"«Não terá qualquer credibilidade uma decisão de tribunal que se pronuncie a favor da destituição de uma Direcção e Administração, por causa de processos de rescisão sem sentido e pro chantagens de que, se sairmos, voltam a ter condições psicológicas para ficar ou ser negociados». A frase, lida em mais um (extenso como todos) comunicado do Conselho Directivo, mostra bem o estado a que chegou o Sporting, um clube neste momento preso num mundo à parte: o mundo de Bruno de Carvalho. Um mundo que está acima de tudo, até da própria lei e dos tribunais. Um mundo onde só têm credibilidade as palavras do seu todo-poderoso presidente - mesmo que constantemente desmentidas -, que se assume também como único legislador e juiz. Um mundo em que tudo é tão maravilhoso que todos os dias aparecem notícias, plantadas por invejosos, a dizer que as coisas não são, afinal, tão maravilhosas assim. É assim o mundo de Bruno de Carvalho. Um mundo à parte do qual o Sporting, infelizmente, passou a fazer parte. E do qual não parece encontrar forma de fugir, porque por incrível que pareça há sportinguistas nele dispostos a viver. Estão no seu direito.
Quem não teve dúvidas em dele afastar-se fora, para já, Rui Patrício e Podence. E outros se seguirão, seja através de rescisões unilaterais ou de transferências que servirão para disfarçar as coisas. Até Jorge Jesus parece disposto a abdicar de um ano de contrato (e de alguns milhões de euros) para vê-lo pelas costas. Nada disto parece, contudo, suficiente para fazer pensar quem continua a segurar Bruno de Carvalho que nem vale a pena perguntar aos sócios se continuam a rever-se neste modelo de governação. E quem, mesmo assim, vai dizendo que não ou é inimigo ou é traidor. Simples. Como simples são sempre as coisas nos estados totalitários. Como o mundo de Bruno de Carvalho."
"A Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD informa que avançará com uma queixa-crime por grave difamação e denúncia caluniosa contra a Sporting Clube de Portugal – Futebol, SAD, a propósito de um suposto aliciamento e assédio ilegal feito a jogadores daquele clube e cujo fundamento resulta de um simples comentário de um ex-quadro do SCP num programa desportivo.
A inusitada situação só se pode explicar pelo conjunto de ocorrências que são do conhecimento público, mas não iliba os seus responsáveis pelas levianas e graves difamações."
"O contexto torna os casos da invasão violenta de um treino do Guimarães e do ataque a Alcochete incomparáveis
O Conselho Directivo (CD) e a Comissão Executiva (CE) da SAD do Sporting ou, em menos palavras, Bruno de Carvalho emitiu ontem mais um comunicado em que comparava a invasão violenta de um treino do Vitória de Guimarães por um grupo de adeptos com o ataque à Academia de Alcochete. Tudo para louvar a atitude dos atletas vitorianos que, ao contrário do que aconteceu com alguns jogadores do Sporting, não rescindiram os respectivos contratos. Um nítido caso de mistura de alhos com bugalhos ou de como é possível escrever torto por linhas direitas. Os dois casos, igualmente graves, são incomparáveis, desde logo pelas circunstâncias que os envolvem. No caso do Vitória, não há qualquer notícia de que Júlio Mendes tenha passado as semanas que antecederam os incidentes a enviar mensagens com ralhetes aos jogadores e técnicos, que os tenha censurado de forma pública e notória em entrevistas publicadas na véspera de jogos decisivos ou ainda que tivesse recorrido ao Facebook para os classificar de "meninos mimados", criticando o respectivo profissionalismo e alimentando a animosidade dos adeptos em relação à equipa. Aliás, não consta que Júlio Mendes tenha conta no Facebook e muito menos que, tendo, a use para abordar temas da gestão do clube. Serve esta explicação para concluir o óbvio: os jogadores do Vitória não rescindiram com o clube, da mesma forma como Rui Patrício e Podence não rescindiram com o Sporting; rescindiram com Bruno de Carvalho. Isso mesmo fica claro pelo facto de admitirem voltar atrás caso o presidente se demita. Simplesmente porque, ao contrário do que parece acontecer com o próprio e os restantes membros do CD e da CE, os jogadores do Sporting não confundem o clube com Bruno de Carvalho."
"O Benfica falhou o ‘penta’ e com isso ficou por alcançar um feito inédito na história centenária do clube da Luz. A época passada foi desastrosa e na SAD encarnada o tema foi debatido. Mas apesar das muitas pressões, Vieira soube manter a calma, segurou o treinador, está a trabalhar no reforço da equipa e mantém o rumo, apesar das inúmeras questões que rodeiam o clube.
Para não perder a hegemonia do futebol português, que parecia ter recuperado ao FC Porto, o Benfica está a trabalhar cedo. Porque no futebol como na vida, por vezes é mesmo vital acordar cedo. A SAD encarnada percebeu-o e revela um ataque ao mercado na tentativa de dar mais armas a Rui Vitória na próxima temporada, sendo certo que o clube da Luz ainda perderá algumas das suas jóias. Afinal, o Mundial está aí à porta, ainda haverá muitas movimentações de jogadores e empresários.
Ferreyra e Castillo são dois jogadores com talento, ainda que com comportamentos desportivos diferentes, mas mostram, juntamente com os nomes já contratados durante a época passada, que há vontade de inverter o rumo desportivo. Só com melhores jogadores Rui Vitória poderá fazer melhor. Mas há algo que tem tido, que por exemplo Jesus não se pode gabar: tranquilidade no trabalho. Deve agradecê-lo a Vieira."
"Este não é um texto sobre Bruno de Carvalho. E muito menos sobre Donald Trump. Este não é um texto sobre sportinguistas, nem tão-pouco sobre os americanos. Este é um texto sobre fanáticos, trolls e pessoas doentes que se movem pela demagogia e pelo populismo. Este é um texto que pretende reflectir sobre todos aqueles que usam duas palas nos olhos e que por isso acham que o mundo é monocromático.
No outro dia comentava com um grande amigo, que vive nos Estados Unidos há muitos anos, que permanece um mistério para mim como é que os americanos entregaram a presidência a Donald Trump. Depois de terem eleito por duas vezes Barack Obama - e sendo quase certo que voltariam a reelegê-lo se ele pudesse candidatar-se -, como é que se passa de Obama para Trump? A manipulação eleitoral explica muita coisa, mas não explica tudo. Houve, apesar de tudo, uma votação maciça em Trump e isso aconteceu por alguma razão.
A explicação do meu amigo tem tanto de simples como de assustadora: Trump ressuscitou muito eleitorado abstencionista, aquilo que se acreditava serem franjas da sociedade que há anos que não iam votar e que voltaram a identificar-se com o discurso de um político, depois de décadas a dizer mal de tudo e todos sem meter os pés numa urna de voto. Os racistas, os xenófobos, os nacionalistas envergonhados, todos eles foram votar em Trump porque finalmente apareceu um político que diz o que eles pensam e faz o que eles gostavam de fazer. O mais assustador não é ainda existirem estas pessoas, é percebermos, de repente, que elas existem em número suficiente nos Estados Unidos para eleger um louco para a Casa Branca.
A comunicação social americana fez o resto. Ao contrário do que se possa pensar, não foi só a Fox, a One America News, a Trump TV ou a Infowars que ajudaram Trump a ser eleito. Foram estações de referência como a CNN, ou jornais de nomeada como o The New York Times e o The Washington Post, que decidiram transformar-se numa espécie de oposição política e, com isso, ajudaram Trump a ser eleito. Quando mais de 90% das notícias publicadas pelas televisões americanas sobre Donald Trump são negativas, isso é apenas campanha gratuita para o presidente e combustível para os seus apoiantes.
O futebol é um fenómeno em tudo idêntico à política, mas para pior. E, nos dias que correm, Donald Trump está para alguns americanos como Bruno de Carvalho está para alguns sportinguistas. Sublinho alguns. Também o presidente do Sporting parece ter conseguido ressuscitar uma franja de sportinguistas que viviam escondidos pelos cafés deste país e na escuridão das redes sociais. Adeptos que, apesar de toda a loucura instalada, continuam cegos e alapados a um líder que consegue mobilizar um exército acéfalo, mas comprometido.
No outro dia, no elevador, cruzei-me com um sportinguista enquanto eu, por dever profissional, ouvia um comício de Bruno de Carvalho, disfarçado de conferência de imprensa. "Estão a tentar fazer-lhe a folha, mas ele tem toda a razão", atirou este adepto para meu grande espanto. Ainda tentei argumentar - não sendo eu sportinguista - com factos. "Repare, como é possível o presidente de um clube escrever o que escreveu nas redes sociais sobre a sua própria equipa? Que líder é este que vem publicamente desfazer os seus? E, já agora, como é que o presidente de um clube deixa que que um grupo de vândalos entre pela Academia de Alcochete para agredir a equipa futebol e não retira daí consequências?" Tempo perdido. Dois minutos de conversa (o tempo que o elevador demorou a subir quatro andares) e desisti. É impossível vencer a tese da cabala, da vitimização, do herói que resiste aos poderes instalados.
Essa é uma das principais características dos fanáticos e dos trolls: eles são, por norma, lapas daquelas difíceis de descolar. O que lhes falta em pensamento próprio e informado, sobra-lhes em verborreia sempre em defesa do líder mais populista que lhes apareça pela frente. Confundem combatividade com educação e racionalidade com demagogia. Os fanáticos e os trolls são, normalmente, cobardes que têm nas redes sociais o ecossistema perfeito para sobreviverem.
O futebol, percebi eu há muitos anos, é do domínio da irracionalidade. A todos os níveis. Dos dirigentes aos treinadores, jogadores e adeptos, é como se existisse um chip dentro de cada pessoa que a faz perder todo o discernimento, toda a razoabilidade. O Sporting é o exemplo mais recente, mas o Benfica e o Porto também o são e, neste campeonato da loucura total, ninguém pode atirar pedras.
E aqui, como nos Estados Unidos, a comunicação social não está isenta de culpas. O que se passa no Sporting é notícia e não pode ser ignorado, mesmo que se corra o risco de se estar a alimentar um "monstro". Mas há uma diferença entre informar e ser-se apenas oportunista. Montar debates estéreis, com painéis de comentadores que ora repetem lugares-comuns ora inventam "notícias" em primeira mão, é apenas uma forma básica de tentar conquistar audiências. Dar voz a quem "diz tudo sem papas na língua", ainda que nada diga, porque nada pensa, nem nada sabe, é apenas abdicar de qualquer critério editorial e só serve para alimentar um clima de ódio. E no caso de Bruno de Carvalho, como no caso de Donald Trump, não são apenas os tablóides a entrar neste terreno lamacento, são também, muitas vezes, os órgãos de comunicação social de referência. Fazê-lo, desta forma, é ajudar a alimentar um "exército" de adeptos que são atiçados a cada debate, a cada directo à porta do estádio, a cada editorial disfarçado de notícia.
Quero acreditar, ainda assim, que a maioria dos adeptos do Sporting, ou de outro clube qualquer, apenas se dá ao luxo de perder a racionalidade na emoção de um jogo de futebol. Mesmo que isso implique embirrar com o árbitro, atirar um impropério ou outro ao adversário ou ficar triste com a sua própria equipa. Porque os outros, os fanáticos, os trolls e os doentes, estão todos a mais no futebol. E, já agora, na política."
"Grande foi a demonstração de capacidade da Selecção, superando claramente uma Bélgica fortíssima, a atuar em casa e a não lograr o que raramente falha: golos. Fernando Santos parece ter acertado no quarteto defensivo titular – não por acaso, o da final do Europeu – que se exibiu a alto nível, permanecendo, todavia, um velho problema. É que com a carga de jogos do Mundial vai ser preciso rodar e as quatro alternativas não estão no mesmo patamar – por experiência a mais ou experiência a menos. Recordo o erro da utilização consecutiva, há dois anos, do já veteraníssimo Ricardo Carvalho, nos três desafios iniciais do Europeu, disputados em apenas nove dias. À terceira partida, contra a Hungria, sofremos três golos, o central, de 38 anos, "rebentou" e assim fez a sua despedida da Selecção – nunca mais jogou.
Mas para mim o melhor do encontro de Bruxelas foi o último quarto de hora da primeira parte, com Gelson, Guedes e Bernardo à solta e a darem uma noção do que poderá ser a Selecção do futuro. Houvesse um "matador" de talento aproximado e ninguém teria pena de nós. Como não há, ou muito me engano – talvez André Silva esteja a um passo de nos surpreender – ou voltaremos, dentro de dias, às lamúrias habituais pela falta de um "9"...
Depois do "assédio" a Marco Silva, no final de 2017, que conduziria à baixa de rendimento do Watford e ao despedimento do então seu treinador, em Janeiro último, o Everton contratou finalmente o ex-técnico do Sporting. Conheci-o na redacção do Record, quando viu connosco vários jogos da Selecção, deixando sinais de determinação e um rasto de modéstia e simpatia. Espero, por isso, que alcance em Liverpool a estabilidade que lhe recusaram em Alvalade – foi a primeira vítima do que não se sonhava ser o desvario – mas igualmente no Olympiacos, onde não cumpriu a segunda época do contrato, no Hull City, que não conseguiu manter na divisão principal, e no Watford. Se a competência de Marco é inegável, o tempo agora é o da confirmação: tem de fechar normalmente um ciclo.
Devemos olhar para a crise do Sporting, relativizando o problema dentro do espaço reservado às necessidades de tratamento psiquiátrico: é que vivemos num pais que entrou em transe com os incêndios do ano passado mas onde mais de dois mil (!) proprietários foram agora alvo de contraordenações por não limparem os seus terrenos. Ou seja, preferem perder os bens, e até morrer, a cortar as árvores encostadas às casas, a afastar as pilhas de lenha e a retirar os montes de tralha. Sugeria até a Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros, que nos tempos livres entre as asneiras que protagoniza, com os outros artistas, em Alvalade, perguntasse ao Governo – e para isso ele tem o jeito que falta a quem devia – se no que toca às propriedades do Estado, às matas das grandes empresas e às beiras das estradas o trabalho está feito. Desconfio que não. Por isso, tenhamos calma e integremos o manicómio de Alvalade na vasta rede nacional de cuidados de saúde mental. Até à hora do colete de forças, há sempre esperança."
Obrigação cumprida, e agora é jogar para o título na última jornada em Alcochete. Aquele empate em Santarém impediu os festejos esta manhã...!!! O empate chega, mas temos que jogar para ganhar, como sempre...
O 1-0 ao intervalo foi curto... mas na 2.ª parte, as bolas começaram a entrar!
Deu novamente para rodar o plantel... até porque na próxima jornada vamos a Alcochete. Não será m jogo decisivo, mas uma vitória será um passo muito importante...
Mais uma entrada horrível em jogo... Ainda recuperámos, estivemos a 3 pontos, mas no 4.º período voltámos a 'bloquear'!!!
Continuamos a perder a luta dos ressaltos! Hoje, atingimos números absurdos: 51/30 !!! Assim não dá...
Vamos ter a negra na Luz, na Quarta. Como se viu nos primeiros dois jogos, o factor casa, pouco importa... portanto, é melhor pensar em ter atitude defensiva forte!
Com a desilusão da semana passada, nem reparei que jogámos ontem!!!!
Vitória normal... Com a derrota dos Corruptos, vamos provavelmente terminar em segundo lugar no campeonato!
Independentemente de tudo o resto, os empates com a Oliveirense, o Valongo e os Corruptos foram todos consequência de várias decisões apitadeiras surreais... seria suficiente para sermos Campeões!!!
"Deixou o vício do álcool, está a preparar uma mudança definitiva para Lisboa e pelo caminho ainda recorda os melhores momentos da carreira. Leia a entrevista do sueco goleador à 4MEN.
Mats, o temível sueco que era alto e nada tosco, marcou uma geração de benfiquistas. Nem todos se lembrarão dos seus feitos durante os cinco anos em que representou o Benfica, entre 1987 e 1992. Marcou 87 golos em 134 jogos – só em 89/90 fez 40 golos –, ganhou dois campeonatos nacionais, uma Supertaça e esteve presente em duas finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus perdidas frente ao PSV Eindhoven e ao AC Milan de Rijkaard, Gullit e Van Basten.
Não foram apenas os golos que deixaram o sueco na memória de todos os adeptos portugueses, benfiquistas, portistas, sportinguistas e de muitos outros clubes. A humildade e boa disposição eram contagiantes e são qualidades que se mantiveram, mesmo depois dos últimos anos atribulados do antigo jogador.
No final de 2017 lançou a sua auto-biografia – “Hell and Back” (Ir ao Inferno e voltar, em tradução livre) – onde revelou os problemas com o álcool que enfrentou depois de abandonar o futebol profissional. A partir de 1994, a vida desmoronou-se: perdeu tudo, afastou-se da família e chegou a dormir nas instalações do Högaborg, clube onde trabalhava. E quem não se recorda do célebre regresso à luz para uma partida amigável, onde Mats entrou a cambalear em campo?
“Aquele jogo contra Zidane… é terrível pensar nisso. Foi demasiado. Estava bêbedo no relvado e a primeira coisa que fiz quando entrei foi cair. Foi uma viagem de um fim de semana e eu comecei a beber logo no avião. Não estava muito bêbedo, só um pouco. Lembro-me de cair quando estava a entrar no autocarro que nos levava do avião ao terminal. Fiz uma grande ferida na perna e demorou muito a cicatrizar”, revelou no livro.
A 4MEN ligou directamente para a Suécia para falar com Magnusson que é hoje um homem diferente. Confessa que está reabilitado e que está a planear mudar-se definitivamente para Lisboa. Pelo caminho, recorda alguns dos momentos mais importantes da carreira que aconteceram precisamente no Benfica.
O que ainda guarda consigo dos tempos do Benfica?
Foram cinco anos maravilhosos, tive muito orgulho em representar o Benfica e posso dizer que, hoje em dia, ainda sou 100 por cento benfiquista. Nem imagina as saudades que tenho de Portugal e de viver em Cascais. Tenho o sonho de voltar a Portugal para viver ainda este ano.
Os adeptos ainda se lembram de si?
Uau, é incrível a festa que fazem. Sou muito bem tratado por todos em Portugal e não só por benfiquistas. Os sportinguistas e os portistas que encontro dizem-me: “Olha, o Magnusson. Gostamos muito de ti.”
Porque é que os portugueses gostam tanto de si?
Os benfiquistas porque marquei muitos golos (risos). Os sportinguistas e os portistas porque reconhecem que sempre fui muito humilde, nunca me neguei a falar com as pessoas. Por exemplo no antigo estádio da Luz eu nunca punha o carro na garagem e no fim dos jogos e dos treinos ficava sempre a falar com os adeptos. Tinha uma postura humilde. Nunca me queixava quando não jogava e nunca falava mal de ninguém. Lembro-me que uma vez o Schwarz me disse: “Mats, todos os benfiquistas te amam, é incrível” e eu respondi-lhe que “não são só os benfiquistas, os portistas e os sportinguistas também me amam”. E eu posso dizer que também amo os portugueses.
Curiosamente, marcou vários golos ao Sporting, mas nunca conseguiu fazê-lo frente ao FC Porto. Era difícil ultrapassar os defesas portistas?
É verdade. Não me lembro dos nomes deles, mas os defesas do FC Porto eram muito duros. Gosto dos portistas mas não gosto do FC Porto por causa disso (risos). Por outro lado, adoro o Sporting, porque lhes marquei vários golos.
Publicou há poucos meses a sua autobiografia. Certamente que um ou vários capítulos importantes são dedicados à passagem pelo Benfica?
Claro, algumas das partes mais importantes são sobre o Benfica. Os suecos não tinham a noção do nome que eu tenho em Portugal e ficaram espantados. Agora estou a trabalhar na forma de traduzir a autobiografia para português.
Ainda se lembra do primeiro dia no Benfica?
Lembro-me que segui do aeroporto de Lisboa para Cascais, onde tinha à minha espera o Skovdhal [Ebbe Skovdhal, treinador do Benfica na altura]. Ele deu-me as boas vindas e explicou-me o que pretendia de mim. A minha estreia foi na Luz algumas semanas depois e foi horrível. Perdemos 0-1 com o Marítimo. O Skovdhal mal sabia que umas semanas depois ia ser despedido. Os meus primeiros dias foram de adaptação a uma nova realidade e era o Carlos Manuel quem me dava boleia para os treinos. Lembro-me que o primeiro jogador que vi no balneário foi o Shéu. Fiquei espantado quando ele me cumprimentou porque só tinha quatro dedos numa mão. A segunda pessoa que cumprimentei foi o Álvaro [Magalhães], que tinha seis dedos. Nunca tinha visto ninguém que não tivesse os cinco dedos numa mão e chegado ao Benfica vi logo duas. Percebi imediatamente que a minha experiência no Benfica iria ser incrível (risos).
Que outras memórias tem desses tempos?
Posso contar-lhe o que o Mozer me fez, ele era terrível. Estava sempre em cima de mim nos treinos, tinha entradas muito duras, como se fosse um adversário num jogo. Eu nem dizia nada, tinha medo dele. Um ou dois meses depois de ter chegado ele disse-me “passaste no teste, bem-vindo ao Benfica”.
Qual foi o treinador que mais o marcou no Benfica? O seu compatriota Eriksson?
Não, não, foi o Toni. Bom, primeiro que tudo, não me posso esquecer do Skovdhal, pois foi ele que me foi buscar e se não fosse ele não teria escrito a minha história no Benfica. Mas sem dúvida que foi com o Toni que joguei melhor, ele ensinou-me muito e para além de um grande treinador era uma excelente pessoa. Fora do Benfica, o melhor treinador que tive foi o Roy Hodgson, no Malmö.
Como era jogar no antigo Estádio da Luz perante 120 mil pessoas?
Era incrível. Naquele estádio sentia-se a mística do Benfica e quando estava cheio era muito difícil alguma equipa parar-nos, lembro-me do ambiente das noites grandes europeias, por exemplo nas duas meias finais da Taça dos Campeões, com o Steaua Bucareste e com o Marselha. Para quem não é do Benfica não é fácil de explicar essa mística. É como as pessoas que não têm filhos, só vão perceber como é essa sensação depois de os terem.
Jogou duas finais da antiga Taça dos Clubes Campeões Europeus, que terminaram com duas derrotas, primeiro diante do PSV Eindhoven, em 1987/88 e depois com o AC Milan, em 1989/90. Que recordações tem dessas partidas?
Lembro-me principalmente da final com o PSV. Foi incrível chegar a esse jogo logo no meu ano de estreia no Benfica. E, claro, recordo-me do penálti falhado pelo Veloso, que acabou por ditar a nossa derrota. Ainda hoje quando falamos digo-lhe que não percebo como é que ele marcou tão mal e ele fica furioso comigo, não gosta nada de recordar esse lance. Quanto à final com o AC Milan, foi uma pena não termos ganho, mas eles tinham uma equipa que assustava, com os três holandeses, o Rijkaard, o Gullit e o Van Basten. Nessa altura eu era um dos melhores pontas de lança da Europa e foi pena não ter marcado na final, mas também tive pela frente o Costacurta e o Baresi, uma das melhores duplas de centrais da história do futebol.
No percurso até à final da Taça dos Campeões de 1990/91 houve o célebre golo com a mão do Vata, no jogo das meias finais com o Marselha, na Luz. Viu logo que tinha sido com a mão?
Eu estava ao primeiro poste, tapado por um defesa. Mas o Vata não admitia, disse-nos que tinha sido tudo legal. Como naquela altura não havia tantas câmaras, conseguiu enganar algumas pessoas, mas depois todos vimos que foi com a mão (risos).
Gostaria de voltar ao Benfica?
Penso muito nisso, aliás tenho muitos amigos no Benfica, mas não está nada certo. No entanto, posso dizer que tenho a porta aberta no clube.
Veio festejar o tetra campeonato a Lisboa?
Foi lindo, principalmente a parte em que fui para o Marquês de Pombal festejar com todos os adeptos. Foi uma loucura, com milhares de pessoas nas ruas. Lisboa nessa noite estava vermelha. Também gostei muito de assistir ao jogo da consagração no Estádio da Luz e de estar perto dos jogadores.
O que acha de Jonas, o grande ponta de lança deste Benfica?
É um jogador magnífico, talvez melhor ponta de lança do que eu fui. É muito inteligente e movimenta-se bem na frente, fazendo bons passes para os colegas, isto além de marcar muitos golos, como se pede a um ponta de lança.
Deixou o futebol e foi para a Suécia. O que é que faz actualmente?
Trabalho numa empresa que faz trabalhos de ventilação. Acho que vou continuar nesse trabalho até ir para Portugal.
E entretanto, foi pai aos 49 anos.
Sim, algumas pessoas quando me vêem com o meu filho Waldenice, que tem 5 anos, pensam que eu sou o avô. Foi um milagre, porque os médicos tinham dito à minha mulher que ela não podia ter filhos. Estou numa fase muito boa da minha vida.
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"Vivemos a turbulência singular do desporto português. Tenta-se fazer justiça fora dos tribunais.
1. Terminou um singular mês de Maio. Teve cinco sexta-feiras, cinco sábados e cinco domingos. O que só acontece a cada 823 anos. Para os chineses, cada vez mais dominadores do Mundo e controladores de parte relevante de Portugal - incluindo o nosso futebol! - é sinal que o bolso está cheio de dinheiro! O deles sim... Agora abraçamos um Junho com um Mundial que nos atrai, novos titulares dos direitos televisivos em Portugal dos jogos da Liga dos Campeões e da Liga espanhola, contínuas notícias de contratações de novos jogadores e de aquisições surpreendentes, alguns feriados que nos motivam a um necessário descanso, certas estórias dolorosas que já cansam e a disputa acerca da ocupação do poder no Sporting que ajuda a entender a tridimensionalidade desse poder e que implica, sempre, autoridade, influência e... poder! E, aqui, combinam-se o económico e o financeiro e, igualmente, o do direito interno - estatutos e regulamentos - e o direito do Estado e, aqui, com os seus tempos e as suas ponderações, as suas pressões e as suas impressões, as suas provas directas e, também, as indirectas. E sabendo que as novas guerras e as batalhas utilizam múltiplos meios e, nestes, estão necessariamente a informação e a contrainformação. O que implica conhecer estas novas realidades e saber contrariar - ou minimizar - os seus efeitos, os seus contágios ou os seus constrangimentos. O que implica mentes limpas e corpos sãos! E, se necessário, a libertação de mentes e corpos que perturbam e condicionam, magoam ou geram más companhias! Mesmo que alguns julguem que são, por si sós, boas... venturas!!!
2. Vivemos a preparação derradeira para o Mundial que se aproxima e teremos já amanhã a nossa selecção completa com a chegada do capitão Cristiano Ronaldo que levará, estou certo, acrescidos milhares na próxima quinta-feira ao Estádio da Luz para o Portugal-Argélia. Aproxima-se a partida para a Rússia. E, aqui, evidenciando o marketing federativo, as formas de atracção que suscita e, também, os mecanismos de agregação que se multiplicam ao redor da equipa liderada por Fernando Santos. Os jogos de preparação sucedem-se. As trinta e duas selecções aprumam-se sabendo que o 'Telstar' - a bola deste campeonato - é a primeira na história dos Mundiais que tem um chip que permite uma capacidade para interagir verdadeiramente inovadora. E coma consciência, também, que a Islândia e o Panamá participam pela primeira vez num Campeonato do Mundo de futebol. E, assim, se vai construindo a história do Mundial da Rússia. E o seu caminho! E com milhares a caminho da Rússia.
3. São trinta e duas as selecções participantes. Em 1982, no meu primeiro Mundial vivido, vibrado e sentido nas bancadas - e de Espanha - o número de selecções passou de 16 para 24! E também nesse Mundial, como ocorre neste, não participou a Holanda. E participaram, pela primeira vez, a Argélia, Camarões, Kuwait e Nova Zelândia. E marcou presença pela primeira vez Diego Maradona. No jogo inaugural a Argentina perdeu face à Bélgica no Nou Camp e poucos meses depois Maradona era apresentado como reforço do Barcelona! Em 1998, o Mundial de França - também vivido, vibrado e sentido - o número de selecções passou de 24 para 32. E nesse Mundial participaram pela primeira vez a Jamaica, a África do Sul e o Japão. Japão que a par da Coreia do Sul organizaria, em conjunto, e pela primeira e única vez, um Mundial de futebol em 2002. Que foi, aliás, o último Mundial em que o campeão em título participou por direito próprio. A partir de então, como acontece agora com a Rússia, só quem organiza é que tem o direito de participar! E nesse Mundial conjunto participaram, pela primeira vez, a China, Equador, Eslovénia e Senegal. Esta última também presente na Rússia no Grupo H com Polónia, Japão e Colômbia. E a Colômbia, recordo, era o país escolhido para organizar o Mundial de 1986 - em que Portugal participou e com deliciosas estórias - mas em razão de graves problemas económicos e de uma grande instabilidade social no Congresso da FIFA de 1983, que decorreu em Estocolmo, a organização foi retirada à Colômbia e confiada ao México. Foi este o Mundial da mão de Deus de Maradona. Mão famosa e determinante nos quartos de final contra Inglaterra e com a recordação que apenas quatro anos antes a mesma Argentina havia perdido a denominada guerra das Malvinas face à Inglaterra! Foi um ajuste de contas e de resultado!
4. Os Mundiais estão cheios de episódios. E de factos, actos e dados. O Brasil participou em todas as edições. Nas vinte e uma. A equipa com mais empates, 21 é a Itália que para dor das receitas televisivas também não participa neste Mundial. No Mundial da África do Sul a Espanha ergueu o troféu e marcou, recordo, apenas, oito golos. E nesse Mundial Portugal goleou, na bonita Cidade do Cabo - também jogo vivido, vibrado e sentido nas bancadas! - a Coreia do Norte por sete a zero! Mas um dos momentos mais peculiares de todos os Mundiais ocorreu no Mundial de Espanha e na parte final do jogo entre França e o Kuwait. Aos oitenta minutos a França, através de Giresse, marca o quarto golo (4-1). Nesse momento o Presidente da respectiva Federação de Futebol - o irmão do Chefe de Estado - entrou no relvado, com a sua túnica majestosa, protestou contra o árbitro russo Stupar dizendo que os seus jogadores se tinham alheado do jogo em razão de um apito que havia soado (das bancadas...). E gritava que se o golo não fosse anulado o Kuwait abandonaria o relvado. Depois de intensas discussões - e talvez em razão do resultado... - o golo foi anulado. Mas fica a invasão, a discussão e a anulação do golo de Giresse. E assim se constroem a história e as estórias dos Mundiais de futebol. Por mim, que já vibrei ao vivo em alguns, anseio que na final de Moscovo - que será o jogo 900 na história dos Mundiais - se volte a escutar, no início. 'A Portuguesa'. O sorteio, tal como no Europeu de França, comanda a vida. A nossa vida!
5. No mais vivemos a turbulência singular do desporto português. Tenta-se fazer justiça fora dos tribunais. Com muitos meios e outros anseios! Recordo que um dos milagres mais célebres de Santo António é aquele em que salvou o Pai da forca. Conta-se que seu Pai ia ser executado junto do cadáver da suposta vítima. Santo António, que pregava em Pádua, apareceu junto do Pai e perguntou ao morto: «Morto, quem te matou?» E o morto indicou o verdadeiro criminoso. A tradição, como nos ensinava o saudoso Professor Adelino de Palma Carlos, «dá porventura mais importância ao facto de Santo António ter salvo o pai da forca que ao do morto ter falado»! E há tantos mortos a falar por aí...!!! Quase em vésperas do nosso Santo António!!! Faltam fez dias para o meu Dia e onze para o arranque do Mundial da Rússia! Tudo a caminho! A caminho da Rússia!"
"A semana que hoje acaba ficou marcada por vários acontecimentos relevantes, sendo o mais recente o empate de Portugal na Bélgica, em jogo de preparação para o Mundial. Verificou-se uma muito melhor afinação na equipa de Fernando Santos, com alguns jogadores a exibirem-se mais perto daquilo que valem. Bruxelas devolveu o good feeling à turma das quinas, que mantém estatuto, não entre os favoritos, mas na segunda linha, no lote prestigiado dos candidatos.
No topo da actualidade esteve, a meio da semana, o caso do Marítimo-Benfica de 2016/17, que está entregue à PJ e ao CD da FPF. Algo mais que se diga não passará de especulação.
A parte de leão da atenção mediática foi para as rescisões de Rui Patrício e Podence, e para o que ainda está para vir, mantendo-se o Sporting e Bruno de Carvalho no olho do furacão.
Mas a questão mais significativa, por abstrusa, prendeu-se com o despedimento da Mesa da Assembleia Geral (MAG) do Sporting por parte do Conselho Directivo (CD), seguindo-se a nomeação de duas comissões para gerir a MAG e o Conselho Fiscal dos leões. Este passo para o abismo, de Bruno de Carvalho e seus seguidores, foi dado à revelia da lei, dos estatutos do Sporting e de qualquer ideia, por mais vaga que seja, de respeito pelas instituições. O desvario foi tão grande que não houve qualquer preocupação de enquadramento legal, como se de repente, ao CD do Sporting, fossem dados apoderes absolutistas. Provavelmente, só os tribunais colocarão o Sporting no trilho da legalidade. E lá se chegará, inevitavelmente. O certo é que a irresponsabilidade de uns quantos está a colocar em causa o futuro do clube de Alvalade."
"Ao chegar à página 34 da carta de rescisão de Rui Patrício deu-me a sensação de ter chegado ao fim de um tratado de psiquiatria (e não pelo Rui Patrício, claro). Talvez por isso me tenha saltado à ideia o Aksenty Ivánovitch de O Diário de um Louco do Gogol - que por lá escreveu (e foi do menos esquizofrénico que por lá escreveu):
- Ultimamente, vejo e oiço coisas que homem algum jamais viu e ouviu...
Afiador de penas em envergonhada pobreza, sonha com o pedestal que não lhe chega - e a única coisa que brilha em si é a opulência e delirante vertigem, atirando ao diário angústias, devaneios e descarrilhados pensamentos (assim):
- Tudo isto é ambição e provém do facto de haver debaixo da úvula uma vesícula e, dentro dela, um vermezinho do tamanho de um alfinete. Tudo isto é obra de um barbeiro que mora da Rua da Ervilha. Não lhe sei o nome, mas é sabido que ele, com uma parteira, procuram espalhar o maometismo por toda a parte...
As datas do diário mostram-lhe a mente estilhaçada: aparece o mês de Marturbo e dia 43 de Abril de 2000 (estando-se no século XVIII) - e é nesse dia 43 de Abril de 2000 que ele se vê Fernando VIII, o rei que faltava a Espanha. Levam-no para o manicómio e ele pensa que o levam para Espanha. Maltratam-no e ele acha que era o que não era:
- Eu, como rei, fiquei sozinho. E o chanceler, para meu espanto, golpeou-me com uma vara e enxotou-me para o meu quarto. É esta a grande força dos costumes tradicionais em Espanha!
Raspam-lhe a cabeça, sobre ela derramam-lhe, atrozes, baldes de águia fria - e, na última página, percebe que a sua Espanha é, afinal, o seu manicómio.
A cada dia que passa vejo o fantasma (ou o espírito) de Aksenty a pairar sobre o Sporting (e não só). Mas não: esse fantasma (ou esse espírito) não paira apenas sobre o Sporting (ou um homem só no Sporting) - e bem mais perturbador é o ver-se tanta gente sem perceber que a sua Espanha é o seu manicómio..."
"Imagine-se a que estado chegaram as coisas para um jogador como Patrício arriscar tudo com uma decisão tão radical.
Não vale a pena perder muito tempo a falar sobre a razão, ou falta dela, para a rescisão por justa causa apresentada por Rui Patrício. Não percebo o suficiente de legislação laboral e limito-me, portanto, a acreditar na análise dos muitos especialistas entretanto ouvidos e que deixam entender estar negras as coisas para o Sporting e a esperar pela decisão que há de chegar dos tribunais.
Também não vale a pena perder muito tempo a falar de Bruno de Carvalho ou da forma como não parece minimamente preocupado por estar a contribuir para a destruição daquele que é o mais valioso activo - não confundir com o mais importante, esses são os adeptos, uma confusão em que o presidente leonino caiu há muito... - de qualquer SAD que tenha uma equipa de futebol, arrastando o Sporting (por mais títulos que ganhe nas modalidades) para um local muito perigoso.
Hoje quero apenas dizer que Rui Patrício não merecia deixar o Sporting assim. Um jogador que sempre foi um exemplo de profissionalismo, entrega e dedicação estava destinado a sair pela porta grande, de preferência com uma homenagem digna daqueles que sempre (pelo menos quase todos...) o aplaudiram, rendidos às qualidades daquele que é, sem dúvida, um dos melhores do mundo na sua posição. Um jogador que sempre fez questão de destacar o seu sportinguismo. Um símbolo do Sporting.
A decisão do capitão leonino foi mais um motivo de divisão entre os sportinguistas, já de si profundamente divididos. Os que criticam Bruno de Carvalho percebem a posição do guarda-redes, os que o continuam a defender como se não houvesse para o Sporting futuro para lá do actual presidente não demoraram a despejar toda a sua fúria - em Alvalade não parece haver já lugar para o meio-termo - sobre o guarda-redes.
À distância, limito-me a tentar adivinhar o ponto a que chegou o Sporting, sobretudo o seu futebol profissional, para um jogador como Rui Patrício, decerto ciente das consequências, assumir posição tão radical. É, parece-me evidente, porque não dava para mais. Deu para jogar a final da Taça, deu para tentar uma saída limpa, através de uma transferência que disfarçasse o desconforto há muito evidente entre as partes. Esgotadas todas as hipóteses, foi como tinha de ser. É triste. Em especial para Patrício.
A Federação Portuguesa de Râguebi não esteve com meias medidas e decidiu despromover GD Direito e Agronomia na sequência dos incidentes que interromperam o encontro entre as duas equipas e lançaram um manto de vergonha sobre a modalidade. De pronto se levantaram vozes contra a (in)justiça de uma decisão que consideram demasiado dura, ainda mais tratando-se de dois dos principais clubes de râguebi português. A punição é exagerada? Talvez. Mas numa altura em que a luta contra a violência no desporto deve estar no topo das prioridades há que assumir (a sério, sem dar uma no cravo e outra na ferradura) que é hora de mais acção e menos conversa. E sim, por serem dois dos principais clubes do râguebi português, GD Direito e Agronomia devem dar o exemplo - e, se for caso disso, servir de exemplo. Porque serem grandes não é, por si só, argumento para não poderem ser despromovidos. Deve ser assim no râguebi, no futebol, no andebol, no hóquei em patins... e por aí fora. Estamos de acordo, certo?
Mesmo que porventura exagerada (os recursos que por certo os dois clubes apresentarão determinarão se sim ou não), a decisão da Federação de Râguebi deve até servir de exemplo às de outras modalidades: não pode haver medo de clubes que, pela sua grandeza, se julgam acima da lei. Os regulamentos são para cumprir. Doa a quem doer. Claro que fica mais fácil punir a sério quando não são os próprios clubes a determinarem as regras do jogo. Mas essa já é outra conversa..."
"Entraram em vigor no passado 1 de Junho as alterações ao Regulamento do Estatuto e Transferência (RSTP) dos jogadores da FIFA, esperadas desde o acordo alcançado entre FIFpro e aquele entidade, conforme oportunamente demos conta.
As alterações em causa dizem respeito, essencialmente, à relação entre os jogadores profissionais e os clubes e à manutenção da estabilidade contratual. Além disso, uma das alterações visa reforçar ainda mais a eficiência do sistema de resolução de litígios existente.
O artigo 14 do Regulamento foi alterado para incluir um novo parágrafo relativo a situações abusivas em que uma parte jogador ou clube) força a outra a rescindir ou alterar os termos do contrato. Além disso, um novo artigo - 14 bis - foi introduzido a fim de abordar a circunstância especifica de rescisão de um contrato devido a salários em atraso.
O artigo 18 passa a proibir os chamados 'grace periods', a menos que explicitamente permitido ao abrigo de um acordo colectivo.
Uma mudança importante é a do artigo 17 do Regulamento, relativo ao cálculo da compensação por resolução do contrato sem justa causa. O primeiro parágrafo deste norma específica agora mais detalhadamente o método de cálculo da compensação devida ao jogador, sendo feita uma distinção entre os jogadores que ficaram desempregados após o fim do contrato sem justa causa e aqueles que encontraram novo emprego.
Foi ainda aditado um novo artigo 24 bis ao Regulamento que diz respeito ao cumprimento de decisões que envolvam o pagamento de determinadas quantias. Passa a ser possível aplicar sanções aos clubes que incumprirem com os seus deveres neste âmbito, tais como a proibição de registo de novos jogadores."
"Na quinta-feira, dei uma grande entrevista para o diário espanhol ‘El País’ que sairá antes do Campeonato do Mundo da Rússia. A maioria das perguntas, como não podia deixar de ser, foram sobre o que poderá acontecer no Mundial, especialmente sobre o primeiro jogo do Grupo B, que será entre Espanha e Portugal.
Houve uma questão que me pôs a pensar vários segundos. "O Cristiano Ronaldo disse depois do Mundial do Brasil que Portugal é um país pequeno, com apenas 10 milhões de habitantes e que assim seria sempre complicado encontrar jogadores de top. Realçou ainda que conquistar um Europeu ou um Mundial seria sempre um objectivo difícil de alcançar. Mas que, ainda assim, não perdia a confiança de que um título seriam sempre capazes de ganhar. Isto aconteceu dois anos depois, com a conquista do Europeu de França, em 2016.O que aconteceu nestes últimos quatro anos para que, na lista de 23 jogadores que o vosso seleccionador convocou para o Mundial da Rússia, ficassem de fora jogadores portugueses que actuam em grandes equipas e autênticos tubarões da Europa, como Barcelona (casos de Nélson Semedo e André Gomes) ou Inter Milão (caso de João Cancelo), entre outros clubes e jogadores? No teu tempo, quando jogavas no estrangeiro, e no tempo dos teus compatriotas que saíram de Portugal a seguir a ti, que foram muitos, nunca podia acontecer. Eram sempre convocados para representarem a Selecção, a não ser que tivessem uma lesão gravíssima ou estivessem com gesso. O que mudou para que Fernando Santos se dê o luxo de deixar craques de grandes clubes europeus fora da lista dos 23?"
Era uma pergunta interessante de um jornalista espanhol que me fez pensar antes de responder em como estávamos há quatro anos. E recordei que, durante vários anos, o João Moutinho, Raul Meireles e Miguel Veloso foram o motor da Selecção e deram-nos muitas alegrias. No Mundial do Brasil os três estiveram irreconhecíveis, mas tinham de jogar já que a concorrência era praticamente nula. O Rúben Amorim era um bom suplente e o jovem William Carvalho tinha feito uma época espectacular, mas estava ainda um pouco verde para assumir a titularidade da equipa das quinas. O motor da Selecção naquele Mundial podia gripar e gripou mesmo porque não tínhamos mais soluções.
Dois anos depois, no Europeu de França, as soluções no meio-campo, para dar um exemplo, tinham mudado incrivelmente para melhor. Os convocados para aquela posição foram: João Moutinho, Adrien, João Mário, André Gomes, Danilo, William e Renato Sanches. E a história foi outra. Portugal foi campeão da Europa e, dois anos depois, temos jovens craques que podem fazer a diferença em qualquer jogo, como por exemplo Gonçalo Guedes, Gelson, Bernardo Silva, Bruno Fernandes ou André Silva. Por isso, a minha resposta só podia ser esta:
As grandes potências têm muito mais habitantes do que Portugal. A Alemanha tem 80 milhões de habitantes, o Brasil perto de 200 milhões, a Itália tem 60 milhões, Espanha está perto dos 50 milhões, Inglaterra tem 55 milhões, França tem quase 70 milhões. Mas em Portugal, apesar de termos apenas 10 milhões, somos muito melhores do que todos os outros a formar craques. A chave e o pequeno milagre esta aí. Pode haver ciclos em que não saíram tantos como desejávamos, mas nós portugueses somos os melhores na formação.
Esta foi a minha resposta. E, já agora, parabéns a todos os técnicos e olheiros que trabalham na formação de todos os clubes em Portugal. Graças a eles, hoje sonho em ser campeão do Mundo na Rússia.
Caldeirada da semana - Sexta-feira negra
Na sexta-feira, dois jogadores do Sporting, Rui Patrício e Podence, rescindiram os seus contratos com os leões. No mesmo dia, o Parlamento espanhol aprovou a moção de censura apresentada pelo PSOE a Mariano Rajoy, com 180 votos a favor, 169 contra e uma abstenção. Depois de seis anos à frente dos destinos do país, o líder do Partido Popular vai deixar o lugar de presidente do Governo. Mais que uma caldeirada foi uma sexta-feira negra e de autêntico pesadelo para todos os sportinguistas e espanhóis.
Nós lá fora - A proeza do Marco Silva
Depois de treinar o Hull City e o Watford, Marco Silva assinou esta semana um contrato por três anos com o Everton. Muito poucos treinadores no planeta conseguiram um feito assim. Terem no seu currículo que treinaram três equipas num dos melhores campeonatos do Mundo, como é a Premier League, está ao alcance de muitos poucos. O Marco, como português, também fez história, já que foi o primeiro luso que conseguiu esta proeza. Parabéns míster, e muita força para esta nova aventura.
Álbum de recordações - Parabéns, Bicho!
Desde que cheguei a Espanha, em 1987, para representar o Atlético Madrid, que ganhei mania ao eterno rival dos colchoneros, que é o Real Madrid, e quero sempre que os merengues percam. Como bom compatriota, sempre quis que os jogadores portugueses que vestiram a camisola branca fizessem grandes exibições, mas que a sua equipa nunca ganhasse. No caso do CR7 sempre desejei que ele marcasse em todos os jogos 5 golos e que o Real perdesse 5-6. Na semana passada, na final da Champions entre o Liverpool e os merengues era isto que queria, mas não foi assim e ganharam o jogo. Como já me passou a azia, só tenho de dizer: parabéns Cristiano pela tua quinta Champions League. Impressionante, Bicho!"
"1. A Selecção Nacional mostrou ontem na Bélgica que está no bom caminho. Ainda sem o incontornável Cristiano Ronaldo, Portugal jogou taco-a-taco com a Bélgica, que tem a melhor geração de jogadores das últimas décadas e é uma das candidatas à vitória no Mundial, mesmo não sendo a principal. O ataque revelou mobilidade, o meio-campo coesão e a defesa, finalmente, não abanou. A equipa das quinas passou o teste com distinção e vai apresentar-se na Rússia como campeã da Europa e com a confiança reforçada.
Rui Patrício e o guião
de um filme de terror
2. A carta de Rui Patrício, que está na base do pedido de rescisão unilateral de contrato, é uma espécie de visita guiada ao que se passou no futebol do Sporting desde o início do ano civil. Parece o guião de um filme de terror, que, no fundo, confirma muito do que a comunicação social noticiou nos últimos meses. Quem não é fanático ou fundamentalista, e consegue analisar tudo o que se passou com a devida distância, percebe que há apenas duas vítimas nesta história: o capitão de equipa e, claro está, o Sporting Clube de Portugal.
Bruno de Carvalho
sem arrependimento
3. Por mais pressões e ultimatos que lhe façam, e o das cartas de rescisão poderá mesmo ser o mais forte de todos, Bruno de Carvalho não vai deixar a presidência do Sporting. De forma alguma! Não se vislumbra no actual presidente dos leões qualquer ponta de arrependimento. A conferência de imprensa de anteontem e a sessão de ‘esclarecimento’ aos sócios em Santa Maria da Feira desfizeram as résteas de dúvidas que poderiam existir. Bruno de Carvalho tem, afinal, orgulho no seu trajecto. Os erros são dos outros."
"Por muito que se queira, é impossível passar ao lado do que está a acontecer no Sporting. Ao longo da minha vida profissional, habituei-me a ver o Sporting como um grande rival, daqueles que dá gosto defrontar, pela sua qualidade, pela alma, pela força dos seus adeptos que são, na realidade, ferverosos amantes do clube, que não se poupam a esforços para apoiar o clube. Vivi grandes clássicos com o Sporting, perdi umas vezes, ganhei outras, mas foi sempre com um enorme respeito que o defrontei, porque o Sporting merece e mete respeito. Por ser um clube com um passado riquíssimo, com um ecletismo apreciável e único em Portugal, não merecia passar pelo que está a passar. Nem o clube, nem os seus adeptos, ninguém, enfim, da família sportinguista.
O drama que os jogadores viveram em Alcochete foi algo de abominável, de impensável e com consequências terríveis para o clube e, particularmente, para os profissionais que o defendem e que cometeram o 'pecado' de falhar o segundo lugar na I Liga que dava acesso à Champions. A derrota na final da Taça de Portugal já foi uma consequência dessa agressão bárbara em Alcochete, de que agora começamos a conhecer alguns pormenores sórdidos através da carta de rescisão de Rui Patrício. O guarda-redes do Sporting e da Selecção Nacional está agora a ser alvo da violência psicológica de quem ainda manda nos destinos do clube. E um guarda-redes como Rui Patrício não merecia passar por isto. Por toda a dedicação que sempre teve com o clube, pela boa pessoa que é, pela qualidade que tem e que já serviu para muitos êxitos do Sporting, impondo-se pelo seu trabalho desde o dia em que Paulo Bento resolveu apostar nele contra muitas vozes que logo depois tiveram de se calar. Esperemos que este momento terrível que está a passar não tenha influência na missão de defender Portugal no Campeonato do Mundo.
A Rui Patrício outros companheiros se seguirão a apresentar as rescisões de contrato e naturalmente isto preocupa os sportinguistas, os verdadeiros sportinguistas porque há quem ande a fazer muito mal ao clube. E a grande questão que se coloca neste momento é, como é que isto vai acabar, como é que o Sporting vai sair deste momento tão delicado e tão perigoso para o futuro do clube. Às vezes dá a sensação de que a situação caiu num descontrolo absoluto e que as consequências de algumas bizarrias serão terríveis para um clube histórico de Portugal. Pela minha parte, e sinceramente, desejo que o Sporting ultrapasse este mau momento, pelos adeptos, pelos jogadores, pelos técnicos, e particularmente por Jorge Jesus, a quem deixo aqui um forte abraço de coragem. Que o Sporting ganhe esta guerra."
"Corremos o risco de, face à impotência de reformar a Europa, nos tornarmos reféns dos demagogos e charlatães que tudo prometem e nos arrastam para o abismo
O que diríamos ser impossível pode tornar-se real no curto espaço de uma semana, como aquela que passou – e que talvez não seja equiparável a nenhuma outra em tempos recentes. O facto, porém, é que estávamos prevenidos e vacinados e nada deveria já surpreender-nos, incluindo uma sucessão dos mais improváveis golpes de teatro. Ora, esses não faltaram.
Trump declara uma guerra comercial à Europa, Canadá e México quase ao mesmo tempo que confirma o seu encontro com Kim Jong-Un, anulado poucos dias antes; a dupla populista Liga-5 Estrelas acede finalmente ao poder em Itália depois de uma reviravolta suscitada pelas reservas do Presidente Mattarella ao nome de um ministro eurocéptico na pasta da Economia do Governo Conte (o mesmo ministro foi entretanto deslocado para os Assuntos Europeus…); o Governo do PP cai em Madrid após uma moção de censura promovida pelo PSOE e em seu lugar é investido um Governo socialista minoritário (o mais minoritário de sempre da democracia espanhola) com o apoio de uma constelação de partidos com as orientações mais variadas e contraditórias (incluindo os nacionalistas bascos e os independentistas catalães).
Finalmente, a culminar esta semana em que também víramos a chanceler Merkel em Portugal confraternizando muito amistosamente com António Costa, qual é a notícia com que, na sexta-feira à noite, abrem os telejornais da RTP, SIC e TVI? Pois com o último episódio da telenovela do Sporting, ou seja, as primeiras rescisões de contrato de jogadores e um “golpe de Estado” do ainda seu presidente, dissolvendo a Assembleia-geral do clube. Não temos Trump ou Salvini, no campeonato do populismo mais frenético, mas temos, para já, Bruno de Carvalho. É para ele que correm as televisões.
Passámos das “fake news” às “mad news”? Pelo menos, à falta de um charlatão político recorremos a um charlatão futebolístico como figurante mais apetecível no império de charlatães em que o mundo, pelos vistos, ameaça converter-se. De Trump já nada pode vir que nos surpreenda, mas o inquietante é que se trata do presidente da maior potência do mundo e, não por acaso, o seu sósia mais próximo é o congénere norte-coreano – daí o jogo de atracção cultivado por ambos. Ora as referências internacionais mais queridas dos populistas italianos são precisamente Trump e… Putin.
Entretanto, se o caso espanhol é obviamente diverso, não deixa também de ser sintomático das disfuncionalidades democráticas actuais que a sucessão de um Governo minado pela corrupção como era o de Rajoy seja ocupada por uma solução tão frágil e periclitante como é a de Sanchez (para mais, num momento em que a Espanha se vê agitada por convulsões graves como a da Catalunha).
Já se sabe como Trump chegou ao poder – e o mantém, apesar de tudo o que já se sabe e se adivinha – mas o advento dos seus admiradores italianos é a consequência inevitável da onda populista que atravessa a Europa, tendo como álibi a vaga migratória, a burocracia de Bruxelas e o diktat alemão. António Costa teve razão ao dizer perante a sra. Merkel que “quando não respondemos atempadamente aos factores de crise” surgem fenómenos como o populismo, o nacionalismo e o extremismo. Mas a chanceler está demasiado fragilizada no seu país – onde a extrema-direita parlamentar já equipara o nazismo a uma “caganita” da História … – para poder ouvir as vozes da sensatez e assumir a urgência das reformas de que a União Europeia necessita para sobreviver.
A Europa está hoje perante a “quadratura do círculo” como reconhece a própria Merkel, sendo que ela é a protagonista principal dessa quadratura enquanto corremos todos o risco de, face à impotência de reformar a Europa, nos tornarmos reféns dos demagogos e charlatães que tudo prometem e nos arrastam para o abismo. Para nossa pobre consolação, resta-nos Bruno de Carvalho…"
"Não sou o gajo mais patriota do mundo, confesso-vos já. Não sofro daquele amor exacerbado por Portugal que às vezes parece que deixa algumas pessoas tão cegas pelo país que conseguem dizer que a praia de Carcavelos é mais bonita do que as Bahamas, ou que se a padeira de Aljubarrota ainda fosse viva era capaz de acabar sozinha com o conflito israelo-palestiano. Adoro Portugal, não me interpretem mal, mas gosto de manter uma certa largura de horizontes.
Agora, também vos confesso que quando a Selecção joga num Europeu ou num Mundial eu sinto aquilo muito mais intensamente do que racionalmente queria. E é assim que algumas memórias de jogos me ficam guardadas quase com tanta força como a vez em que perdi a virgindade. Mas se calhar isto não é grande exemplo visto que foi tão rápido que me deu menos prazer que o golo do Éder.
Lembro-me bem de quando estávamos a perder 2-0 com a Inglaterra, logo aos 18 minutos de jogo no primeiro desafio do Euro2000. Mas depois Figo. Luís Figo. Não é que o homem me resolve arrancar logo ali de meio campo, vai sozinho, sem GPS nem nada, alça a perna e enfia um bujardão (termo técnico) ao ângulo da baliza do Seaman com tal estrondo que até lhe abanou o bigode. Não satisfeitos – claro, ainda perdíamos -, o Rui Costa pensou “vou fazer aqui uma maravilha de cruzamento ali para o baixote do João Pinto”, ao que este ao ver a bola a vir decidiu ir com a cabeça à altura dos tornozelos dos banais defesas ingleses, naquele mítico “salto à peixinho” e com uma chicotada encefálica mandou a bola para a extremidade da baliza oposta aonde estava. Que sonho de golo. E depois veio Nuno Gomes (não o mais famoso vendedor da Remax, mas sim o nosso avançado que provocava inveja capilar a muitas mulheres) que, com mais uma assistência do Maestro, mandou mais ginja cheia de força para o fundo da baliza inglesa e ganhámos aquilo. Foi épico.
Lembro-me bem desse jogo. Era puto e saí a correr das aulas para ir para casa e estava sozinho a vê-lo, mas foi como se estivesse com os portugueses todos. Foi provavelmente a minha primeira grande memória da Selecção. Depois vieram muitas mais. A mão do Abel Xavier que deixou o país quase tão paralisado como de cada vez que ele mudava de penteado, mas mantinha aquela tonalidade de loiro morto. O João Pinto a transformar-se em Super Guerreiro e a dar um soco no estômago do árbitro – correm rumores que lhe piorou muito o refluxo gástrico desde aí. O Euro 2004. Tudo no Euro2004. Os jogos, as bandeiras, as pessoas. Se o futebol é o ópio do povo, andava tudo tão drogado naquele mês que eu não sei como é que o país não acabou numa overdose gigante. Ah, sei, sei! Fomos ao grego antes que chegássemos a isso. Ou o grego foi a nós, para ser mais preciso.
E muitas mais por aí fora até ao dia de 2016 em que eu fui ao Twitter a meio da tarde e escrevi (juro que é verdade, podem ir confirmar): “E agora ganhávamos à França 1-0 com um golo do Eder?”. O resto é História.
Que este Mundial também seja histórico para nós. Pa’ cima deles, Portugal!"
"Um País sedado com as disputas da bola foi surpreendido com os inacreditáveis acontecimentos do passado dia 15 de Maio quando um grupo de cerca de 50 adeptos (energúmenos) encapuzados invadiu a Academia do Sporting em Alcochete, tendo agredido jogadores e técnicos e provocado terror e destruição. De uma maneira geral, as mais altas individualidades do País, de acordo com a praxe, apressaram-se a manifestar um veemente repúdio para com aqueles actos de vandalismo criminoso, bem como a demonstrar uma comovente solidariedade para com os jogadores e técnicos do clube. Ficou-lhes bem. E, como já é habitual, sempre que acontecem problemas no futebol, terminaram os discursos recordando o êxito que foi o Euro 2004 de futebol e o ofuscante título europeu conquistado em 2016 que, como se sabe, em matéria de propaganda política do regime, foram efemérides com impacto semelhante à acontecida em 11 de Março de 1945 quando Oliveira Salazar, no intervalo de um desafio de futebol Portugal x Espanha, mandou lançar, de uma avioneta, sobre o Estádio Nacional um panfleto intitulado “… o que nós queremos é futebol”. E, como “o que nós queremos é futebol”, o Sr. Primeiro-ministro, certamente inspirado na douta recomendação sugerida pelo presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP) no discurso que proferiu na Conferência sobre Violência no Desporto que aconteceu a 3 de Abril na Assembleia da República, apressou-se a anunciar o remédio para todos os males do desporto português através da constituição de uma Alta Autoridade para o Combate à Violência no Desporto. E, assim, veio à luz do dia mais uma máxima do tempo de Oliveira Salazar que nos diz que quando não se quer ou não se é capaz de resolver um problema cria-se uma comissão que, nestes tempos de pós-modernidade, passou a designar-se por “alta autoridade” que, aos ouvidos do basbaque, soa muito melhor.
O que de mais significativo resulta do vergonhoso caso acontecido na Academia de Alcochete é que a oligarquia político-desportiva nacional percebeu que é necessário que alguma coisa mude para que tudo possa continuar na mesma. Não é assim há dezenas de anos? Nestes termos, para se cumprir a máxima de Lampedusa, um bode expiatório vinha mesmo a calhar a fim de salvaguardar consciências, entreter as massas e penitenciar os pecados do futebol porque, o mundo das finanças que manda nos clubes percebeu que valores mais altos se começaram a levantar. E Bruno de Carvalho que, há muito, já se vinha a pôr a jeito, acabou por ficar ali mesmo à mão de semear. A partir de então, foi um “ver se t’ avias”. E, incrédulos, passámos a assistir a uma procissão de neovirgens que, até aos acontecimentos de Alcochete, nunca tinham visto nada, ouvido nada, denunciado nada, olimpicamente escandalizadas e sem a mínima vergonha a, publicamente, rasgarem as vestes da sua indignação relativamente a um dirigente que, à semelhança do que, tristemente, acontece aos treinadores de futebol, de um dia para o outro, passou de bestial a besta. Todavia, não têm sido poucos aqueles que, insistentemente e de há vários anos a esta parte, têm vindo a alertar para o facto de a Situação Desportiva nacional se encontrar numa perfeita lástima. A título de exemplo recordo só duas crónicas de Vítor Serpa publicadas no jornal que dirige: “A política desportiva do Governo é… bola” (2017-09-13) e “O desporto pelas ruas da amargura” (2017/09/16). Na realidade, não podia ser de outra maneira. Porque, a relação que a generalidade dos políticos, actualmente, tem com o desporto é do tipo infantojuvenil.
Entre as neovirgens que mais me emocionaram destaco aquela que, a 21 de Junho de 1975 (Sábado), como me recordaram Fonseca e Costa, José Carvalho e João Marreiros, à frente de um grupo de energúmenos maoistas, invadiu violentamente a pista de atletismo do Estádio Nacional impedindo o normal prosseguimento do Campeonato de Lisboa de Atletismo. Ao tempo, Moniz Pereira, numa crónica que intitulou de “Sábado Negro…” (cf. A Bola, 1975-06-23) lamentou profundamente aquele acontecimento. No dia seguinte, o campeonato teve de prosseguir na pista sintética do Estádio da Luz. Portanto, o hábito de, violentamente, invadir instalações desportivas já vem dos primórdios do 25 de Abril protagonizado por gente para quem a democracia não tinha, não tem e jamais terá qualquer significado. E os valores do desporto muito menos. Pelo que, hoje, é profundamente ridículo andarem por aí, de lágrimas nos olhos, a botar discurso contra a violência no desporto.
Não sejamos ingénuos. Os dirigentes desportivos não nasceram de geração espontânea. Eles, salvo as devidas excepções, são o produto acabado de um sistema a funcionar em “roda livre” que, numa lógica economicista, sem princípios e sem valores, tomou conta do desporto. Eles estão é preocupados com o “dress code” da cosmética política em prejuízo de quaisquer Políticas Públicas integradas e consistentes que, realmente, promovam o Nível Desportivo do País. Parafraseando Vinícius de Moraes, eles foram levados ao “alto da construção” pelos detentores do poder real e, numa carência profundamente atávica, não resistiram ao usufruto da satisfação de todas as mordomias que lhes eram oferecidas. Mas quando todas aquelas regalias lhes sobem à cabeça e entram em confronto com os deuses do dinheiro vivo que, realmente, mandam no desporto nacional, caem em desgraça e são condenados ao ostracismo porque o espectáculo tem de continuar. Hoje, Bruno de Carvalho, por pecados próprios, sabe bem o que isto significa.
A oligarquia que manda no desporto para além de ser a causa de tudo o que se está a passar é, também, a consequência de uma cultura desportiva em que a generalidade dos portugueses, das mais diversas classes sociais, vive completamente alienada pelo ambiente da clubite esquizofrénica que anima a generalidade dos espectáculos desportivos. A este propósito, José Miguel Júdice escrevia no “Eco.pt” (2018-05-2018): “Um grande político e ainda maior advogado (a quem chamaram “o príncipe da democracia”) não corou de vergonha quando disse em relação a uma situação de alegada corrupção, ‘se o dinheiro é para a Académica, não é crime’”. Ora, se deduzirmos quem foi o “príncipe da democracia” que proferiu tal sentença não nos podemos admirar pelo estado lastimoso a que o desporto chegou em Portugal. Quer se goste quer não, esta é a verdadeira realidade. Trata-se de uma cultura de permissividade e condescendência, espécie de “prisão psíquica” clubística que, profusamente, vemos nas televisões, nos jornais e na net.
Ela foi, há mais de dez anos, bem exemplificada por Leonor Pinhão numa crónica publicada no jornal A Bola (2006-09-15). Contava a jornalista que, nos anos oitenta, viveu uma situação em que o chefe de redacção do jornal (na melhor das intenções e à margem de qualquer interesse pessoal) recusou autorizar uma reportagem sobre um gravíssimo caso de corrupção com o exclusivo propósito de proteger a dignidade e o bom nome do futebol.
Esta cultura que passa por proteger o bom nome da “família do desporto”, tem aberto as portas a muitos “passarões” que, hoje, armados em neovirgens, em alternativa a uma forte educação desportiva e consequente cultura desportiva, desejam colocar o desporto a “ferro e fogo” com mais leis, mais controlo, mais polícias, mais acusações, mais tribunais, mais julgamentos e mais condenações. Trata-se de uma perspectiva fascistoide, da qual muitos dirigentes ainda não se libertaram, que caracterizava a organização do desporto antes do 25 de Abril. Ontem, tal como hoje, suas excelências gostam das alegrias da bola mas não gostam de ser incomodadas. A violência não se combate com mais violência. No desporto, a violência combate-se, fundamentalmente, com mais educação e mais cultura. Por isso, em alternativa ao discurso da coerção judiciária, de acordo com a Carta Olímpica, é a defesa da educação e da cultura no processo de desenvolvimento do desporto que esperamos ouvir nos discursos dos dirigentes desportivos.
O problema do desporto nacional é que as neovirgens que, agora, lançam lancinantes gritos de indignação não são nem melhores nem piores do que a generalidade dos dirigentes desportivos que desejam ostracizar. Elas são, tão só, uma das consequências do estado de hipocrisia política a que o País chegou. Especialistas em “portas giratórias” têm ocupado as mais diversas situações político-administrativas, muitas vezes em regime de acumulação, sem que, verdadeiramente, alguma vez, se tenham interessado por resolver o que quer que seja a não ser questões relativas aos seus próprios interesses. No seu oportunismo, elas são tanto as causas como as consequências do lastimoso estado em que o desporto se encontra.
Por isso, seria extraordinário que a resolução dos problemas de um clube estivesse só na demissão de um dirigente. Se assim fosse, era só correr com ele. Infelizmente, regra geral, os problemas estão tanto nas lideranças vigentes quanto naqueles que as desejam substituir. São problemas sistémicos e endémicos que ultrapassam as próprias organizações já que têm sobretudo a ver com a desorganização e falta de orientação política, do ensino ao alto rendimento, do Sistema Desportivo.
Entretanto, com Bruno ou sem Bruno, como é habitual, o País está prestes a voltar à natural letargia da cultura de rebanho que o caracteriza. Quer dizer, vai entrar em modo selecção nacional pelo que os portugueses já estão a ser objecto de mais uma lavagem ao cérebro através da promoção da selecção nacional de futebol e do Campeonato Mundial da FIFA (2018) que decorrerá na Rússia de 14 de Junho a 15 de Julho.
E, ainda bem porque, de facto, aquilo que os portugueses mais querem é bola. E, como arguiu Vítor Serpa, o Governo dá-lhes."