor foi o Rui Quinta. Está muito à frente dos outros, é muito forte a ver o jogo, os erros tácticos, os jogadores. É de longe o melhor treinador que apanhei. Do que gostei menos foi o último treinador que tive no Japão porque vê-se bem que nunca jogou à bola. Tínhamos em média uma hora de treino e três de palestra, por isso dá para ver que nunca jogou à bola. Não é por acaso que ninguém gostava dele. Também foi um dos motivos pelos quais saí. Quero jogar à bola, mas também quero ter um mínimo de tempo para a minha família e não tenho de estar fechado numa sala durante três horas a ouvir alguém falar coisas que não são verdade. Enfim, treinadores, é muito complicado também. 

Qual o seu clube de sonho onde gostava de ter jogado ou ainda vir a jogar?
Não tenho assim nenhum clube de sonho. Claro que gostava do Real Madrid, mas agora está difícil porque já tenho 31 anos. Mas a Premier League para mim é o melhor campeonato do mundo.

Vai acompanhando o futebol português?
Sim, tento acompanhar e deixa-me muito triste ver a qualidade de ano para ano a regredir. Custa-me muito ver um campeonato com tão pouca qualidade. Não é tão pouca qualidade, tem qualidade, mas se formos a ver as estrelas do meu tempo e as de hoje, não tem comparação possível. Mas, pronto, é um bom campeonato para te mostrares e para ires para outros campeonatos, apesar de depois não jogares tanto e não seres tão visto.

Acha que piorou assim tanto?
Sim, piorou muito e não é por acaso que até a Rússia nos passou e agora até o Porto vai ter de jogar a pré-eliminatória para entrar na Liga dos Campeões. Acho que só não vê quem não quer: ou mudamos isto e começamos a encarar como um desporto e não como um negócio, ou então isto vai piorar cada vez mais.

Isso acontece um bocado por todo o mundo, o ser um negócio. Porque é que acha que está pior em Portugal?
Não é em todo o mundo. É um negócio sim, só que na Premier League só joga quem tem qualidade e não quem convém jogar e não há tantos problemas com o VAR.

Considera que o VAR não veio ajudar?
Só veio confirmar, constatar factos. Coincidência ou não, os grandes é que são os mais favorecidos e só eles é que ouvimos a falar dos árbitros. Isso só acontece em Portugal. Em Inglaterra, isso não acontece, em Espanha também não, no Japão também não, mas na Turquia isso também acontece (risos). É só em países, lá está, em que o futebol é mais um negócio do que um desporto.

No futuro está a pensar viver em Portugal?
Ando um bocadinho pelo mundo, mas o meu cantinho vai ser sempre em Portugal. É aqui que me sinto em casa. 

Para si quem é o melhor jogador de todos os tempos até hoje?
Ronaldinho Gaúcho.

Continua a ser, mais do que Messi e Ronaldo?
Sim. Para mim vai ser sempre o melhor. Claro que o Cristiano é incrível, é o melhor português, mas do mundo para mim é o Ronaldinho. Ele fazia aquilo que ninguém faz, nem nunca ninguém vai fazer. Era algo inacreditável.

Qual é a sua maior qualidade? A sua mais valia enquanto jogador?
A minha personalidade. Hoje tenho o que tenho e sou o que sou pela mentalidade forte. Existem milhares de pessoas com mais qualidades do que eu, só que a cabeça é que manda, a cabeça é que faz toda a diferença.

Conte-nos mais uma história para terminar.
Sempre que digo que vou marcar um golo, eu marco, é incrível (risos). No meu ano de estreia no Gil Vicente, contra o Benfica, o João Coutinho, que tinha ido jogar para o Chaves, ligou-me e eu disse-lhe: “podes ter a certeza absoluta de que vou marcar golo”. Parece que ele apostou lá no balneário do Chaves: “aposto com quem quiser que o Hugo vai marcar golo”. E eles: “o quê? O Gil acabou de subir, o Benfica vai cilindrá-los”. Na altura a equipa era o Salvio, o Cardozo, o Aimar, o Gaitan, o Saviola, o Matic, Witsel, era só essa equipa. Ele insistiu: “está bem, quem quiser apostar, eu aposto. Nem que percam 10-1, o Hugo disse que vai marcar, por isso vai marcar com toda a certeza.” E curiosamente fiz o golo, fiz o 2-1, depois acabámos por empatar 2- 2 e fazer uma grande surpresa. E ele ganhou as apostas (risos). Lembrei-me de outra.

Força.
Eu sou um jogador com uma confiança fora do normal. Tenho histórias de quando era miúdo, em que a humildade e eu não nos dávamos muito bem. O Paulo Alves contou esta noutro dia. Estávamos na II liga e no dia em que joguei contra o Porto do André Villas Boas, que tinha o Hulk, o Falcão, etc., para a Taça da Liga, de manhã meti no Facebook : “ótimo dia para marcar dois golos”. Quando chego lá para almoçar, antes do jogo, o mister disse-me: “puseste isto no Facebook. Apaga isso, és maluco, vais jogar contra o Porto.” Eu lá apaguei. Empatámos 2-2, foi o único título que o Porto não ganhou porque empatou connosco e eu marquei os dois golos (risos). Ele ainda hoje fala disso. E outra coisa: ele dava a equipa, e eu nos primeiros tempos com ele não jogava muito, ia para o banco. Ele dava a equipa, ia ter com ele: “então mister hoje não é para ganhar? Não quer ganhar?”; e ele: “o quê? Claro que que quero ganhar. Porque é que dizes isso?”. “Então, não vou jogar, meteu-me no banco” (risos). Os meus companheiros riam e gozavam comigo. Eles gozavam antes e eu gozava depois do jogo, quando dizia que marcava e marcava."

Benfiquismo (MCCXXX)

Encosta...

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Impossível substituir legado de Jonas

"Sempre que algum avançado do Benfica falhar um golo irá ouvir-se na bancada: «Com Jonas esta estava lá dentro»

Quarta-feira passada, no jogo frente ao Anderlecht, os benfiquistas viveram um momento de saudade. Cinco anos antes, no final de uma pré-época muito fraca, chegou Jonas como a última contratação. Há factos simples que mudam o curso da história, a contratação de Jonas, naquela altura, mudou a nossa história dos últimos cinco anos. Quatro vezes campeão nacional, muitos outros títulos, golos e e alegrias depois, Jonas deixa um legado de qualidade e magia difíceis de esquecer e impossíveis de substituir.
Será, agora, inevitável sempre que um avançado do Benfica falhar um golo ouvir-se na bancada «com o Jonas esta estava lá dentro». Jonas ganhou o direito a pertencer aos inesquecíveis da história do Benfica.
O treino contra os belgas do Anderlecht deixou notas positivas e começou a ajudar a definir alguns dispensáveis, embora nesta fase da temporada tudo seja demasiado precoce. Só Bruno Lage, que com eles treina todos os dias, poderá ter a noção exacta da qualidade e das necessidades. Veremos mais amanhã contra a Académica.
O sorteio da passada sexta-feira lançou as bases do nosso caderno de encargos rumo ao 38. Aquilo que o Benfica deve fazer é ignorar por completo duas coisas: a sua hipotética vantagem ou favoritismo e a suposta crise ou fragilidade dos seus principais adversários.
É óptimo para o Benfica ser campeão em titulo, é óptimo ser o clube que mais títulos venceu, é óptimo ter uma base da equipa que transita da última época mas tudo isso não nos dá sequer um ponto de vantagem. Partimos todos com zero pontos e não serão as vitórias do passado que asseguram nenhuma vantagem competitiva.
O discurso Calimero, à volta dos nossos adversários é um logro no qual não poderemos cair. O Sporting vai aparecer forte e o FC Porto muito forte desde o início do campeonato. Pensar ou agir com base noutras premissas era cometer um erro de principiante e dar vantagem aos adversários que merecem respeito e inspiram cuidado.
Quis o calendário que pudéssemos começar na Luz num encontro entre os campeões da primeira e da segunda Liga e que terminássemos também no nosso estádio contra o eterno rival. Quer o calendário assim, nós benfiquistas nesse dia de Maio a conquista do 38."

Sílvio Cervan, in A Bola

Nuno Tavares e Tiago Dantas 2024

Duas renovações atempadas, de dois jovens que estão a dar os primeiros passos no plantel principal...
Se o Nuno Tavares tem praticamente lugar assegurado, o Dantas apesar da sua qualidade, ainda tenho algumas dúvidas se ficará no plantel... O 442 não o 'ajuda', tem 'treinado' como 'meia'-direita, no lugar do Pizzi, e creio que neste esquema será o seu lugar, mas...

Sucesso continuado

"Há um conto de Le Clézio sobre um menino-prodígio que começara a aprender aos 2 anos e, aos 12, já desafiava as mentes mais brilhantes com as suas concepções filosóficas. Certo dia sentou-se à janela aparentemente a olhar para o vazio e, passada uma semana, decidiu-se a explorar o jardim infantil, tanto observara. A história torna-se interessante quando Le Clézio, ao invés de derivar pela banalidade do menino que só desejava ser criança, nos mostrou antes um Martin fascinado com os movimentos da areia enquanto escavava e os bichos que nela habituavam. As outras crianças, incapazes de o compreenderem, atacaram-no violentamente, e Martin, apesar de frustrado e irritado enquanto era incomodado, permaneceu absorto nas suas actividades após as outras crianças partirem.
Talvez o defeito seja meu, mas identifico nesta história uma boa analogia para o percurso benfiquista no futebol português ao longo dos últimos anos. O tetra expôs a superioridade benfiquista em diversos domínios. Incapazes de compreenderem o sucesso benfiquista, os nossos adversários enveredaram por ataques inconcebíveis recorrendo a acusações sem fundamento e invariavelmente difamatórias. Não ajudou à nossa causa que nos tenhamos apercebido claramente da nossa superioridade e, tudo somado, resultou num estado de torpor que demorámos a abandonar, embora a tempo da ambicionada 'reconquista'.
A lição a retirar é simples: o sucesso é consequência de um conjunto de boas práticas, as quais requerem renovação ou reciclagem constantes e atempadas. Paralelamente, nunca poderemos deixar-nos condicionar pelas investidas adversárias. Assim estaremos sempre mais próximos dos triunfos."

João Tomaz, in O Benfica

É a sina deles

"Não há realidade mais observada ao microscópio do que a do Sport Lisboa e Benfica. Não adianta fazer comparações, nem mesmo com os outros grandes da Europa. Nem Real, nem Barcelona, nem Manchester ou Bayern têm a sua vida exposta, analisada, difamada e empolada como o Glorioso tem. Além das dezenas de jogadores que são sempre apontados à equipa principal de futebol, tudo o que diz respeito ao maior clube português é motivo de análise, de intermináveis programas de debate, de horas e mais horas de comentários pouco preparados. Nome do estádio, receitas televisivas, vendas astronómicas e até uma possível modificação no emblema, tudo serve para criar ruído. Não tenho medo de questionar nem de ser questionado, a única coisa que receio é a estupidez humana. E nesse campo, há sempre muito a temer.
Do comentador que se baba de raiva (qual marido enganado) ao potencial candidato à liderança (que só sai da toca quando aparecem nuvens no céu), do director de jornal desportivo (que se deita todas as noites a pensar no Benfica) ao presidente de clube (que não consegue esconder o 'defunto' que antes ocupava o seu lugar), todos têm necessidade de opinar sobre o estado do Sport Lisboa e Benfica. Se há uma venda por 126 milhões de euros, questiona-se. Se um reforço conduz um carro azul, refere-se o caso, como se este clube fosse uma qualquer agremiação desportiva a viver do passado. O Benfica é a referência, o denominador de todas as conversas em volta do desporto que são obrigados a opinar não sabem o que fazer. Se não falarem do Benfica, ninguém os conhece; se só falarem das suas equipas, ninguém os ouve. Triste sina esta, a de viver eternamente à sombra de um gigante e procurar, em vão, pés de barro que possam ser atacados."

Ricardo Santos, in O Benfica

Jonas, a Lenda

"Lenda, indivíduo conhecido por muitos, admirado pelos seus feitos, talento ou desempenho em determinada área; conforme se vão popularizando, as lendas tendem a ser reproduzido, as lendas tendem a ser reproduzidas e registadas em forma de contos e histórias escritas; ser humano capaz de ver um objecto esférico a cair dos céus no relvado do Bessa e desferir um golpe com o pior pé, empurrando-o com ternura para o fundo das redes. Deixem-me só fazer uma pausa para fechar os olhos e recordar mais uma vez aquele momento.
O Jonas acabou a carreira. O Jonas. O Pistolas. O craque. O 'cara'. Haverá alguma forma de dar esta notícia sem ferir a alma? A minha está destroçada como os defesas que com ele se cruzaram. Procurei um médico mas nenhum dos remédios sugeridos me pareceu capaz de me devolver o entusiasmo pela vida. Até porque nos momentos de maior aflição, normalmente era o Jonas quem me socorria. O 3-2 ao Moreirense a 4 minutos dos 90. O 2-1 ao Rio Ave aos 81'. O golo ao Zenit no último suspiro. O milagre no Bessa. Foram cinco temporadas, 183 jogos e 137 golos. Nove troféus, quatro campeonatos. Múltiplas obras de arte através de golos, assistências e recepções de bolas bombeadas a 325 Km de altura. Dribles pelo meio de três adversários ou por cima deles. Futebol no estado mais puro. Celebrações agarrado aos colegas, aos treinadores, aos benfiquistas e à cerveja a caminho no Marquês. Custa aceitar.
Boa parte da minha felicidade nos últimos cinco anos é da responsabilidade deste homem: o melhor de todos aqueles que já vi envergarem o manto sagrado. As saudades já apertam. O Pistolas ficou sem balas, mas jamais esqueceremos aqueles tiros. Continuem lá com a vossa vida que eu vou para o sótão encostar-me num canto a chorar."

Pedro Soares, in O Benfica

'Boa imprensa'

"A enorme popularidade do nosso clube faz com que jornais e televisões lhe dediquem mais espaço e mais tempo do que aos outros. Isso para nós é bom ou mau conforme os momentos de sucesso ou insucesso, mas a verdade é que falam sempre mais do Benfica, pois é à custa dele que vendem papel e garantem audiências.
Os nossos rivais não querem compreender, atribuindo essa realidade a qualquer estratégia subterrânea arquitectada nos gabinetes da Luz visando beneficiar-nos, quando muitas vezes somos nós as primeiras vítimas.
Isto vem a propósito dos 12 milhões de João Félix, e da aparente dificuldade dos vizinhos da 2.ª Circular em vender Bruno Fernandes pelo valor que entendem justo - e que talvez não corresponda à realidade do mercado. Com o estômago a azedar, queixam-se, então, da nossa 'boa imprensa'.
Bruno Fernandes é, obviamente, um excelente jogador. Mas se a comparação com João Félix é absurda tendo em conta a idade de um e de outro - onde estará Félix aos 25 anos? -, já com Rafa, por exemplo, poderíamos estabelecer um paralelismo legítimo: ambos jogadores feitos, ambos goleadores, nenhum deles ponta-de-lança.
Ora, Fernandes marcou 20 golos no campeonato (6 dos quais de penálti). Rafa, que não converteu grandes penalidades, terminou com 17. Ou seja, penáltis à parte, mais três do que o médio ofensivo sportinguista.
Os golos não são tudo, mas, enquanto se fala tanto de João Félix, a mim quer-me parecer que Bruno Fernandes, ele, sim, tem bastante 'boa imprensa' (e boa Liga...) face a alguns jogadores do Benfica.
Se, como dizem, vale 60 ou 70 milhões de euros, então quanto valerá um Rafa?"

Luís Fialho, in O Benfica

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Caro Jonas

"Obrigado por tudo o que deu ao Sport Lisboa e Benfica! Obrigado por ter jogado muitas vezes em grande sacrifício! Obrigado pelos quatro Campeonatos e pelos 76 golos marcados! Obrigado pelas duas Supertaças! Obrigado pelas duas Taças da Liga em que batemos o Marítimo! Obrigado pela Taça de Portugal que nos ajudou a ganhar frente ao V. Guimarães, em 2016/17. Obrigado pelos 137 golos em jogos oficiais.
Obrigado pelos verdadeiros recitais que deu! Obrigado por ter ajudado a renascer o Benfica europeu, permitindo-nos disputar, nas últimas cinco temporadas, a fase de grupos da Liga dos Campeões! Obrigado pela forma como pôs sempre os interesses da equipa à frente dos seus próprios interesses! Obrigado por nos ter feito sonhar que é possível lutar por missões impossíveis! Obrigado pelo seu fair-play! Obrigado pela sua dedicação total! Obrigado por constituir um exemplo para os mais novos!
Obrigado por ter inspirado Gonçalo Guedes! Obrigado por ter ajudado Renato Sanches! Obrigado por ter confiado em Nélson Semedo! Obrigado pelo incentivo que deu a Ederson! Obrigado por nunca ter duvidado do valor de Lindelof! Obrigado por apoiar Talisca! Obrigado pelo inventivo que deu a Rúben Dias! Obrigado por tudo o que fez por Ferro! Obrigado pelo carinho com que recebeu e a forma como estimulou Florentino Luís! Obrigado pela moral que sempre deu a João Félix! Obrigado  pelos bons conselhos a Jota! Obrigado por ter ajudado Seferovic! Obrigado pela forma como acolheu e confiou em Bruno Lage!
E obrigado por aceitar ser embaixador do SL Benfica!"

Pedro Guerra, in O Benfica

2 Mundos com a Fundação Benfica pelo meio

"O mundo é redondo e parece simétrico no Google Earth, mas como bem sabemos se clicarmos muito e levarmos o zoom ao máximo a homogeneidade planetária desvanece-se, revelando friamente os contrastes e mostrando um mundo bem áspero em África quando o vemos a partir da beleza do Estádio da Luz e da abundância europeia que, felizmente, caracteriza o nosso país. Só que, o Benfica não se centra em si, mesmo e, como gigante planetário que é, olha para o mundo com a responsabilidade de quem quer fazer alguma coisa para o melhorar. E para isso fez a Fundação e incumbiu-se de não esquecer o lado B do mundo, sobretudo quando passa pelas maiores provocações como foi o caso do povo irmão de Moçambique. Por isso fizemos a campanha 'Alimentos por Moçambique' e fomos à Beira, de armas e bagagens, levar 138 toneladas de alimentos à zona mais afectada, o vale do imenso rio Búzi, onde a água subiu aos telhados e matou como quis...
Não é relato dessa missão que constam estas linhas, mas de uma reflexão que não pode deixar de ser feita em nome das assimetrias do mundo, mesmo para povos que falam a mesma língua e partilham História: Em Portugal a Fundação desenvolve projectos de combate ao absentismo escolar, para tornar atractiva a escola e a educação. Em Moçambique, a escola é ainda um sonho para muitas crianças e jovens nesta zona mais remota onde é difícil prosseguir estudos além da 4.ª, por isso, é na escola que se central as atenções da nossa acção e na insuficiência de recursos pedagógicos e de subsistência, apesar da obra notável das missões e da ONG católica Esmabama, nossas parceiras. Se em Portugal o envelhecimento é o grande desafio devido ao aumento, abençoado, da esperança média de vida, em Moçambique a população jovem passa de 50% mas a vida humana raramente alcança os 50 anos e isto nas zonas urbanas e mais privilegiadas. Em Búzi, está bom de ver, não é assim. A pobreza e as condições de saúde são dois factores primordiais, com um desemprego gigantesco e endémico e indicadores assustadores, por exemplo da prevalência de HIV entre os 30 e os 55 anos que atinge 23%, quase uma em cada 4 pessoas. Aqui, pelo meio destes dois mundos, está a Fundação a trabalhar em simultâneo, porque o Benfica sabe ser!"

Jorge Miranda, in O Benfica

Transparência

"Aqui há um mês, depois da derradeira Assembleia Geral do Sport Lisboa e Benfica, para aprovação do plano de actividades e orçamento relativos a esta época, referi que o presidente Vieira anunciara nessa sessão que antes do início da nova temporada convidaria os autores das ideias 'mais instigantes' levantadas na Assembleia para uma reunião alargada com os profissionais responsáveis dos diversos sectores do Benfica em que os assuntos pudessem ser mais esclarecidos e mais bem tratados. O nosso presidente voltara a ter a percepção de que, para lá de os projectos apresentados pela Direcção com as respectivas projecções de custo-benefício terem voltado a merecer a clara concordância dos sócios, algumas inquietações e diversas boas ideias apenas sumariamente enunciadas nos três minutos das intervenções de alguns presentes deveriam merecer atenção mais dedicada e proactiva por parte da estrutura profissional do Benfica, no sentido do seu aproveitamento e, até, da sua eventual exequibilidade.
Nesse mesmo texto, exprimi a convicção de que tal medida - plena do simbolismo que no Benfica historicamente sempre atribuímos à livre expressão e conjunção das ideias no ambiente da maior transparência - nunca mais deixaria de ser aplicada na sequência das Assembleias Gerais do Clube, como uma nova tradição institucionalizada por Luís Filipe Vieira. E veremos se, como escrevi, não passará, de facto, a suceder sempre assim. Eu diria agora que esta reunião informal de mais de seis horas, realizada no passado sábado no Caixa Futebol Campus - para a qual o presidente convidou os dezoito sócios intervenientes na Assembleia Geral, tendo mandado convocar expressamente, entre outros profissionais, pelo menos cinco directores de primeira linha de estrutura operacional do Benfica -, representou, no presente contexto de generalizado optimismo e confiança em que hoje vivemos, bem mais do que um mero encontro de cortesia, ditado pela personalidade convival do máximo responsável pelo Clube e pelo universo Benfica.
Basta perguntar, comparativamente, em que lugar e em que tempo, já passado ou no presente, qual é, ou qual tenha sido, outra entidade de natureza associativa no campo desportivo, em Portugal, cujos gestores admitem aprofundar deste modo, de olhos nos olhos com os consócios, as incidências das matérias específicas ou as oportunidades de novas soluções, nos seus respectivos campos de actividade.
A resposta é mais do que óbvia: para referirmos metaforicamente apenas os dois casos menos displicentes, num, 'aquilo' até parece um grelhador de carne - quando se julga que tudo corre um pouco melhor, vira-se o espeto, e... a chicha já está outra vez toda queimada; nem o carvão fica para brasa... Mas no outro, pior ainda - aquele que ainda continua a fazer de assador não larga o espeto da mão há quase quarenta anos, sem sequer saber onde é que está o braseiro, há muito tempo... Hoje, no calor da noite, como ele, o próprio talho tem as carnes cada vez mais fracas."

José Nuno Martins, in O Benfica

Grande!

"É pena que Jonas nunca tenha, verdadeiramente, feito a diferença em jogos europeus, porque foi enorme o prazer de o ver jogar em Portugal

O que custa,na despedida de Jonas, não é ver acabar a carreira um jogador com 35 anos, porque os 35 anos é uma idade já bem bonita para se acabar a carreira de futebolista.
O que custa é ver Jonas acabar por já não conseguir suportar os problemas físicos que tem.
O que custa é ver um jogador com talento de Jonas, a classe de Jonas, a qualidade de Jonas, o golo de Jonas, a categoria de Jonas, ter de acabar não pode decidir que está na hora de ir gozar o que fez na carreira, mas porque os problemas físicos decidiram por ele que está na hora de não mais jogar futebol.
O que custa é ver como Jonas teria ainda muito mais espectáculo para nos dar e dar ao campeonato português não fosse o grave problema físico que quase já o impede até de dar uma curta corridinha.
Já tínhamos todos percebido que Jonas não jogaria uma única época mais. Bastou vê-lo chorar como uma criança, não agora, mas na última jornada do campeonato, a meio de Maio, quando Bruno Lage o fez entrar para o lugar de João Félix a pouco mais de 20 minutos do final do jogo com o Santa Clara, que selou o título do Benfica.
Foi naquele exacto momento que Jonas se despediu verdadeiramente do futebol, e ele sabia-o bem, e aquele momento acabou também, curiosamente, por assinalar a despedida do Benfica do muito talentoso jovem João Félix, o que significa que naquele adeus se cruzou, no fundo, o destino de ambos, quando mal sabiam, Jonas e Félix, que teriam afinal muito mais em comum do que poderia, futebolisticamente, parecer.
E se parecia o jovem João Félix, pelo talento, pelo estilo e pelas características, o legítimo sucessor de Jonas, fica o Benfica, afinal, sem Jonas e, ao mesmo tempo, sem Félix, o que, no mínimo, duplica a dor de cabeça de Bruno Lage, porque perde o treinador, de uma assentada, os dois mais inteligentes jogadores que fizeram parte (e tanta diferença fizeram) do plantel do campeão nacional.
Apesar de nunca ter feito, realmente, verdadeiramente diferença na hora dos jogos europeus, a verdade é que Jonas - é de Jonas que devemos falar - fica para a história do Benfica como o segundo melhor marcador estrangeiro de sempre mas também, muito provavelmente, pelos golos que fez e pelo muito que jogou, talvez, e sobretudo, como um dos melhores futebolísticas que vestiram, desde sempre, a camisola da águia. Foi, para os adeptos do clube, mas também, certamente, para os adeptos rivais, um prazer ver Jonas jogar em Portugal.
Ele foi, sem dúvida, um dos grandes!

Foi o Benfica o primeiro dos grandes a apresentar-se aos sócios e adeptos, não certamente como desejaria, porque perdeu com o Anderlecht este primeiro ensaio na abertura do palco para 2019/2020, mas, ainda assim, com muito para mostrar, para reflectir e, seguramente, para trabalhar.
Campeão Nacional e com a expectativa totalmente em alta - quer do ponto de vista desportivo, quer do ponto de vista estrutural e financeiro - deve, porém, o Benfica ter a humildade de reconhecer a pequena e inadequada (diria mesmo inaceitável) imagem dada ao se apresentar num relvado absolutamente inqualificável e amador num estádio com a grandeza do Estádio da Luz.
Faz-me, por outro lado, enorme confusão ver como foi o Benfica capaz de anular, este Verão, a edição da Eusébio Cup, com o suposto argumento de não ter conseguido encontrar adversário à altura, como se o Anderlecht fosse uma equipa sem história, e sem a história que tem com o próprio Benfica (foi com o Anderlecht que o Benfica jogou e perdeu a sua primeira final da Taça UEFA, hoje Liga Europa...).
Não teria podido o Benfica associar o jogo de apresentação à Eusébio Cup para evitar dar a inadequada imagem (para não dizer outra coisa) de não ser capaz de realizar um troféu com o nome do maior símbolo da história encarnada?!

O que mostrou, entretanto, o Benfica nesta sua primeira aparição, esta semana, na Luz? Impossível mostrar muito coesão quando se fazem jogar 30 jogadores, mas acabou por ser possível ver que todos os 30 jogadores quiseram mostrar qualquer coisa.
Mostrou Salvio, por exemplo (como aqui escrevi há muito), que pode o Benfica contar com ele para fazer, e bem, o lugar de lateral direito (tem qualidade, espírito, classe e experiência para isso quando já lhe falta alguma explosão exigida a um extremo); mostrou Seferovic como é, também, e apesar de melhor marcador do último campeonato, dos atacantes que em Portugal mais golos falha, mostrou Chiquinho como vai, muito provavelmente, garantir um lugar no novo plantel de Lage (que Lage quererá, mais coisa menos coisa, creio, apenas com 22 jogadores de campo e três guarda-redes), e mostrou o Benfica ter, em carteira, mais três ou quatro jovens da formação na rampa de lançamento para a 1.ª equipa.
O que é, realmente, impressionante!

Pode dizer-se que o 10 de Julho será, para sempre, uma espécie de o outro dia de Portugal, com todo o respeito pelo 10 de Junho, das nossas comunidades e do insubstituível Camões. O 10 de Julho é o dia da Selecção Nacional, o dia que celebra e celebrará para sempre a inimaginável (a não ser na cabeça de Fernando Santos e seus jogadores) conquista do título de Campeã da Europa de futebol, em 2016, em França. O 10 de Julho de 2016 foi, assim, sobretudo para os da minha geração, o dia que nunca sonhámos viver. Fez, agora, três anos, três anos de uma recordação ímpar, inigualável no sentido em que nunca mais proeza semelhante será vivida com a mesma carga emocional e intensa alegria.
Perguntam-me, muitas vezes, o que mais recordo daquela final com a França em pleno estádio nacional dos gauleses, nos arredores de Paris, que começou com Pogba, ainda no túnel de acesso ao relvado, a dizer antes do jogo aos companheiros que «não sairemos daqui sem a vitória, não sairemos daqui sem a vitória, nem pensar!!!», e acabou nas lágrimas de milhões de portugueses espalhados pelo mundo, a larga maioria dos quais - eu incluído - sem que alguma vez tivesse acreditado na possibilidade de viver um dia assim.
Mas são, na verdade, quatro os momentos que mais recordo daquele jogo final...
... as lágrimas de Cristiano Ronaldo, com a traça pousada no rosto, no momento em que percebeu que não poderia continuar em jogo...
... a impressionante defesa de Rui Patrício, a que posso, e devo, até ao momento, chamar a defesa do século, após aquele tão especial e peculiar remate de cabeça de Griezmann...
... o abençoada remate ao poste direito da baliza de Patrício desferido por Andre-Pierre Gignac - um francês que apareceu no mapa com a mesma velocidade com que desapareceu -, quando o jogo já estava à beirinha do final do tempo regulamentar, na sequência de uma notável e imprevisível jogada do atacante adversário que derrubou, com um só golpe-relâmpago, o central Pepe e guardião Patrício...
... e, por fim, aquela espécie de reencarnação de Eusébio no corpo do persistente, corajoso, determinado, implacável e improvável Éder, o nobre e valente rapaz que tornou real o sonho deste povo e se tornou o orgulho desta nação.
Tão inesquecível, aquele 10 de Julho!...

Prémios da Liga portuguesa de futebol entregues no último fim de semana aos melhores de 2018/2019. Primeira perplexidade: o onze eleito pelos treinadores do campeonato como o melhor do ano não um lateral direito (como é impossível ignorar-se a extraordinária época do benfiquista André Almeida?!) mas tem dois laterais esquerdos (o benfiquista Grimaldo e o portista Alex Telles).
Porquê? Não tiveram os técnicos da Liga suficiente coragem para escolher entre Grimaldo e Alex Telles? Não é inacreditável?!
Segunda perplexidade: nomeado para o prémio de melhor jogador do ano (que distinguiu, e muito bem, o sportinguista Bruno Fernandes) o benfiquista Pizzi (um dos mais decisivos jogadores da equipa campeã nacional) nem teve direito a lugar no melhor onze da temporada.
Faz algum sentido?
Não se credibiliza a indústria com coisas assim, tão discutíveis!"

João Bonzinho, in A Bola

Mais importante do que ganhar...

"Os jogos particulares, que se vão sucedendo um pouco por toda a parte, têm o condão de manter os adeptos animados, aguçando-lhes o apetite para o que virá a seguir, quando o futebol a doer fizer a entrada em campo. É normal, perante expectativas altas - e nesta altura da época todos sonham com o título... - que haja tendência para valorizar os resultados para além do mérito que realmente lhes assiste. A verdade é que  objectivo dos técnicos é testar jogadores, experimentar soluções e treinar automatismos, algo que envolve riscos que desconsideram, e bem, o placard final. Porque, e é bom que quem acompanha o futebol esteja ciente desta realidade, não há campeões no defeso e isto nunca é como começa, é sempre como acaba...
Do que tem sido possível perceber nas entrelinhas dos jogos-treino, torna-se premente, para Marcel Keizer, uma definição quanto a Bruno Fernandes. Uma coisa é formatar uma equipa a contar com o talentoso capitão, outra será preparar um conjunto sem ele, duas realidades demasiado diferentes para não serem consideradas. Já Bruno Lage ainda não terá visto compensadas as baixas de Jonas e João Félix, dois jogadores cujo nome do meio é golo. Num  momento de alguma folga financeira (a UEFA acaba de confirmar que só por participar na fase de grupos da Champions o Benfica vai receber 43 milhões de euros), a palavra de ordem deve ser investimento, para não repetir os erros do ano do penta que não foi. No FC Porto, prevalece o pragmatismo, e só assim se compreende que tenham pago três milhões por Marcano, que saiu do Dragão a custo zero. Entrar na Champions é vital..."

José Manuel Delgado, in A Bola

Já rola a bola

"As equipas profissionais voltaram ao trabalho, surgem os primeiros jogos de preparação e os primeiros resultados trazem a pressão inerente à dimensão das equipas. Para as de maior dimensão tudo se precipita no primeiro jogo, para as de menor dimensão só com o início da competição oficial. Este é o momento de criar as condições para se atingir o sucesso. Claro que este é relativo, em função dos objectivos desses mesmos clubes. Para uns só ganhar a competição significa sucesso, para outros a manutenção é um enorme feito. Os campeonatos têm concorrentes com objectivos diferentes, sendo que quanto mais próximo seja o nível competitivo desses participantes mais possibilidades essa competição tem de sucesso.
Este momento é também um espaço para novidades, nomeadamente para o surgimento de jovem jogadores. Com tudo o que isto tem de bom, mas também de risco para a equipa e jovens jogadores. Torna-se menos complicado dar essa oportunidade a jovens nos clubes de menor dimensão, não há uma coberta mediática intensa, a acção dos jogadores não é salientada com tanto destaque. Por vezes em comentário, apenas factual, sem qualquer segunda intenção, pode ajudar a cimentar a posição de um jovem jogador, como o pode prejudicar de forma grave. O nível de exigência na elite não permite falhas, o cuidado com o crescimento e desenvolvimento dos jogadores exige uma protecção constante. Não basta ter potencial, é necessário que toda uma estrutura ajude a um bom enquadramento do novo elemento. É muito diferente ter oportunidade com os melhores ou com uma segunda linha.
A propósito de cuidados e precauções, os calendários, e respectivos sorteios, devem ser consideradas ferramentas para proteger competição e concorrentes. Pensar que no quadro europeu actual não devemos os que nos representam internacionalmente, significa, quanto a mim, não utilizar esta ferramenta da forma mais eficaz."

José Couceiro, in A Bola

Do que é que estamos à espera?

"Em Agosto o Benfica joga contra o Sporting na Supertaça, em casa do Belenenses (que não ganhámos uma vez na época passada), recebemos o Porto e ainda vamos a Braga. No entanto, passaram-se dois meses desde do fim do Campeonato e o plantel parece menos bom do que o plantel da época passada. De que é que estamos à espera?
O Benfica entrou no mercado de verão a precisar de arranjar competição para Vlachodimos, resolver o excesso de extremos e a precisar de um ponta de lança. O que tivemos desde então foi mais um extremo, um jogador versátil que pode fazer uma série de posições (Chiquinho), a reforma do Jonas, a contratação de RDT para o seu lugar e a venda do João Félix. Cádiz ainda ninguém percebeu o que é.
Estamos a três semanas da Supertaça e os treinos continuam a parecer captações, quando já todos sabemos quais os jogadores que não se encaixam neste modelo de jogo. Passou-se uma semana desde da venda milionária de João Félix, em dinheiro, e ainda não fomos capazes de o substituir. A questão do guarda-redes já se arrasta há dois meses.
Salvio é uma lenda do Benfica. Fejsa é outra lenda do Benfica. Cervi foi um jogador interessante. Mas não faz sentido Bruno Lage dizer na entrevista que não quer ter mais de duas opções para o mesmo lugar e depois continuarmos a ter estes três jogadores no plantel (quatro quando Zivkovic se juntar). O Benfica tem neste momento em estágio quase 10 jogadores que podem fazer as duas posições nas alas. Se só jogam dois, para quê ter 10? Já Fejsa, é um jogador que não consegue jogar de costas para a baliza. Sempre que lhe passarem a bola, o risco de sofrer um golo em contra-ataque é grande. Isto nem para os próprios jogadores é bom.
O Benfica fez 200M em vendas. 120M, pelo menos, em dinheiro vivo, pagos na hora. É impossível que em Março ou Abril quando começaram a finalizar o desenho do plantel desta época que não tivessem lá uma lista de jogadores para ir buscar caso João Félix saísse. Impossível. Ainda assim, já passou uma semana desde da venda, estamos a três semanas da Supertaça e ainda não há nenhum jogador no radar. Será que estamos à espera de perder a Supertaça para ir buscar alguém? Parece que vamos apostar em Jota ou Chiquinho para aquela posição. São dois óptimos jogadores, mas não poderíamos ir buscar alguém com créditos mais firmados? LFV há dois meses estava a falar de um título europeu. Acabámos de receber 120M em dinheiro, já tínhamos feito 80M em vendas antes e vamos gastar pouco mais de 10% a reforçar o plantel. Não faz sentido nenhum.
Na baliza está a questão mais incompreensível. Já se passaram dois meses e não conseguimos nada. Estamos a segurar Svilar na pré-época porque devemos querer garantir que ele não tenha minutos na equipa onde vai ser emprestado porque não lutou pelo lugar lá durante a pré-época. Jasper Cillessen era o plano A quando aparentemente nunca quis sair de um grande campeonato, Keylor Navas era o plano B quando aparentemente nunca quis abdicar de dinheiro e pelos vistos não havia plano C. Por sorte Buffon voltou para Juventus e parece que um tal Mattia Perin está insatisfeito. Eu não acredito que isto seja possível, mas daquilo que saiu nas notícias parece que o Benfica só tinha dois jogadores na lista de opções e que esses dois jogadores nunca estiveram interessados em vir para cá. É difícil de acreditar de tão mau que é.
Entretanto, a três semanas da Supertaça, o Sporting tem o grosso dos reforços contratados. Estão a segurar Bruno Fernandes para ser só vendido depois da Supertaça. É verdade que perderam com uma equipa da 3º Divisão da Suíça, mas estão já a preparar-se para utilizar os novos jogadores e vão estar mais fortes do que na época passada. Já nós, estamos a ver se garantimos que ganhamos a Supertaça a gastar o mínimo possível a reforçar o plantel.
Este início de época é muito complicado. São quatro jogos de nível muito elevado. Podemos ganhar uma vantagem significativa bem cedo na época. Mas estamos a ver se podemos fazer como em 2017, onde Varela, Douglas e Gabriel Barbosa foram contratados para substituir Ederson, Nelson Semedo e Mitroglou porque quisemos gastar o mínimo possível a reforçar o plantel. Foi um resultado brilhante que isso deu. Lembram-se?
E nem vou falar da colecção de trambolhos que temos na equipa B para jogar a ponta de lança."

Jonas

"Jonas vai pendurar a botas. Foi o próprio que oficializou tudo hoje ao final na tarde, endereçando um convite a todos os benfiquistas para o jogo de amanhã diante do Anderlecht. É a despedida daquele que foi o melhor jogador a actuar em Portugal nesta década.
Foram 183 jogos e 137 golos que se traduziram em 4 Ligas Portuguesas, 1 Taça de Portugal, 2 Taças da Liga, 2 Supertaças, 2 Botas de Pratas, 2 vezes eleito melhor jogador da temporada e 5 vezes eleito melhor jogador do mês. Números surreais para o Benfica neste milénio antes de Jonas chegar. Foi a estocada final na mudança do rumo do Benfica. A partir do Jonas voltámos a ser um clube que vence com regularidade.
Amanhã façam parte da festa de despedida do Jonas. Não importa se a mulher faz anos, se há reunião até às 20h00 ou se já não vão ao ginásio há uma semana. Amanhã é a despedida de uma lenda do Benfica.
As memórias vão ficar para sempre na cabeça de todos os Benfiquistas. Obrigado por tudo Jonas Pistolas!
Aquele golo no Bessa em 2016…."

RDT

"Foi apresentado na semana passada aquele que deverá ser o grande reforço da temporada. Raul de Tomas é um avançado que chega do Real Madrid por 20.000.000€. Esteve à volta de 10 anos na formação do Real Madrid. Quando chegou a senior passou dois anos na equipa B dos merengues até que começou uma série de empréstimos. Primeiro o Córdoba, da 2º Divisão Espanhola, onde fez 27 jogos e 6 golos, depois o Valladolid, da mesma divisão, onde fez 39 jogos e 15 golos e por último duas temporadas no Rayo Vallecano, na La Liga, onde fez 66 jogos e 38 golos. Chega agora ao Benfica onde irá lutar pelo lugar no 11 inicial com Haris Seferovic.
Raul de Tomas não é um avançado tão físico como Seferovic, é um outro estilo de jogador. É mais móvel, na medida que pode receber e criar o seu espaço ou a sua oportunidade, como fez num golo contra o Barcelona em Março. Tem muito sentido de oportunidade. A nível de finalização, sim, é parecido com Seferovic, dado que consegue finalizar com ambos os pés e de cabeça - levou-me algum tempo até perceber que era destro. Vejam o jogo que faz contra o Celta de Vigo, onde marca um golo de livre de pé direito e um golaço de pé esquerdo. O que não sabemos ao certo é como é que é o comportamento defensivo do espanhol, visto que no Rayo Vallecano o que lhe era pedido é muito diferente do que irão pedir agora.
Na última temporada “só” marcou 14 golos, mas tem tudo para marcar 20-30 golos no Benfica por temporada. O Rayo Vallecano era uma equipa com muitas dificuldades ofensivas, a maior parte dos remates do clube são de fora da área e descaídos para uma ala. Enquanto no Benfica é precisamente o oposto, a maior parte dos remates dos remates do são dentro da área e em zona frontal à baliza. No Benfica, Raul de Tomas vai ser servido com outra qualidade e terá tudo para ser um ponta de lança de proporções épicas. Mas não esquecer Haris Seferovic, que também lhe dará muita luta na titularidade e que quase que aposto deverá ser o ponta de lança titular na Supertaça.
Seferovic e RDT podem jogar juntos, mas creio que não seja o ideal, principalmente nos jogos grandes, porque o meio campo perde algumas opções para aquilo que João Félix fazia, tal como foi evidente quando Jonas e Seferovic jogaram juntos. Acho que numa versão inicial (até chegar o outro avançado que tem sido falado), o Benfica vai acabar por jogar com Rafa no lugar de Félix acompanhado por Seferovic ou Raul de Tomas, Pizzi na direita e eventualmente Jota ou um argentino na esquerda. Certo é que com RDT ganhamos mais profundidade no ataque, que era algo fundamental. Podemos agora jogar com um ao fim de semana e outro na Champions League, sem ter que andar com poupanças arriscadas. Boa contratação."

Cadomblé do Vata

"1. A pior derrota dos últimos 10 anos... perdemos o Jonas.
2. Mês e meio a salivar por um jogo do SLB e quando ele chega, é a despedida do Jonas... é como passar o Inverno a sonhar com praia e no primeiro dia com 30 graus, está bandeira vermelha.
3. Shéu despediu-se dando lugar ao Mariano, Preud'homme saiu e entrou Bossio e Chalana substituiu Rui Costa por Bynia... é tão reconfortante ver Jonas dar lugar ao Tiago Dantas.
4. Estrutura profissional é isto... prepara-se a final da Supertaça na espécie de relvado do Estádio do Algarve, com um particular num batatal.
5. Raúl vamos lá a ver aqui uma coisa... essa treta de RDT funciona em clubes como o Valladolid ou Rayo Vallecano... isto aqui é o Benfica, vê lá se te orientas homem."

SL Benfica - RSC Anderlecht

"Primeiro jogo da época para o Benfica. Quinto para o Anderlecht. Vê-se que as ideias do Benfica não são muito diferentes do ano passado. Jogámos sempre em 4-4-2, com alguma pressão, muitas desmarcações. Acabámos por perder 1-2. Mas não foi um mau teste. Fica a ideia que se jogassemos com os 11 titulares todos juntos, o resultado seria diferente. Mas Bruno Lage quis mostrar todos os jogadores aos adeptos e acabou por utilizar 30 jogadores. Umas notas sobre o jogo.
1. Jonas. Foi o dia da sua despedida. Não fez o gosto ao pé e notou-se porque é que se vai reformar. Fisicamente já não está na melhor fase. É um craque. Obrigado por tudo.
2. Gabriel, Samaris, Rafa e Pizzi. Quatro peças base do título do ano passado que estiveram todos bem. A três semanas do início de época, os sinais são os melhores possíveis. Parece que nem foram de férias.
3. Alex Grimaldo. O Anderlecht teve três oportunidades de golo. Duas deles foram de um miúdo de 17 anos a passar pelo Grimaldo como se fosse um pino. Foi claramente de férias. Em três semanas ainda vai melhorar
4. Nuno Tavares. Das caras novas foi um dos que esteve em maior destaque. Fisicamente é muito forte. Dá muita profundidade. Numa das subidas fez a assistência.
5. Jota. Jogou atrás do ponta de lança (Cádiz). Gostei bastante. Parece estar com uma nova motivação. Esta pode ser a sua época. O passe para Nuno Tavares que culminou com o golo foi muito bom.
6. Chiquinho. Mexido e atrevido. Tem tudo para ser um grande reforço. Marcou um golo, sofreu um penalty claro. Gostei.
7. Caio Lucas. Criou a melhor oportunidade da primeira parte. Acho que ainda está longe da melhor forma. Daquilo que vi no Mundial de Clubes é um jogador muito rápido e isso não se notou.
8. RDT. Não teve muita bola, mas sempre que deu, tentou o golo. Ia marcando numa jogada onde o guarda-redes do Anderlecht estava adiantado. Só quando jogar com Rafa e Pizzi a servi-lo é que podemos fazer uma análise justa.
9. Jhonder Cádiz. Lesionou-se numa das primeiras vezes que tocou na bola.
10. Tiago Dantas. Jogar na ala não o beneficiou. Tem talento. Mas as oportunidades não apareceram. 
11. David Tavares. Não sou grande fã desta ideia de Bruno Lage de colocar médios centros na ala e extremos no meio. Melhorou bastante quando saiu da ala esquerda para o meio campo.
12. Nuno Santos, Pedro Álvaro e João Ferreira. Certinhos. Tiveram pouco tempo em campo. Mas estiveram certinhos.
14. Ivan Zlobin. Dois remates à baliza, dois golos. Podemos sempre dizer que não tinha hipóteses em ambas as bolas, mas a verdade é que não fez uma defesa.
15. Jardel. Dois bons cortes a cobrir o Grimaldo. O resultado ao intervalo poderia ter sido pior se não fosse Jardel.
16. Fejsa. Defensivamente a qualidade está lá. Ofensivamente, não sabe jogar nesta posição. Sempre que recebe a bola de costas para a baliza, treme que nem varas verdes. Acho que deveria procurar um projecto diferente.
17. Salvio. Jogou a lateral direito e não esteve nada mal. Defensivamente cumpriu e deu sempre muita profundidade. Sábado o jogo já será diferente. Já não vamos querer mostrar 30 jogadores e vamos querer jogar futebol. Aí as avaliações já vão ser mais justas."

Treino desportivo precoce e seus riscos

"As crianças envolvem-se em desportos de competição em fases cada vez mais precoces do seu desenvolvimento. O treino inconvenientemente orientado pode interferir de forma negativa no curso normal do crescimento e maturação. Apesar das investigações mais recentes evidenciarem uma grande resistência dos jovens às agressões do treino, algumas precauções devem ser levadas em linha de conta.
Uma das tarefas mais importantes do treinador de crianças e jovens é o da motivação para a prática desportiva, promovendo a auto-confiança, a disciplina e a cultura desportiva, para além de uma correcta orientação do ensino das técnicas e desenvolvimento das qualidades físicas, de acordo com a idade e especificidades das diferentes modalidades desportivas.
Ao contrário do que se possa pensar, está hoje provado que o próprio processo de crescimento e maturação do jovem predispõe a lesões de sobrecarga. Os músculos, tendões e ossos das crianças e adolescentes obedecem a fases de crescimento não forçosamente coincidentes, com naturais implicações no processo de treino. O treino, por seu turno, deverá ser concebido de acordo com esta evidência morfo-funcional.
É fundamental compreender e conhecer as diferentes etapas do desenvolvimento do atleta em “construção”. Na realidade, o sucesso desportivo não é uma ocorrência ditada pelo destino. É, antes de tudo, um percurso a ser trilhado. O sucesso concretiza-se no momento em que o jovem assume uma atitude ganhadora, motivada pelo estabelecimento de objectivos e pela correta selecção dos meios e métodos para a obtenção desse sucesso. Para tal, assumem o treinador e a família um papel determinante.

Regras
O atleta jovem pode seguir um regime exigente de treino se a sua segurança for garantida e o seu desempenho cuidadosamente controlado. Neste âmbito podem ser enunciadas as seguintes regras:
1. O envolvimento de crianças e jovens em actividades desportivas competitivas devem derivar da sua vontade em participar, da alegria e prazer que retiram dessa prática e nunca para preencher objectivos mais ou menos obscuros decorrentes da vontade da família ou do treinador. Deverão ser orientados e não obrigados.
2. No sentido de se optimizar o treino e prevenir situações indesejáveis, nomeadamente as lesões de sobrecarga, deve o treino ser orientado por técnicos competentes e com formação específica.
3. O facto de se ter sido um bom praticante, apesar de útil em diversas vertentes do processo de treino, não é, muito particularmente nesta situação, uma garantia de adequação do trabalho às circunstâncias.
4. A especialização precoce em uma determinada modalidade, praticando-a em exclusividade, não é, seguramente, o melhor procedimento.
5. A prevenção de lesões na criança e jovem em crescimento é de particular importância. Alguns acidentes são inevitáveis e resultam das naturais condições do desporto praticado. No entanto, as disfunções que decorrem da má prática e da não observância das regras de segurança elementar, como seja a utilização de metodologias de treino correctas e material de protecção, deveriam dar lugar a processos de responsabilização dos responsáveis. O treino em geral é uma actividade de risco, devendo a sua condução ser reservada a profissionais especificamente habilitados. Facilmente se depreende que com os jovens esta situação se coloca, eventualmente, com maior pertinência.
6. O jovem atleta deve beneficiar de um acompanhamento médico regular e diferenciado. A caracterização do seu estado de saúde, bem como o esclarecimento das possíveis implicações do processo de treino, assumem um carácter mandatório. O médico de medicina desportiva, ao possuir conhecimentos sobre pediatria do esforço, encontra-se numa situação privilegiada para este tipo de acompanhamento."

Reforço de proximidade

"A News Benfica inicia hoje uma nova rubrica, a “Fórum Sócios”, espaço que se pretende de esclarecimento e informação e onde Sócios e adeptos poderão encontrar as respostas para as suas questões mais pertinentes. Hoje é dedicada a explicar o que se passou para o relvado se apresentar naquelas condições na passada quarta-feira. A sua publicação não será diária, mas sempre que se justifique.
Pretende-se em tempo oportuno dar os mais cabais esclarecimentos sobre todas as questões relacionadas com a actividade do dia a dia do nosso Clube nas mais diversas áreas e, assim, reforçar o conhecimento e a proximidade entre órgãos sociais, estrutura e adeptos.
Da actividade desportiva em destaque, está a preparação da nossa equipa que segue a bom ritmo e de acordo com o programado. Amanhã [sábado] regressará a Coimbra para defrontar a Académica e, na segunda-feira, já estará em solo norte-americano para participar no mais prestigiado torneio de pré-época, a “International Champions Cup”, onde defrontará Chivas, Fiorentina e AC Milan.
O objectivo principal da digressão benfiquista é, naturalmente, a preparação da equipa para os desafios que se avizinham, em particular a Supertaça e a jornada inaugural do Campeonato Nacional. No entanto, a presença no certame extravasa o mero domínio desportivo.
Além do prestígio inerente à participação num torneio a par de alguns dos melhores e mais titulados clubes do mundo (18 clubes com jogos disputados na Europa, Ásia e América do Norte) e da significativa receita financeira obtida, há ainda um extenso programa empresarial e institucional para ser cumprido.
Ao longo de duas semanas, a vasta delegação benfiquista, dedicar-se-á a um conjunto de iniciativas que visam o reforço da ligação aos adeptos, de laços com clubes e instituições norte-americanas e da presença da marca Benfica num mercado considerado estratégico para o Clube.
A presença nos Estados Unidos da América é fundamental, tendo em conta o notório crescimento da implantação do futebol no país. E naturalmente que pretenderemos capitalizar o enorme prestígio e reputação de que goza a nossa formação como importante trunfo para nos expandirmos para aquele mercado.
Por outro lado, o Benfica é um clube de dimensão global com adeptos espalhados pelos quatro cantos do mundo e a sua dimensão internacional é cada vez mais assumida. Nesta digressão estão previstas visitas a sete Casas do Benfica (são onze), incluindo a inauguração de duas. É com imensa satisfação que o Benfica se aproxima dos seus adeptos que, mesmo com um oceano pelo meio, tanto sofrem e contribuem para o sucesso benfiquista. Por isso apelamos à sua presença nos estádios e que mostrem a força e a grandeza do nosso querido Clube."

Fórum do Sócio
Qual a justificação para os problemas do estado do relvado no jogo de apresentação com o Anderlecht? Quando começar o Campeonato já estará tudo resolvido?
Durante dois dias, em função de um alerta, parte do sistema de rega foi suspenso sem que ninguém da equipa técnica de acompanhamento se tivesse apercebido. A consequência foi que durante a noite não funcionou o sistema de rega alternativo e de reforço que estava programado, ficando o relvado, durante esses dois dias naquelas áreas, sem a água necessária para o cumprimento do programa de consolidação da nova relva.
Essa circunstância provocou a interrupção do crescimento programado em algumas zonas do campo. 
Para resolver o problema de imediato, a única solução foi colocar novos tapetes de relva nas áreas críticas, de forma a garantir a realização, com o mínimo de condições, do jogo realizado esta última quarta-feira.
A partir de hoje foi implementado todo um novo projecto de colocação de nova relva da mesma qualidade da existente de forma a garantir que, daqui a um mês, o nosso Estádio volte a apresentar um relvado com os níveis de qualidade e exigência que nos caracteriza."

Benfiquismo (MCCXXIX)

Para memória futura...