"A discussão sobre o futuro acionista do Benfica tem sido marcada por uma premissa errada: a ideia de que o clube teria de abandonar a bolsa para recomprar ações e, posteriormente, recolocá-las em parceiros estratégicos. Esta narrativa, repetida com insistência, não resiste ao mínimo escrutínio jurídico, económico ou institucional. E, no entanto, tem ganho alguma tração pública como se fosse uma inevitabilidade técnica. Não é. E é importante desmontá-la.
O enquadramento legal português e europeu é claro. As sociedades cotadas podem recomprar ações próprias, dentro dos limites definidos, e podem igualmente aliená-las posteriormente a investidores que sirvam a estratégia de longo prazo. Trata-se de um instrumento comum de gestão societária, utilizado por empresas que pretendem estabilizar a estrutura acionista, reduzir dispersão ou reforçar o controlo de determinados blocos. Nada disto exige a saída do mercado regulamentado. A bolsa não é um obstáculo. Pelo contrário, é um enquadramento.
O que verdadeiramente está em causa é a qualidade da base acionista. A permanência em mercado regulado garante transparência, disciplina e escrutínio público. O Benfica beneficia dessa exposição: reforça credibilidade, reduz opacidade e obriga a práticas de governance que protegem o interesse dos acionistas e dos sócios. A ideia de que sair da bolsa seria um passo natural para “resolver” a estrutura acionista é, além de tecnicamente infundada, institucionalmente regressiva.
A solução está noutro plano: política acionista. O Benfica pode, e deve, definir um programa de recompra de ações, devidamente enquadrado, que permita reduzir a volatilidade acionista e recompor o capital em torno de parceiros estratégicos, sem perder o controlo societário. Parceiros que não sejam meros investidores ocasionais, mas entidades com visão, alinhamento institucional e capacidade de acrescentar valor ao projeto desportivo e organizacional. Formação, tecnologia, internacionalização, futebol feminino, infraestruturas. Há áreas onde a presença de investidores qualificados pode ser decisiva.
A recolocação das ações recompradas permitiria reforçar o controlo associativo sem abdicar da supervisão pública. Criaria estabilidade, blindaria a gestão contra ciclos de especulação e permitiria ao Benfica construir uma estrutura acionista coerente com a sua identidade. Tudo isto mantendo a transparência, mantendo o escrutínio e mantendo a confiança dos mercados.
Importa acrescentar um ponto frequentemente ignorado. A permanência na bolsa não impede que, entretanto, um parceiro estratégico alinhado com a identidade do clube adquira uma participação relevante. Pelo contrário, o mercado regulado permite que esse investidor entre de forma transparente, supervisionada e com obrigações de reporte que protegem o interesse dos sócios. A recomposição acionista pode, portanto, avançar em paralelo, por via da recompra e por via da entrada de investidores qualificados. Sair da bolsa não é condição para nenhum destes movimentos.
Há ainda um elemento económico decisivo. A Benfica SAD está desvalorizada face aos múltiplos atualmente praticados no futebol europeu. Num mercado onde clubes são avaliados com prémios significativos sobre receitas operacionais, ativos de formação ou presença internacional, a cotação atual do Benfica representa uma oportunidade rara. Para o clube, significa que um programa de recompra seria financeiramente eficiente. Para investidores estratégicos, significa que a entrada no capital pode ser feita a um preço inferior ao valor económico real da organização. Para ambos, significa que a permanência na bolsa não é um entrave, mas sim uma janela de oportunidade.
Sair da bolsa, pelo contrário, teria custos significativos: perda de visibilidade, redução de transparência, aumento do custo de capital e uma perceção de retração institucional num momento em que o futebol exige exatamente o oposto, ou seja, abertura, profissionalismo e accountability. A bolsa não é um problema a eliminar, é um ativo a saber utilizar.
O debate, portanto, deve recentrar-se no essencial. Como recompor o capital, como escolher parceiros certos e como garantir que a estrutura acionista serve o projeto desportivo e institucional. A narrativa da saída da bolsa é uma distração. O que falta não é coragem para abandonar o mercado. O que verdadeiramente falta é estratégia para o utilizar."

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