"Há argumentos a favor de convocar um jogador de 41 anos — com mais de 200 internacionalizações, 100 golos e 11 fases finais anteriores pela seleção — para um Mundial. O veterano pode, usando a sua experiência prévia, ser um referencial de estabilidade emocional, um pilar de apoio para os companheiros, a figura que se ergue para defender o grupo, quase um adjunto do treinador na gestão quotidiana, uma mente taticamente forte que ajude a guiar a manobra coletiva.
Ora, Portugal esta no Mundial com um veterano de 41 anos, 229 internacionalizações, 143 golos e na 12.ª fase final da carreira que é o oposto de tudo isto, o anti-veterano.
A instabilidade emocional de Cristiano Ronaldo, que fica fulo quando não marca num amigável e desaparece rapidamente do campo quando se inicia um torneio com um empate, é algo com que Portugal tem de estar sempre a viver, sempre a geri-lo, lidando com pinças porque, se for substituído ou algo não correr de feição, corre-se o sério risco de levar com uma cara ou um gesto feio, qual adolescente amuado. Os colegas, ao longo das ultimas competições, passaram boa parte do tempo a defender Cristiano, a justificar Cristiano, a amparar Cristiano, a falar por Cristiano. Cristiano fala pouco, fala muitíssimo menos do que a maioria dos outros capitães do Mundial.
Ronaldo dificulta a gestão do treinador. Ou melhor, impossibilita, porque com ele não há gestão, é tudo ou nada, jogar sempre ou criar um ambiente irrespirável. Ronaldo é um embaraço tático, um condicionamento permanente, o gigantesco asterisco em torno do qual se tenta construir algo parecido a um coletivo funcional.
Ronaldo é o oposto das vantagens teóricas que haveria em levar um veterano. É o capitão que reclama para si, veementemente, um golo atribuído a um colega ou que é o único a não confortar quem acabou de falhar um penálti decisivo, isto só para falar nas duas últimas fases finais.
Assim está Portugal neste Mundial, como uma equipa do Tour de France a correr em prol do seu chefe de fila, só que aqui o líder é o que pedala menos, o que anda pior, não compensa na montanha final o esforço dos demais. O capitão é o mais fraco dos membros da equipa, o de pior nível competitivo.
Há dias, no infindável ciclo de debate e loucura nacional em torno deste tema, alguém defendia o madeirense com o pouco amigo argumento de que ele “não prejudicou” a seleção nacional contra a RD Congo. Curiosa linha de raciocínio: quem descreve Ronaldo como o mais fenomenal e heróico e épico dos atletas coloca-lhe a fasquia em “não prejudicar”, como o miúdo do recreio a quem deixam jogar com a promessa de “não atrapalhar“, de ficar quieto a um canto, longe da bola, sem molestar.
Já agora, é interessante dizer que um ponta de lança que não pressiona, não cria jogo ofensivo, mal se associa com os médios, não gera dúvidas na linha defensiva adversária através de movimentos de rotura, não segura bolas enquanto referência frontal para jogo mais direto e na última vez que marcou sem ser de penálti numa fase final ainda era obrigatório andar de máscara em locais públicos, que este ponta de lança, “não prejudica”.
Pois bem, esta desculpabilização permanente, este estado de exceção ronaldiana, pedindo-lhe menos que a outros, esta aceitação de que há uma equipa de elite com um membro que já não apresenta um rendimento de elite, é uma traição ao legado de Cristiano Ronaldo. O menino da Madeira que saiu do lar cheio de ambição forjou uma carreira sensacional deixando sempre uma marca de exigência, de superação, de elevar a fasquia, de render sempre, todos os dias, todos os minutos, de lutar por ser sempre o melhor.
Quando Cristiano era um rapaz da formação do Sporting, tinha por hábito ir para uma das ruas adjacentes ao estádio, uma rua empinada com uns semáforos no início da subida. Esperava que o sinal ficasse verde e, quando os carros arrancavam, sprintava ele também, perseguindo-os, para apurar a sua velocidade de Ferrari. O exercício ficou como metáfora do percurso de Ronaldo: sempre em busca de um horizonte inalcançável, sempre colocando-se objetivos mais à frente, sempre correndo para os perseguir, mesmo que o carro acelerasse mais que ele. Subitamente, parece que todos aceitámos que o carro, agora, tem de ficar parado, imóvel, sem mirar adiante e vivendo do crédito dos êxitos passados. E isto é uma traição que Portugal faz ao grande legado de superação de Cristiano Ronaldo, a grande mensagem de uma vida feita da recolha de pedaços de impossível.
Fala-se de gratidão. O que diria aquele insaciável se se justificasse a escolha de alguém com base no passado?
Fala-se de gratidão. Cristiano Ronaldo dá o nome a um aeroporto. Tem estátuas e bustos em locais nobres, foi-lhe dada a mais alta distinção da Região Autónoma onde nasceu. Dá o nome a uma das maiores academias de futebol do país. O seu nome virou quase elogio, metamorfoseado em adjetivo, o “Ronaldo das finanças”, a “mentalidade Ronaldo”, um nome feito arma política. Cristiano Ronaldo foi condecorado por três Presidentes da República diferentes. Quantos portugueses foram distinguidos por três chefes de Estado diferentes?
Se há ingratidão nacional para com Cristiano Ronaldo, o que seria gratidão? Colocar a sua face no centro da bandeira? Mudar de “República Portuguesa” para “República Cristiano Ronaldo”?
Tudo isto soa a repetição de debate. É uma relação tóxica, com traços clássicos de uma relação tóxica: a sua manutenção com base em ideias vagas ("mas eu gosto tanto de ti", “mas eu fiz tanto por ti”) e não em gestos de amor concretos e diários; a ameaça de não haver um futuro sem aquela pessoa, de que não é possível não viver naquela relação ("e quem é que o substitui?"); a falta de comunicação; os constantes olhares, pequenos gestos, uma passivo-agressividade que vai corroendo a convivência.
Depois de 2022 e o sacrifício em vão de Fernando Santos, após 2024 e a marcha-atrás de Roberto Martínez, eis 2026. Achando que está a honrar Cristiano Ronaldo, a seleção nacional está a trair o seu legado. Está, na verdade, a ser ingrata, por não saber que Cristiano Ronaldo, que a verdadeira mentalidade que Cristiano Ronaldo ensinou e instalou no nosso futebol, ditaria que Cristiano Ronaldo não pode jogar porque o passado enche museus, não marca golos.
O que se passou
Portugal estreou-se no Mundial com um empate contra a República Democrática do Congo. Martínez deu as clássicas desculpas, o debate em torno de Ronaldo regressou, os congoleses festejaram efusivamente.
O Mundial vai com grandes resultados dos anfitriões: os EUA derrotaram a Austrália e vão com seis pontos em seis possíveis, tal como o México. O Canadá estreou-se a ganhar na sua história na competição.
Cabo Verde está a ser uma das surpresas: empatou com Espanha, empatou com o Uruguai e olha para a passagem à fase a eliminar.
Inglaterra arrancou em grande estilo. Carlos Queiroz conseguiu preciosos três pontos para o Gana. A Colômbia, para já, lidera o grupo de Portugal. Na Suíça mora um candidato a jovem do torneio, os Países Baixos evidenciaram força ofensiva perante a Suécia, Deniz Undav é o grande suplente do Mundial.
O Diogo Pombo anda pelo Mundial a trazer-nos as melhores histórias: como se viu o encontro dos EUA em Houston, as questões em torno da seleção, o guarda-redes de Curaçau, que contra o Equador brilhou com colossais 15 defesas, a febre laranja. Como se vive um Mundial dentro de um estádio de beisebol?
Notícias extra-Mundial: Ruben Amorim assinou pelo Milan, Bernardo Silva vai para oReal Madrid, os adversários de Sporting e Torreense no acesso à Liga dos Campeões feminina e de Benfica na disputa pela Liga Europa masculina."

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