Últimas indefectivações

segunda-feira, 24 de junho de 2019

O mercado, no masculino e no feminino

"De cofres cheios, o Benfica deve resistir à tentação de comprar em quantidade. Poucos (mesmo que caros) e bons, é a fórmula certa

Numa temporada de vacas gordas no que respeita a vendas, que acabou por coincidir com o momento em que o clube se encontra menos pressionado pelas contas, o Benfica tem em mãos um processo delicado, que pode marcar-lhe o futuro dentro e fora de portas. Com o Seixal a carburar de forma excepcional (e, atenção, estes anos têm sido muito bons, mas haverá outros mais pobres...) o segredo do sucesso estará na qualidade dos jogadores contratados no exterior, através de um critério com malha apertada. Poucos mas bons, uma fórmula que tem normalmente tudo para dar certo.
Bruno Fernandes realizou um temporada de altíssimo nível, culminada com grande exibição na final da Liga das Nações, e despertou a cobiça de vários clubes europeus com grande poder financeiro. Juntando a esta circunstância o facto de o Sporting precisar de encaixe a realizar com a transferência, para equilibrar contas herdadas de um passado recente despesista, concluí-se que Bruno Fernandes acabará por sair não pela verba desejada (e quiça justa), mas pelo montante possível na presente conjuntura. O cenário menos provável é voltar a vê-lo de leão ao peito, na próxima época.
Ainda falta conhecer o destino de José Mourinho e o panorama dos treinadores portugueses pelo mundo já é de enorme relevância. Marco Silva e Nuno Espírito Santo dão cartas em Inglaterra, Leonardo Jardim, Paulo Sousa e André Villas Boas estão em grandes clubes em França, Paulo Fonseca ingressou na Roma e Luís Castro substituiu-o no Shakhtar, Vítor Pereira é campeão na China, Rui Vitória idem na Arábia Saudita, José Morais lidera na Coreia do Sul, onde Paulo Bento é seleccionador, Carlos Queiroz manda na Colômbia e Jorge Jesus agira o Brasil. Treinador português, marca consagrada.
O Real Madrid acaba de anunciar que vai disputar a I Divisão espanhola em futebol feminino, tendo comprado uma vaga para poder entrar imediatamente por cima. Os merengues juntam-se assim a Barcelona e Atlético de Madrid, numa estratégia que aponta para a evolução do negócio em torno do futebol jogado por elas, uma realidade que tem vindo a crescer um pouco por toda a parte. Aliás, basta ver a atenção mediática dada ao Mundial que decorre em França para se concluir que estamos perante um fenómeno imparável. Por cá, o Benfica vai estrear-se na I Divisão. Para quando o FC Porto?

Ás
Telma Monteiro
Num país desportivo onde não abundam os títulos em grandes competições internacionais. Telma Monteiro conquistou, nos Europeus de Minsk, a 13.ª medalha, o que dá nota da dimensão de um atleta que teima em manter-se na ribalta. Telma tem lugar assegurado no Hall of Fame dos desportistas portugueses.

Ás
Lewis Hamilton
O piloto britânico venceu, facilmente, uma corrida sem ponta de emoção, diga-se, em Paul Ricard, colocando-se a apenas doze triunfos de Michael Schumacher, que viu, ao longo da sua carreira, a bandeira de xadrez em 91 Grandes Prémios de Fórmula 1. Hamilton e a Mercedes reinam sem rival no circo mais caro do mundo.

Ás
Joaquim Evangelista
A Liga de Clubes fez aprovar, em AG da FPF, um regulamento disciplinar que teve votos contra de jogadores, treinadores e árbitros. Logo aqui está um péssimo exemplo de quero, posso e mando. Para tornar o panorama mais sombrio, e o presidente do Sindicato não se calou, os clubes incumpridores viram a vida facilitada.

Ir buscar lã e vir de lá tosquiada
«O Football Leaks ainda agora começou... mesmo com o Rui Pinto preso»
Ana Gomes, ex-eurodeputada
Lampreia, mal soube da detenção de Michel Platini, Ana Gomes pensou que o caso tinha a ver com o Football Leaks e atirou a matar (pensava ela). Afinal, o advogado de Platini é o mesmo do hacker protegido da antiga política, que teve de fazer uma saída envergonhada pela porta dos fundos, lamentando, por certo, a extraordinária oportunidade de estar calada que tinha desperdiçado...

João Félix, 120 milhões de razões para sonhar
Foi tema da semana em Portugal e Espanha, desde a transferência de Anthony Martial para o Manchester United que não se via uma ascensão tão meteórica. Mas não terá sido em vão que os dois clubes de Madrid e ainda o Manchester City lutaram pelo jogador. Alguma coisa viram que os fez pagar o preço.

O Brasil, e os treinadores
quase três anos, andava o 'escrete canarinho' pelas ruas da amargura, alguém na CBF, decidiu contratar Tite, que operou milagres, venceu o grupo de qualificação para o Mundial da Rússia e devolveu o respeito ao Brasil. Ora, bastou agora, na Copa América, um empate caseiro com a Venezuela para surgirem muitas vozes a pedir a cabeça do técnico, salvo por uma vitória robusta, no jogo seguinte, frente ao Peru. Este exemplo dá conta do estado de esquizofrenia em que o Brasil vive quanto aos treinadores e a cultura de descartabilidade vigente no país futebolístico. Ou seja, não é difícil perceber que a tolerância que Jorge Jesus vai encontrar, logo que o Flamengo comece a jogar, vai ser abaixo de zero. JJ tinha razão quando disse aos jogadores rubro-negro, na primeira prelecção, que com ele era ganhar ou ganhar. Pois é bom que seja assim. Ou então..."

José Manuel Delgado, in A Bola

Bronze no Atletismo...

Ontem três Benfiquistas conquistaram a medalha de Bronze nos Jogos Europeus, na prova de Atletismo, mais especificamente nos 4x400m mistos: Rivninilda Mentai, João Coelho e o Ricardo dos Santos. Com a ajuda ainda da sportinguista Cátia Azevedo.
O facto até passou despercebido no site do Benfica, talvez a forma confusa como estão a decorrer as provas de Atletismo explique o esquecimento... a IAAF tem cada vez ideias mais parvas!!!

PS: Hoje a Rochelle Nunes, na prova de Judo +78 Kg., teve uma tarde de competição muito ingrata!!! Chegou às Meias-Finais de forma categórica, e nesse combate acabou derrota de forma extremamente injusta, com uma adversária que esteve constantemente a cometer 'faltas' que não foram penalizadas...
Um pouco mais tarde, no combate pela medalha de Bronze, apanhou uma adversária bastante mais alta, que lhe 'ganhou' constantemente a 'pega' (mais sem atacar), mas 'acabou' por 'sacar' três castigos à Rochelle... o último, é claramente a adversária que empurra a Rochelle para fora do tapete...
Sair deste Europeu sem Medalha acabou por ser muito frustrante...
Mas ainda temos Mundial este ano!!!

Só o mercado é que está louco?

"Nem Simeone nem um único olheiro do Atl. Madrid viu Félix a jogar. Bastou-lhe ler os jornais... Alguém acredita mesmo nisso?

Tenho a certeza de que a primeira coisa que Diogo Simeone fazia nos últimos meses quando acordava era ver no telemóvel as primeiras páginas dos jornais desportivos portugueses.
A segunda era, claro, pedir aos responsáveis pelo scouting do Atlético de Madrid para comprarem, provavelmente na versão digital, as edições diárias para perceber o que os jornalistas escreviam sobre esse talento de nome João Félix, fazerem recortes ou print screens e enviaram-lhe para que pudesse ficar a par de tudo sobre ele: os golos, as assistências, se joga bem de pé direito ou se bate melhor com o esquerdo, se joga melhor nas linhas ou como segundo avançado, se tem um jogo de cabeça com o suficiente.
Tenho a certeza de que a última coisa que Diego Simeone fazia nos últimos meses antes de adormecer era sentar-se em frente à televisão - da sala ou do quarto, se a tiver - e escolher no seu comando os canais portugueses (cujo número já decorara, não precisando sequer de fazer zapping) para ver tudo o que os comentadores diziam sobre esse talento quase desconhecido.
Tenho a certeza de que isso bastou para que Simeone exigisse ao presidente do Atlético Madrid para bater os 120 milhões de euros exigidos pelo Benfica para quem quisesse garantir sem mais conversas um jovem de 19 anos com menos de seis meses na equipa principal dos encarnados.
Não tenho, claro está, dúvidas em afirmar que nem Diego Simeone nem qualquer olheiro do Atlético Madrid viu, ao vivo, um jogo de João Félix. Nem sequer um videozinho, atrevo-me a dizer. Para quê? Se os jornalistas escrevem que é bom e os comentadores televisivos dizem que é ainda melhor do que bom, é porque é. E se são precisos 120 milhões para levá-lo, porque não?
É, pelos vistos, assim que alguns acham que funciona o mercado do futebol. Um mercado tão louco que bastam umas manchetes, talvez um fenómeno em letras garrafais, para convencer, sem mais, um clube estrangeiro a gastar 120 milhões de euros num miúdo de 19 anos. Não é, percebe-se, o mercado que está louco. É quem pensa que as coisas funcionam, de facto, assim.

Muito se tem escrito sobre a anunciada transferência de João Félix para o Atlético Madrid. Da influência de Jorge Mendes, da qual não duvido. É por isso, afinal, que se trata daquele que é por muitos considerado o melhor empresário do mundo do futebol.
Talvez sem a sua influência ninguém desse, de facto, 120 milhões de euros por um miúdo de 19 anos com muito ainda por provar. Não tenho disso grandes dúvidas. Mas aquilo de que muitos se têm, porventura, esquecido, é que o principal motivo para que o emblema de Madrid esteja, de facto, disposto a dar 120 milhões por um miúdo de 19 anos com muito ainda por provar está no próprio João Félix e naquilo que demonstrou nestes menos de seis meses. Sem isso não haveria capas de jornais ou influência de Jorge Mendes que levasse um clube, qualquer que fosse, a embarcar numa aventura destas.
Porque não estamos a falar de 12 euros. Nem de 120. Nem de 1200. Nem de 12 mil. Nem de 120 mil. Nem sequer 1,2 milhões. Nem sequer de 12 milhões. Estamos a falar de 120 milhões. Não são trocos. Não se gastam 120 milhões só poque sim. Haja noção.

PS - Claro que pode discutir-se se João Félix vale ou não 120 milhões. Essa é outra conversa, que vale a pena ser abordada sem pelas coloridas nos olhos. Coisa que por cá é cada vez mais difícil..."

Ricardo Quaresma, in A Bola

Sou Renato Sanches, e depois?

"Aborrece-me a superficialidade com que se olha para o jogo. Fala-se de novo de Renato Sanches por causa de João Félix, o tal puto que é um fracasso antes de o ser. Sai cedo de mais, há os 120 milhões e a pressão esmagadora de uma Espanha que, vade retro, não gosta de portugueses desde 1143.
Não são produtos acabados e apresentam ambos aquela arrogância positiva pouco comum para a idade. Só que as parecenças acabam aí. Estão bem separados na capacidade de interpretar o jogo e de definir.
Se excluirmos as estapafúrdias tiradas sobre novos Bolas de Ouro, que só servem para encantar seguidores de Flautista, Renato ainda olha para o futuro e sorri. Mais em bruto na técnica de passe, definição e no posicionamento, não recusou o Bayern, apesar de a lógica a aconselhar de maneira diferente: era treinador um Ancelotti mais gestor do que lapidador, e pouco interessado em mexer no ataque posicional plantado por Pep Guardiola, de triângulo em triângulo e de passe atrás de passe. Incrível é que hoje, aos 21 anos, já o tenham como morto e enterrado, e o usem como exemplo de fracasso. André Silva e João Mário, embora com tempos de maturação diferentes, também não tiveram sucesso, e continuam a ser o futuro. Têm de ser.
Ao exercer a cláusula, é Félix quem escolhe e não o Benfica. Opta por um Atléti que contratou Lemar por 70 milhões há um ano e que ainda não o colocou de parte. Um 4x4x2 em que pode encaixar melhor. Um clube que sobrevive sem ser campeão e que até lhe oferece o lugar de referência, na vaga de Griezmann.
Obviamente, existirá pressão. Haverá compromisso. Exigência também. Na estrela, nos clássicos e na Europa, respondeu sempre. Claro que João Félix pode falhar! Mas falhará por ele e ainda irá sempre a tempo de começar de novo. Tal como Renato."

Luís Mateus, in A Bola

Junho de 2018, o fim do mundo

"O Sporting venceu dois campeonatos nos últimos 37 anos. E teve mais de 30 treinadores principais. Problemas não são eles...

Impossível saber, como diz Sousa Cintra, naquele optimismo exacerbado, de quem vê azul-bebé onde muitos veem negritude, se o Sporting seria campeão nacional mantendo José Peseiro até final da temporada. Impossível por razões óbvias. Sabe-se apenas que os leões estavam a dois pontos da liderança quando, à oitava jornada, Frederico Varandas despediu o treinador que Sousa Cintra contratara e que, no fim da época, ficaram a 13 do Benfica.
Possível de avaliar, sim, o peso de Sousa Cintra e José Peseiro no período em que estiveram no Sporting. Não pensemos no Sporting de Junho de 2019. Pensemos no Sporting de Junho de 2018. O caos. A negritude. O abismo. O fundo cada vez mais fundo. O fim do mundo. Até que Sousa Cintra assumiu a Comissão de Gestão. Ele e mais uns quantos. Fizeram tudo bem? Não. Resolveram todos os problemas? Nada disso. Cometeram erros? Óbvio. E Cintra foi buscar Peseiro. Treinador quase sem plantel. Plantel quase sem moral.
Empresários a oferecerem os seus excedentários: promessas que já não o eram; ex-craques aburguesados pelo dinheiro ganho; estrangeiros de terceira linha para substituírem os estrangeiros de terceira linha que não tinham rescindido. O tempo a apertar. O campeonato a começar. Treinos a meio-gás com jogadores, mentalmente, a meio-gás. Com medo de Bruno de Carvalho. Com medo do seu eventual regresso. Com eleições à porta. O caos. A negritude. O abismo. O fundo cada vez mais fundo. O fim do mundo. Ninguém apontou uma pistola a Sousa Cintra para que este aceitasse a liderança da SAD, claro que não, tal como ninguém a apontou a José Peseiro para ser treinador dos leões. Mas é preciso recordar o que era o Sporting em Junho de 2018 e não naquilo que é o Sporting em Junho de 2019.
O mais provável é que o Sporting não fosse campeão com Peseiro até final. Ou com Keizer deste o início. Ou com Klopp de ponta a ponta. O Sporting vendeu duas (!) ligas dos últimos 37 anos e teve treinadores como António Oliveira, Josef Venglos, John Toshack, Manuel José, Keith Burkinshaw, Raul Águas, Marinho Peres, Bobby Robson, Carlos Queiroz, Fernando Mendes, Octávio Machado, Robert Waseige, Vicente Cantatore, Carlos Manuel, Mirko Jovic, Giuseppe Materazzi, Augusto Inácio, Manuel Fernandes, Laszlo Boloni, Fernando Santos, José Peseiro, Paulo Bento, Carlos Carvalhal, Paulo Sérgio, José Couceiro, Domingos Paciência, Sá Pinto, Franky Vercauteren, Jesualdo Ferreira, Leonardo Jardim, Marco Silva, Jorge Jesus ou Marcel Keizer. O problema do Sporting não são os treinadores ou os jogadores. É mais profundo."

Rogério Azevedo, in A Bola

O bronze virou ouro nas mãos de Telma

"Esta era a segunda vez que ela saía das mãos de Telma Monteiro. A outra tinha sido durante a noite, quando a judoca, finalmente, cedeu ao cansaço depois do turbilhão de emoções que se seguiu à subida ao pódio olímpico do Rio 2016 e foi dormir. Agora, andava de mão em mão, sempre com Telma por perto a testemunhar o regozijo de quem tocava numa medalha olímpica pela primeira vez. Também eu o fiz. Senti o peso, apreciei os pormenores gráficos e devolvi-a intacta à feliz proprietária.
Poucos minutos depois, sentei-me com Telma junto à entrada Aldeia Olímpica. Ficámos ao sol, naquele pequeno jardim onde se misturavam idiomas de todos os cantos do mundo. Trocámos breves palavras de circunstância antes de se iniciar a entrevista, a primeira da medalhada olímpica após o histórico combate com a romena Corina Caprioriu.
Logo à primeira resposta, Telma agarrou a medalha enquanto falava. Aquele gesto involuntário repetiu-se várias vezes ao longo dos cerca de 15 minutos de conversa. Não era para menos. O que Telma tocava era ouro.
Caro leitor, não se apresse em me corrigir. Sei que a medalha que Telma conquistou a 8 de Agosto de 2016 foi de bronze, mas naquele jardim da Aldeia Olímpica o que ela tocava era mesmo ouro.
Isto era algo que eu já devia ter aprendido. Em 2012, nos Jogos de Londres, momentos depois de Fernando Pimenta e de Emanuel Silva conquistarem a medalha de prata em canoagem, comentei com um membro da missão portuguesa a curta distância a que a dupla de canoístas tinha ficado do primeiro lugar. "Estás doido? É medalha, Pedro, é medalha." Foi a resposta.
O significado da medalha transcende o metal de que é feita. O que Telma segurava era a recompensa de anos de sacrifício, trabalho e também um ponto final na dúvida sobre se algum dia iria mesmo subir a um pódio olímpico.
No plano desportivo, nada há de mais valioso para um atleta de alta competição. Foi essa a certeza que assimilei ao ver as mãos de Telma transformarem o bronze em ouro."

A Mercadologia, os mercadólogos, o Ketinho Borda d’Água e os 120 milhões que são 48 vezes o peso de Félix em ouro

"Chamemos-lhe mercadologia. É o estudo das movimentações no mercado futebolístico, o seu impacto no comportamento dos seres humanos e na conta bancária de Jorge Mendes. Nos primórdios da mediatização global do futebol, os miúdos sonhavam ser o novo Eusébio, o novo Crujff, queriam imitar as fintas de Maradona e os golos acrobáticos de Van Basten. Mais tarde, os treinadores ascenderam ao estatuto de estrelas e crianças de todo o mundo, em vez de bolas, começaram a levar para a escola cadernos pautados com relatórios de jogo. Hoje, época em que a mercadologia ganhou autonomia e é uma actividade humana por direito próprio, os petizes olham para um Rui Pedro Braz e sonham com o dia em que num estúdio de televisão proferirão as indeléveis palavras: “estamos em condições de assegurar que Bentinho Vilanova será jogador do Atlético de São Pedro da Cova nas próximas cinco épocas por um valor a rondar os seis milhões de euros por ano, livres de impostos.”
O futebol jogado em campo é agora um mero pretexto para se discutir durante horas a fio quem compra, quem vende, quem empresta, quem fica, quem sai e quem vai pensar no sentido da existência para a equipa B ou nas fileiras de um clube cipriota. Antigamente a mercadologia limitava-se a umas breves semanas no defeso ou a ocasionais capas dos desportivos. Hoje tornou-se uma obsessão nacional capaz de despertar mais interesse que um Tondela-Desportivo das Aves. Nas televisões imperam os mercadólogos, permanentemente “conectados” (enquanto um fala, o outro baixa a cabeça e, com indicador, faz deslizar as informações no smartphone) a fontes próximas do processo. Os contornos dos negócios, nebulosos para os leigos, são a sua especialidade: sabem se um empréstimo contempla uma opção de compra, se a opção de compra afinal é obrigatória, qual a taxa de empréstimo e o valor final, a percentagem que cabe ao clube vendedor na mais-valia de uma futura venda, se o negócio envolve cedência de outros jogadores, se o clube já chegou a acordo com estes, as modalidades de pagamento, contrapartidas, compensações, etc.
Os negócios encontram-se geralmente num de dois estados: ou estão por horas ou afiguram-se muito difíceis. Por vezes, não tão raramente quanto isso, ultimam-se detalhes. Pode já estar tudo acertado com o clube, mas agora é preciso convencer o jogador ou vice-versa. Há clubes vendedores que se mantêm irredutíveis, outros que não querem cortar as pernas aos jogadores e há jogadores que desejariam literalmente cortar as pernas aos dirigentes.
Um dos indicadores mais fiáveis da concretização iminente de um negócio é quando se diz de algum jogador que “já se encontra na capital espanhola”. Um jogador que esteja a negociar com o Chelsea desloca-se a Londres, os que têm propostas do Paris Saint-Germain apanham um avião privado para Paris, mas se o clube interessado é de Madrid a cidade é sempre referida, por antonomásia, como a “capital espanhola.” Estar na capital espanhola é o equivalente moderno à travessia do Rubicão. Uma vez lá chegado, os dados estão lançados, alea jacta est. É o chamado ponto de não retorno.
Além das fontes conhecedoras do processo, nem sempre de confiança, a mercadologia tem vindo a desenvolver métodos cada vez mais eficazes de previsão de transferências que incluem a análise detalhada das contas das redes sociais e declarações das progenitoras dos jogadores. Uma t-shirt com os dizeres “I love kebab” pode indicar uma transferência iminente para a Turquia e uma reunião com um administrador de uma SAD pode ser apenas um encontro de velhos amigos. Uma publicação da mulher de um jogador com malas feitas é sinónimo de despedida e um like no comentário de um adepto de um clube um indício da preferência do atleta.
Nada escapa aos mercadólogos e os próprios jogadores já aprenderam a comunicar por cifras neste admirável mundo novo das redes sociais. Tudo isto alimenta trezentos episódios de telenovelas. Para os mercadólogos e os seus empregadores o ideal é quando a “situação se encontra num impasse”. Esse é o estado de um negócio que os mercadólogos preferem. Os impasses prolongam-se, arrastam-se e, como um carro funerário, obrigam toda a gente a acompanhá-lo a um ritmo respeitoso. Ninguém se atreverá a buzinar e a berrar pela janela do carro: “anda lá com isso, ó lesma!”.
Com o entusiasmo de quem acabou de receber a notícia de uma herança, os mercadólogos proclamam triunfantes: “não há novidades!”, “continua tudo na mesma!” ou “o clube prometeu um comunicado para a próxima semana!” No reino da mercadologia, o maior acontecimento é não acontecer nada. Daí o ar pesaroso quando têm de cumprir o doloroso dever de anunciar ao mundo que o negócio está fechado. Fechado, encerrado, como um caixão. “Este é o tipo de notícia que nunca gostaríamos de dar: Ketinho Borda d’Água é oficialmente jogador do Atlético Baracondense. A confirmação chegou esta tarde. Ainda havia a esperança de que Ketinho chumbasse nos testes médicos, mas confirmou-se o pior cenário. O avançado tem uma saúde de ferro e vai mesmo jogar em Baraconda nas próximas três épocas. Aos adeptos enlutados, apresentamos as mais sentidas condolências. Bem, felizmente sobre o negócio de Trastinho para o Desportivo Zarabatana não há novidades absolutamente nenhumas. Zero. Nicles. E é com esta nota positiva, de grande esperança, que terminamos o nosso programa de hoje.”
Porém, nem tudo é imobilismo. O mercado de transferências oferece diversos tipos de entretenimento dramático. Há leilões e carrosséis, telenovelas e, como se de um desporto paralelo se tratasse, corridas. Quando um jogador se destaca, o pelotão de interessados é compacto e estende-se por todo o continente. Em geral, é não tanto um pelotão, mas um cardume, pois os participantes na prova são quase todos “tubarões”. “PSG, Bayern, Real, Barcelona, City, United e Arsenal” estão na corrida por Zé Canelada” juram os jornais assim que Canelada mostra os seus dotes nos juvenis do Recreativo de Trapizomba. Depois, como numa longa etapa de montanha, o pelotão vai-se fragmentando e, em vez dos tubarões anunciados, muitas vezes quem chega à frente é um carapau de corrida, de muito paleio e bolsos magros. Nas narrativas habituais já estudadas pela mercadologia, o Tottenham, por exemplo, é um clube que costuma estar na corrida, mas, qual Fernando Mamede, geralmente desiste a meio, sobretudo quando David Levy, o presidente do clube, percebe que estar na corrida implica pelo menos a intenção de desembolsar uma determinada quantidade de dinheiro para adquirir um jogador. 
Na última semana, foi a transferência de João Félix a dominar todos os espaços de mercadologia. Segundo consta, estará tudo acertado, mas ainda não há confirmação, o que também é uma situação bastante apreciada pelos mercadólogos. Segundo estes, havia mais do que um clube disposto a “bater” a cláusula de rescisão “cifrada” em 120 milhões de euros (é preciso dominar o léxico, a langue de bois, desta área do conhecimento). Infelizmente, o clube que, ao que tudo indica, avançou para o negócio é o único clube que tem de aguardar que outro clube bata a cláusula de rescisão de outro jogador, também cifrada em 120 milhões a partir de 1 de Julho (até aí seria de 200 milhões), para então poder bater a cláusula de rescisão.
Porém, todos garantem que já há acordo com os representantes do jogador que, como não podia deixar de ser, “esteve na capital espanhola.” Os representantes do jogador e o próprio jogador foram vistos a jantar em Madrid, o que significa que, por enquanto, João Félix não delega em terceiros a função de se alimentar. De regresso a Portugal, houve mesmo um órgão de comunicação que informou os seus leitores que João Félix teria pagado 14,70 euros por uma pizza num restaurante algarvio, uma ninharia para quem se prepara para receber sete milhões de euros por ano “net”, como gostam de dizer certos mercadólogos.
O astronómico valor da cláusula e o hipotético salário de João Félix no Atlético Madrid empurraram os jornalistas para aqueles exercícios que visam traduzir para o cidadão comum, sempre a contar trocos na carteira, a magnitude dos valores. Assim, ficámos a saber que 120 milhões de euros são 48 vezes o peso de Félix em ouro, que dariam para comprar 30 Lamborghinis e várias vezes a casa mais cara de Portugal. Um jornal chegou ao pormenor de dizer que com o salário de João Félix seria possível comprar não sei quantos milhões de bicas, o que à primeira vista pode parecer muito, mas que só daria para duas semanas de treinos do Boavista de Jaime Pacheco.
Os rivais do Benfica têm manifestado a sua incredulidade quanto aos valores do negócio. Não acreditam que o jogador valha isso, mas se valer mesmo (ou seja, se alguém pagar os 120 milhões) então Bruno Fernandes, dizem, vale o dobro. Bruno Fernandes é, pois, um jogador cujo valor do passe está indexado à cotação internacional do Félix. Podia ser pior. Mas há mais. O Atlético Madrid é visto como um peão nas jogadas do agiota de alto gabarito Jorge Mendes. A concretizar-se a venda pelos propalados 120 milhões só pode querer dizer que Mendes tem uma comissão de 30, 60 ou 100%. Quem sabe, até mais do que isso!
Já o Benfica, não só terá de pagar uma comissão brutal ao empresário como será obrigado a contratar vários jogadores ao Atlético por valores superiores a 50 milhões. Resultado, Félix vestirá a camisola do Atlético e o Benfica, graças à intermediação mágica de Jorge Mendes, poderá pagá-lo em suaves prestações durante um prazo não inferior a trinta anos, suportando parte do ordenado e juntando no negócio mais dois ou três jogadores formados no Seixal. A propaganda do Benfica, dizem, tudo fará para passar a ideia de que se trata da maior transferência de sempre do futebol português quando é sabido que essa foi, é e será sempre a venda de Bebé ao Manchester United por nove milhões de euros.
In illo tempore, os adeptos suspiravam pelo fim do defeso e pelo regresso dos artistas aos relvados. Hoje só querem sentir a brisa refrescante ou a ventania glacial que entra pela janela de transferências aberta todo o ano. E quando já não há mais nenhuma transferência para anunciar, irrompe a meta-mercadologia, com as transferências de mercadólogos entre órgãos de comunicação social. O mercadólogo torna-se, desse modo, o alfa e o ómega, o princípio e o fim de todas as coisas futebolísticas. Algures num estádio vazio, vinte e dois atletas correrão atrás de uma bola, mas isso não interessará a ninguém."

Inquietante texto de Poiares Maduro

"Miguel Poiares Maduro, advogado e professor universitário internacionalmente conceituado, com cargo de elevada responsabilidade na Universidade Europeia de Florença, escreveu, este último sábado, um artigo inquietante no Expresso. O título tinha tanto de sugestivo como de acusador: «FIFA, o cartel de Zurique».
Ao longo de um texto preciso e fundamentado, Poiares Maduro falou-nos da cartelização da FIFA e da UEFA, onde uma estrutura de fidelização e clientelismo continua a manter uma cultura de seguidismo e de ausências de criticismo interno ou de fiscalização.
«A esta concentração de poder e dinheiro correspondem mecanismos frágeis de controlo independente. Não exista verdadeira separação de poderes e os órgãos disciplinares e de controlo ético e financeiro raramente são independentes» - escreveu Poiares Maduro, que pergunta: «Que controle se pode esperar de quem provém, ou está na dependência daqueles que é suposto controlar?»
Ora, Poiares Maduro sabe bem do que fala. Ele foi eleito, em 2016, para desempenhar o cargo de chairman do comité de governação da FIFA e passado pouco tempo abandonou funções sem justificação pública, mas deixando no ar a ideia de que não podendo acabar com velhos vícios, não queria pactuar com eles e com quem tão poderosamente os protegia.
Apesar da coragem da denúncia, Poiares Maduro admite que a política se deixou capturar pelo futebol e daí que não esteja optimista quanto ao futuro. De facto, Bruxelas prefere a institucionalização das suas burocráticas banalidades, ao incómodo de uma acção fiscalizadora em Zurique ou em Nyon."

Vítor Serpa, in A Bola

O bronze do 2.º classificado

"Como o seu próprio nome indica, os Jogos Olímpicos de 68 foram em 1968, há muito tempo. Na Cidade do México, dias antes da abertura e à porta do estádio, durante manifestações, a polícia matou dezenas de estudantes. Mas desses JO vou recordar um ato simultaneamente político e desportivo. E, dele, sublinhar um pormenor, o menos lembrado.
Na prova de atletismo de 200 metros, os americanos Tommie Smith e John Carlos ficaram nos 1º e 3º lugares. O facto levou a uma foto icónica. Durante o hino do seu país, já no pódio e com as medalhas ao peito, descalços, eles ergueram o punho com uma luva negra de couro. Smith e Carlos eram negros e adeptos do Black Power, que na América lutava por direitos cívicos.
Os dois corredores foram expulsos da equipa americana, nunca mais participaram numa competição olímpica e continuaram negros, o que continuou a dar-lhes riscos e desvantagens na sociedade americana. Mas Tommie Smith e John Carlos tiveram um benefício honroso: eles foram protagonistas da história e por essa acção foram admirados por muita gente. Há até uma escultura do pódio com os dois, numa universidade californiana, na cidade de São José.
E eis o pormenor: no pódio (o real e da fotografia, mas não o da escultura), havia o 1º, Tommie Smith, e o 3º, John Carlos, mas também o 2º, o australiano branco Peter Norman. Este não alçou o punho durante o hino americano. Mas tinha um autocolante ao peito a defender os direitos cívicos dos negros americanos. Quando ia a caminho do pódio, Norman, ouvindo a conversa e vendo as luvas dos companheiros, perguntou-lhes as razões. E, conhecendo-as, disse: "Estarei convosco!" Pôs o autocolante ao peito e subiu ao pódio. A sua generosidade (fazer do interesse dos outros uma causa sua) ficou na penumbra. Mas foi castigada: por causa do seu ato político foi afastado para sempre da equipa olímpica australiana. Ele foi castigado, como todos do pódio, mas, ao contrário deles, fora esquecido.
Norman morreu em 2006. No funeral, Smith e Carlos levaram aos ombros o caixão do seu irmão. Quando eu soube, vi um momento que sempre olhara mas não vira: o homem da medalha de prata, com coração de ouro, a transformar a sua pele em bronze."

“Corrupção ativa e passiva”, “branqueamento de capitais e crime organizado”, doping: o antigo patrão do atletismo vai ser julgado

"Lamine Diack é acusado de vários crimes. O seu filho, Papa Massata Diack, também estará envolvido nos mesmos 

A justiça francesa pretende levar a julgamento o senegalês Lamine Diack, ex-patrão do atletismo mundial, e o seu filho Papa Massata Diack, suspeitos de actos de corrupção, para encobrimento de casos de 'doping'.
A informação foi avançada pela agência France Presse (AFP), indicando que um juiz ordenou a abertura do processo em Paris, visando o antigo presidente da Associação das Federações Nacionais de atletismo (IAAF), entre 1999 e 2105.
Lamine Diack deverá responder por "corrupção activa e passiva", "branqueamento de capitais e crime organizado", num processo que envolve além do seu filho e mais quatro pessoas.
O antigo dirigente é alvo de um mandado de captura, mas nunca foi interrogado pela justiça franca."

Na pista de Santa Anita, os cavalos de corrida morrem às dezenas. E ninguém sabe porquê

"Desde Novembro, trinta cavalos morreram na pista de Santa Anita, Califórnia. Após ter “perdido” quatro cavalos só este ano, Jerry Hollendorfer, treinador histórico da modalidade, foi banido da pista 

Algo de muito errado se passa na pista de corrida de cavalos de Santa Anita, Califórnia, mas ninguém sabe ainda dizer ao certo o que é. Desde o início da temporada em Novembro, trinta cavalos morreram naquela pista. O último foi eutanasiado no sábado, após ter sofrido uma lesão na pista de treino. No Estados Unidos da América, esta situação (em parte insólita) tem vindo a gerar vários protestos e pedidos de suspensão da modalidade, que se financia, em parte, com base nas apostas desportivas.
Após ter “perdido” quatro cavalos, Jerry Hollendorfer, treinador histórico da modalidade, foi banido da pista de Santa Anita. O americano é suspeito de drogar cavalos que estariam lesionados e colocá-los nas pistas, quando estes não teriam condições para correr. No passado, Hollendorfer já foi multado por 19 vezes por medicar em excesso os equinos que treina. O valor que pagou, contudo, não foi além do simbólico: 16 mil dólares.
“Neste momento, estou a treinar mais de 100 cavalos. Santa Anita quis que saísse das suas instalações. Na minha opinião, essa foi uma decisão prematura. Foi uma reação extrema. Agora tenho de me afastar durante algum tempo”, afirmou Hollendorfer, em declarações ao “Daily Racing Form”. 
Foi preciso morrerem 29 cavalos para a equipa que gere a pista de Santa Anita lançar uma investigação. Esta demora justifica-se, em parte, devido aos números de óbitos de anos anteriores. Em 2018, morreram 37 cavalos; em 2017, foram 54. Ou seja, o número registado este ano não é fora do comum. Os grupos activistas, todavia, têm estado cada vez mais atentos a estes registos.
Desde o início da sua carreira, os equinos treinados por Hollendorfer ganharam 7615 corridas - 65 só esta época - e garantiram-lhe lucros de 200 milhões de dólares.
De acordo com um estudo da Universidade de Davis, Califórnia, cerca de 85% dos cavalos que morreram na pistas de corrida, nos últimos anos, estavam lesionados e a tomar medicação."

Benfiquismo (MCCXVI)

Vermelho...

A História Gloriosa - #1 - A fundação e os primeiros anos - 1904-1914

domingo, 23 de junho de 2019

Campeãs da II Divisão

Benfica 0 - 0 Braga B


Depois do 9-0 do primeiro jogo, hoje tudo estava preparado para a festa... Só faltou um golinho (até não faltou, mas...), mas nada pode retirar o sentimento de obrigação cumprida...

Agora, para o ano será diferente... e se tivermos arbitragens como a de hoje, as coisas não serão fáceis!!!

PS1: Parabéns à nossa secção de Atletismo, que hoje se sagrou Campeão Nacional de sub-23, em Masculinos e Femininos, numa prova disputada em Vagos.

PS2: Parabéns às nossas meninas Juniores do Futsal, que ontem (sem jogar) se sagraram Bicampeãs Nacionais, e hoje celebraram o título com uma vitória sobre o Modicus por 4-0.

PS3: Parabéns aos nossos Juvenis do Futsal, que após a vitória de 3-5, em Vila do Conde, sobre o Caxinas Poça Barca, se sagraram Campeões Nacionais.

PS4: Em Minsk, nos Jogos Europeus, a Barbara Timo, no Europeu de Judo, acabou por perder no 2.º combate, ficando aquém das expectativas...

PS5: Ontem decorreu no Pavilhão da Luz, a 37.ª edição do Gimnáguia, mas um exemplo de vitalidade do Clube...

Juvenis - 9.ª jornada - Juvenis

Guimarães 1 - 5 Benfica


Já Campeões, e com algumas alterações, nova goleada, desta vez na sempre difícil deslocação a Guimarães...

João Félix e outras notas soltas

"O que vale é o talento de um jogador, a firmeza de uma SAD e a sagacidade de um agente reconhecida nesta atractiva indústria do futebol

1. Terminei o artigo do passado domingo falando de David Banda, um dos filhos de Madonna. E que leva a Mãe a «não deixar Lisboa». Por jogar no Benfica e aproveitar a excelência da Academia do Seixal. Início o artigo deste domingo falando de João Félix que, em razão da eficiência, eficácia e sagacidade da mesma Academia, vai deixar o Benfica e a troco da efectivação de uma fantástica cláusula de rescisão vai rumar a Madrid e, em concreto, ao Atlético de Madrid. O que lemos é que o Atlético quer o jogador, o seu dinâmico treinador o aceita e, decerto, o deseja, e o clube de Madrid só espera receber alguns milhões de transferências já concretizadas e de outras cláusulas de rescisão já anunciadas para entregar a João Félix a verba contratualizada, ser notificada a nossa CMVM - a Comissão de Mercados - e o Benfica ter, em definitivo, consciência da rescisão unilateral de contrato. Sem prejuízo de sabermos que o jogador já esteve em Madrid, já fez exames médicos e ao que se diz, todo o merchandising do Atlético estar pronto para, mal ocorra a apresentação, começar a facturar, e acredita que bastante bem. Sempre são 120 milhões de euros por um talento jovem - e que talento! - e de dezanove anos. Por mim fico contente pelo valor que Benfica arrecada e também pelas contrapartidas financeiras que João Félix irá receber. Também reconheço a capacidade e sedução negociais de Jorge Mendes - e um negócio, qualquer negócio, tem de ser bom para as partes envolvidas! - e acompanhando, aqui, uma efectiva e substancial revolução no plantel que ocorre no Atlético de Madrid e num momento em que os grandes da Europa não ignoram, cá como lá, as mudanças significativas que se vão concretizar nas competições europeias de clubes. Direi, tão só, com a ousadia de ter opinião - e só os homens (ou mulheres) calados é que não erram - que gostaria que o João Félix ficasse mais uma época na Luz e no Seixal e que fosse um elemento importante na reconquista europeia que este concreto Benfica ambiciona e pode (deve) potenciar. Mesmo, renovo a ousadia, que a parcela destinada a Jorge Mendes fosse, naturalmente, diferente. Já que, em razão da visibilidade, daquela sonhada reconquista, o valor de João Félix seria um pouco (bem) superior. Mas recordando Martin Luther King, nestas como em outras matérias, digo que «o que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio do bons»! E, nestes dias, há tantos e tantos gritos. Que vão de inveja (e até ciúme) à extrema desconfiança. Mas o que vale é o talento de um jogador, a firmeza de uma SAD e a sagacidade de um agente que é reconhecido nesta atractiva e sugestiva indústria do futebol. Onde a intermediação é uma realidade. Como em todas as outras actividades, importa não ignorar ou até fingir que se minimiza ou, mesmo, desconhece!

2. Li que a equipa feminina do Stuart (Carvalhais) Hóquei Clube de Massamá, actual vice campeã nacional, não vai participar no próximo Nacional. Conheci o arranque desta experiência rica e única e, nela, a concretização do sonho do Professor João Campelo. Ultrapassou dificuldades e vicissitudes e a escola, com a especificidade da utilização pavilhão, que dá e deu nome ao clube passou a ser uma referência no hóquei feminino português. Agora com a chegada das grandes marcas do desporto nacional às diferentes modalidades, e também no âmbito feminino, estes clubes perdem treinadoras e jogadoras. Agora foi o Sporting fazer uma verdadeira OPA - operação privada de aquisição sobre jogadoras da equipa principal da Stuart e, também, sobre quatro jogadoras sub-17. Como, é justo dizer, o Benfica e o Campo Ourique contrataram respectivamente a Sofia Contreiras e a Adriana Costa. Acredito que este clube vai continuar a formar jogadoras e que o espírito inicial - onde os Pais tiveram um papel importante - se vai continuar a afirmar. Mas este ataque mostra que importa reflectir acerca dos clubes de formação, na necessidade de mecanismos de apoio e suporte e, também, assumo-o de uma reflexão, no topo e nas grandes marcas, acerca desta tirania de títulos que perturba e afecta o tecido associativo português. O que fica, aqui, é o registo de um clube que construiu e se constituiu como uma referência no hóquei de patins feminino em Portugal.

3. Arrancaram ontem na capital da Bielorússia, Minsk, os segundos Jogos Europeus. A primeira edição decorreu, quase ao lado, em Baku há quatro anos. Esta nova competição, para além dos recentes Jogos do Mediterrâneo, continua a seduzir muitos atletas e daí que, apesar das especificidades de algumas modalidades - como o atletismo -, todos os países participantes integram as suas principais referências, como acontece com Portugal. Na canoagem e no futebol de praia, no judo e no ténis de mesa, no tiro, nos trampolins ou na ginástica artística estão os principais nomes da respectiva Federação. Mas importa não ignorar a lucidez do Presidente do Comité Olímpico de Portugal, José Manuel Constantino, que nos avisa, face à criação por algumas modalidades dos Campeonatos Europeus - concorrentes destes Jogos Europeus! - que há, em diferentes realidades internacionais, uma clara tensão que «tem a ver com interesses que, antes de serem desportivos, são comerciais e com os direitos sobre um produto e a forma de o repartir!» Palavras lúcidas e que ajudarão a perceber as razões da natação não ir a Minsk e o voleibol viver uma atractiva Liga das Nações!

4. Na verdade esta nova competição do voleibol - a VNL - é um verdadeiro Campeonato do Mundo. Sucede à denominada Liga Mundial e obriga a viagens intercontinentais e a 15 jogos num mês! Hoje Portugal joga no Irão - em Ardabil - e no fim da semana - entre 28 e 30 de Junho - estará na Alemanha, em Leipzig. E já esteve na Argentina - em Mendonza - no arranque deste mês, seguiu para a Rússia e na semana passada, como vimos e lemos, jogou em Gondomar. É uma competição exigente e cada vitória proporciona nove mil dólares por vitória e quatro mil em caso de derrota. Também nas modalidades o quatro competitivo está a mudar. E a exclusividade - e a unicidade - das competições federativas a ser posta em causa. Como se sente e pressente na natação. Daí que importe acompanhar estas novas realidades como bem adverte o Presidente do Comité Olímpico de Portugal!

5. Vivemos nos últimos dias momentos singulares. Intensos e vibrantes. Não dão audiências, dirão alguns gestores, angustiados, de certas televisões. Mas os momentos de fair play no final da final de futsal - entre Benfica e Sporting - e no final da final de basquetebol entre Benfica e a Oliveirense deveriam ter sido repetidos em alguns programas de desporto que certos canais de informação diariamente produzem e emitem. Grandes momentos e instantes intensos. Como deveriam mostrar - uma e outra vez - a página inteira de publicidade que os Golden Stade Warriors, a equipa vencida na final da NBA, publicou no jornal Toronto Star, um dos jornais de referência da cidade da equipa não americana - os Toronto Raptors - que, pela primeira vez, conquistou uma das competições emblemáticas desta aldeia global desportiva. Recordo, no final destas notas soltas, Winston Churchill: «No desporto, na coragem e à vista do céu, todos os homens se encontraram em termos de igualdade»!

6. Hoje o Estádio Nacional a final do Campeonato de Portugal. Vilafranquense e Casa Pia disputam o troféu mas com a alegria de terem conquistado, em diferentes relvados, o acesso às competições profissionais. Sentido, agora, dificuldades acrescidas. E obrigando a jogarem fora dos respectivos estádios, seja em Rio Maior seja em Mafra! E percebendo todos nós que estes clubes, que tiveram uma vitória desportiva, merecem uma compensação financeira imediata por tal conquista. E esta compensação deve ter um impulso da Liga e da sua nova estrutura directiva. Não pode ser apenas para os que descem da primeira à segunda liga. Deve ser para aqueles dois que sobem da competição federativa à competição profissional. Também aqui «todos os homens se encontram em temos de igualdade»!"

Fernando Seara, in A Bola

O adepto desolado

"Simeone já tem o brinquedo: João Félix. O João Félix já tem o brinquedo: 7 milhões de euros.

O Benfica aguarda telefonema do Banco por causa do seu brinquedo: 120 milhões de euros.
Jorge Mendes, o da ideia de duplicar os 60 milhões de pães também vai receber brinquedo: 12 milhões.
Até o FCP vai ter brinquedo. É fartar, vilanagem!
O Simeone tem uma tarefa simples e fácil que é estar obrigado a ganhar a Liga espanhola. ‘Mestre-escola’ de João Félix, acredita que ninguém o verá, a ele Simeone, a fugir em triunfal galope pela Puerta del Sol, já que com as suas aulas o miúdo Félix vai garantir a Liga e o que só Deus sabe.
Ao professor insigne teria eu aconselhado que já agora devia ter mandado contratar o resto da equipa do Benfica porque o rapaz já está habituado a brilhar com aqueles; não aconselharia contratar a Selecção porque isso dá menos jeito ao João.
Ficamos, portanto, a saber que o Félix só poderá evoluir com o Simeone e nunca avançaria nada com o Lage, o que deixou ficar este adepto com tristeza súbita e alma pesarosa.
Por cá, teremos transmissão em directo de todos os jogos do Atlético de Madrid, mesmo com o Lepe para a Taça del Rey, Rey que está mesmo doido por convidar o puto para ir lá jantar a casa.
Também por cá assistiremos à pescadinha de rabo na boca que é a nossa Liga, o Porto, o Sporting, o Benfica, o Braga, o Braga, o Benfica, o Sporting, o Porto, tudo numa rodinha de mão dada, tipo Matisse.
Entretanto, o Simeone que vai fazendo do João Félix um jogador a sério, e sabendo que o Messi não dura sempre, mandará recado ao Jorge Mendes dizendo que o jovem já está pronto para o Barcelona e como foi ele da ideia também quer 10%.
Passados muitos anos, e já em final de carreira, o João Félix regressará finalmente à casa-mãe – o FCP – para jogar à baliza.
Nem tudo me agrada nesta minha previsão, mas eu sou hoje, sem tirar nem pôr, um adepto desolado."

Objectividade e outras invenções

"A ideia de objectividade é muitas vezes usada para impedir que o outro nos contradiga

Objectividade
1. «A minha análise ao jogo é objectiva», eis o que se ouve. A palavra objectividade não sai do centro da linguagem e das discussões. Palavra que parece ser uma espécie de abracadabra. Ser objectivo tornou-se no objectivo. O objectivo de um analista é ser objectivo.
A objectividade tem vários sentidos: por um lado é aquilo a que se quer chegar (o objectivo) e, portanto, reflecte alguém que vai directo ao assunto.
Por outro lado, pessoa objectiva parece ser aquela que não coloca opiniões pessoais a sujar a limpeza da observação pura, aquela que não é influenciada pelo coração, digamos assim, em fala popular.
Mas sejamos claros: não há análise objectiva de um acontecimento humano; tal como, claro, não há análise objectiva de um jogo. E evidentemente não há opinião objectiva. Opinião objectiva é uma contradição nos termos; é até um paradoxo. Divertido.
Objectividade vem de objecto: é assunto, pois, entre objectos, coisas neutras. Subjectividade vem de subjectam, sujeito.
Um objecto assume a sua objectividade, um sujeito a sua subjectividade. E está bem assim. Objectividade há nas ciências exactas, não nas actividades bem humanas.
Na verdade, a ideia de objectividade é muitas vezes usada para impedir que o outro nos contradiga. Quando alguém afirma, de modo assertivo:
- O que eu digo é objectivo,
Está, afinal, no fundo, a afirmar:
o que eu digo é verdadeiro, o que eu digo não pode ser contrariado ou não pode receber contra-argumentos.
Em síntese, quando alguém diz:
a minha opinião é objectiva
está a impedir que o outro continue, está a terminar o diálogo.
Pelo contrário, quem afirma:
- O que eu digo é subjectivo
está a assumir que há a possibilidade de contraditório, está a permitir a continuação da conversa.
Historicamente, a objectividade esteve muitas vezes ao lado da violência e das ditaduras políticas porque precisamente não permite o contraditório. O poder usa muito a objectividade.

Cinco minutos
2. Há numa frase brutal do cineasta Godard, um dos gigantes do cinema, que, numa entrevista, quando lhe perguntaram sobre a objectividade ou não dos seus filmes, respondeu:
«Objectividade? Objectividade são 5 minutos para Hitler e cinco minutos para os judeus».
Uma frase terrível que simplesmente está a dizer isto: tudo depende do lado em que estás, tudo depende do ponto de vista humano.
A objectividade não é uma questão que diga respeito aos humanos. Mas apenas às máquinas e aos deuses, bons e maus.

A palavra jornalista
3. A palavra jornalista segundo parece, claro, tem origem no francês. A «palavra anglo-francesa jornal, no século XIV, designava um livro que ficava nas igrejas, no qual se faziam registros dos serviços ali prestados» (Gabriel Perissé). No século XVI, jornal, «era um livro usado no comércio para registro de operações de compra e venda». Mais tarde, jornal recebeu o significado de diário, relato do dia individual.
Neste sentido, um jornalista que trabalhe num jornal semanal ou numa revista mensal pode ser considerado uma contradição e ir contra a velha origem da palavra. Alternativa para jornalista que trabalha com outros tempos que não as vinte e quatro horas: semanista, mensalista, enfim as opções são péssimas. Fiquemos com jornalista.
A jorna é o dia de trabalho. Jornalista, neste sentido, seria aquele que relata o dia de trabalho de outros. Mas não se confunda isso com o homem preguiçoso; o jornalista, etimologicamente, é aquele cujo o trabalho era relatar a jorna; a sua jorna seria o relato da jorna.

O que fazer?
4. Um jornalista deve ser objectivo? Não, um jornalista deve tentar usar a sua subjectividade mais verdadeira. E é só. Um jornalista deve, no fundo, ser um sujeito sério. E isso é já imenso. É o imenso a que um humano pode chegar.
Mas, claro, tudo isto é um pouco subjectivo."

Gonçalo M. Tavares, in A Bola

O caso Yedlin

"O Regulamento da FIFA sobre o Estatuto e Transferência de Jogadores (RSTP) obriga - para além da compensação por formação, em certos casos - ao pagamento de uma taxa ao abrigo do mecanismo de solidariedade, sempre que um jogador é transferido para outro clube antes no final do seu contrato, e essa transferência envolveu a mudança para outra federação.
A Federação dos EUA não implementa, em toda a linha, o RSTP, porquanto é entendido que o mecanismo de solidariedade, tal como ele está previsto nas regras da FIFA, pode colocar em causa as regras da concorrência em vigor nos Estados Unidos, entre outros argumentos.
Assim, quando Yedlin foi transferido dos Seattle Sounders para o Tottenham Hotspur, este último clube contactou o Crossfire Premier - clube onde o jogador tinha treinado enquanto jovem - para lhe pagar o valor correspondente ao mecanismo de solidariedade. O valor acabou por ser entregue à Liga norte-americana - a MLS. O Crossfire levou o caso à Câmara de Resolução de Disputas (DRC) da FIFA, que decidiu recentemente, rejeitando a queixa do clube.
O DRC diz, em primeiro lugar,que o clube tinha direito a receber pagamentos de solidariedade. Porém, rejeita o pedido em que o Tottenham já havia pago o valor total da taxa de transferência à MLS, conforme indicações da própria MLS e da Federação norte-americana, tendo assim agido de boa-fé.
A decisão tem outros elementos relevantes para esta importante discussão sobre a aplicabilidade dos Regulamentos da FIFA pelas várias federações nacionais, podendo fundamentar uma revisão da situação dos pagamentos referentes ao mecanismos de solidariedade nos EUA."

Marta Vieira da Cruz, in A Bola

Grandes eventos desportivos, mediatização e espectáculo

"Como poucas actividades, o desporto tem explorado desde o início o potencial da globalização. Neste âmbito, importa realçar os grandes eventos desportivos, sobretudo os Jogos Olímpicos e os Campeonatos Europeus e do Mundo de Futebol. Estes eventos maiores assumem um interesse económico, político, comunicacional e turístico.
Os Jogos Olímpicos, “ressuscitados” por Pierre de Coubertin, em 1894, são um grande evento internacional, com desportos de Verão e de Inverno, em que milhares de atletas participam em várias competições. Os primeiros Jogos Olímpicos Modernos foram celebrados em Atenas, em 25 de Março de 1896, com a presença de milhares de espectadores. Os Jogos Olímpicos assumiram uma grande notoriedade entre as duas Guerras Mundiais, com o aumento constante do número de atletas e de nações participantes. O Olimpismo tornou-se uma filosofia de vida, que combina um conjunto equilibrado de qualidades do corpo, de vontade e de espírito. Aliando desporto, cultura e educação, o Olimpismo pretende criar um estilo de vida.
No caso do futebol, ele é o “estádio supremo da mundialização”. O seu império não conhece fronteiras nem limites. É a “futebolização” da sociedade. Nem todas as modalidades desportivas conseguem vingar no mercado do espectáculo desportivo. De sublinhar também que os meios de comunicação modificam a relação de tempo e de espaço. De fato, os médias, em primeiro lugar a televisão, oferecem o acesso ao desporto a um grande público e, por esta via, assegura o sucesso comercial das competições e a notoriedade dos desportistas e dos clubes. No entanto, a retransmissão do espectáculo desportivo pelos canais privados, depois de uma longa época do “desporto público”, construiu uma obrigação de resultados que reforça a lógica de concorrência entre os diferentes canais (tipo de emissões desportivas, horas de difusão, exclusividade dos direitos de retransmissão). O surgimento de novos média, a multiplicar as possibilidades de retransmissão em directo dos eventos desportivos, com os satélites, contribuíram amplamente para ajudar na globalização do desporto.
O espectáculo desportivo tem uma antiguidade secular. No entanto, ele apresenta nas sociedades contemporâneas desenvolvidas uma singularidade. Os megaeventos assumem uma importância considerável em termos de trocas, transferência e difusão de informação, valores e tecnologias. Na pré-era da televisão, eram o principal veículo da globalização da cultura. Os megaeventos, na sua argumentação, exibem simultaneamente três características principais. Eles são “modernos e não modernos”, “nacionais e não nacionais”, “locais e não locais”."

Para uma ética pós-moderna no futebol

"Correndo embora uma aragem de inquietação nesta (quase) Republica dos Corvos (lembram-se d’A República dos Corvos do José Cardoso Pires?), desde a Educação e a Saúde até às Forças Armadas e à Segurança Social, no futebol corre dinheiro aos milhões, o que me deixa tenso e retenso de inquietação e surpresa. Talvez só a mim e a muitos poucos mais, pois que não oiço um tropel de vozes guturais, trazidas pelo espanto, ou até pela indignação, a questionar por que, nesta Europa cristã, há tanto dinheiro para umas coisas e falta para outras.
Se aqui estivesse um dos corvos de São Vicente, remataria sempre do mesmo modo: “Deixe lá, isto já não tem conserto e, mais dia menos dia, todos os males da gente têm o mesmo fim”. Mas eu, como o Santo António (não quero comparar-me, em capacidade retórica, a este santo que, exceptuando o padre António Vieira, é incomparável na história da oratória nacional) – mas, como ia dizendo, eu, como o Santo António, não sou pessoa, para deixar azedar, dentro de mim, o que tenho para dizer. Procuro ser educado, polido, cortês, mas não escondo o acordo ou o desacordo, diante dos “vencedores” que fazem a História. Até no tempo do “Dinossauro Excelentíssimo” o fiz, mas com um cuidado tal que chego a ter vergonha das minhas infidelidades à ideologia “estadonovista”. No entanto, é da minha autoria o primeiro livro, editado pela Direcção-Geral dos Desportos, em Junho de 1974, depois da Revolução dos Cravos portanto, intitulado Para uma nova dimensão do desporto onde reuni textos escritos por mim, entre 1964 e 1974. O livro jazia escondido, numa gaveta da secretária do director-geral e esclarecia, no prefácio, que “o título Para uma nova dimensão do desporto quer dar o tom a uma iniludível maneira de ver o desporto (…) como prática medial ao serviço do Homem. Visão, por isso, tributária de uma tomada de posição do autor que, em primeiro lugar, significa ruptura com o complexo ideológico que informa o desporto português”…
Max Weber incitava os seus alunos e os seus inúmeros leitores, em Le Savant et le Politique, a “estarmos à altura do quotidiano”. Ora, o que para mim me parece mais evidente, no mundo de hoje, é a relativização dos valores. E porquê? Faço minhas as palavras de Miguel Real, na sua obra Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa (Quidnovi, Maio de 2008), porque 
1. Nada de exterior e transcendente (Deus, Sociedade, Humanidade, Razão, História, Inconsciente, Classe Social…) é superior e determinante, face à consciência singular do sujeito.
2. Nenhum valor em si e nenhuma escala axiológica encontram legitimação universal, fora da sua instauração epocal, social e histórica, ou seja, civilizacional e, por isso, uma consciência individual pode ou não segui-los, sendo sempre legítima, seja seguindo-os, seja não os seguindo.
3. Nenhum código linguístico e nenhuma substância de linguagem podem dar conta da realidade em si, da sua essência, senão fragmentaria e incompletamente; apenas uma fortíssima linguagem emotiva, exterior à razão, como a poesia, subvertendo as conexões semânticas da língua, nos pode aproximar e revelar a essência do homem e do mundo.
4. Nenhum corpo doutrinal (Filosofia, Teologia, Religião, Ciência, Ideologia…) é intrinsecamente capaz de espelhar com realidade o movimento e a substância do Ser.
5. Finalmente, nenhuma acção colectiva ou individual, nenhuma palavra colectiva ou individual são capazes de preencher, senão ilusória e efemeramente, o vazio de absoluto que se instaurou no coração do homem, nestes momentos terminais de uma civilização que, tendo conhecido o paraíso da crença inocente, se oferece hoje a si próprio o inferno de uma aceleração histórica, tão feita de presente fugaz quanto de um futuro sem sentido” (pp, 377/8).
O relativismo axiológico não significa relativismo epistemológico, mas implantação de um fundo agnosticismo na mais funda raiz do nosso ser. Um relativismo onde o “espírito de geometria” prevalece sobre o “espírito de finura”. Onde a quantidade reina e a demagogia se perfila como um dos fatores essenciais do sucesso do relativismo axiológico.
Aprende-se, na fenomenologia: “Toda a consciência é consciência de alguma coisa”. Ou seja, a consciência procura algo ou alguém que não é ela e, portanto lhe é transcendente (no sentido de exterior). Assim, a consciência define-se como intencionalidade. Por outras palavras: qualquer coisa, qualquer pessoa são “fenómenos” para a consciência. O lema do existencialismo: “a existência precede a essência” é assim explicado, precisado por Sartre: ”significa que o homem primeiro existe, descobre-se, surge no mundo e só depois se define. O homem (…) primeiro não é nada. Será apenas depois e será exactamente o que tiver feito de si próprio”. O sujeito sartriano não possui essência, não possui natureza, todo o seu ser radica na ação, na práxis, na criação. Se bem penso, o espaço onde se situa o pensamento de Sartre é o ético ou moral. Vejamos o que ele nos diz, no L’Existentialisme est un Humanisme: “O homem será, antes do mais, aquilo que projectou ser”. E recorrendo ainda ao mesmo livro: portanto, “o homem está condenado a ser livre”. O ser humano é livre e, se é livre, é responsável. Para mim, em Sartre, o ser humano é um sujeito eminentemente ético, por esta razão óbvia: porque se faz, fazendo. Na motricidade humana, que eu defino como “o movimento intencional e solidário da transcendência”, também o atleta, o bailarino, etc. se fazem, fazendo. E, pela transcendência, são projectos que assumem uma situação, para superá-la, ininterruptamente, até ao Absoluto… sempre desejado e sempre inalcançável! Toda a prática desportiva, designadamente a altamente competitiva, vive em êxtase do possível. Conheci um treinador de futebol que me dizia, com as pupilas a destilarem gotas de malícia: “Um jogador profissional de futebol tem de tê-los no sítio. Caso contrário, tem de mudar de profissão”. E sublinhava: “A coragem é das primeiras qualidades, na alta competição. Vê o Maradona? Faz coisas lindas com a bola. Mas leva porrada e não desiste e não se atemoriza. Sem coragem, ele não faria a maioria dos golos que faz”.
Já aqui lembrei a teoria dos três infinitos de Teilhard de Chardin: existe o infinitamente grande dos espaços siderais. Diante deles, cada um de nós nem um grão de areia parece. Mas também existe o infinitamente pequeno dos micro-organismos, que só máquinas potentíssimas podem descortinar. Mas, além de tudo isto, uma outra grandeza se descobre: o infinitamente complexo da consciência humana, com uma nobreza e uma beleza e uma grandeza moral inimagináveis. “Um único ato de amor, notava, com argúcia, Blaise Pascal, vale mais que o universo físico inteiro”. E eu, na sequência de Pascal e de Teilhard de Chardin, costumo dizer: “vale mais uma lágrima humana do que todas as taças e todos os campeonatos do mundo”. Oxalá João Félix aprenda a ser mais homem, no seu novo clube, o Atlético de Madrid, que dele mais não quer do que fazer dele um grande jogador de futebol. Diego Pablo Simeone, o treinador dos colchoneros, afirmou em entrevista à Imprensa: “Historicamente, o Atlético é uma equipa que compra jogadores jovens, para evoluírem. Como aconteceu com o Oblak que, quando chegou, não era o jogador que é hoje. Do João Félix esperamos que seja um rapaz com talento e que possa absorver as nossas ideias. Estamos a trabalhar, no seio do corpo técnico, para criar, para ele, as situações necessárias à sua evolução como jogador de futebol”. No entanto, também de sólida e solidária afectividade é demasiado importante, na evolução de um jogador profissional de futebol, para ser esquecida. Concordo que o futebol seja, para algumas pessoas, cada vez mais, um jogo de números, centrados que estão na análise estatística. Mas nem o futebol (nem o desporto) é matemática tão-só. O Messi é um exemplo a ponderar. “Parece incrível que, 132 jogos depois, Messi continue sem encontrar lugar na selecção” (Valdano, in A Bola, de 2019/6/22). Por falta de tecnologia, ou de ciência físico-matemática, ou de números?... O ser humano distingue-se, pela sua qualidade. Quantitativamente, é um “bicho fraquinho”."

A posição assombrada: a saga de defesas esquerdos

"De há uns anos a esta parte, o Sport Lisboa e Benfica conseguiu, finalmente, colmatar a lacuna na lateral esquerda com a contratação de Álex Grimaldo.
Numa altura em que o plantel dos encarnados valorizou consideravelmente e, tendo em conta as exibições do lateral espanhol ao serviço das águias, até quando conseguirão os dirigentes benfiquistas manter Grimaldo?
Cobiçado por várias equipas de renome internacional, entre elas o seu antigo clube, o Barcelona, Grimaldo é visto como um bem valioso no plantel do Benfica. Assim, surge, entre os adeptos, o receio de se voltar a ter o grande problema da história recente do Benfica: a “falta” de defesas esquerdos.
Desde a saída de Fábio Coentrão na temporada de 2011/12, para o Real Madrid, os laterais esquerdos sempre foram mal amados no Benfica.
Joan Capdevilla, Carole, Luís Martins, Emerson, Melgarejo, Luisinho, Bruno Cortez, Guilherme Siqueira, Eliseu e Benito. Uns com mais sucesso que outros, mas todos com uma algo em comum: não eram bons o suficiente na perspectiva dos adeptos. Grimaldo chegou, enfim, na época de 2015/16 e, embora não tenha sido titular de imediato, conseguiu ocupar o lugar que era, até então, do campeão europeu Eliseu.
O actual suplente de Grimaldo é Yuri Ribeiro, internacional português de 22 anos, no entanto, bem que podia integrar o lote de defesas esquerdos supramencionados, uma vez que não é visto como uma opção válida para o sector defensivo das águias.
Conseguirá a SAD encarnada manter a jovem promessa espanhola? Entrará o SL Benfica no mercado por uma alternativa a Grimaldo? Será este o lugar assombrado do plantel dos atuais campeões nacionais? As questões levantam-se e as respostas não aparecem."

Benfiquismo (MCCXV)

O prolongamento não correu bem...

Sabe que é? Até contra insulto treina - Raúl de Tomás

"Com treinador privado voltou ao destino que Zidane lhe pusera à janela; Dominicano, não quer que lhe digam que é

1. Amiúde o afirmou: «Vários vezes, ao ver resumos na televisão, o ouvi: Golo do dominicano... Boa jogada do dominicano. Não me sentia mal, mas não gostava, não era assim porque eu não sou dominicano, nasci em Madrid, joguei por todas as selecções de Espanha até aos sub 19». Sim, nasceu em Madrid (em Outubro de 1994) e a «confusão» tinha uma razão: «Da República Dominicana é a minha mãe. Veio para Espanha, conheceu o meu pai, logo começaram a trabalhar juntos numa escola de condução».
2. O pai jogara futebol e, chamando-se Raúl como ele, também era avançado. Não passou, porém, de equipas da segunda B: o Yeciano, o Tomelioso, o Torrevieja - e ao abrir a sua própria escola de condução em Algete colocou o filho no CD San Roque EFF, escolinha de futebol na zona de Barajas. Dois anos após a sua chegava ao CD San Roque EFF, o olheiro que se aventura-se a partida contra o Alameda, convidou-o a ir a um teste ao Real. Estava a caminho dos 9 anos - e jogava como médio, tentando imitar seu ídolo: o Zinedine Zidane.
3. O Real pô-lo a estudar num colégio interno e mudou-lhe a posição: para ponta de lança. «A cada ano que passava, via 10 jogadores a saírem, 10 novos a chegarem - e só pensava: não quero que isso me aconteça». E não, não aconteceu: ainda júnior saltou para o Real Madrid B, o Castilla (a estreia foi por Abrl de 2012, contra o CF Pozuelo de Alarcón, na III Divisão). Desatou a marcar golos - só saiu da equipa por causa de cartão que o levou a suspensão: «Puseram um brasileiro, o William José, no meu lugar, ele fez hat-trick e a partir daí tudo se torceu para mim». Pior foi, contudo, lesão num ombro que o atirou, por semanas, para o estaleiro. Voltou ao seu furor (e aos golos) na temporada de 2013-2014.
4. Ancelotti levou-o à pré-época do Real nos Estados Unidos e, em Outubro de 2014, chamou-o a jogo com o EU Cornellà para a Taça do Rey (e entrou a substituir Benzema): «Foi sensação incrível. Como fora o ter entrado pela primeira vez no balneário da equipa principal, estar entre todas as estrelas, ali onde qualquer jogador gostaria de estar - e ir lá mais duas vezes para ser suplente com Celta e Real Sociedad».
5. Com a época de 2014-2015 à vista, passou-lhe pela cabeça pedir que o emprestassem, mas ao soltar-se a notícia de que Zidane passaria a ser treinador do Castilla - tirou de lá a ideia: «Pensei que seria grande ano para mim. Zidane, deu-me confiança extrema - não lha retribui, as coisas não me saíram como tanto queria».
6. Como se o tivesse decepcionado, assumiu-o, amachucado: «Uma das janelas da sua sala no Castilla dava para o campo de treinos da primeira equipa do Real - e um dia em que fui falar com ele, Zidane, apontado para lá, disse-me: Quero ver-te ali em baixo! Meti esse papel em mim - e o ano não me sair bem. De qualquer forma, nunca esquecerei o que Zidane me disse ao despedir-me dele: És um grandíssimo jogador, centra-te nisso e verás que te correrá bem...»
7. Deixou o Castilla emprestado ao Córdoba - e para regressar ao futuro contratou Pablo Arias, PT que para além de lhe dar treino privado de ginásio todas as tarde, lhe criou uma dieta especial: «Também se tornou psicólogo: motivando-me, ensiando-se a suportar a pressão, a ignorar até insultos e ataques nas redes socais».
8. Do Córdoba foi para o Valladolid - e não tardou que se desatassem a notar-se os efeitos da transformação a que Pablo Airas o atirou: «Fui ficando com o corpo cheio de músculo, sem perder rapidez. Pelo contrário - ganhei a velocidade que, em dois ou três metros, pode fazer a diferença entre um golo ou não». Se sou capaz de correr os 100 metros em 11 segundos? Não sei, nunca corri numa pista, mas a velocidade encanta-me, dela vivo também no meu trabalho...»
9. Largou o Valladolid - e no Rayo Vallecano começou a tocar o paraíso (sempre com Arias a seu lado): fez 24 golos e foi determinante para a vitória no campeonato da II Divisão. Lopetegui não quis de volta ao Real (que lhe prolongara contrato até 2023) - e, ao sabê-lo, Sousa Cintra lançou-lhe, em vão, canto da sereia. Na época passada continuou de fogacho no pé no Rayo Vallecano, Zidane ainda cogitou abrir-lhe o plantel do Real - e o Benfica dispôs-se a dar 20 milhões de euros para o ter na Luz."

António Simões, in A Bola

sábado, 22 de junho de 2019

13.ª Medalha num Europeu !!!

Em 16 épocas, a Telma, só falhou uma medalha num Europeu por três vezes - duas delas estava lesionada! Curiosamente, só no Europeu de Lisboa, falhou!!!
Hoje nos Europeus de Judo, incorporados nos Jogos Europeus de Minsk, voltou a conquistar o Bronze...
Foi pena a derrota nas Meias-Finais, com 3 castigos (os últimos dois, praticamente de seguida!!!), porque a Telma estava com gás para ir até à Final...
É claramente o melhor resultado, no período pós lesão (pós-Rio), é verdade que 'faltaram' as adversárias não-Europeias, mas apesar da idade, a qualidade não desapareceu...

São 5 Ouros, 1 Prata e agora 7 Bronzes, em Campeonatos da Europa, currículo extraordinário!

Origens de João Félix...