Últimas indefectivações

sábado, 30 de maio de 2015

Poder, dinheiro e futebol

"Blatter não se mostrou arrependido. Apenas surpreso. Apresentou-se como a mais sofredora das vítimas. Ele que tudo dominou e controlou.

Blatter está à beira do abismo e, como na história do louco, decidiu dar um passo em frente. De repente, em vésperas da consagração para mais um mandato em Zurique, fez a espantosa descoberta de que o esplendoroso universo FIFA, que ele comanda, domina e controla sem contemplações, consentiu, afinal, um mundo execrável de influências, fraudes e corrupção, com esquemas organizados para lavagem de dinheiro ilícito.
Perante os congressistas da FIFA, chegados de todos os continentes, Blatter não se mostrou arrependido. Mostrou-se, sim, surpreso, e fez questão de se apresentar como a mais sofredora das vítimas das misérias humanas que corromperam cidadãos que ele tanto respeitava e nos quais tanto acreditava. Tudo o que ants de falava, tudo o que antes de dizia, tudo o que antes de criticava era, para Blatter, apenas um coro desafinado e rapazes invejosos e maledicentes.
Eleito no 51.º Congresso da FIFA, em 1998, em Paris, e sucedendo a João Havalange (24 anos do presidência da FIFA) que lhe entregou a eleição como se entregasse a sucessão de um trono de monarquia absolutista, Joseph Sepp Blatter, hoje, com 79 anos de idade, teve a sagacidade de entender que não poderia tirar com uma mão, sem dar com a outra. Com ele, a FIFA consolidou não apenas o Estado do futebol, considerado, admirado e venerado pelos chefes de estado de quase todo o mundo, mas o império, onde não apenas o imperador, mas a corte que lhe era fiel, garantia uma sobrevivência generosa de condições e privilégios. A riqueza que o futebol proporcionava passou a estar, para a FIFA, como o petróleo para os países árabes e por isso o nível de vida das elites do organismo de Zurique tanto se aproximava de uma vida das arábias, com hábitos luxuosos próprios de reis e de príncipes.
Blatter sempre soube fazer crescer esse império e sempre garantiu a ausência de um efectivo escrutínio. Porém, sempre soube ser generoso para com aqueles que se mostravam fiéis, aqueles que nunca interrogavam, e, em especial, aqueles que o idolatravam.
Ao longo dos tempos de presidente, Blatter foi-se tornando refém do seu próprio culto de personalidade. Nas Galas anuais da FIFA, os mais independentes faziam apostas jocosas sobre quantas vezes, em cada ano, ele subiria ao palco e falaria perante as câmaras de televisão, assumindo-se, sempre, como artista principal.
No entanto, Blatter sempre cuidou de garantir provas suficientes de que, com ele na liderança, a FIFA se tornara próspera e universal e, além disso, uma organização interessada e comprometida com o desenvolvimento social, política e económico, sobretudo, nas zonas mais carenciadas do mundo.
Foi essa política de compensação, essa ideia de criar uma cultura forte de contribuição para as grandes causas humanitárias, essa preocupação em promover uma política de benemérita contribuição para os pobres e para os desprotegidos da vida, que levou a FIFA a importantes associações e convénios com instituições e organizações de carácter humanitário, entre as quais, a própria ONU.
Não se deve, nunca, desprezar nem a sagacidade, nem a inteligência, nem a capacidade de sobrevivência de um homem como Blatter, que está há 40 anos na FIFA e conseguiu, ao longo de todo este tempo, construir um império de dimensão global, implicado nas diversas alianças, envolvido em complexas estratégias políticas, em enredos de negócios das maiores multinacionais. Blatter tem muito poder, tem muito dinheiro e tem o conhecimento, como poucos, do mundo do futebol. A notícia da sua queda, por enquanto, ainda é muito exagerada.

Dentro da área
Lopetegui e a decisão portista
, no FC Porto, quem seja a favor e quem seja contra a continuidade de Lopetegui. Como Pinto da Costa não só é a favor, como assumiu internamente a decisão, a continuidade do técnico espanhol torna-se, para já, pacífica. Não me parece uma má decisão. É de esperar que o treinador tenha aprendido alguma coisa de importante com esta época desoladora; é de esperar que o grupo se adapte melhor às diferenças; é previsível que a estabilidade ajude, mais uma vez, a melhores resultados. Então se Benfica e Sporting mudarem...

Fora da área
Putin e Cameron política e futebol
O presidente russo, Vladimir Putin, conseguiu descobrir uma tenebrosa conspiração americana contra as forças do bem da FIFA. Por outro lado, o primeiro ministro britânico, David Cameron, entende que Blatter não pode continuar na liderança e que a FIFA precisa de reformas.
De facto, o futebol, vivido com despudor na plataforma da discussão política, torna-se perigosamente caricato e vulnerável. O povo estremece só de ver o jogo de que tanto gosta manipulado ao sabor de estratégias que não lhe dizem o menor respeito."

Vítor Serpa, in A Bola

Devemos celebrar a morte de quem morre assim?

"Morreu há dias Dean Potter. Vinha a voar dum penhasco de 2300 metros no Parque Natural de Yosemite, nos EUA, o paraquedas não abriu e, na tentativa de passar por um estreito rochoso, Potter esborrachou-se. Correu-lhe mal o BASE jump, que de resto praticava ilegalmente.
Potter não queria saber. Tinha 43 anos e nome feito no restrito sector dos malucos. Saltava do topo de edifícios, montanhas. Nada temia. Era admirado por uma comunidade de loucos que sonhavam ser loucos como ele e, não podendo, se ficavam pela reverência.
Potter dizia dele próprio ser um «um atleta, um aventureiro e um artista» e eu concordo em parte. Não sei se era bom artista ou bom atleta mas era garantidamente bom aventureiro.
Fico, porém, sem saber se devemos celebrar a morte de quem morre assim. Foi uma tragédia, eu sei. Isso é óbvio. O que pergunto é se alguém que dedica a vida a esta iminência e eminência da morte não deve, depois de morto, ser ainda mais admirado pelos tais loucos que o celebravam em vida. Senão é um mártir desportivo.
A figura do daredevil, nascida com Evel Knievel - o ícone motociclista norte-americano dos anos 60 e 70 que partiu ossos por 433 vezes em saltos arriscados - tem um enquadramento difícil no desporto, mesmo no das modalidades radicais, de aventura. Mas ainda mais difícil parece ser tentar saber a razão pela qual Potter se considerava artista. Estou convencido de que um daredevil não quer morrer e duvido até que possa acreditar que o seu trabalho valerá mais quando morrer mesmo. Só então a sua criação teria, sim, a valorização póstuma clássica nas obras de arte.
No resto, é pena que alguém tão novo morra a tentar voar."

Miguel Cardoso Pereira, in A Bola

Agraciados

"Decorrei esta semana, por iniciativa do Presidente da República, um evento denominado Homenagem ao Desporto Português. Na referida cerimónia foram distinguidos 16 atletas.
Podemos questionar a oportunidade desta cerimónia, pois no último 10 de Junho, momento em que é habitual o Presidente da República proceder à atribuição e entrega dos títulos honoríficos, ninguém da área do desporto mereceu distinção. E não podemos esquecer a celeuma gerada recentemente com a entrega de títulos honoríficos em cerimónia específica para apenas atletas, treinadores e dirigente de uma única modalidade. Todos esperam coerência, bom senso e justiça por parte da entidades do Estado. Na verdade, e neste evento, com um critério transparente, medalhados olímpicos/paralímpicos e um campeão do Mundo de uma disciplina olímpica e outro paralímpica, o Presidente da República agraciou atletas que se destacaram em grandes competições internacionais, especialmente nos ditos Jogos, e que até hoje não haviam sido agraciados.
Surpreendente e revelador o facto de termos medalhados em 1952 e que durante todos estes anos, e após centenas de títulos honoríficos entregues, nenhum Presidente da República teve a oportunidade de os homenagear.
Um país que paga prémios de mérito desportivo, fazendo cerimónias para entregar cheques, já podia ter criado esta oportunidade. Sinal do real valor e peso que ao desporto (não) é dado. Fica esta cerimonia marcada, acima de tudo, como um acto de justiça e reconhecimento para com estes atletas que atingiram a excelência, mais vale tarde do que nunca.
Esperemos que não seja apenas um fogacho circunstancial. E que nas futuras cerimónias de atribuição de títulos honoríficos o desporto esteja presente com as demais áreas, nas cerimónias do 10 de Junho."

Mário Santos, in A Bola

David atinge Golias

"Fly Emirates
São da mitologia Judaica as referências a David e Golias, ou naquela época a sequência era inversa, Golias e David.
Golias era um Homem muito alto - segundo rezam as crónicas mas David, astuto, arremessou uma pedra contra a cabeça de Golias, fazendo com que este caísse no chão. A partir daí, matá-lo foi facílimo!
Esta história chegou aos nossos dias contada de forma diferente, propagando a ideia que o mais fraco pode vencer o mais forte!
Mas como se leu, em vez de lutar corpo a corpo, David atirou-lhe com uma pedra mesmo em cheio na cabeça!
É evidente que a realidade da vida é mais esta última, do que a romântica de que os fracos podem vencer de forma leal os fortes!
Neste caso específico, o Sport Lisboa e Benfica não se atirou a ninguém, mas usou de forma leal e astuta a sua inegável importância e estatuto de maior instituição de Portugal para assim poder firmar um acordo de patrocínio que poderá ficar para a História como o maior de sempre celebrado em Portugal. A 15 de Maio de 2011, a FC Porto SAD informava o mercado que havia celebrado com a Portugal Telecom SGPS S.A. um acordo de patrocínio, onde se lia mais ou menos isto:
'... vem informar o mercado que celebrou um contrato de patrocínio com a Portugal Telecom, SGPS, SA, que vigorará até 30 de Junho de 2015.
Como contrapartida deste acordo, a Futebol Clube do Porto - Futebol, SAD garante proveitos globais mínimos de 14,6 milhões de euros.
Mais se informa que este contrato contempla o pagamento de prémios variáveis adicionais, dependentes da performance desportiva, nacional e internacional, da equipa principal de futebol desta sociedade'.
Os Emirados Árabes Unidos, em árabe (Dawlat al-Imãrãt al-'Arabiyah al-Muttahidah) são um país árabe localizado no Golfo Pérsico. Correspondem a um conjunto de monarquias árabes autónomas - Emirados, mas que se organizaram numa confederação. Os sete Emirados são Abu Dhabi, Dubai, Sharjah, Ajman, Umm al-Quwain, Ras al-Khaimah e Fujairah. A capital, a segunda maior cidade dos Emirados Árabes Unidos, é Abu Dhabi.
Tem a sexta maior reserva de petróleo do mundo e é um dos países mais ricos do mundo por produto interno bruto (PIB).
A Fly Emirates é a companhia de aviação destes Emirados.
O sistema não funciona através de impostos, pois a sociedade de aviação pertence ao Fundo Soberano Estatal, tendo gerado dividendos de 14,6 biliões de AED (moeda local).
Em 2013 o sector da aviação contribuiu com 26,7 biliões de dólares para a economia do Dubai e suportou 416.500 postos de trabalho.
Vejamos na Fig. 1 os Proveitos Operacionais.
E na Fig. 2, os Lucros que foram atribuídos ao proprietário.
Isto tem tudo a ver com a nossa TAP.
Não é maledicência, não é menoridade, não é complexo de inferioridade, nem sequer é querer atirar com o 'calhau' à cabeça do Golias.
Os impostos em Portugal ultrapassaram há muito o limite do admissível. Hoje é um perfeito confisco! Acham que com os impostos que existem e com a forma como todos são hoje controlados, que alguma vez alguém irá querer investir em Portugal a não ser no Benfica e mais meia dúzia de coisas?
Eu quase que tenho a certeza que não!"

Pragal Colaço, in O Benfica

sexta-feira, 29 de maio de 2015

6.ª Taça da Liga

Benfica 2 - 1 Marítimo

Continuamos a açambarcar Taças da Liga, para inveja de muitos (apesar de não o confessarem!!!). Tal como era esperado, o grau de dificuldade foi muito elevado. Um jogo com muita luta, pressão altíssima, pouco tempo para pensar... e como acontece muitas vezes fora da Luz, um relvado onde não é fácil controlar a bola, e assim o habitual carrossel ofensivo do Benfica, 'anda' um pouco mais devagar, e isso beneficia sempre o nosso adversário... Não é uma questão de menos ou mais atitude, como às vezes se diz... O Marítimo jogou bem, fizeram 90 minutos a alta rotação, com marcações 'fortes', sempre à procura do erro do Benfica, e não é fácil num final de época, após os festejos do Campeonato, voltar a focar a atenção dos jogadores, para este tipo de duelos, como o passado recente do Benfica comprova... Mas desta vez, não falhámos. Vamos para férias sem amargos de boca, finalizando uma série de 6 troféus internos consecutivos...!!!
O jogo começou repartido, com a bola longe das balizas, mesmo assim o Lima falhou um golo feito... o Marítimo também rematou com perigo (pelo menos 1 vez), mas foi de bola parada, perto do intervalo, que chegámos ao golo...
O 2.º tempo começou com uma grande defesa do Júlio, e logo a seguir tivemos a expulsão do Raul Silva (provavelmente já devia ter sido expulso na 1.ª parte!!! Um autêntico caceteiro profissional!!!), o Benfica reagiu imediatamente... mas acabou por ser o Marítimo, num ataque rápido, numa falha colectiva de marcação (não foi só o Jardel), permitimos o empate!!! O Marítimo fechou-se, começou a despachar bola para o Marega (que mesmo sozinho, foi criando confusão!!! Ainda bem que foi substituído!!!)... Mas desta vez o Jesus mexeu bem na equipa, o Talisca e o Ola John entraram bem, e entrámos em modo massacre, com vários golos inacreditáveis falhados... Até que apareceu um dos mal-amados do plantel: Ola John a decidir o título a favor do Benfica (logo no dia, onde apareceram notícias 'seguras' de uma provável ida para Inglaterra para gáudio de muitos Benfiquistas!!!). Mesmo contra 10, os últimos minutos não foram fáceis, o Marítimo nunca desistiu, e o Benfica cometeu alguns erros, que não costuma cometer: aquele livre nos descontos, foi muito mal defendido...!!!
Júlio César voltou a fazer algumas defesa importantíssimas... Os Centrais tiveram melhores na marcação ao Marega (em relação ao jogo do Campeonato)... O Eliseu fez um dos melhores jogos ao serviço do Benfica!!! O Maxi voltou a ser um falso-ponta-de-lança!!! O Samaris tal como no jogo do Campeonato voltou a ter muitas dificuldades... já que o Pizzi, voltou a não perceber as marcações... O Nico foi o nosso criativo em melhor forma... O Sulejmani não conseguiu entrar no jogo... O Jonas fartou-se de levar porrada, algumas entradas por trás, no tendão de Aquiles,  muito perigosas, e na minha opinião maldosas... Mesmo assim, ainda teve tempo de marcar um golo, e assistir outro!!! O Lima rematou muito à baliza, mas a mira estava claramente desafinada!!!
O Xistra tentou usar um critério largo, mas errou muito em termos técnicos, e foi complacente disciplinarmente com o Marítimo... Aquele Amarelo ao Maxi, com um piscar de olho maroto, é incrível!!!
Fim de época, uma excelente época. Espero nos próximos dias o anuncio dos novos contratos com o Jesus e o Maxi. Será uma pré-época 'assustadora', seguramente, mas isso não é nada de novo... Já temos a obrigação para estarmos calejados para estas coisas!!!

Dois 'grandes' Clubes !!!

FC United of Manchester 0 - 1 Benfica B

Para muitos este jogo pode não querer dizer nada, mas para alguns (uma minoria creio...), esta substituição dos verdadeiros clubes (associações com sócios!!!), por clubes de 'plástico' (como se referem em Inglaterra aos Clubes que são comprados por multi-milionários...), não é só uma mudança de filosofia, é muito mais do isso... E por isso, quando o Manchester United foi vendido à família Glazer, fiquei verdadeiramente impressionado com a determinação e a coragem, com que um pequeno grupo de sócios do Man United, resolveu criar um novo clube, começando a competir nos escalões mais baixos, mas com o objectivo de ir subindo Divisão a Divisão, para um dia, quem sabe, ser o maior Clube (verdadeiro Clube) da cidade de Manchester...

Hoje, o Benfica foi convidado a participar num jogo amigável em Manchester, o motivo foi a inauguração do novo Estádio. A equipa B, comandada pelo Hélder marcou presença, e acabou por vencer por 0-1 (não interessa muito). Como Benfiquista, a simples presença do Benfica, neste jogo deixa-me orgulhoso.
Desejo todo o sucesso do mundo ao FC United, um exemplo para outros...

Santos; Alfaiate, Lystcov, Valente; Dawidowicz, J. Carvalho, Gonçalves, Elbio; Dino, Clésio; Sarkic.
Banco: Thierry, R. Carvalho, Yuri, Guga, Berto.

HOME from FCUM TV on Vimeo.

3.º lugar

ABC 31 - 33 Benfica
(0-2)

Fim de época, com o 3.º lugar garantido. Com o ABC em ressaca após a derrota (roubada) na Final da Challenge (contra os Romenos que já nos tinham 'roubado' a presença na Final!!!), vencemos em Braga, num jogo que basicamente decidida quem iria disputar para o ano a Taça EHF, ou a Taça Challenge...!!!

Nos últimos dias houve vários rumores em relação à definição do plantel da próxima época, parece que finalmente vamos ter a revolução necessária, e que já era pedida por muitos...

Mais um troféu

"A vitória na Taça da Liga significa a diferença entre uma época muito boa e uma época fantástica. Ganhar Supertaça e Campeonato Nacional já assegurou o essencial, mas no Benfica há sempre mais ambição. Gostei muito das declarações de Jorge Jesus o fim do jogo com o Marítimo a colocar o foco no jogo da Taça da Liga. Este profissionalismo e esta ambição fazem toda a diferença neste Benfica mais competitivo e ambicioso. Não se ganha tudo, nem se ganha sempre, mas luta-se sempre por ganhar sempre tudo. Temos cinco títulos consecutivos e buscamos o sexto hoje à noite em Coimbra.
O árbitro assistente tirou, com um erro grave, a Bola de Prata a Jonas. Jackson é um óptimo jogador, mas não precisava de colinho, nem de uma manto especial. Deve ter sido motivado por um breve regresso de ADN. Jonas será para nós o nosso herói e isso basta-nos. Lamentamos bem mais a lesão e infortúnio de Salvio.
O presidente do FC Porto pode ser atacado por muitos motivos, mas não por falta de coragem e liderança. Após a maior derrota de 30 anos da sua presidência, em Munique, saiu em defesa do treinador, mesmo antes de se deslocar à Luz. Agora, com adeptos a protestar na rua, a assobiar em campo e sondagens altamente desfavoráveis para Lopetegui, veio assumir a escolha como sua e manter o rumo. Liderar é sobretudo isto, não é andar ao sabor das sondagens e simpatias conjunturais. No FC Porto, há mais presidente a ajudar o treinador que treinador a ajudar o presidente. Quem, como eu, defendeu Jorge Jesus há dois anos, percebe bem o que está a fazer o presidente portista.
Espero, e vou ter, um Benfica forte, para continuar a vencer, porque o nosso organismo habituou-nos depressa a estas doses de fortíssimo êxito. Destaque para mais uma conquista do nosso hóquei em patins, num fim de semana onde o basquetebol está perto de aumentar o interminável rol de êxitos das modalidades do Benfica na presente temporada."

Sílvio Cervan, in A Bola

Venha outra!

"Hoje há mais. Na final da Taça da Liga, espera-se nova festa benfiquista. Espera-se o 6.º troféu oficial em duas temporadas.
Depois, o futebol parte para férias. Será altura de preparar a próxima época e o ataque ao Tri.
Com uma equipa alicerçada na experiência de jogadores na casa dos trinta anos, como Júlio César, Maxi Pereira, Luisão, Lima ou Jonas, o Benfica terá porventura, neste defeso, uma menor pressão de mercado face à que sofreu em anos anteriores. Sabe-se que Gaitán e Salvio são muito pretendidos, mas parece perfeitamente exequível segurar na Luz, pelo menos, os restantes nove titulares, mais os dois ou três suplentes habitualmente utilizados. Assim, com um ou outro reforço cirúrgico, será possível manter uma linha de continuidade, salvaguardando também - e este não é assunto menor - o tão louvado espírito de grupo deste plantel.
Em cima da mesa está igualmente a questão do treinador. Estou certo que o presidente e a direcção farão todos os possíveis, e até alguns impossíveis, para manter Jorge Jesus. A estabilidade no comando técnico da equipa tem sido uma arma determinante no sucesso do nosso Futebol. Jesus criou um modelo de jogo eficaz e ganhador, fazendo crescer dezenas de atletas. Deu-nos vitórias e dinheiro. Muito dinheiro. No meu tempo de vida não recordo outro técnico tão influente e decisivo. Não será fácil encontrar igual. Começar do zero, num contexto económico muito menos favorável que o de 2009, acarretaria riscos substancialmente mais elevados do que o custo da renovação do contrato. Até porque, como diz o povo sabiamente, 'o barato por vezes sai caro'."

Luís Fialho, in O Benfica

Tiro-lhe o chapéu, presidente!

"Alguém no seu perfeito juízo contrataria Artur Jorge para o SL Benfica? Alguém despacharia Vítor Paneira e Isaías para ir buscar Nelo e Tavares? E quem é que votaria em Vale e Azevedo? Ninguém cometeria esse erro. Hoje, porque depois de tudo acontecer é tão mais fácil formular opiniões. Somos bons nisso, os Benfiquistas. Gostamos de defender pontos de vista drásticos e fazer revoluções. Está-nos no sangue querermos sempre mais. E foi por isso que, a partir da segunda metade dos anos 1990 (e até 2003) estivemos em maus lençóis. A falência técnica era uma realidade, a imagem do Glorioso era cada vez menos vitoriosa, a falta de respeito pelo emblema esteve no seu ponto mais baixo. Damásio perdera a noção; Vale e Azevedo perdeu tudo o resto. Vilarinho iniciou a recuperação e Vieira consolidou o projecto. Nem por isso o presidente há mais tempo em funções no clube se livrou - livra - das críticas. Desde que chegou liderou a conquista de quatro Campeonatos, duas Taças de Portugal, duas Supertaças, cinco Taças da Liga (hoje há mais uma, espero) e a equipa foi a duas finais da Liga Europa. Os troféus estão guardados no premiado Museu Cosme Damião, os feitos são transmitidos pela recordista de assinaturas BTV e as estrelas brilham cada vez no Caixa Futebol Campus, um centro de estágios que faz corar de vergonha os rivais. Chega? Ainda não. Temos que falar da saúde financeira do clube, do acordo com a milionária Emirates ou do espírito de vitória que se sente nas modalidades. Vieira é o rosto mais visível da estrutura. Sim, nós temos uma estrutura. Foi ele quem resistiu à facilidade quando milhões de Benfiquistas quiseram despedir Jesus no fim da época em que tudo se perdeu ou após a pré-época do verão passado. Ganhámos todos."

Ricardo Santos, in O Benfica

A imprensa

"Uma questão incontornável: porque será que, sempre que acaba a época, quer o Benfica vença ou não o Campeonato, os jornais e as televisões se atiram ao Benfica, aos seus jogadores, dirigentes e equipa técnica como se não houvesse amanhã? Como se não existisse títulos conquistados? Como se o mundo do Futebol desabasse como um castelo de cartas?
Antes, claro, tinham a questão da pontuação, da matemática, dos Lopeteguis desta vida e todo um cenário de conjecturas, cenários macabros e precisões desastrosas. Agora, com a conquista do Bicampeonato, acenam com a catástrofe da saída de jogadores e eventualmente do treinador, Jorge Jesus.
Incrível?
A medida do nosso sucesso e da grandeza do Benfica, é a medida da inveja e da perturbação dos nossos adversários. No Porto, claro, têm de arranjar forma de fazer valer os mais de 50 milhões de euros de investimento completamente improdutivo da última época. No Sporting, Bruno de Carvalho tem de continuar a gerar interna e externamente fait-divers para a controversa permanência de Marco Silva. E alguns jornais, esses, apenas conseguem vender uma quantidade digna de matutinos se denegrirem ou atingirem, de alguma forma, o nome da nação Benfica. Somos muito maiores do que isso, é bom que não tenham dúvida! Querem continuar a fazer circular poeira sobre os eventuais treinadores do Benfica ou os pseudo-substitutos de Salvio e Gaitán, força! Mas, ao menos, digam às pessoas a verdade. A nua e crua verdade: o Benfica é tão grande que nem os tristes e ignominiosos conseguiriam qualquer visibilidade digna desse nome! E é aí, nesse reduto quentinho e familiar, que nós benfiquistas, apesar de todos os ataques e liberdades da imprensa, nos sentimos a maior e mais forte família do mundo!"

André Ventura, in O Benfica

Contagens...

"Vinte anos depois, voltámos a conquistar a dobradinha no Hóquei em Patins! É pena que, - devido à miserável arbitragem em Valongo na temporada passada, este feito tenha sido alcançado com um ano de atraso. Se fosse somente pelo mérito desportivo, estaríamos agora a festejar uma 'bidobradinha'. São já 22 Campeonatos Nacionais e 15 Taças de Portugal a constar no palmarés Benfiquista, de acordo com os dados oficiais. No entanto, reafirmo que a Federação Portuguesa de Patinagem deveria rever esta contagem, pois discordo da sua interpretação acerca da competição disputada entre 1962/63 e 1963/64. Na minha opinião, o Benfica foi o Campeão Nacional 23 vezes e venceu a Taça de Portugal em 14 edições. De qualquer das formas, voltámos a ser o clube com mais títulos nacionais nesta modalidade (a Supertaça é um troféu).
Também no Futebol nos deparámos, ao longo da presente temporada, com um problema de 'contagem'. Jonas, o melhor jogador do campeonato, foi, também, o mais goleador da competição, apesar de não ter ganho a 'bola de prata'. No Bessa e no Restelo, Jackson Martínez foi o marcador de dois golos que não foram da sua autoria. As imagens parecem-me esclarecedoras e julgo que a Liga, a bem da verdade desportiva, deveria analisar esses lances. E como se não bastasse já esta injustiça, na última jornada, o árbitro assistente Luís Ramos, bem posicionado, invalidou erradamente, por pretenso fora-de-jogo, um golo a Jonas que permitiria, ao nosso avançado, igualar o trio constituído por Jackson, Gonçalo Brandão (Belenenses) e Santos (Boavista).
Nota final para o Basquetebol. Estamos a uma vitória de nos sagrarmos Tetracampeões Nacionais!"

João Tomaz, in O Benfica

O princípio

"Recordemos então o que disse o presidente do Benfica em Agosto de 2014, numa entrevista ao canal de televisão do clube.

Numa entrevista à Benfica TV, em Agosto do ano passado, o presidente do Benfica deixou clara a ideia de que a continuação de Jorge Jesus no Benfica dependeria apenas da vontade do treinador desde que nas mesmas condições contratuais, leia-se pelo mesmo salário. Revelou na altura Luís Filipe Vieira que fez chegar essa mesma mensagem a Jesus numa reunião de altos quadros encarnados já depois de conquistados todos os títulos nacionais na última época.
O líder benfiquista foi suficientemente claro na resposta à questão lançada pelo jornalista da BTV, Hélder Conduto, e disse ter deixado nas mãos de Jesus a decisão de renovar ou não o contrato válido então apenas por mais uma época, desde que, sublinhou Vieira, nas mesmas condições financeiras e portanto, sem qualquer tostão mais.
Se Luís Filipe Vieira o disse há um ano fará algum sentido que após a conquista de um bicampeonato altere a sua decisão? E deverá Jorge Jesus recusar essa possibilidade? Só compete a Vieira e a Jesus reciclarem a conversa tida naquela altura. Apesar da decisão presidencial de deixar na mão do treinador a opção de continuar a treinar a equipa da Luz, ninguém pode na verdade garantir que nenhuma circunstância se alterou num ano, quer do ponto de vista de Vieira, quer no de Jesus.
Apenas se questiona o assunto na base de um normal cenário de sucesso. Ou seja, pela lógica natural das coisas, faria todo o sentido que o Benfica procurasse prolongar o contrato com um treinador que na realidade ajudou, e muito, a devolver ao clube o espírito da vitória e a conquista dos títulos.
Para Luís Filipe Vieira, pelo menos em Agosto de 2014, a situação estava bastante clara: se Jesus quiser renovar o contrato com o Benfica nas mesmas condições financeiras (qualquer coisa como quatro milhões de euros brutos, quase dois milhões líquidos por temporada) Jesus é que sabe.
«Nem vale a pena falar mais desse assunto», disse, na altura Vieira.
É verdade que a duração de um novo contrato pode ser também objecto de discussão. Pelo que se tem lido por aí, Jesus quererá um novo contrato válido por mais quatro épocas, e compreende-se que o deseje, para continuar a sentir estabilidade numa altura da vida em que, como diz o povo, já não vai para novo...
Falta saber o que pensa verdadeiramente sobre a questão o presidente benfiquista e até que ponto está ou não preocupado com a possibilidade de perder o treinador e de o treinador acabar por manter-se em Portugal.
Pelo que se vai percebendo da carruagem do futebol europeu, não será fácil a Jorge Jesus conseguir chegar ao lugar de treinador de uma das 12/14 principais equipas do velho continente, não por questões quanto ao seu perfil técnico - cuja capacidade e qualidade não deixam de ser reconhecidas lá fora - mas muito provavelmente por razões que se prendem com a dimensão e estatuto internacional de Jorge Jesus, a exigente comunicação e relação com os media, os títulos europeus, etc., etc., etc.
Se quisermos ir um pouco mais longe, sabe-se também que o Manchester United não trocará Van Gaal e que o Real Madrid despediu o italiano Ancelotti mas vai buscar o espanhol Rafa Benítez, numa controversa decisão de Florentino Pérez quase só para mostrar que quem manda é o presidente e não a vontade expressa pelos jogadores, na sua grande maioria, que desejavam a continuidade de Ancelotti. Fechadas as portas dos grandes europeus, Jorge Jesus veria pois reduzidas as opções: manter-se no Benfica, aceitar eventual desafio do Sporting ou, como fizeram outros grandes treinadores como, por exemplo, Marcelo Lippi ou Eriksson, apostar num contrato absolutamente milionário nos mercados árabe, asiático, eventualmente russo ou mesmo turco.
Ou seja: continuar a lutar por ser desportiva e pessoalmente mais feliz no próprio país, ou ir ganhar ... dinheiro!
É uma decisão fácil? Não.
Só é fácil para quem não precisa de a tomar.
E só é fácil para quem não está na circunstância de Jorge Jesus, um treinador que, infelizmente para ele, só aos 60 anos pode reclamar com inteira justiça o estatuto de grande treinador e de treinador vencedor. 
Aconteceu o mesmo, um dia, ao grande Jesualdo Ferreira.
E vejam onde ele, lamentavelmente, está.

PS: Para o FC Porto, manter Lopetegui pode ser realmente o princípio de uma nova era. Aprecio a fibra do treinador basco e tenho a convicção de que vai mostrar ter aprendido muito esta época. Para o futebol mundial, o que está a suceder na FIFA pode também traduzir-se naquele princípio de que por vezes é preciso mudar alguma coisa mas... para que tudo fique na mesma! Vêm aí as duas finais das taças portuguesas. Que sejam duas grandes finais. Porque o melhor do futebol é mesmo o jogo. E os jogadores. E a bola."

João Bonzinho, in A Bola

Jesus/Vieira: factos e números

"Hoje joga-se a final da Taça da Liga mas nos últimos dias esse dado foi completamente remetido para segundo plano face à interrogação em que se transformou o futuro da ligação entre Jorge Jesus e o Benfica. O que podia (devia) ter sido tratado/clarificado logo após o empate em Guimarães, que valeu o título, arrastou-se por duas semanas. Esperar pela definição da Liga fazia todo o sentido. Mas nunca seria a final da Taça da Liga a ter peso na decisão final. Logo, este jogo psicológico de recados públicos a que temos assistido era escusado. Não era necessário apalpar o pulso a ninguém. Bastava uma conversa franca, a dois. E o resultado da mesma, esse sim, podia ser anunciado apenas no início de Junho.
Nos anos anteriores à chegada de Jesus ao Benfica, ver a equipa ganhar ou discutir troféus era tão esporádico que se tornava num acontecimento. Para quem não tem essa memória: nas 6 épocas antes de Jesus o Benfica venceu 4 troféus (menos de 1 por ano) e esteve presente em 5 finais (menos de uma por época); nas 6 temporadas com Jesus, a SAD já arrecadou 9 troféus (um e meio por ano e hoje pode vencer o 10.º) e disputou 11 finais (já tem garantida a 12.ª, a Supertaça). O que antes dele acontecia de vez em quando tomou-se num hábito. Isto são factos. Quanto a números, os das transferências realizadas desde 2010 falam por si.
Agora, de forma até acalorada, discute-se muito sobre quem detém a maior fatia de mérito neste ciclo vitorioso. Se Luís Filipe Vieira (que esteve presente ao longo de todo o período de 12 anos), se Jorge Jesus. Não me parece que a questão mereça qualquer troca de argumentos. Os números são o que são. Vieira andou 6 anos à procura de um 'casamento feliz'. Depois de muitos divórcios encontrou o par certo. Cada qual ganhou bastante por estar com o outro.
Entendem os dois protagonistas que este 'casamento' ainda pode dar mais anos de mútua felicidade? Se na próxima semana, e de forma rápida, tratarão de renovar os votos. Se concluírem que a relação está a entrar naquele ponto horrível em que um olha para o outro e começa a encontrar defeitos onde anteriormente só identificava virtudes, então o adeus será igualmente rápido e indolor."

Boicote, já!

"(Carta aberta ao presidente da FPF)
Exmo. Sr. Fernando Gomes: Portugal orgulha-se de ter sido nação pioneira na abolição da escravatura (os registos históricos apontam 1869 como ano de tal feito) e da pena de morte (1867). É, por isso, com algum espanto que vejo que, quase 150 anos depois, nos mantenhamos cegos, surdos e mudos quanto a injustiças e crimes que, aqui e ali, destroem sonhos, vidas ou nações.
Sem grandes rodeios: seria uma vergonha para o País e para o nosso desporto que a FPF não tomasse posição clara sobre a tragédia humanitária que se vive no Catar, o país que, em 2022, receberá (será que recebe mesmo?) o Mundial.
Porque o escândalo - a tal ponta do iceberg destapada na madrugada de anteontem pela justiça dos EUA - de corrupção que, como um tsunami, abalou o edifício do futebol em Zurique, quando comparado com o escândalo de escravidão e morte que ensombra à organização do Mundial-2022, é... peanuts.
Segundo dados de organizações de direitos humanos e de conceituados órgãos de comunicação, o que se passa no Catar é crime. Na construção de estádios, há trabalhadores sem liberdade - o passaporte é-lhes retirado, deixando-os nas mãos de quem os contrata. Por cá, chamamos a isso... escravatura, mas esse até pode ser o mal menor de quem emigra para aquele emirado para trabalhar no sonho do Mundial: é que, desde o início das obras e de acordo com The Guardian, New York Times e Washington Post, já morreram cerca de 1200 seres humanos. Sim, MIL E DUZENTOS. E sabe que, se a chacina continuar ao ritmo atual, em 2022 teremos todos (os que nada fizerem...) nas nossas próprias mãos o sangue de 4000 homens e mulheres?
Descobrir e condenar os culpados desta tragédia é obrigação judicial. Boicotar o Mundial-2022 é, no mínimo, uma obrigação moral.
A FPF, cumprindo o legado dos nossos antepassados, poderia dar um exemplo ao Mundo e ser a primeira a anunciar o boicote. Mesmo!"

João Pimpim, in A Bola

Sepp Blatter, os dias do fim

"É altamente provável que Joseph Sepp Blatter seja hoje reeleito, por larga margem, presidente da FIFA. O mundo está a desabar à volta do histórico dirigente do futebol mundial, mas este, sem alternativa, insiste na fuga para a frente, não se percebe muito bem para onde, já que o cerco se aperta cada vez mais. Aliás, ontem, Blatter, num rasgo de lucidez, disse que os próximos meses deverão ser pródigos em más notícias para a FIFA. É uma maneira de ver a coisa. Talvez as más notícias a que se refere Blatter sejam, afinal, boas notícias, por serem a única forma de erradicar o poder corrupto que governa o futebol mundial.
Com João Havelange e Sepp Blatter, o futebol evoluiu e ganhou o estatuto incontestado de principal desporto do planeta. Mas o crescimento da FIFA foi feito de forma tentacular, sob princípios nepotistas, onde o tráfico de influências e a corrupção passaram a constar da normalidade, uma forma de estar que tem sido vista em outras organizações de caráter mundial, que nada têm a ver com desporto. O triunfo de Sepp Blatter nas eleições de hoje será sempre uma vitória de Pirro, este modelo de gestão da FIFA está ferido de morte.
Com os Mundiais de 2018 e 2022 atribuídos à Rússia e ao Catar, começa a tomar forma uma guerra política, ao mais alto nível, em torno da FIFA. E essa escalada deve ser vista com preocupação, porque o desporto nunca beneficiou com as ingerências políticas. Vladimir Putin já saiu a terreiro em defesa de Blatter, David Cameron apelou ao voto no Príncipe Ali e a Rússia acusa Obama de querer atingir a organização do Mundial de 2018.
Cocktail perigoso..."

José Manuel Delgado, in A Bola

Dia de limpezas

"A detenção de vários dirigentes de topo da FIFA representa uma oportunidade para o futebol se regenerar. 

O jordano Ali bin Al-Hussein, atual vice-presidente da FIFA e único candidato à sucessão de Joseph Blatter na presidência do organismo que tutela o futebol mundial, depois das desistências de Luís Figo e do holandês Michael van Praag, disse que ontem foi "um dia triste para o futebol". Na verdade, foi exactamente o contrário. Tristes foram todos os dias que tornaram o de ontem, mais do que inevitável, absolutamente necessário. Ao todo, foram mais de seis mil dias tristes, correspondentes aos 17 anos que Joseph Blatter se manteve na presidência e durante os quais a FIFA se tornou numa espécie de abreviatura para corrupção. 
Desta vez, e ao contrário do que aconteceu com a investigação do norte-americano Michael Garcia sobre os processos de atribuição dos Mundiais de 2018 e 2022 à Rússia e ao Catar, a FIFA não vai poder fazer um resumo conveniente das conclusões, recusando a publicação integral do relatório exigida pelo ex-procurador de Nova Iorque e assobiando para o lado como se não fosse nada com ela.
Como o FBI e a procuradoria-geral dos Estados Unidos fizeram questão de sublinhar ontem, a estrondosa detenção de sete responsáveis de topo em vésperas do Congresso da FIFA é apenas o princípio de um processo que fazem questão de levar até às últimas consequências. Um processo que, ao contrário do aconteceu ao longo das últimas décadas, Joseph Blatter não controla e que, por isso mesmo, representa uma oportunidade única para o futebol limpar a casa."

Jorge Maia, in O Jogo

C34

O terramoto

"Um dia ia acontecer. Os escândalos eram tantos e as suspeitas ainda mais para que se eternizasse esta paz falsa no universo FIFA. Rebentou pelo lado da CONCACAF, mas a procuradora-geral Loretta Lynch já avisou que a investigação vai mais longe e que inclui, por exemplo, a atribuição do Mundial à África do Sul ou as eleições de 2011.
Se juntarmos a isto um outro processo que decorre, relacionado com as escolhas da Rússia e Qatar (lembram-se que a FIFA não aceitou a divulgação integral do relatório Garcia?), mais os negócios pouco ou nada claros que se prendem com a gestão do marketing e direitos televisivos nos campeonatos do mundo - no caso do Brasil, a FIFA arrecadou o dinheiro todo destas áreas, enquanto os brasileiros tiveram de se aguentar com as despesas dos estádios -, enfim, deparamos com uma infindável lista de motivos para concluirmos que o reinado de Joseph Blatter é algo que anda muito perto de um regime a meio caminho entre o autoritarismo e o golpismo.
A dimensão mediática dos acontecimentos das últimas horas foi potenciada de forma quase explosiva pelo simples facto de estarmos a dois dias de novas eleições. Que é como quem diz, de novo triunfo de Blatter. Quando aqui referi que o suíço tinha a eleição 'no bolso', a expressão devia ser entendida nos seus múltiplos sentidos. Também nesse em que estão a pensar, o do que os 'eleitores', na sua maioria, foram 'convencidos' de que Blatter era o melhor para os seus interesses. Federativos, pessoais, ou as duas coisas juntas.
Este é um tema que daria, não para um post de registo, mas sim para uma autêntica enciclopédia. Como não há tempo nem espaço para tal, fiquemos somente pelas eventuais consequências no curto/médio prazo.
É um abalo violentíssimo para o futebol, porque, em última instância, convém não esquecer de que estamos a falar de uma organização que tem mais representantes do que a ONU e que constitui hoje a maior multinacional do planeta. Colocar tudo isto em causa é um terramoto. No entanto, como já reparámos, o nome de Blatter não consta em lado algum. Nem é crível que surja - pelo menos tão depressa - , mesmo sabendo todos nós que é totalmente impossível o chefe máximo ignorar todo este festival que foi ocorrendo à sua volta durante décadas.
Apanhar Blatter neste contexto - o eleitoral - seria sempre complicado. Ainda assim, o homem que manda e que vai continuar a mandar sabe, a partir de agora, que o cerco está a apertar. Sabe que o mundo está mais desperto do que nunca para os meandros corruptos da FIFA. E isto é uma boa novidade. Além de que abre espaço para aqueles que internamente, seguindo padrões de honestidade, já contestavam o líder absoluto há vários anos.
Por ora, está a desmoronar-se a estrutura que rodeava o presidente da FIFA. Mais tarde ou mais cedo, será o próprio a perceber que o seu campo de manobra é cada vez mais restrito. Ignoro o que o futuro reserva a toda esta história, mas dificilmente, muito dificilmente, tudo voltará a ser como dantes no dia em que Blatter, empurrado ou por decisão individual, abandonar o trono."

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Ninguém se esquecerá enquanto houver YouTube

"Pondo as euforias de lado, tome-se atenção porque estamos longe, muito longe, daquela fase em que «qualquer um que treine o Benfica se arrisca a ser campeão».

SERÁ Jorge Jesus o próximo treinador do Benfica ou não será? Será ou não será - é a questão do momento.
Eu, por exemplo, sou fã do nosso actual treinador. Estou-lhe grata pela onda de múltiplos títulos nacionais com que nos inundou nestes seis anos e não o culpo por o Benfica não ter ganho uma única Liga dos Campeões nestes seis anos nem por ter perdido duas finais consecutivas da Liga Europa em seis anos tendo em conta que há mais de sessenta anos que o Benfica não é campeão europeu nem se qualificava por dois anos consecutivos para uma finalzinha europeia.
Gosto também dos seus maravilhosos pontapés na gramática que descabelam os pretensos doutores da bola neste país atrasado da Europa em que as mais altas figuras do Estado dão consecutivas calinadas de português e passam incólumes, sendo gente douta e licenciada, aparentemente.
O trabalho de Jorge Jesus no Benfica é notável tal como foi notável a continuada aposta do presidente do Benfica em Jorge Jesus.
Cada um com as suas peculiaridades e os seus traços genuínos de carácter formaram uma dupla que restituiu ao Benfica a sua identidade resiliente, combativa, empolgante e ganhadora.
Por isso mesmo o Porto nunca desistiu de contratar o treinador do Benfica e o próprio Sporting, nestes seis anos de Jesus no Benfica, já tentou por mais de uma vez levá-lo para Alvalade.
E tudo pode acontecer porque, afinal se trata de futebol. Jorge Jesus não é do Benfica como Toni, como Mário Wilson, como Chalana e como o próprio Eriksson que ainda há coisa de duas semanas lhe mandou, pela imprensa, um recado adorável de quem o tem na mais alta consideração: «Do Benfica Jesus só devia sair para o Real Madrid.» É precisamente o que penso sobre o assunto porque também tenho pelo atual treinador do Benfica a mais alta das considerações.
Jorge Jesus, no entanto, é um profissional de futebol e senhor do seu destino. Nos festejos do Marquês e, uma semana depois, na celebração no Estádio da Luz, o seu rosto fechado fez-nos suspeitar que o seu destino não é Chamartín nem o Dragão mas Alvalade.
Porquê? Porque pouco se parecia este Jesus tão contido com o Jesus que vimos a dançar com a multidão no ano passado. Mais se parecia este Jesus com o Marco Silva a quem nunca ninguém viu um sorriso em público desde que assinou pelo Sporting e vá lá saber-se porquê...

O facto de o Benfica ter demorado três décadas a conseguir a proeza singela de conquistar dois títulos consecutivos de campeão não chega para se poder dizer, como o disse Mário Wilson na década de 70 do século passado, que «qualquer um que treine o Benfica arrisca-se a ser campeão».
É nestas coisas práticas que se deve pensar nos momentos de euforia que são muito bons de se viver mas que de práticos nada têm.
Obrigada, mister. Por tudo.

NO fim da tarde de segunda-feira, ainda a Benfica TV mantinha corriqueiramente no ar a programação da sua grelha semanal e já as televisões generalistas, pública e privadas, estabeleciam ligações em directo ao Estádio da Luz e à Praça do Município para não perderem um segundo que fosse do acontecimento em função dos seus campeonatos de audiências.
Num desses canais debatia-se até com sentida objecção intelectual «o exagero» das comemorações benfiquistas enquanto ao mesmo tempo, e mais uma vez à pala do mesmo Benfica, se ia facturando o ganha-pão.
O Benfica é muito mais do que um clube. É uma obra social.

FEZ bem Luís Filipe Vieira afirmar no salão nobre da Câmara que os benfiquistas voltarão a encher as ruas e as praças de Lisboa para celebrar as suas alegrias sempre que para tal haja motivo.
É que se nos proíbem de festejar os nossos simples sucessos desportivos ao ar livre, um dia destes ainda nos proíbem de nos manifestar em defesa de liberdades e de direitos nas mesmas ruas e nas mesmas praças da cidade.
Até nestas coisas vai o Benfica sempre à frente. Fico-lhe muito agradecida.

PARA todos os efeitos, Jonas é o vencedor moral da Bola de Prata. Quem é que não gosta de uma boa vitória moral?
Esta, a do nosso maravilhoso Jonas, foi das mais belas e empolgantes vitórias morais de que me lembro assistir. Um estádio inteiro a puxar por ele, uma equipa inteira a trabalhar para ele, ele próprio a fazer o que tinha de ser feito - marcar três golos inteiros - e um bandeirinha inteiro a decidir que não, nem pensar numa coisa dessas, era só o que faltava o Jonas ganhar a Bola de Prata. Ficou o troféu entregue a Jackson Martínez o que ainda mais releva o feito de Jonas porque o colombiano é um jogador de categoria excepcional, provavelmente um dos melhores do mundo na sua posição.
Estão, assim, todos e muito sinceramente de parabéns. Jackson por ter ganho a Bola de Prata, Jonas por não a ter ganho, Lima pela sua infinita generosidade e o bandeirinha pela decisão tomada que, garantem três agências de comunicação dos rivais, não passou de uma manobra estratégica, um acto perverso, para disfarçar a devoção dos árbitros ao Benfica.
Em toda e qualquer circunstância a verdade é que sempre nos invejam, o que se compreende.

MAICON, o celebrado autor de um golo irregular e depois da hora que valeu o penúltimo título nacional do Porto, disse à partida para férias que o Benfica só foi campeão graças aos árbitros.
Nada há a acrescentar às palavras de Maicon.
Há piadas que se fazem a si próprias.

UM zapping rápido no serão televisivo de domingo. A SIC transmite pelo vigésimo ano a sua gala dos Globos de Ouro e por lá se vê Vítor Baía, antigo guarda-redes e capitão do Porto, tranquilamente sentado na plateia do Coliseu de Lisboa assistindo ao espectáculo.
Caberá o histórico Baía no abominável grupo de frequentadores da Capital e do centralismo nacional que o presidente do Porto denunciou por ocasião da retomada de posse de Lourenço Pinto como presidente da Associação de Futebol do Porto?
Ao que parece estava uma casa fraca e Pinto da Costa constatou publicamente que a falta «de figuras» na cerimónia da AFP se devia ao facto, indesmentível, de «haver festa na Luz».
É verdade que houve. E correu lindamente.
Pode já não se usar «o bloqueio a Cuba» mas o bloqueio psicológico à Capital segue impante. Ainda que menos triunfal. Bastante menos triunfal.
Quem não faltou à tomada de posse de Lourenço Pinto foi Valentim Loureiro. Para o presidente do Porto a presença do antigo presidente do Boavista e da Liga na cerimónia da AFP foi sinal de que «os antigos não esquecem».
Também é verdade.
Nem os antigos esquecem, nem os modernos, nem os do futuro. Ninguém se esquecerá enquanto houver youtube.

NO próximo fim de semana, o Benfica poderá voltar a celebrar um título nacional em Guimarães. Trata-se do título de basquetebol que, a vir, se somará aos sucessos do hóquei em patins e do voleibol benfiquistas, campeões nesta temporada também inesquecível para as modalidades do Benfica.
Em Portugal as modalidades são muito estimadas mas o futebol é rei. Por isso mesmo foi muito bonita a homenagem que Rúben Amorim prestou aos campeões nacionais de hóquei em patins e de voleibol na noite em que ele próprio se sagrou campeão nacional de futebol.
O Rúben Amorim é benfiquista, está atento a tudo, é cá dos nossos. Não há volta a dar-lhe.

AMANHÃ, o Benfica encerra os seus trabalhos de 2014/2015 disputando a final da Taça da Liga, a competição que o Benfica se foi habituando a ganhar antes de se começar a habituar a ganhar campeonatos, que é o que se deseja.
Por algum lado se tem de começar, não é? No caso do Benfica, começou-se pela Taça da Liga que é troféu nacional e oficial e, por isso mesmo, entra na contabilidade dos títulos conquistados."

Leonor Pinhão, in A Bola

Litoral e interior

"Por cada metro quadrado de notícias (e de não notícias) sobre a 1.ª Liga, há um centímetro quadrado de notícias sobre a 2.ª Liga. O costume... num contexto futebolístico (e não só) cada vez mais hierarquizado, onde os maiores o são cada vez mais e os pequenos o são quase definitivamente.
Contudo, chegados ao fim dos dois campeonatos - e excluídos Benfica, Porto e Sporting - qual a real diferença entre eles? Muito pouca. Aliás, nalguns aspectos a 2.ª Liga supera, competitivamente falando, a 1.ª divisão. Notável o modo como 5 equipas (7, se o Sporting B e o Benfica B pudessem ascender) chegaram à derradeira jornada com possibilidades de subir (algumas, entre ser campeão no penúltimo minuto e... não subir no último, como foi o dramático caso do D. Chaves).
Outro aspecto que me seduz na 2.ª Liga é a bem-vinda dispersão territorial. Comparemos as ligas desta época, com os clubes por distritos: 1.ª Liga - Porto (5), Lisboa (4) Braga (4), Madeira (2), Aveiro, Setúbal e Coimbra (1 cada). Nenhuma do interior. 2.ª Liga - Porto e Aveiro (3 cada), Faro (3), Lisboa (2), Viseu (2), Açores, Madeira, Vila Real e Castelo Branco (1 cada).
Sobe, pela primeira vez, o Tondela, do distrito de Viseu e regressa o União da Madeira. E ficaram bem perto de o conseguir mais dois clubes do interior: Desportivo de Chaves e Sporting da Covilhã.
Saúdo, no chamado estranhamente campeonato nacional de seniores, o regresso à 2.ª Liga do Famalicão e a ascensão do Mafra. Interessante vai ser o apuramento do 3.º clube a ser disputado entre duas equipas que já militaram na 1.ª divisão: o Varzim e o Casa Pia (este no longínquo ano de 1938)."

Bagão Félix, in A Bola

Duas finais com fecho de gala

"Coimbra: Marítimo aposta em sequelas da festa benfiquista... Jamor: a densidade do previsto equilíbrio. E a diferença do desfecho na complexa gestão Bruno-Marco...

Inédito em Portugal: temporada de futebol encerra com consecutivas finais de Taças, no espaço de 72 horas. Não foi deliberado, sim consequência de complicações no previsto calendário da Taça da Liga; e houve a sorte de nenhuma equipa ter conseguido acesso às duas decisões... Pronto, acabou por correr bem e aí está temporada com encerramento de gala.
Há favoritos em finais de Taças? Haver há; como também há frequência de serem torpedeados...

Óbvio: amanhã, em Coimbra, o Benfica partirá favoritíssimo perante o Marítimo. Não tanto por ser o grande especialista da Taça da Liga (5 conquistas em 7 edições); sobretudo por se tratar de confronto entre campeão nacional e 9.º classificado na Liga (com abismo de 41 pontos a separá-los!...; e, na soma dos dois jogos entre ambos, goleada de 8-1!).
Porém, todavia, contudo... Para além de grande parte do especialíssimo sortilégio de finais de Taça estar construído em inesperados desfechos, o Benfica acaba de passar dias de intensa festa... E a sua própria história mostra como finais (então da Taça de Portugal) imediatamente após festança de campeão lhe deram surpreendentes dissabores... Flagrantes exemplos: Benfica de Toni, embriagado por conquista do título, logo perde no Jamor face ao Belenenses; Benfica de Trapattoni, louros de campeão encharcados em champanhe, logo sucumbe às mãos do V. Setúbal.
Muito diferente foi o perfil psicológico da final conquistada pelo V. Guimarães há dois anos: nessa semana, o Benfica fora arrasado por derrotas no Dragão e na final da Liga Europa frente ao Chelsea, em ambos os casos com terrível requinte de desempate ao minuto 90+2...
Tudo por tudo do Marítimo nesta Taça da Liga, decerto apostando num ritmo que ponha à prova se o Benfica estará potencialmente dormente. Marítimo desligado do 4-1 na Luz na passada semana; sintonizado consigo próprio nos anteriores 8 jogos, sem derrota...
Já agora: Marítimo tem um jogador com alta craveira - Danilo, médio, formado no Benfica, vice-campeão mundial de sub-20, de seguida perdido em precoce saída para Itália - que seria absurdo não dar já salto rumo a outra dimensão e, palpita-me, estará sob namoro para regresso à Luz (ou será Alvalade?; Dragão longínquo, face ao corte de relações entre os dois clubes).
(...)"

Santos Neves, in A Bola

Foi um bom dia para a FIFA...

"Foi com esta frase surpreendente que o director de comunicação da FIFA, Walter De Gregorio, se dirigiu aos jornalistas na conferência de imprensa em que o organismo máximo do futebol mundial reagia à detenção, num hotel de luxo, em Zurique, de seis dos seus dirigentes, acusados de corrupção e de lavagem de dinheiro por uma investigação federal do governo norte-americano.
A notícia de que entre os dirigentes da FIFA já há catorze implicados causou estrondo em todo o mundo e, em especial, nos Estados Unidos, onde, curiosamente, o futebol está longe de ser um desporto com grande popularidade. Apesar deste terramoto, a FIFA decidiu manter a caricata reunião magna da prometida reeleição de Sepp Blatter para mais um mandato como presidente. Entretanto, o ambiente passou a ser de grande ansiedade, até porque a procuradora Kelly Currie anunciou que os resultados da investigação ainda estão no seu início.
Numa comprometedora afirmação oficial, De Gregorio também anunciou que a fonte inspiradora de toda a investigação tinha sido a própria FIFA, com base numa queixa formal feita em finais de 2014. Ora, tanto a procuradora americana, como o diretor do FBI, James B. Comey, anunciaram que esta investigação se reporta a um período de cerca de vinte anos e que começou há mais de três.
Ontem, o New York Times escrevia que a investigação se refere à FIFA nos mesmos termos em que se costuma referir à máfia e aos cartéis de droga. A pergunta legítima e incontornável que o mundo faz, neste momento, é: Blatter ainda pensa que tem condições para continuar a ser presidente da FIFA?"

Vítor Serpa, in A Bola

Blatter tem de ir

"Quantos sinónimos conhece da palavra vergonha? E quantos antónimos conhece da palavra decência? Pegue em todos eles, nos sinónimos e nos antónimos, e escreva todas as frases possíveis usando-as apenas com um substantivo: Blatter.
Não é mau feitio. Nem é um ataque de 'figuismo'. É mesmo a constatação de que a FIFA está envolta num manto de escândalos que têm vindo a ser noticiados há mais de dez anos, sempre acerca de um polvo de corrupção que tem uma só cabeça. Poucos têm tido a coragem de desafiar o poderio de Blatter, mas entre eles contam-se Luís Figo e Michel Platini. Mas mesmo estes não têm força que chegue para evitar a reeleição de Blatter. Tanto que Figo deitou a toalha ao chão e desistiu na semana passada. Até que esta semana houve um desenvolvimento inesperado, com a detenção de dirigentes da FIFA precisamente por suspeitas de corrupção. Se tivesse um pingo de vergonha na cara, Joseph Blatter demitia-se, para proteger a instituição. Se houvesse ponta de decência, a FIFA, no mínimo, adiava o ato eleitoral. Mas nada: tudo vai fazendo de conta que não se passa nada.
Chega a ser revoltante. Não é só a impunidade. É a inimputabilidade. Os casos relatados de suspeitas de corrupção em actos eleitorais e na escolha da organização de campeonatos mundiais (e repare-se que a única coisa que a FIFA faz é organizar campeonatos do Mundo) são chocantes. E se não há um sismo na FIFA por causa disto então nunca haverá. E é preciso que haja. Quem ama futebol não pode gostar disto. Quem gosta de decência não pode sequer não ficar maldisposto. Blatter tem de ir à vida. No mínimo."

Uma casa sem vergonha

"A FIFA foi varrida por um escândalo sem precedentes, de enormes dimensões e cujas consequências são ainda imprevisíveis. O impacto mediático foi (e é) tremendo, mas a surpresa da opinião pública limita-se às proporções que o caso já atingiu - são muitas e importantes as figuras detidas - e ao momento escolhido para despoletar o processo - vésperas de um congresso eleitoral.
A FIFA tornou-se numa casa sem vergonha onde a transparência - que provavelmente nunca existiu - deu lugar a notórios esquemas de corrupção. Mas apesar dessa evidência, Blatter e seu séquito continuaram impunes. Até ontem. O suíço mantém-se aparentemente à margem da investigação e agarrado ao poder, embora seja difícil acreditar que assim prossiga por muito mais tempo.
Como mero observador, 'subscrevi' a candidatura de Figo à presidência da FIFA. Fui também dos que lamentaram a sua desistência. Hoje, face ao desenrolar dos acontecimentos, admito que o antigo futebolista fez bem em renunciar a uma luta eleitoral que, como se prova, está claramente inquinada. O tentacular lóbi de Blatter e companhia não permite sequer alimentar a esperança de um debate, quanto mais a possibilidade de uma vitória numa eleição onde o voto está comprado.
O relvado do Jamor preocupa o Sporting. O tapete verde está em óptimo estado, mas a configuração do Estádio Nacional facilita um processo em que o relvado rapidamente fica seco e cria condições para um jogo mais lento. Para os leões, essa é uma desvantagem. O Sporting tem, todavia, um jogo demasiado importante para que o êxito dependa de questões menores. No entanto, só o jogo dirá se o relvado será mero detalhe. À cautela, o melhor é estar preparado para comer a relva."

quarta-feira, 27 de maio de 2015

E agora, Jorge Jesus?

"Numa breve recordatória não exaustiva, enumero dezasseis jogadores do Benfica que, durante estes 6 anos com Jorge Jesus, singraram na equipa e saíram por valores assinaláveis ou terminaram em grande as suas carreiras no clube: Fábio Coentrão, Di Maria, Ramires, David Luiz, Javi García, Saviola, Pablo Aimar, Witsel, Matic, Cardozo, Garay, André Gomes, Rodrigo, Siqueira, Oblak, Bernardo Silva e Enzo Pérez. É obra!
Se a estes juntarmos o Luisão 34 (anos) melhor que o Luisão 28, o Maxi Pereira 30 (anos) melhor que o Maxi Pereira, 24, o artista Gaitán, o novo e estável Jardel, a ressurreição futebolística de Jonas e Júlio César, o virtuoso Salvio, a capacidade de Lima (que não teve sequer um cartão amarelo esta época), a transformação (a prosseguir) de Talisca e Pizzi, a utilíssima polivalência de Rúben Amorim e de André Almeida, a adaptação de Samaris e a reabilitação de Fejsa, podemos ver uma parte significativa do que tem sido o trabalho de Jorge Jesus e sua equipa nestes 6 anos.
Claro que o presidente Luís Filipe Vieira lhe deu condições como nunca houve, num investimento criterioso e com elevado retorno desportivo e financeiro. Por isso, custa-me interpretar o mediatismo de 'Jorge sai, Jesus fica' ou vice-versa. Espero que, depois da final da Taça da Liga, haja fumo... encarnado. Jorge Jesus dificilmente terá um outro clube estrangeiro (por cá, só lérias) com o carisma e o sentimento e orgulho de pertença como o SLB. Quanto aos sempre tão falados quatro milhões, basta fazer a conta ao que o clube ganhou com a valorização de jogadores modelados por Jesus."

Bagão Félix, in A Bola

Treinador certo

No clube certo.
Leio sobre o braço de ferro entre o Benfica e Jorge Jesus por causa de um milhão de euros anuais, e posso percebê-lo: a boa gestão exige cuidado com cada cêntimo e os tempos que esperam o futebol português são um desafio como há muito ele não experimentava. Não obstante, há um momento de semear, um momento de colher e outro de semear de novo. Em nenhum outro ano a acção do treinador foi tão decisiva no êxito do Benfica de Vieira como neste. Foi Jesus quem ganhou este campeonato. Talvez Lopetegui o tenha perdido também. Mas não foi o presidente do Benfica, nem o director desportivo, nem o médico, nem o empresário X ou Y quem o ganhou: foi Jorge Jesus. Para além de Portugal, os treinadores portugueses foram este ano campeões na Suíça, em Inglaterra, na Rússia e na Grécia. Eu pergunto: com algum deles - a não ser talvez Mourinho, mas esse foi tocado pela Graça - o Benfica teria as mesmas garantias que tem, logo à partida, com Jesus? Não creio. Jesus é o treinador certo para o Benfica. E o Benfica é o clube certo para Jesus, porque não será fácil a Jesus trabalhar com sucesso em qualquer outro país com as suas limitações de expressão e as suas dificuldades de relacionamento social. É um par decidido no céu. Tolice será não continuar.

NORTE PARA SEMPRE
Um rali para recordar
É fantástico registar o triunfo do Rali de Portugal. De resto, está feito o diagnóstico diferencial: saia do Norte e voltará a ser apenas mais um."

Joel Neto, in O Jogo

Cheira a Lisboa, cheira a título

"Benfica favorito em Coimbra, Sporting favorito no Jamor: Lisboa pode açambarcar os quatro troféus da época em temporada alegre para o Belenenses. O futebol da capital recupera força.

A Lisboa do futebol vive dias felizes. O Benfica tem andado de festa em festa desde Maio do ano passado. O Sporting pode fazer uma grande festa no próximo Domingo. E o Belenenses também tem motivos para sorrir: no último sábado assegurou o regresso às competições europeias, onde não punha o pé há sete longos anos, que é precisamente o tempo do jejum de títulos que os sportinguistas esperam ver terminado no Jamor. Se a lógica prevalecer e os favoritos fizerem valer a lei do mais forte nas final da Taça da Liga (sexta) e da Taça de Portugal (domingo), é muito natural que Lisboa faça mais duas festas.
Depois de amanhã, o bicampeão joga a final da sua competição fétiche com o Marítimo. Em sete edições da Taça da Liga, os benfiquistas conquistaram cinco e chegam a Coimbra com um registo esmagador: 33 jogos consecutivos sem perder nesta prova (última e única derrota: 1-2 em Setúbal a 20 de Outubro 2007) e dez jogos seguidos (951 minutos) sem sofrer qualquer golo. Uma barbaridade. É este o tamanho da montanha que o Marítimo tem de escalar. Tudo parece jogar contra a equipa insular, desde a multidão encarnada no estádio Cidade de Coimbra contra a meia dúzia de adeptos maritimistas; sem esquecer a enorme diferença de potencial sugerida pela recente goleada na Luz (4-1 que era 5-1). Se o Benfica vencer o Marítimo conquista um sexto título consecutivo (por ordem, desde Maio de 2014: Campeonato, Taça da Liga, Taça de Portugal; Supertaça, Campeonato, Taça da Liga), melhorando uma sequência recorde que tem fim marcado para 18h 45 de Domingo no Jamor - quando Sporting ou SC Braga ganharem a Taça de Portugal. O FC Porto conquistou vários vezes quatro títulos seguidos (última ocasião: 2011), mas nunca passou daí. O Sporting ganhou quatro títulos consecutivos uma única vez, entre 1946 e 1949. O Benfica vai com cinco e pode chegar aos seis - mais um recorde para creditar na conta de Jesus.
O último título leonino remonta a Agosto de 2008 (quase sete anos) e a nação verde e branca espera que a final do Jamor seja a da retoma. Lembro-me bem, porque estive lá, da única final entre Sporting e Braga, em 1982, no Jamor. O impagável Malcolm Allison (inglês) era o treinador dos leões e Quinito, treinador bracarense, compareceu de smoking branco, todo catita. O Sporting arrasou (4-0) graças à qualidade do seu maravilhoso tridente ofensivo (Manuel Fernandes - Jordão - António Oliveira) e Allison haveria de contar-me muitos anos depois, numa entrevista que lhe fiz em Newcastle, que a coisa que lhe tinha mais trabalho (naquela equipa) foi compatibilizar os feitios - os egos... - de Jordão e Oliveira no quadro do tal tridente em prol do qual, reconheceu Allison, Manuel Fernandes (o mais fácil de lidar dos três e aquele que Big Mal mais admirava...) terá sido algumas vezes prejudicado.
Como o Benfica em Coimbra, o Sporting parte claramente favorito. Porque tem melhores jogadores que o Braga, porque deu banho de 18 pontos ao adversário no campeonato, porque venceu os confrontos directos, tanto na Pedreira (1-0) como, há dias, em Alvalade (4-1). Porque terá sensivelmente o dobro de adeptos a apoiá-lo no Jamor. Tudo isto é verdade mas, atenção!: se Sérgio Conceição conseguir enganar Marco Silva bem se pode dizer que o SC Braga será um mais que justíssimo vencedor da Taça de Portugal, tendo em conta a dificuldade de uma campanha que meteu vitórias sensacionais em Guimarães (2-1), na Luz (2-1) e uma goleada histórica ao Belenenses na Pedreira (7-1).
Se Benfica e Sporting ganharem as finais, Lisboa fecha o exercício em glória: açambarca os quatro títulos em disputa (Benfica: três; Sporting: um) na época em que o bom velho Belém volta à Europa. Mas só os que começaram a ver futebol na era portista podem pensar que esta é uma proeza inédita. Desenganem-se. O futebol lisboeta tem recordes imbatíveis. Por exemplo: entre Julho de 1940 e Maio de 1956 (16 anos, portanto) os três clubes de Lisboa ganharam todos os 29 títulos em disputa (Sporting: 14; Benfica: 13; Belenenses: 2). Até que o Porto de Dorival Yustrich (dobradinha) acabou com o massacre. Mais tarde, entre Maio de 1969 e Junho de 1975, Benfica (8) e Sporting (5) ganharam 13 títulos de enfiada, sequência interrompida pelo Boavistão de José Maria Pedroto em pleno Verão quente.
(...)"

João Bonzinho, in A Bola

Campeão?

"Discussão animada dos últimos dias: Jorge Jesus pecou ao não dar um só minuto na Liga a Paulo Lopes? Culpado - eis o veredicto do tribunal das redes sociais.
Objectivamente, aquilo a que pomposamente se chama agora gestão de recursos humanos foi deficiente. O treinador convocou três futebolistas para quem um segundo em campo representaria inscrição oficial no livro de campeões (Paulo Lopes, Sílvio e Mukhtar), num sinal claro de que contava premiá-los pelo trabalho feito ao longo do ano.
Ao intervalo, no entanto, assinou a sentença de morte do sonho de um deles, ao fazer entrar Talisca para o lugar de Pizzi. Como Sílvio entrou pouco depois, ficaram a aquecer Paulo Lopes e Mukhtar. Lopes seria, provavelmente, a escolha seguinte, mas a lesão de Salvio levou Jesus a mandar entrar o jovem Mukhtar, para desespero do veterano guarda-redes.
Se a vida fosse um filme, o da época de Paulo Lopes seria um filme francês. Por outras palavras, o oposto das produções de Hollywood em que tudo acaba bem. Para Paulo Lopes, as cenas finais foram de desespero. Um dia, os netos dirão: o meu avô também foi campeão em 2014/15 e os amigos irão aos livros e dirão que é mentira. Aqui chegados, olhemos para o paradoxo: um futebolista que faça uma só partida, que nesta a sua equipa perca graças a um autogolo seu e ainda seja expulso é, para a história, um campeão. Paulo Lopes, que todo o ano trabalhou com os campeões - e com o seu trabalho os terá ajudado a melhorar - não. Obviamente, é nonsense. Paulo Lopes é campeão, sim, mesmo que Jesus não o tenha deixado assinar o livro de honra.

PS: Um chefe não tem de ser simpático, apenas justo. Jesus foi insensível, mas também coerente. Quem o conhece sabe que jamais poria a felicidade de um jogador à frente de uma vitória. Mesmo que em jogo a feijões."

Nuno Perestrelo, in A Bola

Jesus tatuado

"Pinto da Costa nunca deixou que o perfil de um treinador se lhe colasse à pele. Vieira, pelo contrário, já tem tatuada em toda a sua história a silhueta de Jesus. Não é agora, seis anos depois, que Vieira poderá apagar as marcas de uma relação demasiado cerrada, para o bem ou para o mal. Este ano foi o bicampeonato. Pinto da Costa já saiu da toca do silêncio para defender o treinador que lhe assegura o acesso ao segundo mercado espanhol.
Da mesma forma que, no passado, apontei o erro de manter Jesus, pelo risco de deixar de se discernir onde acaba o mérito de uma estrutura eficaz e começam os milagres de um treinador a longo prazo, não posso deixar de sublinhar que seria um risco desnecessário deixar Jesus sair agora, por uma diferença absurda de algumas centenas de milhares de euros.
O deserto de vitórias deste ano, e a agonia da mística criada nas últimas décadas, deixaram o presidente do FC Porto à beira do abismo. Com um terceiro título consecutivo para o Benfica, Pinto da Costa dará o derradeiro passo em frente.
Irá Vieira pôr em risco essa oportunidade de ouro, em ano de eleições no clube da Luz?

P.S. - O Real Madrid despachou mais um treinador competente, depois de uma época em que nada ganhou. Desde há muito que este clube imperial acha que um punhado de estrelas faz uma equipa. Não faz. Felizmente para a metáfora que a vida faz do futebol. Quando a avidez exagera a carga de estrelas em campo, a constelação cria um buraco negro que suga a vontade colectiva de vitórias. Assim foi quando Beckham tornou exagerada a sorte de ter Figo e Zidane. Assim é quando uma equipa de futebol gira em torno de uma alma de tenista, que habita Cristiano Ronaldo."

Vieira-Jesus a dupla de êxitos

"Ressurreição do futebol benfiquista - 2 títulos consecutivos, 3 nos 6 anos da era Jorge Jesus - significa forte travagem à vincadíssima hegemonia do FC Porto ao longo de três décadas. Nem menos nem mais. Primeiro pilar: Luís Filipe Vieira. Na sequência da coragem, roçando 'heroísmo', de Manuel Vilarinho para enfrentar hecatombe Vale e Azevedo e pôr-lhe fim - e da lucidez que Vilarinho também exibiu no tempo e no modo de passar testemunho -, Luís Filipe Vieira e a equipa de dirigentes que foi moldando sem esquecer profissionalismo reergueram o Benfica dos escombros de tremenda catástrofe. Hoje, o Benfica vence no futebol e em várias modalidades. Gigantesca diferença!
Vieira soube ir aprendendo com os seus erros no futebol. Fortes exemplos: desmedido, precipitadíssimo, entusiasmo face ao título com Trapattoni ao leme (na época em que o FC Porto tombou no suicídio de ter 4 treinadores...); e cedência a altas pressões, despedindo Fernando Santos à 1.ª jornada! Pés no chão, Camacho e Quique Flores para trás, Vieira acertou em cheio quando decidiu sozinho, ou quase...: Jorge Jesus. Deu-lhe superiores meios, teve enorme retorno. Mau grado 'descalçá-lo' com súbitas vendas no início de campeonato (Javi García-Witsel), ou a meio dele (David Luiz, Matic, Enzo Pérez). Fundamental: foi Vieira, sozinho contra ventos e marés, quem, há 2 anos, manteve Jorge Jesus ao leme...
O futebol do Benfica não estaria onde está sem Jorge Jesus. Sobretudo nesta época, após perder 8 campeões!... Síntese da dupla Vieira-Jesus: 3 títulos e outros 3 discutidos taco a taco = firme consistência competitiva. Há 30 anos que isso não existia no Benfica...
Falta ver se a dupla do sucesso irá, ou não, romper-se."

Santos Neves, in A Bola

Centralizar os direitos televisivos no futebol é solução?

"Perdoem-me a eventual arrogância e o evidente cepticismo, mas, por vezes, dá-me a impressão que, em Portugal, se privilegia a busca por soluções miraculosas, ao invés de se investir tempo e dinheiro na definição e implementação de estratégias que corrijam os males que assolam o nosso país. No desporto, um sector caracterizado pela clubite e a emoção que a ela está associada, é onde mais claramente se nota esta postura na abordagem aos problemas. A miopia do curto prazo prevalece, sem que se tente medir as consequências de medidas avulsas e conjunturais. 'Quem vier atrás que feche a porta' parece ser a regra que norteia grande parte dos decisores.
Serve esta introdução para manifestar a minha perplexidade perante a discussão sobre a centralização da exploração dos direitos televisivos no futebol português. E já dou de barato que esta tenha surgido, coincidentemente, quando ficou demonstrado o sucesso da BTV - o que concede legítimas expectativas ao Porto Canal e Sporting TV, pondo em causa a situação, até então, relativamente monopolista da SportTV.
De repente, como se descobriu a pólvora e o actual modelo, em que os clubes negoceiam individualmente os direitos, é apontado como o constrangimento principal à sua viabilidade. Esta teoria, que conta com o apoio implícito de fazedores de opinião mais preocupados com a vaga de fundo que com o problema em si e com uma comunicação social especializada pouco propensa a ir até ao âmago das questões, peca por ser simplista e, se desacompanhada de alterações profundas nos alicerces que sustentam o sector, inócua ou, até, prejudicial.
Diz-se que o principal problema do futebol português é a falta de competitividade. Dito assim, e uma vez que os títulos são, invariavelmente, conquistados por apenas dois clubes, o SL Benfica e o FC Porto, parece fazer sentido. Afirma-se, também, que a redistribuição mais equitativa das receitas geradas pela venda dos direitos de transmissão televisiva contribuirá para um suposto aumento de competitividade. No papel, parece fazer sentido. E, como consequência, esse incremento tornará o produto mais apetecível, criando um efeito potenciador de mais receitas para os clubes devido a um suposto mais interesse do público e ao encanto 'instantâneo' que os mercados estrangeiros terão pelo nosso futebol. Parece tão evidente que custa a acreditar que não ocorra já... Discordo desta visão e julgo que é necessária alguma cautela na avaliação da existência, ou não, dos benefícios de uma alteração desta envergadura.
Em primeiro lugar, cumpre-me questionar o que é a tão referida falta de competitividade do futebol português. Nos países modelo, no que à centralização da exploração dos direitos televisivos diz respeito, a Alemanha e Inglaterra, é um erro julgar-se que há a tal competitividade nas suas ligas. Na Alemanha, o Bayern Munique conquistou 12 das últimas 19 edições da Bundesliga e, em Inglaterra, o Manchester United foi campeão em 13 das últimas 23 temporadas da Premier League. Por terras germânicas, o poderio da equipa bávara é, normalmente contestado pelo Borussia Dortmund e, na prova inglesa, só o investimento avultado de multimilionários provenientes do Leste Europeu e do Médio Oriente criou novos candidatos e vencedores para além dos tradicionais e populares Arsenal e Liverpool. Acresce que qualquer dos clubes campeões nestes países o conseguiram, a julgar pela distância pontual obtida e pelas jornadas por disputar no momento em que venceram o título, com relativa facilidade. Se alargarmos a incidência da análise a um contexto europeu, verificamos que Portugal conta com a presença de três clubes na Liga dos Campeões e de um total de seis nas provas europeias, o que, apesar da ausência habitual da fases decisivas da principal competição europeia, desmente a propalada falta de competitividade.
Desmontado o argumento da competitividade, parto para o da sustentabilidade. A simples comparação demográfica entre Portugal e os países referidos deita por terra qualquer relação que se sente estabelecer. O mesmo se aplica aos restantes países cujas ligas são, em diversos aspectos, melhores que a portuguesa: Espanha, França e Itália. Em suma, estes mercados são maiores que o português. E gozam de maior poder de compra. Além disso, beneficiam de um fenómeno inexistente em Portugal que dificilmente, salvo raras excepções ocorrerá no nosso país: os clubes cidade. O Vitória de Guimarães e, em menor medida, o SC Braga são, porventura, os únicos clubes portugueses que conseguem no presente, transferir o sentimento de pertença dos cidadãos à localidade onde residem para a preferência clubista, à semelhança do que a Académica e o Vitória de Setúbal alcançaram, no passado, em Coimbra e Setúbal, respectivamente.
Mas façamos um exercício especulativo: será que, se o campeonato português fosse 'competitivo', despertaria maior interesse em outros mercados? Olhemos para os campeonatos mais badalados, o espanhol, o inglês e o alemão... O que realmente importa para os fãs de futebol é saberem que, ao assistirem a uma partida entre a melhores equipas desses países, serão a oportunidade de ver o confronto entre alguns das melhores jogadores e treinadores do mundo. Com o devido respeito aos clubes referidos, ninguém dedica noventa minutos da sua atenção a jogos entre Villareal e Deportivo ou Newcastle a Crystal Palace. Preferem, e é compreensível que o façam, Barcelona, Real Madrid, Bayern, Manchester United, Chelsea, Arsenal e outros destes países, ocasionalmente, disponham de bons plantéis. E a medida que permite aferir da valia, a nível mundial, destas equipas é só uma: a performance nas competições europeias. Retirar capacidade de investimento a Benfica, Porto e Sporting é limitar as possibilidades destes clubes nos palcos internacionais e, consequentemente, tornar o futebol português ainda menos apetecível a outros mercados.
Mas falta referir o modelo da 'solução de todos os males do futebol português' que tem sido preconizado nos últimos tempos (há 15 anos eram as SAD que resolveriam tudo e mais alguma coisa...). Geralmente são criados pacotes de jogos que poderão ser vendidos a diferentes operadoras. As receitas obtidas são distribuídas respeitando os seguintes princípios: solidariedade (uma parte é destinada à formação, a clubes de divisões inferiores e a diversos stakeholders do sector, como a arbitragem, o sindicato dos jogadores, etc.); equitatividade (os clubes participantes obtêm um valor fixo); competência (montante entregue de acordo com a classificação); e popularidade (baseado, entre outros, na dimensão da massa adepta dos clubes, nas audiências e na população das cidades).
Crê-se, desta forma, que o bolo a dividir seja maior, nomeadamente porque se parte do princípio, por demonstrar, que haverá operadores estrangeiros a participar no leilão. Assim, por magia, julga-se que haverá rios de dinheiro a garantir, artificialmente, a subsistência de clubes sem adeptos e, consequentemente, sem capacidade para gerar a receitas que permitiriam a sua sustentabilidade. Mais grave ainda, continuar-se-á a ignorar os problemas estruturais que assolam o futebol português, alguns deles a montante das suas particularidades e que são ainda mais gravosos para os outros desportos que, contrariamente ao que acontece em Portugal, têm, noutros países, o seu espaço e constituem-se como verdadeiras indústrias. Esse será, provavelmente, o tema da minha próxima crónica."

João Tomaz, in Vida Económica