"O Mundial já arrancou e Portugal já fez a sua estreia. Não foi tão esplendorosa como o que era desejado, nem tão pouco surpreendente. A Seleção teve, nas vésperas da estreia em terras norte americanas, dois jogos particulares nos quais venceu, mas não convenceu. Pelo menos não a mim!
A verdade é que, apesar do talento inegável que compõe a Seleção Nacional, e alguns outros que ficaram de fora, parece que o somatório de qualidade não é igual à soma de cada uma das unidades, como manda a matemática, mas não o futebol! Juntar 11, 16 ou até mesmo 26 jogadores de alto nível não é sinónimo obrigatório de uma equipa competente, dinâmica e vencedora. Mas é meio caminho andado!
Como boa portuguesa, sou apreciadora de comida e sei que bons ingredientes são o grande segredo para elevar as receitas, mas que a maestria está na forma como se confecionam e combinam os elementos que compõe o produto final. Caso contrário, temos manteiga barrada numa tablete de chocolate, acompanhada de uns ovos mexidos temperados com açúcar, ao invés de uma bela mousse!
Ao contrário da comida, porém, não existe apenas um chef responsável por fazer combinar tudo, senão um conjunto de onze seres pensantes, e outros tantos a tentar atrapalhar. Essa multiplicidade de fatores contribui, muitas vezes, para uma falta de fluidez que apenas a repetição transformada em rotina, o conhecimento de uma ideia gémea e a aplicação da mesma sob um fio condutor comum podem forjar.
Caso contrário, as estrelas que vemos brilhar com as camisolas dos clubes que representam, eclipsam-se ao envergar as quinas ao peito, para a sua própria tristeza, bem como de todo um país, que é tão precoce em despromovê-las de bestiais a bestas, como está a três pontos de lhes repor os... pontos nos “i’s”.
Sugiro, então, que combatamos a nossa tendência para o fado e, reconhecendo que é exigível desta geração talentosa melhores prestações e consequentes resultados, demos oportunidade aos rapazes de provarem o que valem. Precisamos que Martinez, qual maestro, consiga tornar harmónica a orquestra lusa, afinando em campo aquilo que falta, pois parece-me que no que toca ao resto, e que tem um peso decisivo em qualquer equipa, já existe tudo: qualidade, união e um propósito maior, tragicamente transformado em estrela num acidente automóvel.
O próximo teste será amanhã, ante um Uzbequistão de fama modesta, que no momento defensivo tentará servir-se de uma estratégia muito semelhante à dos anteriores rivais que tantas arduidades causaram à ofensiva lusitana."

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