Últimas indefectivações

domingo, 16 de junho de 2019

David Banda e outras notas soltas

"Proença sabe, como bem percebeu nas presenças e, acima de tudo, nas ausências, que o caminho está cheio de degraus

1. Pela Europa, e só por este continente, e em termos de futebol, é tempo de férias. De férias e de casamentos pomposos. Daí que quase estejam definidos os potes da próxima edição da Liga dos Campeões. O Benfica sabe que só pode chegar ao simpático pote 2 se ou o Futebol Clube do Porto ou o Ajax não chegarem ao sorteio dessa fase. E ficar no pote 3 significa defrontar, nessa fase, os grandes nomes do futebol europeu: Liverpool, Barcelona, Juventus, Bayern de Munique, PSG, Zenit, Manchester City e Chelsea no pote 1. Mais o Real Madrid, Atlético, Dortmund, Nápoles, Shakhtar e Tottenham, por ora, certo no pote 2. E a anunciada reconquista europeia depois da extraordinária reconquista nacional é um legítimo desígnio directivo e uma permanente ambição da fiel e dedicada massa associativa do Benfica. Tendo a Academia do Seixal, e bem - como o João Fonseca da Rádio Renascença, e da sua Bola Branca, bem retratou esta semana -, como essência e como referência. Com múltiplos exemplos que se afirmam no futebol europeu - como Bernardo Silva ou Gonçalo Guedes, Semedo e Candelo - e outros que atraem, em razão do seu indiscutível talento, as gandes marcas do futebol europeu, como é o exemplo concreto do João Félix. Sei bem que eu gostaria que ficasse mais tempo por cá. Mas os meus desejos são, tão só, os de um visiense que sabe que só no mesmo berço se nasce e se morre. No mais vivemos no mundo. E o mundo do futebol é cada vez mais atractivo e bem sugestivo!

2. Por cá resta-nos hoje a final do futsal. Num pavilhão do Estádio da Luz totalmente esgotado, Benfica e Sporting lutam pela conquista do título nacional. E numa época em que o Sporting já conquistou o título europeu. O que sabemos é que o futsal tem cada vez mais praticantes - no feminino e no masculino! - e atrai cada vez maior número de telespectadores. Ou seja tem compromisso, paixão e qualidade!

3. Também no basquetebol há disputa acesa pelo título de campeão nacional. Amanhã, também num Pavilhão do Estádio da Luz, Benfica e Oliveirense disputam o quarto jogo e o Benfica sabe que tem de ganhar para lutar na próxima quinta-feira, em Oliveira de Azeméis, pela reconquista e impedindo que a forte e solidária equipa da Oliveirense se sabre bicampeã nacional. Acredito que amanhã o Pavilhão do Estádio da Luz também estará esgotado e largas dezenas de oliveirenses não deixarão de acompanhar, com verdadeiro sentido de Família, a equipa de uma cidade que se afirma nos moldes, nos sapatos e... no desporto. Do hóquei ao basquetebol e com um esforço notável das suas gentes e uma paixão que, de verdade, contagia e apaixona!

4. Arrancou no Brasil mais uma edição - a 46.ª - da Copa América, a mais antiga competição de selecções. E já com o VAR a ter protagonismo! No jogo inaugural e, também, ontem no Perú - Venezuela! A primeira edição oficial da competição teve lugar em 1917 no Uruguai. E desde 1993 são convidadas a participar em cada edição duas selecções que não pertencem à Confederação Sul-Americana de Futebol. Nesta edição a convidadas são as selecções do Qatar e do Japão. O Brasil sem Neymar tentará conquistar a nona Taça e, assim, regressar ao sucesso nesta competição, o que não ocorre desde 2007! A argentina de Messi procura erguer pela décima quinta vez o troféu. O Uruguai de Coates procura a décima sexta. O Chile de Alexis Sánchez procura o tri. E a Colômbia, agora liderada por Carlos Queiroz, ambiciona conquistar pela segunda vez este troféu de uma competição emblemática. E que recebeu grandes nomes da história do futebol, como Pelé e Bebeto, Batistuta e Roberto Dinamite, Aguillea e Burruchaga que foram, mesmo em diferentes edições, os melhores marcadores! Agora até ao doa 7 de Julho a Copa América vai prender a nossa atenção e a de largas dezenas de olheiros! E com jogadores que bem conhecemos dos nossos relvados, como Acuña e Borja, Osorio e Murillo, sem esquecermos Éder Militão.

5. No próximo dia 21 arranca no Egipto a 31.ª edição da Taça Africana das Nações ou, na sua designação em língua francesa, a CAN. Os Camarões perderam a organização e, num ápice, o Egipto irá acolher as vinte e quatro selecções que vão disputar uma prova em que marcam presença 28 jogadores que actuaram, quase que exclusivamente, na época que agora termina nas duas competições profissionais portuguesas. São dezanove os clubes representados, como o Sporting e o Futebol Clube do Porto, o Rio Ave e o Moreirense,  Académico de Viseu e o Mafra, o Fabril e o Tondela, o Braga e o Santa Clara, o Boavista e o Amora, entre outros. É claro que esta Taça acompanha o arranque da independência de inúmeros Estados africanos e na primeira edição já não marcou presença - ao contrário do que inicialmente fora anunciado -, por razões óbvias, a África do Sul. A primeira edição ficou restringida a três selecções, o Egipto (ganhou a final por 4-0 à Etiópia), o Sudão e a Etiópia. Também importa acompanhar as selecções lusófonas, como Angola (com Bruno Gaspar e Mateus, entre outros) e a Guiné-Bissau (com Mama Baldé e Bura). E lá também estarão muitos olhos a acompanhar, até 19 de Julgo, esta CAN!

6. Pedro Proença foi reeleito, com uma quase que unanimidade, como Presidente da Liga de clubes. É uma quase que unanimidade que deve suscitar uma sério alerta do homem do desporto - e da gestão! - Pedro Proença. Sabe, como bem percebeu nas presenças e, acima de tudo, nas ausências significantes, que o caminho que vai percorrer está cheio de degraus e de múltiplas pedras. Sabe que tem de ser o denominador comum e não, apenas, o mínimo divisor comum. Sabe que desde hoje tem de conquistar - e de reconquistar - a generalidade dos clubes (diria em rigor das SAD's) e, com eles, procurar as causas comuns que os unam. Com a consciência que os tempos que se aproximam serão complexos, exigirão paciência e argúcia, determinarão alianças difíceis e rupturas inequívocas. É que o futebol português vai atravessar momentos europeus de decisões e instantes internos de certas convulsões.

7. A Ucrânia conquistou o Mundial de sub-20 na Polónia. É uma grande vitória e evidencia um trabalho de base que importa conhecer e reconhecer. E para a afirmação ucraniana foi um sábado histórico e para ficar na sua história. Com a Rússia, ao lado a ver, e a assistir, à bonita festa azul e amarela!

8. Nas últimas semanas, e pelo que leio - e escuto em diferentes e temáticos programas -, já mais de quarenta jogadores estarão à porta do Seixal e na antecâmara do Estádio da Luz. Estou como o extraordinário Camilo Castelo Branco: «A paciência é a riqueza dos infelizes!»

9. Cheguemos a David Banda. Um dos filhos de Madonna. E que leva a Mãe a «não deixar Lisboa»! E a nós a chamá-lo para o título deste artigo! É que o David joga futebol no Benfica! Centrado e concentrado, assim, na Academia do Seixal. Sabendo que ela, como lemos na última edição da Visão, vive «na TAP Air Portugal»! E com a nossa companhia a descobrir novas rotas americanas. Coincidências. Mas como escreveu o Marquês de Maricá «as circunstâncias ordinariamente nos dominam, poucas vezes nos obedecem»!"

Fernando Seara, in A Bola

Uma história sobre o racismo

"Até que um dia de manhã todos os jogadores apareceram pintados de negro, eram «os matraquilhos mais africanos do mundo»

O dia
1. O racismo na cidade e no desporto. Tantas abordagens. Olhemos para a história de Mia Couto de que tinha prometido falar em tempos. Sim, é sobre matrecos. Sim, é sobre o racismo.
Matrecos: modalidade para futebolistas imóveis dos pés; futebolistas dos pulsos, concentrando habilidades imaginárias no campo mínimo por via de músculos também mínimos que torcem e deslocam bonecos apenas para a esquerda ou para a direita, ligeiramente para a frente ou para trás; poucas possibilidades, portanto. Sem a possibilidade de grandes recuos, avanços ou saltos.
Os bonecos são colocados em linha, unidos por uma barra de ferro que os atravessa ao meio - e, descrevendo desta maneira, quase parece estarmos a falar de filme de terror e não de um jogo divertido.
Sim, é um conto sobre matrecos; o conto de Mia chama-se: O dia em que fuzilaram o guarda-redes da minha equipa.
Um título nada manso.

Um golo que cai
2. É um jogo quase simbólico, mas mesmo assim intenso, excitante. O narrador do conto fala dessa vibração de multidões imaginárias quando a bola de madeira «escorrecaía» no buraco da baliza.
Um verbo novo - «escorrecaía» - que é mesmo necessário: o golo em matraquilhos mistura o golo da modalidade bem conhecida - que ultrapassa a linha na horizontal - e uma pura queda abrupta. É um golo horizontal e vertical: ultrapassa o guarda-redes e cai. E uma bola que cai e desaparece no exacto momento do golo é um dos mistérios que encanta os meninos no jogo de matraquilhos. Uma espécie de magia. Mas há outros mistérios.

A história
3. Na história de Mia é dito que a mesa de matraquilhos «dormia fora do bar, ao dispor do luar que tombava no pátio». No enfanto, os ladrões não a cobiçavam: o seu peso era excessivo para larápios rudimentares. O que é pesado, como todos sabem, só pode ser roubado por via de uma qualquer grande empresa multinacional.
O narrador conta, então, que «nós, sem idade e com as raças todas à mistura, só podíamos frequentar o imaginário relvado no intervalo dos outros». O «nós» era crianças; e os outros eram os militares, os que ocupavam o campo com a sua autoridade e com tudo o resto: a mesa da matraquilhos era nossa só quase às vezes.
Uma disputa não física entre crianças e soldados. De quem é o campo? O campo é nosso (das crianças) «só quase às vezes» - uma bela síntese.
Mas o terrível do conto aparece depois.

A noite
4. Numa noite, algo aconteceu. Na manhã seguinte, um dos jogadores apareceu pintado de preto. As pessoas em volta, claro, chamaram ao novo jogador daquela mesa de matraquilhos: Eusébio.
«Depois», escreve Mia Couto, «apareceram mais três avançados, subitamente transcoloridos. Ainda encontraram piada, anedotaram. Distribuíram mais nomes: Coluna, Vicente, Mataeu». Até que um dia de manhã todos os jogadores apareceram pintados de negro, eram «os matraquilhos mais africanos do mundo». Desde o guarda-redes até ao avançado.
Na história de Mia Couto narra-se que um dos soldados, ao ver aquilo, ficou doido de irritação - e ninguém o foi capaz de segurar. Diante da mesa de matraquilhos, puxou da arma e apontou, diz a criança que narra o conto, para o «guarda-redes da minha equipa».
A descrição é terrível: «o tiro soou e o pequeno boneco esvoou, salpicando estilhaços, mais súbitos que o sangue».
O narrador de Mia termina dizendo: «Ainda hoje aquele tiro continua ressoando em minha vida, junto com esse outro grito que, por engano de um relâmpago, me pareceu sair do bonequinho alvejado».
Este terrível grito imaginário do guarda-redes de matrecos fuzilado: um grito simbólico, mas que ainda ressoa - o grito da vítima violenta do racismo."

Gonçalo M. Tavares, in A Bola

Scolari e Jesus, cultura e técnica

"Luiz Felipe Scolari, brasileiro, veio treinar a Selecção em 2003 e um ano depois, aquando do Euro que Portugal acolheu, reclamou dos portugueses que estendessem bandeiras, daí resultando uma histórica vaidade. Agora, Jorge Jesus, português, vai chefiar o maior clube do Brasil, o Flamengo. Dir-se-á que uma coisa é conduzir a grande equipa nacional e outra uma grande equipa nacional, mas lembrando que há 10 milhões de portugueses e 40 milhões de adeptos do Flamengo a perspectiva muda.
Comparando a experiência de Scolari por cá com a que se aguarda de Jesus por lá parece-me que as estratégias dos treinadores irão revelar-se distintas. Scolari quis lembrar aos portugueses que eram portugueses e ganhou com isso, mas Jesus não pode recordar aos brasileiros que são brasileiros porque dessa forma se submeterá a que eles, inteirados da historia de futebol com que encantaram o mundo, desatem a pergunta o que raio anda afinal um português a fazer à frente do Flamengo. O caminho de Jesus, então, terá de ser eminentemente técnico, o que para o caso o favorece, pois é nisso que ele se evidencia.
Scolari em 2003 beneficiou de uma acostagem notadamente cultural ao novo cargo, pois em Portugal não encontrou nem orgulho nem tampouco preconceito para com a chegada de treinadores forasteiros. Assim, nem precisou de ser perito, vertente na qual, reconheçamos, nunca surpreendeu por cá (ou em qualquer lado). Já Jesus preferirá sê-lo, sim, técnico, especialista, porque no Brasil enfrentará tanto de orgulho como de preconceito para com estrangeiros no futebol. Não precisará de ser cultural ou pretensamente ideólogo, óptica na qual também dificilmente poderá impressionar por lá (ou em qualquer lado)."

Miguel Cardoso Pereira, in A Bola

O TJUE e o Direito do Desporto

"A 13 de Junho foi publicado Acórdão do Tribunal de Justiça da União Europeia no processo C-22/18, que conhece, em sede de reenvio prejudicial - forma de colocar questões ao TJUE relativas à conformidade de determinada situação ao direito da União Europeia - de uma matéria muito relevante.
A questão diz respeito à proibição, estabelecida em Regulamento da Associação Alemã de Atletismo, em 2016, de participação nos campeonatos nacionais de atletismo na categoria de seniores amadores, de nacionais de outros Estados-Membros. Contudo, pode ser atribuído aos atletas em causa, em certos casos e em certas condições, um direito de competir sem classificação.
A Associação alega que o campeão da Alemanha deve ser um atleta de nacionalidade alemã que possa participar em campeonatos internacionais sob a abreviatura GER, ou seja, Alemanha.
Devido a esta alteração, Daniele Biffi, italiano residente na Alemanha, foi excluído de um campeonato e apenas beneficiou do direito a competir num outro campeonato, «sem classificação» e, nos casos que incluem eliminatórias e uma final, sem poder participar, tendo, juntamente com o seu clube, contestado esta situação perante um Tribunal Alemão.
No seu acórdão, o TJUE determina que esta proibição viola o direito da União, a menos que seja justificada por considerações objectivas e proporcionadas, o que cabe ao Tribunal Alemão verificar.
O TJUE sublinha que se afigura legítimo reservar a atribuição do título de campeão nacional numa certa modalidade a um nacional, sendo, todavia, necessário que as restrições impostas respeitem o princípio da proporcionalidade."

Marta Vieira da Cruz, in A Bola

A ideia na caixa de fósforos que resistiu à morte anunciada: como nasceu a Liga das Nações

"No desporto, como em qualquer outra área relevante para as sociedades, há sempre desvantagens que a inovação tem de ser capaz de vencer: o hábito e a compreensão.
A existência prolongada de um contexto fá-lo parecer inquestionável. Mais ainda se esse contexto respira num universo conservador, com líderes tradicionais, como acontece – sem com isto estar a fazer juízo de valor sobre os seus méritos – na maioria das federações de futebol do mundo.
Um dos axiomas com que a Europa viveu (aparentemente sem qualquer dificuldade) nas últimas seis décadas, foi o de que as selecções nacionais fariam jogos particulares ou amigáveis todos os anos. Mesmo em momentos de enorme tensão nas épocas desportivas dos jogadores nos seus clubes, afinal, os responsáveis pela sua formação, desenvolvimento e, digamos sem nenhum receio, pelos seus salários.

Caixa de Fósforos
Porventura, por ter pouca ou nenhuma base de futebol, cedo levantei este tema. Compreendo, no limite da minha absoluta ignorância futebolística, que um seleccionador necessite de jogos de preparação antes de uma grande competição internacional, como um clube deles faz uso antes de cada temporada. Mas achei, sempre achei, indefensável, jogar jogos de treino a meio da época.
Como há dias me dizia um amigo, as boas ideias, para serem boas, devem poder ser escritas numa caixa de fósforos. Em 2014, quando esta “viagem” começou, o pensamento era simples: “acabar com os jogos amigáveis de selecções”. Pensando bem, isto cabe numa caixa de fósforos!

A Lógica
Uma análise mais detalhada ao tal estado da arte, indiciou a conclusão de que as grandes selecções (leiam-se os grandes mercados) da Europa, jogavam muitas vezes entre si esses jogos amigáveis. E porquê? Porque, por incrível que pareça, o modelo de competição desenhado para as provas de selecções, raramente as fazia cruzar a não ser uma vez, eventualmente, numa fase avançada de uma grande competição. Segundo, porque juntar dois grandes mercados daria uma receita comercial e televisiva maior.
Dito de outra forma, o contexto favorece (ou favorecia) mais um Alemanha – Ilhas Faroé, um França – Andorra, um Espanha – San Marino do que um Inglaterra – Holanda ou um Itália – Portugal. 
Convenhamos que isso não tem lógica nenhuma. Ou se tem, porque podemos encontrar alguma “lógica” em tudo, terá muito pouca.
Por isso era entendível que nos ditos amigáveis, dois grandes mercados se juntassem, muitas vezes também com Brasil e Argentina (Portugal jogou nestes últimos anos jogos particulares contra ambos). Se os organizadores de provas não permitem que esses encontros aconteçam oficialmente, teriam de ser oficiosos.
Mas voltemos à caixa de fósforos…
Uma vez o professor Ilídio Vale (na altura coordenador das selecções nacionais da formação e hoje adjunto de Fernando Santos), disse-me uma frase de que não me esqueci: “Não se educam campeões a perder”.
Ele não sabe, mas esta frase foi muito usada para convencer países como o Chipre, Gibraltar, Macedónia, Letónia e outros, a permitirem que se desenhasse uma prova em que eles não podiam cruzar-se com os 12 melhores da Europa.

As Divisões
Este é o momento em que a caixa de fósforos já não chega. Lembro-me de ter feito um documento em 11 pontos, com as vantagens que teríamos em abolir amigáveis e criar divisões. Afinal, o mesmo que todos os países fazem no futebol interno de clubes.
No topo, faríamos com que as selecções maiores pudessem jogar no seu nível. Sim, Portugal acabou de ganhar uma competição em só entraram Alemanha, França, Espanha, Itália, Polónia, Holanda, Bélgica, Islândia, Suiça, Croácia, Inglaterra e… Portugal.
Abaixo deste nível, mais três divisões. Todos em base e equilíbrio competitivo, que é, ou devia ser, o objectivo de qualquer organizador de competições.
De todas as divisões houve subidas e descidas. Uma “heresia”, disseram-me diversas vezes vários líderes de federações quando o defendia sempre com o dito ensinamento do Ilídio Vale.
Claro que, sem surpresa, a primeira vitória de sempre de algumas equipas aconteceu nesta prova: equilibrada e ligada aos Europeus e Mundiais.
Como? Em vez dos 4 lugares finais de acesso a essas provas serem feitos escolhendo melhores terceiros de grupos, com as injustiças naturais que isso origina, daríamos um passe para o play-off às selecções que ganhassem os seus grupos, fosse em que divisão fosse.

Tudo Ligado
Com este detalhe, as provas de selecções da UEFA ficam todas ligadas umas às outras e não houve nenhuma selecção que tivesse feito alinhar equipas secundárias em qualquer das divisões.
Um sinal claro de que a Liga das Nações não vai ficar por aqui.
Em 2014, tirando o meu Presidente, Fernando Gomes, e o então Secretário Geral da UEFA, hoje Presidente da FIFA, Gianni Infantino, creio que havia pouca gente a dar crédito a esta construção. Fosse porque amavam jogos amigáveis, fosse porque era mais fácil deixar tudo como estava. E era.

A Reunião Final
Um dia o Presidente da UEFA da altura, Michel Platini, convocou uma reunião com os presidentes das federações dos cinco maiores mercados europeus – Inglaterra, Itália, Alemanha, França e Espanha, acrescentando a Holanda e Portugal (quanta ironia há em tudo isto), por serem também dois países de futebol com tradição. Platini convidou-me a estar presente e a defender o projecto.
O objectivo, vim a sabê-lo uns dias mais tarde, da boca de vários conselheiros do Presidente, era matar “aquilo” antes de nascer.
Ouvi as piores coisas possíveis depois de falar. Essencialmente dos presidentes das federações da Alemanha e de Espanha. Platini olhava-me em tom neutro.
Apontei os argumentos e tentei rebatê-los um a um e, achei eu, que tinha corrido muito bem. Dizia Angel Maria Villar (ex-presidente da Federação Espanhola): “Achas que alguma vez o Real Madrid e o Barcelona vão permitir que haja mais alguma prova de selecções?”
A minha resposta foi esta:
“Tenho a certeza que sim, especialmente se lhes disseres que não há mais jogos do que agora e que em vez de levares os jogadores para a Guiné Equatorial ou para a África do Sul para amigáveis, eles jogarão perto de casa, em Inglaterra, Portugal ou França!”.
Depois desta resposta, Platini acabou com a reunião. Levantou-se e disse: “Estou esclarecido!”.
Ao passar por mim afirmou alto para que todos na sala ouvissem: “Não vás embora hoje, fica cá e vamos jantar!”. Estava feito. O Fernando Santos e os nossos incríveis atletas trataram do resto!

Nota pessoal: o meu profundo agradecimento e público reconhecimento ao meu amigo e Presidente Fernando Gomes, por ter permitido que em tantos momentos complicados, continuássemos a acreditar que isto era possível."

O desporto e o turismo

"O desporto assume um lugar importante no imaginário das pessoas. Quando se pergunta “o que procura durante as suas férias?”, o desporto tem um lugar de destaque, após o descanso e bem-estar, o descobrir as regiões, o visitar os monumentos e os sítios históricos. O golfe, o ténis, a vela, as actividades de risco são algumas das modalidades desportivas plebiscitadas. As práticas desportivas durante o tempo de férias são apontadas como momentos privilegiados para se fazerem encontros ou de estarem juntos.
Se outrora o desporto, o turismo e as actividades culturais eram sectores distintos, hoje interpenetram-se face ao desejo dos indivíduos. Eles precisam de uns e de outros para continuarem a satisfazer uma clientela cada vez mais exigente.
O turismo tornou-se uma actividade económica. Em muitos países, é até a principal actividade. Sob o efeito conjugado da transformação da oferta e do pós-modernismo da procura, a sua evolução traduz-se por um consumo mais qualitativo, mais exigente e multipolar. Fruto desta mudança, o turismo desportivo tornou-se um mercado “frutuoso”, graças ao potencial de destinos à escala mundial e à capacidade de diversificação dos serviços desportivos. Gerador de divisas, este sector encontra-se em expansão e os actores locais e nacionais começam a explorar esta “fileira”, até porque contribui para o desenvolvimento.
Mas o que se constata é que existe uma desadequação da oferta relativamente à procura extremamente diversificada, quer sobre o plano dos destinos, quer dos produtos oferecidos aos diferentes públicos. A evolução da procura modifica e complexifica profundamente os comportamentos de consumo turístico para responder às necessidades (funcionais) e aos desejos (imaterial e emocional), nem sempre coerentes. Os turistas procuram ocasiões de vibrar interiormente, de ter novas experiências que produzam sensações agradáveis e/ou inéditas, estimulando os cinco sentidos. Esta mutação da procura turística tornou obsoletas as segmentações que serviam, até ao presente e de maneira satisfatória, a explicar e a compreender as condutas dos turistas (critérios sociodemográficos, grupos sociais e de estilos de vida).
O sector do turismo desportivo encontra-se em crescimento, quer ao nível das empresas que se lançam no mercado, quer ao nível dos utilizadores dos seus serviços. Face à pressão concorrencial, um eixo de posicionamento poderia se basear no desenvolvimento de uma real “expertise”. O turismo desportivo de acção caracteriza-se por uma forte mais-valia, concentrados na tecnicidade dos serviços oferecidos (especificidade e atractividade do serviço), na escolha das soluções e das estratégias (condições de realização e de equipamento), sem esquecer a inovação na operacionalização."

Nuno Delgado: um desporto de ideias

"Num acendrado culto da ciência, num constante apego ao desporto como pedagogia humanista, numa ânsia de transcendência física, mental, espiritual – é assim que eu conheço o Nuno Delgado, um dos maiores atletas portugueses da sua geração; com a justa auréola de uma das mais destacadas figuras da história do nosso judo; e um desportista que é um acabado exemplo do que, no ser humano, mais deslumbra e encanta.
Praticou, com indiscutível sucesso, um desporto altamente competitivo (campeão nacional, campeão europeu, individual e de clubes, medalha de bronze, nos Jogos Olímpicos, campeão de múltiplos torneios) mas nem por isso perde a serenidade, a compostura, a elegância. E, depois de um desporto de forte pendor individualista, funda a “Escola de Judo Nuno Delgado”, a maior Escola de Judo do País, que diz realizar-se a formar campeões para a vida. Isto é, quem a escolhe escolhe-se, porque nela tudo o que se faz transcende o desporto, não deixando de ser uma Escola de “práxis” profundamente desportiva, uma galáxia onde se movimentam os mais autênticos daqueles valores que o Desporto assume como seus. “Professor (dizia-me, há poucos dias, o Nuno Delgado, sempre de palavras de uma concisão lapidar) acredito na sua frase: não há desporto, há pessoas que fazem desporto. E portanto, para mim, o desporto é o que os desportistas são”. O aspecto axiomático, breve e sentencioso das palavras do Nuno reflecte o muito que, discretamente, estudamos e dialogamos, acerca do fenómeno desportivo. O debate entre o determinismo e o indeterminismo, ou entre a ordem e o caos, para retomar Ilya Prigogine, ou O Acaso e a Necessidade, como escreveu Jacques Monod, continua a ser interrogação fundamental, no conhecimento hodierno. Segundo o pensamento de Prigogine, o Universo é percorrido pela “flecha do tempo” e, assim, “nunca os fenómenos se reproduzem de uma forma idêntica e tornam-se imprevisíveis por definição”.
Embora aduzindo uma série cada vez maior de argumentos, os cientistas já não convencem ninguém de que o progresso tecnocientífico será a causa de um progresso moral autêntico. O ideal positivista, com todas as suas certezas, em grande parte faliu, ou vive hoje o transe de algum descrédito. Às grandes descobertas dos anos 20, como a relatividade e a mecânica quântica, sucedeu a incerteza, na “ciência do caos” de Prigogine (que o René Thom prefere chamar o “caos da ciência”). Beneficiamos da proficiência dos progressos tecnológicos, mas de quase nenhum progresso qualitativo. Continuam atuais as palavras do Padre Manuel Antunes: “O triunfo da ciência é pois ambíguo. Como aliás todos os triunfos. Pode conduzir a uma real promoção da humanidade, nos vários planos em que a sua vida se desenvolve, e é um bem. Pode conduzir à sua total destruição ou, se essa hipótese, menos provável não se der, pode conduzir a um estancamento das suas energias criadoras, a uma atitude de extrapolação, tomando como ciência aquilo que não é ciência, e então é um mal” (Compreender o Mundo e Actualizar a Igreja - Os grandes textos do Padre Manuel Antunes, coordenação de José Eduardo Franco e Luís Machado de Abreu, Gradiva, Lisboa, 2018, p. 284). Aprendi, com Prigogine, que a noção de probabilidade já não deverá considerar-se um sinal certo de ignorância, como no caso da mecânica laplaciana, pois que se trata de uma propriedade intrínseca de qualquer sistema aleatório. De súbito, a ignorância transforma-se e eis que surge uma nova representação da ciência. Numa lógica de desequilíbrio, se bem entendi Prigogine, estabilidade dinâmica e instabilidade estrutural são compatíveis e complementam-se. Edgar Morin (julgo ter estudado as suas obras mais relevantes) considera urgente acrescentar ao pensamento que separa um pensamento que una, que relacione, de acordo com os principais objectivos do pensamento complexo, o qual procura distinguir, sem separar e ligar sem confundir.
Tenho para mim que, nos cientistas e literatos, que fizeram História, sobressai sempre um conhecimento comprometido com uma visão do Homem e da Vida, como as figuras de Egas Moniz (figura multifacetada da vida científica e cultural, prémio Nobel da Medicina) e Almeida Garrett (dois exemplos, entre muitos mais) que sempre defenderam uma ciência e uma arte, comprometidas com a acção política. A concepção esteticista da “arte pela arte”, uma ciência que se apresenta num agnosticismo político infuso, difuso e confuso, ambos pretendem impedir o circular das ideias, o diálogo crítico e autocrítico, uma análise concreta da Cultura donde a Literatura e a Ciência nascem. Ninguém de bom senso pode legitimar a vocação para a escrita, ou para uma prática científica, excluindo o pensamento filosófico e político. Ilya Prigogine, na sua conhecida obra La Nouvelle Aliance, afirma que um ser complexo, qualquer que ele seja, é constituído por uma pluralidade de tempos “ramificados uns sobre os outros, segundo articulações subtis e múltiplas. A história, tanto de um ser vivo, como a de uma sociedade nunca mais poderá ser reduzida à simplicidade monótona de um tempo único”. Por isso, a fecundidade das relações entre a ciência, a filosofia (e a própria teologia) é por demais evidente. Só em ambientes de bloqueamento cultural e fundo obscurantismo o fenómeno não se torna visível. Contempla-se o trabalho da “Escola de Judo Nuno Delgado” e saboreia-se com o que nos é dado ver um bálsamo simultaneamente apaziguador e tonificante. Trata-se de uma Escola de Desporto, mas de um Desporto, ao serviço de um certo número de valores. Ao invés de Max Weber, n’A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, onde a origem do Capital se remete, principalmente, para uma ética do trabalho, de matriz evangélico-protestante, Nuno Delgado nega o princípio de uma causalidade única no Desporto, identificando, nele, com igual importância, raízes de várias ordens e condições. Ultrapassando também, dialeticamente, o pessimismo histórico da Teoria Crítica, ele (e os restantes professores que o acompanham) fazem do Desporto uma escola aberta aos outros, ao mundo e à transcendência e portanto uma escola sem a presença, ou a promoção, do “homo mechanicus”, resultado de um positivismo (ou neopositivismo) que tudo reifica e simplifica, em adoração ao deus-lucro.
O século XXI (digo isto discorridamente e sem cuidados de estilo) pode descambar numa inesperada contradição: por um lado, nunca o efémero, o provisório, o superficial, o formalismo sem conteúdo foram tão valorizados; por outro, com a emergência da Quarta Revolução Industrial, sob o império das novas tecnologias e da revolução informática, a vivência e actualização e questionamento da prática desportiva tradicional, é tema a desenvolver, o mais breve possível. Durante 28 anos, vivi intensamente a vida do C.F.”Os Belenenses”, isto é, de 1964 a 1992. E confesso que, hoje, no gigantismo, no economicismo e no jurisdicismo dos maiores clubes desportivos, tudo se encontra matematicamente certo, planeado, normalizado, normatizado – mas pouco desporto há! Não, não sou contra o espectáculo desportivo – sou a favor! Todos os que me conhecem sabem que assim é. Mas não o reduzo à mundialização de um certo mercado, à especulação, ao modelo do valor bolsista. Nem aos caprichos subjectivos dos novos deuses. Eu sei que é mais fácil proclamar princípios do que, no comportamento diário, estar à altura dos princípios proclamados. Mas como é consolador encontrar “agentes do desporto”, como o Nuno Delgado, que sabem encontrar, no Desporto, não só meros factos desportivos, mas também amplos (e humanizantes) fenómenos culturais (que o mesmo é dizer: sociais, políticos, paidêuticos, filosóficos e pedagógicos). Na partilha universal dos conhecimentos, que o mundo actual permite, sem qualquer pessimismo de desistência do trabalho de transformação social e política, é preciso, imperioso e urgente informar as pessoas que o Desporto não se circunscreve ao desporto dos Ronaldos e dos Messis e dos Neymares, nem este desporto alguma vez contribuirá à diminuição do fundo fosso, que separa os países pobres dos países ricos. Sem a generalização de uma educação (onde se integra a educação desportiva) com a lucidez e a energia de uma crítica ao neoliberalismo hodierno, como erradicar a pobreza absoluta, como promover os valores democráticos, como construir sociedades do conhecimento? Que existam os Ronaldos, os Messis e os Neymares, bem é! Mas, como já o escrevi, há mais de 50 anos: que não adormeçam as pessoas à recusa da sociedade injusta estabelecida! Um abraço sobre o coração, Nuno Delgado! Muito obrigado, pelo seu Desporto… com determinadas ideias!"

Benfiquismo (MCCVIII)

Golos...

sábado, 15 de junho de 2019

Campeãs Nacionais Sub-19

Braga 0 - 2 Benfica
Vilão; Queiroga, Santos, Assucena, Diva; Faria, Pintassilgo; Nazareth, Cameirão


A história repetiu-se... tal como tinha acontecido com as nossas meninas seniores, na Taça de Portugal!!!
Depois da derrota em Almada na 1.ª mão da Final do Campeonato Nacional Feminino de Sub-19, o Benfica foi a Braga e venceu por 0-2, tornando-se assim Campeão Nacional da categoria, na estreia do Benfica nesta competição...
Muitos parabéns a todos, jogadores, treinadores e dirigentes...

Dúvida impertinente e dor pertinente

"Não é vontade de embirrar. Trata-se apenas de uma dúvida impertinente. A que propósito foi a Selecção Nacional para o varandim da Câmara Municipal do Porto mostrar o troféu da Liga das Nações aos transeuntes da Avenida dos Aliados na noite do último domingo? Sendo a selecção, por definição, "nacional", que ideia foi aquela de a conduzir de autocarro até à sede do poder autárquico que rege a cidade anfitriã da final do torneio para, à pala do esforço de Cristiano Ronaldo, Bernardo Silva & Companhia, oferecer uma série de imagens festivas ao portefólio de Rui Moreira, o "mayor" da cidade?
Tivesse a final da Liga das Nações sido disputada numa qualquer outra cidade do país e alguém imagina os paços dos concelhos de Braga, Guimarães, Aveiro, Coimbra ou Faro abrirem as portas e as varandas à vitoriosa equipa nacional para deleite institucional e jornada de marketing dos respectivos autarcas?
Permita-se, portanto, a opinião dos que consideram como um despudorado abuso ao que aconteceu no domingo à noite nas instalações da Câmara Municipal do Porto, depois de a Selecção Nacional ter vencido com categoria a sua congénere holandesa no jogo decisivo dessa nova competição da UEFA, cujo objectivo, discutível como são todos os objectivos, é rentabilizar ao máximo a preparação das equipas nacionais europeias, transformando os múltiplos clássicos "particulares" em jogos a sério e em bilhetes e em transmissões televisivas com preços a sério.
A Liga das Nações é, para já, uma espécie de Taça da Liga da UEFA. Uma novidade, uma prova acabadinha de estrear que vai precisar do seu tempo até ser levada a sério pela indústria em geral. este facto, indesmentível, não retira brilho nem, muito menos, mérito aos jogos que a equipa de Fernando Santos realizou com a Suíça e com a Holanda.
O futebol de Santos não será o espectáculo mais divertido e empolgante do planeta, mas o importante nestas coisas é que o nosso engenheiro já soma dois triunfos em duas finais europeias e isso faz dele, e com justiça, o treinador mais respeitado do burgo.
A ida da comitiva vencedora da Liga das Nações à Câmara Municipal do Porto teve, no entanto, aspectos bastante curiosos se nos lembrarmos como tem sido uma frustração para Rui Moreira a flagrante escassez de festejos futebolísticos registados sob o seu patrocínio desde que assumiu a presidência daquela autarquia. De deserto em deserto por razões locais, a multidão lá desaguou finalmente na Avenida dos Aliados por razões nacionais. Uns para vitoriar os seus heróis de modo global e outros, ainda entristecidos por questões menores, apenas para poderem contar aos netos que viram, o João Félix a festejar um título na varanda da Câmara Municipal do Porto. Sobre esta dor pertinente é que não há dúvida nenhuma."

Abriu o mercado: «Faites vos jeux!»

"Com Hazard oficializado no Real Madrid e Griezmann a caminho de Barcelona, o mercado começou forte mas não em desalvorada loucura

Hazard oficializado no Real Madrid, Griezmann, muito provavelmente a chegar a Barcelona, ambos por valores um pouco acima de 100 milhões de euros. Está marcada a referência para o sempre excitante e despesista época de transferências. A partir daqui, todos estão convidados: «Faites vos jeux», como se diria à mesa da roleta, em qualquer casino.
Atendendo ao que se tem passado nos últimos anos, não se pode falar em louca extravagância nas transferências do belga ou do francês. Houve anos em que o mercado disparou por desalvoradas loucuras. Já aconteceu por causa de Cristiano Ronaldo, antes tinha acontecido por causa de Figo e, mais recentemente, surgiu um imprevisto e monumental boom, quando Neymar rumou ao Paris Saint-Germain e os fundos de capital de estado do Catar, que sustenta e imunda de petro-dólares o clube francês, entregaram, numa bandeja de ouro, o valor exigido pela brutal cláusula de rescisão que ligava o brasileiro ao Barcelona.
Depois deste épico acontecimento, que, tal como dizia José Manuel Delgado em A Bola TV, foi o mesmo que pagar muito dinheiro para levar o pato Donald para a Disneyland, Neymar fez tudo, mas mesmo tudo, para destruir uma fantástica oportunidade de suceder, com toda a naturalidade, a Messi e a Cristiano como o melhor futebolista do mundo.
Teria sido dramático para o Paris Saint-Germain, se, de facto, o dinheiro investido tivesse de ser justificado, tivesse de ter o retorno de resultados e não pudesse, pura e simplesmente, ser esbanjado e apenas tornado útil ao poder tentacular de Nasser Al-Khelaifi, presidente do PSG, mas também chairman da BeIN Media Group do Catar, uma empresa renascida da Al Jazeera Media Group, e ainda chairman da Catar Sports Investments, além de ministro sem pasta, nomeado pelo seu particular amigo, o Emir Sheik Imanin.
Todo esse poder político, económico, social de Al-Khelaifi, apesar de ter recebido do L'Équipe o título de mais influente figura do futebol francês, não permitiram realização do sonho de fazer, finalmente, do clube da capital francesa, um dominador no mundo do futebol. Pelo contrário, o PSG, que continua a ser um crónico e inevitável campeão francês, está hoje mais distante da organização, do planeamento, do rigor da estrutura organizacional dos clubes ingleses e assiste, assustado e incrédulo, ao crescimento do futebol em Espanha e em Itália, continuando cada vez mais distante do topo e tentando perceber porque razão o poder do dinheiro não compra tudo.
Não se sabe ainda como o PSG e o seu protectorado de estado vai reagir à queda desamparada de Neymar, mas sabe-se que a guerra do mercado de transferências abriu cedo e, apesar de forte, sem números exibicionistas, atendendo ao passado recente.
Os clubes portugueses, os mais exportadores de todos os clubes da Europa, iniciam agora, verdadeiramente, os seus lances de propostas de venda. Sabem-se os nomes, conhecem-se hipóteses e isso tem sido quanto basta para todo esse caleidoscópio de fake news que por aí tem sido exaustivamente comentadas sem nexo.
O FC Porto poderá ser o clube mais exposto à venda; o Benfica tem vários jogadores na montra, mas vai tentar vender pouco e bem; o Sporting tem em vista um bom negócio com Bruno Fernandes, mas vai ter de saber ser hábil, paciente, corajoso. A ideia de que precisa, mesmo, de fazer esse negócio não ajuda e pode baixar o valor de um jogador que tem excelente qualidade, mas cujo futebol não se adapta a todos os campeonatos europeus. Tal como sucede, aliás, com João Félix, ainda numa fase muito vulnerável.

Dentro da área
O andebol está de parabéns
A qualificação da selecção portuguesa de andebol para o próximo Campeonato da Europa (2020, na Áustria, Noruega e Suécia) é um marco no desporto nacional. Não apenas por esta qualificação, de inteiro mérito, mas pelos resultados na fase eliminatória. A vitória frente à França, que é das melhores selecções do mundo, e esta recente vitória na Roménia dizem muito do crescimento e do desenvolvimento de uma modalidade que fez um notável percurso na sombra dos grandes palcos mediáticos. Clubes e Federação estão de parabéns!
(...)"

Vítor Serpa, in A Bola

Os novos Messi

"O Valência está eufórico com as exibições de Kang-in Lee no Mundial de sub-20, onde ficou conhecido como o “Messi coreano” e ganhou a Bola de Ouro para o melhor jogador. E o Real Madrid contratou com pompa e circunstância um jovem chamado Takefusa Kubo, apresentado como o “Messi japonês”.
São sinais de que o futebol do extremo oriente evolui rapidamente, como demonstram os inéditos segundos lugares que hoje mesmo o Japão alcançou no Torneio de Toulon (empatando com o Brasil na final) e a Coreia do Sul no Mundial de sub-20 (perdendo com a Ucrânia).
O Youtube propagandeia as qualidades destes futuros Messi orientais e o que vemos é clássico: canhotos, dribladores, dinâmicos, imaginativos, capazes de fazer golo.
Ao contrário do que acontece quando alguém sugere que um jovem português de talento possa aspirar a ser o “novo Cristiano Ronaldo”, ninguém se ofende com estas comparações. Se fazem algum mal, será apenas aos próprios aspirantes, pelo exagero, embora não deixem de pesar nas avaliações de mercado. Lee já está apreçado em 8 milhões e Kubo em dois milhões de euros.
Mas talvez nem seja por isso. Esta proliferação sugere que talvez seja mais fácil aspirar a ser o novo Messi do que o novo Cristiano Ronaldo, pela necessidade de juntar diariamente ao longo da carreira uma enorme carga de trabalho ao talento inato."

À procura de um artilheiro para o futuro

"Muitas questões têm-se prendido com a contratação de um ponta-de-lança para o SL Benfica para fazer concorrência com Seferovic. No entanto, questiona-se qual será a opção mais indicada para lhe fazer concorrência: de um jogador feito e com provas dadas, ou de um jogador jovem com grande margem de progressão. Na minha opinião, o Benfica precisa de um ponta-de-lança de ambos os perfis, mas neste caso, vou debruçar-me mais sobre os pontas-de-lança jovens, que é uma questão que creio que deveria ser mais debatida.
Entre a equipa B, equipa de juniores e de sub-23 do Benfica, não houve nenhum ponta-de-lança que se tenha destacado ao ponto de se considerar um jogador em vias de dar o salto para a equipa principal, sendo a posição em que a formação do Benfica está mais carenciada a nível de jovens com potencial. Os pontas-de-lança são os jogadores mais difíceis de formar, e esse é um dos factores que faz deles os jogadores mais valiosos do mercado. E isto faz com que qualquer ponta-de-lança que comece a sobressair num determinado contexto competitivo valorize num pestanejar.
Como tal, acho que a solução para o Benfica conseguir encontrar um ponta-de-lança para o futuro seria fazer o mesmo que fez em Janeiro de 2016 quando contratou os sérvios Igor Saponjic e Luka Jovic, ou seja, contratar jogadores jovens com margem de progressão, metendo-os a rodar na equipa B para se adaptarem ao Benfica e ao futebol português.
É verdade que a aposta nos dois sérvios não correu bem. Jovic teve problemas de adaptação que o levaram a ter comportamentos pouco profissionais, como o próprio já assumiu. Já Saponjic sempre me pareceu ter um perfil desajustado ao estilo de jogo da equipa.
No entanto, com Rui Vitória no comando técnico, a equipa principal e a equipa B não possuíam o mesmo estilo de jogo, o que também dificultava a transição para a equipa principal. Actualmente, com Bruno Lage e Renato Paiva, não existe esse problema, visto que ambas as equipas jogam um futebol atractivo que valoriza os jogadores e privilegia a sua evolução.
Como tal, acho que tendo em conta a conjuntura actual, acho que o scouting deveria trabalhar e ir à procura de um jovem talento que pudesse ser potenciado e trabalhado no Seixal para ser uma aposta a longo prazo."

Benfiquismo (MCCVII)

White Hart Lane...

A sentença - Parte 1

"Sport Lisboa e Benfica e Sport Lisboa e Benfica - Futebol, SAD, intentaram acção comum contra Futebol Clube do Porto, Futebol Clube do Porto SAD, FCP Media, S.A., Avenida dos Aliados - Sociedade de Comunicação, S.A. e Francisco José de Carvalho Marques pedindo a condenação no pagamento de 17 milhões de euros a título de danos não patrimoniais, no pagamento de 784.579,56€ a título de indemnização pelos custos e despesas directamente incorridos para mitigar os efeitos das lesões às Autoras até à presente data, (danos patrimoniais), absterem-se de aceder, publicar, divulgar, dar acesso à correspondência,serem também condenados a apagar e entregar todos os suportes ao Tribunal e pagarem as quantias que se vierem a vencer posteriormente à entrada da acção, remetendo-se o seu cálculo para momento oportuno.
O Tribunal considerou provados 197 factos que dispõe ao longo de quase 60 páginas.
Retiramos alguns que consideramos os mais importantes:
«3. As Autoras detêm a propriedade e/ou direitos de exploração económica da Marca da União Europeia (mista) Sport Lisboa e Benfica, n.º 6022883..., e de outros direitos e sinais distintivos (e respectivos produtos e serviços indicados que se promovem), conforme certificados de registos de marcas e de logotipos...
5. As Autoras e as sociedades Rés concorrem directamente no domínio empresarial prosseguindo múltiplas actividades concorrentes, oferecendo produtos e serviços que disputam os mesmos mercados, a mesma clientela, patrocinadores e parceiros comerciais, desde as competições oficiais desportivas com participação das suas equipas nos campeonatos nacionais de futebol, hóquei em patins, basquetebol, andebol, natação, etc, passando pela organização de eventos desportivos e comerciais, publicidade, comunicação comercial e emissão de canais de televisão por cabo, jornais, revistas, publicidade, aluguer de espaços comerciais, exploração de merchandising (equipamento desportivo, etc), sponsorship (patrocínio de produtos e serviços),  educação, formação desportiva, publicidade, restauração, organização de viagens, entre muitas outras actividades conexas e complementares.
20. No sistema informático da SLB SAD são guardados todos os documentos proprietários e confidenciais relativos ao negócio desta, incluindo comunicações, correspondência e contratos com os respectivos patrocinadores, atletas, treinadores, propostas de negócio, projecções de desenvolvimento empresarial e desportivo, planos e estratégias empresariais, dados estatísticos, proveitos, custos e investimentos, acordos com a Banca e demais stakeholders (partes interessadas numa organização ou empresa), investimentos e parcerias nacionais e internacionais, entre outras.
21. Os dados e informações das Autoras, bem com as suas comunicações, têm valor económico e concorrencial porque são secretos (eram) apenas conhecidos das Autoras e dos seus colaboradores internos e altos responsáveis directamente envolvidos.
22. Os termos e condições dos contratos de patrocínio, os valores envolvidos, as condições da sua renovação ou melhoria a correspondência e comunicações entre as Autoras e os seus patrocinadores, as respectivas comunicações e mensagens são valiosos segredos de negócio e são-no também porque são sigilosos e apenas conhecidos das partes contratantes.
30. A divulgação da correspondência e comunicação privadas e dos documentos confidenciais e/ou contendo segredo de negócio das Autoras resulta de uma estratégia conhecida e autorizada pela administração do Grupo Futebol Clube do porto, para quem o Réu Francisco J. Marques trabalha, e no qual exercem funções de administração ao mais alto nível os Srs. Jorge Nuno Pinto da Costa, Dr. Fernando Gomes e Dr. Adelino Caldeira conforme o documento n. 9 junto com o requerimento inicial da providência cautelar e aqui se dá por reproduzido.
33. O Réu Francisco J. Marques não detém actualmente a profissão de jornalista, conforme o documento n. 10 junto com o requerimento incial da providência cautelar e aqui se dá por reproduzido.
34. A Ré Porto Canal, sob a designação social de 'Avenida dos Aliados - Sociedade de Comunicação, SA', é detida maioritariamente, segundo o Relatório e Contas de 2016/1017 da FCP, SAD, por esta última, conforme o documento n. 9 do requerimento inicial da providencia cautelar e aqui se dá por reproduzido.
36. Fazem parte do Grupo Futebol Clube do Porto, todas as sociedades demandadas sendo que o FCP Clube detém 74,59% das acções da FCP, SAD e esta, por sua vez, detém 98,81% da FCP Media, S.A. e 81,42% da Avenida dos Aliados, S.A.
46. O FCP Clube, e a FCP SAD reconhecem a sua ligação a Francisco J. Marques e a sua responsabilidade quanto à divulgação da correspondência alegadamente existente e revelada por este, assumido formalmente terem na sua posse a alegada correspondência das Autoras, a qual foi sendo divulgada pelo seu Director de Comunicação e Informação, Francisco J. Marques, através da Porto Canal.
47. Francisco J. Marques, na qualidade de Director de Comunicação e Informação do FCP Clube e da FCP SAD, actuou sempre em coordenação com estas, todos eles possuindo e divulgando a correspondência privada imputada a terceiros, sem autorização destes, executando uma estratégia de divulgação.
48. O FCP Clube e a FCP SAD divulgaram e-mails e demais correspondência relativa ao domínio @slbenfica.pt, bem como as comunicações (telefónicas e mensagens de texto) e detém em seu poder informação comercial/segredos de negócio das Autoras, ainda que o façam através do seu Director de Comunicação e Informação (Francisco J. Marques), no canal televisivo por si detido e controlado (i.e., o canal de televisão Porto Canal da Ré Porto Canal).
50. A FCP Media é a entidade patronal de Francisco J. Marques, sendo responsável pela publicação da newsletter do Futebol Clube do Porto, 'Dragões Diário'.
52. A Ré Porto Canal é um serviço de programas televisivos, autorizado pela Entidade Reguladora da Comunicação Social, em Setembro de 2006, através da Deliberação 8 - A/2006. O seu programa 'Universo Porto - Da Bancada', é um programa de entretenimento de promoção comercial do grupo do Futebol Clube do Porto, das suas actividades e dos seus interesses, não constituindo um programa noticioso. Os demais intervenientes actuam como comentadores, sendo adeptos do FC Porto. Nem os protagonistas, nem o programa, nem o serviço de televisão 'Porto Canal' exercem neste contexto qualquer actividade noticiosa de natureza jornalística.
54. Francisco J. Marques, trabalhador da FCP Media, desempenha as funções de Director de Comunicação e Informação do Futebol Clube do Porto, incluindo FCP Clube e FCP SAD, tendo sido declarado insolvente por decisão de 18 de Novembro de 2016.»
Para já e por falta de espaço, sintetizemos a 1.ª parte:
- Grupo Benfica detém direitos sobre a marca;
- Grupo Benfica e Grupo Porto são concorrentes;
- No sistema informático da SLB SAD são guardados todos os documentos proprietários e confidenciais relativos ao negócio do Grupo Benfica, o qual tem valor económico e sigiloso e são valiosos segredos de negócio;
- A divulgação da correspondência resulta de uma estratégia conhecida e autorizada pela administração do Grupo Porto;
- Francisco J. Marques não é jornalista, trabalha para o Grupo Porto.
- Francisco J. Marques, na qualidade de Director de Comunicação e Informação do FCP Clube e da FCP SAD, actuou sempre em coordenação com estas, todos eles possuindo e divulgando a correspondência privada imputada a terceiros, sem autorização destes;
- Francisco J. Marques é ainda funcionário da FCP Media, sendo responsável pela publicação da newsletter do Futebol Clube do Porto, 'Dragões Diário';
- O Grupo Porto assume, possuir os e-mails, que os divulgou, que tem uma relação profissional com Francisco J. Marques assumido e provando-se também a sua responsabilidade quanto à divulgação da correspondência;
- No programa Universo Porto, nem os protagonistas, nem o programa, nem o serviço de televisão 'Porto Canal' exercem neste contexto qualquer actividade noticiosa de natureza jornalística.
Fixemos desde já estes factos que foram considerados provados."

Pragal Colaço, in O Benfica

Sabe quem é? Escondido na árvore - Gonçalo Guedes

"Primeiros tempos do Benfica obrigavam o pai a fazer 200 quilómetros por dia; De táxi acabou por ir parar ao futuro

1. Nasceu por finais de Novembro de 1996 - nas traseiras da casa de família era o campo do Benavente. Tinha irmão mais velho, o João Maria - e, num fósforo, se lhe desatou a perceber o fascínio: «Nunca quis brinquedos, andava sempre com uma bola - aliás, às vezes com mais do que uma. Era uma loucura» (recordou-o Rogério, o pai).
2. Quando não se esgueirava para o campo a ver os treinos, atirava-se, lá por Santo Estevão, à rua para jogar onde calhasse, atrás do João Maria (que, ao contrário dele, tinha tentação para guarda-redes). Franzino, foi-se-lhe percebendo encanto a soltar-se-lhe cada vez mais dos pés - o João Maria contou-o: «Tendo 6 anos, jogávamos num grupo que tinha vários escalões etários, até quase aos 20 anos. Era o mais pequeno, a bola era bem maior do que os pés dele - uma vez foi-lhe passada com tanta força que ele com o impacto caiu no chão».
3. Aos 8 anos só não jogava (oficialmente) nos infantis do Benavente (onde jogava o João Maria) por a idade não lho permitir - mas lá treinava, lá jogava partidas ou torneios particulares. Delegado da equipa era Rogério (o pai) - e para torneio assim convidou a Geração Benfica. O seu fulgor deslumbrou Helena Costa: «Sobressaiu dos demais, no fim do jogo fui lá falar com os pais - para o levar para a nossa escolinha».
4. Com ele, para o Benfica, foi o João Maria (acabaria, depois, de se desligar do futebol para se dedicar ao curso que tirou: Relações Internacionais). No primeiro torneio que disputou pelo Benfica (em Lourel, à sombra de Sintra) - ganhou a final po 5-0 (e foi ele que marcou os cinco golos).
5. Tê-lo a ele e o irmão no Benfica, pôs Rogério num virote: «Nessa altura eu trabalhava em Lisboa. Ao sair do emprego, corria a Benavente para os buscar. Levava o irmão ao Seixal, levava-o a ele aos Olivais - e, o regresso, era por volta das nove da noite. Fazia 200 quilómetros por dia - uma média de 50 mil quilómetros por ano. Ou seja, com ele devo ter gasto três ou quatro carros...»
6. Ao MaisFutebol largou Helena Costa a confidência: «Sempre foi miúdo muito humano, que se preocupava com os colegas, divertido - e dado a maluqueiras. Num torneio no Norte, em que ficámos numa escola, estávamos num tempo morto, deixei-os ir jogar às escondidas para o pátio. Quando chegou hora de recolher todos apareceram menos ele. Fiquei a pensar que era uma escola não podia ter desaparecido. Olho para árvore de uns sete metros e vejo uma mancha vermelha no topo. Era ele, tinha-se escondido no seu topo. Era assim, um miúdo do campo, bom, irreverente».
7. Ainda houve outra peripécia que Helena Costa se delicia ao lembrá-la: «Era reguila à mesa também, não gostava de comer - Eu tinha instruções do pai para o obrigar. Certo dia, vendo pêra à sobremesa disse-me que não queria, não gostava. Respondi-lhe que, se não comesse a pêra, não jogava. Andou o dia todo com a pêra, brincou, correu, quando chegou ao balneário disse-lhe que não jogava, que não tinha comido a pêra. Os colegas pressionaram-no a comê-la, disseram-lhe que ele era muito importante para a equipa. A custo deu-lhe uma trincadela e, afirmando: afinal, até é bom - devorou-a».
8. Estando já Helena Costa no Catar, mandou-lhe mensagem a informá-la de que tinha coisa para lhe entregar: era a sua primeira camisola na selecção, na selecção sub-16. Logo depois, deu-lhe o Benfica o primeiro contrato profissional. Andava pelos 17 anos, quando mensagem o acordou pela manhã: que tinha de arrancar dum fogacho para o Seixal - para se juntar à equipa que iria ao Mónaco jogar a Champions. Ligou ao pai para o levar lá, o pai não ouviu o telemóvel. Para não perder mais tempo, apanhou um táxi - e de táxi chegou ao seu futuro.
9. O resto é o que se sabe. No Benfica ganhou três campeonatos (e duas Taças da Liga e uma Supertaça), no Paris Saint-Germain ganhou um campeonato (e uma Taça e uma Supertaça de França), no Valência ganhou (ao Barcelona de Messi) a Copa do Rei - e, no Dragão, na final da Liga das Nações, o tiro que Cillessen não parou abriu-lhe o caminho à eternidade (como aquele pontapé de Éder em França, três anos antes)."

António Simões, in A Bola

Sentença no Lanças...

Os seis jogadores

"Com a nova regra, os clubes da Primeira Liga só podem a partir de agora emprestar um jogador por clube, a um máximo de seis clubes. Esta regra obrigou o Benfica a rescindir com vários atletas, passá-los para outros clubes e a ficar com 50% da futura venda. Foi o caso de Pedro Nuno que foi para o Moreirense, Patrick e César que foram para o Santa Clara, Jhon Murillo que foi para o Tondela e Chiquinho para o Moreirense porque as vagas de empréstimos já estavam cheias.
O ano passado o Benfica emprestou Pêpê ao Guimarães, Martin Chrien ao Santa Clara, Dálcio ao Belenenses, Heriberto Tavares ao Moreirense, Cristian Arango ao Tondela e André Ferreira ao Desportivo Aves. Heriberto evoluiu bem e foi dos jogadores mais utilizados no Moreirense. Dálcio, Chrien, Arango e Pêpê também foram dos mais utilizados pelo Belenenses, Santa Clara, Tondela e Guimarães, apesar de terem mostrado pouco. Não foram dos 11 mais utilizados, mas todos foram dos 14 mais utilizados. O Chrien foi também chamado à Seleção da Eslováquia. André Ferreira foi o guarda-redes suplente. Foi o que jogou menos. Em suma, o único jogador que parece ter valorizado foi o Heriberto. O Benfica deve procurar utilizar as suas 6 vagas à procura de situações mais como a do Heriberto e menos como a do Arango. Eis os seis jogadores que deveríamos emprestar.
1. Diogo Gonçalves.
Aos 22 anos ainda vai mais do que a tempo de ter uma belissima carreira. No Benfica não tem espaço. No Nottingham Forrest mal jogou. Mas já foi em tempos uma das nossas maiores promessas. Uma boa temporada poderá relança-lo. O Galeno fez uma boa época no Rio Ave. Acho que poderia encaixar-se muito bem lá pois tem um perfil relativamente semelhante.
2. Nuno Santos.
Aqui acho que temos que tomar uma decisão. Entre Nuno Santos e David Tavares, um deveria ser emprestado e outro deveria ficar como backup da equipa principal enquanto joga na equipa B. Nuno Santos foi o melhor jogador da equipa B na recta final e parece-me pronto para dar o salto. Emprestaria-o a ele. Mediante uma boa época, teria boas chances de acabar na equipa principal em 20/21. Gostava de o ver no Belenenses do Silas. Acho que é essencial ir para uma equipa com um bom treinador.
3. Mile Svilar.
O belga precisa de jogar. Só assim poderá ser o titular que o Benfica precisa. Já houve vários bons guarda-redes a surgir da Liga Portuguesa, logo julgo que seria um bom Campeonato onde ele pudesse rodar. O fundamental é que jogue. O Boavista trabalhou muito bem a defesa o ano passado. Se lhe garantissem um lugar no 11 inicial, seria uma bom local de empréstimo. Outro sítio seria o Setúbal.
4. Branimir Kalaica.
Numa situação normal teria lugar no nosso plantel, mas não saindo ninguém, fica complicado. Acho que tem tudo para um dia vir a ser o central da equipa principal, mas para já o importante é jogar numa nível acima da 2º Liga, que já está fácil para ele. O Kaio Pantaleão está de saída do Santa Clara para o Krasnodar. Kalaica faria uma bela dupla de centrais com Fábio Cardoso nos Açores.
5. Chris Willock.
Outro jogador numa situação parecida com a de Kalaica, mas no caso do Willock, acho pouco provável alguma vez vir a chegar à equipa principal. Não que falte qualidade, mas pela quantidade de extremos do Benfica. O importante nesta fase é valorizar o jogador e tentar vendê-lo. Não sei se ele estaria aberto a um empréstimo na Liga Portuguesa, mas se estivesse, emprestava-o ao Moreirense. Vamos emprestar alguém lá devido ao Chiquinho. O novo treinador do Moreirense era treinador da equipa B do Guimarães. Iria saber utilizar o WIllock. Caso o Willock não quisesse, emprestava o Pêpê.
6. Filip Krovinovic.
Vai ser oficializado como reforço por empréstimo do Guimarães. Acho que é um empréstimo perfeito para o Benfica. Mete um jogador de grande potencial, num bom clube, com grandes ambições, que vai estar a lutar pela entrada na Liga Europa, com um excelente treinador. No Guimarães, Krovinovic tem tudo para se afirmar como uma peça fundamental do plantel. É um grande empréstimo.
Dos jogadores que foram emprestados, Heriberto pode ficar no plantel da equipa principal ou pode ser emprestado a uma equipa estrangeira. Arango e Dálcio são para rescindir e ficar com 50% da próxima transferência. André Ferreira deverá ser emprestado a alguém da 2º Liga. Chrien deverá ser vendido."

Oportunismo ignorante...

"Esta senhora ainda eurodeputada faz-me corar por vergonha alheia, neste caso a que a própria devia ter. Se todos os outros assuntos a que se dedica forem tratados com esta leviandade, questiono fortemente a confiança que se pode neste tipo de representação. Se parasse para pensar um pouco, ou se estivesse ciente do funcionamento da Administração fiscal, saberia que os grandes contribuintes têm uma monitorização permanente da Autoridade Tributária.
Não é por aí senhora dra. Ana Gomes... dedique-se às claques legalizadas, a essas que se relacionam com o seu brinquedo predilecto, o whistleblower. A relação insistente de Ana Gomes com esta causa tem desígnios que eu prefiro dizer que não percebo. Então... que Ana Gomes perceba as causas de angariação de riqueza dessa rapaziada. A venda de bilhetes não declarada, estupefacientes, produtos falsificados e o jogo ilegal. A organização orientada para a prática de crimes de violência no desporto. Isso não lhe tira o sono, mas devia...
E os contratos públicos que financiam canais de televisão de clube, não lhe causam inquietação? Não identifica a captura do interesse publico, nas instituições, por um fanatismo de pendor regional?
As suas incursões facciosas neste domínio são exercícios de populismo ignorante e mal intencionado. Está ao nível de certos comentadores que impacientam consciências desprevenidas. Já deve ter sido iniciada nessa confraria, que se lambuza com as horas vagas do futebol. Espero que esteja de pança cheia e que a digestão seja demorada."

Erosão e angústia

"O risco, para nós benfiquistas, é o de que nos venham buscar dois ou três dos nossos principais jogadores com quatro sacos de notas

Quase tudo o que se fala e escreve sobre entradas e saídas tem por base pura especulação ou adivinhação de intenções e vontades. São precisas mais de 20 notícias para que uma se venha a concretizar. A suspeita de que o Benfica procura uma avançado fará surgir dez nomes ou hipóteses em notícias várias, a suspeita de que o FC Porto precisa de um guarda-redes dará origem a outras tantas e assim sucessivamente até esgotei leitores e espectadores.
Estamos a 15 dias do regresso aos trabalhos das principais equipas e as mil notícias quase não deram compras relevantes. Temo que será também assim na próxima quinzena e por isso mesmo não faz sentido comentar rumores, hipóteses ou quimeras.
Esta fase de pré-época cria a erosão e angústia nos adeptos, sejamos justos, mais naqueles que perderam do que naqueles que ganharam, mas com o passar do tempo só a bola a saltar tranquiliza.
O Benfica prosseguiu com renovações importantes (Rafa e André Almeida), num caminho já anunciado. Duas renovações acertadas que nenhum adepto deixa de relevar. O essencial é manter a base daqueles jogadores que nos deram o 37 e fazer poucas, mas qualitativas, contratações.
O risco, para nós benfiquistas, é o de sempre, que na parte final da janela de mercado, nos venham com quatro sacos de notas buscar dois ou três dos nossos principais jogadores, restando pouco tempo para colmatar desportivamente essas vendas. E nós sabemos que sacos de notas não vencem campeonatos. Essa é a razão porque quando se vende um grande jogador, mesmo que por uma soma elevada, os adeptos nunca ficam contentes.
O meu receio de adepto não é tanto a venda de um grande jogador por muito dinheiro, mas a sua saída no limite temporal de inscrições sem conseguir substituí-lo com qualidade. O Benfica tem por isso que antecipar a realidade ou, mais do que isso, saber construí-la.
Dia 10 de Julho na apresentação contra o histórico Anderlecht, no Estádio da Luz, era desejável ter o plantel fechado ou próximo disso porque em Agosto há uma Supertaça e três jogos para o Campeonato Nacional.
Parabéns a Fernando Santos e à sua selecção. Numa final onde quase todos estiveram bem e Rúben Dias esteve imperial, conquistou mais um título internacional para Portugal. Simplesmente excelente."

Sílvio Cervan, in A Bola

Desperdício...

Benfica 82 - 87 Oliveirense
12-17, 22-15, 13-13, 24-26, 11-16

Inexplicável a gestão final do Lisboa, a equipa cansada, o Cantero a atacar mal e a ser um autêntico buraco na defesa, jogadores frescos e a jogar bem no banco (Cardoso por exemplo...), e um banco 'paralisado'!!!
A jogar mal, tivemos uma boa vantagem no 4.º período, e no Prolongamento chegámos a ter 7 pontos de vantagem, e mesmo assim conseguimos perder!!!
O Micah não merecia...

Agora a margem de erro desapareceu... a minha única esperança, é que mesmo a jogar mal, tivemos tudo para ganhar este jogo!!!

Canelada

"Permitam-me a fantasia: as várias instâncias dos tribunais confirmam a sentença e o FC Porto é punido pelo que fez ao Benfica no 'caso dos emails'. FPF, LPFP. CMVM, AdC e outras que me possa estar a esquecer agora actuam em conformidade. Estaríamos, nesse cenário, perante a possibilidade da realização de um desafio entre Canelas FC 2010 e FC. Porto lá para 2028 numa divisão distrital da AF Porto.
O muito antecipado confronto entre as equipas, dir-se-á na altura, remonta a 2019 e começara a ser disputada fora do campo: em Vila do Conde, após um Rio Ave - FC Porto; e no Dragão, meia hora depois de um FC Porto - Aves. Foi evidente o antagonismo entre atletas de ambas as equipas nessas ocasiões. Apesar de vestidos com cores portistas, os do Canelas insultaram os portistas, o capitão até se despiu num acesso de fúria, enquanto os segundos assistiram impávidos e serenos, mas obviamente contrariados, ao comportamento animalesco dos primeiros, presumivelmente sancionado por bula pontifícia.
Por falar em Papa, então há muito mudado para Vigo, já pouco se lhe ouve. Até o sempre solicito jornal O Jogo prescindiu de uma entrevista. Se às três primeiras perguntas a resposta repetida poderia fazer sentido, à quarta, instado a comentar as palavras do protocandidato Moreira, outra vez 'Calabote' pareceu deslocado.
E chegou o desafio. Pepe, em teoria, seria suficiente para todas as macacadas dos atletas do Canelas, embora a evocação de Filipe 'Vale-Tudo', transferido há vários anos, fizesse sentido. A maior vítima foi mesmo o árbitro. Jovem ambicioso, viu-se na contingência de não saber quem beneficiar. Um dilema inultrapassável! Pediu escusa e retirou-se."

João Tomaz, in O Benfica

O Tsubasa tem muito que ensinar aos portugueses

"O leitor está recordado daquela maravilhosa selecção japonesa que conquistou o Mundial? Se não é fã da série de desenhos animados 'Oliver e Benji' é provável que não se lembre, mas eu resumo rapidamente. Oliver Tsubasa é um génio da bola, que durante a temporada mede forças com adversários de qualidade assombrosa e, após intensos duelos, a época termina e chega o momento de o seleccionador japonês convocar os melhores para representarem o Japão no Campeonato do Mundo. Tsubaba, Benji Price, Ed Warner, Mark Landers, Tobi Misaki, Julian Ross, Philip Matsuyama, Bruce Ishizaki, Jito Hiroshi e os gémeos Masio são alguns dos craques chamados. Quase todos eles competem entre si até à última gota de suor durante o ano, no entanto, assim que se reúnem a rivalidade desaparece e o espírito de união toma conta da equipa e dos adeptos. Ver este divertida série ensinou-me a ser adepto da minha selecção nacional - à custa de algumas faltas de T.P.C. que os professores desagradavelmente me assinalaram na caderneta. Os jogos de Portugal são uma oportunidade única para desfrutar da arte daqueles jogadores que normalmente queremos ver a tropeçar na bola. Contudo, há demasiados 'adeptos' que ainda não perceberam isso. Eu nunca me entusiasmei tanto ao ver o Bruno Fernandes ultrapassar a linha de meio-campo com espaço para rematar como na Liga das Nações. Porém, houve quem fosse incapaz de disfarçar o desejo de ver o João Félix falhar. Tenho pena desses 'adeptos': nunca vão sentir um abraço sincero entre amigos que apoiam cores diferentes ao longo da temporada, mas se emocionam lado a lado quando é golo de Portugal. Bruno Lage tem razão: há muito a aprender no Canal Panda."

Pedro Soares, in O Benfica