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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Quando a "casa" treme... (ainda a propósito do atentado de Dortmund)

"A análise estatística acerca do contributo do "factor casa", como indicador de sucesso, tem evidenciado ao longo das duas últimas décadas que, na esmagadora maioria dos casos, ele é sobejamente relevante para o resultado final do jogo. Assim o tem sido na Premier League (em média, 15 em 20 jogos), na Liga Espanhola (17 em 20 jogos) ou mesmo na Italiana, segundo reporta a maioria dos estudos.
Contudo, existem igualmente situações onde, de forma esperada ou inesperada, "jogar em casa" não se traduzirá numa vantagem competitiva para a equipa em causa.
E foi, de facto, de forma "ainda" inesperada ("ainda", dado a crescente instabilidade política que temos vindo a presenciar poder vir a potenciar uma maior ocorrência deste tipo de manifestações), que o Borussia viu o sem desempenho "congelado" após o atentado de que foi vítima na passada semana e onde viu um dos seus jogadores feridos.
Ainda muito recentemente, mais precisamente a 17 de Novembro de 2015, naquela que seria uma jornada de preparação para o Europeu de 2016, o jogo entre Alemanha e Holanda viria a ser cancelado por ameaça de bomba no estádio do Hannover.
Turquia, Iraque, França e Paquistão (entre outros), registaram já atentados nas imediações de estádios, com um elevado numero de vítimas mas, este terá sido, possivelmente (não tenho em memória outro igual), o primeiro atentado onde uma das "grandes" equipas da Europa viu a integridade da sua "casa" (e dos seus atletas) objectivamente ameaçada.
Perante estes factos, alguém (aparentemente) "acreditado", definiu que o jogo programado para as 19h45 de terça, seria remarcado para as 17h45 de quarta-feira - 22h após o atentado!
De posse destes dados, deverá ser questionado se, de facto, a UEFA terá recorrido ao aconselhamento especializado de alguém (idealmente, são especialistas da área da Psicologia em Contexto de Crise que devem actuar neste tipo de incidentes) para tomar esta decisão... de certo, uma decisão que, com o aconselhamento dos especialistas correctos ou, até, de alguém com bom sendo, ditaria algo completamente diferente.
Este caso faz-me recordar um episódio passado com uma instituição desportiva (não ligada ao futebol), que um dia me contactou porque estavam a achar que um dado atleta estava com um "comportamento estranho"... após, imagine-se, ter observado um colega praticante da modalidade, ter ficado paraplégico durante a execução. Segundo os responsáveis, a reacção parecia-lhes "exagerada"!
"Incidentes" desta natureza são uma dura e cruel "wake-up call" para a realidade onde, num iato de segundo, todas as certezas se transformam em dúvidas, todas as motivações caem por terra, tudo em que acreditamos, nomeadamente, a "bolha de segurança" onde pensamos que estamos a viver... se esvai abruptamente.
E não, não é suposto que, 22h depois... esteja tudo bem.
Mais: pode até acontecer que se assista a uma escalada de ansiedade com, possivelmente, o desencadear de alguma situações de stress pós-traumático (nota: o guarda-redes Burki revelou à imprensa que ainda não consegue dormir).
Aliás, se não for feita uma correcta avaliação e intervenção junto de, pelo menos, todo o clube do Borussia... então, alguém estará a falhar com estes atletas e, muito possivelmente, podemos vir a assistir a um completo desmoronamento da equipa principal deste clube, até ao final da presente época.
É porque, assim de repente, a "casa" (a cidade, o estádio, o autocarro, o clube... e todas as formas que a "casa" pode assumir) deixou de ser "casa", deixou de ser segura, deixou de ter identidade e, para resgatar tudo isso, para direccionar este infortúnio no sentido de que o mesmo se transforme em energia de mudança, de transformação e de resgate emocional... é preciso que alguém assuma com a seriedade que este assunto merece, a condução de todo este processo."

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