"Brasil e Portugal despediram-se do Mundial mais cedo do que esperavam. Duas seleções repletas de talento. Mas ambas deixaram uma questão que merece reflexão: até que ponto a estratégia potenciou o talento? Ou terá, em alguns momentos, acabado por o limitar?
Olhemos para Portugal frente à Espanha. Cristiano Ronaldo passou grande parte do jogo fixo entre os centrais espanhóis. Raramente surgiu uma ligação em profundidade ou um passe de rotura que explorasse os espaços nas costas da linha defensiva. Bruno Fernandes, um dos médios mais criativos do futebol europeu, raramente apareceu entre linhas para receber de frente para a baliza, nem atacou zonas de finalização como tantas vezes faz ao serviço do Manchester United.
João Neves realizou um enorme trabalho sem bola, preocupado em condicionar a construção espanhola. Mas esse compromisso defensivo retirou-lhe precisamente aquilo que tantas vezes oferece no PSG: chegada à área, Vitinha voltou a demonstrar qualidade na circulação, mas foi sobretudo um organizador da posse. Um jogador com uma capacidade extraordinária para descobrir passes de rotura acabou, demasiadas vezes, por privilegiar a segurança em vez da criatividade.
Rafael Leão e Pedro Neto permaneceram grande parte do tempo presos aos corredores laterais. João Félix também raramente encontrou liberdade para receber entre linhas e aproximar-se de Ronaldo. O único jogador que procurou romper com esse padrão foi Nuno Mendes. Acelerou, arriscou, conduziu, cruzou e tentou desequilibrar.
Nem a entrada de Francisco Conceição alterou o cenário. A primeira preocupação parecia ser preservar a posse antes de assumir o risco. Os jogadores cumpriram a estratégia com enorme disciplina e profissionalismo. Isso merece elogio. Mas a estratégia nunca pode transformar-se numa prisão.
A função do treinador não é controlar todas as decisões dos seus jogadores. É construir uma organização que permita ao talento aparecer nos momentos decisivos e potenciar as relações espontâneas entre jogadores que resolvem problemas de forma diferente. A estratégia deve orientar a equipa para vencer. Mas vencer não significa controlar tudo. Significa criar um contexto onde o talento possa respirar. Porque, no futebol de seleção, a organização aproxima-nos da vitória. Mas é quase sempre o talento que a conquista. O papel da estratégia não é limitar os melhores. É libertá-los para decidirem jogos que mais ninguém consegue decidir."

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