Últimas indefectivações

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O Timoneiro I

Gloriosos indefectíveis,

Após a tempestade surge a bonança, altura de fazer o meu arrazoado sobre o nosso novo timoneiro para o futebol. Aqui fica pois a primeira parte: 

Quinta-feira, 4 de Junho de 2015: 
O Sport Lisboa e Benfica - Futebol, SAD comunica à CMVM a suspensão das negociações tendo em vista a renovação do contrato de trabalho com Jorge Jesus. 

Quinta-feira, 4 de Junho de 2015: 
O nosso presidente, Luís Filipe Vieira no seu discurso aos deputados no habitual jantar anual, fala de gratidão, de carácter e a cima de tudo declara que O Benfica Somos Nós (o que a nós no O Indefectível muito nos orgulha. Uma das nossas bandeiras na boca de nosso presidente!) 

Um nome anunciava-se como acordado para suceder a Jorge Jesus. Esse nome era Rui Vitória. O presidente no seu discurso afirmava que não tinha acordo com ninguém mas que tinha uma ideia clara. Mediante esta declaração apresentei o meu ponto de vista sobre a situação. No meu pensamento algumas ideias:
- Treinador estrangeiro, de preferência da escola alemã.
- Apresentei possíveis nomes e salários.
- Escrevi uma alegoria para motivar discussão.
- Falei dos vectores para o novo ciclo.
- Mostrei o que para mim é um mestre guru na pessoa de Juergen Klopp.
Em todas as intervenções existiu discussão e trocas de argumentos. A democracia a funcionar como deve ser em tudo o que respira e fala Benfica. Assim o é também neste espaço de indefectíveis.

Quinta-feira, 11 de Junho de 2015: 
O Sport Lisboa e Benfica - Futebol, SAD comunica à CMVM que chegou a acordo de princípio com Rui Vitória para celebração de um contrato de trabalho desportivo. 

Segunda-feira, 15 de Junho de 2015: 
Rui Vitória é apresentado como novo treinador da equipa principal de futebol do Sport Lisboa e Benfica. 

Como afirmei em comentário, Rui Vitória terá o meu apoio indefectível como não poderia deixar de ser. 
Nas suas declarações tanto Luís Filipe Vieira como Rui Vitória mencionam cada um a seu modo os três vectores. Tal ambição deixa-me feliz. O Benfica com essa ambição renovada e reafirmada está no bom caminho. 
Três anos de contrato significam cometimento de ambas as partes em prole de um projecto que se deseja vencedor. É o peso da estrutura a falar. LFV acredita na estrutura e aposta todas as fichas. Escolhe antes de tudo um homem de sua confiança. 
Rui Vitória irá crescer muito enquanto treinador. Será o rosto do trabalho e da seriedade. O Benfica tem agora à frente dos destinos do futebol uma pessoa comprometida com todas as valências do projecto, uma pessoa em quem os benfiquistas podem confiar. 
A fábrica Benfica torna deste modo visível uma nova valência. O sector de produção de treinadores. Qualidade extra é o que se espera. Que saibamos pois todos juntos fazer esse caminho. 
Rui Vitória ainda não é o mestre guru que eu ambicionava ver no nosso Glorioso mas reune outros predicados que seria difícil encontrar num treinador estrangeiro. Rui Vitória tornar-se mestre guru dentro do nosso Glorioso seria algo fantástico. Esperemos que tal se torne uma realidade. 
Contem connosco para ajudar sempre em tudo o que for necessário. Assim são os indefectíveis.

Pelo Benfica! Sempre!

Redheart <3

Um apelido e um lema: Vitória

"O novo treinador do Benfica tem um nome que inevitavelmente nos leva a trocadilhos fáceis, em que se usa e abusa do seu apelido. No fundo o treinador tem de apelido um dos lemas do clube: Vitória. Foi excelente a recepção dos benfiquistas à escolha do presidente e mais ainda à promessa de que terá um plantel forte para lutar pelos títulos que desejamos. Não podemos ficar cercados pelas centenas de notícias de pré-época em que quase todos os dias compramos e vendemos um camião de jogadores. Há no factor estabilidade um valor que seguramente a SAD encarnada não irá descurar, por isso cabe apenas cuidar de fazer um bom plantel para dar a Rui Vitória a matéria-prima para os nossos êxitos. Não me parece que por agora haja nenhuma vantagem de nenhum rival face à nossa situação actual. Por agora, vejo bem mais razões para haver céu cinzento e nuvens carregadas para outras paragens. Sabemos que tudo pode mudar num ápice, mas confiança é a palavra de ordem no reino encarnado.
No último fim de semana conquistámos o título de futsal e terminámos uma época de sonho no futebol e modalidades. Campeões nacionais em futebol, hóquei em patins, voleibol, basquetebol, futsal e atletismo. É uma overdose de êxitos que não pode deixar indisposto todo o aziago antibenfiquista. Nestas modalidades, muitas conseguiram dobradinhas e muitas outras: três e mais títulos. Foi arrasador e imperial; o Benfica 2014/2015 nos estádios e pavilhões portugueses. Este mérito deu muito trabalho e, por isso, é motivo de orgulho para todos os benfiquistas. Chegar aqui foi muito difícil, mas mantermo-nos no topo será ainda mais. Ter rumo e estratégia é decisivo e, por isso, sabemos que os êxitos não caem do céu. É fácil explicar por que razão ninguém se lembra de uma época assim: porque nunca houve, em tempo algum, e clube algum, algo de próximo desta época de conquistas. Abrir a televisão e ver ininterruptamente durante meses seguidos conquistas permanentes e títulos em catadupa, para nós foi inolvidável."

Sílvio Cervan, in A Bola

Ano de Ouro

"Campeão de Futebol, Hóquei em Patins, Basquetebol, Voleibol, Futsal e Atletismo, vencedor das Taças de Portugal de Hóquei, Basquetebol, Voleibol e Futsal, vencedor das Supertaças de Futebol, Basquetebol e Voleibol, das Taças da Liga de Futebol e Basquetebol, entre outros troféus, no sector masculino e feminino (e aqui, destaque para as meninas do Hóquei e o seu magnífico 'penta', com título europeu incluído), nos Seniores ou nas camadas jovens, pode dizer-se que nunca o Benfica ganhou tanto. Por exemplo, se atendermos apenas a campeonatos, e às sete principais modalidades (as já referidas, mais o Andebol), o máximo histórico de títulos numa só temporada era de quatro. Esta época vencemos seis!
Enquanto outros afirmam, sem se rir, ser a maior potência desportiva do País, nós conquistamos os campeonatos, os Bicampeonatos, os Tricampeonatos, os Tetracampeonatos, os Pentacampeonatos, as dobradinhas e os tripletes, nos relvados, nos pavilhões ou nas pistas, numa sequência impressionante, e a uma cadência que quase nos baralha. E, entre jogadores, técnicos e dirigentes, ninguém dá sinais de querer abrandar o ritmo.
Para aqueles que temem que o nosso Clube esteja dependente deste ou daquele treinador, deste ou daquele jogador, este conjunto de triunfos é também uma resposta, pois demonstra que a competência, a qualidade, o talento, o trabalho e a vontade de ganhar são, hoje, uma marca bem vincada em todo o universo Benfiquista.
Benfica voltou a ser sinónimo de títulos. O escudo voltou a ser peça comum nas nossas camisolas. Hoje, não ganhar é excepção.
Que grande Benfica nós temos!"

Luís Fialho, in O Benfica

Aprendam connosco

"O SL Benfica viveu algumas fases mais negras durante sua história. Assim de memória só me lembro do tiro na cabeça que foi o despedimento de Toni da equipa de Futebol e a sua substituição por Artur Jorge, brilhante jogador e lastimável treinador ao serviço do nosso Clube. Liderado por alguém que o melhor que conseguiu nesses três anos foi colar-se a uma vitória na Volta a Portugal em bicicleta, o Benfica tornou-se alvo de chacota, enterrou-se em resultados desportivos traumatizantes e envolveu-se em guerrilhas populistas que - se na sua génese poderiam fazer sentido - se revelaram patéticas na forma como foram planeadas. Aprendemos com os erros e, da mesma forma que os Sócios do SL Benfica colocaram Vale e Azevedo no poder também souberam, de forma democrática, tirá-lo de lá.
Comparar a realidade de há 15 anos com a de hoje é uma tarefa quase impossível. Hoje, somos Bicampeões Nacionais no Futebol, Campeões no Hóquei em Patins (masculino e tri no feminino) e Futsal, Tricampeões no Voleibol, Tetracampeões no Basquetebol, Pentacampeões no Atletismo, vencedores de variadíssimas medalhas e competições no Judo e no Triatlo, formadores de excelência no Caixa Futebol Campus e no projecto Benfica Olímpico. Somos parceiros de uma das maiores empresas de aviação do Mundo, uma das marcas mais conhecidas do Mundo, temos um dos Estádios mais conhecidos do planeta, um Museu premiado e que bate recordes de afluência... enfim, a lista é extensa. Estamos felizes? Sim, mas não satisfeitos. Obrigado a todos os atletas, técnicos e staff de todas as modalidades, escalões e géneros por um ano fantástico. Para o ano, quero mais."

Ricardo Santos, in O Benfica

Vitória segura!

"Temos um novo treinador para a equipa de Futebol profissional e o nome não podia ser mais acertada a aposta de Luís Filipe Vieira. Explico porquê. Antes de mais, um treinador que aposta nas camadas jovens, como se viu com André André e Bernard. Por outro lado, tem indiscutível fama de fazer apostas seguras na prospecção, como se viu com Adama Traoré, trazido da Austrália para se tornar numa das peças vitais do Vitória de Guimarães na temporada 2014/2015. Finalmente, a motivação: Rui Vitória está motivado por voltar a casa, sempre quis - e assumiu-o logo na primeira entrevista à BTV - treinar o Benfica e está empenhado em 'dar a vida pelo Clube'. São palavras do novo técnico, pelo que não estou a inovar em nada. Apenas a constatar!
Podia a aposta ter sido outra? Marco Silva? Será fácil esquecer o legado do carismático Jorge Jesus? Quanto a este último, devemos agradecer-lhe os triunfos e os bons momentos. O carisma é inerente ao clube, assim como o espírito de vitória, que Rui rapidamente assimilará. Veremos isso já na Supertaça de 9 de Agosto.
Quanto a Marco Silva, fez muito bem Vieira na escolha. De uma penada, demonstrou que o Benfica é muito superior a políticas mesquinhas de vingança ou rivalidades pífias. Mostrou que somos grandes demais para isso. Foi, portanto, indiscutível a escolha. Vitória segura!"

André Ventura, in O Benfica

Em nove anos tudo mudou

"Bem vindo Rui Vitória. Distam já nove anos desde que, em busca de uma carreira de treinador ao mais alto nível, o ribatejano abandonou a Formação benfiquista para liderar um projecto ambicioso no Fátima, onde foi bem sucedido. Seguiram-se Paços de Ferreira e Vitória de Guimarães, clubes em que deixou marca pelo bom trabalho desenvolvido. Entretanto, o Benfica mudou.
O Caixa Futebol Campus foi inaugurado e posteriormente ampliado e dotado de infra-estruturas inovadoras. O departamento médico foi reestruturado e apareceu o Benfica-LAB. Na formação, implementaram-se uma nova organização e metodologias que resultaram no regresso à conquista frequente de títulos e, mais importante, ao surgimento, ano após ano, de novos valores a despontar no Futebol português. A prospecção tornou-se exemplar. Passámos a figurar no lote dos clubes que mais facturam com a alienação de passes de jogadores e, ao nível das receitas operacionais, somos o único clube português a constar no top 30 mundial.
Desportivamente, regressámos ao domínio do Futebol nacional e à ribalta europeia.
Com o lançamento da BTV e a exploração própria dos direitos de transmissão televisiva, libertámo-nos dos poderes instalados, aumentámos as receitas e devolvemos as tardes de Futebol aos adeptos. E houve ainda a edificação do Museu, constantemente melhorado com mais taças, tal é a catadupa de títulos e troféus conquistados pelo SLB - o melhor e mais ecléctico Clube português - em todas as modalidades.
Rui Vitória reencontrará uma instituição que mantém o emblema, a divisa, as cores e o apoio apaixonado de milhões de adeptos, mas transfigurado para melhor. Incomparavelmente melhor."

João Tomaz, in O Benfica

A parada está alta

"A cinquenta dias do início oficial da temporada 2015/16, que abrirá portas com um escaldante Benfica-Sporting na final algarvia da Supertaça Cândido de Oliveira, os plantéis dos três grandes ainda estão longe do desenho final. Mas as ambições dos adeptos há muitos anos que não estavam tão igualadas. O efeito Jesus trouxe uma animação como não se via desde a contratação pelos leões de João Vieira Pinto, ao universo sportinguista, enquanto que o FC Porto tenta colmatar as partidas de Danilo, Casemiro, Óliver, Jackson (e se calhar Maicón, Alex Sandro e Brahimi...) e para os lados da Luz está a ser levada a cabo uma alteração de paradigma, com reforço da componente da formação e uma formatação diferente da estrutura atacante do plantel encarnado.
Há muita coisa a necessitar processamento e é imperioso resistir à tentação de, através de informações relativas, partir para conclusões absolutas. Mas a efervescência é indesmentível e a sofreguidão com que são consumidas as novidades remete-nos para épocas já distantes.
Este encantamento, esta fase do ano em que os jogadores andam a banhos mas os adeptos só sonham com bola, vai durar até que a lei dos resultados venha impor a sua ordem.
O que é certo é que a parada está alta, por razões diversas, para os três grandes. O Benfica parte para a defesa do estatuto de bicampeão com um novo treinador e uma nova abordagem à formação; o FC Porto, em jejum há dois anos, não quer afastar-se, pelos perigos que isso representa, da lógica vencedora; e o Sporting, autor da estratégia mais ousada, precisa de sucesso imediato para levar a sua avante."

José Manuel Delgado, in A Bola

Universo Benfica

quinta-feira, 18 de junho de 2015

A barreira da língua

"A fé é tudo no futebol. Se não houver fé no futebol nem um bilhete se vende nas bilheteiras dos estádios.

ATÉ ao final da tarde de segunda-feira, quando foi publicamente apresentado o novo treinador do Benfica, Rui Vitória era a primeira escolha de Luís Filipe Vieira mas creio que não era a primeira escolha da larga maioria dos adeptos do Benfica.
Assim que foi apresentado, Rui Vitória passou a ser a primeira escolha da larga maioria dos adeptos do Benfica porque o que tem de ser tem muita força.
«A partir do momento em que é treinador do meu clube passa logo a ser o melhor treinador do mundo» - é esta a liturgia que, de um modo geral, toda a gente de índole disciplinada segue quando surge um novo treinador com quem não se contava.
E há um mês ninguém contava que o Benfica fosse mudar de treinador. Ao Rui Vitória aproveitamos já para desejar, no mínimo, seis anos no posto.
Como o anterior treinador esteve seis anos no posto não é de um momento para o outro que uma pessoa se sintoniza com o novo treinador - estas coisas levam o seu tempo. Eu, por exemplo, tive grande dificuldade em perceber os primeiros minutos do discurso de Rui Vitória na tarde da sua apresentação. Era a primeira vez que falava para nós. E tudo aquilo que dizia soava-me arrevesado, a estrangeiro, a uma língua esquisita que abusava de concordâncias com grande desfaçatez.
Houve mais gente nossa a queixar-se do mesmo.
Depois, com o andar da conversa, os nossos ouvidos foram-se habituando devagarinho ao falar de Rui Vitória e, por fim, já todos compreendíamos quase tudo do que nos queria comunicar quando chegou ao fim da sua alocução.
Mas quase tudo não é tudo. Se, no entanto, no próximo dia 9 de Agosto o Benfica conquistar a Supertaça ficará logo ultrapassada a barreira da língua entreposta, pela força de um hábito antigo, entre o novo treinador do Benfica e os adeptos.
É com isso que todos contamos. E Rui Vitória também.

FOI bem mais agradável de se ver a exibição das segundas linhas da Selecção contra a Itália do que a exibiçãozinha das primeiras linhas da Selecção com a Arménia.
No jogo com a Arménia a Selecção limitou-se a cumprir com aquilo que se lhe pedia: uma vitória. No jogo com a Itália, um adversário historicamente intratável, fez bastante mais do que lhe era exigido. Acabou mesmo por ganhar o jogo por uma goleada de 1-0. Tendo em conta a arte italiana de resguardar a sua baliza ganhar por l-0 à Itália é sempre uma goleada. Estão todos de parabéns.

ESTE ano não vai haver Taça da Honra. O simpático e intermitente troféu de abertura de época organizado pela Associação de Futebol de Lisboa foi suspenso do calendário por falta de quórum, chamemos-lhe assim. Regressará em 2016, isto se o Benfica não se resolver, novamente, a ter outras ideias para a sua pré-temporada.
Uma choruda digressão do Benfica pelo continente americano no próximo mês de Julho retirou o emblema dos campeões nacionais do programa da Taça de Honra e, sem Benfica, a AFL decidiu que a prova não fazia sentido.
A homenagem é grande ao Benfica mas é pequena à Taça de Honra que, por este caminho, nunca mais alcança o estatuto de competição mini-clássica mas, ainda assim, muitíssimo estimável do futebol lisboeta. 
Poderia a Associação de Futebol de Lisboa ter pensado em organizar, neste Julho de 2015, um triangular envolvendo Sporting, Belenenses e Estoril no lugar do quadrangular que se realiza com o elenco completo. Mas assim não vai acontecer. Não há Benfica, não há nada para ninguém.

A propósito da derrota na final do campeonato de futsal, o presidente do Sporting atirou-se aos árbitros em geral e exigiu um apocalipse de Estado sobre todas as modalidades desportivas que se praticam em Portugal. «Não admitimos mais desrespeitos», correu a escrever no Facebook.
O presidente do Porto, por sua vez, entendeu proclamar que dispensaria de bom grado o seu treinador, qualquer treinador, se confiasse no desempenho dos fiscais-de-linha ao longo da temporada futebolística. 
Mas isto alguma vez foi maneira de ganhar campeonatos?
Imagine-se o estado de choque em que ficou, depois de ouvir Pinto da Costa falar sobre fiscais-de-linha, aquele mesmo fiscal-de-linha da Luz que, validando o golo irregular do Maicon ao cair do pano, acabou por oferecer o campeonato de 2012 ao Porto.
O futebol está todo de férias, menos na parte que mete apitos.

TEVE mais arte a colocação da fotografia de Jorge Jesus no alegre painel da equipa bicampeã nacional em exposição na loja do Estádio da Luz do que a sua remoção às mãos de um zelota anónimo magoado com os acontecimentos.
O episódio já tem umas semanas, eu sei, mas até pareceria mal não dizer nada sobre esta inusitada prática negacionista no historial do Benfica tendo em conta que até uma fotografia de João Vale Azevedo continua, e sem constrangimentos, à vista de todos no Museu do clube por uma questão de decência.
É no sentido da criatividade que digo que teve mais arte quem se lembrou de colocar a imagem de Jesus numa vitrina na Luz celebrando com os jogadores o título de campeão quando, se bem se lembram, foram comedidíssimos os festejos do então treinador do Benfica, sempre sisudo e sozinho, fazendo até adivinhar, a quem se entretém a decifrar expressões, o que aí vinha...
Em função da materialidade dos eventos foi, portanto, um abuso colocar a imagem de Jesus à força numa festa a que mal compareceu. Tirá-lo do grupo foi ainda pior.

VOLTANDO ao treinador do grande Benfica. Rui Vitória disse muitas coisas que os benfiquistas gostaram de ouvir. Não lhe deve ser difícil porque sendo ele também benfiquista sabe do que a casa gasta e sabe, sobretudo, do que a casa gosta. 
No dia da sua apresentação, deixou expressa a vontade de «fazer mais na Champions do que foi feito no passado». E quem é que não aprecia uma coisa destas?
Os adeptos tiveram oportunidade de voltar a rejubilar quando o treinador do Benfica se afirmou disposto a «apostar em cinco, seis ou sete jovens jogadores» para atacar a época de 2015/2016. A juventude é outro tema sensível na Luz, como bem sabemos.
No seu todo, a cerimónia de apresentação de Rui Vitória decorreu com decoro e dignidade em ambiente de fé no futuro. A fé é tudo no futebol. Se não houver fé no futebol nem um bilhete se vende nas bilheteiras dos estádios.
Luís Filipe Vieira pediu publicamente o tri a Rui Vitória. E eu acredito que sim, que o Benfica pode voltar a ser campeão.
Quanto à promessa do treinador de «fazer mais» na Champions com «cinco, seis ou sete jovens jogadores», francamente, já me parece bastante mais difícil de chegar lá.

COM a vitória no campeonato de futsal terminou em inaudita beleza a temporada das modalidades em que o Benfica, andebol à parte, esteve ao seu melhor nível que é aquele de ganhar tudo o que surja pela frente. 
O jogo que se veio a revelar decisivo do campeonato de futsal foi na casa do Sporting que chegou aos 2-0 de vantagem perto do fim da primeira parte. Odivelas foi ao rubro, naturalmente.
Com o entusiasmo do momento rebentaram-se umas bombas de fumo que deixaram «o ar irrespirável» no pavilhão provocando «grandes dificuldades aos jogadores», segundo concluíram os comentadores da RTP, estação que transmitiu o jogo em directo.
Por ser um clube de origem popular, com pulmões proletários mais resistentes à fuligem e às alterosas fornalhas, o Benfica deu-se melhor com a fumarada do que o adversário e foi num ambiente tão favorável quanto espesso que reduziu para 2-1 dando início à reviravolta.
A decisão do jogo e do título teve de esperar, no entanto, pelos penalties e acabou por sorrir ao Benfica. O Sporting ficou muito zangado com o árbitro que mandou repetir por duas vezes os penalties do Benfica visto que o guarda-redes do Sporting estava francamente adiantado em relação à linha de baliza. O que não é permitido no futsal.
No futebol também não é permitido o guarda-redes adiantar-se no momento do penalty.
Com um árbitro destes tínhamos ganho a final da Liga Europa ao Sevilha e a Beto. Também teria sido mais do que merecida essa vitória."

Leonor Pinhão, in A Bola

Notícias e não notícias

"A lei do mais forte (leia-se futebol) exprime-se nos jornais, televisão, rádio e entre as pessoas. Os outros desportos são, comunicacionalmente, uma espécie de side car, ao lado do imperial futebol. Assim ditam, também, as poderosas (e, às vezes, corrompíveis) leis do mercado.
Acontece que, quando estão e causa representações nacionais, custa-me ver a mera reprodução deste enorme fosso entre a importância que é dada a qualquer minudência no futebol em relação a sucessos prestigiantes noutras modalidades.
Foi o que, notoriamente, se verificou agora. Portugal jogou bola na Arménia e atletas portugueses competiram nos Jogos Europeus em Baku. E o que vimos? Manchetes, páginas e páginas, noticiários e comentários televisivos até à náusea por causa de uma sofrida vitória contra uns medíocres arménios. Um exagero tonto. Ao mesmo tempo, a selecção nacional de ténis de mesa, campeã da Europa, arrebata a medalha de ouro no Azerbaijão. E o que constatámos? Uma quase ausência nos telejornais e uns míseros milímetros quadrados nas capas dos jornais, arrumados a uma canto e esmagados por um «inolvidável» êxito na Arménia.
Os medalhados no Azerbaijão (coisa rara no futebol) continuam em outras modalidades. Mas o que é isso diante de umas declarações inócuas de um qualquer jogador ou as férias de um treinador?
Vem aí o Mundial de hóquei. Este desporto, outrora o mais representativo de Portugal, bem precisa não só de reconquistas, como de apoio, que começa na comunicação social. Mas já antevejo uma qualquer pré-transferência no futebol a levar na enxurrada das não-notícias as notícias de Portugal do hóquei."

Bagão Félix, in A Bola

Jardel...

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Glorioso SLB

"Um ano quase perfeito do Benfica: tetracampeão de basquetebol, tricampeão de voleibol, bicampeão de futebol e «o campeão voltou» em hóquei em patins e futsal. Refiro-me aqui apenas às competições masculinas colectivas com bola, mas não secundarizo outras modalidades, como o atletismo e as provas femininas (no hóquei em patins, ganhando tudo, cá e na Europa).
Um pecúlio notável que não é fruto do acaso. Nem da sorte. Como se costuma dizer, a sorte só vem antes do trabalho no... dicionário. Resulta da grandeza de um clube radicalmente eclético e de um persistente e bem estruturado plano que dá já os seus frutos em plenitude. Se juntarmos os últimos 2 anos, o Benfica conquistou 8 campeonatos, o Porto 2 (andebol), o Valongo 1(hóquei, 2013/14) e o Sporting 1 (futsal, na época passada).
Por isso, como benfiquista que gosta de futebol, mas também muito das outras modalidades, felicito os órgãos dirigentes, nas pessoas do presidente Luís Filipe Vieira e do vice-presidente Domingos Almeida Lima.
E também endereço a minha gratidão aos técnicos que souberam potenciar conjuntos de atletas excelentes. Falo de notáveis exemplos de benfiquismo e de competência como Carlos Lisboa, José Jardim e Pedro Nunes. Falo do jovem e sereno técnico de futsal Joel Rocha (soube-me bem a vitória, e logo em casa do eterno rival). Falo, evidentemente, de Jorge Jesus, decisivo para o tão ansiado bicampeonato depois de 31 anos de 'bijejum'.
Também nas camadas mais jovens tem havido títulos e futuro assegurado. Na época que se avizinha, espero mais vitórias. Com Rui Vitória e os treinadores vitoriosos que continuam."

Bagão Félix, in A Bola

O que espera Rui Vitória no Benfica

"1. O talento individual é a base para a excelência dos desportos colectivos, mesmo sabendo que o êxito mais relevante só chega depois de harmonizados todos os elementos em causa. Por isso o treinador é peça tão importante na construção de uma equipa. O futebol, como espelho da sociedade, sugere a cada um o desejo de expressar-se de acordo com os valores que defende. Num grande clube, o conceito de sucesso não comporta apenas a vitória: depende muito do modo como é alcançada. Aos 45 anos, e depois de peregrinações menores, Rui Vitória é o novo treinador do Benfica. Diz-nos o passado que nem todos os profetas escalam a montanha à primeira tentativa. Mas o caminho não tem escapatórias: o treinador só chegará ao céu se levar os jogadores a aceitar o rumo que lhes é dado.
2. Todas as decisões contribuem para dar personalidade a uma equipa: toque ou pontapé para a frente; defender à zona ou homem a homem; jogar por dentro ou por fora; com um ou dois avançados no eixo central. Se as alternativas ao modelo são reduzidas (a grandeza do Benfica abrevia boa parte das opções, ficando apenas por calibrar elementos como vertigem, equilíbrio, aventura, disciplina, risco, organização), em termos tácticos veremos se resiste o 4x1x3x2 de JJ, com dois avançados, vincada exploração dos flancos e uma dupla de médios com a funcionalidade de Javi e Aimar; Javi e Witsel; Matic e Enzo; Samaris e Pizzi. Mesmo que a exequibilidade do novo paradigma imaginado para o futebol benfiquista (mais formação e menos investimento) tenha sido posta em causa, RV só tem de juntar ao pedagogo o treinador que sempre foi.
3. Vitória beneficia também da identificação com a cultura da casa, vantagem que lhe permitirá mais consistência nas decisões. Por experiência, sentimento e sensibilidade, sabe que o Benfica, mais ainda após seis anos de ouro que interromperam o ciclo miserabilista das últimas duas décadas, recusa ver-se reduzido a equipa moldada pelos princípios estritos de pragmatismo, ordem, disciplina e profissionalismo. A riqueza da história e o brilho do troço conduzido por Jorge Jesus dão lustro ao orgulho de uma família que rejeita alterar a sensibilidade e a tendência estética definida no código genético. RV, que teve de dançar ao ritmo de diferentes músicas em Guimarães - chegou a fazê-lo na mesma temporada -, atingiu patamar cuja lógica de grandeza não tem comparação.
4. RV vai ter de adaptar inteligência e talento à construção de um exército que respeite o passado da grande potência; que gere felicidade entre o seu povo, enobreça o jogo, estimule o espectáculo, valorize os soldados e promova o negócio. Nem todos os generais triunfam debaixo de tanta pressão, marcada pelo escrutínio impiedoso dos adeptos e pela cobrança instantânea do circo imenso que gira à volta. Homem firme de perfil discreto, RV tem pela frente um mundo novo por descobrir; uma dimensão superior para testar a bagagem de saber que o trouxe ao topo sem saborear o inêxito. Só perante desafios tão transcendentes o ser humano testa a solidez do conhecimento que possui, os fundamentos da proposta que apresenta, a força das ideias que defende e a espessura da personalidade que o suporta. A tarefa é difícil mas não impossível; cumpre o sonho de uma vida mas não danifica a ambição; alimenta dúvidas mas não mata a esperança.
(...)"

Panenkas e formação

"Caro Raphael Guzzo, até hoje nunca usei esta minha coluna para me dirigir a alguém sob a forma de carta mas, porque há sempre uma situação em que vale a pena quebrar as regras, cabe-lhe a si ser o destinatário. 
Antes de mais quero dizer-lhe, admitindo a minha fraqueza, que me apeteceu insultá-lo pelo penalty falhado no jogo com o Brasil. Claro que apeteceu, é futebol, é ganhar, é perder. É emoção pura, e perder é sempre pior do que ganhar.
Limitei-me a um desabafo na hora, mas, acredite, não é nada contra si. Só não falham grandes penalidades os medíocres: os que não têm talento para jogar futebol; os que, tendo, não têm coragem de se chegar à frente.
E foi por isso que, no dia seguinte, voltei a ter vontade de insultá-lo, quando li no Facebook a sua emocionada mensagem. Diz o Raphael que deixou ficar mal os colegas, os amigos e a família? Desculpe o paternalismo, mas... enlouqueceu? Quem deixa ficar mal o País não são os futebolistas que falham pontapés, antes os que roubam e corrompem, os que por omissão permitem o perpetuar dos erros. Não volte sequer a pensar «não vou dizer que não têm razão» os que o insultaram com mensagens de ódio! Claro que não têm! Só gente irracional pode insultar quem falha um pontapé! Não se encolha, não carregue a culpa que não é sua. Sim, podia ter chutado ao ângulo, mas fez aquilo em que acreditava. Correu mal, é verdade, mas, convenhamos, por alguma razão aos 20 anos ainda joga nas selecções de formação.
Acredito, então, que tenha aprendido que o penalty à Panenka só era bom quando ninguém o marcava e que agora que está banalizado deixou de resultar. Ainda vamos rir juntos quando marcar o penalty que dará a Portugal o título Mundial em 2018!"

Nuno Perestrelo, in A Bola

Nome de águia

"Na primeira aparição pública à Benfica, Rui Vitória revelou inteligência e maturidade. Para já, entrou a ganhar
O novo treinador do Benfica chegou à Luz pela mão do presidente, mas previamente condenado a ter de conquistar a maioria dos adeptos, já que um passado benfiquista não é suficiente para aplacar mágoas e sentimentos de vingança provocados pela saída de Jorge Jesus, mantendo-se viva a discussão se saiu pelo próprio pé ou foi empurrado. De véspera, Luís Filipe Vieira teve o cuidado de abrir o caminho a Rui Vitória, deixando claro que não é homem para decidir por impulsos. Reforçou a ideia de o projecto estar à frente dos nomes e, na passada, respondeu a quantos defenderam a contratação de Marco Silva, ao jeito de retaliação.
A escolha de Rui Vitória aparece desde o início colada a uma projectada mudança de paradigma, fazendo da formação bandeira de futuro, ideia simpática para agradar às massas, mas irrealista de ponto de vista desportivo, pois toda a gente sabe que é de todo impossível de um ano para o outro pegar em cinco jogadores da academia, pô-los a jogar e continuar a ganhar. Foi no arrefecer dessa ideia de uma aposta incondicional na formação que Vitória começou a pontuar. O treinador anunciou ambição, mas não se esqueceu de referir o principal objectivo da temporada: o tri. Do mesmo modo avisado, deixou clara a intenção de não mexer no que encontrar bem feito, aproveitar o sistema de jogo e a estrutura da equipa e ir colocando cunho pessoal com o passar do tempo. Para além de ter nome de águia, vê longe. Ah! Está desejoso por medir forças com Jorge Jesus mas sem que nenhum deles conte a sério. Importante será o Benfica-Sporting."

O "déjà vu" pode ser útil

"Até agora, ainda não há defeitos visíveis nos controversos Jogos Europeus
Apanhados em cheio pelo escândalo FIFA e entregues a um país tão puro e cristalino como o Azerbaijão, os primeiros Jogos Europeus resvalaram num instante para a suspeita. Jornais tão fidedignos como o inglês The Guardian escreveram que eram apenas uma forma de os Comités Olímpicos da Europa acederem ao negócio tão apetecido (e sinuoso) dos grandes eventos "a la FIFA". Em parte, é por causa disso que são combatidos pelas confederações do atletismo e da natação, que já vão tirando lucro dos seus próprios campeonatos continentais e não querem concorrência. É verdade que as medalhas portuguesas no ténis de mesa, no taekwondo e na canoagem são repetições do que sucedeu nos respectivos Europeus (as mesmas competições e os mesmos competidores deram nos mesmos vencedores, que surpresa), o que faz estes primeiros Jogos parecerem uma espécie de prova dos nove de luxo. Mas também é verdade que trazem aos vencedores uma ratificação valiosa, em ambiente já muito próximo do Olímpico, que por cá é sempre tido como perturbador para os portugueses. E ainda, obviamente, um prolongamento da glória e de um momento de superioridade competitiva que não faz mal nenhum aproveitar. O ténis de mesa, o taekwondo, o triatlo e até a canoagem não sofrem, propriamente, de excesso de atenção. Ou seja, para os interesses de Portugal, ainda não vi defeitos nos Jogos Europeus. E menos ainda verei se, como desconfia o The Guardian, daqui por alguns quadriénios eles começarem a render muito dinheiro e a produzir Blatters. Não me importaria nada que o Comité Olímpico de Portugal, que vai buscar 85% das receitas ao Estado, tivesse a conta bancária da FPF."

Segredos Cristante (completo)

O filho do mestre do jogo da pata

"Teve convites para jogar no Atlético de Madrid e no Real Madrid, mas teimava: «A sair da minha terra, só para jogar no Benfica». Domingos Carrilho Demétrio foi uma das grandes lendas do futebol português: chamavam-lhe Patalino.

Hoje, se me dão licença, falarei de alguém que nunca jogou no Benfica. Não deixou, por isso, de ser uma das mais lendárias figuras do Futebol português. Domingos Carrilho Demétrio: o Patalino. Não jogou no Sport Lisboa e Benfica, mas jogou no Sport Lisboa e Elvas, clube da cidade onde nasceu em 1922 e filial do Sport Lisboa e Benfica, como está bem de ver.
Numa entrevista à famosa revista «Stadium», já na altura adiantadíssima para a época, Patalino confessou a sua alma 'encarnada'. Que sim, que tinha uma paixão pelo Benfica, que o Benfica seria o único clube que o faria deixar o seu Alentejo natal, mas que não conseguia, que as saudades eram mais fortes, que nada o arrastava para fora da sua zona raiana por mais convites que tivesse.
E teve. Imensos! O Sporting pensou nele para jogar ao lado de Peyroteo e poder um dia substituir o homem de Humpata. Patalino não foi.
Houve o Bordéus, até o Real Madrid... E Domingos Carrilho Demétrio aferrado ao seu rincão, preso ao Alentejo, às suas paisagens melancólicas, à sua gente pacífica.
Quando Patalino começou a jogar, Elvas era terra de Futebol. Havia o Sport Lisboa e Elvas, filial n.º 6 do Sport Lisboa e Benfica, havia o Sporting Clube Elvense, filial do Sporting Clube de Portugal, havia o Clube de Futebol «Os Elvenses», filial do Belenenses.
O Sport Lisboa e Elvas ganhou destaque ao conseguir ascender em 1946, à I Divisão. Patalino era a estrela da companhia, que contava com gente como Massano, Toninho, Morais, Aleixo ou Rosário, por exemplo.
Gente finíssima.
Esse dia 9 de Maio de 1948
No dia 13 de Janeiro de 1946, Patalino estava no Campo Grande para defrontar o Benfica.
Rezam as crónicas (não juro, porque não tenho elementos para isso) que foi o primeiro jogo oficial entre um clube e uma das suas filiais.
Vitórias, sobre a Oliveirense,Vitória de Guimarães e Boavista tinham feito recair o interesse sobre a equipa alentejana.
Por isso, o público não faltou.
Escrevia Ribeiro dos Reis, um dos grandes mestres: «O Sport Lisboa e Elvas tem um grupo curioso, que faz um futebol agradável de seguir e que representa condignamente a sua região. O sector do ataque, especialmente o trio central, deixou bom cartel. Movimentam-se todos bem, sabendo desmarcar-se e lutando com brio e entusiasmo. Mostraram-se decididos em frente da baliza, o que constitui virtude de grandes méritos. O seu segundo e último 'goal' foi um modelo de boa execução e mereceu plenamente os vibrantes aplausos do público».
O segundo «goal» foi de Alcobia; o primeiro de Patalino.
O Benfica marcou cinco: Rogério Pipi (2), José da Luz, Moreira e Aleixo na própria baliza. O encontro ficou, portanto, para a história.
E Patalino continuaria a marcar golos e golos.
Alguns ao Benfica.
No dia 9 de Maio de 1948, a três jornadas do fim do Campeonato, dá uma machadada decisiva na hipótese de o Benfica vir a ser campeão. Senhor de uma categoria rara nos avançados do seu tempo. Patalino faz desgraça no Campo Grande com dois golos em 30 minutos, fazendo da resposta de Rogério Pipi na segunda parte um mero acaso estatístico.
Nessa altura já Patalino jogava n'O Elvas - Clube Alentejano de Desportos, resultado da fusão entre Benfica e Sporting, ou seja, entre Sport Lisboa e Elvas e Sporting Clube Elvense, vindo a tomar o lugar do primeiro no Campeonato Nacional da I Divisão.
Patalino?, perguntarão os meus estimadíssimos leitores... Sim, Patalino de alcunha. O seu pai tinha fama de ser grande campeão do jogo da pata, um jogo tradicional disputado com dois paus, e daí Domingos Carrilho Demétrio, ter ido dar em Patalino.
Antes do Sport Lisboa e Elvas (e a seguir O Elvas), jogou n'Os Elvenses e no Lanifícios de Portalegre. Rápido, eficaz, com uma capacidade física impressionante, foi émulo de Peyroteo, embora à distância, e foi chamado à Selecção Nacional lado a lado com o mesmíssimo Peyroteo, com Rogério Pipi, Bentes, Jesus Correia, Araújo, Travassos e todos os grandes da sua geração.
Em 1947 recusa 150 mil pesetas e um ordenado de 2500 pesetas para jogar no Atlético de Madrid. «Para abandonar a minha querida terra só o faria pelo Benfica».
Nunca veio para Lisboa. E saiu de Elvas pouco tempo depois de O Elvas ter baixado de divisão. Não foi para longe. Assinou pelo Lusitano de Évora e voltou a jogar na I Divisão e a defrontar o Benfica.
Em 1956 estava no Serpa. Depois veio o Luso do Barreiro e o Arrentela onde ainda se cruzou com aquele que viria a ser por muitos anos dono da baliza do Benfica: José Henrique.
No Futebol, como no firmamento, as estrelas têm por hábito cruzar-se. E deixar atrás de si o rastro brilhante das lendas..."

Afonso de Melo, in O Benfica

Proeza que bateu de longe todos os prognósticos

"Nem os furúnculos, nem a chuva impediram José Maria Nicolau de vencer a X Porto-Lisboa num impressionante tempo recorde.

Em 1932, após cinco anos de interregno, foi retomada a Porto-Lisboa em ciclismo. Seria a primeira vez que José Maria Nicolau participaria nesta dura prova de 340 quilómetros percorridos de uma só vez entre o Porto e a capital.
Mas por azar, seis dias antes da prova, após um treino que fez no Porto, foi atacado por uma grande quantidade de furúnculos nos pés, a ponto de quase não poder andar. Convenceu-se de que se estava impossibilitado de participar - chorou lágrimas amargas! Ao sujeitar-se a um tratamento rigorosíssimo, melhorou. Porém, às vésperas da partida, por efeito do tratamento, o pé esquerdo a inchar desmedidamente a ponto de não conseguir calçar o sapato! Mas a estrela da sorte estava de seu lado, com tratamento o pé desinchou e pôde tornar o seu sonho realidade.
Partiram do Porto às 2h30 da madrugada de 17 de Julho. O tempo mudou e a chuva que começava a cair em pleno verão fustigou os corredores em quase todo o percurso. Porém, o entusiasmo pela prova era tal que isso não impediu que milhares de pessoas vibrassem com a passagem dos corredores. Desde a aldeia mais pequena até à cidade mais populosa não faltou público a saudar e a encorajar.
José Maria Nicolau impôs um andamento vigoroso à prova. Já perto de Lisboa, imprimiu à corrida o máximo de velocidade que lhe era possível. Era surpreendente a sua energia para quem já tinha feito 300 Km.
Apenas aguardado por volta das 16h, entrou na pista do Estádio do Lumiar pouco depois das 14h30. Ainda chegavam pessoas ao Estádio e muitas só chegaram depois! Fez sem esforço as seis voltas complementares sempre delirantemente aplaudido. Pela primeira vez venceu a Porto-Lisboa e conseguiu a proeza de baixar o tempo da prova em 2h 35m e 11s. No final, os colegas levaram-no aos ombros para mais uma volta à pista em apoteose de triunfo.
Poderá recordar esta e outras conquistas deste grande nome do ciclismo português na área 2. Ídolos de sempre do Museu Benfica - Cosme Damião."

Ana Filipe Simões, in O Benfica

Samaris...