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terça-feira, 7 de agosto de 2018
Europeus
Hoje começou o Europeu de Atletismo, mas na última semana já tinham arrancado os Europeus de Natação, Ciclismo e Remo!!! Este novo Modelo, com Europeus em várias modalidades, disputados em simultâneo, desta vez em duas cidades, é uma nova experiência, que pretende 'simular' uns Jogos Olímpicos Europeus, sem o Comité Olímpico Internacional!!!
Numa primeira impressão não tenho gostado...!!! Acho que cada modalidade individualmente, perde visibilidade... os horários sobrepõem-se... Não sei quais serão as conclusões 'oficiais' dos responsáveis, mas acho que este Modelo não vai resultar!!!
Em Berlim, na pista Olímpica começaram os Europeus de Atletismo, com uma boa prestação do José Lopes nos 100m (10,38s), com a qualificação para as Meias-finais. Com uma má prova do Diogo Mestre nos 400m barreiras (52,65s)...
No centro da cidade de Berlim, as qualificações do Lançamento Peso, foram amargas para o Francisco Belo: no último lançamento, a precisar de um grande lançamento, o Belo deu tudo, o Peso saiu longo, mas caiu fora do sector...!!! Seria um lançamento acima dos 20m, seria um dos melhores do dia... mas acabou anulado, e no final o Francisco ficou a 4 centímetros da repescagem!!! Com 19,66m !!!
O Tsanko não fez uma grande qualificação, mas está na Final com 19,89m...
O nível da qualificação foi baixo, a Final será muito 'aberta', tudo é possível...
O Europeu de Natação de Glasgow está a terminar, hoje a Vitória Kaminskaya bateu por duas vezes o recorde nacional nos 200m bruços, ficando pelas meias-finais com 2m27s19... A melhor prova em grandes campeonatos da Vitória! A nossa nadadora ainda vai participar nos 200m estilos...
O Miguel Nascimento voltou a bater hoje um recorde nacional, desta vez nos 200m livres com 1m49s34... Recordo que o Miguel já tinha batido o recorde nacional dos 400m livres com 3m51s89.
A 'azarada' Benfiquista em Glasgow acabou por ser a Diana Durães, que tanto nos 800m livres como nos 1500m livres, terminou as meias-finais em 9.º lugar, ficando em ambas as provas a poucos centésimos da Final!!! A Diana depois de uma excelente época, acabou por chegar aos Europeus fora de forma, em ambas as provas ficou longe das suas melhores marcas obtidas este ano...
PS: Parabéns ao Ivo Oliveira, pela Prata na prova de Perseguição na pista de Ciclismo.
Amanhã joga-se o futuro deste Benfica
"Nunca, como agora, o acesso à Champions foi tão importante para o modelo de gestão desportiva e financeira do Benfica...
Amanhã, a partir das oito da noite, o Benfica começa a definir o que será a sua temporada 2018/19. Há muitos anos que a turma da Luz não enfrentava um momento tão determinante, concentrado em quatro jogos (na melhor das hipóteses), suscptível de balizar a vida desportiva e económica do clube para o futuro próximo e também a relação de poder com a concorrência interna. Aceder à fase de grupos da Champions significa, para a tesouraria, a realização de um encaixe brutal ao mesmo tempo que permite aos talentos que o Seixal vai criando o acesso à principal montra, a nível global, das competições de clubes. Por tudo isto, seria expectável que o Benfica atacasse o mercado com a ousadia de quem sabe o que está em causa e não quer perder a contenda. Porém, os jogos com o Fenerbahçe chegam sem que houvesse um golpe de asas capaz de dar mais trunfos a Rui Vitória que, pelo que foi possível ver no ensaio geral com o Lyon, ainda está longe de ter a máquina devidamente afinada. A todas estas dúvidas acresceu, nos últimos dias, a partida de Jonas, o melhor jogador do Benfica das últimas épocas, para a Arábia Saudita. É um dano para o clube (quiça inevitável, sobre as razões da separação ainda haverá que ouvir a SAD e o jogador) que se soma à partida de Raúl Jiménez, para o Wolverhampton - e só aqui estamos a falar em quase meia centena de golos por época. Se puxarmos o filme atrás e nos lembrarmos do adeus de Mitroglou, não é difícil concluir que o poder de fogo da época do último triunfo nacional do Benfica já pertence aos livros de história...
Para amanhã, o Benfica contará com Ferreyra e Castillo (provavelmente não veremos aos dois em simultâneo), na difícil missão de fazer esquecer os que partiram. Na baliza haverá a novidade de Vlachodimos, um jovem ainda à procura de afirmação, enquanto que Gedson, uma pérola do Seixal, deverá continuar a manter a confiança de Vitória, Benfica mais fraco ou mais forte do que na época passada? Confesso que, atendendo ao que está em jogo, esperava uma aposta mais firme e uma ambição mais vincada. Não terá sido possível (o folhetim de Gabriel, que poderia dar mais consistência à equipa, prova que os meios não abundam) e o futuro se encarregará de colocar tudo em perspectiva. Para já, a melhor notícia para o Benfica é a fidelidade dos adeptos: casa cheia, amanhã, na Luz.
Ás
Miguel Oliveira
É fascinante identificar-se talento e vê-lo desenvolver-se. Miguel Oliveira, que em 2019 estará no MotoGP venceu ontem o Grande Prémio da República Checa de Moto 2 e ascendeu à liderança do Mundial da categoria, confirmando tratar-se de um piloto abençoado com um dom, que deverá preservar a fazer evoluir. Parabéns!
(...)
A precisar urgentemente de um 'reset'
«Devido a questões pessoais imprevisíveis e inadiáveis, a candidatura (...) continuará (...) sem a minha presença»
Bruno de Carvalho, ex-presidente do Sporting
A vida às vezes prega partidas e o quotidiano de Bruno de Carvalho tornou-se numa montanha russa de convicções, contradições e emoções dignas de caso de estudo. Uma coisa parece certa: o ex-presidente do Sporting precisa de fazer um reset que evite o crash da máquina. E é nestes momentos que se veem os amigos, para além dos interesses conjunturais...
A saga do PSG e o calvário de Jardim
O PSG goleou o Mónaco, em jogo da Supertaça francesa disputado na China. confirmando a tremenda superioridade de que goza no contexto do futebol gaulês. Já o Mónaco, challenger possível desta hegemonia, vê-se obrigado a reinventar-se numa luta injusta, que Jardim tenta nivelar..."
José Manuel Delgado, in A Bola
segunda-feira, 6 de agosto de 2018
“Para a Federação eu não existo. Só há dias é que conheci o presidente, numa bomba de gasolina, enquanto punha combustível”
"O Campeonato da Europa de Atletismo começa terça-feira, mas o recordista português do triplo salto não pode competir em Berlim. Natural de Cuba, Pedro Pichardo, foi contratado pelo Benfica, garantiu a nacionalidade portuguesa há nove meses, só que enquanto a Associação Internacional das Federações de Atletismo não descongelar o regulamento da mudança de nacionalidade, está impedido de participar nas grandes competições. Para o atleta, pior do que não ir ao Europeu é a burocracia portuguesa e a falta de atenção da federação nacional. Pichardo já equaciona fazer como Nélson Evora e ir treinar para fora, não só o triplo, mas também o comprimento, quem sabe até os 100m
Tem nacionalidade portuguesa há nove meses. Sente-se frustrado por não poder participar nos Europeus de Atletismo?
Eu venho da América e lá não se compete o campeonato da Europa, o título da América é o Panamericano e já o tenho. Preocupa-me mais não poder estar no Mundial ou nos Jogos Olímpicos. Essas para mim são competições mais importantes porque o meu foco está nos títulos maiores.
Do que tem observado quem está em melhores condições de alcançar o pódio nestes europeus?
É difícil dizer. Estas competições são bastante difíceis, porque tu podes estar bem hoje, mas amanhã não. Há sempre surpresas. É uma competição bastante renhida. Nas competições em que tenho participado ao mais alto nível, quem está no topo é o americano [Christian Taylor] e logo a seguir sou eu. Por isso não posso dizer quem será melhor no Europeu. Há quatro cinco atletas que estão com bons resultados, vamos ver o que acontece na final.
É líder mundial do ano. De que forma a vinda para Portugal, nomeadamente para o Benfica, ajudou a melhorar a sua performance?
A minha performance não tem nada a ver com Benfica ou Portugal, essencialmente tem a ver com o meu treinador que foi o motivo pelo qual eu deixei Cuba. O meu treinador é o meu pai e foi ele quem melhorou o meu desempenho. Até porque não temos em Portugal as melhores condições para treinar.
Explique isso melhor?
Há condições, mas há problemas para entrar num estádio qualquer. Há muita burocracia. Faltam alguns pormenores para trabalhar bem, mas não nos focamos nisso e continuamos a trabalhar. O meu pai tenta compensar essas falhas com alguns exercícios.
O que é que falta para as condições aqui serem as ideias?
A Federação Portuguesa de Atletismo [FPA] não me apoia. Não tenho nenhum apoio. Só há poucos dias conhecemos o presidente da FPA, numa bomba de gasolina, enquanto metíamos combustível.
Nunca foram apresentados?
Não. Não temos apoio da FPA, tudo o que fazemos é com o apoio do Benfica e do meu patrocinador, a Puma.
Não recebe subsídio como atleta de alta competição?
Não. Não recebo nada. O Benfica disse-me que surgiu no jornal uma notícia que dizia que eu estava no plano de alta competição, mas não sei como é possível fazerem isso sem antes falarem comigo, porque se tenho direito, ninguém me disse nada. Se existe algo, não sei. Treino no Estádio Universitário porque a Ana Oliveira, directora do Benfica, tratou de tudo. Não sei com quem ela fala, se é com a federação ou com os dirigentes do Estádio, mas ela trata de tudo. Por exemplo, estive três semanas no Algarve a treinar e foi o Benfica quem teve de fazer o pagamento. Para treinar numa pista, a Ana Oliveira tem de enviar um e-mail. A parte do ginásio, por exemplo, faço-a aqui no Estádio da Luz, porque no Estádio Universitário não tenho boas condições de ginásio. Quando preciso de relva para treinar, a pista 2 do Estádio Universitário não tem boa relva e na pista 1 é muito difícil treinar. Se tenho de fazer treino técnico, tenho de ir ao Jamor...
Está um bocado desiludido?
Estou feliz com o Benfica, que tem feito tudo para eu estar bem, mas não percebo - sendo eu um bom atleta de nível mundial - que a FPA esqueça que eu existo. É como se não existisse.
Custou-lhe muito a adaptar-se?
Sim. Ainda me custa um pouco. Há coisas que não entendo porque é que aqui não e ali sim e vice-versa.
Por exemplo?
A burocracia que existe cá é demais. É preciso papéis para tudo. Para entrar numa pista de atletismo é preciso um e-mail ou papel. Todas as pessoas sabem que faço atletismo, que treino cá, mas se o Benfica ou a federação não mandam um e-mail a uma pista, não me deixam entrar. Mesmo sabendo que é o meu trabalho. Essas coisas não entendo. Em Cuba as pessoas sabiam que eu saltava triplo e se fosse a alguma pista, deixavam-me entrar e treinar. Há coisas que me custam a entender.
Porque é que Cuba impedia que o seu pai fosse o seu treinador?
Cuba é um país bastante complicado para uma pessoa de fora entender o mecanismo. Há uma política bastante estranha dentro de Cuba. Eu e o meu pai nascemos em Santiago de Cuba. Em Cuba não existem clubes, há a equipa nacional, que é só uma, que fica em Havana. O meu pai não trabalhava em Havana logo não podia treinar-me. Eu pedi para voltar para Santiago para poder treinar com ele, mas se voltasse para Santiago não podia competir internacionalmente. Ainda pedimos que deixassem o meu pai trabalhar comigo em Havana, sem salário nenhum, mas também não quiseram. Tentamos encontrar várias opções e soluções. Inclusive estive castigado em 2014 porque não quis treinar com o treinador da equipa nacional. A única solução era sair de Cuba.
A vossa saída foi toda planeada?
O meu pai foi trabalhar para a Suécia, porque em Cuba era impossível. Estava como treinador num pequeno clube sueco, há três anos. Eu estava em Cuba. Mas como não me permitiam trabalhar com ele, tivemos tempo para falar com a família e preparar as coisas. Fui para a competição em Estugarda e decidimos que eu saía aí.
Qual era o vosso primeiro objectivo? Pensavam ficar em que país?
A nossa ideia era a Europa. Não tínhamos nenhum país em mente. A única coisa clara para nós é que queríamos trabalhar juntos. Fosse em que país fosse. Fosse na Alemanha, na Suécia, Espanha, Portugal, Itália, qualquer país.
Como vêm parar a Portugal?
Na altura eu tinha uma empresária que conhecia o Benfica. Entraram em contacto e chegámos a acordo. Mas não estava planeado.
Nessa altura o que sabia e conhecia de Portugal?
Não sou grande seguidor do futebol, mas o meu irmão em Cuba seguia o futebol e sempre o ouvi falar de Portugal, de Espanha. Quando a minha empresária me falou sobre isso obviamente que fui para a net pesquisar sobre Portugal. E gostei. Havia outras ofertas, não só de Portugal. Tínhamos ofertas de outros clubes de outros países mas decidimos vir para cá, até porque a oferta do Benfica era a melhor.
Já tinha ouvido falar do Nelson Évora, obviamente.
Sim, estive com ele em 2015. Ele foi bronze, atrás de mim, no Campeonato de Pequim.
Com a sua vinda para cá e a ida dele para o Sporting...
Eu não sabia dessa rivalidade entre clubes.
Dão-se bem os dois, falam-se?
Eu e ele temos uma relação de competidores. Não temos amizade, cumprimentamo-nos apenas. É uma relação de atletas concorrentes. Nem nunca estivemos tanto tempo juntos que permita uma relação de amizade, só estivemos juntos em momentos de competição. Mas obviamente não tenho nada contra ele.
Está em Portugal há quase dois anos. Há alguma coisa em que já se sinta português?
Ainda não. Acho que só vou ser português quando falar bem português. Falo um bocado, mas ainda não me atrevo a falar em entrevistas em televisão, para não cometer erros e ficar com vergonha.
Mas há algum hábito ou costume português que já tenha tomado para si
[risos]. Acho que ainda não. Ainda sou muito cubano.
Quais foram as maiores diferenças que notou entre Portugal e os portugueses e Cuba e os cubanos?
Penso que tudo [risos]. Cuba é um país bastante liberal e louco, Portugal é um país mais restrito e com bastantes regras. Para mim, que venho de Cuba, é demasiado. É tudo muito diferente. Desde as pessoas, a comida, o clima.
Mas a nível político...
Sim, é completamente diferente. Em Cuba se não tens grandes aspirações, tens uma vida normal, mas se tiveres um sonho vai aparecer sempre alguém que se vai aproveitar do teu sucesso, ou melhor, que vai estar sempre metida no teu sonho.
Começou a treinar aos seis anos. Já tinha o triplo salto em mente?
Não. Quando começas com seis anos fazes provas combinadas. Fazemos praticamente tudo. Nessa idade não é recomendado fazer triplo salto porque é muito forte.
Nessa altura do que gostava mais?
Sempre gostei do salto em comprimento e acho que para o próximo ano vou começar a fazer comprimento em Portugal e os 100m também. A prova de que mais gosto é o comprimento, mas o triplo salto é mais emotivo. Sempre gostei da rivalidade e em Cuba havia mais rivalidade no triplo do que no comprimento. Gosto da competitividade.
No triplo salto qual é o movimento mais difícil para si?
A segunda fase do salto. É a transição mais forte e mais abrupta porque todo o impacto está sobre uma perna. Vens na velocidade quase máxima e essa força é exercida toda sobre uma perna. Esse momento de transição de cair e sair é bastante difícil.
De todos os momentos que já viveu em competição, qual foi o que mais o marcou?
O que mais recordo foi um salto que foi nulo em Lausana. Foi nulo por muito pouco, quase não era nulo. Estava próximo do recorde mundial, achava que o tinha quebrado, mas quando voltei para trás, tinha sido considerado nulo. Marcou-me muito. Agora no Mónaco também fiz um grande salto, ainda recorremos, reclamámos, porque houve um erro na marcação, puseram 17,67m, mas era um salto dos 18m. Estamos ainda a reclamar, vamos ver o que acontece.
Qual é o seu maior objectivo?
Ganhar todas as competições de alto nível, Jogos Olímpicos, Mundial e Europeu e Liga Diamante. Mas o grande sonho, o objectivo pessoal maior é bater o recorde mundial, é para isso que estou a trabalhar. Esse é o meu principal objectivo.
E tem alguma meta definida?
Gostaria de ficar acima dos 18,50m. Seria algo super louco e exagerado.
Quais são os seus pontos fortes e aqueles que tem de trabalhar mais?
É segredo. Nenhum atleta deve dizer quais são as suas coisas boas e más. Mas claro que estamos a trabalhar na segunda fase, na tal transição.
Discute muito com o seu pai nos treinos?
Agora já não. Antes, sim. No treino a nossa força tem que ser como na competição. Ele dizia-me: “Quero que faças no treino o que fazes em competição, porque o resultado depois em competição pode ser muito melhor”. Só que eu supero-me nas competições. No treino para mim é difícil saltar. Nunca faço um salto completo nos treinos. Nesse sequer tenho motivação. Preciso da competição e da rivalidade para me motivar. O sonho da minha família e o meu é demonstrar que sou o melhor do mundo.
Vive em Portugal com a sua mulher e o seu pai e tem uma filha que já nasceu cá.
Sim, a Rosalis Maria tem oito meses.
E a sua mulher era atleta.
Dos 100 e 200 metros. Esteve nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016. Ela está cá também há um ano. E já voltou a treinar. Para o ano vai começar a competir. Não tem sido fácil para ela, porque só me tem a mim e ao meu pai. Do lado dela não tem cá ninguém, nem mãe, nem pai.
Da sua família mais próxima, quem ficou em Cuba?
A minha mãe. Tenho três irmãos, todos mais velhos. O terceiro fazia 400 m em Cuba. Mas como ali é tudo difícil, quando surgiu o problema comigo, não me deixavam trabalhar com o meu pai, ele desistiu.
O único salário que recebe é do Benfica?
Sim. Tenho sponsors também. Comprei um casa há um mês no Pinhal Novo, em Setúbal. Antes estava num apartamento em Lisboa que o Benfica pagava, mas quando consegui juntar dinheiro comprei a casa.
Porquê tão longe?
Não me adapto a Lisboa, é muita confusão. Gosto de ouvir música e não gosto de morar num apartamento, com vizinhos. Comprei um casa térrea, tenho espaço para ouvir música, tenho estacionamento para o carro, que não tinha no apartamento em Lisboa.
Está arrependido de ter vindo para cá?
Não, de maneira nenhuma. Só que cá olha-se para o atletismo de uma maneira a que não estava habituado. Quando estava em Cuba viajava para vários países e via o valor que davam ao atletismo. Em Portugal só peço uma pista em condições, com tudo. Não quero uma pista só para mim, apenas quero uma pista como tinha em Cuba, que tem tudo o que preciso e não tenha que fazer como agora, em que vou à pista do Estádio Universitário fazer um treino, depois tenho de meter-me no carro e vir para o Benfica fazer ginásio e se quero fazer técnica tenho de ir ao Jamor. É a isso que não me adapto. Como é possível que no século XXI as pessoas aqui não conheçam muito um desporto mundial como o atletismo, nem reconheçam o valor que merece?
Pensa mudar de país?
Quero viver em Portugal, mas já falei com a directora do Benfica. Da minha parte já tenho os documentos e a minha mulher também. Por isso estou a pensar treinar fora de Portugal. Porque não me dão valor como o bom atleta que sou. Por vezes pergunto à Ana Oliveira, que é a pessoa mais próxima da minha família cá: “Imagina que Cristiano Ronaldo vai a Cuba. Em Cuba, o futebol não tem expressão, não vale nada. Imagina ele sentir-se como me sinto aqui? Sem nenhum reconhecimento do seu valor e do seu trabalho? Vai sentir-se mal também. Em Portugal o atletismo não tem muito valor, mas sou um bom atleta. Nelson Évora é um bom atleta também e foi para Espanha. Que faço eu, tenho de ir para fora de Portugal também?” Então vou.
Está a pensar mesmo ir para fora?
Ainda estou a treinar cá porque o meu pai e a minha mulher não têm os papéis de residência. Quando tiverem, vou para a América, para outro país onde possa treinar com boas condições.
Põe a hipótese de voltar a Cuba?
Não [risos]. Pode ser qualquer outro país, EUA, Bahamas, qualquer outro país da América. Estou impedido de entrar em Cuba durante oito anos.
A sua mãe não vem para cá?
Estamos a tentar. Mas é um pouco complicado, porque da maneira que saí de Cuba é complicado permitirem que ela saia também agora. Estamos a tentar. O Benfica ajudou a trazer a minha mulher, agora o meu patrocinador está a tentar trazer a minha mãe.
O que faz nos tempos livres, fora dos treinos?
Gosto de andar a passear com a minha família, ou ir a restaurantes, gosto de conhecer Portugal e ouvir música.
Que tipo de musica ouve mais?
Reggaeton e kuduro.
E de Portugal, o que já conhece fora de Lisboa?
Setúbal, Braga e Algarve. Até agora do que mais gostei foi do Algarve.
O frio foi um problema para si?
Um bocado [risos]."
O grito social da ‘Vecchia Signora’
"A Juventus tem, desde 2007, 102 golos marcados na Champions League, Ronaldo soma 119. Ou seja, CR7 não se transferiu para a Juventus, esta é que foi transferida para o Cristiano FC.
A mediática transferência de Cristiano Ronaldo do Real Madrid para a Juventus, além do inquestionável reforço na qualidade e peso futebolístico que representou para a histórica equipa italiana, teve igualmente um brutal impacto financeiro e no número de seguidores nas redes sociais dos dois clubes.
A equipa espanhola perdeu quase um milhão no Twitter em apenas 24 horas, passando de 31,97 para 31,02 milhões num curto espaço de tempo, com a Juventus a registar um aumento muito significativo de seguidores: tem mais 1,4 milhões no Instagram, mais 1,1 milhões no Twitter e mais 500 mil no Facebook. O Twitter da Juventus tem 6,1 milhões de seguidores enquanto Cristiano tem 74,5 milhões. O Instagram da Juventus tem 11,5 milhões de seguidores, quando Cristiano soma 135 milhões.
Cristiano Ronaldo é o rei indiscutível das redes sociais no que diz respeito a jogadores de futebol. O capitão da Selecção Nacional tem mais de 74 milhões de seguidores, deixando a larga distância Neymar, com pouco mais de 40 milhões e Piqué, com quase 19 milhões. Lionel Messi limita-se a fazer concorrência dentro de campo, estando um pouco “offline” de todo este fenómeno mediático, contando apenas com 2,64 milhões de fãs na internet.
Para além das filas intermináveis para comprar a agora camisola mágica da Juventus, foi criado um sabor de gelado, assim como uma pizza, com a marca CR7. A Ronaldomania parece ter-se apoderado completamente de Turim, numa transferência onde os valores envolvidos parecem ser o factor menos relevante, com o foco apontado nos efeitos desportivos, financeiros e sociais que esta contratação já provocou, mas também nos que pode ainda provocar.
A Juventus até já começou a “amortizar” os milhões pagos para contratar Cristiano Ronaldo, com a venda das camisolas a atingir números absolutamente transcendentes em todo o país, sendo que até em lojas em Milão é vendida uma camisola por minuto.
A contratação de Cristiano não é apenas um reforço de plantel. A contratação do jogador português é também uma aposta do futebol italiano em trazer de volta os seus tempos áureos, que tanto se caracterizou pela presença de jogadores como Ronaldo (o brasileiro, entenda-se) Nedved, Shevchenko, Cannavaro ou Kaká, tudo jogadores que venceram bolas de ouro.
Desde 2009/2010 que o campeonato italiano não tem jogadores a vencer bolas de ouro, equipas a ganhar a Champions League ou a Liga Europa, e mesmo a selecção Italiana, que se sagrou campeã mundial em 2006, tem vindo a desaparecer do grande panorama europeu, algo que culminou numa não classificação para o Mundial de 2018.
A Juventus quer maior presença nos mercados, quer as suas acções a subir em bolsa, pelo que se trata de um golpe negocial capaz de influenciar várias áreas de actuação, podendo este vir a tornar-se o marco mais determinante na história do clube transalpino, tendo um impacto superior ao sucesso na Champions League. A relevância é tanta que há trabalhadores e sindicatos a organizar manifestações contra os valores envolvidos na transferência, apontando para o salário da estrela portuguesa e para as desigualdades sociais que tudo isto cria junto da industrial cidade Italiana.
Trata-se de algo inédito, uma vez que não estamos perante adeptos insatisfeitos com o ratio preço/qualidade do jogador contratado, mas sim trabalhadores revoltados pelo facto da sua Entidade Empregadora, o dono da FIAT (família Agnelli) estar por trás do financiamento da transferência de CR7, levando os seus operadores fabris ao desespero, devido aos precários ordenados que recebem no seio da empresa em comparação com o salário principesco do jogador português.
A Juventus tem três ligas dos campeões, Cristiano tem cinco. A Juventus, clube que melhor tem representado Itália nas competições europeias nos últimos anos, soma, desde 2007, 102 golos marcados na Champions League, Cristiano atingiu os 119. Ponderado tudo isto, a conclusão é simples: Cristiano não se transferiu para a Juventus, a Juventus é que foi transferida para o Cristiano FC."
Campeões Nacionais...
Fernando Pimenta, Teresa Portela, Joana Vasconcelos e João Ribeiro, sagraram-se este fim-de-semana Campeões Nacionais de Canoagem, em diversas embarcações:
Pimenta: K1 1000m e K2 1000m Campeão
Ribeiro: K2 1000m Campeão; K1 1000m e K1 200m Prata
Portela: K1 500m e K2 500m Campeã
Vasconcelos: K1 200m e K2 500m Campeã
domingo, 5 de agosto de 2018
Notícia falsa
"A Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD informa que é falsa e sem qualquer fundamento a notícia que dá conta de uma eventual negociação e transferência do jogador.
João Félix para o West Ham.
João Félix faz parte de um núcleo de jogadores que recentemente subiu à equipa A e é uma aposta firme para esta e para as próximas épocas."
“No primeiro dia de treino, na Arábia, quando fiquei nu no balneário, os meus colegas atiraram-se para o chão e taparam a cara”
"Aos 13 anos o Benfica foi buscá-lo a Elvas, mas José Soares nunca conseguiu vingar na equipa principal dos encarnados. Andou por Alverca, Famalicão, Campomaiorense, mas também por França, Escócia, Alemanha, Arábia Saudita e Qatar antes de terminar a carreira, em Badajoz. Entretanto já trabalhou como modelo, vendeu vinhos, montou sistemas de rega e é personal trainer. Agora está empenhado em criar uma empresa de consultoria na área do imobiliário com dois sócios. Pai de um rapaz de 18 anos que joga basquetebol, em Dallas, no EUA, José Soares vive com a mãe, em Elvas, onde está finalmente a tirar a carta de condução. Sobre o famoso jogo Campomaiorense-FCP, em que marcou Jardel, diz que a partir daí colocaram-lhe uma cruz no futebol português
Nasceu em Elvas?
Sim, sou filho de mãe portuguesa e pai guineense.
Tem irmãos?
Tenho uma irmã mais velha, a Susana, que está com 47 anos, e um irmão mais novo, o Adolfo, que tem 40.
Quando nasceu o seu pai estava em Portugal há muito tempo?
Estava cá há 2 anos. Conheceu a minha mãe em Elvas. O meu pai, Feliciano Soares, era jogador de futebol. Primeiro na Guiné, em Bissau, e quando veio para Lisboa, a pessoa que o tinha trazido iniciou os contactos para ele começar a treinar na CUF do Barreiro. Ainda treinou no Sporting, que na altura tinha jogadores fabulosos, e alguém de Elvas soube da presença do meu pai em Lisboa, um jogador de futebol com muita qualidade, e acho que foi o senhor António Simões de Elvas que veio a Lisboa e levou o meu pai para Elvas. Por isso lembro-me perfeitamente que, desde miúdo, eu e o meu irmão estávamos sempre a jogar à bola e o meu pai a treinar.
Quando nasceu o seu pai ainda jogava futebol? Era assim que ganhava a vida?
O meu pai era jogador de futebol, mas naquela altura, e ainda por cima em Elvas, não havia muito dinheiro e ele tinha duas profissões. Era jogador de futebol e era mecânico bate-chapas, trabalhava numa oficina. A minha mãe, Laurinda, era costureira.
O futebol corria-lhe no sangue.
Sim, a minha família na Guiné também tem mais jogadores. É de família. O meu avô paterno era do Sporting, mas o meu pai era um benfiquista ferrenho. Eu e o meu irmão saímos da barriga da minha mãe já a jogar futebol (risos). Éramos pequeninos, mal andávamos e já chutávamos na bola. Essa é uma das partes boas da infância, jogarmos na rua.
Da escola gostava ou nem por isso?
Era malandro na escola, infelizmente. Faltava às aulas por estar sempre a jogar à bola. Por vezes, nos intervalos grandes, estava tão concentrado a jogar que nem dava pelo toque da entrada; e depois quando davam o toque de saída, eu pensava que era o da entrada (risos). Quando chegava à aula, o professor dizia: “já tens falta”.
Torcia por que clube?
Pelo Benfica, sempre. Ouvia os relatos na rádio. Era a equipa do Néné, Bastos Lopes, Humberto Coelho... Depois havia a Taça das Taças e a Taça UEFA, a maioria dos jogos não dava na televisão e eu, o meu irmão e o meu pai ficávamos os três junto da rádio a ouvir os relatos.
Como é que se dá o seu ingresso no Elvas?
Quando éramos miúdos, eu e o meu irmão jogávamos na rua mas depois, já com uma certa idade, víamos os nossos colegas mais velhos a jogarem federados nos clubes e gostávamos tanto de jogar que não nos passava pela cabeça não fazer o mesmo.Decidimos ir lá, ao clube, porque o treinador era amigo do meu pai, tinha jogado com ele. E apesar de ainda não termos idade, fomos na mesma. “Vocês ainda não têm idade”. “Mas a gente quer, a gente joga mais do que eles, joga tão bem como eles”. E foi assim.
Então começou a jogar com quantos anos no Elvas?
Com 8 ou 9 anos. Hoje em dia já se pode jogar federado com essa idade, mas na altura não. Fui sempre muito precoce no futebol jovem. Era mais novo e jogava sempre com os mais velhos.
Uma coisa é jogar futebol na rua outra é jogar num clube e começar a ter regras e treinos específicos. Gostou?
É diferente, mas gostei. Os miúdos que têm jeito para o futebol e que gostam e amam mesmo aquilo, têm uma facilidade inata em adquirir certas coisas do desporto. Está-te no sangue, às vezes as dificuldades são pormenores. Respirar o balneário é tudo o que nós estamos à espera.
Como é que vai parar ao Benfica?
Tinha 13 anos e houve um treinador que chegou a Elvas, viu-me a jogar e disse que eu tinha que jogar nos juniores. Tive que ir a Lisboa fazer o exame físico para ver se estava preparado, se a minha parte óssea aguentava jogar nos juniores, passar tantos escalões acima. E assim foi, comecei a jogar nos juniores, em Elvas, mas ainda com idade de iniciado. Começo a jogar, alguém que me viu e o senhor Peres Bandeira disse para ir ao estádio da Luz fazer um treino. Mas, entretanto o FCP, também queria que eu fosse para lá. Houve um dirigente do FCP que esteve na minha casa. Só que mal eu soube que o Benfica queria... (risos). Se o Benfica não me tivesse querido, se calhar tinha sido jogador do FCP.
Veio fazer o tal treino à Luz. E depois?
Fiz um treino e assinei logo. Tinha 13 anos.
O seu irmão não foi chamado?
Foi. Por coincidência o meu irmão nesse ano tinha vindo a um torneio aqui em Lisboa, o Torneio Inter Associações, em que participavam todas as seleções de distrito de Portugal. O meu irmão jogava muito bem, participou e o Benfica mostrou interesse. Por coincidência viemos os dois em Agosto desse ano para cá.
O José com 13 e ele com 11 anos.
Sim. A minha mãe ficou assim....Ao início não foi fácil, deixar os 2 filhos em Lisboa ainda por cima muito novos. A mim também me custou bastante.
Ficaram a viver onde?
No centro de estágios, que era debaixo das bancadas do antigo estádio da Luz. Ficámos os dois juntos no mesmo quarto, foi o que nos salvou. Mas ao início custou muito.
O que é que custava mais?
Estava habituado a estar com os meus pais e com os meus avós, com a minha irmã, as minhas tias, e ali estava fechado dentro de um quarto só com o meu irmão. O centro de estágios tinha 25 jogadores.
Ainda se lembra dos outros jogadores que lá estiveram consigo e que tenham singrado?
Sim, o Gil Gomes, o Kennedy, que lá ia almoçar sempre. Eu tinha 13, 14 anos e ele já tinha 16. O Rui Costa tinha subido a sénior nesse ano, o Rui Ferreira que jogou no FCP e no V. Guimarães, o Cândido Costa, o Paulo Lopes, o Edgar...
Quem era o treinador quando chegou?
O professor Arnaldo Cunha e o João Santos.
Vem de Elvas para uma grande cidade e um grande clube. Qual foi o primeiro impacto? Sentiu medo de não corresponder às expectativas?
Não, medo não senti. O que senti quando comecei a treinar foi que tinha que dar corda aos sapatos, como se costuma dizer, porque a qualidade era muito grande e nos clubes grandes todos os anos há jogadores que são dispensados, ou pela pressão ou por falta de qualidade. Os treinos são muito exigentes, a qualidade é muita alta. Mas pensei: vou conseguir porque também tenho qualidade e vou dar o máximo de mim em todos os treinos. A evolução é muito importante naqueles anos. Aos 13 és bom, mas aos 14 podes não ser e aos 15 também e aos 16 desapareces. Por isso, sabia que tinha que treinar muito diariamente, ter uma mentalidade forte; o meu objectivo era entrar na equipa e ser titular e aos 18, 19 anos estar na primeira equipa.
No meio disso tudo, a escola onde é que ficou?
Nós treinávamos da parte da tarde e tínhamos tempo para ir à escola. Mas essa é a minha parte negativa. Éramos miúdos, entrávamos às 8 da manhã e muitas vezes o que queríamos era ir dormir. Às sete da manhã levantávamo-nos, mas havia alguns jogadores que não estudavam e olhavam para nós: “Onde é que vais José?”. “Vou para a escola”. “Ah vais? Eu vou dormir”. Levantavam-se para tomar o pequeno almoço e iam dormir. Quer queiramos, quer não, não é fácil.
Em que ano escolar desistiu?
Só fiz o 9º ano.
Faz os 2 anos de júnior no Benfica. E depois?
Quando saí no último ano de juniores ainda estive no Benfica (acho que até Janeiro) e depois fui para o Famalicão, para a 2ª Liga.
Antes do Famalicão, nesses primeiros anos no Benfica quais foram as maiores amizades que fez?
Sempre me dei bem com os da minha equipa. Por exemplo, com o Bruno Caires, Filipe Correia, Nuno Rosa, o João Peixe, o Xavier, Bruno Moita...
E namoros?
À volta do centro de estágios do Benfica havia sempre muitas miúdas, que falavam connosco e na altura namorei com uma.
Faziam muitas partidas uns aos outros no centro de estágios?
Muitas vezes o vigilante do centro de estágios saía, tinha que ir fazer qualquer coisa, e nós começávamos a jogar à bola nos corredores (risos). Quando ouvíamos o carro dele a chegar, ia tudo a correr para a cama, isto por volta da 1 da manhã. Era uma confusão.
Nunca tentavam sair também?
Sim. Éramos 22 miúdos e aquele senhor muitas vezes não tinha paciência para nós, mandava vir com toda a gente. E quando assim é, a vontade de fazer porcaria é muito grande. Mas nada de extraordinário. Um dia estava o Edgar e o meu irmão a discutirem. Quando ouvimos, fomos ter com eles e perguntamos: “Estão a discutir porquê?”. “Ah, estamos a discutir porque ele diz que quer ser o primeiro a jogar snooker. Nós vamos viajar para França para a semana”. O meu irmão nunca tinha andado de avião e o Edgar tinha vindo de Angola para cá, já não se lembrava. E nós: “Oiçam lá, vocês são burros os dois. Não há snooker no avião, isso não existe” (risos). Eles pensavam que havia snooker no avião e estavam a discutir sobre quem ia jogar primeiro (risos).
Estava a dizer que entretanto foi para o Famalicão.
No meu último ano de júnior fui campeão da Europa por Portugal. Eu, o Dani, o Beto, o Nuno Gomes, o Ramirez, o Bruno Caires. Nos clubes muito dificilmente iríamos jogar, éramos todos de clubes grandes. Eu, o Bruno Caires e o João Peixe ficámos no Benfica. Ainda fiquei lá uns meses, mas depois fui emprestado ao Famalicão o que era bom para mim, porque no ano a seguir tínhamos o campeonato do mundo no Qatar, e é importante jogarmos com regularidade. Por isso fui para o Famalicão.
Foi sozinho?
Fui. Às vezes o Beto (Severo, do Sporting) apanhava-me, ele tinha sido emprestado ao União de Lamas e ia ter comigo a Famalicão ou eu ia ter com ele a Lamas. Isso é que nos safou. E depois vínhamos muitas vezes para os treinos da selecção porque íamos ter o campeonato do mundo.
Ficou a viver onde?
Numa residencial, que tinha restaurante, era a minha sorte. A família da residencial era fantástica, tratou-me não como um hóspede, mas como um filho, foi uma coisa fabulosa. Mas cada vez que vinha para Lisboa era uma coisa impressionante: ficava maluco com tudo, mas depois tinha que voltar.
Lembra-se de primeira vez que foi chamado à selecção?
Fiquei maluco. Ainda por cima na altura sentia-me um bocado injustiçado, porque eu achava que já devia ter ido à selecção. Era titular no Benfica, era muito importante nos juvenis e nunca me tinham dado nenhuma oportunidade, nem para treinar. Achava aquilo estranho. Os meus colegas até diziam: “Zé, como é que é possível?”. Até que nos sub-17 fui convocado para treinar. Treinei bem e levaram-me para o Torneio do Porto. A partir daí fui sempre.
Como era esse grupo da selecção?
O melhor que já tive até hoje, fantástico. Somos amigos até hoje. Eu, o Beto, o Dani, o Nuno Gomes, o Bruno Caires, o pessoal que está no norte, falamos de vez em quando. Numa selecção não é fácil ter tantos amigos assim. Mas nós conseguimos e ganhamos muitas coisas por causa disso.
Quando assina o primeiro contrato?
Quando era júnior do Benfica.
Lembra-se do primeiro ordenado?
Acho que eram 200 contos. Comprei roupas, era muito vaidoso, e guardei o resto. Fui à inauguração do Colombo, fui lá comprar umas roupas.
No Famalicão esteve só uma época.
Nem chegou a uma época mas aprendi bastante porque o grupo era bom.
Quem era o treinador?
Acho que era o Francisco Vital.
É muito diferente passar de um campeonato de juniores para o seniores?
É nessa transição que muitas vezes o pessoal se perde. No meu caso, eu tinha tudo o que qualquer miúdo quer ter. Estava num clube grande, sou campeão da Europa, estou habituado a ter todas as regalias, numa semana estou em Itália, noutra estou na Suíça em torneios internacionais, vou para a seleção, sou invejado pela maioria dos miúdos em Portugal... E aí vem o duro, a transição para o futebol sénior. O treinador quase que nem te fala: “Tens que fazer isto”. És profissional, o carinho que te dão no futebol jovem não existe no futebol sénior e quem não acompanhar essa dificuldade, quem não for forte o suficiente para aguentar essa transição, não consegue. Estou habituado ao Benfica e metem-me num clube do norte, onde nunca tinha ido, a ser tratado da mesma forma que os outros jogadores seniores; eu com 18 anos, havia jogadores com 35 anos, e tratavam-me como se eu tivesse a mesma idade. Quem não for forte o suficiente, não tem hipóteses. Eu tive sorte porque apanhei uma mistura de jogadores experientes e jogadores mais ou menos da minha idade no Famalicão. Na altura estavam lá o Paiva e o Tiago Pereira, que jogou no Benfica, e os mais velhos tratavam-nos muito bem. A direção também tinha pessoas bem formadas, há muitos benfiquistas em Famalicão também.
O que é que fazia nos seus tempos livres?
Muitas das vezes ia para o Porto, apanhava o comboio, ou então o Beto, o Edgar, o Rui Óscar, o Madureira e pessoal que estava norte, apanhavam-me lá e íamos passear. Também lá fiz alguns amigos em Famalicão. Às vezes recebia cartas de miúdas: “Zé Soares como é que estás?” E ficava todo contente (risos).
Quando é que começam as primeiras saídas nocturnas?
Eu já saía quando estava nos juniores em Lisboa. O engraçado é que íamos todos para o Alcântara Mar. Os porteiros já nos conheciam. Havia um, o Tó que nos apertava a mão e ainda hoje quando vou a algum sítio onde ele está a fazer de porteiro, faz a mesma coisa. Também íamos para as discotecas da Costa, mas era quando podíamos, não saíamos muito. Se, por exemplo, jogávamos ao sábado, à noite saíamos, andávamos sempre de um lado para o outro de autocarro, arranjávamos sempre forma.
Nunca tirou a carta de condução?
Não, estou agora a acabar de tirar. Eu sou o atípico jogador de futebol, não gosto de carros. Ferraris, Porsches... Nunca tive essa vontade. Mas se soubesse o que sei hoje, tinha tirado logo aos 18 anos. Preciso de um meio para deslocar-me, mas não tenho nenhum. Há pessoas que ficam surpreendidas: “Mas como é que não tens carro?”. E por acaso até tenho sido prejudicado por isso, mas este ano disse: “Acabou”.
Depois de ter estado no Famalicão, regressa ao Benfica, mas mandam-no para o Alverca. Como é que reagiu?
Não reagi bem porque tinha feito um bom Campeonato do Mundo, no Qatar; não fantástico, mas bom e achava que pelo menos devia ter feito a pré temporada no Benfica, para ter uma oportunidade na equipa principal. Mas fez-me bem ir para o Alverca.
Quando lá chegou quem era o treinador?
Era o professor Arnaldo Cunha, que também era bom. O capitão do Alverca era o Raul José, o adjunto do Jesus. E foi comigo o Adriano, o Nelson Morais, depois mais tarde é que foi o Maniche, mas nessa altura acho que foram só o Adriano e o Nelson Morais.
O seu irmão no meio disto tudo onde é que andava?
O meu irmão era júnior ainda no Benfica.
Esteve dois anos emprestado no Alverca, sempre com o professor Arnaldo Cunha?
Não, também estive com o Mário Wilson no 2º ano.
Depois vai para o Benfica.
A minha transição da equipa B para a equipa principal aconteceu numa semana em que o Benfica ficou sem centrais. Lembro-me que chamaram-me, comecei a treinar e era para jogar a titular, em Braga. Era o Manuel José treinador. Mas na altura o Benfica trocava muito de treinador e às vezes era um bocado confuso. Comecei a treinar e ele disse-me “Miúdo vais ser titular com o Sp. Braga”. Fui, mas nem fiquei no banco, fiquei de fora. Depois acho que veio o Paulo Autuori. Mas o primeiro jogo como titular foi com o Graeme Souness.
Deve ser uma grande desilusão andar a treinar e não ser chamado.
Desiludiu-me bastante e não me fez bem. Treinava com a equipa principal, mas depois não jogava, ficava no banco, e no dia seguinte tinha que ir jogar com o Alverca para o norte, depois vinha e no dia seguinte ia para o estádio da Luz, depois voltava ao Alverca. Essa indefinição não faz bem e a mim não me fez bem. Uma semana estava a jogar no estádio da Luz com não sei quantas pessoas e na seguinte ia jogar não sei onde com o Alverca. Nunca tive aquela estabilidade que hoje em dia os miúdos têm.
Isso fazia com que tivesse menos vontade de treinar e de jogar?
Não, mas fazia com que eu muitas vezes desacreditasse que algum dia pudesse ser titular no Benfica. Muitas vezes tinha mais a ver com as pessoas e com o projecto que faltava ao clube. Tive muitos presidentes e o único que tem um projecto como deve ser é o Luís Filipe Vieira. Apanhei muitos presidentes no Benfica que era só meter dinheiro, mais dinheiro, mas ninguém tinha um projecto, ninguém fazia mais campos, ninguém se lembrou de fazer um estádio novo ou uma academia como a que o Benfica hoje tem. Não havia um projecto que consolidasse os miúdos na equipa principal.
Entretanto, enquanto andava entre o Benfica e o Alverca, teve como treinadores no Alverca o Mário Wilson e o José Romão. Com quem é que tinha uma relação mais próxima?
Com o Mário Wilson era excelente.
Teve algum treinador de que não gostasse?
Tive um com quem nunca me identifiquei com a sua forma de treinar, o professor Neca.
Onde?
No Desportivo das Aves. Não digo que ele seja mau treinador mas não entendo uma pessoa que pensa futebol daquela forma.
Como assim?
Vou tentar explicar. Antigamente, há 50 ou 100 anos, no futebol os defesas eram para defender, os médios para defender e atacar e os avançados para atacar, mas há uma evolução e hoje em dia, os defesas são os que começam a atacar. O ataque começa pelo guarda-redes, ele defende mas depois começa o ataque, é o ataque organizado. A forma de pensar futebol do Prof. Neca não encaixa em lado nenhum. Eu fui treinado por ele há 17 anos e perguntava-me mas onde é que este homem tem a cabeça? Ele esburacava o campo para as outras equipas terem dificuldades! Ele dizia o Nuno Gomes vem jogar com o Benfica e assim tem dificuldade em jogar. Passava-se o mesmo quando vinha o João Pinto, com o Sporting. Mas será que ele não percebia que aquilo era mau para eles, mas para nós também? Ele dizia “Não, isto é mau para eles que são muito melhores do que nós”. É este pensamento que eu não entendo. Como é que alguém pode treinar futebol assim, e hoje ainda treina, não entendo. Depois ele foi despedido e apanhamos o Carvalhal que já era outra coisa, não tinha nada a ver.
Mas antes do Desportivo das Aves vai para o Campomaiorense.
Sim e no Campomaiorense foi excelente. Foi em 2000. Apanho o Carlos Manuel como treinador e foi fantástico a todos os níveis.
Já estava mais perto de casa, de Elvas.
Sim, mas nessa altura eu vivia Lisboa, em Miraflores, onde tinha comprado apartamento.
Esteve uma época no Campomaiorense?
Não chegou a uma época. Eu tinha começado a época com o Graeme Souness, as coisas até não estavam a correr mal. Joguei com o Heynckes também. Só que em Novembro ou dezembro fiz uma rotura no gémeo e estive uns dois meses parado. Em Janeiro o Campomaiorense fez-me a proposta de eu ir jogar para lá até ao final da época e assim foi. Fez-me bem porque joguei bem, as pessoas gostaram de mim. E gostei muito do Carlos Manuel, foi dos melhores treinadores que tive.
É no Campomaiorense que há o célebre jogo com o FCP do Jardel, que já foi falado muitas vezes. Esse jogo marcou-o muito.
Sim, marcou muito a minha carreira.
De que forma é que o marcou e o que é que sente em relação isso?
Marcou-me por várias razões. Eu sei perfeitamente onde é que estive mal. Devido à minha posição, devido às características do Jardel, aquilo que significava aquele jogo para ambas as equipas. Nós estávamos a lutar pela manutenção e para o FCP era fundamental ganhar para ser campeão nacional. Em jogo jogado, sejamos sinceros, nós fomos melhores do que eles. A arbitragem foi boa? Não foi boa, nem para o Campomaiorense nem para o FCP. Fui demasiado agressivo no jogo? Fui. Ele também não se deixou ficar. Mas há outra razão para tanto empolgamento, é que eu era jogador do Benfica na altura, juntando isso ao facto do FCP acabar por não ser campeão...Acho que o Sporting passou-lhe à frente ou aumentou a vantagem, não me lembro muito bem o que é que acontece. Tinha de haver um bode expiatório pela derrota do FCP. Quem foi? Eu e o árbitro.
Recorde quem era o árbitro.
O Bruno Paixão. O árbitro continua a arbitrar, a mim fizeram-me uma cruz no futebol português desde esse jogo. E no entanto o que aconteceu, para mim, são coisas que muitas vezes podem passar-se entre os centrais e os avançados. O Zidane que é o Zidane deu uma cabeçada na final do Campeonato do Mundo.
Está a dizer que a sua carreira no futebol português acaba por causa desse jogo?
Sim.
Sentiu muita revolta e injustiça?
Muita, porque ligava a televisão e os programas desportivos, era só para falarem mal de mim. Até que houve um dia em que tive que ir à televisão para me defender, no programa do Paulo Catarro.
Ainda se lembra do que é que disse?
Lembro. Assim que cheguei ao programa havia um comentador do FCP, que se agarrou a mim e disse “Zé tenho que dizer mal de ti porque sou do FCP”. Não lhe passei cartão nenhum, ele levava as semanas todas a falar mal de mim e nem me conhecia. Tudo por causa de um jogo de futebol. Mas também lhe disse “Doutor isto é um jogo de futebol. Acha que é normal estar todos os dias a falar mal de mim? Por causa de um episódio e porque o seu clube perdeu? Você não me conhece de lado nenhum. Parece que matei alguém.” Era crucificado todos os dias, é impressionante.
Houve alguém que lhe tivesse dito alguma coisa para o reconfortar?
As pessoas do Campomaiorense, a minha família, os meus amigos, o meu pai, todos foram fantásticos, deram-me apoio, ligavam, até advogados porque houve uma altura em que o ataque era tão grande, que parecia que tinha dado um tiro em alguém. O Carlos Manuel também foi fantástico, toda a equipa técnica, os meu colegas do Campomaiorense. Só fiquei triste com o meu clube, porque nunca ninguém do Benfica me ajudou. Nessa altura eu era jogador do clube e recebia o ordenado pelo clube, mas nunca me ajudou. Sempre gostei do Benfica e o amor é para toda a vida, mas nessa altura afastei-me do Benfica porque nunca me ajudaram.
Não estava à espera?
Estava à espera que me defendessem. Mas nem uma palavra, nem um telefonema, nada. As únicas pessoas que me ajudaram dentro do futebol foi o Campomaiorense, por intermédio do presidente João Manuel e Do Carlos Manuel, o Chica Gatão e o Madureira que foram impressionantes na ajuda. Os meus colegas de outros clubes de futebol também ligaram-me. Se fosse o Benfica de agora, tenho a certeza de que teria sido diferente.
Como é que vai parar ao Desportivo das Aves?
Mais uma vez estava à espera do Benfica. Saio do Campomaiorense a jogar bem, a um nível muito bom e pensei que iria então ter oportunidade de jogar no Benfica, mas mais uma vez: “Vais ser emprestado”. O Desportivo das Aves ligou e eu fui. Fui muito bem tratado na Vila das Aves mas senti-me deslocado.
Foi outra vez sozinho?
Não, nessa altura já era casado e o meu filho nasceu nesse ano.
Onde é que conheceu a sua ex-mulher?
Em Lisboa. Tinha 19 ou 20 anos quando conheci a Mónica. Casei com 23 anos, acho eu. O Rodrigo nasce a 25 de Agosto de 2000. Quando vou para o Desportivo das Aves, eles também vão, ele era recém-nascido.
Como é que correu a época?
Joguei, mas não foi boa. Por muitas razões, minhas também. Eu sou culpado de tudo o que se passou na minha vida por esta ou aquela razão.
Por que diz isso agora?
Porque na altura desencantei-me um bocado com o futebol. Ao ser mal tratado todos o dias por aquilo que aconteceu, ao ver que o meu clube não me defendeu, tinha acabado a época no Campomaiorense num nível altíssimo, com 23 anos, esperava estar no top porque era um objectivo que tinha. Depois aparece o Aves e vejo o Benfica a descartar-se de mim, isso tudo fragilizou-me um bocado. Era uma época em que esperava estar num nível completamente diferente. Depois, o Aves, por mais boas pessoas que houvesse no clube, por mais que os meus colegas fossem todos fantásticos, por inúmeras razões, não gostava do treinador, foi ele que me convidou mas quando comecei a vê-lo treinar, percebi que não poderia evoluir com um treinador assim, não conseguia, por minha culpa a época não correu dentro das minhas expectativas.
E vai para França. Como é que isso acontece?
A ida para França também foi muito má. Acabo a época no Aves e volto ao Benfica, só que o Benfica não contava comigo e comecei a treinar na equipa B. Eu, o Maniche, o Paulo Madeira, o Sabry, o Bossio, inúmeros jogadores, e estivemos até Janeiro sem clube. Entretanto, o Manuel Barbosa liga-me e diz que tinha um clube francês interessado em mim. Mais uma vez, vou ao Benfica falar, acho que com o Vilarinho, e ele: “Olha Zé, o melhor é rescindir, vais para França e é o melhor para ti. O Benfica também não conta contigo”. E fui para França, sozinho, para tentar jogar o melhor possível porque havia a possibilidade de eu entrar no Olympique de Marselha
Ainda estava casado?
Estava. Fui para França, mas quando lá chego, não sei que confusão é que houve que não podia ser inscrito. Mas já tinha rescindido o contrato com o Benfica. De quem é a responsabilidade? A federação francesa não me aceitou porque já tinham inscrito dois jogadores em Janeiro. Entretanto havia um antigo jogador que era o Franck Sauzée. Ele conhecia-me e liga para o meu empresário a dizer que no Hibernian da Escócia gostavam muito de mim e para eu ir. Comecei a treinar no clube as coisas começam a correr muito bem...
Então foi para Escócia?
Fui e ainda nesse ano. Para Edimburgo, lindo, uma cidade fantástica, a treinar e a jogar bem e o Franck Sauzéé é despedido. Fiquei o resto do ano sem jogar.
Tanto em França como na Escócia esteve sozinho?
Sim, também tinha ido sozinho. Passado mais um ano divorciei-me. A pessoa começa a distanciar-se.
A sua mulher já não quis ir consigo para França?
Ela preferiu ficar cá com o nosso filho, porque ele era pequeno. E ainda bem que não foi, porque vendo bem as coisas, eu fui, depois não fui inscrito, tive que ir para a Escócia a correr e afinal também não deu.
Mas vai para a Alemanha.
As coisas estavam a correr tão mal e eu tinha que jogar. Surge então o Djukic, um jogador do Farense, que me liga a perguntar se queria ir para a Alemanha. Fui para uma equipa da 2ª divisão. E gostei. Trataram-me bem, joguei o ano inteiro, só que parti o peito do pé.
Como é que se deu com a língua?
Falava inglês com eles. Depois encontrei lá um português o Mauro Bastos, que agora está na Colômbia como adjunto. Ajudávamo-nos mutuamente.
Segue-se a Arábia Saudita. O que é que acontece?
Financeira e futebolisticamente precisava de mais qualquer coisa. Gostava de ter ficado num clube da 1ª divisão na Alemanha, mas as coisas não aconteceram e apareceu-me rapidamente um clube da Arábia Saudita, por intermédio do Faustino Gomes, o empresário. Era meu amigo e um dia perguntou-me se queria ir para a Arábia Saudita. O contrato era muito estranho, tinha muito risco. Era só de dois meses. Ele disse: “Zé, tu assinas. Eles dão muitos mil dólares, assinas e se gostas, gostas, se não gostas vens embora. É para um torneio do Egito, queres ir?”. Como tudo de mal que havia para acontecer já me tinha acontecido, resolvi arriscar. Assim que lá chego... meu Deus, onde é que eu estou metido (risos), Tinha visto até ao Barém, quando lá chego o árabe que me foi esperar meteu-me num hotel sozinho e disse para eu lá ficar 2 dias que depois ia buscar-me outra vez”. Assim que chego ao Bahrein, 50 graus, um calor, e eu sozinho a pensar como é que ia conseguir sequer correr ali. Depois há uma particularidade. No Bahrein ninguém te deixa dormir à noite, o telefone está sempre a tocar. Tive que tirar o telefone do descanso.
Mas porquê?
Porque na Arábia Saudita não se pode fazer nada e no Bahrein pode fazer-se tudo. Pode-se beber, há prostituição, os hotéis estão cheios de prostitutas, e por isso levam a noite toda a ligar para o teu quarto para saber se queres alguma coisa. A noite toda triimmm, trriimmm. “Que é isto? Vou ficar maluco” (risos). Estive dois dias sem poder dormir porque o telefone estava sempre a tocar. Porque tirava o telefone e pensava: e se alguém precisa de falar comigo, a minha família? Depois, um calor, aquelas estradas desertas, olhas para a direita deserto, olhas para a esquerda, deserto e estrada que nunca mais acaba. Só me lembrava de Lisboa.
O que acontece quando finalmente chega à Arábia Saudita?
Meteram-me no no centro de estágio, fiquei lá sozinho. Liguei para o Faustino e disse-lhe que ia embora. “Isto é só areia, vou ficar maluco aqui”.
Não estava mais nenhum jogador no centro de estágio?
Ninguém, estava tudo em casa. E outra coisa, só havia dois canais árabes, dois, o resto via-se mal. Mas aquilo até tinha boas condições. Eu pensava: estou na Arábia Saudita, vou ganhar algum dinheiro, mas vou ficar maluco aqui. O primeiro treino foi às oito da noite, com um treinador holandês. Falou comigo; disse que eu tinha que ter paciência, que aquilo era difícil. Depois fomos para o Egipto um mês. Quando vejo o professor Nelo Vingada, que na altura era treinador do Zamalek, digo-lhe: “Mister, até que enfim que vejo alguém” (risos). Fiz o torneio, correu muito bem, eles quiseram renovar por mais um ano.
E aceitou?
Sim, porque tinha uma coisa sólida na mão. Primeiro foram uns meses de Verão para o torneio, estive um ano no Al-Ettifaq e depois fui para o Al-Shamal, do Qatar.
Sozinho?
Não, o meu filho ainda foi ter comigo, ainda estive lá com ele.
A distância do seu filho custava-lhe muito?
Custa muito, é por isso que fiquei forte psicologicamente em todos os aspectos, mesmo em termos de relacionamentos, fiquei forte. Porque se eu consigo estar longe do meu filho, que vive a 10 ou 15 mil quilómetros de mim, nos EUA, consigo estar longe de qualquer pessoa. Sou muito forte em termos de relacionamento com as mulheres por causa disso.
O seu filho foi viver para os EUA quando?
Com 3 anos. A minha mulher foi viver para lá, trabalha numa companhia aérea, tenho um bom relacionamento com ela, com o seu marido e também gosto muito do outro filho dela.
Vivem onde?
Em Dallas, vou lá muitas vezes.
O que fazia nos tempos livres na Arábia Saudita?
Comprei um computador, lia muito, ouvia música. A minha sorte é que tinha colegas brasileiros de outras equipas da mesma cidade e íamos para a praia jogar à bola, fazíamos muitos almoços e jantares. Na altura não é como agora, era mais difícil, íamos sozinhos. O mister Jorge Jesus foi com 10 pessoas, a equipa técnica dele são 8 ou 9, é diferente. Está num hotel de 5 estrelas. No meu caso foi já há 14 anos.
Viveu algum episódio caricato na Arábia Saudita que possa contar?
No primeiro dia em que fui tomar banho, estava nu, só que lá um homem não pode estar nu ao pé do outro. Foi um problema do caraças, começaram a deitar-se no chão com as mãos na cara “Não podes fazer isso, não podes fazer isso” (risos).
Estava no balneário?
Sim, mas eles metem a toalha e vão tomar banho escondidos uns dos outros. Eu estava habituado há anos a despir-me normalmente e ficou tudo: “Não se pode, estás maluco?” (risos). Eu contava histórias daqui e eles diziam: “Vocês no ocidente são uns impuros, casam com mulheres que não são virgens”. Tínhamos muito este tipo de conversa e discutíamos várias coisas. Sei lá, há tantas histórias…
Lembre-se de mais alguma história?
Eles são boas pessoas e fartava-me de rir com eles, mas têm uma pancada que nunca tinha visto. Uma vez lembraram-se que tínhamos de treinar mais, a ideia foi do capitão da equipa: “Temos de treinar mais, vamos reunir com o mister porque temos de treinar mais”. Eu virei-me para ele: “Não temos de treinar mais, o que temos de fazer é, nas duas horas de treino diário, temos de dar tudo. Depois quando acaba o treino podemos ir para o ginásio. Não é preciso bidiários todos os dias”. Só que quando eles metem uma coisa na cabeça, esquece. Foram falar com o mister: “Temos de treinar mais”. O holandês: “Treinar mais? Mas eu peço-vos para vocês darem mais nos treinos e não dão!”. Eles insistiram para começarmos a treinar de manhã também. O treinador disse que sim, mas que tinha de ser logo às 7 da manhã por causa do calor. “Está bem mister, está bem”. No dia seguinte, para o treino da manhã só apareci eu, o ganês e o brasileiro, que éramos os estrangeiros, os 2 treinadores holandeses e o treinador de guarda redes que era egípcio, mais ninguém (risos). Os que disseram que iam, nenhum foi.
Viveu alguma situação em que se tenha assustado?
Não, tudo tranquilo. Só era um bocado estranho quando às vezes estava na praia e via os aviões de guerra a passarem, os aviões que iam para o Iraque. Estive lá na altura em que apanharam o Saddam. Essa altura era um bocado estranha, a Al Qaeda metia muitas bombas em Riade e eu ia lá muito. Às vezes assustava-me um bocadinho.
E como é que vai parar ao Qatar?
As coisas correram bem na Arábia Saudita. Futebolisticamente falando, os sauditas são muito melhores que os do Qatar, só que aquela equipa do Qatar pagava-me mais do que a saudita e fui. E a vida no Qatar não tem nada a ver com a vida na Arábia Saudita.Tem praia, tem muitos estrangeiros, pessoal da Argentina, do Brasil...
Quanto tempo é que lá esteve?
1 ano e meio, até 2004.
Vivia onde?
Num apartamento. Aí a vida era fantástica, deram-me um super apartamento, ganhava bem também. Tinha alguns jogadores conhecidos, o Akwá, o Caló um cabo verdiano que tinha jogado no Salgueiros. Também lá tinha um amigo meu, o Frederico. Estava lá o Guardiola, dava-me bem com ele. E havia outros jogadores estrangeiros, o Leboeuf, o Desailly, os irmãos De Boer. Vive-se muito bem, mas em termos de futebol não te acrescenta nada. A mim só me acrescentou por causa dos craques que lá estavam. Joguei contra eles. Jogava sempre, fiz não sei quantos jogos. Mas começas a perder aquele amor porque não há espírito futebolístico nesses países.
O que quer dizer com espírito futebolístico?
Aquele frio na barriga quando a imprensa fala no jogo de amanhã, por exemplo. Cá quando há um Benfica-Sporting é a semana toda com aquela pressão, aquele frio que tens no estômago, aquela responsabilidade. Lá é tudo demasiadamente tranquilo. O pessoal que jogou ao mais alto nível gosta é de responsabilidade. Ali não há responsabilidade, basta ver o treino. Se pegarmos no mesmo exemplo do Benfica-Sporting, se eu jogo no domingo, sei que na segunda-feira antes já começo a sentir aquele friozinho na barriga – e quem gosta de jogar futebol, gosta de sentir esse espírito, de ler os jornais logo na segunda-feira, sentir aquela picardia. Sabes que vais enfrentar o melhor avançado de Portugal, sabes que o Benfica tem 5 ou 6 milhões de pessoas e está tudo na expectativa para aquele jogo. Esse espírito não há no Qatar, na segunda-feira estás na praia, terça-feira também, no treino ninguém fala de nada, só um dia antes do jogo é que começam a falar.
Não chegou a jogar nenhum derbi cá.
Não, o que ia jogar, fui expulso na Luz contra o Rio Ave. Mas joguei grande dérbis nas camadas jovens, em sénior é que não.
Foi expulso porquê?
Dois amarelos, uma estupidez minha.
Era um jogador agressivo?
Dentro do campo, sim. Às vezes excedia-me um bocado.
Entretanto vem do Qatar para o Elvas.
Não, depois de sair do Qatar queria voltar a ter aquela sensação, a sentir-me jogador de futebol, não só antes do jogo, mas a semana toda. Ter aquela responsabilidade de no domingo fazer algo de bom. De treinar ao mais alto nível para no domingo estar ao mais alto nível também. Então tentei voltar a Portugal para jogar. Não sei o que é que pensei na altura, mas não tive hipóteses...
Nenhuma porta se abriu?
Nenhuma. Estive sem jogar um ano.
Foi viver para onde?
Voltei para Elvas, para casa dos meus pais. Foi uma altura complicada da minha vida. Estava separado, longe do meu filho...
O dinheiro que foi ganhando investiu-o de alguma forma?
Essa foi outra parte negativa da minha vida. Fui gastando. Mas também nunca ganhei assim muito.
Onde é que ganhou mais?
No último contrato com o Benfica ganhava bem. Mas o problema é que eu sempre fui uma pessoa que gostava de ajudar os outros. Não estou arrependido de o ter feito, não conseguia dizer que não. Às vezes prejudicava-me. Sempre fui um bocado assim e depois os anos vão passando... Devia ter sido mais egoísta, no bom sentido.
Teve muitas pessoas que se aproveitaram de si?
Sim e depois chegas a uma altura em que pensas: com a ajuda que dei aqui e ali, estava bem.
Tirando o apartamento em Miraflores não investiu em mais nada?
Não. E já o vendi.
Não investiu em nenhum negócio?
Não, vou tentar fazê-lo agora.
Esse ano em que esteve em Elvas não fez nada profissionalmente?
Não. Tentei, tentei no estrangeiro também. Depois de vir do Qatar tentei vários clubes, mas nunca consegui nada. Depois surgiu-me o Wolverhampton, o Faustino Gomes ligou-me, só que eles lá já estavam na pré-temporada, eu treinava sozinho e eles pensavam que eu estava ao mais alto nível para entrar logo na equipa e quando lá cheguei... Precisava de uma pré-temporada e acabei por não ficar. Depois surgiu-me o Egipto. Ligaram-me para ir para o Zamalek. Cheguei ao Cairo, estive lá um mês, mas nunca me apresentaram o contrato, tive que vir embora. O Manuel Cajuda era o treinador e curiosamente disse ao presidente do Zamalek que não me conhecia de lado nenhum (risos), é inacreditável. Enquanto lá estive treinei com dois ou três jogadores e curiosamente o treinador português que me conhece desde sempre, disse que não me conhecia de lado nenhum. A partir daí desacreditei completamente no futebol.
Mas ainda foi para a Índia.
A mim tudo me acontece... Depois sai daí e estive mais não sei quantos meses parado e... apareceu-me um clube da Índia. Cheguei, pergunto pelo contrato e não havia nenhum contrato. Disseram-me que estavam à espera do presidente. Estive lá um mês e meio e não me apresentaram contrato, nem me deram dinheiro, vim embora.
Esteve onde?
Em Goa, mas tive que vir embora. Não sabia o que é que podia fazer mais. Fartei-me completamente do futebol. Era um clube pior do que o outro. Voltei para Elvas, estava lá o Paulinho que é meu amigo e que estava no Salgueiros: “Zé vem aqui ajudar-nos”. Convenceu-me e estive lá meia época com ele e depois fui para Badajoz.
Fazer o quê?
Eles conheciam-me porque Badajoz é muito perto de Elvas. Treinava três dias por semana. Estive a jogar dois anos em Badajoz. Espanha é diferente, tem um espírito diferente, não tem nada a ver connosco. Nós somos mais organizados do que eles e também temos melhores treinadores do que eles. Mas foi bom, conheci outras pessoas, o futebol para mim também já tinha passado, nessa altura já não tinha aquele friozinho na barriga. E quando um jogador de futebol deixa de ter essa coisa, aquela ambição de jogar, de não dormir bem por causa do jogo, se perde isso, acho que é quando chega a altura de se afastar. Deixe de ter essa sensação devido aos sucessivos insucessos que fui tendo.
Como é que surge depois a Academia do Benfica?
Em Espanha tirei um curso de PT e um amigo meu começou a trabalhar na Academia e convidou-me. Conhecia o meu passado no clube, achou que eu podia ser o elo de ligação entre a primeira escola do Benfica em Espanha e o Benfica em Lisboa e convidou-me para trabalhar lá. Estive acho que dois anos a trabalhar com eles.
Mas entretanto começa a trabalhar como modelo. Como é que isso acontece?
Estava numa discoteca em Badajoz, no primeiro ano em que lá estive a jogar, e houve alguém que veio falar comigo. Disseram-me: “Vai lá à agência, gostei da tua aparência física”. Isto foi há 7 ou 8 anos. Estava com uns amigos que se começaram a rir e a gozar, mas eu fui. A partir daí comecei a fazer coisas. Tirei um curso intensivo de 6 meses, dado pela agência.
E gostou.
Gostei.
O que é mais difícil em ser modelo?
Eu era mais introvertido, mas nesse tipo de vida o contacto com as pessoas, as personagens que tens que encarnar, isso é o mais complicado. Há pessoas que não estão preparadas para isso. Há pessoas que têm dificuldade de lidar com o público. Podem ser muito boas mas depois quando têm de lidar com o público não se conseguem expor. E a moda é um bocado isso, é o que tu transmites aos outros.
O José não teve dificuldade?
Não, fui aprendendo, ensinaram-me a postura. Acho que a moda tem mais a ver com a postura do que com outra coisa, do que com beleza até.
Então gosta do trabalho de modelo...
Mas não é o que mais gosto. Se me perguntarem se sou fascinado com isso – e já trabalhei com pessoas que são fascinadas e felizes –, comigo não é assim. Há 200 outras coisas que gosto mais de fazer do que isso, mas se me convidarem e pagarem, eu vou. Agora é só de vez em quando.
Quando sai da Academia do Benfica em Badajoz, o que é que foi fazer?
Dediquei-me só ao ginásio, ao trabalho de PT, até há bem pouco tempo.
O que fez mais?
Também estive ligado a um empresário espanhol, uma marca espanhola (a Internacional Players) em que andava a tentar colocar jogadores. Ainda estive algum tempo com ele, só que eu tenho alguma dificuldade no mundo do empresários. Porque tentei ajudar amigos meus e não consegui.
Porquê?
Porque se digo a um amigo meu que vou tentar arranjar um clube, não posso mentir-lhe. E no mundo dos empresários tem que se mentir muito. Se vou vender um peixe que não existe, não o consigo vender, ainda por cima estou a lidar com amigos meus. Não consigo fazer isto com nenhum jogador de futebol, quanto mais com amigos. Eu já tinha estado na pele deles, de estar na expectativa. Cheguei à conclusão de que não tinha feitio para isso. Tenho que vender algo que é real.
Mas quando diz “vender algo que é real”...
No futebol vende-se muita coisa...Ele dizia “ligas ao Jorge Andrade, ao Maniche, ao Nuno Gomes e diz que há um clube do Dubai que dá um milhão por mês”. E aquilo não era bem assim. Eu falava com o Jorge e quando lhe perguntava pelo clube, ele: “Ah ainda não há nada”
No fundo o que ele queria é que garantisse o Jorge....
Sim e só depois é que procurava clube. Se desse, dava, mas não era assim que ele me vendia a coisa. Ele dizia-me que já tinha clube. No mundo empresarial do futebol há muito disso. Com o Maniche aconteceu a mesma coisa. Depois saí e comecei a trabalhar na empresa de um amigo meu que queria exportar vinhos.
Gosta de vinho?
Não bebo álcool. É muito raro. Mas esse amigo como tem dinheiro abriu uma empresa de vinhos. Não era produtor, queria exportar vinhos do nada. Comprava o vinho, fazia a marca dele e queria exportar. Pediu para lhe dar uma ajuda e eu como estava sem fazer nada, tentei ajudá-lo mas ele fez algo que, na minha opinião, não estava a fazer bem. Não fez uma prospecção de mercado para saber o que é que realmente se vende lá fora. Acordava de manhã e lembrava-se que o vinho ia custar três euros. As coisas não se fazem assim. Eu não tenho nenhum curso superior, nem nunca tinha trabalhado com vinhos, mas comecei logo a ver que não ia vender vinhos a ninguém. Entretanto a mãe dele um dia de manhã acorda e lembra-se: “José Soares eu preciso de alguém que vá a Angola vender vinhos”. Eu disse-lhe: “O seu filho não vai, os empregados não vão, você quer que eu vá? Então paga-me tudo e eu vou para perceber como é que se faz. Mas não é chegar lá e vender. A sua marca não é conhecida. Para entrar em Angola não é fácil, os ‘tubarões’ estão todos lá a meter produto”. Assim foi. No primeiro dia que cheguei a Angola, liguei-lhe a dizer: “Vocês não vão meter vinho aqui em lado nenhum”.
Porquê?
O processo de exportação é tão complicado que uma pequena empresa como a deles e a forma que queriam trabalhar, não tinham hipótese. A primeira coisa que ele me disse foi que não subornava ninguém. É para esquecer ali. Entretanto já fechou a empresa. Mas, pronto, ajudámo-nos mutuamente e tentámos fazer algo. Também ganhei alguma experiência porque um mês e meio em África, conta como um ano aqui na Europa. Gostei da forma como me trataram, mas há muita coisa em Angola que a pessoa não pode gostar, sinceramente.
Está a falar do quê em concreto.
Da corrupção.
A sua ascendência paterna é da Guiné. Alguma vez lá foi?
Não. Mas brevemente vou. É um sonho que tenho. Estive para ir muitas vezes com o meu pai, mas depois acontecia sempre qualquer coisa. Agora já só a minha mãe está viva, o meu pai faleceu há 5 anos, com um AVC. Foi horrível.
Estava presente quando aconteceu?
Ele saiu de manhã e passado um bocado bateram à porta a dizer que ele estava caído no chão, na rua. Fui a correr. Vi aquilo e passado dois dias faleceu. Foi um choque enorme. Até hoje.
Depois dos vinhos o que fez mais?
Continuei a fazer desfiles, mas não me dava para viver. Entretanto há um amigo meu, que tem uma empresa ligada à agricultura e monta pivôs de rega, disse-me que precisavam de pessoas para ajudar. Eu estava sem fazer nada; gosto de aprender, a empresa era recente, o dinheiro faz falta, e comecei a montar pivôs. Estive lá 4 ou 5 meses. Foi duro, a trabalhar das 6 da manhã até às 7 ou 8 da noite. Mas ganhava bem.
Por que saiu entretanto?
Temos que voltar atrás. Isto é antes de eu ir para Badajoz, para a Academia do Benfica. Os vinhos também. A academia do Benfica e ser PT durou apenas uns meses. Agora tenho novos desafios profissionais. Tenho uma parceria na criação e desenvolvimento de negócios, através da rede de contactos internacionais que fui criando, na área do imobiliário. Estamos a criar um consultoria de negócios imobiliários. Entretanto tenho uma marca desportiva, a Padany, que me patrocina, dá-me roupa.
É a primeira vez que se vai lançar por conta própria?
Sim, com mais duas pessoas. Mas continuo a fazer trabalhos de PT.
Qual é o seu maior sonho?
Neste momento é criar e consolidar esta empresa e ter sucesso. Que este sonho seja real e sustentável.
O que faz o seu filho?
Estuda e joga basquetebol, em Dallas, nos EUA.
Vê-o com frequência?
Uma vez por ano.
Alguma vez ele cobrou-lhe não estar mais próximo dele?
Não. Ele entende. Já houve um ano em que esteve a viver comigo, em Portugal. Julgo que foi há 7 anos, estava ele na 4ª classe. Ficou comigo em Elvas.
Ainda vive em Elvas com a sua mãe?
Sim.
E as tatuagens que tem, quando começou a fazê-las?
A primeira tinha 18 anos, foi feita no Bairro Alto. É um símbolo chinês do meu signo. As outras foram mais tarde. Tenho o nome do meu filho em português e em japonês também. Tenho um outro símbolo, de filho. E não tenho mais.
Qual é a sua maior frustração no futebol?
É não ter feito aquela carreira que imaginei no Benfica.
Acha que não fez porquê?
Primeiro por minha culpa. Se calhar tomei decisões erradas.
Que decisões?
Na altura do Campomaiorense era para ter ficado no Benfica, mas fui para Campo Maior. Deram-me a opção de ficar na equipa principal do Benfica. Só que como jogava pouco e eu precisava de jogar sempre... . Eu sabia que o Campomaiorense era uma equipa que me dava estabilidade para jogar. Pensei, vou jogar e depois volto. Mas depois nunca mais. Aquela instabilidade toda do Benfica da altura também não ajudou nada. Não tem nada a ver com o clube agora.
Quem eram os seus ídolos?
O Mozer, o Valdo, o Veloso, Ricardo Gomes, Neno, Silvino. Ainda joguei com eles.
Qual foi o treinador que mais o marcou pela positiva?
Os do futebol jovem do Benfica marcaram-me todos. O Prof. Arnaldo Cunha, João Santos, Nene, Bastos Lopes, o Mário Wilson...Mas também o Nelo Vingada, Carlos Manuel.
Depois do Mundial do Qatar voltou a ser chamado à selecção?
Às Esperanças sim. Fiz qualificação para o europeu.
Quais foram as maiores amizades que fez no futebol?
O Bruno Caires, que é padrinho do meu filho, o Jorge Andrade que é meu "irmão", o Ramires, o Kenedy, o Diogo que jogou no Sporting, o Beto, o João Pinto, o Nuno Gomes, o Dani.
Também é fã de karaoke como o Jorge Andrade?
(risos) Possa. Ele não deixa cantar ninguém não passa o microfone a ninguém (risos)."
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