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sexta-feira, 10 de julho de 2026

O Matuto e o Futebol de Rua


"O Matuto é um Benfiquista desactivado. Nada anima o Matuto a ver um jogo de futebol. Nem mesmo a obsessão histérico-patriótica pelo Mundial (Copa, no Brasil, por favor).

Na Casa das Pontes os dias seguem plácidos, num olímpico desapego das actividades futebolísticas. Os ipês começam a florir. Os tucanos grunhem no alto das árvores. As pombinhas trocam a penugem por penas respeitáveis. As azáleas vão roseando os arbustos. A piscina lembra um quadro de David Hockney — felizmente, sem as nádegas masculinas. E o Óscar, a lagartixa residente das Pontes, continua a carregar baterias ao sol, indiferente às tragédias da bola.
O Matuto acredita na ordem natural das coisas. Sem futebóis. Sem euforias ronaldescas. Sem patriotismos esféricos.
Nelson Rodrigues dizia que toda a unanimidade é burra. O Matuto nunca percebeu por que razão essa regra deixaria de valer durante noventa minutos e um campeonato do mundo.
Talvez por isso o Matuto tenha deixado de ligar ao futebol. O jogo que conheceu tinha terra nos joelhos, pedras nas balizas e regras que mudavam conforme a gritaria do momento. O futebol moderno parece-lhe uma mistura de bolsa de valores, espectáculo televisivo e religião civil, com mais comentadores do que jogadores.
Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que o futebol parecia ao Matuto uma ocupação perfeitamente sensata. É dessa época que vem a pequena história que agora conta, para descanso do coração intoxicado de futebóis do estimado leitor.
Era o Matuto um jovem aventureiro. Corria a década de 70, no século vinte. Da equipa do Matuto faziam parte a fina flor da Aldeia de Paio Pires: o primo Daniel, o Paulinho da Padaria, o Saraiva, o Lino — o Esgrouviado — e o Manecas, suplente de luxo. Do outro lado estava o rival eterno, os Gatos - com fama de raivosos riquinhos meninos da mamã.
O jogo começava sempre com uma animada sessão de pancadaria. Só para aquecer os músculos. Aliás, o aquecimento é uma boa ideia antes dum jogo. A claque (torcedores, no Brasil, por favor) era um rendilhado de cabeças à janela e cotovelos nas varandas. As damas bebericavam Sumol enquanto os cavalheiros bebiam a sua Sagres Mini. O campo de jogo – de terra batida – ficava no fundo dum barranco no meio dos prédios.
O Matuto recorda um jogo suado, a exaustão sob o sol na areia quente e funda, os pontapés acrobáticos, as fintas enganadoras, os golos vitoriosos e a adrenalina a bombar nas veias cálidas. Doce era a companhia dos amigos.
Doce era o Paulinho da Padaria a aparecer ainda a cheirar a pão fresco. Doce era o Lino, que corria como um galgo esfomeado. Doce era a visão das meninas penduradas nas janelas. Doce era fingir que o seu encanto não importava. Doce era a tensão muscular de chutar e a alegria leve de correr. Doce era o gosto da vitória.
O último golo foi a partir dum canto (escanteio, no Brasil, por favor). O primo Daniel tocou curto, o Matuto fez o centro (levantamento, no Brasil, por favor) e o Paulinho da Padaria cabeceou para abanar as redes. Foi épico. Antológico. Lindo. Os Gatos ficaram assanhados. Nunca digeriam bem a derrota. Afectava-lhes o sistema nervoso e alguns princípios básicos da convivência civilizada. Matuto e companheiros fugiram daquele fosso do inferno a sete pés. O Matuto sentiu mais do que viu o sibilar duma faca a enterrar-se na areia. Foi um tal de dar à sola que só visto!
Doce foram esses anos. Como passam os anos. Ultimamente, têm passado tantos anos."

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